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quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Carlos Esperança - A imigração vinda do Magrebe

 
Por Carlos Esperança - agosto 21, 2025

– Escrevi este texto em 17 de agosto de 2014.

«Vêm do lado de lá do lago que une a África e a Europa e separa europeus e africanos. Chegam do corno de África, das savanas improdutivas e sobretudo fugidos das areias que os empurram em busca de água e alimentos, das areias que lhes cobrem as magras pastagens e desertificam o habitat. Uns cruzaram o continente, outros abalaram de mais perto, com a família a ser pasto de corvos depois de esquartejada à catanada a mando de senhores tribais.

Fogem das guerras que os dizimam, das epidemias que os procuram e da fome que vive com eles. São párias da terra, nascidos do instinto e destinados a morrer crianças, numa perpetuação de velhas escravaturas e novas tragédias, onde poucos se tornam adultos e raros se libertam das grilhetas. Morrem porque não deviam ter nascido ali, por fazerem rituais diferentes ou porque há sítios onde não se pode nascer.

Há mães que deixam para trás os filhos que já não aguentam a caminhada, pasto de aves necrófagas, desoladas por não poderem morrer com os que ficam, na ânsia de salvarem os que sobram.

Chegam às praias do Mediterrâneo e entregam os pertences a quem promete que os leva à Europa ou deixa morrer na água, entre naufrágios e esperança, em busca de migalhas do pão que não tiveram. Despedem-se as famílias, sufocados os que soçobram à vista dos que receiam o mesmo destino. Se há lágrimas, misturam-se na água que é mortalha; se há gritos, abafa-os o marulhar das ondas; se há esperança, termina no último balanço da frágil embarcação de onde já saíram os que não tiveram a quem se agarrar.

Alguns chegam, a vida é feita de milagres, famélicos, nos trapos molhados que enrolam corpos lívidos, salvos pela guarda costeira de países ribeirinhos ou chegados com vida a uma praia italiana, a nado, sobreviventes do naufrágio ou rasgados nas rochas da costa.

Outros chegam ocultos nos porões dos barcos de carga, desidratados e em hipotermia, misturados com os que morreram, as fezes de todos e o oxigénio a esgotar-se. Muitos já chegam cadáveres em contentores por abrir de veículos que os condutores abandonaram ou de que os donos se desinteressaram.

Na pungência dos dramas cresce a indiferença e medra a insensibilidade, até ao dia em que serem
os nós a beber a cicuta que nos liberte da prisão da vida, destas vidas de quem nasce no tempo e sítio errados.

E nós, europeus, estamos a fazer de um bom sítio o local falhado do futuro.»

https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/08/a-imigracao-vinda-do-magrebe-escrevi.html

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Paula Cardoso - Encontrei um corpo na bagageira do Uber, mas não é dos “nossos”

 OPINIÃO

 * Paula Cardoso 

Fundadora da Rede Afrolink

12 junho 2024

Conhecemo-nos entre pausas para café. Ela e ele estavam em dupla, ao serviço de uma empresa de segurança, eu andava por ali a desdobrar-me entre painéis de discussão.

Conversa puxa conversa, fomos desfiando trivialidades quotidianas e enormidades trabalhistas quando as deslocações de Uber se tornaram tema.

Sem que nada o fizesse prever, ele contou-nos a surpresa de uma das últimas viagens: “Encontrei um corpo na bagageira”.

Adepta ferrenha de séries e documentários de investigação criminal, pus-me imediatamente a imaginar um cenário com sangue, intervenção policial, e um vigilante transformado em herói acidental. Viajei no meu enredo por escassos segundos, porque depressa a realidade da descrição se impôs.

Embora o meu horror continuasse a ser totalmente justificado, e não restassem dúvidas sobre a natureza criminosa daquela realidade, os motivos eram completamente diferentes.

Para começar, o corpo encontrado estava bem vivo, e isso, garantiu a testemunha, sobressaía da forma como roncava.

“Acho que enquanto um dormia, o outro conduzia e, dessa forma, o carro continuava a girar, sem parar”, apontou, rápido nas associações. “Não me diga que nunca repararam nas fotos dos motoristas. Comecem a reparar. Vão ver que muitas vezes não batem certo com quem apanham ao volante!”.

