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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Nuno Pacheco - Ortografados de medo, ou a porta que Abril não abriu

Se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças nacionais sob uma denominação comum.

Completam-se, no domingo, 47 anos do 25 de Abril. Quase tantos, já, quantos os que durou a ditadura, que na verdade não foram bem 48 mas sim 47 anos, 10 meses e 27 dias, contados entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que os partidários da ditadura celebravam como “revolução nacional”, e o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que mundialmente se tornou célebre como “revolução dos cravos”. Não é mera questão de semântica, nem jogo de palavras: o que esteve em causa foi sempre a liberdade. Reprimida, durante a ditadura; ainda confusa na turbulência da transição; e finalmente consagrada na democracia.

Sinais dos tempos: em 1974, com os tanques na rua, tornou-se célebre uma fotografia onde, ao fundo, se via um grande cartaz de cinema a anunciar O Esquadrão Indomável. Nem de propósito. Em 2021 não há “esquadrão”, mas há Hollywood, com a cerimónia dos Óscares a ser transmitida (quem diria) pela televisão estatal, a RTP. Uma tardia “conquista de Abril”? Nem por sombras. A cerimónia costuma realizar-se em Fevereiro, às vezes em Março, e só devido à pandemia é que foi empurrada para Abril, coincidindo no nosso 25. Já agora, para não ficarem dúvidas, o tal “esquadrão indomável” do cartaz retratado em 1974 também não era um grupo de heróis, mas sim de polícias implacáveis e com métodos nada democráticos. “Quando eles estão em acção é difícil dizer quem são os polícias e os assassinos”, dizia na altura a propaganda do filme, que na versão original se chamava The Seven Ups.

Uma dúzia de anos antes de nos ser devolvida a liberdade, escreveu Alexandre O’Neill (no seu livro Poemas com Endereço, 1962) “Perfilados de medo”, que José Mário Branco viria magistralmente a musicar, gravando-o em 1971 no exílio, em Paris. “Perfilados de medo, agradecemos/ o medo que nos salva da loucura./ Decisão e coragem valem menos/ e a vida sem viver é mais segura.” (Poesias Completas, Ed. Assírio & Alvim, 2000, pág. 191). Pois bem: há casos em que é o medo que nos empurra para a loucura, em vez de nos salvar dela. E um deles, já gasto, cansativo, moribundo, é o da ortografia. Não havia em Portugal uma ortografia oficial até ser fixada em 1911, após o derrube da Monarquia. Foi a I República que nela insistiu, num país onde 76% da população era analfabeta. Mas o “bichinho” das alterações ortográficas não parou: deu mais reviravoltas em 1945 e em 1973, remexendo em acentos e letras, congeminou novas aventuras nos anos 1960, quis revolucionar as regras em 1986, recuou perante as muitas acusações escandalizadas, e finalmente ajustou-as em 1990, para depois, bem mais tarde, vê-las impostas numa coisa chamada “acordo ortográfico” com a inalcançável veleidade de criar uma ortografia comum ao universo da língua portuguesa.

Visto de fora, pode parecer normal. Mas, visto de dentro, o resultado é um pesadelo. Já em 1945, quando Portugal (então uma ditadura ainda com colónias em África) tentou acertar com o Brasil uma ortografia unificada, o gesto pecava por tardio. As divergências entre os dois países no domínio da língua eram já insanáveis. O Brasil concordou em 1945, mas dez anos depois desvinculou-se. As regras ortográficas de 1945 serviam o português de cá, o europeu, mas não serviam o português do Brasil, americano. Tudo quanto se fez depois, além de ser em vão, só serviu para descaracterizar o português de cá e de lá, sem proveito nem préstimo. Enquanto isso, as colónias africanas emanciparam-se após o 25 de Abril, cada qual com a sua bandeira, o seu hino, as suas leis, os seus sistemas e moedas próprias. Por que razão não deviam, também, dar livre curso ao uso feito do português, fixando as respectivas variantes? Por nenhuma razão. Só uma certa loucura lusitana imaginou que, escolhendo a sua própria via em tudo o resto, deviam ficar presos a uma ortografia comum.

E foi assim, parafraseando O’Neill, “ortografados de medo” (com medo que o português, como idioma, se desmembrasse, medo que contaminou certa intelectualidade e serviu de mote a actos políticos condenáveis), que impuseram a loucura da “unificação”. Agora, no dia 5 de Maio, hão-de tecer-se novas loas à língua, como convém. Ignorando que, se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças (as suas variantes nacionais) sob uma denominação comum. Podendo e devendo partilhá-las num dicionário global normativo (que infelizmente não existe), embora distinguindo o que seria aplicável em cada país. É esse o futuro por que vale a pena lutar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

* Nuno Pacheco
Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?
9 de Fevereiro de 2017, 8:00

No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.
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Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?
Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e actoótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.
Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.
E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.
O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.