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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Boaventura de Sousa Santos - O Kampf de André Ventura

Boaventura de Sousa Santos

As primeiras intervenções dos principais candidatos às eleições para a Presidência da República portuguesa em Janeiro de 2026 têm levado muita gente (muita dela, angustiadamente) a pensar que André Ventura (AV), o candidato da extrema-direita, tem possibilidades de ganhar as eleições. Para alguns, a razão principal está na mediocridade dos outros candidatos. No caso do Almirante Gouveia e Melo, o grande operacional da luta contra o COVID-19, ocorre lembrar-lhe que o país não é uma pandemia nem a política é uma questão de logística. Já tivemos um presidente Almirante (no tempo da ditadura) e já foi demasiado. Marques Mendes é uma cópia de Marcelo Rebelo de Sousa, o actual presidente. É sabido que o original é sempre melhor que a cópia. Se o cinzento falasse e lhe perguntassem a identificação, ele responderia sem hesitação: António José Seguro, apoiado pelo partido socialista. Perante isto fica a sobrar o único candidato que não quer ser Presidente, porque, como a sua aspiração é mandar e conduzir, só o cargo de Primeiro-Ministro lhe serve. Pode então correr o risco de ser eleito contra a vontade.

A primeira vez que me chamaram a atenção para AV resultou de uma observação de uma jornalista perplexa com o facto de AV citar várias vezes o meu trabalho na sua tese de doutoramento. O intrigante era o facto de ele começar a ser conhecido como a figura principal da extrema-direita enquanto eu era conhecido como um intelectual de esquerda. Haveria alguma contradição ou algum conluio? Li a tese e conclui rapidamente que era uma tese competente e que as citações estavam certas e eram pertinentes. A tese era animada por um impulso securitário, mas dentro das normas académicas. Portanto, nada a comentar. Não havia nem contradição nem conluio.

Hoje, AV é o líder da oposição, uma oposição de extrema-direita a um governo de direita. Estou convencido de que a democracia portuguesa dificilmente sobreviverá à Presidência da República de AV. Tentarei explicar porquê. As razões têm a ver com a estratégia de AV e com as condições por que as sociedades europeias vão viver nos próximos anos.

AV em acção

Não há nenhuma originalidade nem nas ideias nem na estratégia de AV. Vêmo-la hoje a ser seguida por muitos outros líderes de extrema-direita. Todos eles são cópia de um líder que também foi cópia de outros líderes do seu tempo, mas que as circunstâncias da Europa das primeiras décadas do século XX permitiram que passasse de cópia a original. Refiro-me a Adolf Hitler. Apesar de serem muitas as diferenças entre o original e as diferentes cópias, penso ser adequado estabelecer a original como termo de comparação para o que observamos hoje. Uma diferença óbvia: enquanto AV foi um aluno brilhante e é altamente credenciado, Hitler nunca concluiu nenhuma formação académica, foi rejeitado duas vezes nas escolas de arte de Viena, nunca quis ter emprego fixo e, apesar de em Viena se autodesignar como pintor, ficava possesso quando lhe perguntavam se era pintor de paredes.

Se analisarmos a conduta deste austríaco que só em 1932 se naturalizou alemão, um ano antes de se candidatar à presidência da República da Alemanha, verificamos que ele catalogou um receituário que continua hoje a ser seguido por todos os aspirantes à destruição da democracia, usando para isso todos os instrumentos que a democracia lhes proporciona. Vejamos alguns componentes desse catálogo. As citações de Hitler são dos seus muitos discursos e também de Mein Kampf [A Minha Luta], escrito em 1924 nos nove meses que Hitler esteve preso depois do fracassado golpe (Putsch) de Munique em Novembro de 1923.

Sobre a natureza humana. Desde os tempos de fome e de dormida nos abrigos municipais, Hitler aprendeu algo que viria a repetir nos seus discursos: “Tudo o que o homem conseguiu deveu-se à sua originalidade e brutalidade.” Astúcia, habilidade para mentir, distorcer, enganar, eliminar qualquer sentimentalidade ou lealdade em favor da crueldade eram os ingredientes básicos da afirmação fundamental: a vontade. A desigualdade entre os seres humanos e entre as raças é uma lei da natureza. AV não proclama o eugenismo racista, mas estabelece o portuguesismo como um privilégio a que só alguns têm acesso, sugerindo que mesmo alguns desses só são portugueses, não por pertencerem a “nós”, mas pela corrupção ou complacência de funcionários que deleteriamente destroem a “alma portuguesa”. O nacionalismo excludente serve para naturalizar a exclusão social e o colonialismo interno nos nossos dias, por exemplo nos campos da agro-indústria.

A construção de um só inimigo. É necessário eleger um inimigo apenas e centrar nele toda a crítica. Segundo Hitler, a arte da liderança consiste “em consolidar a atenção do povo contra um só adversário e tudo fazer para que nada distraia essa atenção. O líder de génio é aquele que tem a capacidade de fazer com que os seus diferentes adversários pareçam um só, pertençam todos a uma só categoria”. Para Hitler, o inimigo é o Marxismo (a social-democracia, o comunismo) e os judeus. Não são dois inimigos, são um só. Num discurso em 27 de Fevereiro de 1926, Hitler afirmou “Se necessário, um só inimigo significa vários inimigos”. Esse inimigo é responsável por todos os males da sociedade. A rendição (traição) da Alemanha em 1918 e todo o desastre socioeconómico e político que se lhe seguiu na República de Weimar foi obra do mesmo inimigo. Esse inimigo conspira contra a sociedade, não apenas pelo que faz, mas também pelo que é. É uma raça inferior. Os judeus não são seres humanos; são a incarnação do mal. Por isso, não há nacionalismo sem racismo.  Hoje, como sabemos, o inimigo de eleição é a esquerda e os imigrantes. Parecem dois inimigos, mas são um só.

O principal inimigo é o inimigo interno. A Alemanha tinha perdido a Primeira Guerra Mundial porque não se tinha sabido sobrepor aos seus inimigos. Para Hitler, a Alemanha não perdeu a guerra, o exército, a que pertenceu como sargento, manteve a sua integridade. A Alemanha foi atraiçoada pelos inimigos internos que provocaram a sua rendição. No discurso de Fevereiro de 1926, Hitler invoca o passado glorioso do império e das colónias alemãs para concluir que os males que sobrevieram foram devidos aos revoltosos internos. “Esses não eram cidadãos; eram escumalha, uma escumalha de traidores”. Nos anos que se seguiram ao fim de guerra, a militância política do operariado comunista era intensa e exprimia com violência o mal-estar do país. Era reprimido com maior violência ainda, tanto por forças de direita, como pelos socialistas. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados em 1919 com a cumplicidade do governo socialista. Falou-se então da fracassada revolução alemã (1918-1923). Foi nesse contexto, que Hitler soube substituir o ódio de classe pelo apelo à cidadania racista.

 Hoje, para a extrema-direita portuguesa, o 25 de Abril foi uma capitulação evitável e o que se seguiu foi um desastre provocado por “gente” como Otelo Saraiva de Carvalho, Álvaro Cunhal ou Mário Soares que, entre outras coisas, escancararam as portas do país à invasão de estrangeiros que vieram pôr em perigo a integridade do país.

A solidariedade negativa. A unidade e o consenso que se promovem visam destruir o status quo – o sistema. Não há que perder tempo em elaborar soluções alternativas porque estas emergirão espontaneamente, uma vez destruído o inimigo. A união é para destruir, nunca para construir, porque só a necessidade da destruição é “óbvia”. A construção exige compromissos que devem ser mantidos na obscuridade, na ambiguidade e na conveniência do momento para conquistar o poder. Para Hitler, o importante não era o programa, mas a imagem. Em 1920, o programa do partido agradou a toda a gente, excepto aos judeus, aos capitalistas e aos que tinham ganho fortunas com a guerra. O objectivo central era mobilizar a insatisfação popular com o status quo. O importante era declarar a sociedade doente, não entrar em detalhes sobre o que seria uma sociedade saudável.

A unidade negativa deve ser tão forte quão importante é o que há a destruir.  Para isso é necessário construir o passado recente como um desastre e dramatizar sem nuances a sua dimensão, de modo a que a gravidade da situação seja considerada irremediável dentro do sistema político presente. A Alemanha não perdeu a guerra; os traidores fizeram com que ela se rendesse e se humilhasse como nação com o Tratado de Versalhes e as condições que lhe foram impostas. Compare-se hoje com o “desastre do 25 de Abril” e “toda a bandalheira de esquerda que se seguiu” (André Ventura).

A democracia é apenas um meio para atingir outros fins. Desde os tempos de Viena, Hitler cultivou um desprezo total pela democracia, pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pelo parlamento etc. Dedicou quinze páginas de Mein Kampf para demonstrar que “a maioria representa apenas a ignorância e a cobardia… a maioria nunca pode substituir o homem”. Trata-se do homem forte que conduz as massas, elimina a corrupção e devolve a auto-estima ao país.

Temos ouvido a multiplicação retórica do homem forte como a necessidade urgente do país. Precisaríamos de “três Salazares”, um político que, aliás, nunca teve interesse em entusiasmar as massas e as conduzir. Não qualquer homem forte, mas aquele capaz de “pôr a casa em ordem”. E para que ninguém se ofenda com a referência ao passado ditatorial, mencionam-se outros homens fortes recentes que a esquerda portuguesa “normalizou”: Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal. Porque o importante é a repetição do preconceito, não interessa saber que Otelo contribuiu decisivamente para o derrube da ditadura salazarista, que cometeu erros e que pagou caro por isso, enquanto Cunhal passou onze anos na prisão (oito dos quais em isolamento) pela sua luta contra a ditadura.

