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domingo, 18 de janeiro de 2026

Raul Luís Cunha - 'Direito Internacional a la carte'

18 de janeiro de 2026
 
* Maj General Raul Luís Cunha

Face ao que está a acontecer com a Gronelândia, como o protagonista não se chama Putin, mas sim Trump, como o país agressor não é a Rússia mas sim os EUA, o discurso altera-se. Substituem-se as certezas pelos silêncios, as condenações por eufemismos, os crimes por “operações”, o direito internacional por “razões de segurança”. Os mesmos acéfalos comentadores que exigiriam tribunais internacionais explicam agora, com voz grave e olhar sabujo e compreensivo, que “a situação é complexa”, que “há antecedentes”, que “não se pode ser ingénuo”.

Esta não é uma ocasional falha de análise. É mesmo uma opção política e moral. Os arautos do chamado Ocidente não reagem em função de princípios, mas sim de alinhamentos e da consequente necessidade de imposturas. O direito internacional não é um corpo normativo universal. É um instrumento seletivo, para ser aplicado com rigor aos inimigos e suspenso quando possa incomodar os vassalos e/ou aliados. As televisões europeias, longe de serem espaços de escrutínio crítico, funcionam como emissores e/ou câmaras de eco dessa hipocrisia estrutural, procurando normalizar o inaceitável sempre que o inaceitável vem do lado "certo".

O escândalo, ignomínia, infâmia, baixeza e opróbrio não está apenas no que é feito, mas sim no que é tolerado, justificado e silenciado. E enquanto este duplo critério persistir, toda a profusa e cínica retórica sobre valores, democracia e ordem internacional não passará de propaganda bem iluminada, ruidosa quando convém e alterada quando mais importa.

https://foicebook.blogspot.com/2026/01/general-raul-luis-cunha-face-ao-que.html#more

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Raul Luis Cunha - Apelo a Greve Geral



*  Raul Luis Cunha

Caros Amigos,

Este texto é apresentado por força de estar anunciada uma próxima greve geral dos trabalhadores portugueses, a qual já está a ser criticada e mimoseada com os piores epítetos pelos saudosistas do anterior regime, malandragem e carpideiras do costume. Assim e porque a minha condição de militar reformado não me permite aderir, aqui manifesto deste modo a minha solidariedade com os grevistas porque creio que todos nós desejamos um Portugal melhor, porque também não queremos ter vergonha do nosso País e porque estou convicto que não queremos que nos afundem na barbárie e no fascismo.

Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para não comprometer o futuro de Portugal, porque o presente e o passado recente não podem ser mudados com novas leis iníquas, por mais que haja alguns para quem isso não esteja bem claro. E, embora os Militares de Abril antifascistas tenham escrito os capítulos mais importantes desse passado recente, temos agora de nos recusar a ficar reféns daqueles para quem a saudade do Estado Novo nunca acaba. Hoje, cinquenta e um anos após o 25 de Abril estamos quase a ficar reféns dos que verdadeiramente odeiam a nossa Pátria e que aproveitam as crises sociais, para semear o ódio e pregar mentiras e falácias – arruaceiros e vendidos que estão a exercer esse mister criminoso.

Temos presente todos aqueles que ainda defendem a nossa Pátria das falsidades com as sua ações – operários, comerciantes, agricultores, artistas, comentadores, intelectuais, escritores, cientistas, militares e jornalistas, que os neofascistas querem mandar para o exílio e/ou transformá-los em marginais no seu próprio País; fazemos parte da cultura viva deste país, somos a herança do século XXI. E ninguém tem o direito de nos dizer que não temos a razão e a justiça do nosso lado.

Nenhum de nós escolheu os seus antepassados, mas escolhemos quem fomos, somos e seremos. Os filhos e netos não são culpados nem obrigados a continuar as ações dos seus antepassados, mas todos somos extremamente responsáveis pelas nossas ações de hoje. Assim, é de assinalar e louvar todas as mães e pais que ensinaram os seus filhos a não dividir e odiar as pessoas com base na origem, religião, etnia, cor da pele ou orientação sexual. Quem assim fez concedeu aos seus filhos o melhor dos sentimentos – o respeito pelo próximo. Pelo menos, esses descendentes não vão aterrorizar, intimidar e agredir os seus pares só porque são diferentes deles.

Saudamos a todos os cidadãos deste país que não são culpados nem podem ser condicionados nos seus destinos e que sentem o que significa ser membro de uma qualquer minoria nacional; os cidadãos portugueses de raça negra ou ciganos que alguns desejam proibir de respirar. Este país tem tanto orgulho de Eusébio e Quaresma, como de vários outros atletas, artistas e cientistas portugueses de outras raças. Vós sois nossos amigos, vizinhos, colegas e parentes e nós não desistimos de vocês! Vós sois Portugal!

Alguns portugueses, de mau carácter, reclamam que as minorias nacionais e os migrantes ainda mais pobres não querem trabalhar e só vivem das ajudas do estado, mas a realidade é que a maioria deles fica com os empregos que aqueles rejeitam por serem menos dignos e que, graças a eles, as nossas ruas e casas são limpas, a comida e géneros nos são trazidos, nos transportam onde pedimos, etc. e assim contribuem para o nosso bem-estar e para o orçamento nacional.

Não são as minorias nacionais nem os migrantes que nos tornam pobres, mas sim os maus e venais políticos neoliberais e neofascistas e os criminosos empresários ao serviço dos grandes grupos económicos, numa busca incessante de prebendas, regalias e riquezas imerecidas. Veja-se a miserável lei que gerou a revolta de quase todos os trabalhadores e levou a esta greve geral. A nossa sociedade deveria responsabilizar esses políticos pois eles é que são os verdadeiros culpados pelas condições em que estamos a viver agora e que eles querem agravar. Deveriam ser penalizados fortemente em próximas eleições, já que em termos criminais conseguem ficar isentos, devido às muitas deficiências de um sistema judicial lento e tolhido pela prática malévola de alguns dos seus agentes. 

