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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Calafate na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII – XIX

AFRODITE

PÁGINA CRIADA EM 2006 SOBRE AS EDIÇÕES AFRODITE E FERNANDO RIBEIRO DE MELLO

António Maria Eusébio (Calafate) (1820-1911)

Analfabeto. Autor de rimas de sabor popular, alguns dos seus versos não respeitam a medida habitual, a do verso de sete sílabas, sendo provavelmente compensados pela música que os acompanhava – fenómeno corrente em cantigas ao desafio e improvisos semelhantes.

A par de certo gosto pela sátira, forma de maledicência que as camadas populares recebem geralmente com agrado, o Calafate cultiva uma poesia que por vezes tem o dom de sexualizar todos os ingredientes que utiliza. Elementos da fauna e da flora, gestos comezinhos, atitudes do dia-a-dia, etc. – tudo é percorrido pela insinuação erótica, oferecendo os versos uma leitura dupla. Este jogo semântico, forjando a alegoria, torna-se curioso, nos passos mais felizes, pelo carácter sistemático que assume o texto sob o texto.

De realçar que, a par destas características lúdicas, não é menos lúdico o papel da sintaxe. Repetições frequentes, quiasmos, a pressão da rima sãos outros tantos elementos valorativos desta poesia aparentemente simples. Tal facto vem corroborar a tese – que muitos fingem ignorar – de que em todo o poema dito primitivo a função poética da linguagem é o efectivo motor do texto.

A Quinteira da Panasqueira

Mote

Fui apalpar as gamboas
que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O Seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
Meu saber ninguém disputa,
Gosto de apalpar a fruta
Quando está quase madura...
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
Para apalpar coisas boas;
Da Quinta da Panasqueira,
Com licença da Quinteira,
Fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
Dei cambalhotas e saltos,
Depois de palpar pelos altos
Pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
Fruta branca e fruta tinta;
Para que a dona não se sinta
Nunca direi mala da boda,
Apalpei fruta toda

Que a quinteira tem na quinta

Neste tão lindo arvoredo
Não há fruta como a sua,
Foi criada em boa lua
Para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
Que os seus frutos estão seguros,
Ou sejam moles ou duros
Todos a tem em estima,
Na sua quinta de cima
Já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé dum poço,
Que dá fruta sem caroço
Chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
Que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
A menina dê-me um cacho,
Que na sua quinta de baixo
O seu bastardo já pinta.



Resposta da Quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
Que tinha o meu hortelão,
Mostrou-me o nabal que tinha
Meteu-me o nabo na mão.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
Tenho terra para cavar,
Gosto sempre de apalpar
Se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
Não são nenhuns disparates;
Enchi alguns açafates
De tomateiros de cama,
Depois de apalpar a rama
Fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
Nascem por dentro e por fora,
Semeiam-se a toda a hora
Dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
Dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
Dão-me as ramas pelos joelhos
Que tinha o meu Hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
Faz andar a gente louca,
Faz crescer água na boca
E a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos
Tem hortaliça fresquinha;
No vale da carapinha
Tem um tomateiro macho,
Abriu-me as porta de baixo,
Mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
Tinha tomates graúdos
Tinha nabos ramalhudos
Com as cabeças roliças
Tão brilhantes hortaliças
Meteram-me tentação;
Era franco o hortelão,
Deu-me uma couve amarela
Para me dar gosto à panela,
Meteu-me o nabo na mão.

poesia de António Maria Eusébio, o Calafate

*  António Maria Eusébio, o Calafate

Nunca fui mal procedido.
Nunca fiz mal a ninguém.
Se acaso fiz algum bem
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais.

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MOTE

Já fui operário artista
Agora, já pouco valho;
Comprem-me algum papelinho,
Em paga do meu trabalho.

GLOSA

Já gozei a mocidade
Esse bem tão precioso,
Fui homem laborioso
E trabalhei de vontade.
Já servi na sociedade,
Já fui homem moralista,
O meu vulto já fez vista
No seio das classes pobres,
Já fui nobre ao pé dos nobres,
Já fui operário artista.

Já tive as mãos calejadas
Do muito que trabalhei,
Meus braços atormentei
Com ferramentas pesadas.
Tive horas amarguradas,
Joguei, rasguei o baralho,
Hoje apanho algum retalho
Que a ambição deixa cair,
P’ra pouco posso servir,
Agora já pouco valho.

Até ando ameaçado
De fome ainda passar,
Por a um homem estimar,
A quem estou obrigado.
Sou pobre velho e cansado,
Estou no fim do meu caminho;
Porque sou do Zé povinho,
Não devo ser esquecido,
Seja qual for o partido,
Comprem-me algum papelinho.

Nunca fiz ruins papeis
Nem andei pondo cartazes
Nem atirei aos rapazes
Com moedas de dez réis.
Falem, pois, os infiéis,
Chamem-me velho, espantalho;
Como, agora já não valho
De tabaco uma pitada,
Levo alguma bofetada
Em paga do meu trabalho.

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