Assumi que tenho andado distraída, mais focada em matrículas e cores de carros, quando a colega juntou à conversa mais uma camada de indignidade quotidiana: “Com o preço que se cobra por um simples quarto, se calhar a bagageira tornou-se a única possibilidade de abrigo”.

De repente, instalou-se entre nós um silêncio sepulcral, e algo cúmplice, próprio de quem partilha a consciência de que qualquer que fosse a hipótese, ela representaria sempre condições de vida inaceitáveis num Estado que se quer de Direito, e com direitos para todas as pessoas.

Reconhecer isso implica ser humano, característica que, sem aparente constrangimento e com evidente acolhimento, cada vez mais gente revela não ter, evocando um Estado para “os nossos”, e um Estado para “as outras pessoas”.

Mas, quem são “os nossos”? Quem são “as outras pessoas”?

As classificações vêm com uma série de construções desumanizantes, estrategicamente engendradas por sucessivos poderes para conservar privilégios, legitimar a exploração trabalhista, e normalizar violações de Direitos Humanos.

É uma pessoa do nosso tempo, e não de outro, aquela que, em 2024, despreza  Iqbalh Hossain porque decidiu que ele, por ser do Bangladesh, não é dos "nossos". Ou, escrito de outro modo, é inferior. Portanto, pouco importa que, para proteger a filha do racismo e xenofobia crescentes em Portugal, a tenha retirado do país, e sofra com esse afastamento. O que interessa é saber se “cumpre as regras”.

São igualmente pessoas do nosso tempo, ainda que corroídas de saudades de eras imperiais e coloniais, aquelas que, munidas de protecção policial, desfilam ódio racista pelas ruas e gozam do estatuto de “nacionalistas”.

A quem serve este rótulo?  Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura do Brasil, Grada Kilomba puxa pelos nossos questionamentos, a partir dos seus.

“Não podemos esquecer que essa questão da nacionalidade e da nação é um dos instrumentos mais violentos, hoje em dia, em que nós excluímos quem é que pode pertencer e quem não, e quem é que pode atravessar quais nações. Tudo está ligado, e, portanto, não é nenhuma surpresa que tantas artistas e pensadoras pensem: ‘Eu estou aqui, mas eu relaciono-me; a minha relação com o mundo vai para além da ideia de nação’”.

Nascida em Portugal, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, residência na Alemanha e uma carreira sem fronteiras, Grada sublinha que “é muito importante perceber quem é incluído numa nação, e quem é que pode representar uma nação”. No fundo, “quais são os corpos que podem representar uma nação, e que podem representar o cânone nacional, e também quais os corpos que atravessam várias diásporas”, como o seu.

Lembrando os estragos da Conferência de Berlim, de 1885, a artista multidisciplinar afirma: “Eu não estou interessada em representar uma nação. Estou interessada em questionar o que é uma nação (…) o que é interessante é desmembrar e entender de onde vêm estas construções [de nação e de nacionalidade], que estão intimamente ligadas com uma história de violência, com uma história colonial. Portanto, não devem ser repetidas com simplicidade”.

Mas são, e continuarão a sê-lo enquanto insistirmos em ignorar o corpo na bagageira. Só e apenas por não ser “o nosso”.

 

Fundadora do Afrolink

https://www.dn.pt/1678935828/encontrei-um-corpo-na-bagageira-do-uber-mas-nao-e-dos-nossos/ 


domingo, 12 de maio de 2024

Raul Almeida - A era do ódio

Raul Almeida

 O Porto, cidade aberta, livre e liberal, assistiu no passado fim-de-semana a um horrível crime de ódio. A tragédia, porque todos os crimes de ódio são uma tragédia, deixou muita gente surpresa, dando conta da distracção ou ignorância em que vive uma grande parte da nossa sociedade sobre o que realmente se passa no país.

Usar a analogia epidémica é, talvez, a forma mais eficaz de falar sobre a revolução subterrânea em curso. Enquanto à superfície as forças radicais vão forçando as fronteiras do aceitável, persistindo na descredibilização das instituições e relativizando a realidade, no plano subterrâneo vão infectando sem controlo os crentes, os sedentos e os vulneráveis. A par da infinitude de coisas extraordinárias que a Net e as redes sociais nos trouxeram, grassa aí todo o tipo de informação especulativa e manipulativa, sendo a nova arma de destruição maciça com exércitos poderosos e eficazes.

