domingo, 30 de setembro de 2007

Poesia no Kant_O XimPi (2)



António Aleixo - Quadras
Brecht - Perguntas dum operário letrado
António Gedeão - Poema da auto-estrada
António Lopes Ribeiro - Procissão
Luís de Camões . VAI FORMOSA E NÃO SEGURA (redondilha)
Francisco Rodrigues Lobo - VAI FORMOSA E NÃO SEGURA (cantiga)
António Cabral, Antologia dos Poemas Durienses - VAI FORMOSA E NÃO SEGURA
António Cabral, Antologia dos Poemas Durienses - Leonor
Luís de Camões - Na fonte está Leonor
António Gedeão - Calçada de Carriche
Geraldo Bessa Victor - O menino negro não entrou na roda
Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo
Popular (Brasil) - Ano Novo
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) - Aniversário
Egito Gonçalves - Notícias do bloqueio
Viriato da Cruz - Namoro
António Jacinto - Monangamba
Luandino Vieira - Canção para Luanda
Aires Almeida dos Santos - A mulemba secou
Chico Buarque - A banda

.
Mosaico - Poesia Polyhymnia secção de mosaico Romano 240 a C

3 Poemas de Angola - Resistência


.
“Prendeste-me
Ai, prendeste-me
Porque gritei viva Angola
Quando um dia voltar
terei na cabeça uma grinalda de mussequenha
Na mão direita rabo de Leão
Na mão esquerda rabo de onça
Nos pés alparcatas de pele de elefante
E andarei pela rua gritando
Liberdade, liberdade, liberdade
E... e...
Com todo fôlego gritarei bem alto:
Viva Angola.”

.

(Xitu - Vanhenga, 1980:3).

____________


Um quatro de fevereiro

A paralítica mesa da cela
não está nua
no centro tem um emblema
e à volta da mesa
três militantes do MPLA
.
Sob a bandeira verduga
e na cela três militantes
rendem homenagem
aos heróis de fevereiro
aos heróis anônimos
dos maquis
das prisões da Pide, do exílio,
homenagem ao cienfuegos,
reverência especial aos jovens mártires...
vitória ao povo angolano
sob a bandeira do MPLA
vitória ao Vietnam secular
à África e América Latina”...


Deolinda Rodrigues (Everdosa, 1979:139)

____________


“Situada numa planície
De Angola encantadora;
Com fértil e interessante superfície;
Benguela é uma terra acolhedora.
Ali, nascemos e crescemos...
O que mais caracteriza Benguela
Eram os jardins que a embelezavam;
O colorido da Acácia-Rubra;
O sal-açucarado da praia morena
A vista do cabo sombreiro...
O vasto e verde vale do rio cavaco!
Berço da história Angolana e de bons costumes
Quem ali nasceu ou viveu;
De Benguela tem sempre uma costela”
.
Carlos Balão (Revista Prualb/Press, 1997:26).
.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Poesia no Kant_O XimPi (1)





Nazim Hikmet - Carta ao filho

Luís de Camões - Endechas a Bárbara Escrava

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - XLVIII - Da Mais Alta Janela da Minha Casa

Brecht - Dificuldade de governar

Brecht - «sou um escritor de peças»

Brecht - «do rio que tudo arrasta

Eugénio de Andrade - O lugar da casa


Ary dos Santos -Estado Velho

Yusuf Al-Saigh - «Quando regresso a casa, cada tarde»

Alda Lara - Presença Africana

Eugénio de Andrade - 3 poemas: SERÃO PALAVRAS SÓ / Lisboa ... / «34./ Passamos pelas coisas sem as ver,»

As Mãos 4 Autores :


Victor Nogueira - «Estão roucas as palavras»

Manuel Alegre - AS MÃOS

Eugénio de Andrade - AS MÃOS

António Reis - «50. Não é nas mãos que desespero»

Eugénio de Andrade - ADEUS

António Reis - HÁ SEMPRE UM RAPAZ TRISTE

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) «o que há em mim é sobretudo cansaço»

.

Estátua - Calíope a musa da poesia épica Estátua de mármore Data século II Musei Vaticani

Eça de Queirós - Vida e Obra


Galeria de Personagens Queirosianas


O Crime do Padre Amaro:


Amaro Amélia Tótó Cónego Dias S. Joaneira


O Primo Basílio:


Luisa Basílio Jorge Juliana Julião Ernestinho Sebastião Leopoldina Acácio


A Tragédia da Rua das Flores:


Genoveva Tio Timóteo Vítor Camilo Serrão Joana Dâmaso Mavião Joaquim Meirinho Mélanie Conde de Molineux Coronel Stephenson Barrão de Markstein


O Mandarim:


Teodoro D. Augusta


A Relíquia


Teodorico Raposo D. Patrocínio das Neves Dr. Margaride
Padre Negrão
Mary Adélia Dr. Topsius


A Ilustre Casa de Ramirez


Gonçalo Ramires Titó Castanheiro Videirinha André Cavaleiro Gracinha Ramires Irmãs Lousadas


As Cidades e as Serras


José Fernandes Jacinto Joaninha


O Conde de Abranhos

Conde de Abranhos Z. Zagalo Desembargador Amado Laura Amado Virgínia Padre Augusto


A Capital


Artur Albuquerquezinho Damião Deputado Carvalhosa Melchior Meirinho Nazareno Sarrotini


Alves e Cª.


