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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Prabhat Patnaik - Poderia a Europa proporcionar uma "terceira via"?


Desigualdade crescente da riqueza.


Prabhat Patnaik [*]

Com a administração Trump a adotar medidas brutalmente repressivas não só contra os imigrantes mas também contra os cidadãos americanos, surgiu uma tendência nos círculos liberais americanos de olhar para a Europa como uma "terceira via", um "modelo" diferente tanto da China como dos EUA, as duas grandes potências em disputa no mundo atual. É claro que os liberais americanos nunca foram apaixonados pela China; portanto, não é surpreendente que rejeitem o "modelo" chinês. Mas com a democracia a enfraquecer nos próprios EUA, eles veem na Europa um potencial para combinar êxito económico com democracia eficaz, direitos humanos e justiça social. Para que esse potencial se concretize, acreditam que a Europa deve colocar a sua economia em ordem, mantendo as forças de extrema direita à distância.

Embora a democracia europeia possa parecer atraente para os liberais americanos, aos olhos do terceiro mundo ela sempre foi associada ao imperialismo, e isso continua a ser o caso mesmo após o fim formal dos impérios coloniais. A Grã-Bretanha tem sido cúmplice ativa na maioria das conspirações levadas a cabo pelo imperialismo norte-americano contra governos "recalcitrantes" do terceiro mundo que procuraram ou exerceram controlo independente sobre os seus próprios recursos naturais, desde Mossadegh no Irão, a Lumumba no Congo, a Saddam Hussein no Iraque. Quanto à França, a descolonização nunca foi concluída na África francófona, com tropas francesas continuando a estar estacionadas na maioria das antigas colónias francesas formalmente independentes. Quando Thomas Sankara, do Burquina Faso, procurou livrar-se das tropas francesas, foi derrubado e assassinado num golpe de Estado que se suspeita ter sido fortemente apoiado pela França; só agora é que está a ser feito um esforço renovado em alguns países da África Ocidental, incluindo o Burquina Faso, para se livrar das tropas francesas.

O apoio dado pela Europa ao genocídio em Gaza faz parte desse padrão; e, além disso, vários liberais europeus alinharam-se, pelo menos implicitamente, com o apoio de seus governos ao genocídio, como ficou evidente, por exemplo, quando o cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, questionado sobre esse genocídio, disse que a política deveria ser mantida separada do cinema.

Mas vamos esquecer tudo isso; vamos também esquecer o facto de que a Europa é responsável pelo naufrágio dos acordos de Minsk, que poderiam ter evitado a guerra na Ucrânia, e é hoje a oponente mais veemente de qualquer solução pacífica para este conflito. Esqueçamos a sua cumplicidade tanto no esforço para alargar a NATO até à fronteira russa como na derrubada de Viktor Yanukovych, que foi auxiliada e incentivada, como até o Instituto Cato, sediado nos EUA, admite, pela administração liberal de Obama. Examinemos apenas o argumento restrito sobre a possibilidade de a Europa proporcionar uma "terceira via".

O que este argumento geralmente pressupõe é que estas peripécias de Trump são devidas inteiramente às suas falhas pessoais; o que não questiona é por que razão uma pessoa assim chegou ao poder nos EUA e por que razão também na Europa o meio-termo liberal parece estar a desmoronar-se, tal como aconteceu com a eleição de Trump nos EUA. Dito de outra forma, o argumento não relaciona a eleição de Trump, ou as perspetivas políticas da Europa, com quaisquer causas económicas subjacentes, em particular com o estado atual do capitalismo.

A característica mais marcante do capitalismo contemporâneo que caracteriza tanto os EUA como a Europa é um enorme declínio na participação da classe trabalhadora no rendimento nacional. Na verdade, esse declínio foi tão grande que Joseph Stiglitz chega a sugerir que o salário real de um trabalhador americano médio em 2011 era inferior, em termos absolutos, ao de 1968. Também na Europa, de acordo com o Banco Central Europeu, os salários reais, que caíram drasticamente em termos absolutos em 2022-23, não recuperaram o seu nível do quarto trimestre de 2021 até ao quarto trimestre de 2024; e a crise energética na Alemanha, resultante da guerra na Ucrânia, só veio agravar os problemas da sua classe trabalhadora. No entanto, para além das flutuações específicas, tem havido um choque salarial geral para os trabalhadores europeus (tal como, de facto, para os trabalhadores americanos) decorrente do fenómeno da globalização neoliberal, que se prolonga há décadas, em que a mobilidade do capital sujeitou estes trabalhadores ao impacto nefasto das enormes reservas de mão-de-obra do terceiro mundo nas suas reivindicações salariais. A cólera dos trabalhadores dos países capitalistas avançados contra os regimes políticos liberais que promoveram os regimes económicos neoliberais é, portanto, significativa e compreensível; o enfraquecimento das forças políticas liberais em todos esses países, do chamado “meio-termo” entre a extrema direita e a esquerda, é o resultado direto disso.

Na verdade, esses elementos "centristas", seja Hilary Clinton nos EUA, o New Labour no Reino Unido, Macron na França ou Friedrich Merz na Alemanha, também têm sido notavelmente alheios e, portanto, indiferentes à situação dos trabalhadores nos seus respetivos países; e muitos deles são ex-funcionários de grandes empresas, como Merz, que trabalhou na gigante financeira Blackrock. Os trabalhadores, portanto, voltaram-se para a extrema-direita ou para a esquerda; e onde a esquerda foi frustrada pelas maquinações desse “centro”, como foi o caso de Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha ou Bernie Sanders nos EUA, eles migraram em grande número para a extrema-direita. Só em França é que uma esquerda unida conseguiu frustrar tais maquinações e emergiu como a formação política mais forte, empurrando a extrema-direita liderada por Marine Le Pen para o segundo lugar.

Reverter o declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional, que constitui uma condição necessária para obter o seu apoio e, portanto, para preservar a democracia contra o ataque da extrema direita, requer uma intervenção fiscal ativa por parte do Estado. Mas tal intervenção é impossível num mundo onde não há controlo de capitais, pois qualquer intervenção desse tipo daria origem a uma fuga de capitais do país que a tentasse. Por outras palavras, qualquer reversão do declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional requer uma retirada do regime neoliberal, que só a esquerda pode realizar; a extrema direita pode prometer uma melhoria nessa participação, mas necessariamente trairá essa promessa, uma vez que a extrema direita requer, para o seu sucesso, o apoio do capital monopolista, que obviamente não toleraria um declínio na sua própria participação no rendimento.