De forma persistente e muito bem organizada, essencialmente através dos grupos de WhatsApp e canais do YouTube, está a ser criado um Portugal alternativo, onde vive cada vez mais gente. O foco, porque o medo do diferente une e galvaniza, é sempre o estrangeiro e a terrível ameaça que representa; depois, vêm as instituições, que urge descredibilizar. Há uma parte de Portugal que acha que não se pode sair à rua na Amadora, em Odivelas ou mesmo em Lisboa. Imagens de festas hindus num país qualquer são veiculadas como manifestações islâmicas supremacistas numa qualquer terra portuguesa, sublinhando o perigo iminente para o “português de bem” e a incompreensão pela passividade geral face à ameaça real da imigração. As reportagens de pseudo-repórteres no Martim Moniz, o aproveitamento e distorção das festas de fim de Ramadão ou outras, a invenção de factos e a revisão da história são o pão nosso de cada dia. Aparentes mães de família bramam em vídeo contra a ONU por legislação que nunca fez, acusam a OMS de promoção da pedofilia e avisam contra os inúmeros perigos de confiar no Estado. Cientistas forjados falam do tenebroso plano de controlar a população através de vacinação. Um destacado deputado do Chega faz um vídeo em que acusa a ocupação muçulmana da Península de ter explorado e abusado das nossas mulheres.

Esta persistência na infusão do medo, na insinuação permanente de que o imigrante é um marginal, de que os imigrantes gozam de impunidade perante a lei e têm mais direitos que os “portugueses de bem”, resulta num ódio crescente por parte daqueles que se deixam envolver pela narrativa. Tal como num passado de muito má memória, começaram com os ciganos, usando-os como teste e via de entrada para a construção da fractura social. De repente, havia gente que não se cruzava com um cigano há anos a discorrer sobre o fardo e ameaça que estes constituem. Seguiram-se os desgraçados do bairro da Jamaica, os muçulmanos das mesquitas de Lisboa e todos os que fazem o longo caminho da esperança desde o Indostão. Ventura chega a afirmar em directo nas televisões que Braga está “irreconhecível e tomada por gente do Indostão”. Em paralelo, estava em marcha a narrativa sobre as glórias do nosso passado colonial, os grandes feitos do Estado Novo e a urgência da restauração de uma certa ideia de Portugal que, de resto, nunca existiu.

As declarações de Ventura sobre o crime hediondo do Porto são um tratado de cinismo e o atestado da profunda má-fé que norteia a sua acção política, validando assim a sua ligação a este movimento subterrâneo aparentemente mais informal. O “sim, mas” é inaceitável. A “compreensão” por eventuais milícias e ajustes de contas é um ataque gravíssimo à democracia e ao Estado de Direito. O plantar da dúvida sobre a origem dos criminosos, que afinal serão portugueses de gema, tem o mesmo propósito. Trump, que Ventura já convidou várias vezes para vir a Portugal, faz exactamente o mesmo com os terroristas do 6 de Janeiro e com todos os criminosos que sirvam os seus intentos.

Esta é realmente a maior ameaça que enfrentamos, não aqueles que nos procuram em busca de uma vida melhor, mas os que vivem da divisão, do ódio e da violência. A imigração pode, e deve, ser regulada com humanismo, bom senso e regras claras, visando em primeiro lugar proteger os interesses de quem nos procura, e o todo, por consequência. O radicalismo é mais difícil de combater numa sociedade livre, exige melhor democracia, mais literacia, mais informação, mais cidadania e melhores protagonistas; não se resolve por decreto.

12 de Maio de 2024

https://www.publico.pt/2024/05/12/opiniao/opiniao/odio-2090074

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pedro Tadeu - Os nossos políticos são cobardes?

OPINIÃO
21 fevereiro 2024

* Pedro Tadeu
Jornalista

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, imitando o que outros ministros europeus fizeram na sequência da morte, tremendamente suspeita, de Alexei Navalny, opositor do presidente russo Vladimir Putin, chamou o embaixador da Rússia ao seu ministério para que fossem prestados esclarecimentos... Muito bem!

