quinta-feira, 30 de abril de 2009

Canção do Amor Sereno - Lya Luft

From Paula Moranguinho Pereira (hi5 - 2009.04.30)
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CANÇÃO DO AMOR SERENO

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua , e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.

LYA LUFT
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

A poesia de Matsuô Bashô

Matsuô Bashô

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Bashō
Bashō

Matsuô Bashô, ou simplesmente Bashô [1], é como é chamado o escritor e poeta bonzo-budista Matsuô Munefusa ( Tóquio, 1644Osaka, 12 de Outubro de 1694). Foi ele quem codificou e estabeleceu os cânones do tradicional haicai japonês.

Índice


Biografia



Bashô nasceu próximo ao vilarejo de Ueno, na província de Iga (atual Mie), em uma família de origem samurai. Ainda criança (9 anos) veio a ser pajem de Tôdô Yoshitada, um potentado local, dois anos mais velho que ele, com grande interesse em haikai no renga. Em comum, tinham o amor pela poesia e usufruiram dos ensinamentos dos grandes mestres da época. Em 1662, Bashô publicou seu primeiro poema. Dois anos depois, os dois amigos compuseram um poema encadeado de 100 estrofes, juntamente com outros poetas amadores.


Em 1666, com a morte do jovem amigo, Bashô ficou impedido de continuar em sua casa. Pouco se sabe sobre essa época de sua vida. Seus poemas, entretanto, continuaram a ser publicados. Antes de se mudar para Edo (atual Tóquio), em 1672, Bashô edita uma antologia, Kai Ooi, que ele próprio organizou. Em Edo, Bashô foi admirado pelo seu estilo simples e natural. Professor de poesia, chegou a ter 20 discípulos.


Bashô, após a publicação de Minashiguri, antologia de versos publicada em 1684, realiza a primeira de suas quatro viagens pelo Japão. É dessa época (1685) seu haicai mais célebre, No antigo lago, e também o seu livro mais famoso, Sendas de Oku [2].


Em sua última viagem, Bashô adoece em Osaka, antes de chegar ao local destinado, (Kiushu), e morre no dia 28 de novembro de 1694. Seu último haicai fala de sua jornada poética:


"tabi ni yande
yume wa kareno wo
kakemeguru"
"Doente em viagem
sonho em secos campos
Ir-me enveredar"


Obras

  • Minashiguri (1684) - Antologia de versos
  • Nozarashi Kikô (1685) - Um relato de viagem
  • Sumidawara (1694) - Última antologia de versos do poeta, publicada por seus discípulos.


Bibliografia

  • PIMENTEL, Luís antônio. Gênese do Haicai. In, SAUERBRONN, Vinícius. Poesia, Budismo, Haicai. Niterói: Editora Ferraz, 1998.


Notas

^ – Bashô (松尾芭蕉) - árvore semelhante à bananeira, foi registrado com o nome de Kinkasu. Foi daí que o poeta adotou o seu "haigo" (pseudônimo poético).

^ - Publicado em 1702, o livro baseia-se em uma viagem realizada por Bashô durante a primavera e o outono de 1689, de Edo à região de Oku. A viagem durou 156 dias, percorridos a pé.


Referências

  • "Uma poesia delicada e telegráfica", por André Cunha, professor de japonês do Unilínguas - Instituto de Línguas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, para a revista História Viva - "Japão 1: 500 anos de história, 100 anos de imigração", Editora Duetto, março de 2008.

Link


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A todos e a cada um dos meus amigos - Joaquim Pessoa

06 Novembro, 2006

Arestas de Vento Bom

Ao Ricardo Cardoso,
À Céu Campos, com um imenso obrigado, pela partilha, pela amizade.


A todos e a cada um dos meus amigos

Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.


Joaquim Pessoa
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Dez chamamentos a um amigo - Hilda Hilst

From Paula Moranguinho Pereira

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água

Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

HILDA HILST
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BRAILE - Nuno Júdice

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

NUNO JÚDICE
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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A minha Guerra - Depoimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa

A Minha Guerra
d.r.

26 Abril 2009 - 00h00

A minha guerra

"Explosão matou 12 e feriu 18 camaradas"

Tragédia. Um erro de um alferes, ao fazer as operações de segurança da G3, provocou o maior drama da minha comissão, uma semana após a chegada.

"Andei atrás de Che Guevara em Angola"

Tarefa dolorosa. Eram os mecânicos como eu quem saia dos helicópteros para recolher os cadáveres dos nossos camaradas. Contei mais de 60.