Godofredo Alves Ludovina Alves Machado


Os Maias


Afonso da Maia Pedro da Maia Carlos da Maia Maria Eduarda Maria Monforte João da Ega Eusébiozinho Alencar Conde de Gouvarinho Sousa Neto Palma Cavalão Dâmaso Salcede Steinbroken Cohen Craft Condessa de Gouvarinho Cruges Tancredo Sr. Guimarães Rufino

.
in "Galeria de Personagens Queirosianas"
onde pode encontrar também comentários individuais à sua «vasta 0bra»

.



[ CITI ]



________________________



Para saber mais deambular por:



.



Contos / Obras / Literatura / Textos / Principal - A Biblioteca ...-



Fundação Eça de Queiroz



HISTÓRIA - Cultura e Pensamento - Eça de Queiroz



eça de queiroz

100 Anos de Eça de Queiroz

Imagem retirada de Literary Explorer - Lisbon

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

HISTÓRIAS DA GUERRA COLONIAL

MANUEL CARVALHO

ENCONTRO COM O JOÃO DE MELO












NOITE DE SENTINELA






- Cabrões ! - Com um piparote bem medido, Américo espalmou o mosquito contra o
pescoço. - Já não me lixas mais.


Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos
dolorosamente inchados de tanta ferroada. Prestes a desatar aos berros.

Ao redor do aquartelamento, à volta dos postes de iluminação, os mosquitos saíam
da noite em hordas cerradas.

"Maldita terra, malditos mosquitos. Não bastava este calor de morrer."


Pousou a G-3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume.
Múltiplos ruidos, indestrincáveis, de todos os timbres, elevavam-se para além do anel
de luz das lâmpadas da periferia do aquartelamento. Era um bramar soturno, hostil,
prenhe de suspeições.


Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio.
Mas o ressonar dos dois camaradas de posto, mesmo a seus pés, serenou-o.


"Se estivesse sozinho morria de cagaço."


Olhou o relógio de pulso. Os ponteiros fosforescentes indicavam
as três horas da madrugada. Dentro de três quartos de hora despertaria o
Mendes para o render. Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.


Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a imagem ameaçadora do capitão
sobrepôs-se ao desejo. Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada e ir parar ao
Leste, que era bem pior do que o Norte, segundo diziam.


"- Sentinela, éh sentinela !"


Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se.


- Estavas a dormir, logo na primeira noite ?


Pela voz, reconheceu o furriel Neves.


- Aqui no poleiro, não dá o sono a ninguém, meu furriel.


- Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada.
Vamos lá a ver se abres mais os olhos.


Américo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite. Enervado,
tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos.

- Acorda, Mendes, está na hora.


O camarada soergueu-se da enxerga, estremunhado.


- Já ? Não me estás a tramar ?


- Vá, levanta-te. Não acordes o Fernandes.


- Logo agora que estava a sonhar com uma miúda muito boa lá da terra. Tens um cigarro ?


- Olha o capitão.


- O capitão que vá bardamerda. Dá cá o cigarro.


O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois ficou a ponta
vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite.


- Não te deitas ?


- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.


- Saudades ? Deixa lá que qualquer dia já chega o correio.


Falavam em surdina, para não acordar o Fernandes. Os mosquitos tinham
acalmado e para além dos morros começava a assomar o palor da madrugada.


- Sabias que o meu filho fez ontem um ano ? - disse Américo, com tremuras na
voz. - É verdade, fez ontem um ano que ele nasceu em França.

- Tu estavas na França, não é ? Que maluqueira foi essa de voltares
para fazer a tropa ?


- Sei lá ! Comecei a pensar que nunca mais poderia regressar
a Portugal, que o meu filho nunca poderia conhecer os avós. A mulher
também se sentia triste sem a família. Resolvemos regressar. Mas quando
acabar esta merda, volto para a França.


- Dizes bem, esta merda.


Subitamente, um estampido acordou a noite.


- Ouviste ?


- Foi no posto 3.


Soou outro tiro, logo seguido duma rajada.


O aquartelamento encheu-se de sobressalto : luzes, vozes alteradas,
correrias, o latir do Fantasma.


- Será um ataque ? aventou Américo de dedos crispados na G-3.


O Fernandes despertara.


- O que é que a gente vai fazer ?- balbuciou.


A pergunta fê-los sentir como galinhas aprisionadas.


- Terá morrido alguém ?


- E nós aqui sem saber de nada.


- Que porra de situação.


- Calma - aconselhou Mendes. - Não me parece coisa grave.


- Sentinela ! - gritaram lá de baixo.


- Quem está aí ? - perguntaram em coro.


- É o furriel Meneses. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão
morrer. Foi o parvo do Costa que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou
às rajadas como um maricas. Algum javali.