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, que se saiba, ainda não chamou ao seu ministério o embaixador de Israel no nosso país para pedir esclarecimentos sobre a morte de 10 mil a 30 mil civis (conforme as fontes) e o valor de quase dois milhões de deslocados, imensas vítimas inocentes provocadas pela retaliação de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro que, por seu lado e perante indignação geral, matou 1200 pessoas... Muito mal!

Note-se que, no caso da Palestina, aos mortos e deslocados acrescenta-se uma situação humanitária catastrófica em Gaza: faltam ali medicamentos, comida, água, combustível e os hospitais estão em colapso, como vemos, todos os dias, nas TV.

A União Europeia (e Portugal por arrasto) está a tornar banal a utilização contraditória do argumento da Defesa dos Direitos Humanos para tornar efetivas as decisões políticas mais desumanas da sua história, contrariando claramente a sua retórica oficial.

Para além das sanções e das denuncias de violações de Direitos Humanos só se fazerem se forem cometidas pelos “inimigos do Ocidente” e se ignorarem ou escamotearem as que são cometidas por “Aliados” - e o caso da brandura inconsequente com que os Governos europeus analisam o que Israel tem feito é o exemplo mais pungente de como a hipocrisia política mata -, a própria União Europeia começa a tornar legal, dentro do seu próprio território, a violação de Direitos Humanos.

Temos agora o exemplo noticiado há dias de um texto que está pronto para ser aprovado em abril pelo Parlamento Europeu e que preconiza uma série de medidas severas para conter a imigração.

Uma dessas medidas chega ao ponto de prever que crianças, de qualquer idade, acompanhadas ou não pelas famílias, e que sejam requerentes de asilo, podem ser presas durante três meses desde que os estados que as recebam as declarem “perigos para a segurança nacional”, numa violação que a muita gente parece clara da Convenção das Nações Unidas para os Direitos das Crianças.

Numa notícia sobre isso que li no jornal Público diz-se que esse Pacto sobre Migração e Asilo prevê ainda a recolha de dados biométricos, como impressões digitais, a partir dos 6 anos de idade, e permite o recurso à “coação” contra crianças que se recusem a deixar recolher os seus dados.

Mais: as crianças podem ser devolvidas livremente ao país de origem desde que ele seja considerado um “país seguro” e nessa lista incluem-se países com problemas de perseguição a minorias ou com situações de violência social frequente, como a Tunísia, Turquia, Albânia ou Índia.

Outro dado inaceitável: os irmãos já não contarão para figurar em processos de reunificação de famílias, só os pais - se estes não estiverem presentes, os irmãos podem ser separados.

Estamos, portanto, a autorizar que um dia possa haver na União Europeia campos de concentração de crianças refugiadas ou requerentes de asilo... o antigo presidente norte-americano Donald Trump deve estar a rir-se do que os europeus disseram dele quando tentou fazer algo similar na fronteira com o México.

É tristemente significativo que nos debates eleitorais das últimas semanas as grandes questões internacionais, apesar de o mundo estar a arriscar-se a um conflito global, tenham ficado quase completamente ausentes das discussões entre líderes partidários - o medo de analisar seriamente o desvario atual é a prova da reduzida estatura política da maioria dos intervenientes.

Por outro lado, o fechar de olhos e a recusa em vetar os cada vez mais frequentes abusos da União Europeia em matéria de Direitos Humanos - com que a mesma UE enche a boca para condenar o resto do mundo - é a demonstração da cobardia prevalecente nos palácios do poder, nossos e da restante Europa “democrática”.

https://www.dn.pt/5001258510/os-nossos-politicos-sao-cobardes/

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

António Guerreiro - Des-Natal é que é!

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA


A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.

António Guerreiro

22 de Dezembro de 2023, 10:20

É Natal. É tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o “Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente para uma mobilização total.

Ainda a Itália, o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea, impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de onde na verdade nunca saíram.

Agora, já não se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”, pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis Italiae”.

Nele se afirma: “Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria precisão a data do fim, este é a Itália (...). A perdurar, este declínio [demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua viva, como Primo Levi a lia em Auschwitz ao seu companheiro Pikolo.”

Evidentemente, os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a fazer a sua “viagem a Itália”).

A preocupação é de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política, mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou positiva.

A questão fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa “dívida” e “culpa”?).