Os círculos liberais americanos que depositam as suas esperanças na Europa para fornecer um "modelo", uma "terceira via", e gostariam que a sua economia passasse por uma transformação, não abordam este ponto básico. Ou seja, que a espontaneidade do capitalismo, restaurada pelo neoliberalismo após a fase pós-guerra de intervenção estatal keynesiana, implica uma tendência imanente de desigualdade de rendimentos que trouxe sofrimento à classe trabalhadora e cuja consequência foi a ascensão da extrema-direita. A Europa não pode servir de "modelo" de qualquer tipo, a menos que essa espontaneidade seja superada através da intervenção de um governo sensível às necessidades da classe trabalhadora, ou seja, um governo de esquerda, o único capaz de tirar a economia das garras do neoliberalismo, impondo controlos de capitais. Esses círculos podem ver a necessidade de algum recuo em relação ao atual nível de globalização, mas os controlos de capitais vão ao cerne do neoliberalismo.

Não apenas as economias europeias, mas a economia mundial como um todo atingiu hoje um momento crítico, em que a preservação da democracia exige a chegada ao poder de governos sustentados pelo apoio da classe trabalhadora (ou, no caso dos países do terceiro mundo, pelo apoio do povo trabalhador como um todo, composto por trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e pequenos produtores). Os limites à ação governamental na Europa surgem não por causa da natureza e do nível da integração europeia, mas, como em todas as outras regiões do mundo, por causa da camisa de força do neoliberalismo. O problema com os liberais, o que também se aplica à tendência liberal americana que temos vindo a discutir, é que eles não estão suficientemente conscientes deste facto.

A situação difícil da Europa hoje não é, portanto, diferente da dos Estados Unidos. É verdade que ela teve uma história diferente e, assim, um legado económico diferente dos Estados Unidos, decorrente das correlações muito diferentes das forças de classe no final da Segunda Guerra Mundial; mas todas essas diferenças foram superadas atualmente pela exposição comum às tendências imanentes do capitalismo neoliberal. As consequências dessa exposição exigem não a busca de algum “modelo” europeu distinto do que vem acontecendo nos Estados Unidos, mas a superação do capitalismo neoliberal. Donald Trump, é preciso enfatizar, não conseguiu isso, apesar de sua agressividade tarifária: ele permanece fiel à essência do neoliberalismo por seu compromisso com o livre fluxo de capitais transfronteiriços, especialmente fluxos financeiros.

22/Fevereiro/2026

https://resistir.info/patnaik/patnaik_22fev26.html
Ver também:

World Inequality Report 2026 (para descarregamento, 208 p.)  in  https://wir2026.wid.world/

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0222_pd/can-europe-provide-“third-way”

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Prabhat Patnaik - A propósito da "civilização ocidental"


Prabhat Patnaik [*]

De acordo com uma reportagem publicada no Times of India (23 de novembro), os Estados Unidos pediram aos países europeus que restringissem a imigração a fim de preservar a "civilização ocidental". Muitos no Terceiro Mundo considerariam o termo "civilização ocidental" ridículo, especialmente se for usado no sentido de denotar algo precioso e que vale a pena preservar. As atrocidades cometidas pelos países imperialistas ocidentais contra povos de todo o mundo ao longo dos últimos séculos foram tão horrendas que usar o termo "civilização" para encobrir tal comportamento parece grotesco. Desde o colonialismo britânico, que provocou fomes na Índia que mataram milhões na sua tentativa voraz de extrair receitas de camponeses infelizes, até à brutalidade indescritível do rei Leopoldo da Bélgica contra o povo do que antes se chamava Congo, passando pelos campos de extermínio alemães na Namíbia que liquidaram tribos inteiras, é uma história de crueldade horrível infligida a pessoas inocentes sem outra razão senão a pura ganância. Não é surpreendente, neste contexto, que Gandhi, quando questionado por um jornalista sobre o que achava da "civilização ocidental", tenha respondido ironicamente:   "seria uma ideia muito boa".

Mas vamos ignorar toda essa crueldade e concentrar-nos apenas no avanço material alcançado pelo Ocidente. Este progresso material foi alcançado com base numa relação de exploração que os países imperialistas ocidentais desenvolveram em relação ao Terceiro Mundo, uma relação que deixou este último num estado tal que os seus habitantes hoje estão desesperados para dele escapar. A prosperidade ocidental não é um estado separado e independente alcançado apenas através da diligência ocidental; foi alcançada através de um processo de dizimação das economias dos países de onde os imigrantes estão a fugir. O que é ainda mais impressionante é que o imperialismo ocidental não quer apenas impedir o afluxo de imigrantes; quer impedir, mesmo através de intervenção armada, qualquer mudança na estrutura social dos países de origem dos imigrantes que possa levar a um desenvolvimento que impeça esse afluxo de imigrantes.

O meu argumento pode, naturalmente, ser descartado como exagero. Afinal, as economias ocidentais têm sido caracterizadas pela introdução de inovações notáveis que aumentaram drasticamente a produtividade do trabalho, o que, por sua vez, possibilitou um aumento dos salários reais e dos rendimentos reais das populações ocidentais. É essa capacidade de inovação que distingue o Ocidente e que falta ao Terceiro Mundo; ela constitui a differentia specifica entre as duas partes do mundo, a causa fundamental dos seus desempenhos económicos divergentes, devido aos quais os migrantes procuram mudar-se de uma parte para outra.

No entanto, há duas coisas a serem observadas sobre as inovações. Primeiro, as inovações são normalmente introduzidas quando se espera que o mercado para o produto que resultaria da inovação se expanda, razão pela qual as inovações não são introduzidas durante as depressões. Segundo, as inovações por si só não aumentam os salários reais; elas só o fazem quando há uma escassez no mercado de trabalho que surge por razões independentes. Durante um longo período da história, a expectativa de expansão do mercado para os produtos ocidentais foi gerada pela conquista dos mercados do Terceiro Mundo. A Revolução Industrial na Grã-Bretanha, que deu início à era do capitalismo industrial, não poderia ter sido sustentada se não houvesse mercados coloniais onde a produção artesanal local pudesse ser substituída pelos novos produtos fabricados por máquinas. O outro lado da inovação ocidental foi, portanto, a desindustrialização das economias coloniais, que criou enormes reservas de mão-de-obra nessas regiões.