Hitler usou os meios legais e democráticos enquanto estes lhe ofereceram melhores oportunidades para vencer os seus inimigos. Aliás, a legalidade é uma arma ideal quando se usa para desarmar os democratas: os processos legais são lentos e com isso dão mais tempo ao tempo rápido da conquista do poder. O uso instrumental da legalidade significa, por outro lado, que ela deve ser descartada na medida em que atrapalhar.

Segundo uma sua militante, há uma “balbúrdia jurídica em que vive o Chega”, o partido de AV. Deve entender-se que essa “balbúrdia” é intencional porque o sistema judicial que a avaliar levará o tempo processual necessário até eventualmente deixar de ter efeito útil.

Controle absoluto sobre o partido. A ascensão política de Hitler foi um processo longo e tortuoso, desde a entrada no Partido dos Operários Alemães de Anton Drexler até chegar ao líder incontestado do Partido Nacional Socialista (o partido nazi). A sua notável persistência foi o seu maior segredo ante o desprezo ou a indiferença de muitos. Habituou-se a testar os seus argumentos em infindáveis reuniões nas cervejarias de Munique. A sua política começou por ser a política da rua. Mas desde cedo se convenceu de que o líder não deve tolerar divergências internas porque elas dão armas a um inimigo já de si muito poderoso. Depois do fracassado Putsch de Munique em 1923 e da prisão de Hitler, o Partido Nacional Socialista ficou reduzido a muito pouco. No norte da Alemanha e na Renânia, o partido era dominado pelos irmãos Strasser e, na concepção destes, as duas bandeiras principais do partido eram o anticapitalismo e o nacionalismo, e eram igualmente prioritárias. As tensões com Hitler eram evidentes, uma vez que Hitler pretendia uma aliança com o capitalismo. Nessa altura (1925-26), os Strassers tinham contratado um jovem que ainda não tinha 30 anos para as tarefas de propaganda. Chamava-se Paul Josef Goebbels. A tensão com Hitler era tão grande que o jovem Goebbels chegou a pedir a expulsão do partido do “pequeno burguês”. Hitler manobrou o partido, em parte recorrendo aos seus indiscutíveis dotes de orador. Pouco tempo depois, Goebbels passou-se para o lado de Hitler depois de o ouvir num discurso inflamado durante duas horas. Alguns anos depois os irmãos Strasser foram expulsos do partido. Em 1926, Hitler instituiu a Uschla (Comité para a investigação e resolução) que pôs ao seu serviço para manter o controle total sobre o partido. O outro lado do controle total do partido é o carácter excepcional do líder. Hitler cultivou a sua excentricidade, o exagero e a surpresa do seu comportamento. O poder à parte só pode vir de um ser à parte.

A trajectória de AV e o modo como tem gerido as divergências dentro do partido mostram como ele se julga (e efectivamente está) muito acima da média dos seus correligionários. A sua excentricidade e os seus excessos de linguagem são calculados ao milímetro.

Não há verdade nem mentira. Há a repetição do que nos convém até que seja verdade. Uma das maiores aprendizagens de Hitler foi aprender a mentir com convicção. Exerceu-a durante toda a vida. No final, foi-lhe fatal. Levou-o ao suicídio. Para Hitler, o exercício da força física, apesar de fundamental, nunca é suficiente se não for acompanhado pela força espiritual. Escreveu ele: “A força que combate um poder espiritual permanece como força defensiva se os que a detêm não são também os apóstolos de uma nova doutrina espiritual”. Quando se mente deve dizer-se grandes mentiras. Escreveu: “uma mentira grosseiramente impudica deixa sempre rastro mesmo depois de ser denunciada”. O colapso de uma nação só pode ser evitado por uma “tempestade de brilhante paixão, mas só os apaixonados são capazes de despertar a paixão dos outros”.

Quem já ouviu AV certamente sentiu isso.

De bem com as massas e com o dinheiro. Hitler sempre cultivou um desprezo enorme pelas “massas”. As “massas” tinham sido a sua companhia em Viena e a falta do que Hitler julgava ter (cultura) tornava-as repugnantes a seus olhos. Escreveu em Mein Kampf : “Não sei o que mais me repugnou naquele tempo: a miséria económica dos meus companheiros, a rudeza da sua moral e dos seus costumes ou o baixo nível da sua cultura intelectual”. Odiava toda a ideologia do operariado: desprezo pela nação e pela pátria, pelo direito, pela religião e pela moral. Segundo ele, o pobre operariado tinha sido envenenado pela doutrinação dos socialistas que exploravam para seu benefício as difíceis condições em que os operários eram forçados a viver.

Hitler escreveu: “Ser um líder significa ser capaz de mover as massas”. Mas também anotou: “Aprendi que as massas só são atraídas por quem é forte e intransigente…Não sabem como fazer uma escolha liberal e tendem a sentir que foram abandonados… Também cheguei à conclusão de que a intimidação física é importante tanto para as massas como para os indivíduos …O poder das massas para compreender é fraco. Por outro lado, elas esquecem rapidamente. Sendo assim, a propaganda eficaz deve limitar-se a necessidades básicas e exprimir-se em poucas fórmulas estereotipadas”.

Se as massas significavam votos, o dinheiro era fundamental para alimentar a propaganda e manter a organização. Por isso, Hitler quis sempre ser todas as coisas para todos aqueles que via como instrumentos para atingir o poder. Por isso, arreou a bandeira do anticapitalismo e enviou Goering para Berlim a fim de estreitar os laços com o grande capital. Em 1929, Hitler já era saudado pelo grande capital e pela grande indústria que via nas suas qualidades de agitador o futuro que mais convinha ao capital numa situação de crise, uma política antidemocrática e anticlasse operária.

Certamente serão os portugueses mais vulneráveis ou mais ressentidos com as ameaças de descer de classe que encherão as urnas de votos no Chega, mas não serão eles que pagarão os custos de uma organização que exibe tamanha abundância de propaganda, tanto no mundo tradicional da publicidade, como no mundo novo das redes sociais.

Se as condições do povo melhoram, nega-se esse facto ou declara-se que é precário e vai durar pouco tempo. O projecto de Hitler beneficiou de condições iniciais muito especiais. Quando, em 1923, um país humilhado pelas condições da rendição que lhe tinham sido impostas se declarou impossibilitado de continuar a pagar as indemnizações de guerra, a França ocupou a rica região do Ruhr, o coração energético e industrial da Alemanha. Para além da humilhação, degradou-se ainda mais a situação económica. A desvalorização do marco aumentou, e, com ela, aprofundou-se a crise económica, o desemprego e o desespero de milhões de trabalhadores e suas famílias. Hitler aproveitou astutamente todos os elementos desta crise, juntando-os num só diagnóstico contra um só inimigo. Em 1923, 30% dos membros do partido estavam desempregados. A sua leitura manteve-se inflexível: “Enquanto a nação não se livrar dos assassinos dentro das suas fronteiras, nenhum êxito externo será possível”. O ódio de Hitler, em vez de se dirigir aos franceses, dirigia-se ao bando corrupto que governava o regime. Este foi o contexto que levou ao golpe de Munique. No tribunal, Hitler assumiu toda a responsabilidade, mas acrescentou: “não sou por essa razão um criminoso. Se hoje estou aqui como revolucionário é porque sou um revolucionário contra a Revolução. Não existe alta traição contra os traidores de 1918”. E os traidores são sempre os mesmos: socialistas, comunistas e judeus.

A partir de 1925, as condições da Alemanha começaram a melhorar e a Alemanha foi admitida na Liga das Nações (1926) (da qual saiu dez anos mais tarde por decisão de Hitler). As profecias do apocalipse e do desastre iminente deixaram de ser eficazes. A partir de então, Hitler passou a insistir no carácter precário e passageiro das melhorias. Por puro instinto de propaganda, esta era a melhor maneira de persistir na sua caminhada para o poder. A Grande Depressão de 1929 viria a dar-lhe razão.

As circunstâncias epocais

Os líderes de extrema-direita criam muita realidade artificial, mas fazem-no, em geral, a partir de fragmentos da realidade real. Há circunstâncias que favorecem o salto autoritário e há condições que, pelo contrário, o impedem. A partir de 1924, a Alemanha começou a recuperar e, como vimos, Hitler sentiu que era necessário assumir posições mais centristas. Talvez tudo ficasse por aí se, entretanto, não ocorresse a Grande Depressão de 1929. O desemprego massivo, a proliferação das greves, em suma, a profunda crise social que se seguiu foram o grande impulso para a clarificação e ressurgimento do partido. Ao mesmo tempo que as milícias do partido (as SA, Sturmabteilung) faziam agitação social, Hitler declarava-se contra as greves para não perder o apoio dos grandes capitalistas que já então assegurara. Quando em 1930, Strasser, líder da ala radical do partido, lhe perguntava (pouco antes de ser expulso do partido) se, no caso de conquistar o poder, nacionalizaria o grande grupo capitalista Krupp, Hitler respondeu-lhe: “Claro que o deixaria em paz. Julgas que eu seria louco ao ponto de destruir a economia do país?”. Pouco depois, Goebbels escrevia, “não somos contra o capitalismo, somos contra o seu abuso…Para nós a propriedade é sagrada”. Em Setembro de 1930, o partido Nazi, para espanto do mundo, tinha um êxito eleitoral estrondoso. Depois, foi o tapete vermelho que conhecemos. Primeiro, o vermelho da glória; depois, o vermelho do sangue inocente de milhões.