- Que cagaço, meu furriel ! - Américo soltou uma risada nervosa. -
Já pensávamos que os turras tinham atacado.


- Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos.


- Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou o Fernandes. - Ia-me borrando todo.


- O furriel disse que eram os javalis mas podiam muito bem ter sido os turras.


- Nunca se sabe.


- Afinal, quem é que está de sentinela ? Eu ou vocês ? - galhofou o Mendes.


A parada enchia-se de vida com as primeiras pinceladas da manhã.


O segundo pelotão vair sair para a mata - suspirou o Fernandes. - Já é de dia.


- Graças a Deus - benzeu-se o Américo, olhos postos na luminosidade
que acobreava o dorso dos morros.






CHEGADA DO CORREIO



- João Moreira.



— Pronto!



— Carlos Afonso.



— Estou aqui.



Empoleirado numa mesa do refeitório,qual deus louco,
o cabo-cripto Ruivo semeia, às mãos-cheias, a alegria e a tristeza, as lágrimas
e os risos.



— Pedro Antunes.



— Eu...



- José Fernandes.



— Dá cá.



Mãos nervosas como gadanhas. Dedos
hirtos que se engalfinham nas cartas e aerogramas.



O Ruivo era o tipo mais importante da
Companhia. Ou, pelo menos, assim o cria.



Na verdade era ele que estava
incumbido da distribuição do correio que o avião trazia duas vezes por semana
de S.Salvador, juntamente com os frescos.



O avião chegava geralmente por volta
das onze horas da manhã e razava duas ou três vezes o aquartelamento, com as
goelas abertas, a dar tempo que se montasse a segurança à pista.



Enquanto o furriel vagomestre Máximo
procedia à conferência da carne e do peixe, o Ruivo recebia das mãos do piloto
o saco do correio. Aquele saco era um coração gigantesco, palpitante, poderoso.
O principal sustentáculo da Companhia. Mais do que as G-3 e a cerveja, as
metralhadoras e os cigarros, os morteiros e as negras da Sanzala.



— Hoje pesa - dizia invariavelmente
o piloto.



— Deve vir cheio de cornos -
gracejava por sua vez o Ruivo.



Concluida a transacção do correio e
dos frescos, a D.O. começava a deslizar pela pista e dentro em pouco não era
mais do que um mosquito zumbidor rumo a S.Salvador.



O pessoal da segurança saía do capim
e saltava lesto para o unimog que arrancava de prego a fundo para o caldeirão
ao rubro do aquartelamento.



— Américo Pereira.



— Aqui.



- Carlos Marecos.



— Viva!



Restam três cartas. As unhas
cravam-se nas palmas das mãos. Os rostos contorcem-se em esgares doloridos.



O Ruivo passeia um sorriso
displicente por aquele mar de olhos esgrouviados e acaricia o magro monte de
correspondência que resta com



artifícios de amante sabido.



— Despacha-te... pá!



- Calminha..., tens tempo de saber
que o teu filho já chama pai a outro.



- Vai gozar com a tua avó.



O litúrgico deu lugar ao burlesco. Ruivo
procura escamotear o tempo, prolongar o seu reinado.



- Daqui a nada tás a apanhar um
borracho nos óculos.



Atingido o ponto crítico de
ruptura.É perigoso ir mais além.



- José Mendonça.



— Até que enfim.



- Pedro Moreira.



- Uf...!



— Manuel Augusto.



— Mas... não há mais nada...? —
pergunta uma voz incrédula.



- Nada mais. Começa a procurar outra
que essa já te pôs os cornos.



Há rostos lívidos de angústia, sorrisos
rasgados de orelha a orelhas, dorsos quebrados de solidão, olhos refulgentes de
alegria.



“Sou o tipo mais importante da
Companhia” — conclui, mais uma vez, o Ruivo.





NOITE DE
CONSOADA





Pouco passava
das dez horas da noite e na caserna do 1o pelotão já se bebera até chegar como
o dedo. O Fernandes sacou do realejo e largou a tocar modinhas do Minho. Todos
se puseram a dançar, os dorsos nús cheios de reflexos acobreados.



- Puxa pela garganta, Fernandes. Mostra a esta
malta quem são os nortenhos - gritou o Pacaça. Levou uma cerveja à boca e a
maçã-de-adão começou a subir e a descer no pescoço de touro.



- Cinco segundos, hem! Quem é capaz de fazer
este tempo? Alguém tem peneiras? - desafiou ao redor, de olhos envinagrados.



Mas ninguém lhe ligou. Dançava-se e bebia-se
por entre guinchos ululantes. O odor dos corpos suados misturava-se com o
cheiro azedo da cerveja entornada. O Pacaça agarrou outra cerveja e recomeçou a
sua corrida contra o tempo: um.. . dois. . . três... quatro segundos.



Ufano, os olhos negros incendiados, desafiava a
malta.



- Hei-de chegar aos três segundos ainda esta
noite - taramelava, numa dança de ébrio.



O Barão começou a cantar:

«Estou farto deles»



E o pelotão acompanhou-o em coro:



«Da chicalhada,



Esses
pançudos,



Que não fazem nada».