Mesmo nos países onde foram introduzidas inovações, também foram criadas reservas de mão-de-obra devido ao progresso tecnológico, mas essas reservas foram reduzidas devido à migração em grande escala de mão-de-obra para regiões temperadas de colonização no estrangeiro, como o Canadá, os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul, onde massacraram e deslocaram as tribos locais das terras que ocupavam e cultivavam. Dentro dos países inovadores, portanto, a escassez foi introduzida no mercado de trabalho por meio dessa emigração em grande escala, devido à qual os salários reais puderam aumentar juntamente com as inovações que aumentaram a produtividade do trabalho. As reservas de mão-de-obra criadas nas colónias e semicolónias, no entanto, não puderam migrar para as regiões temperadas; elas foram mantidas confinadas às regiões tropicais e subtropicais, presas num síndrome de baixos salários, por meio de leis de imigração restritivas que perduram até hoje. Se o capital da metrópole pudesse ter fluído a fim de aproveitar os seus baixos salários para produzir bens para o mercado mundial com as novas tecnologias, então a diferença salarial poderia ter desaparecido. Mas isso não aconteceu. Apesar dos seus baixos salários, o capital das regiões temperadas não entrou nessas economias, exceto nos setores produtores de commodities primárias; e os bens manufaturados produzidos por produtores locais, utilizando essa mão-de-obra mal remunerada e adotando as novas tecnologias, não puderam entrar nos mercados das regiões temperadas devido às altas tarifas. Em suma, a inovação ocidental produziu prosperidade material na metrópole, porque foi complementada por uma estrutura segmentada da economia mundial.

Isso não é tudo. A difusão do capitalismo verificou-se dentro dessa estrutura segmentada:   juntamente com a mão-de-obra da Europa que migrou para as regiões temperadas, como a América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, o capital da Europa também começou a ser investido nessas novas terras como complemento à migração de mão-de-obra. No entanto, este capital foi extraído das colónias e semicolónias tropicais e subtropicais através da apreensão gratuita das suas receitas cambiais proveniente do resto do mundo, que constituíam grande parte do seu excedente económico, um processo que ficou conhecido como a "drenagem" do excedente.

A difusão do capitalismo durante o "longo século XIX" da Grã-Bretanha para a Europa Continental, Canadá e Estados Unidos assumiu a forma de manutenção de mercados britânicos abertos para os bens dessas regiões e de, em simultâneo, exportações de capital para elas; ou seja, a Grã-Bretanha tinha tanto um défice na conta corrente como na conta de capital em relação a essas regiões. O défice total, somando as contas correntes e de capital, da Grã-Bretanha em relação a essas três regiões mais proeminentes em 1910 era de 120 milhões de libras. Metade desse montante, de acordo com as estimativas do historiador económico S.B.Saul, foi liquidado às custas da Índia, através da apropriação pela Grã-Bretanha de todo o excedente de exportação da Índia em relação ao resto do mundo, e também do pagamento pela Índia das importações desindustrializantes da Grã-Bretanha que excediam as commodities primárias que vendia à Grã-Bretanha. Se considerarmos apenas a Europa Continental e os EUA, o défice total da Grã-Bretanha era de 95 milhões de libras, dos quais quase dois terços foram liquidados desta maneira às custas da Índia.

Assim, todo o desenvolvimento do capitalismo ocorreu historicamente através da criação de um mundo segmentado. A inovação que supostamente está na base da prosperidade material do Ocidente também ocorreu através dessa segmentação. Portanto, não é a inovação que explica por que o Ocidente se tornou próspero enquanto o Terceiro Mundo estagnou e entrou em declínio, mas sim esse facto da segmentação. Afinal, mesmo teorias como a de Joseph Schumpeter, que enfatizam as inovações como a causa da prosperidade material, mostram que todos os trabalhadores se beneficiam das inovações. Mas se apenas alguns trabalhadores são os beneficiários (além dos capitalistas, é claro), enquanto outros pertencentes a uma região diferente são excluídos desses benefícios, então a causa dessa divergência deve estar em outro lugar, não no fato de a inovação estar confinada a apenas uma região. A essência dessa segmentação era a exclusão deliberada de uma região do processo de desenvolvimento material, através da imposição de barreiras tarifárias contra os seus produtos, da proibição de impor barreiras tarifárias próprias contra os produtos da região metropolitana e da aquisição gratuita por parte desta última de uma parte do excedente económico produzido.

Os dias do colonialismo acabaram; além disso, o capital da metrópole agora está disposto a fluir para o Terceiro Mundo para produzir bens para o mercado mundial usando mão-de-obra local mal remunerada e novas tecnologias. Por que, então, a pobreza do Terceiro Mundo continua a permanecer nesta nova situação? Voltamos aqui à proposição de que as inovações, como tais, não aumentam os salários reais; teorias como a de Schumpeter, que afirmam o contrário, assumindo uma tendência espontânea do capitalismo para esgotar as reservas de mão-de-obra e avançar para o pleno emprego, estão simplesmente erradas. O progresso tecnológico no Terceiro Mundo através da disseminação de inovações, seja sob a égide do capital metropolitano ou do capital local, que tende tipicamente a economizar mão-de-obra, não reduz, portanto, o tamanho relativo de suas reservas de mão-de-obra e, consequentemente, a magnitude relativa da pobreza. A mão-de-obra do Terceiro Mundo não tem como migrar para as regiões temperadas.

Dois fatores irão agravar esta situação nos próximos tempos:   um são as tarifas de Trump que procuram exportar o desemprego dos EUA para o resto do mundo, especialmente para o Terceiro Mundo; e o outro é a introdução da Inteligência Artificial no quadro do capitalismo.