O débito público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida, isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o colapso.

Livro de recitações

“Estrangeiros contribuem sete vezes mais para a Segurança Social do que beneficiam”
In PÚBLICO, 18/12/2023

Usando a linguagem da economia utilizada no texto acima: à falta de “capital humano” e mão-de-obra nacional, importa-se o que não temos do estrangeiro. Esta notícia tem o efeito de contrariar alguns argumentos xenófobos e é potencialmente apta a que muitos mudem de ideias e a que todos saudemos a vinda de trabalhadores imigrantes. Mas devemos pensar para além deste factor pragmático: em última instância, este modo de ver tais trabalhadores é análogo ao modo de ver a cultura contra a qual Nietzsche se insurgiu. “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura.” Se os imigrantes são vistos exclusivamente à luz da sua contribuição para salvar o nosso “paradigma económico”, eles ou são “paradigmáticos” ou são considerados excedentes, supranumerários sem valor.

https://www.publico.pt/2023/12/22/culturaipsilon/cronica/desnatal-2074216


domingo, 3 de novembro de 2019

Carta aos eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes



Sabem o que é ter que explicar por que é que não podemos desembarcar? Procurar palavras certas e descobrir que não há palavras certas para “não são bem-vindos”? “Nenhum país vos quer acolher”? “O mundo nunca vos vai ser casa”?

* Ana Paula Cruz
Médica, humanitária, activista

30 de Outubro de 2019, 17:04

Caros eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes

É com um profundo sentimento de revolta que recebi a notícia das posições que tomaram na passada quinta-feira, em pleno Parlamento Europeu. Tenho lido muitas das vossas argumentações e explorado as propostas apresentadas, mas continuo com as mesmas perguntas. Sou médica e regressei recentemente do Mediterrâneo Central onde me juntei aos esforços da sociedade civil nas missões de resgate e salvamento. Espero que as minhas perguntas vos sejam de resposta tão fácil como a facilidade com que votaram:

Sabem quanto tempo demora um dinghy/bote de borracha a desinsuflar? Uma pessoa a afogar? Um coração a deixar de bater? Sabem quão assustador é assistir à voz a perder-se? O corpo a deixar de lutar? O mar a engolir o que resta? O silêncio a substituir os gritos, a morte a substituir a vida? 

Sabem qual é a sensação de um saco de cadáver demasiado pequeno para uma vida demasiado preciosa? Sabem qual é o cheiro que fica entranhado? O cheiro fétido da perda por negligência irreversível?

Sabem quão escuro pode ser o mar à noite? Quão solitário? Quão doloroso o abandono? Quão doloroso o silêncio do mundo que assiste inerte?

Sabem qual é a sensação de tirar uma pessoa da água? Salvá-la como se estivesse salva para sempre? Sabem qual é a sensação de fazer isso e haver vozes que te tentam convencer que o que fizeste é um crime, errado, punível?

Sabem o que é estar desesperado a tentar retirar da água o maior número de pessoas possível enquanto a milícia (também chamada por alguns de guarda-costeira) líbia aponta armas de fogo na tua direcção? Sabem quem pagou essas armas? Esses barcos? Essa “solução"?

Sabem o que é a dor de receber informação de um barco em distress e não chegar a tempo? Tarde demais? Tarde demais para sempre? Sabem o que é não poder ir buscá-los ao fundo do mar? 

Sabem que feridas doem mais, não só as que já trazem dos países de onde fugiram, mas as feridas dos centros de detenção na Líbia? Serão as violações sexuais? As torturas filmadas para extorquir dinheiro às famílias? A violência física? As cicatrizes por curar? A escravidão por trabalhos forçados? Os pesadelos que não deixam dormir? Os flashbacks de um horror que teima em voltar?

“Hoje o vosso nome assina por baixo de tudo isso. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa hoje menos humana, menos solidária, menos casa. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa obcecada pela militarização e protecção das suas próprias fronteiras, ignorando — numa indiferença cruel — os que morrem à sua porta. É o vosso nome.”

Sabem o que é ter que explicar por que é que não podemos desembarcar? Procurar palavras certas e descobrir que não há palavras certas para “não são bem-vindos"? “Nenhum país vos quer acolher"? “O mundo nunca vos vai ser casa"?