Américo segurou Mendes por um pulso.



- Quero-te mostrar uma coisa - ciciou-lhe ao
ouvido.



Nos olhos já lhe bailavam meia dúzia de Sagres.



- Anda daí.



A malta continuava a cantar:



«Vai prá mata



Ó meu malandro.



Por tua causa



É qu’eu aqui ando».



Mendes, acabou de beber a cerveja e deixou-se
conduzir. Américo tirou a mala de debaixo da cama e abriu-a.


- Olha! Tá lindo, não tá?


Mendes segurou a fotografia. O rosto traquinas do filho do Américo fê-lo engolir em seco.


- Tá lindo, não tá? - insistia a voz cheia de lágrimas do Américo.


«Abre a cantina,



Ó cantineiro,



Anda co’a malta



Caga no Primeiro».



- Quando penso que hoje é noite de consoada! - -
soluçava o Américo.



O Fernandes estava fantástico nessa noite,
quase fazia o realejo falar. Os corpos contorciam-se, alucinados, ululantes. O
Barão saltou para cima duma cama:




- Meus senhores, vamos beber em honra da malta
que está nos postos de sentinela esta noite.



Foi então que uma ideia genial chispou naquele
mar de álcool.



- E se lhes fossemos levar uma pinga? - juntou
uma voz.



Como por magia uma garrafa de bagaço nasceu das
mãos do Pacaça.



- Em frente, marche! - comandou o Barão.



À aproximação daquele mar proceloso, as
sentinelas gritavam, alarmadas:



- Quem vem lá?



- É o pai Natal que te trás um presente -
respondia-lhe o pelotão.



E sem tempo para uma resposta, a garrafa de
bagaço começava a gorgolejar garganta abaixo dos felizes contemplados.






MARIA


O Pacaça esqueceu-se que era um
grande bebedor. Já nem mesmo uma boa partida de lerpa o fazia esquecer a
imensidão exasperante dos dias.



— É um caso perdido - comentava,
descoroçado o Barão. — Eu que tinha tantas esperanças neste rapaz!



O Pacaça sorria, o carão inundado
por um fogaréu que lhe crescia nas entranhas.




Impreterivelmente todas as noites,
antes de se escapulir do quartel para a cubata de Maria, passava pela cozinha
buscar os restos do jantar.



— Lá vem o rapa-tachos - galhofavam
os cozinheiros.



Quando havia faltas, chegava ao
ponto de repartir com a rapariga a sua ração. Estirado no catre, qual ritual,
gostava de vê-la comer, silenciosa, cheia de olhares idólatras.



No final, olhos semi-cerrados, o
rosto crispado de desejo, chamava-a:



— Anda cá.



Naquela noite estranhou-a. Não lhe
achou o ardor habitual. O olhar turvou-se-lhe ciumento.



— O que tens?



— Nada - respondeu Maria, abraçando-o.



O Pacaça repeliu-a com brutalidade.



— O que tens? - repetiu,
sondando-lhe os olhos baixos.



— Tenho um filho na barriga -
anunciou, com simplicidade, Maria.



— Um filho!? - gritou Pacaça,
sentando-se de repelão no catre. — Meu!?



Apanhou as calças e vestiu-as
atabalhoadamente. Sentia o estômago às reviravoltas como quando estava com a
ressaca.



Maria continuava sentada na beira do
catre, esfíngica estátua de ébano.



O Pacaça calçou as botas e pegou na
camisa.



— Um filho!?



Velou noite fora.



“Um filho!?”.



Era algo de insólito que se
incrustara subrepticiamente no seu mundo simples e que, à traição, o socara no
estômago, como um copo de bagaço em jejum.



Ouvia o ressonar dos camaradas. A
lua ocupou, gorda e enfarinhada, o rectângulo da janela, pincelando a oca a caserna.
Depois, tranquilamente, desapareceu.



“Que diabo posso fazer? Levar o
garoto comigo? Abandoná-lo?”



A esta última alternativa. o coração
confrangeu-se-lhe. Na sanzala, em todas as sanzalas por onde passava, as
crianças mulatas constrangiam-no.



— Éh filho duma lata de conserva!



— Éh café com leite!


Nunca deixara de repreender os
camaradas, quando estes troçavam dos garotos.




Certa vez ia jogando à porrada com o
Barão. Não tinha estômago para ouvir aquelas coisas.



“Iria o seu filho ser um dia alvo de
troças idênticas?”



Sentia-se acalorado. Com os pés.
atirou o lençol para o fundo da cama, indiferente aos mosquitos.



“E se ficasse em Angola?”



Arrepiou-se e cobriu-se de novo com
o lençol.



Na sanzala, os galos lá cantavam. Em
breve despontaria a alba.



Passou ao de leve pelo sono. Um sono
prenhe de pesadelos e de reviravoltas na cama. A uma reviravolta maior a
despertina regressou. Contou os meses pelos dedos.



“No fim da comissão já o miúdo teria
um ano. Já lhe chamaria pai.”