30/Novembro/2025

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/1130_pd/apropos-“western-civilisation”

terça-feira, 1 de abril de 2025

Prabhat Patnaik - O regresso do macartismo



Prabhat Patnaik [*]

A atual repressão da administração Trump à liberdade de expressão nos Estados Unidos faz lembrar assustadoramente a década de 1950, quando houve uma caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy que não só vitimou toda uma geração de artistas e intelectuais sob a acusação de serem comunistas, como também deixou uma marca negativa profunda na vida criativa daquele país durante décadas. As vítimas dessa caça às bruxas incluíram numerosas personalidades notáveis, desde artistas e escritores como Dashiel Hammet, Dalton Trumbo, Bertolt Brecht e Charles Chaplin, a académicos como Lawrence Klein, Richard Goodwin, E H Norman, Daniel Thorner, Moses Finlay e Owen Lattimore. Mesmo figuras públicas notáveis como J Robert Oppenheimer, que dirigiu o Projeto Manhattan para a construção de uma bomba atómica, e Harry Dexter White, que fundou o sistema de Bretton Woods (juntamente com J M Keynes do Reino Unido) não foram poupados:   foram convidados a comparecer perante uma ou outra das comissões criadas para investigar o comunismo nos EUA. O prejuízo para os EUA com esta caça às bruxas foi imenso. Há mesmo quem sugira que o país se envolveu na Guerra do Vietname porque os estudos disponíveis sobre o Leste e o Sudeste Asiático foram dizimados pelo McCarthyismo; se estivessem disponíveis, os EUA poderiam ter tirado partido deles e evitado entrar no atoleiro.

A semelhança entre o fenómeno macartista e as acções agora iniciadas por Trump é sentida por muitos; mas foi explicitamente articulada pelo Professor da Universidade de Columbia, Bruce Higgins (MR online, 21 de março). À primeira vista, pode parecer que traçar esse paralelo constitui um grande exagero. Afinal de contas, até agora só houve uma mão-cheia de casos de detenção e deportação; porquê ficar tão exaltado com isso e sugerir paralelos com a caça às bruxas macartista? Do mesmo modo, pode argumentar-se que os alvos até agora têm sido cidadãos não americanos, que residem no país quer com um visto quer com uma Green Card; isto é certamente diferente do período macartista, em que os cidadãos americanos, e não apenas os “forasteiros”, tinham sido vítimas da caça às bruxas.

Mas dificilmente se pode retirar muito conforto de tais considerações. Trump deixou claro que casos como o de Mahmoud Khalil são apenas o começo; seguir-se-ão acções em milhares de outros casos semelhantes. Mahmoud Khalil, recorde-se, era o estudante de Columbia titular de um Green Card e casado com uma cidadã americana que, por acaso, estava grávida de oito meses. Khalil foi detido e aguarda a deportação sob a acusação de ter ligações com “terroristas” por ter liderado as manifestações de estudantes de Columbia contra o genocídio em Gaza. Do mesmo modo, quando se verificar a deportação em larga escala de titulares de vistos e de Green Card, os cidadãos americanos que participarem em protestos contra genocídios do tipo de Gaza e também contra essas deportações, dificilmente serão poupados a acções punitivas. Também eles serão vitimados por apoiarem actividades “terroristas” estrangeiras. Em suma, é impossível, uma vez iniciado o processo de vitimização de uma parte da população por exprimir livremente as suas opiniões, sentirmo-nos seguros de que esse processo se limitará apenas a essa parte e não afectará o resto da população. É, portanto, justificado sentirmos que estamos no início de uma caça às bruxas ao estilo de McCarthy.

De facto, a caça às bruxas que se aproxima é ainda pior, em muitos aspectos, do que a lançada pelo Senador Joe McCarthy. Em primeiro lugar, a deportação de Mahmoud Khalil está a ser ordenada ao abrigo de uma disposição da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos de 1952, que afirma que qualquer “estrangeiro, cuja presença ou actividades nos Estados Unidos, o secretário de Estado tenha motivos razoáveis para acreditar, teria consequências adversas potencialmente graves para a política externa dos Estados Unidos, é deportável”. A invocação desta cláusula significa, de facto, que nenhum estrangeiro, quer seja titular de um visto ou de uma Green Card, pode criticar a política externa dos Estados Unidos. No caso de Khalil, por exemplo, a acusação contra ele, para além de ser próximo de uma organização “terrorista”, o Hamas (para a qual não foi apresentada qualquer prova), é de “antissemitismo”, que é uma das caraterísticas que a política externa dos EUA pretende combater em todo o mundo; a sua oposição ao genocídio infligido em Gaza por Israel é classificada como “antissemitismo” e, portanto, como tendo consequências adversas para a política externa dos EUA. Mas uma acusação semelhante pode ser feita contra qualquer “estrangeiro” que critique qualquer aspecto da política externa dos EUA; e mesmo os cidadãos americanos que “ajudem e sejam cúmplices” desses “estrangeiros”, participando em manifestações contra a política externa dos EUA, um eufemismo para actos do imperialismo americano noutras partes do mundo, podem sem dúvida ser também acusados.

Por outras palavras, o âmbito da atual caça às bruxas é ainda mais vasto do que o do senador Joe McCarthy. Não é apenas dirigida contra um segmento da população, nomeadamente os comunistas e os seus simpatizantes, como era o caso do macartismo; pelo contrário, é dirigida contra qualquer pessoa que ouse criticar a política externa dos EUA e, acima de tudo, a política dos EUA de controlar a Ásia Ocidental através de um colonato israelense agressivo e expansionista.

Em segundo lugar, o macartismo foi desencadeado no contexto da Guerra Fria. A própria Guerra Fria fazia parte da luta do imperialismo contra o prestígio e o apêlo que a União Soviética havia adquirido durante a Segunda Guerra Mundial; criou o fantasma da agressão soviética, embora a União Soviética, devastada pela guerra, não tivesse quaisquer intenções agressivas. Em suma, o macartismo fazia parte de uma estratégia imperialista muito específica num contexto muito específico; mas a atual ofensiva de Trump surge numa situação em que o imperialismo não pode apresentar qualquer ameaça específica de qualquer potência em particular. Destina-se simplesmente a encobrir a agressividade do imperialismo num mundo em que nenhuma potência específica pode ser citada como uma ameaça, mas em que um grande número de países, empurrados para a parede pela crise infligida pela ordem neoliberal, procuram algum alívio aos acordos económicos que lhes são impostos. O contexto para o ataque de Trump é a falência moral do imperialismo e não a estatura moral subitamente reforçada de qualquer potência não imperialista em particular.