Nós apenas queremos viver em paz e liberdade em vez de conflitos, insegurança e agitação permanentes na sociedade: e a segurança no trabalho, o conforto, a paz e a liberdade não devem ser um privilégio para alguns escolhidos.

Não ficaremos calados enquanto houver desigualdades e injustiças a serem cometidas no nosso país pelos corruptos e criminosos neoliberais e neofascistas. Não ficaremos em silêncio enquanto houver a possibilidade de falar e escrever, e se não houver, iremos inventá-la. Não serão necessárias grandes frases e tiradas brilhantes para esse efeito, apenas uma pena afiada, honestidade e nada temer!

Para terminar, deixo-vos com o conhecido poema de Bertold Brecht, que nos adverte sobre o que acontece a quem fica em silêncio:

Primeiro levaram os negros.
mas não me importei com isso. Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários.
mas não me importei com isso. Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis.
mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados.
mas como tenho o meu emprego, também não me importei.
Agora estão a levar-me.
mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

2025 12 03


2025 12 03https://www.facebook.com/rauliscunha/posts 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Raul Luis Cunha - Como obter e tratar a informação sobre a guerra na Ucrânia?

* Raul Luis Cunha

13 de dezembro de 2023  · 

Penso que a resposta é multidimensional. Não existe uma solução mágica para a questão de estar preparado para resistir contra a propaganda. Eu vejo isso em termos de dados bons e maus, tentando a remoção do aspecto “emocional” e sentimental. Podem-se desenvolver fontes de dados confiáveis ao fim de um longo período de tempo, sabendo quais são aquelas em que se pode confiar com base numa repetida confirmação do seu produto. Eu sigo as fontes para as quais desenvolvi uma boa aceitação ao longo do tempo, através de uma espécie de processo mental que as avalia quanto à sua credibilidade e baseado em quão escrupulosas foram durante um largo período na limpeza da sua informação.

É claro que o próximo aspecto é executar grandes quantidades de referências cruzadas. Em especial se for um tipo de afirmação importante, nunca podemos acreditar apenas na palavra de uma só fonte e devemos cruzar referências das alegações, tanto quanto possível, o que inclui tanto as do lado russo como as do lado ucraniano.

O próximo aspecto é psicológico. Eu sinto que há que entender a psicologia de cada nível das pessoas envolvidas, para avaliar adequadamente as informações que delas vêm. Um exemplo disto é que há muitos relatos vindos da linha da frente pelos próprios soldados que têm de ser filtrados com uma certa compreensão de que os soldados relatam as coisas de uma maneira particular, por vezes colorindo-as com eufemismos ou com um chauvinismo sobrecarregado que poderá adulterar um pouco o relato. Entretanto, quadros superiores, como alguns oficiais de imprensa, também têm dimensões psicológicas que precisam de ser compreendidas, como sejam, as pressões políticas para relatar os factos de uma determinada maneira, o minimizar de certas realidades “desconfortáveis”, etc.

Em suma, é necessária uma verdadeira experiência de longo prazo para desenvolver um instinto para todas essas coisas, instinto esse que começa a trabalhar de forma autónoma, levantando sinais de alerta e objecções sempre que necessário.

É claro que, no final de contas, nada supera uma quantidade brutal de dados para processar. Esta é a única área onde a maioria dos analistas falha, simplesmente devido ao seu compreensível tratamento desta área como se tratasse de um “part-time hobby”, pelo que acabam por não ter tempo para percorrer as enormes quantidades de dados com origem em todas as fontes concebíveis e, assim, obter uma boa noção do que está sustentado por várias verificações cruzadas e do que é mais frágil. Eu próprio pesquiso muitos mais destes “dados brutos” do que a generalidade dos analistas, e sinto que isso me dá uma imagem muito mais precisa do que realmente está a acontecer nas frentes de combate. E isso inclui seguir muitas fontes russas e muitas ucranianas e pró-ocidentais e observar constantemente as coisas a partir das suas perspectivas.

É óbvio que as fontes de alto nível, como personalidades, figuras políticas e propagandistas famosos, são na sua maioria inúteis, mas existem muitas fontes internas de contas reais das linhas da frente russas e ucranianas que relatam os factos de uma forma bastante pura e não adulterada ajudando a criar um quadro completo. Algumas delas são conversas internas entre as próprias tropas russas ou ucranianas e os seus camaradas, onde falam muito francamente, sem quaisquer das habituais “colorações” agressivas para consumo das massas.

Por último, quando tudo o resto falha, tenho as minhas próprias fontes pessoais, que muitas vezes também me podem dar perspectivas únicas.

Mas, como conselho geral para outros analistas, o mais importante é seguir as fontes de ambos os lados e não se resignar apenas a uma bolha de informação ou a uma câmara de eco. É preciso muita experiência para desenvolver o conhecimento e o instinto para separar fontes boas e confiáveis das más, não importa de que lado estejam. Além disso, seguir fontes de pelo menos três níveis diferentes da hierarquia, ou seja, militares no terreno, com relatos directos em primeira mão. Depois, relatos de nível médio e de segunda mão de correspondentes de guerra credíveis e outros que tais. Finalmente, cruzar tudo isso com os relatos das fontes “oficiais” de mais alto nível.

Nota: Este texto foi coligido da transcrição de parte de um dos artigos integrando um conjunto recebido via internet e depois adaptado para ficar conforme os meus procedimentos.

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