A democracia portuguesa não corre neste momento nenhum perigo existencial, mas os tempos que se avizinham não auguram nada de bom para o mundo, para a Europa e, portanto, para Portugal.  O crescimento global da extrema-direita é um sintoma (não a causa) do que está para acontecer. Não vou aqui discutir a questão mais geral da incompatibilidade entre o capitalismo (assente na acumulação capitalista infinita) e a democracia (assente no princípio da soberania popular). Limito-me a afirmar que o neoliberalismo (a versão globalmente dominante do capitalismo desde a década de 1980) tem vindo a destruir tudo o que na democracia significava bem-estar e segurança humana (viver sem medo e sem carências básicas) para as grandes maiorias (digamos, sem excesso de rigor, para as classes populares). Essa destruição está a atingir limites que se expressam na passagem do Estado de bem-estar para o Estado de mal-estar. É dessa passagem que a extrema-direita se alimenta.

As respostas dos governos do arco da governação (direita, centro e centro-esquerda) não se têm oposto a esta destruição e procuram responder ao mal-estar com medidas repressivas, em vez de medidas que garantam a reposição do bem-estar. Como mostrei, a repressão e a solidariedade negativa são o DNA da extrema-direita e por isso não admira que ela cresça menos pelo seu mérito do que pelo demérito das forças que se lhe deviam opor. Esta últimas “esqueceram-se” que sem tributação progressiva não há o bem-estar social relativo no capitalismo. Esqueceram-se de que no imediato pós-guerra os rendimentos mais altos chegaram a ser tributados em mais de 80% e nem por isso ficaram pobres ou deixaram de continuar a prosperar. Esqueceram-se de que sem políticas públicas sociais de qualidade (educação, saúde e pensões e transportes) não é possível garantir o bem-estar das populações, e que essa garantia em caso algum pode ser dada pelo sector privado, cujo objectivo legítimo é acumular riqueza, não distribuí-la.

A democracia tem vindo a ser desfigurada e substituída por um novo tipo de regime, o autoritarismo eleitoral vigente em países tão diferentes como a Índia, a Rússia, os EUA, a Turquia, El Salvador e a Hungria. A extrema-direita prefere o autoritarismo eleitoral à ditadura por um simples cálculo político: é aparentemente mais legítimo, sobretudo num mundo ainda bem lembrado das ditaduras. Mas para se manter este regime tem de desviar a atenção das verdadeiras causas do mal-estar (um capitalismo em grande medida auto-regulado, sobretudo no sector financeiro), transformando consequências em causas. A imigração é hoje o caso paradigmático desta transformação. Mas, como dizia Hitler, o uso da repressão nunca é eficaz se não for animado por um desígnio espiritual, seja ele Make America Great Again (MAGA) ou o orgulho de ser português e cristão. A corrupção é o outro caso de transformação de consequências em causas. A corrupção é endémica ao neoliberalismo porque este assenta na promiscuidade entre o mercado dos valores políticos (que não se compram nem se vendem) e o mercado dos valores económicos (os valores que têm preço e que se compram e se vendem). Viola assim o princípio central da teoria da democracia liberal desde John Locke que propunha a separação total entre os dois mercados de valores. A corrupção é, assim, tão endémica ao neoliberalismo quanto a luta contra ela.

O importante é que se ocultem as verdadeiras causas do mal-estar da população: sejam elas o aumento do custo de vida, a estagnação dos salários e a asfixia do poder sindical, o aumento do custo da habitação que pode consumir mais de metade do rendimento familiar, a liberalização escandalosa do preço dos medicamentos, que se tornam progressivamente inacessíveis, sobretudo a doentes crónicos.

No actual tempo europeu inventaram-se dois inimigos para distrair a atenção dos problemas reais. O inimigo interno é o imigrante, sobretudo se for islâmico; o inimigo externo é a Rússia. Nenhum europeu é capaz de imaginar a vida no seu país sem a participação dos imigrantes. Nenhum cidadão europeu é capaz de ver na Rússia uma ameaça, sobretudo se se lembrar que a Rússia foi invadida duas vezes por europeus (Napoleão e Hitler) e nunca se propôs invadir a Europa. A invasão da Ucrânia tem razões históricas antigas e recentes. É condenável a todos os títulos, mas não significa a invasão da Europa. Hoje, os europeus sabem que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia podia ter terminado três meses depois de ter começado se os EUA e os seus lacaios (Boris Johnson, aparentemente bem pago para isso) não tivessem impedido a assinatura do acordo de paz praticamente concluído. Os europeus sabem hoje que o objectivo da guerra foi inicialmente duplo. Por um lado, visou amputar a Europa de uma das suas regiões, a Rússia, com o fim de impedir o acesso da Europa à energia barata vinda da Rússia e com isso acelerar o declínio e a dependência da Europa em relação ao império declinante dos EUA. Por outro lado, visou bloquear o acesso da China à Europa e ao mundo ocidental por via da Rússia.

Mais tarde, os empresários da guerra, os lobistas da indústria de armamento, com as suas embaixadas em Bruxelas, convenceram uma classe política medíocre e ignorante a promover a guerra por sua própria iniciativa. Esta classe política nem sequer se deu conta de que todos os benefícios iriam para a indústria norte-americana, enquanto os custos recairiam exclusivamente sobre os europeus. De repente, os europeus ouviram os seus líderes a falar de guerra como se fosse a mais importante missão política dos próximos anos. Os europeus mais velhos lembram-se do passado recente e perguntam-se perplexos e impotentes. A Europa ocidental foi, depois da Segunda Guerra Mundial, o grande promotor global da paz, tendo intermediado activamente a resolução de várias guerras locais. Foi o berço do grande movimento pela paz. Mais tarde, assumiu pioneirismo na preocupação ecológica e foi o berço do movimento ecologista global. Como é que, de repente, desaparecem tanto o movimento pela paz como o movimento ecológico, e a Europa passa a ser um continente em guerra contra uma ameaça que só a classe política vê?

A invenção dos inimigos é, assim fundamental para ocultar a grande causa do mal-estar dos europeus nos próximos anos: os orçamentos militares aumentam à custa da diminuição das políticas sociais. Os políticos europeus viram-se “forçados” a mentir aos seus cidadãos. Quando estes se derem conta, haverá agitação social e a resposta será repressiva, uma vez que, neste sistema, não é possível outra resposta. Por isso, quem se diz contra o sistema é quem mais investe na vigência integral e, portanto, repressiva deste sistema. Mente duplamente, e é por isso que a sua mentira se confunde tanto com a verdade.

Neste contexto, surge uma preocupação especificamente portuguesa. Portugal é um dos países europeus com menos tradição democrática. É também um dos países com mais desigualdade social e maiores índices de pobreza. A combinação destas duas condições torna Portugal uma presa fácil de qualquer demagogia de extrema-direita. A democracia sobreviverá? Bastará a sua transformação num autoritarismo eleitoral?

A história não se repete. Isto não quer dizer que os ecos do passado não nos soem estranhamente familiares. Nem as diferenças nem as semelhanças são pura coincidência.

https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/13/o-kampf-de-andre-ventura-por-boaventura-de-sousa-santos/

sábado, 1 de novembro de 2025

António Barreto - Ventura, Salazar e os ciganos



* António Barreto
1 de Novembro de 2025


Proibir cartazes por serem a tradução de “discurso de ódio” é acto tão condenável quanto a utilização desse mesmo discurso. O “discurso de ódio” é uma das grandes idiotias do tempo presente.


Saber se Ventura é ou não fascista é questão relativamente pouco interessante. Nem ele o saberá, talvez. Há hoje, à face da terra, em Portugal e no mundo, outras variedades de simpatias políticas, umas mais interessantes, outras mais perigosas. Saber se ele é racista, colonialista, adepto da supremacia branca, populista, machista, paternalista, integrista ou integralista, eis questões também pouco importantes, mas às quais já se pode prestar alguma atenção, a fim de compreender a pessoa.

Os cartazes de Ventura, tanto o dos ciganos como o do Bangladesh, são de enorme mau gosto, são tolices irremediáveis, mas de enorme eficácia: tinham como objectivo acicatar os piores sentimentos de parte da população e provocar oposição e ameaças de censura. Objectivos alcançados, pelo menos em parte. Esperemos por mais até às próximas eleições. E saibamos resistir ao impulso de algumas pessoas que consiste em censurar e proibir.
 