Em terceiro lugar, o facto de o ataque de Trump à liberdade de expressão ter um alvo mais vasto do que o do macartismo é confirmado pela forma totalmente anticonstitucional e peremptória como a sua administração está a ditar às universidades americanas a forma como devem conduzir os seus assuntos e a reter fundos federais no caso de se oporem. Assim, foram retidos 450 milhões de dólares de fundos federais à Universidade de Columbia [NR] se esta não acedesse à exigência da administração Trump de proceder a uma série de alterações no seu funcionamento; e a universidade terá alegadamente acedido agora a estas exigências, o que truncará grandemente a liberdade académica. Condicionar o acesso das universidades a fundos federais à sua gestão a contento do governo é tanto uma violação da autonomia da universidade como do seu ambiente académico. Obriga as universidades a tornarem-se órgãos do governo e não espaços de pensamento criativo e crítico. Trata-se de uma inovação inédita em comparação com o macartismo.

Por outras palavras, estamos a assistir a uma investida neofascista contra o pensamento que é ainda mais vasta do que a investida macartista da década de 1950. É claro que mesmo no resto dos países imperialistas que não têm regimes neofascistas no poder, o pensamento crítico e a liberdade de expressão também estão a ser atacados. Na Europa, por exemplo, não só se assiste a uma ameaça totalmente infundada de expansionismo russo (quando a realidade é o expansionismo da NATO até às fronteiras da Rússia e até o estacionamento de tropas alemãs na Lituânia), mas também a um apoio total à ação israelense em Gaza. De facto, qualquer crítica à ação israelense está a ser alcunhada de antissemitismo; e reuniões para discutir o genocídio em Gaza foram canceladas na Alemanha por ordens oficiais.

Assim, os países imperialistas, quer sejam governados por regimes neofascistas, quer por regimes burgueses liberais, estão a atacar fortemente a liberdade de expressão e estão a tornar-se mais repressivos; os regimes neofascistas são, evidentemente, comparativamente mais repressivos, mas os regimes burgueses liberais não ficam muito atrás. Além disso, isto está a acontecer numa altura em que os países imperialistas também estão a aumentar as despesas militares. A Alemanha acaba de aprovar uma alteração constitucional que eleva o limite máximo do seu défice orçamental, de modo a poder gastar mais em armamento. Também a França e o Reino Unido estão a aumentar as suas despesas militares em relação ao seu produto interno bruto. Em suma, o capitalismo metropolitano está a entrar numa fase de militarismo repressivo como não se via desde a Segunda Guerra Mundial, o que é um mau presságio para os povos do mundo.

30/Março/2025

[NR] Ver In complying with Trump’s demands to crack down on free speech, Columbia confesses that money, not education, is its goal

Ver também:
The dark, McCarthyist history of deporting activists

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0330_pd/return-mccarthyism

domingo, 2 de março de 2025

Prabhat Patnaik - A estratégia de renascimento do imperialismo


– Se Biden empurrou o imperialismo para um canto, a saída de Trump desse canto só o levará a ser empurrado para outro canto.

Prabhat Patnaik [*]


A política externa de Donald Trump deixou os comentadores num verdadeiro alvoroço. As suas posições marcadamente diferentes em relação à Ucrânia e a Gaza, no primeiro caso aparentemente em busca da paz, e no segundo a pedir a limpeza étnica de toda uma população, deixaram-nos a pensar se a sua influência nos assuntos mundiais é “positiva” ou não. No entanto, a razão de tal perplexidade não reside em nada do que Trump fez, mas sim no desconhecimento do fenómeno do imperialismo. Não restam dúvidas de que o imperialismo ocidental, liderado pelos EUA, se viu encurralado num canto, onde a escolha era entre uma escalada desastrosa da guerra na Ucrânia, até ao ponto de um confronto nuclear, ou uma erosão gradual da hegemonia imperialista. Donald Trump está a tentar libertar o imperialismo de uma esquina tão impossivelmente complicada. A questão não é se ele é “pela paz” ou “pela guerra” ou se tem em conta os interesses europeus ou não; a questão é que ele está a seguir uma estratégia imperialista alternativa que salvaria o imperialismo deste beco sem saída, e está em posição de o fazer porque não está contaminado pela política anterior que criou este beco sem saída .

O seu método para reafirmar a hegemonia imperialista que estava a ser gradualmente corroída é uma combinação de cenoura e pau. O pressuposto básico subjacente à provocação que deu origem à guerra na Ucrânia, nomeadamente que a Rússia poderia ser levada a render-se aos ditames ocidentais em resultado dessa provocação, provou ser falso. Não só a Ucrânia tem perdido terreno de forma constante durante a guerra, como as sanções económicas contra a Rússia, que supostamente iriam “reduzir o rublo a escombros”, foram totalmente contraproducentes. O rublo, após uma breve queda temporária, recuperou para um nível face ao dólar que era ainda mais elevado do que antes das sanções e, além disso, estas sanções produziram uma reação em que um desafio à hegemonia do dólar passou a estar na ordem do dia.

A cimeira de Kazan dos países BRICS colocou a “desdolarização” como uma possibilidade séria. As sanções imperialistas unilaterais, desde que dirigidas contra um pequeno número de países, podem ser bastante eficazes; mas quando visam um grande número de países e também países tão grandes, tão desenvolvidos e tão ricos em recursos como a Rússia, não só perdem a sua eficácia como sanções, como encorajam a formação de um bloco de países contra todo o arranjo imperial dominante que passa por ordem económica internacional, e esta alternativa tende a atrair para o seu seio mesmo países não sancionados.

É exatamente isto que tem acontecido e que Trump enfrentou quando chegou ao cargo. A parte do pau do seu método cenoura e pau é bem conhecida. Ameaçou impor tarifas pesadas contra os países que aderissem à desdolarização, o que é um ato imperialista flagrante e contra todas as regras do jogo capitalista; afinal de contas, qualquer país, de acordo com estas regras, tem a liberdade de negociar na moeda que quiser, desde que o seu parceiro comercial esteja disposto a isso, e também de deter a sua riqueza na moeda que desejar. Limitar essa liberdade através da imposição de tarifas elevadas contra esse país é uma manobra de braço de ferro flagrante que nenhuma ordem internacional pode apoiar explicitamente; mas Trump, como imperialista aberto e implacável, não teve quaisquer escrúpulos em exercer essa coerção económica de forma bastante explícita.

A sua tentativa de pôr fim à guerra na Ucrânia é a cenoura deste método de cenoura e pau. Em vez de se formar um bloco de poder alternativo contra os EUA e contra o imperialismo ocidental em geral, o fim desta guerra em termos que não sejam desfavoráveis à Rússia mante-la-á fora de qualquer bloco alternativo. Deste modo, prejudicará as tentativas em curso de desafiar a hegemonia imperialista.

