Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
Carlos Esperança - A imigração vinda do Magrebe
quarta-feira, 19 de junho de 2024
Paula Cardoso - Encontrei um corpo na bagageira do Uber, mas não é dos “nossos”
OPINIÃO
Fundadora da Rede Afrolink
12 junho 2024
Conhecemo-nos entre pausas para café. Ela e ele estavam em dupla, ao serviço de uma empresa de segurança, eu andava por ali a desdobrar-me entre painéis de discussão.
Conversa puxa conversa, fomos
desfiando trivialidades quotidianas e enormidades trabalhistas quando as
deslocações de Uber se tornaram tema.
Sem que nada o fizesse prever,
ele contou-nos a surpresa de uma das últimas viagens: “Encontrei um corpo na
bagageira”.
Adepta ferrenha de séries e
documentários de investigação criminal, pus-me imediatamente a imaginar um
cenário com sangue, intervenção policial, e um vigilante transformado em herói
acidental. Viajei no meu enredo por escassos segundos, porque depressa a
realidade da descrição se impôs.
Embora o meu horror continuasse a
ser totalmente justificado, e não restassem dúvidas sobre a natureza criminosa
daquela realidade, os motivos eram completamente diferentes.
Para começar, o corpo encontrado
estava bem vivo, e isso, garantiu a testemunha, sobressaía da forma como
roncava.
“Acho que enquanto um dormia, o
outro conduzia e, dessa forma, o carro continuava a girar, sem parar”, apontou,
rápido nas associações. “Não me diga que nunca repararam nas fotos dos
motoristas. Comecem a reparar. Vão ver que muitas vezes não batem certo com
quem apanham ao volante!”.
Assumi que tenho andado
distraída, mais focada em matrículas e cores de carros, quando a colega juntou
à conversa mais uma camada de indignidade quotidiana: “Com o preço que se cobra
por um simples quarto, se calhar a bagageira tornou-se a única possibilidade de
abrigo”.
De repente, instalou-se entre nós
um silêncio sepulcral, e algo cúmplice, próprio de quem partilha a consciência
de que qualquer que fosse a hipótese, ela representaria sempre condições de
vida inaceitáveis num Estado que se quer de Direito, e com direitos para todas
as pessoas.
Reconhecer isso implica ser
humano, característica que, sem aparente constrangimento e com evidente
acolhimento, cada vez mais gente revela não ter, evocando um Estado para “os
nossos”, e um Estado para “as outras pessoas”.
Mas, quem são “os nossos”? Quem
são “as outras pessoas”?
As classificações vêm com uma
série de construções desumanizantes, estrategicamente engendradas por
sucessivos poderes para conservar privilégios, legitimar a exploração
trabalhista, e normalizar violações de Direitos Humanos.
É uma pessoa do nosso tempo, e
não de outro, aquela que, em 2024, despreza
Iqbalh Hossain porque decidiu que ele, por ser do Bangladesh, não é dos
"nossos". Ou, escrito de outro modo, é inferior. Portanto, pouco
importa que, para proteger a filha do racismo e xenofobia crescentes em
Portugal, a tenha retirado do país, e sofra com esse afastamento. O que
interessa é saber se “cumpre as regras”.
São igualmente pessoas do nosso
tempo, ainda que corroídas de saudades de eras imperiais e coloniais, aquelas
que, munidas de protecção policial, desfilam ódio racista pelas ruas e gozam do
estatuto de “nacionalistas”.
A quem serve este rótulo? Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV
Cultura do Brasil, Grada Kilomba puxa pelos nossos questionamentos, a partir
dos seus.
“Não podemos esquecer que essa
questão da nacionalidade e da nação é um dos instrumentos mais violentos, hoje
em dia, em que nós excluímos quem é que pode pertencer e quem não, e quem é que
pode atravessar quais nações. Tudo está ligado, e, portanto, não é nenhuma
surpresa que tantas artistas e pensadoras pensem: ‘Eu estou aqui, mas eu
relaciono-me; a minha relação com o mundo vai para além da ideia de nação’”.
Nascida em Portugal, com raízes
em Angola e São Tomé e Príncipe, residência na Alemanha e uma carreira sem
fronteiras, Grada sublinha que “é muito importante perceber quem é incluído
numa nação, e quem é que pode representar uma nação”. No fundo, “quais são os
corpos que podem representar uma nação, e que podem representar o cânone
nacional, e também quais os corpos que atravessam várias diásporas”, como o
seu.
Lembrando os estragos da
Conferência de Berlim, de 1885, a artista multidisciplinar afirma: “Eu não
estou interessada em representar uma nação. Estou interessada em questionar o
que é uma nação (…) o que é interessante é desmembrar e entender de onde vêm
estas construções [de nação e de nacionalidade], que estão intimamente ligadas
com uma história de violência, com uma história colonial. Portanto, não devem
ser repetidas com simplicidade”.