A ideia de ficar, qual monstro libidinoso,
enroscou-se-lhe no cérebro.



“E por que não? Já ouvira dizer que
davam terras lá para o sul. Não tinha medo ao trabalho. Afinal, se regressasse,
não teria também que ir cavar o seu pão na Alemanha ou na França? Pelo menos em
Angola compreendia as pessoas, falava-se língua de gente. Por que não? Ficar
com a criança, com Maria”.



O Pacaça sorriu e fechou os olhos,
apaziguado. Não tardou a adormecer. Pela janela já escorria uma claridade
diáfana.









FANTASMA






O Américo pensava no filho, que no próximo
domingo fazia dois anos, quando a explosão o atirou ao ar. Caiu de costas na
cama fofa do capim.



Por um bom lapso de tempo não conseguiu
raciocinar, os ouvidos numa zoada tremenda. Gradualmente, foi recuperando a
lucidez.



«Meu Deus! O que teria sido? Meus Deus, meu
Deus, devo estar ferido. Será grave?»



Vozes alvoroçadas subiam ao redor.



«Meu filho, nunca mais te torno a ver».



Após mais uns minutos de imobilidade,
apercebeu-se que não sentia dores. Ousou mexer um pé, depois o outro, as mãos,
o pescoço, o suor a cegá-lo. Sentou-se.



«Meu Deus, estou vivo».



Pôs-se de pé. A zoada nos ouvidos parou. Finalmente,
compreendeu que não estava ferido.



Na picada sobrepunham-se ordens, gritos,
correrias.



«Foi uma mina, foi uma mina. Onde estará a
minha G-3? Se o capitão me apanha sem a arma dá-me uma descasca.»



Reentrou na picada.



- Há feridos?



Ninguém lhe respondeu. O capitão, na berma da
picada, acocorado sobre o rádio de transmissões, estava a comunicar com a
Companhia, numa voz despropositadamente alta. O Barão fumava um cigarro, com a
G-3 a servir de cajado. O enfermeiro punha um penso na testa do Costa.



- Estou muito ferido? - perguntou este, pálido
como um cadáver.



- Nem deita sangue. Feriste-te numa folha de
capim.



- Qual folha de capim, qual carapuça, isto foi
um estilhaço. Bem senti.



O unimog atingido afocinhara, com os pneus da
frente rebentados. Um cheiro intenso a borracha queimada pairava no ar.



- Vem já aí o 2° pelotão socorrer-nos anunciou
o capitão largando o rádio. - Alferes Mendonça mande já os homens sair da
picada e monte a segurança. Que bandalheira é esta?



Só então o Américo sentiu a falta do Fantasma.



- O Fantasma? Onde tá o Fantasma?



- Cagou-se todo com o medo e cavou por esses
morros acima - troçou o Barão.



Américo emitiu um assobio e esperou. Nada, do
Fantasma nem sombras.



- O
Fantasma tá aqui, Américo. Em cima do unimog.



Américo correu para a viatura danificada. Um grande
novelo, branco e peludo, jazia sob os bancos.



- Fantasma - chamou Américo.



O animal não se moveu.



- Fantasma! - tornou o dono, a voz sumir-se.



Pegou-lhe por uma pata inerte e puxou-o. Estava
morto. Um estilhaço perdido fizera um rombo na caixa da viatura e perfurara-lhe
o peito, ao nível do coração.



Américo continuou a puxar e o corpo tombou na
picada com um baque surdo. Uma roseta de sangue alastrava pelo peito do
cadáver, humedecia a terra esfarelada.



Mendes pousou a mão no ombro do Américo.



- Tem calma. . -



- O que há aí?- interpelou-os o capitão. - Não
ouviram as ordens?



- O Fantasma morreu - disse Mendes.



- Atirem-no para o capim. Antes o cão do que um
homem. Mexam-se.



- Ficaste viúvo, Américo - troçou o Barão.



-
Deixa-o
- disse secamente Mendes.



Surdo a tudo, Américo debruçara-se sobre o
corpo do Fantasma, os lábios lívidos como que agitados numa prece.





ARMADILHAS







A mensagem, captada pelo pessoal
do posto de transmissões, propalou-se rapidamente pelo aquartelamento:



"Caiu uma catrefada de turras
nas armadilhas do trilho Luvo."



As casernas esvaziaram-se e a
parada encheu-se de frenesim. Os cozinheiros largaram os tachos e correram a
engrossar os magotes efervescentes. 0 pessoal da limpeza desenvencilhou-se das
vassouras e embicou direito ao posto de transmissões. Para aumentar a balbúrdia,
o jipe da água com o auto-tanque a reboque irrompeu pela parada a grande
velocidade, quase cilindrando um dos grupos.



- Querem trancar o jipe? - refilou o condutor, envolto numa nuvem de
poeira.



O furriel mecânico Reis
apercebeu-se do incidente e saiu disparado da messe dos sargentos, de rosto
apoplético por quatro ou cinco Sagres.



-
O que há?



- Estes gajos atravessaram-se
diante do jipe - desculpou-se o condutor.