Uma das expressões favoritas de Ventura, “pôr isto em ordem”, é de uma absoluta infantilidade, é destituída de cultura e pensamento, trata-se de um mero desabafo próprio de quem procura o reflexo condicionado, não a razão nem sequer o sentimento. Deixemo-lo prosseguir nessa via, até cair no ridículo ou até revelar a vacuidade dessa palermice inqualificável. A expressão constitui lugar-comum ou cliché conhecido, tem muitas décadas de existência, não quer dizer nada e quer dizer tudo. Cada pessoa que a ouve percebe-a como quer, dá-lhe o conteúdo que deseja. É uma palavra de ordem que nada implica de conteúdo, nem de política, nem de objectivos, mas apenas alude à entrega do poder a um aventureiro. É retórica usada por todos os candidatos a líderes, verdadeiros ou maquilhados, que apenas pretendem que lhes seja dada confiança sem limites. Trata-se de expressão com equivalentes, igualmente destituídos de conteúdo, tais como “limpeza” e “vassourada”. Que se vêm acrescentar a outra de uso corrente e preferida por Ventura, sem qualquer conteúdo nem sentido, mas de forte capacidade de excitação, que é a “vergonha” que ele exprime e a “falta de vergonha” dos outros. A liberdade de expressão também inclui estes lugares-comuns e estes disparates.
 
Recentemente, Ventura fez nova aquisição teórica e política, para não dizer cultural: a expressão “é preciso um Salazar” ou mesmo “nem três Salazares chegavam”. A tolice é tanta que nem sequer tem graça. É apenas confrangedor, mas tem um mérito: revela as inclinações de Ventura. Veremos como os eleitores lhe pagarão esta confissão.

 
Estas expressões de Ventura, estas provocações de pequeno porte e reduzida inteligência, têm o condão de excitar os seus seguidores: é bom para eles, é alimento para as almas. Mas também têm o efeito de suscitar, junto dos seus adversários, as piores reacções imagináveis, da censura à proibição, passando pelo processo judicial. Punir Ventura porque é racista? Porque diz parvoíces? Proibir Ventura de dizer disparates? Não faz qualquer sentido. Ventura é assim. Pensa e diz coisas estranhas. Não sabemos se pensa, mas pelo menos diz.

 
Proibir e castigar fazem sentido quando se trata de actos, de factos, não de pensamentos ou palavras. Proibir intervenções ou cartazes por serem a tradução de “discurso de ódio” é acto tão condenável quanto o da utilização desse mesmo discurso. O “discurso de ódio” é uma das grandes invenções do tempo presente. Uma das grandes idiotias. O que é exactamente ninguém sabe. Ou antes: cada pessoa sabe, porque cada pessoa define o seu próprio ódio, cada um define os limites que prefere. Daí a encontrar definições gerais e abstractas, limites reais e palpáveis, é uma impossibilidade. Desabafar, criticar ou fazer ironia à custa de um povo ou de uma nacionalidade é “discurso de ódio” conforme quem denuncia e quem pratica: a avaliação do ódio será diferente conforme se trate de americano ou russo, judeu ou palestiniano, africano ou chinês. Não se trata, como é evidente, de terreno sólido para legislar.

 
Os gestos, os actos, os factos e as acções são uma coisa. As vozes, a palavra, a expressão pública de qualquer crença, o desejo, a vontade, o desprezo ou o insulto são outras coisas. Enquanto não houver acções racistas e violentas, incitamento e organização da violência, agressão a pessoas e vandalização de bens, os desabafos de Ventura e outros não passarão disso mesmo, palavras. Desde que não violem ou atentem realmente, não apenas verbalmente, contra os direitos e a integridade de imigrantes, ou seja de quem for, as palermices de Ventura e outros serão desabafos, desejos de arruaceiros e demagogia barata. Querer “correr” com os estrangeiros e os imigrantes é tão inteligente quanto “correr” com capitalistas, sindicalistas, padres ou militares.

 
Todos têm o direito de não gostar de ciganos, bengaleses, árabes, negros, russos, americanos e até portugueses. Todos têm o direito ao preconceito e a considerar inferiores, estúpidos, perigosos e ameaçadores os outros povos. Mais difícil ainda: todos têm o direito a exprimir publicamente os seus pensamentos, as suas crendices e os seus preconceitos. Tentar censurar, proibir ou controlar a expressão verbal dos seus pensamentos é tão grave quanto cometer actos de agressão ou de violência.

 
Há ainda a questão do insulto. Muitas pessoas pensam que o insulto deve ser controlado, censurado, eventualmente castigado. É uma velha questão. Sem pretender inovar ou ser exaustivo, o importante é distinguir entre insulto e calúnia. A segunda é em geral motivo de processo e condenação. Não se pode acusar alguém de ter praticado ou cometido actos que comprometem a honra, a reputação, a carreira ou a vida privada. Já o insulto é livre. Até ao ponto de prejudicar outrem. Sem isso, o insulto faz parte da liberdade de pensamento e de expressão.

  
As intenções de Ventura e de outros são ou parecem claras: quer ser perseguido, pretende ser proibido de falar, gostaria de ser ilegalizado, espera que alguém o acuse em tribunal, deseja que a polícia o procure e pensa mesmo que alguém, privado ou público, o poderia ameaçar. Anseia ter razões de queixa, com a esperança de ser uma vítima dos que são contra a liberdade de expressão. Ficará encantado se o acusarem de discurso de ódio. Será para ele glorioso o dia em que será acusado e processado por uso da liberdade.

https://www.publico.pt/2025/11/01/opiniao/opiniao/ventura-salazar-ciganos-2152978

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Joseph Goebbels - A tempestade está chegando (Der Sturm bricht los)


* Joseph Goebbels

Falo como representante do maior movimento de milhões já visto em solo alemão. Não estou aqui para implorar por seu voto, seu favor ou seu perdão. Eu só quero que você seja justo. Dê seu veredicto sobre os últimos 14 anos, sobre sua vergonha, sua desgraça, seu colapso e nossa crescente humilhação política nacional. Você deve decidir se os homens e partidos responsáveis pelos últimos 14 anos devem ter o direito de continuar no poder no governo.

Camaradas, este novo sistema nasceu há 14 anos. Nunca se julga sistemas ou governos pelo que eles querem ou pelo que prometem, mas sempre pelo que podem fazer e pelo que realizam. Os homens de novembro [1918] tomaram o poder mentindo para o povo, dizendo-lhes que haviam vencido. Eles prometeram a vocês, trabalhadores, cidadãos e alemães criativos, um Reich de liberdade, beleza e dignidade. Eles prometeram socialismo, prometeram um Estado popular, prometeram às grandes massas a realização de seus sonhos – paz, trabalho e prosperidade.

Vivemos essa mentira há 14 anos. Por 14 anos, derrotamos este governo; Vivemos na necessidade, sofremos, nos sacrificamos, passamos fome, às vezes choramos. E agora vemos os piores resultados desses 14 anos: a economia alemã está em ruínas, há enormes déficits orçamentários, a fortuna da nação é desperdiçada, as pessoas são roubadas de sua herança, as pessoas estão desesperadas e sem esperança, as ruas de nossas grandes cidades estão cheias de um exército de milhões de desempregados, a classe média está desaparecendo,  os fazendeiros expulsos de suas terras. Para nossa vergonha e desgraça, grandes áreas do território alemão foram perdidas. Nosso território está dividido pela ferida sangrenta do corredor polonês, e a Alemanha é drenada por um pagamento de tributo estúpido e antinatural.

Mais do que isso, os batalhões vermelhos pregam a guerra civil e o sangrento conflito de classes que estão destruindo nossa nação, não dando paz ao povo alemão. Em tal situação, os líderes e partidos do velho sistema estão fazendo a tentativa desesperada de libertar a Alemanha de suas cadeias estrangeiras. Passamos de uma conferência sobre reparações para outra. Assinamos com Versailles, Dawes e Young. Cada um significava mais fome, mais tortura, mais terror, mais horror para o povo alemão sofredor.

Não é difícil determinar quem é culpado, quem tem a responsabilidade, para com o povo, para com a história e para com Deus por essas condições. São esses homens e os partidos que enganaram o povo alemão durante 14 anos, prometendo-lhes uma vida de beleza e dignidade, do paraíso na terra, mas que no final nos deram palavras vazias e pedras em vez de pão. Eles estão agora perante o tribunal da nação para prestar contas do desastre sem precedentes que causaram nos últimos 14 anos. Cinco semanas atrás, o último gabinete deste sistema caiu. Novos homens surgiram no cenário político e declararam que tinham o objetivo de substituir o Sistema de Novembro e colocar a Alemanha em um curso político fundamentalmente novo. Vós, homens e mulheres, sabeis que encarámos esta tentativa com desconfiança desde o início. Vemos a ressurreição de nosso povo como não proveniente de um pequeno grupo que não tem forte conexão com o povo; apenas um movimento de milhões tem a força ativa e a capacidade de mudar a Alemanha.

O que o novo gabinete fez nas últimas cinco semanas?

Queria equilibrar o orçamento. Isso era necessário, já que os cofres estavam vazios quando assumiu o poder. Mas equilibrar o orçamento não resolverá nossos problemas. A verdadeira causa da nossa necessidade é o desemprego. Pedir às pessoas que se sacrifiquem só faz sentido se esse sacrifício for o primeiro passo para a recuperação. O que fez esse chamado gabinete de concentração nacional? Baseou-se no Decreto de Emergência de Brüning e o intensificou. Este gabinete cortou o escasso seguro-desemprego, reduziu as pensões das vítimas da guerra, adotou o imposto sobre o sal, a medida mais anti-social. Este gabinete não deve pensar que nós, nacional-socialistas, apoiaremos suas políticas prejudiciais.