Mas são, e continuarão a sê-lo
enquanto insistirmos em ignorar o corpo na bagageira. Só e apenas por não ser
“o nosso”.
Fundadora do Afrolink
https://www.dn.pt/1678935828/encontrei-um-corpo-na-bagageira-do-uber-mas-nao-e-dos-nossos/
domingo, 12 de maio de 2024
Raul Almeida - A era do ódio
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Pedro Tadeu - Os nossos políticos são cobardes?
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
António Guerreiro - Des-Natal é que é!
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.
22 de Dezembro
de 2023, 10:20
É Natal. É
tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o
“Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu
conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal
modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e
hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de
nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez
ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que
nos convoca coercivamente para uma mobilização total.
Ainda a Itália,
o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de
natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no
divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos
únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea,
impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único
promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas
domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos
homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma
fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos
insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de
onde na verdade nunca saíram.
Agora, já não
se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da
inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”,
pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio
Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões
demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica
contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da
editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis
Italiae”.
Nele se afirma:
“Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria
precisão a data do fim, este é a Itália (...). A perdurar, este declínio
[demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem
leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave
nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso
lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não
exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma
língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua
viva, como Primo
Levi a lia em Auschwitz ao
seu companheiro Pikolo.”
Evidentemente,
os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a
Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o
português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por
enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a
fazer a sua “viagem a Itália”).
A preocupação é
de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política,
mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a
estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico
para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica
de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de
natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou
positiva.
A questão
fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a
população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as
pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o
capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce
endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde
a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa
“dívida” e “culpa”?).
O débito
público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais
modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os
pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos
transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades
individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida,
isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a
garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais
sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver
acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o
colapso.
Livro de
recitações
“Estrangeiros
contribuem sete vezes mais para a Segurança Social do que beneficiam”
In PÚBLICO,
18/12/2023
Usando a
linguagem da economia utilizada no texto acima: à falta de “capital humano” e
mão-de-obra nacional, importa-se o que não temos do estrangeiro. Esta notícia
tem o efeito de contrariar alguns argumentos xenófobos e é potencialmente apta
a que muitos mudem de ideias e a que todos saudemos a vinda de trabalhadores
imigrantes. Mas devemos pensar para além deste factor pragmático: em última
instância, este modo de ver tais trabalhadores é análogo ao modo de ver a
cultura contra a qual Nietzsche se insurgiu. “Se acreditarmos que a cultura tem
uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura.” Se os
imigrantes são vistos exclusivamente à luz da sua contribuição para salvar o
nosso “paradigma económico”, eles ou são “paradigmáticos” ou são considerados
excedentes, supranumerários sem valor.
https://www.publico.pt/2023/12/22/culturaipsilon/cronica/desnatal-2074216
domingo, 3 de novembro de 2019
Carta aos eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes
quinta-feira, 13 de março de 2008
MULHER MIGRANTE SOFRE EXPLORAÇÃO LABORAL E SEXUAL
* Luis Filipe Santos
Denúncias no Encontro Nacional dos Secretariados Diocesanos da Pastoral da Mobilidade Humana, a decorrer no Alentejo.
Nos moldes actuais dos fluxos migratórios, a mulher fica mais exposta "à exploração laboral e sexual" - denunciou à Agência ECCLESIA Teresa Chaves, responsável do Secretariado das migrações da diocese de Beja e participante no Encontro Nacional dos Secretariados Diocesanos da Pastoral da Mobilidade Humana.
Nesta actividade, a decorrer em Vila Nova de Mil Fontes (diocese de Beja), até ao hoje, dia 12 de Julho, Teresa Chaves realça também que "a mulher se encontra numa situação de especial fragilidade quando emigra".
Antigamente, o homem comandava as operações quando se decidia emigrar. Actualmente, a mulher "vai só" ou então "chefia a família". Se por um lado é um sinal de emancipação da mulher, por outro significa que "ela está numa situação mais fragilizada nos seus direitos" - disse. Esse tipo de exploração, "incluindo o tráfico de pessoas, tem vindo a aumentar a nível mundial".
Ao explicar esta nova forma de encarar as migrações, Teresa Chaves salienta que as transformações sociais alteraram-se. "A mulher tem um papel diferente na sociedade". Os modelos tradicionais transformaram-se e a mulher "não fica apenas a cuidar dos filhos". Assume a dianteira para "procurar novas soluções e novos rumos para a família".
Subordinado ao tema «Mulheres em Mobilidade: Fronteiras de Dignidade», neste encontro que começou a 9 de Julho, os participantes realçaram que neste tipo de exploração, as mulheres - maiores ou menores de idade - "são as mais afectadas". E avança: "Este fenómeno dá-se com a emigração e imigração".
Portugal continua a ser um país de emigrantes. "A emigração ainda não acabou. Muitos portugueses, especialmente os da zona fronteiriça, "vão trabalhar para Espanha e depois voltam ao fim de semana".