- Quantas vezes já te disse para
andares mais devagar dentro do
aquartelamento? - gritou o furriel
assanhado.



O condutor achou por bem bater em
retirada e o jipe começou a rastejar de rabo entre as pernas para a cozinha.



Só então o furriel Reis se
apercebeu da agitação reinante.



- Passa-se alguma coisa? - perguntou
ao redor.



- Parece que caiu um exército
de turras nas nossas armadilbas - respondeu-lhe o básico Marecos, feliz por
esclarecer um furriel.



O furriel Meneses estava estendido
na cama, embrenhado na leitura duma revista quando se levantou a balbúrdia. Depois
ouviu o derrapar do jipe.



''São os fangios do Reis” pensou,
mas como a agitação persistia pousou a revista e foi abrir a
porta.



- O que há? - perguntou ao Reis
que regressava agitadíssimo à messe.



- Cairam uns gajos nas armadilhas
do Luvo.



- Nossos?!



- Turras, parvo.



Meneses começou a ver tudo à roda.
Parada, homens, casernas, céu, bandeira, num turbilhão alucinante. Encostou-se à
parede para não cair.



-
Sentes-te mal, pá? - assustou-se Reis.



Lentamente,
tudo foi reocupando o seu devido lugar. Ficou só o coração a estraçalhar o
peito.



- Queres um copo de água?



Meneses abanou a cabeça.



- Não,
obrigado. Já estou bem.



- Devias ir medir a tensão, aconselhou o
Reis. Deves andar a precisar duns copos. Anda dai.



-
Vai tu. Já estou bem.



O
Reis ainda duvidava.



- Vê lá se te dói alguma coisa.



Meneses reentrou na camarata. Atirou-se para cima da cama.



“Caídos nas armadilhas que ele e o alferes Vasconcelos tinham
montado.”



Vozes, saídas das próprias entranhas esmagavam-lhe as têmporas.



“Assassino... Assassino...”



Afundou a
cara na almofada, as mãos crispadas nos ferros da cama.



Um rugido
animal subiu-Ihe à garganta e as lágrimas saltaram, por fim, a ferver, rosto
abaixo.










in http://manuelcarvalho.8m.com/index5.HTML

BREVEMENTE, NOVA HISTÓRIA




quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Angola - Evolução do Dinheiro nalgumas imagens



Pano


Sal


Boi


Escravos


Copper Lingot from Zakros Crete.


Cauri (ilha de Luanda)


«brasss»


Benim - português rodeado de 5 manilhas


Soba angolano com manilha no braço




1 Macuta - seculo XIX

1 Macuta - seculo XVIII

Macuta - 1837














.
Para saber mais ver:
.
.
.
3. - Nova pagina (Evolução do dinheiro)
.
4. - Serviços - Museu do Banco de Portugal
.
5. - Ron Wise's Geographical Directory Of World Paper Money
Veja dinheiro do mundo inteiro nesse site, é só você escolher o continente e depois o país e ver a evolução do dinheiro através dos tempos.
.