É claro que qualquer fim para a guerra da Ucrânia baseado em negociações deve ser bem recebido por todos, mas ver esse fim como o resultado de um desejo de paz, ou como a busca dos interesses dos EUA à custa das “preocupações de segurança” europeias, é totalmente erróneo. Trump não está numa missão de paz, caso contrário não teria feito os comentários absolutamente beligerantes sobre Gaza. De facto, o capitalismo é, pela sua própria natureza, contra a paz:   como o socialista francês Jean Jaures observou de modo memorável, “o capitalismo transporta a guerra dentro de si, tal como as nuvens transportam a chuva”. O que motiva Trump é o desejo de colocar a hegemonia imperialista em melhores condições e não um desejo de paz. Da mesma forma, a questão da segurança europeia é uma completa pista falsa:   A segurança europeia nunca foi ameaçada pela Rússia, e toda a conversa sobre a ameaça de um “imperialismo russo” invadir a Europa foi apenas uma desculpa para justificar o expansionismo da NATO. Por isso, não há qualquer dúvida de que a segurança europeia está a ser prejudicada pela iniciativa de paz de Trump.

A diferença de Trump em relação às cliques dominantes europeias surge devido a duas estratégias alternativas diferentes que o imperialismo pode seguir atualmente. Uma é a velha estratégia de Biden de agressão contra a Rússia, que chegou a um beco sem saída; e a outra é uma estratégia alternativa de acabar com a guerra da Ucrânia e afastar a Rússia de um bloco de oposição contra a hegemonia do imperialismo ocidental. Os governantes europeus estão agarrados à primeira, enquanto Trump está a tentar a segunda. Temos de ver a oposição do [partido] AfD neonazi na Alemanha à guerra da Ucrânia exatamente nos mesmos termos:   a sua extrema agressividade em relação à Palestina, em contraste com o seu desejo de pôr fim à guerra da Ucrânia, não é sintomática nem de um desejo geral de paz nem de uma despreocupação com a “segurança europeia”, mas de uma certa posição estratégica.

É claro que o projeto de Trump de libertar o imperialismo do canto para onde foi empurrado é simultaneamente um projeto de afirmação da hegemonia dos EUA sobre o bloco imperialista como um todo. O seu slogan “Make America Great Again” é um projeto de recriação de um mundo inquestionavelmente dominado pelo imperialismo ocidental, com os EUA como seu líder inquestionável. Neste sentido, é uma continuação da estratégia de tornar a Europa dependente das fontes de energia americanas, que foi representada pela explosão do gasoduto Nord Stream II da Rússia para a Europa, alegadamente pelo “Estado Profundo” dos EUA.

Há, no entanto, uma grande contradição na estratégia de Trump. Há um preço a ser pago pela “liderança” do mundo capitalista – e Trump quer um papel de “liderança” para os EUA sem pagar esse preço. O preço é o seguinte:   o “líder” deve tolerar défices comerciais em relação a outras grandes potências capitalistas, a fim de acomodar as suas ambições e impedir que o mundo capitalista como um todo se afunde numa crise. Foi isso que a Grã-Bretanha fez durante os anos da sua “liderança” e é isso que os EUA têm feito no período mais recente. O facto de a Grã-Bretanha ter um défice comercial em relação à Europa Continental e aos EUA, que eram as outras grandes potências da época, não a prejudicou, porque equilibrou esse défice, entre outras coisas, reivindicando um excedente de rendimentos invisíveis em relação ao seu império colonial, a maior parte do qual era um excedente inventado, contra o qual extraiu um “dreno” dessas colónias de conquista, com o qual liquidou o seu défice com outras grandes potências capitalistas.

No entanto, os EUA do pós-guerra não se encontram numa posição “afortunada” semelhante; o facto de terem um défice comercial em relação a outras grandes potências fê-los afundarem-se cada vez mais em dívidas. A sua tentativa de evitar um endividamento ainda mais profundo – que faz parte do projeto “Make America Great Again” de Trump e para o qual ele está em vias de impor tarifas contra todos os seus parceiros comerciais, numa situação em que a procura global na economia mundial capitalista não está a expandir-se devido à pressão do capital financeiro globalizado para evitar défices orçamentais e a tributação dos ricos em favor do aumento da despesa pública em todo o lado – só irá acentuar a crise capitalista mundial, com um fardo particularmente pesado a recair sobre o mundo capitalista não americano.

A estratégia de Trump para o renascimento do imperialismo equivale, portanto, a ter o bolo e comê-lo também. A sua tentativa de afirmar a liderança dos EUA ao mesmo tempo que procura impor tarifas a outros equivale a uma política de “mendigar ao vizinho” em relação ao resto do mundo. Tal política de “mendigar ao vizinho”, que equivale a assegurar o crescimento para si próprio arrebatando mercados aos outros, é fundamentalmente inimiga do projeto de reafirmação da hegemonia imperialista. Se Biden empurrou o imperialismo para um canto, a saída de Trump desse canto só o levará a ser empurrado para outro canto.
  
02/Março/2025
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0302_pd/imperialism’s-revival-strategy
https://resistir.info/patnaik/patnaik_02mar25.html

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Prabhat Patnaik - O ataque mundial aos trabalhadores




Proposição da “supply-side economics”:   “Os ricos trabalham melhor se lhes pagarem mais, enquanto os pobres trabalham melhor se lhes pagarem menos”.

*  Prabhat Patnaik [*]


Sob o capitalismo tardio, há um ataque ao povo trabalhador que faz lembrar o capitalismo inicial e este ataque é mundial, não só no terceiro mundo como também nos países capitalistas avançados. O ataque ocorre a três níveis:   económico, político e ideológico.

O assalto a nível económico tem sido muito falado e é o resultado tanto do aumento da inflação como do grande aumento do desemprego que atualmente afligem o mundo capitalista. A inflação mais elevada foi iniciada por um aumento espontâneo das margens de lucro administrado pelo grande capital, em particular nos Estados Unidos, que depois se espalhou por todo o mundo capitalista (o mecanismo desta propagação não será discutido aqui, mas num artigo posterior); e o aumento do desemprego é o resultado conjunto tanto da crise capitalista mundial como das tentativas oficiais de conter a inflação em todo o lado à custa da classe trabalhadora, reduzindo deliberadamente o emprego. A esperança oficial é que a força negocial dos trabalhadores seja suficientemente reduzida pelo aumento do desemprego, de modo a que não possam negociar salários monetários mais elevados para compensar a subida dos preços, o que acabaria por fazer com que a inflação se atenuasse.