Pergunto-vos, homens e mulheres, como é que o Partido Social-Democrata pode ter a ousadia de nos acusar de intolerância, quando foi exactamente assim que se comportou durante os últimos dois anos sob Brüning? O Partido Social-Democrata estaria pronto para engolir o Decreto de Emergência se tivesse certeza de que o novo gabinete lutaria contra nosso movimento tão duramente quanto o governo de Brüning.

O que mudou?

Nada, exceto que os governantes têm rostos diferentes. A economia está funcionando no vazio, o governo não conseguiu iniciar um novo programa de criação de empregos. A miséria das grandes massas continua a aumentar, e os famintos não sabem como podem sobreviver de um dia para o outro. A classe média está entrando em colapso sob pesados impostos e o agricultor está deixando sua fazenda porque não pode mais pagar os juros, hipotecas e dívidas. Tudo o que o gabinete pode dizer é o seguinte: "Não podemos consertar em cinco semanas o que deu errado em quatorze anos!" Bem, OK! Mas deve-se pelo menos ser capaz de ver que um começo está sendo feito. Concordamos que não se pode fazer muito com o artigo 48º. Mas pelo menos devemos ser capazes de esperar que o governo esteja fazendo tentativas para resolver os problemas políticos que enfrentamos. Mas o que vemos?

O assassinato vermelho se espalha pelas ruas. Barricadas são construídas em Moabit [um bairro da classe trabalhadora de Berlim]. Todas as noites, 50, 60 ou 70 de nossos membros são gravemente feridos, e todos os dias enterramos um, dois ou três camaradas. A imprensa vermelha mentirosa está mais ativa do que nunca, e no sul e oeste da Alemanha o Partido do Centro e seu Partido Popular da Baviera, relacionado com a eclesiástica, ameaçam uma fragmentação do Reich.

O que o ministro do Interior do Reich está fazendo a respeito?

Ele se senta com as mãos no colo. Ele quer tratar a direita e a esquerda com imparcialidade, mas assim nos trata injustamente. Vocês, meus camaradas, estão aqui em seus uniformes marrons gastos. O governo permitiu que você fosse caluniado e seus uniformes são pagos pelas contribuições dos pobres. O governo não caiu totalmente nos braços dos vermelhos. Ele afirma ser nacional, mas estamos convencidos de que, se não fosse por nós, nacional-socialistas, esse governo fraco teria esgotado o capital que a Alemanha nacional construiu ao longo de uma luta de doze anos pelo renascimento.

Uma nova Alemanha surgiu! É uma Alemanha que lutou por doze anos contra a traição marxista e a fraqueza burguesa.

Vocês, homens, mulheres e camaradas, são os portadores, testemunhas, construtores e finalizadores deste levante popular único. Nossas políticas não foram populares. Servimos à verdade, e somente à verdade. Por doze anos, eles nos insultaram, proibiram, caluniaram e perseguiram. Agora que estamos às portas do poder, as mentiras marxistas se juntaram à fraqueza burguesa para nos combater. Se fôssemos apenas um partido como todos os outros, entraríamos em colapso sob a ofensiva de nossos oponentes. Mas somos um movimento popular. Essa é a nossa sorte. Aqui e em qualquer outro lugar do país, a bandeira vermelha da suástica tremula sobre pessoas de todos os campos, partidos, classes, ocupações e confissões religiosas. Nossos oponentes riram de nós no passado, mas não riem mais.

Vocês, homens e mulheres diante de mim, cem ou duzentos mil em número, de cabeça erguida, eretos, orgulhosos e corajosos, os portadores do futuro da Alemanha, aos seus olhos está escrito:

Não pensamos mais em termos de classe. Não somos trabalhadores ou classe média. Não somos antes de tudo protestantes ou católicos. Não perguntamos sobre ancestralidade ou classe. Juntos, compartilhamos as palavras do poeta:

"Gente, levantem-se e invadam, soltem-se!"

Camaradas, homens e mulheres, o destino nos deu uma última chance. Temos mais uma oportunidade de falar com as pessoas. Nossa campanha se espalha por toda a Alemanha, e mais uma vez os ouvidos ouvem, os olhos veem, o coração bate mais rápido e os sentidos clareiam:

"O dia da liberdade e da prosperidade está chegando!"

Assim escreveu nosso falecido camarada Horst Wessel, e estamos cumprindo sua profecia. Os outros podem mentir, caluniar e derramar seu desprezo sobre nós - seus dias políticos estão contados.

Adolf Hitler está batendo às portas do poder, e em seu punho estão unidos os punhos de milhões de trabalhadores e agricultores. O tempo de vergonha e desgraça está quase no fim.

Vocês são as testemunhas, os construtores, os portadores da vontade de nossa ideia e nossa visão de mundo.

Os hacks partidários do Partido Socialista estão de repente se lembrando do povo. Por uma década, as revistas ilustradas os retrataram apenas em sobrecasacas e chapéus cilíndricos em mesas cheias de ostras e garrafas de champanhe. Agora eles usam bonés de trabalhadores e enchem seus jornais com apelos como "Pessoas, acordem!"

Bem, nós, o povo, despertamos! Nós nos levantamos contra a opressão, 15 milhões de pessoas se juntaram a um exército de vingança. Aqueles que aceitaram seus belos ternos dos Sklareks [irmãos judeus envolvidos em um grande escândalo financeiro de Berlim] dificilmente podem imaginar que um trabalhador alemão honesto gastará seu salário de fome por uma camisa marrom decente. Aqueles que engordaram com caviar, que recebem setenta, oitenta ou cem mil marcos por ano, que espalharam o fedor de corrupção sem precedentes por toda a Alemanha, querem fingir que são uma oposição. "Para as barricadas!", eles gritam.

Nossa resposta: "Os bons velhos tempos dos figurões do partido acabaram. Uma nova Alemanha está chegando, uma Alemanha criada nas leis espartanas do dever prussiano. É uma Alemanha que não engorda, mas que está morrendo de fome! É uma Alemanha com força, com vontade, com idealismo! É uma Alemanha que está farta da traição marxista e das luvas brancas burguesas."

E vocês são as testemunhas desta Alemanha. Vocês, povo, afirmaram esta Alemanha. E nós, povo, falamos em teu nome. Nós, os líderes deste emocionante movimento de milhões, viemos de vocês, o povo. Nós também, camaradas, já fomos homens desconhecidos marchando com as massas cinzentas. Pessoas, compartilhamos em nossos corações sua tortura, sua miséria, suas tribulações, seu desespero. Somos um pedaço do povo. Quando os sabe-tudo burgueses perguntarem o que realizamos, vocês, homens e mulheres, devem nos salvar da necessidade de dar resposta. Quando eles perguntam o que fizemos, vocês, 15 milhões, devem responder: "Eles nos deram fé mais uma vez, eles nos deram esperança. Eles despertaram uma Alemanha adormecida. Eles organizaram e mobilizaram milhões e os colocaram para marchar. Esses milhões estão em movimento, seguindo as leis da história. Assim como essa pequena seita cresceu de sete homens desconhecidos para um movimento de 15 milhões, também juro a você, esse movimento de 15 milhões crescerá para abranger um povo de 65 milhões.

As festas devem ir! Os hacks políticos devem ser jogados para fora de suas cadeiras. Não daremos perdão. Não permitiremos que a Alemanha caia em desgraça. Devolveremos à Alemanha uma razão de sua existência, um sentido para a vida. É por isso que vocês, homens e mulheres, estão aqui, um exército de duzentos mil. Nunca a capital do Reich viu um movimento popular de tal força. Você veio aqui de todos os lugares. A classe média veio do oeste, os trabalhadores do leste e do norte. Você veio de prédios de apartamentos escuros e sem alegria. Meus camaradas da S.A. estão diante de mim, de cabeça erguida, como se fossem os reis da Alemanha. Eu sei, camaradas, que há alguns entre vocês que não sabem de onde virá a refeição de amanhã. Mostramos a esses partidos materialistas que o idealismo está vivo na Alemanha. Mostramos a eles que, mesmo em meio à fome, sacrifício e necessidade, o povo pode ser mostrado o caminho para o aperfeiçoamento. Prometemos lealdade a este povo. Levantamos solenemente as mãos e prometemos:

Enquanto respirarmos, somos obrigados ao povo alemão. Viemos do povo e voltamos sempre a ele. O povo é o centro de todas as coisas para nós. Nós nos sacrificamos por este povo e, se necessário, estamos prontos para morrer por ele.

Lealdade ao povo, lealdade à ideia, lealdade ao movimento e lealdade ao Führer! Essa é a nossa promessa enquanto gritamos:

Nosso Führer e nosso partido - Salve a vitória!

1932 07 09
Tradução IA

Berlin on 9 July 1932

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A Colonização da Mente pelos Estados Unidos




Pesquisadores chineses publicaram recentemente um excelente white paper sobre a colonização da mente pelos EUA. É um documento longo, com 36 páginas, então tentei resumi-lo copiando e colando alguns pontos-chave aqui.

Aqui estão três links para o artigo original em diferentes formatos:  Link 1  ,  Link 2  ,  Link 3.  Aproveite!

Trechos do artigo:   

Desde a Segunda Guerra Mundial, e especialmente após o fim da Guerra Fria, confiando em sua supremacia global em termos de poder político, econ+omico, militar e tecnológico, os Estados Unidos exportaram sua ideologia ao redor do mundo em uma tentativa de cativar as mentes das nações com valores americanos, remodelar as concepções das pessoas e criar um vício filosófico numa visão de mundo centrada nos Estados Unidos.