Angola - História da Moeda - Do Zimbo ao Kwanza

***

Segundo registos históricos, muito antes da época colonial utilizava-se em Angola colares formados por rodelas de conchas de caracóis e outras conchas, furadas no centro e enfiadas em fios de fibras têxteis, como instrumento de troca.
.
Todavia, apesar da variedade de conchas, foi o Zimbo, pequeno búzio cinzento, um dos mais importantes e dos primeiros instrumentos de troca constituindo funcionalmente autêntica moeda local.
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O Zimbo – njimbu ou lumache - , búzio do tamanho de um bago de café, teve curso como “ moeda” em quase toda a costa ocidental africana. Apareciam em toda a costa de Angola, embora os mais belos fossem da ilha de Luanda. Dentre os mais valiosos era de cor cinzenta. Pescavam-nos as mulheres, na contracosta da ilha, por alturas da praia-mar, sendo até frequente algumas serem atacadas por tubarões e tintureiras. Avançavam pela água alguns metros e, mergulhando, enchiam de areia uns cestos estreitos e compridos, a que chamavam “cofos”. Em seguida retiravam os “zimbos” da areia recolhida, que depois separavam, segundo o critério de classificação em “ puro”, “ cascalho”, e “meão”. Com o passar do tempo o Zimbo começou a ser desvalorizado, e, assim, um “cofo”, que no tempo de Mbemba a Nzinga, valia trinta e três cruzados, desce para dez mil réis em 1615. Porém, já em 1616 não valia mais do que três mil réis.
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A queda do valor do Zimbo deu lugar à predominância dos “panos” como moeda mais generalizada. Por outro lado, o sal, o cobre, os panos, os escravos, o marfim eram também outros instrumentos de troca utilizados na altura.
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O Sal
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Provinha de duas fontes distintas: as minas e as salinas. Em Angola, as minas mais importantes foram as de Ndemba, na Quiçama, onde os povos extraíam as pedras, a escopro, e moldavam-nas em barras de dois ou três palmos de comprimento e uma mão travessa de largura. Foram também importantes as salinas de Benguela. O sal de Benguela vendia-se em Luanda à razão de mil réis de panos o alqueire.
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O Cobre
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Um dos metais que mais larga aplicação teve como meio de troca foi o cobre, e o conhecimento da sua existência em Angola vem de tempos muito remotos. Os Luchazes eram hábeis na confecção das manilhas, utilizando o cobre que os Lobares lhes levavam da Lunda para permutar a cera.
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Os registos históricos da época permitem concluir que os povos de Angola sabiam extrair e trabalhar o cobre, fazendo pequenos objectos, quase todos para enfeites, como as manilhas, colares e outros ornatos. Fabricavam também peças e acessórios para as suas armas e até um fio de cobre muito semelhante ao actual. Todos estes objectos serviram de instrumento de troca, mas o mais característico foi, sem dúvida, a “cruzeta”. Esta peça que circulou em Angola e no Congo, tinha a forma da cruz de Santo André, geralmente atribuída por alguns autores à imitação do X romano inscrito nas primeiras moedas portuguesas que apareceram em Angola no século XVII. A origem desta peça monetária à Angola, depois de averiguações feitas, parece conduzir à conclusão de que ela provinha da Lunda, território confinante com o Catanga. No reino do famoso Garangaja da Lunda, que usava o nome de “ Musiri Maria Segunda” dedicava-se uma especial atenção ao negócio do cobre. A sua extracção era feita por processos primitivos baseados na fragmentação. Derretiam o metal em fornos ou panelas, de onde derivavam tubos ou calhas de argila para os moldes, que iam desde a forma grosseira da cruz de Malta até barras longas ou quadrangulares. Desde muito cedo os portugueses interessaram-se pelo cobre angolano, contudo, em 1801 ainda se desconhecia em Angola o local da minas de onde os povos extraiam o cobre. No entanto, os povos que fundiam o cobre guardaram este segredo durante anos, chegando ao ponto de deixar de fundir as cruzetas, dedicando maior interesse ao negócio do marfim.
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Os Panos
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Os “panos” foram outra mercadoria-moeda de larga circulação entre os povos locais. Sucederam praticamente ao “Zimbo”. Consistiam os panos, na acepção da época, em pequenos pedaços de tecido, feitos á base das fibras da palmeira-bordão, e tinham geralmente a dimensão duma mabela. Tinham os “panos” duas origens distintas: o Congo e o Luango, onde os contratadores iam adquiri-los, trazendo-os para Luanda, onde circulavam como mercadoria moeda.Os do Luango chamavam-se “libongos” e dividiam-se em “bongos”, “sangos” e “infulas”, enquanto os do Congo, denominados “panos limpos”, se repartiam, consoante o tamanho, em “cundis” e “meios “cundis”. Corriam ambos em Luanda. Tanto os panos do Congo – panos limpos – como os Luango – libongos – só, passavam a ter curso monetário após haverem sido marcados pelo Senado da Câmara, com a marca real “R”. Com os “panos” comprava-se tudo, cobrava-se os impostos e remunerava-se a tropa.
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Os Escravos
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A sua utilização com funções monetárias encontrou fundamento no generalizado comércio de escravos, praticado, desde épocas muito remotas pelas mais diversas sociedades, que o encaravam como coisa natural e o haviam enraizado nos costumes da época. Os escravos não foram apenas instrumento de trabalho, acabaram também por servir de espécie monetária.

O Marfim
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Sem nunca ter atingido a projecção de outros instrumentos de troca, o marfim teve, no entanto, a sua época como meio de pagamento. O volume e o valor das transacções desta mercadoria cedo despertaram a atenção dos poderes públicos coloniais. Constituindo objecto de contrato privado da Fazenda Real, proibiu-se a sua exploração por entidades privadas. Terá sido em consequência deste contrato privado que o marfim começou a revestir o cunho de meio de pagamento, pois a Fazenda Real aceitava-o em pagamento de impostos e utilizava-o em transacções como se tratasse de dinheiro corrente. Comercializado em abundância no interior, principalmente nos sertões de Benguela, o marfim ocupou, durante largos anos, lugar de relevo no quadro das exportações, chegando a constituir, juntamente com os escravos, a principal fonte de receita do comércio com o exterior.

Valores Pré-Monetários de Proveniência Exterior

O “Cauris”, concha branca de rara beleza, cuja designação tem sido aplicada com frequência por vários autores a outras conchas (nomeadamente ao Zimbo) que tiveram igualmente função monetária, é conhecido desde tempos pré-históricos e constituiu moeda corrente em vários continentes. Pescava-se em Zinzibar e Moçambique, na Ásia, na América e na Oceânia. A sua generalização em Angola e no Congo teve lugar a partir do século XVI e foi consequência das relações comerciais dos mercadores portugueses, que, por via marítima, o importavam do Oriente.