O capitalismo nos primeiros anos da Revolução Industrial na Grã-Bretanha, já salientado por historiadores como Eric Hobsbawm, caracterizou-se por um aumento da pobreza; do mesmo modo, o capitalismo tardio também está a assistir hoje a um aumento do nível de privação absoluta para os trabalhadores. Joseph Stiglitz argumentou que o salário médio real de um trabalhador americano do sexo masculino em 2011 era ligeiramente inferior ao de 1968; com a atual inflação, os salários reais de hoje seriam ainda mais baixos do que em 2011 e, portanto, também em comparação com 1968. Se acrescentarmos a isto o maior desemprego atual nos EUA em comparação com 1968 (a taxa de desemprego oficial camufla este facto, uma vez que não tem em conta a redução da taxa de participação dos trabalhadores devido ao “efeito do trabalhador desencorajado” que funciona num período de desemprego elevado), não restam muitas dúvidas quanto ao aumento do empobrecimento entre os trabalhadores americanos. O mesmo se pode dizer dos trabalhadores de outros países capitalistas avançados. Em países como a Índia e o resto do Terceiro Mundo, há provas claras de um declínio do nível nutricional da população, medido pelo declínio da absorção per capita de cereais alimentares (considerando a soma dos cereais diretamente consumidos, utilizados como alimento para produtos animais e transformados em produtos alimentares) no período desde a década de 1980. Daqui se pode inferir um aumento inequívoco do nível absoluto de pobreza entre os trabalhadores. Por conseguinte, não se pode duvidar do ataque económico aos trabalhadores do mundo capitalista, sobretudo aos trabalhadores pobres.

Contudo, este ataque económico é impossível de sustentar sem restringir os direitos políticos do povo trabalhador; ou seja, sem um ataque político simultâneo contra eles. E esse ataque político tomou a forma do neofascismo que emergiu em grande escala por todo o mundo capitalista. Líderes neofascistas encabeçam regimes em muitos países agora, de Milei na Argentina, a Meloni na Itália, a Trump nos EUA, a Modi na Índia, a Orban na Hungria, a Erdogan na Turquia, para não mencionar Netanyahu em Israel, embora ele esteja em uma categoria própria; e em muitos outros países formações neofascistas estão na expectativa de tomar o poder, como o AfD na Alemanha e o partido de Marine Le Pen na França (neste último caso, frustrado até agora por uma Esquerda Unida).

O ataque político contra o povo trabalhador desencadeado por estas formações neofascistas combina a repressão direta dos trabalhadores e dos sindicalistas e a redução legal dos direitos dos trabalhadores com uma mudança de discurso, de ódio ao "outro", a alguma minoria infeliz e criando aversão entre ela e a maioria. Uma tal mudança de discurso não só relega para segundo plano as questões da vida material quotidiana dos trabalhadores, como também os divide em função de linhas religiosas ou étnicas (com repúdio ao "outro"escolhido), de modo a que não consigam montar uma resistência unida contra a privação económica que lhes foi infligida.

No entanto, para além deste ataque económico e político contra os trabalhadores, o que se torna agora particularmente notório é o ataque ideológico. Este também não se limita a comentários ocasionais feitos por esta ou aquela pessoa. Esses comentários contra os trabalhadores estão a ser feitos em todo o mundo, o que sugere o surgimento de uma conjuntura de ataque ideológico contra os trabalhadores.

Na Índia, face a esta carência económica, várias formações políticas, tentando adquirir poder político num regime económico incapaz de produzir mais emprego, têm oferecido transferências às populações. Estas transferências, demasiado pequenas para anular o empobrecimento económico do povo trabalhador (caso contrário, não teríamos assistido à privação nutricional mencionada anteriormente), foram, no entanto, atacadas pelos neofascistas no poder e pelo Primeiro-Ministro Modi como sendo “borlas” ("freebies"). Embora o próprio partido no poder tenha sido forçado, por compulsões eleitorais, a oferecer tais transferências à população, este ataque às transferências foi agora retomado por outros. O empresário que tinha pedido recentemente uma semana de 90 horas para os trabalhadores (pretendendo, de facto, criar um ambiente do tipo Auschwitz nas fábricas indianas), interveio, alegando que tais transferências, ou “brindes”, como ele também optou por lhes chamar, induzem as pessoas a não trabalhar. E agora também um juiz do Supremo Tribunal aderiu a este coro, sugerindo que as transferências impedem as pessoas de trabalhar, uma vez que podem ficar em casa, sem fazer nada e continuar a receber a sua “borla”. Se este juiz do Supremo Tribunal tivesse tornado obrigatório que o governo oferecesse empregos decentes às pessoas em vez de transferências, então a questão teria sido diferente; mas as suas observações foram feitas apenas contra as transferências, não a favor da oferta de emprego decente.

É claro que essas pessoas argumentariam que os empregos existem, mas são escassos; mas não só não apresentam provas para tal afirmação, como também não apresentam provas sobre o nível dos salários que estão a ser oferecidos para esses empregos que dizem estar a faltar. A própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) constatou que na Índia existe uma grave falta de oportunidades de emprego digno. Os dados do governo sobre o emprego são gravemente errados, porque mostram que o trabalho não remunerado das mulheres em empresas familiares está a crescer, e este crescimento é contado como crescimento do emprego; mas este crescimento reflete a falta de emprego remunerado noutros locais e, por conseguinte, constitui aquilo a que os economistas geralmente chamam “desemprego disfarçado”.

Exatamente o mesmo ataque ideológico contra os trabalhadores está a ocorrer também nos EUA. Elon Musk, que dirige o “Department of Government Efficiency” (DOGE) criado por Donald Trump, é propenso, pelas suas observações, a efetuar cortes nos benefícios do Medicaid, Medicare e Segurança Social para os pobres, uma apreensão expressa pelo Senador Bernie Sanders recentemente (MR online, 13/Fevereiro). E este ataque às transferências para os pobres está a ser levado a cabo, segundo Sanders, a fim de que o dinheiro possa ser desviado para a concessão de reduções fiscais aos ricos, entre os quais se encontram pessoas como o próprio Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg.