Sabem como é que se relembra a alguém que ainda é pessoa, humana, única e valiosa quando se é tratado como nada? Sabem como é que se contrariam as vozes que insistem que nem todas as vidas merecem ser protegidas ou salvas? Independentemente de quem são ou do que fogem?

Sabem o desespero que leva uma mãe a pôr os filhos num barco sem a certeza de que voltem a pisar solo firme outra vez? Sabem o que morre no coração dessa mãe por ter de correr este risco? 

Sabem o que são 17 mil pessoas mortas, em seis anos, no fundo do mar? Sabem o que são valas comuns, sem enterro, sem luto, sem choro, sem flores?

Hoje o vosso nome assina por baixo de tudo isso. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa hoje menos humana, menos solidária, menos casa. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa obcecada pela militarização e protecção das suas próprias fronteiras, ignorando — numa indiferença cruel — os que morrem à sua porta. É o vosso nome. 

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Mas queria só descansar-vos numa coisa: se algum dia encontrasse as 290 pessoas que votaram contra esta proposta num dinghy a desinsuflar no meio do Mediterrâneo, acreditem que as salvaria, a todas, uma a uma, sem pensar duas vezes, tal é o compromisso com a humanidade. Não com políticas, mas com a humanidade. É isso que continuaremos a fazer e é isso que devem esperar de nós: resistência, desobediência. Sem medo. E quanto à morte desta Europa em que julgávamos viver, queria apenas informar-vos que já fizemos o luto. Agora, começa a luta


quinta-feira, 13 de março de 2008

MULHER MIGRANTE SOFRE EXPLORAÇÃO LABORAL E SEXUAL

http://www.sintravox.com/files.php?file=mmigrante_974746858.jpg

* Luis Filipe Santos

Denúncias no Encontro Nacional dos Secretariados Diocesanos da Pastoral da Mobilidade Humana, a decorrer no Alentejo.

Nos moldes actuais dos fluxos migratórios, a mulher fica mais exposta "à exploração laboral e sexual" - denunciou à Agência ECCLESIA Teresa Chaves, responsável do Secretariado das migrações da diocese de Beja e participante no Encontro Nacional dos Secretariados Diocesanos da Pastoral da Mobilidade Humana.

Nesta actividade, a decorrer em Vila Nova de Mil Fontes (diocese de Beja), até ao hoje, dia 12 de Julho, Teresa Chaves realça também que "a mulher se encontra numa situação de especial fragilidade quando emigra".

Antigamente, o homem comandava as operações quando se decidia emigrar. Actualmente, a mulher "vai só" ou então "chefia a família". Se por um lado é um sinal de emancipação da mulher, por outro significa que "ela está numa situação mais fragilizada nos seus direitos" - disse. Esse tipo de exploração, "incluindo o tráfico de pessoas, tem vindo a aumentar a nível mundial".

Ao explicar esta nova forma de encarar as migrações, Teresa Chaves salienta que as transformações sociais alteraram-se. "A mulher tem um papel diferente na sociedade". Os modelos tradicionais transformaram-se e a mulher "não fica apenas a cuidar dos filhos". Assume a dianteira para "procurar novas soluções e novos rumos para a família".

Subordinado ao tema «Mulheres em Mobilidade: Fronteiras de Dignidade», neste encontro que começou a 9 de Julho, os participantes realçaram que neste tipo de exploração, as mulheres - maiores ou menores de idade - "são as mais afectadas". E avança: "Este fenómeno dá-se com a emigração e imigração".

Portugal continua a ser um país de emigrantes. "A emigração ainda não acabou. Muitos portugueses, especialmente os da zona fronteiriça, "vão trabalhar para Espanha e depois voltam ao fim de semana".

Ao falar da diocese de Beja, Teresa Chaves frisou que esta "não é dos distritos mais problemáticos". E acrescenta: "não existe a "prostituição de rua, mas existem bordeis". Existe o outro lado, a "exploração sexual em montes - propriedades privadas - onde o acesso é extremamente difícil".

A imigração também chegou a esta diocese alentejana. A maioria são brasileiros porque os "imigrantes de leste são mais sazonais" - disse a responsável do Secretariado das migrações da diocese de Beja. E exemplifica: "Quando se construiu a Barragem do Alqueva tínhamos muitos romenos". A economia de Beja necessita destas pessoas para trabalhar porque "não temos portugueses que queiram trabalhar no campo".