As Contas
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A partir do Séc. XVI começaram a invadir o sertão contas e missangas das mais variadas cores e feitios. Muito apreciadas pelos povos de Angola, acabaram por suplantar as conchas, em especial o “zimbo” e o “cauris”, tanto na sua função ornamental como na de moeda. As contas azuis, pequenas, chegaram mesmo a usurpar o nome ao próprio “Zimbo”. Constituíam um índice de riqueza das mulheres, que se enfeitavam o mais possível com elas, dispondo-as pelos cabelos, nos colares nas tangas, de onde as retiravam quando necessitavam de fazer compras. As mais divulgadas foram a “missangas grossa”, a “miúda” – também chamada “olho de rola”-, a “Maria II” – pequena conta, encarnada na face exterior e branca no interior, com cerca de três milímetros de diâmetro - , a “ Cassungo” – conta de bordado -, a “ almandrilha” – apipada ou riscada, de forma alongada e um centímetro de comprimento - , e outras de menor importância, como a “missanga leite” e a “missanga azul celeste”. Ao contrario das “fazendas”, que eram aceites como moeda em toda a parte, as “missangas” exerciam essa função com carácter mais regional. No Bailundo, por exemplo, circulava a “missanga preta”, que, no entanto, já não tinha “curso legal” no vizinho BiéNa Lunda era muito apreciada a “missanga branca”, grande, o que não acontecia no Sul. Como excepção a esta regra, apenas se aponta a “Maria II”, que circulava praticamente em toda a África Austral.

As Fazendas
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De entre as mercadorias inicialmente introduzidas em Angola algumas pela sua utilidade especial, tiveram intensa procura, por parte das populações locais. Daí resultou que, com o correr do tempo, se passasse a aferir o valor de qualquer outra mercadoria em função dessas autênticas mercadorias – moeda, geralmente denominadas “fazendas”. As fazendas inicialmente mais correntes foram a “garrafa”, o “pano”, o “cortador”, a “peça” e a “espingarda”.

O Surgimento da Macuta
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A cunhagem das moedas de cobre constava de peças de 1 macuta, ½ macuta, ¼ de Macuta e 5 réis, atribuindo-se à Macuta o valor de 50 réis.Quanto à emissão de moedas de prata, constava de peças de 12, 10,8,6,4 e 2 macutas, sendo estas, de uma forma geral, semelhantes às de cobre. Neste período viviam-se tempos particularmente difíceis na colónia, motivados pelo monopólio da moeda.
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Em 1960 a situação económico/financeiro em Angola era de facto deplorável.
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Havia pouco dinheiro, as receitas que entravam nos cofres públicos eram na sua maior parte constituídas por letras e títulos de divida.Com o objectivo de fazer afluir metal sonante aos cofres, decidiram as autoridades coloniais suprimir a aceitação de letras, limitando os pagamentos apenas a dinheiro e aos irrecusáveis títulos de divida.Mas esta medida também não surtiu efeito, extinta a moeda de cobre carimbada, assim como as cédulas de papel, passou toda a moeda circulante da colónia, a macuta ( moeda de cobre angolense), a exprimir-se pelo valor Real, moeda do reino português.
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Até 1864, a actividade económica em Angola repousava essencialmente sobre os mecanismos do tradicional sistema de permutação de géneros. Nesta permutação os meios mais correntes de pagamento eram as fazendas, o Zimbo, as pedras de sal da Kissama (que corriam em toda a parte) e os libongos.
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A quantidade de capital circulante, já por si diminuta, em virtude da ausência de indústria, perdia-se nas mãos de meia dúzia de particulares, geralmente contratadores. Não existiam instituições de crédito, e em virtude disso eram os particulares que, regra geral, prestavam serviços próprios dos bancos, cobrando pelos empréstimos juros ruinosos. Porém, com a ampliação do comércio e a criação de indústrias em Angola a situação modifica-se. De 1910 a 1962 lança o Estado colonial português no mercado a emissão “Vasco da Gama”, o “escudo”, as cédulas do Banco Nacional Ultramarino, as “ritas” e os “chamiços”, os “angolares” e por último, em 1953, o “escudo” como unidade monetária.

Finalmente o Kwanza
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Depois de algum tempo chegou o tempo novo e com ele o Kwanza verdadeiramente a moeda de Angola. Considerando que um dos atributos da soberania de um Estado Independente é a faculdade de emitir moeda; Considerando que, com a Lei n.º69/76, que criou o Banco Nacional de Angola, a República Popular de Angola ficou dotada da instituição que beneficia de exclusivo da emissão monetária; Considerando que já se encontravam satisfeitas as condições de ordem técnica para o lançamento de uma nova moeda; Nestes termos ao abrigo da alínea a) do artigo 38.º, da Lei Constitucional o Conselho da Revolução decretou a Lei da Moeda nacional. À 11 de Novembro de 1976 , em cumprimento do disposto nos artigos 8.º e 30.º da Lei Constitucional, é criada a unidade monetária nacional designada o Kwanza. O Kwanza tinha como fracção o LWEI correspondendo cada Kwanza a cem Lwei. O Kwanza era representado materialmente por notas e moedas metálicas. O Lwei era representado materialmente por moedas metálicas com valor facial de cinquenta LWEI-0.50. 8 de Janeiro de 1977 foi uma data fundamental o Kwanza entra em circulação.
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