"Morreram catorze homens do grupo"

Vinte e tal militares ficaram feridos Numa explosão. Eu fui projectado 35 metros contra rochedos. A nossa força ficou reduzida a 4 elementos.
Com um grupo de amigos do Batalhão de Engenharia

“Soube de imediato do início da guerra"

Considero-me afortunado em relação a outros ex-combatentes. Fui radiotelegrafista, estive nas unidades e só um camarada foi ferido com gravidade.

"Revoltosos abatidos um a um"

Contrariado, parti e logo no início da viagem montámos um plano, que não deu resultado, para desviar o barco para o Brasil. Um bufo denunciou-nos.

"Uma nativa foi morta por misericórdia"

Passei nove meses numa zona de guerra, onde o medo me assaltou algumas vezes. Mas também tive tempos bons, a cantar e à bateria a animar os camaradas

"Estive na guerra com o meu pai"

A minha família é uma daquelas que foi destroçada pela guerra. O meu pai, como médico, e eu, como enfermeiro, assistimos a episódios de terror nos (...)

"Mataram 30 nativos à catanada"

Passámos por muito sofrimento. É triste recordar, mas tínhamos dias em que não comíamos. Tudo era escasso, até a água faltava. Eu acabei por ser (...)

"Perdi 16 camaradas de uma só vez"

Tentei sobreviver e escapar à fome durante os três anos que estive em Moçambique. Animava os meus camaradas, com partidas, apesar dos momentos mais (...)

"Liderei um encontro com guerrilheiros"

Passei três meses em Santarém e seis em Sacavém. Tirei aqui a especialidade de mecânico auto, na Escola Prática de Serviço de Material. Em Abril, (...)

“Passados 50 anos é como se fosse hoje"

Fiz uma comissão de dois anos como 1.º cabo. As imagens dos mortos fazem parte da minha vida. Um dos meus camaradas morto em combate foi enterrado em (...)
» ÚLTIMAS NOTÍCIAS DESTA SECÇÃO
in Correio da Manhã - Revista Domingo
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Não me peçam razões - José Saramago

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Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
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Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
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Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

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de José Saramago
in "Os Poemas Possíveis"
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Todo o tempo é de poesia - António Gedeão

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TODO O TEMPO É DE POESIA
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Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.
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ANTÓNIO GEDEÃO
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From Paula Moranguinho Pereira (hi5)

Enviado 27/Abr/2009 12:14
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Cidade - Sophia de Mello Breyner

Cidade
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Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
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Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I - Poesia I
Círculo de Leitores

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Enviado por Gioconda do Porto (hi5)
26/Abr 20:58
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domingo, 26 de abril de 2009

As portas que Abril Abriu - Ary dos Santos

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.


Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.


Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.


Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.


Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.


Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.


Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.


Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.


Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação


uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.


Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.


Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.


Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.


Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.


Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite.


Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é força revolucionária!


Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.


Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.


E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.


E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.


Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.


Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.


Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.


Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.


E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.


Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.


E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.


Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.


Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.


Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.


Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.


Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.


E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.


Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.


E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.


A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.


Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.


E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.


Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.


Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.


E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.


Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.


Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.


Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.


Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.


Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.


Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.


Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.


E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.


Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.


E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.


Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.


Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.


Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.


Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.


Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.


Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!


Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.


Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.


Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.


E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.


Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser


pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.


No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!


É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.


Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.


Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.


Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

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ver

O nosso partido - Victor Nogueira

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EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO - Mário Cesariny

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Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

MÁRIO CÉSARINY
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sábado, 25 de abril de 2009

SONETO ESCRITO NA MORTE DE TODOS OS ANTIFASCISTAS ASSASSINADOS PELA PIDE - Ary dos Santos

Terça-feira, 15 de Abril de 2008


SONETO ESCRITO NA MORTE DE TODOS OS ANTIFASCISTAS ASSASSINADOS PELA PIDE


Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais.Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.

de Ary dos Santos

Gravura de José Dias Coelho(assassinado pela PIDE em 19.12.61),retratando o assassinato de Catarina Eufemia
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in Blog Poesia

-->

Soneto do Trabalho - Ary dos Santos


Sábado, 16 de Agosto de 2008

O POETA DA REVOLUÇÃO JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
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SONETO DO TRABALHO
-
Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.
-
Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
á força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas
-
Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.
-
Levanta-te meu povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
-
Este poema que mantem toda a actualidade, foi retirado do livro "Vinte anos de poesia" do poeta comunista José Carlos Ary dos Santos
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in PoesianoPopular

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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Aurora Boreal - António Gedeão


Gioconda diz:
23/Abr/2009 10:15

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Aurora Boreal

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Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.

Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.


António Gedeão

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Enviado por Gioconda do Porto
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O SEU SANTO NOME - Carlos Drummond de Andrade

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi)
23/Abr/2009
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Gente do meu bairro - José Eduardo Águalusa


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Revista Pública - 2000.09.10
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