O secretariado das Migrações está integrado na Cáritas de Beja. "Prestamos apoio social - refeitório, atendimento para distribuição de géneros alimentares e de roupa - e trabalhamos de forma muito estreita com o SEF" - realça. E avança: "trabalhamos em rede". Neste encontro nacional estão presentes a maioria dos secretariados.

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agência ecclesia on 12 Julho, 2007 13:20:26


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Publicado em Ivone Boechat, 03 Outubro, 2007 11:20:18

  • Que educação é essa? Analisando com olhos pedagógicos a situação educacional do Brasil dá para chorar e prantear e gritar de dor pelos milhões de jovens que conseguem ultrapassar todo tipo de barreira e entrar nas instituições escolares. Dói, mas dói muito, ver como os estudantes ainda acreditam no poder da Escola e ter pleno conhecimento da imensa decepção que logo, logo os assola! Eles chegam eufóricos, sim, porque mesmo quando é “gratuito”, não sai barato. É caro, muito caro, para entrar. Aí começam as aberrações: todo mundo é burro, todo mundo é malandro, todo mundo é violento... Nós, educadores, sabemos que: todo mundo quer estudar, todo mundo quer aprender, pode-se vencer a violência... E ninguém venha dizer que só os pobres sofrem, porque a Escola é Pública, os professores ganham pouco, os recursos são escassos. Não! O sofrimento é geral! No Brasil, a palavra organizado só é usada para o crime: crime organizado. É muita bala perdida! Há brasileiros perdidos também! Votos perdidos e verbas perdidas... Os métodos de alfabetização no Brasil andam na contra-mão. 24% dos alunos do ensino fundamental das escolas brasileiras são obrigados a repetir de série pelo menos um ano – a maior proporção de toda a América Latina. A Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura informa que a taxa de repetência de primeira a quarta série no Brasil é pior do que a do Camboja (Ásia) e equivalente à de países como Moçambique e Eritréia (África). No Ensino Médio, entre 1998 e 1999, a taxa de repetência estava em 17,2%. Em 2001, a Unesco comparou 107 países, o Brasil tinha a mesma taxa de repetência do Burundi e Congo: 25%. O MEC gasta R$ 7 bilhões por ano com repetência no ensino fundamental. Além de campeões de repetência, ficamos nos últimos lugares do Pisa - Programa Internacional de Avaliação de Alunos. A UNESCO considerou 45 países, cujos índices de repetência são superiores a 10%. O Brasil, com taxa de 21% está entre 15 países, a maioria da África e do Caribe. Camboja, 11%, Haiti, 16%, Ruanda, 19%, Chile, 2%, Argentina, 6%. Brasil, Indonésia e Tunísia, estão entre os que têm os menores níveis de conhecimento em matemática do mundo. A taxa de evasão, que em 1997 estava em 5,2%, aumentou para 8,3% em 2001. Nos cursos noturnos, essa proporção chega a 35%. Os alunos mais ricos do Brasil têm desempenho inferior ao dos ricos da Espanha, EUA, Rússia, França, Portugal, Coréia do Sul e México. Somente 27,6% dos alunos da rede privada que fizeram as provas de matemática e de língua portuguesa tiveram desempenho considerado adequado pelo Ministério da Educação. Somente 3,7% dos alunos das escolas públicas se saíram bem no teste de língua portuguesa e 2,1% no teste de matemática. Pasmem! Segundo o professor Célio da Cunha, assessor para a área da educação da Unesco no Brasil: “O alto índice de fracasso é a falta de condições para o professor. Eles não estão preparados para ensinar alunos com dificuldades socioeconômicas”. O Brasil tem 24,5 milhões de brasileiros portadores de algum tipo de deficiência 176.067 surdos 159.824 cegos 6,59 milhões dificuldades físicas motoras 14,5% da população brasileira apresenta alguma deficiência física, mental ou dificuldade para enxergar, ouvir ou locomover-se. Existe Escola especial para eles? Em meio a tantas coisas perdidas, só não pode existir educadores perdidos! Ivone Boechat PhD image
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  • in Junta de Freguesia de Agualva

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