Ao falar da diocese de Beja, Teresa Chaves frisou que esta "não é dos distritos mais problemáticos". E acrescenta: "não existe a "prostituição de rua, mas existem bordeis". Existe o outro lado, a "exploração sexual em montes - propriedades privadas - onde o acesso é extremamente difícil".
A imigração também chegou a esta diocese alentejana. A maioria são brasileiros porque os "imigrantes de leste são mais sazonais" - disse a responsável do Secretariado das migrações da diocese de Beja. E exemplifica: "Quando se construiu a Barragem do Alqueva tínhamos muitos romenos". A economia de Beja necessita destas pessoas para trabalhar porque "não temos portugueses que queiram trabalhar no campo".
O secretariado das Migrações está integrado na Cáritas de Beja. "Prestamos apoio social - refeitório, atendimento para distribuição de géneros alimentares e de roupa - e trabalhamos de forma muito estreita com o SEF" - realça. E avança: "trabalhamos em rede". Neste encontro nacional estão presentes a maioria dos secretariados.
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agência ecclesia on 12 Julho, 2007 13:20:26
Comentários
Publicado em Ivone Boechat, 03 Outubro, 2007 11:20:18
- Que educação é essa? Analisando com olhos pedagógicos a situação educacional do Brasil dá para chorar e prantear e gritar de dor pelos milhões de jovens que conseguem ultrapassar todo tipo de barreira e entrar nas instituições escolares. Dói, mas dói muito, ver como os estudantes ainda acreditam no poder da Escola e ter pleno conhecimento da imensa decepção que logo, logo os assola! Eles chegam eufóricos, sim, porque mesmo quando é “gratuito”, não sai barato. É caro, muito caro, para entrar. Aí começam as aberrações: todo mundo é burro, todo mundo é malandro, todo mundo é violento... Nós, educadores, sabemos que: todo mundo quer estudar, todo mundo quer aprender, pode-se vencer a violência... E ninguém venha dizer que só os pobres sofrem, porque a Escola é Pública, os professores ganham pouco, os recursos são escassos. Não! O sofrimento é geral! No Brasil, a palavra organizado só é usada para o crime: crime organizado. É muita bala perdida! Há brasileiros perdidos também! Votos perdidos e verbas perdidas... Os métodos de alfabetização no Brasil andam na contra-mão. 24% dos alunos do ensino fundamental das escolas brasileiras são obrigados a repetir de série pelo menos um ano – a maior proporção de toda a América Latina. A Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura informa que a taxa de repetência de primeira a quarta série no Brasil é pior do que a do Camboja (Ásia) e equivalente à de países como Moçambique e Eritréia (África). No Ensino Médio, entre 1998 e 1999, a taxa de repetência estava em 17,2%. Em 2001, a Unesco comparou 107 países, o Brasil tinha a mesma taxa de repetência do Burundi e Congo: 25%. O MEC gasta R$ 7 bilhões por ano com repetência no ensino fundamental. Além de campeões de repetência, ficamos nos últimos lugares do Pisa - Programa Internacional de Avaliação de Alunos. A UNESCO considerou 45 países, cujos índices de repetência são superiores a 10%. O Brasil, com taxa de 21% está entre 15 países, a maioria da África e do Caribe. Camboja, 11%, Haiti, 16%, Ruanda, 19%, Chile, 2%, Argentina, 6%. Brasil, Indonésia e Tunísia, estão entre os que têm os menores níveis de conhecimento em matemática do mundo. A taxa de evasão, que em 1997 estava em 5,2%, aumentou para 8,3% em 2001. Nos cursos noturnos, essa proporção chega a 35%. Os alunos mais ricos do Brasil têm desempenho inferior ao dos ricos da Espanha, EUA, Rússia, França, Portugal, Coréia do Sul e México. Somente 27,6% dos alunos da rede privada que fizeram as provas de matemática e de língua portuguesa tiveram desempenho considerado adequado pelo Ministério da Educação. Somente 3,7% dos alunos das escolas públicas se saíram bem no teste de língua portuguesa e 2,1% no teste de matemática. Pasmem! Segundo o professor Célio da Cunha, assessor para a área da educação da Unesco no Brasil: “O alto índice de fracasso é a falta de condições para o professor. Eles não estão preparados para ensinar alunos com dificuldades socioeconômicas”. O Brasil tem 24,5 milhões de brasileiros portadores de algum tipo de deficiência 176.067 surdos 159.824 cegos 6,59 milhões dificuldades físicas motoras 14,5% da população brasileira apresenta alguma deficiência física, mental ou dificuldade para enxergar, ouvir ou locomover-se. Existe Escola especial para eles? Em meio a tantas coisas perdidas, só não pode existir educadores perdidos! Ivone Boechat PhD
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- in Junta de Freguesia de Agualva
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