“ A questão crucial para os Estados Unidos não é se eles começarão o próximo século como a superpotência com a maior reserva de recursos, mas até que ponto serão capazes de controlar o ambiente político e fazer com que outros países façam o que eles querem ” — Joseph Nye.

“ Fortalecer a posição da cultura americana como um 'exemplo' para todas as nações é uma estratégia indispensável para manter a hegemonia americana ” — Zbigniew Brzezinski.

Os Estados Unidos descobriram que confiar apenas no "poder duro" na forma de domínio político, controle econômico, dissuasão militar e outros meios não poderia estabelecer ou manter um regime colonial duradouro e extenso; em vez disso, usar o "poder suave", como cultura e valores, permitiria colher maiores benefícios coloniais a custos mais baixos.

Impor conformidade e submissão "voluntárias" em escala global sob um véu sentimental: esse é o estilo americano de "colonização da mente".

As "Quatro Liberdades" propostas pelo Presidente Roosevelt tornaram-se a pedra angular teórica do sistema internacional de direitos humanos. A exportação ideológica dos Estados Unidos durante esse período lançou as bases históricas para sua vasta política de colonização da mente nas décadas seguintes.

Como um dos principais arquitetos da ordem internacional do pós-guerra, os Estados Unidos, por um lado, exportaram seus sistemas político e econômico e valores americanos como "democracia" e "liberdade", enquanto, deliberada e conscientemente, desconstruíam ideologias não americanas e suprimiam as culturas indígenas de outros países, a fim de fomentar a dependência e a obediência filosóficas globais. Ao recorrer a um fluxo interminável de estratagemas de duas caras, construção expansiva e desconstrução destrutiva, os Estados Unidos realizaram muito mais do que qualquer outro império colonial em sua tentativa de colonizar mentes.

Os Estados Unidos exploraram seu controle sobre novas plataformas tecnológicas e tecnologias cognitivas avançadas para fortalecer sua governança ideológica nas mídias sociais. Sob pretextos como "combater a desinformação" e "combater a influência estrangeira", manipulam os fluxos de informação nas plataformas sociais para dominar a percepção global.

Se o domínio hegemônico dos Estados Unidos nas arenas política, econômica e militar globais serve como uma "pré-condição rígida" para sua colonização ideológica, então condições favoráveis ​​na linguagem e na cultura, nos discursos, na mídia de massa e na pesquisa acadêmica constituem sua "base sólida".

Ao realizar suas atividades de colonização mental, os Estados Unidos usam "máscaras" pretas, brancas, cinzas e outras em momentos diferentes, misturando flexivelmente diferentes "tons" para se camuflar de acordo com as necessidades e situações contextuais.

Propaganda branca. Constitui a dimensão mais óbvia da colonização mental dos Estados Unidos, operando por meio de canais públicos, transparentes e oficialmente aprovados para disseminar informações publicamente verificáveis, com o objetivo de moldar uma imagem nacional positiva e promover seus valores. (Meu comentário: Departamento de Estado, Voz da América, bolsas de estudo como a Fulbright, etc.)

A propaganda negra representa a faceta mais secreta, enganosa e agressiva da colonização mental. Tipicamente realizada por serviços de inteligência e militares no mais absoluto sigilo, caracteriza-se principalmente por operações clandestinas, incluindo campanhas de desinformação, coleta de informações e ataques cibernéticos.

A propaganda cinzenta é conduzida indiretamente pelo governo dos EUA, por meio de entidades terceirizadas, como corporações e ONGs, para fugir da responsabilidade oficial e criar a ilusão de "espontaneidade não governamental". Seu objetivo é influenciar secretamente a opinião pública, moldar agendas políticas ou apoiar grupos específicos em países-alvo, permitindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos mantenham uma negação plausível.

“A distribuição das línguas no mundo reflete a distribuição do poder no mundo.” — Samuel P. Huntington. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, com seu domínio econômico, militar, tecnológico e cultural popular, promoveram vigorosamente o inglês em todo o mundo, reforçando seu status como língua franca global.

Os Estados Unidos rotineiramente se glorificam enquanto demonizam vigorosamente os outros, criando binários artificiais como "democracia versus ditadura", "liberdade versus autoritarismo", "economias de mercado versus economias sem mercado" e "Estados antiterrorismo versus Estados patrocinadores do terrorismo".

Quem controla as válvulas do fluxo de informações tem a iniciativa de moldar as percepções.

Hoje, os Estados Unidos exercem um domínio férreo sobre canais e plataformas globais de informação e radiodifusão, controlando inúmeras agências de notícias, poderosos conglomerados multinacionais de mídia, plataformas de mídia social online e uma série de novos gigantes da tecnologia. Na era digital, ao alavancar plataformas como Facebook, Twitter e YouTube, os Estados Unidos manipularam com sucesso a opinião pública, caracterizada pelo fato de que "para onde vão algoritmos e tráfego, lá vão agendas e percepções".

“A americanização do conhecimento e da educação universitária sustenta uma sociedade global americanizada, o que por sua vez reforça o domínio dos EUA na economia política global, na vida cultural e nos assuntos militares por meio de um processo de reforço mútuo” — Simon Marginson, professor da Universidade de Oxford.

O esforço dos Estados Unidos para colonizar a mente visa consolidar sua hegemonia cultural, fortalecendo assim seu domínio político e preservando seus privilégios econômicos.

Como colonizadores de mentes, os Estados Unidos se glorificam implacavelmente, vestindo seus valores com uma máscara de "universalidade" — apresentando seu caráter nacional como algo "universal" e transformando seus interesses nacionais em "moralidade internacional", disfarçando, em última análise, a colonização cultural como "liderança de valores". Os Estados Unidos se apresentam como praticantes, porta-vozes e defensores de valores nobres, tudo para consolidar sua posição central na esfera ideológico-cultural e cultivar uma "dependência cognitiva" deles.

O objetivo fundamental da manipulação ideológica e da modelagem cognitiva dos Estados Unidos é transformar as regras que atendem aos interesses americanos em um sistema e ordem internacional universalmente aceitos e, no processo, garantir seu usufruto contínuo de vários privilégios.

Os Estados Unidos têm consistentemente tentado transformar a ONU e o sistema internacional que ela representa em ferramentas para manter o domínio ocidental, particularmente a hegemonia global dos EUA.

Nos últimos anos, com a ascensão coletiva do Sul, os Estados Unidos descobriram que esse sistema restringia cada vez mais seus privilégios. Assim, favoreceram o "excepcionalismo" e se afastaram das agências internacionais para driblar as regras comuns universalmente respeitadas pela comunidade internacional.

Enquanto isso, desenvolveram a doutrina "América Primeiro" para colocar os interesses americanos diretamente à frente dos de outros países. Além disso, ao expandir sua prática de "jurisdição de braço longo", os Estados Unidos estão descaradamente colocando suas leis nacionais acima do direito internacional.

Ao longo da sua história, os Estados Unidos recorreram repetidamente à “colonização mental” para abrir caminho à sua agressão e pilhagem, ao mesmo tempo que ocultavam esses atos sob o pretexto da “legitimidade”.

No final do século XIX, o grupo de mídia Hearst ecoou as ambições expansionistas dos EUA ao destacar as "atrocidades" espanholas em Cuba e criar uma opinião pública favorável ao início da Guerra Hispano-Americana pelos EUA e sua subsequente captura dos mercados caribenhos.

Durante a década de 1970, os Estados Unidos usaram sua mídia para propagar a narrativa da "ameaça das armas petrolíferas árabes" para ajudar a estabelecer o sistema de petrodólares que vinculava a hegemonia do dólar ao comércio global de energia.

Em 2019, ONGs financiadas pelos EUA incitaram a agitação pública na Bolívia, brandindo a espada da “democracia” para derrubar um governo de esquerda — uma ação que tinha como alvo estratégico as maiores reservas de lítio do país no mundo.

Hoje, os Estados Unidos, continuando a empregar esta estratégia de “opinião pública primeiro”, estão a reprimir empresas chinesas como a Huawei e a TikTok em nome da “segurança nacional”.

Todas essas medidas nada mais são do que medidas que visam remover obstáculos que impedem as empresas americanas de conquistar mercados globais.

Das duas guerras mundiais até a década de 1960, os Estados Unidos usaram principalmente jornais e rádio para "contar a história americana ao mundo". Estabeleceram meios de comunicação externos, como a Voz da América, a Rádio Ásia Livre e a Rádio Europa Livre, para lançar uma guerra de propaganda de longo prazo contra o campo socialista liderado pela União Soviética.

O paradigma de "controle da informação e cognição" gradualmente substituiu o modelo de "propaganda e cognição" e se tornou a nova teoria dominante da comunicação. Teorias como psicologia social, teoria dos jogos e fenomenologia perceptual foram introduzidas na análise de situações estratégicas internacionais e processos de tomada de decisão política.

Modelagem cognitiva e “guerra cognitiva”

Moldar as emoções, atitudes e comportamentos do público tem sido um objetivo importante do jornalismo, da publicidade, da propaganda e de outras áreas relacionadas nos Estados Unidos. O conceito de "guerra cognitiva" surgiu já na década de 1990.

Entretanto, foi somente no início do século XXI, com os avanços na pesquisa tecnológica em áreas como ciência psicológica, neurociência, ciência do cérebro, inteligência artificial e outras tecnologias de ponta, que "moldar a cognição" se tornou um objetivo estratégico verdadeiramente relevante.

Em 2022, o relatório da Estratégia de Segurança Nacional elevou a guerra cognitiva ao mesmo nível de importância estratégica do combate físico, marcando a completa independência do domínio cognitivo. Em 2023, vários relatórios do Congresso redirecionaram a atenção para a segurança cognitiva.

Assim, a manipulação cognitiva impulsionada pela tecnologia se tornou uma nova tática de colonização da mente dos EUA.

Uma série de valores americanos, como a democracia capitalista, a liberdade, a igualdade, os direitos humanos, bem como o individualismo, o egoísmo, o materialismo e o hedonismo, constituem o núcleo do impulso americano para colonizar a mente.

Com um poder financeiro colossal, os conglomerados de mídia americanos adquiriram o controle total sobre toda a cadeia, desde a coleta de notícias até a publicidade e o marketing, incluindo a produção e distribuição de conteúdo. Seus ativos de mídia abrangem plataformas de televisão, mídia impressa, rádio, cinema, vídeo e streaming, beneficiando-se assim do acesso a um vasto conjunto de usuários em todo o mundo.

A vantagem de difusão dos Estados Unidos também se reflete em seu controle sobre mídias, plataformas e negócios online. Ao controlar recursos críticos, como servidores raiz e nomes de domínio globais, os Estados Unidos dominam o funcionamento geral da web. Por meio de medidas legislativas e outras, o governo americano mantém um controle rígido sobre os gigantes nacionais da tecnologia da internet e exerce poder absoluto sobre uma quantidade considerável de informações online. Plataformas como Facebook, X, YouTube e Instagram — as plataformas de mídia social mais populares do mundo — oferecem aos Estados Unidos um novo espaço e uma nova oportunidade para construir casulos de informação e moldar as percepções dos usuários por meio de algoritmos e mentiras.

“A maneira mais fácil de injetar uma ideia de propaganda na mente da maioria das pessoas é transmiti-la por meio do entretenimento” — Elmer Davis, diretor do Escritório de Informações de Guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Entre os países aliados vitoriosos, como França e Grã-Bretanha, os Estados Unidos impuseram a abertura dos mercados cinematográficos locais como condição para a obtenção de auxílio financeiro, contribuindo assim para o domínio dos filmes de Hollywood nesses mercados. Por várias décadas, os filmes americanos, que controlavam mais de 70% do mercado global, desempenharam um papel importante na colonização de mentes.

Inúmeros filmes centrados em "heroísmo" moldaram a imagem dos Estados Unidos como o "justo defensor da ordem mundial" e cultivaram o respeito pelo poderio militar americano.

Depois do 11 de setembro, Hollywood voltou a ser uma poderosa ferramenta de propaganda para a Guerra ao Terror dos EUA, com a indústria e os militares formando um complexo de entretenimento militar mutuamente benéfico, com cada lado compartilhando o que precisava.

Com o avanço da tecnologia digital, os videogames também se tornaram uma ferramenta essencial para o controle mental. A série de jogos America's Army, desenvolvida sob a direção do Exército dos EUA com mais de US$ 30 milhões em financiamento, simula combates realistas e atraiu aproximadamente 20 milhões de jogadores em todo o mundo.

Para ancorar a ideologia americana em todo o mundo, os Estados Unidos alavancam sua posição de liderança em todas as disciplinas acadêmicas para propagar sistemas de conhecimento ocidentais e valores culturais entre as elites intelectuais em vários países e regiões por meio de educação, treinamento, intercâmbios acadêmicos, financiamento de pesquisas e alocação de professores.

Seu objetivo é cultivar um grande contingente "pró-americano" disperso globalmente entre os círculos de elite ao redor do mundo.

Desde o início, os Estados Unidos posicionaram os intercâmbios culturais como a "quarta dimensão de sua política externa". Desde 1948, o governo americano investe fortemente no Programa Fulbright, considerado um "investimento exemplar nos interesses nacionais de longo prazo dos Estados Unidos", patrocinando estudantes, acadêmicos, elites culturais e grupos acadêmicos de todo o mundo para estudar, visitar e realizar pesquisas nos Estados Unidos. Até o final do século XX, o programa havia fornecido apoio financeiro a mais de 250.000 acadêmicos de mais de 140 países e regiões.

Autoengrandecimento e difamação de outros são os dois tipos de discurso mais frequentemente usados ​​nos esforços americanos para colonizar a mente.

A aplicação de "duplos padrões" na interpretação e no enfrentamento de questões internacionais representa uma das estratégias políticas americanas mais emblemáticas e constitui a lógica narrativa mais importante em seu empreendimento de colonizar a mente.

Do uso de ondas de rádio e sinais analógicos à internet digital e agora uma nova revolução nas comunicações impulsionada pela inteligência artificial, os Estados Unidos têm explorado consistentemente seu monopólio em tecnologias avançadas de comunicação para reforçar seu "poder brando" com "poder duro", usando sua hegemonia tecnológica para avançar em sua tentativa de colonizar a mente.

Aproveitando seu monopólio de infraestrutura, os Estados Unidos cortam ou interrompem seletivamente os canais de comunicação dos países-alvo com a comunidade internacional, criando um ambiente narrativo unilateral a seu favor que silencia vozes dissidentes.

Diante da competição futura, os Estados Unidos estão integrando ativamente a ciência cognitiva e tecnologias de ponta — como inteligência artificial e biotecnologia — em sua arquitetura estratégica para colonizar a mente.

Além disso, os Estados Unidos frequentemente politizam, militarizam e ideologizam questões tecnológicas, usando a "Chip Alliance", o "Clean Network Program" e assim por diante para construir "clubes" tecnológicos exclusivos e consolidar uma nova forma de hegemonia tecnológica.

Como escreve o escritor americano William Blum em Democracy: America's Deadliest Export, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tentaram derrubar mais de 50 governos estrangeiros e interferiram descaradamente nas eleições de pelo menos 30 países.

Por razões geopolíticas e diplomáticas, os Estados Unidos frequentemente espalham mentiras políticas e criam "divisões cognitivas" entre diferentes grupos de interesse, alimentando antagonismo, incitando divisões ou planejando conflitos para obter lucro e até mesmo intervindo diretamente para "disciplinar" adversários que se recusam a cumprir suas exigências.

Afasia cultural

Colonização da mente significa incutir fé cega na cultura americana em todo o mundo, desmantelando a confiança nas culturas locais, dissolvendo as culturas subjetivas dos países-alvo, erodindo a diversidade das civilizações mundiais e exacerbando o antagonismo e o conflito entre civilizações.

Constantemente influenciados pela civilização de estilo americano, alguns países em desenvolvimento perderam sua subjetividade e orgulho nacional, sofrendo de um niilismo nacional crescente. Das elites ao público em geral, eles imitam, ou até mesmo seguem, os Estados Unidos e o Ocidente em tudo, desde pensamento e ideias até alimentação, vestuário, moradia e transporte. Este é o fenômeno da "afasia pós-colonial", descrito por muitos estudiosos.   

Conclusão  Quebrando as cadeias da colonização mental e promovendo trocas intercivilizacionais e aprendizagem mútua

SL Kanthan (14 de setembro de 2025)
(Tradução IA)

https://foicebook.blogspot.com/2025/09/documento.html#more

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Walter Lippmann é um grande propagandista americano, maior que Bernays.



Walter Lippmann  foi o mentor não reconhecido de Bernays, e sua obra  The Phantom Public (1925) influenciou muito as ideias expressas em  Propaganda , publicada três anos depois.


Walter Lippmann escreveu sobre a vulnerabilidade do público à propaganda política em The Phantom Public (1925):

– O público “ personaliza tudo o que considera e só se interessa por acontecimentos melodramatizados em forma de conflito.

O público chegará no meio do terceiro ato e sairá antes do final do espetáculo, tendo permanecido tempo suficiente talvez para decidir quem é o herói e quem é o vilão da peça.

– Os governos podem explorar essas fraquezas públicas removendo a complexidade e substituindo-a por uma retórica emocional que coloca os bons contra os bandidos.

Infantilize o público com histórias personalizadas sobre como os conflitos começam por causa de um homem mau (Milosevic, Kadafi, Hussein, Putin, Xi, etc.) e como a paz é criada pela eliminação do homem mau.

O público não precisa saber a história, a economia ou a política por trás dos conflitos; ele só precisa saber quem é o vilão, a vítima e o salvador.

O público lutará contra qualquer razão na medida em que ela perturbe os fundamentos de sua visão de mundo simplificada.

O problema da Verdade, disse o pensador excepcional Henri Lefebvre, é entender por que as mentiras fazem tanto sucesso.

Minha resposta: a mentira tem sucesso porque preenche o vazio do sujeito que escuta, ela se encaixa em seu oco, em sua necessidade, melhor, em seu desejo, em sua falta de prazer e em sua recusa da angústia; a mentira tapa um buraco, até mesmo uma brecha.

Dostoiévski responde de forma convincente à pergunta de Henri Lefebvre em O Grande Inquisidor.

Publicada por Pena Preta à(s) quinta-feira, agosto 07, 2025 
https://foicebook.blogspot.com/2025/08/o-problema-da-verdade-e-entender-por.html#more

quinta-feira, 24 de abril de 2025

José Oliveira Vidal - Dicionário da propaganda ocidental


7(Zé Oliveira Vidal, in Estátua de Sal, 23/04/2025, revisão da Estátua)
 Imagem gerada por Inteligência Artificial
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(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a guerra na Ucrânia do Major-General Carlos Branco (ver aqui). Pela sua acutilância e pedagogia sobre o reconhecimento das narrativas mediáticas da propaganda ocidental, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 24/04/2025)

Tudo, TUDO o que passa nos mainstream média ocidentais é DESINFORMAÇÃO USAmericana! TUDO!

Se vês/ouves a CNN, estás a ver/ouvir o que os porcos imperialistas em Washington querem. A mesmíssima coisa para a FOX News e companhia.~

Da Rússia, a “propaganda” que vem são FACTOS. A parte central da propaganda USAmericana na Europa e Portugal passa por chamar “propaganda russa” aos factos e até mesmo às opiniões neutrais ou equidistantes.

Noutros países da Europa, debate-se a NATO, a União Europeia e o Euro. Debate-se a vassalagem aos EUA e o apoio aos nazis ucranianos e a tolerância para com os genocidas israelitas/sionistas. Em Portugal não. Porquê? Porque, ao contrário da MENTIRA da CNN, Portugal é, isso sim, um dos maiores vitimizados pela presença de propaganda USAmericana!

Poderia separar a propaganda da BBC/Mi6, daquela outra da Mossad/Israel, ou da Euronews/UE, mas, nos dias que correm, não vale a pena. É tudo do mesmo saco: avençados e agentes ao serviço de Washington.

Queres saber como isto funciona? Lê sobre os escândalos da USAID, NED, e companhia. A forma como eles corrompem “jornalistas” e políticos por toda a Europa.

Obviamente, terás de ler sobre isto em meios de comunicação fora do Ocidente, ou muito alternativas dentro do Ocidente, como é o caso do jornalismo de investigação do Greyzone, ou do blog de geopolítica MoonOfAlabama, ou o excelente Consortium News, ou o grande exemplo de real jornalismo da Wikileaks, ou de gente independente como a Caitlin Johnstone.

Se vês o que quer que seja na CNN/FOX, ou BBC, Euronews, ou RTP/SIC/TVI/Now/CMTV, e se não percebeste ainda que são antros de corrupção e fakenews, que debitam propaganda e manipulação 24 horas por dia, então não percebeste nada do que se está a passar no mundo e, em particular, em Portugal.

A mesma coisa em relação aos meios escritos, como o Expresso/Público, o Der Spegel, The Guardian, El País, etc, e obviamente o Washington Post, The Economist, New York Times, etc.
Aqui tenho de falar finalmente do texto do Carlos Branco: se se baseia no que o New York Times publicou, então baseia-se na mentira.

Obviamente os EUA são quem planeou durante décadas esta guerra proxy contra a Rússia, obviamente os EUA estão envolvidos em TUDO, desde o financiamento a nazis para fazerem o golpe Maidan, até à invasão de Kursk.

Se o New York Times agora publica isso, é porque a Casa Branco assim ordenou. A atual administração quer fazer de conta que está “de fora” de uma guerra proxy que o próprio Trump ajudou a preparar no seu primeiro mandato, em total prolongamento com a agressão imperial seguida por Obama e Biden. Não houve HIMARS a bombardear em Kursk? Houve! Logo aqui se deteta a mentira do New York Times.

Mas para saberes o que eu sei, precisas de ir aos OSINT (Open Source Intelligence) – fontes abertas de inteligência -, que diariamente falam de FACTOS sobre as linhas da frente. Recomendo o Defense Politics Asia, o Southfront (censurado na EUroditadura), o Geroman (a conta Telegram dele compila mapas de várias fontes credíveis, e tem imagens/vídeos com geolocalização), e ainda o WarMonitor (um site do Líbano que fala sobretudo da agressão/genocídio que o ocidente/sionismo comete na Palestina e arredores.

No caso da TV, como a RT está censurada pela EUroditadura, já só sobram os canais CGTN (China) e TeleSUR (Venezuela) para te poderes informar sobre a realidade. E mesmo aqui tens de ter atenção à propaganda de cada um. TODOS fazem propaganda. Mas isso não significa que os outros façam como o Ocidente onde a mentira é descarada e a toda a hora!

E eis uma lista de pistas simples para identificar quem é quem:

Se diz “NATO defensiva” ou “agressão Russa”, então é um canal de propaganda ocidental. Obviamente, factualmente, a NATO é ofensiva, criminosa, e a Rússia está a intervir justificadamente contra quem golpeou a Ucrânia e violou a paz de Minsk.

Se chama “guerra Israel – Hamas”, então é propaganda ocidental. São três mentiras em três palavras. Não é guerra, é GENOCÍDIO. Não é só de Israel (nem é de todos os israelitas), mas sim de sionistas sanguinários ocidentais, e em particular da extrema-direita racista israelita (Netanyahu e companhia são comparáveis a nazis). E não é contra o Hamas, mas sim contra todo o povo palestiniano, acima de tudo mulheres e crianças indefesas.

Se glorifica Zelensky, então é propaganda ocidental. Zelensky é um vassalo corrupto dos EUA, e é de facto um ditador no regime UcraNazi. Só merece condenação, não merece um pingo sequer de tolerância. É contra a paz, persegue a oposição, acha normal glorificar o nazismo, proibiu eleições, ataca crentes ortodoxos, etc.

Se critica a Venezuela, é propaganda ocidental. A Venezuela é uma democracia soberana anti-imperialista. Só merece a nossa admiração e apoio.

Se apoia a União Europeia e as suas instituições de opressão, então é propaganda ocidental. A UE é, de facto, uma ditadura que nos roubou a soberania. Hoje violamos a nossa Constituição e fazemos censura de canais de notícias, por ordem da UE. Recebemos ordens de NÃO-eleitos, como a Leyen e a Kallas, que são obviamente agentes dos EUA com a missão de nos colocar a pagar mais para garantir o lucro da Lockeed Martin, Raytheon, Boeing, etc. Quando estas corruptas ameaçam quem celebrar o Dia da Vitoria a 9 de maio, mas apoiam descaradamente quem glorifica nazis, e repetem toda a propaganda da CIA/Pentágono, então está tudo dito sobre a natureza da UE.

Se promovem Hollywood/Netflix, e seus palhaços/atores, então é propaganda ocidental. Não há arte nem cultura nenhuma nestes meios. Só há propaganda dos EUA e Israel. A “Mulher Maravilha” é uma agente da Mossad apoiante de genocídio. A Marvel coloca a NATO ao lado dos Avengers. Filmes atrás de filmes colocam os russos como os mauzões, e chamam “heróis” aos porcos imperialistas dos EUA/NATO que foram invadir tantos países e assassinar milhões de humanos (no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, etc.).

Se falam de cantores dos EUA como “os melhores”, mas não têm espaço para falar sequer de artistas portugueses ou de outras partes do mundo, então é propaganda ocidental. Quantas vezes tu ouviste nas “notícias” na TV falar da Madonna ou da Taylor Swift? Agora compara com as vezes que tais “noticiários” falaram dos portugueses Killimanjaro ou Eu.Clides ou Kleft ou Romeros ou Inês Marques Lucas, etc.. Do melhor que se faz em Portugal nos respectivos géneros, e com ZERO tempo de antena nos “noticiários”.

Abre os olhos!

A Rússia, a China, o Irão, a Venezuela, a Geórgia, a África do Sul, a Argélia, a Bolívia, Cuba, Sérvia e Srpska, até o Hezbollah do Líbano e os Houthis do Iémen, estão do lado certo da História e da Humanidade. Que mal é que algum destes povos te fez a ti ou à Europa? Nenhum! Que mal é que esta gente faz ao mundo? Nenhum!

Nós, em Portugal, é que somos uma mera província sem qualquer independência nem acesso à verdade, num império dos EUA que é terrorista, antidemocrático, fascista, colaborador de nazis, e GENOCIDA.

Os soldados russos estão na sua fronteira e no seu território histórico a salvar gente que é vítima do nazismo ucraniano e do imperialismo ocidental.

Mas os nossos soldados andam a invadir o Kosovo (Sérvia), o Iraque, o Afeganistão, etc., onde quer que o imperador em Washington nos mande invadir.

A Rússia na Crimeia (onde só vivem russos) é “ilegal” e “agressão”, mas nós a exterminar meio milhão de palestinianos ou um milhão de iraquianos ou a colocar a al-Qaeda no poder na Síria é só “democracia e liberdade”.

E todos os que, como eu, já abriram os olhos e contrariam as mentiras do império GENOCIDA ocidental, dizem eles que somos todos “propagandistas do Putin”…

Queres saber como é que a Alemanha foi convencida nos anos 30? Foi assim. Manipulação em massa. Um povo inteiro a acreditar numa narrativa completamente separada da realidade. E a demonização/cancelamento de quem se opõe à narrativa do regime.

Tu, em 2025, ainda andares a acreditar na estrumeira que passa na CNN, é o equivalente a um alemão, em 1945, a andar a acreditar naquilo que a máquina de propaganda de Hitler dizia.

És uma vítima! Não tem mal nenhum abrires os olhos e admitires que foste enganado. Mal será, para todos nós, se a maioria continuar de olhos fechados e a negar a realidade.

https://estatuadesal.com/2025/04/24/dicionario-da-propaganda-ocidental/