Trata-se de uma ofensiva ideológica de grande envergadura, que se enquadra nos princípios da chamada “supply-side economics”. John Kenneth Galbraith, o economista liberal, disse que a essência da “economia do lado da oferta” era a proposição de que “os ricos trabalham melhor se lhes pagarem mais, enquanto os pobres trabalham melhor se lhes pagarem menos”. Isto está a ser propagado agora por pessoas como Trump e Musk.

No entanto, há aqui uma ironia. A prossecução desta ideologia, que procura justificar que se tire dinheiro aos pobres para o dar aos ricos, só vai agravar ainda mais a crise capitalista. Uma vez que os pobres consomem mais por cada dólar que recebem, em comparação com os ricos, essa redistribuição apenas significará uma maior contração da procura de consumo agregado; e uma vez que o investimento dos capitalistas depende do crescimento esperado do mercado que, por sua vez, depende da experiência real de crescimento do mercado, simplesmente dar-lhes benefícios fiscais não aumentará o seu investimento nem um bocadinho. O resultado líquido será uma redução da procura agregada (considerando o consumo e o investimento em conjunto), o que só irá agravar a crise.

John Maynard Keynes, nos anos 30, que era um defensor do capitalismo e receava que algo como a Revolução Bolchevique pudesse ultrapassá-lo no Ocidente, havia sugerido que, para salvar o sistema capitalista, era necessário aumentar a procura agregada através do esforço governamental; aquilo a que estamos a assistir no capitalismo contemporâneo é exatamente o oposto disto, o que terá sem dúvida implicações políticas de grande alcance.

23/Fevereiro/2025  
Cartoon, autor desconhecido.

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0223_pd/worldwide-assault-working-people

https://resistir.info/patnaik/patnaik_23fev25.html

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Prabhat Patnaik - O estado bizarro da democracia ocidental


 * Prabhat Patnaik  [*]


Durante todo o período do pós-guerra em que existiu nos países metropolitanos, a democracia nunca esteve num estado tão bizarro como o atual. Supõe-se que a democracia significa a prossecução de políticas que estão em conformidade com os desejos do eleitorado. A conformidade entre os dois é tipicamente assegurada sob o domínio burguês pelo governo que decide sobre as políticas de acordo com os interesses da classe dominante, e depois tem uma máquina de propaganda que persuade o povo sobre a sabedoria dessas políticas. A conformidade entre a opinião pública e o que a classe dominante quer é assim alcançada de uma forma complexa cuja essência reside na manipulação da opinião pública.

Mas o que se passa atualmente é completamente diferente:   a opinião pública, apesar de toda a propaganda que lhe é dirigida, quer políticas completamente diferentes das que são sistematicamente seguidas pela classe dominante. Por outras palavras, as políticas favorecidas pela classe dominante estão a ser prosseguidas apesar de a opinião pública se opor palpável e sistematicamente a elas. Isto é possível graças ao facto de a maioria dos partidos políticos se alinhar por essas políticas; ou seja, graças ao facto de um espetro muito vasto de formações políticas ou partidos apoiar essas políticas contra a vontade da maioria do eleitorado. A situação atual caracteriza-se, portanto, por duas caraterísticas distintas:   em primeiro lugar, uma ampla unanimidade entre a maior parte das formações políticas (partidos); e, em segundo lugar, uma total falta de congruência entre o que estes partidos acordam e o que as pessoas querem. Esta situação não tem precedentes na história da democracia burguesa. Além disso, estas políticas não dizem respeito a questões menores relativas a este ou aquele assunto, mas a questões fundamentais de guerra e paz.

Tomemos o exemplo dos Estados Unidos. A maioria das pessoas naquele país, de acordo com todas as sondagens de opinião disponíveis, está chocada com a guerra genocida de Israel contra o povo palestino; gostariam que os EUA pusessem fim à guerra e não continuassem a fornecer armas a Israel para a prolongar. Mas o Governo dos EUA está a fazer precisamente o contrário, mesmo correndo o risco de fazer escalar a guerra para envolver todo o Médio Oriente. Da mesma forma, a opinião pública nos EUA não quer a continuação da guerra na Ucrânia. É a favor do fim do conflito através de uma paz negociada; mas o governo dos EUA (juntamente com o do Reino Unido) tem sistematicamente torpedeado todas as possibilidades de uma solução pacífica. A sua oposição aos acordos de Minsk, uma oposição transmitida à Ucrânia através da viagem do primeiro-ministro britânico Boris Johnson a Kiev, foi o que deu início à guerra; e mesmo agora, quando Putin tinha feito algumas propostas para estabelecer a paz, incitou a Ucrânia a lançar a sua ofensiva de Kursk, que pôs fim a todas as esperanças de paz. O que é significativo é o facto de tanto os Republicanos como os Democratas nos EUA estarem de acordo com esta política de fornecimento de armas a Netanyahu e Zelensky, apesar de a opinião pública desejar a paz e apesar de qualquer aventureirismo da Ucrânia correr o risco de desencadear uma conflagração nuclear.

Este contraste entre o que o povo quer, apesar de toda a propaganda a que tem sido sujeito, e o que o establishment político ordena, aflige todos os países metropolitanos; mas em nenhum outro lugar é tão flagrante como na Alemanha. A guerra da Ucrânia afecta diretamente a Alemanha de uma forma que não atinge nenhum outro país metropolitano, uma vez que a Alemanha estava inteiramente dependente do gás russo para as suas necessidades energéticas. As sanções contra a Rússia causaram uma escassez de gás; e a importação de substitutos mais caros dos EUA fez subir os preços do gás para níveis que afectam fortemente o nível de vida dos trabalhadores alemães. Os trabalhadores alemães exigem urgentemente o fim da guerra na Ucrânia, mas nem a coligação no poder, constituída pelos Sociais-Democratas, os Democratas Livres e os Verdes, nem a principal oposição, constituída pelos Democratas-Cristãos e os Socialistas-Cristãos, estão a mostrar qualquer interesse numa resolução pacífica do conflito. Pelo contrário, a classe política alemã está a tentar suscitar o medo de que apareçam tropas russas nas fronteiras alemãs, quando, ironicamente, são tropas alemãs que estão atualmente estacionadas na Lituânia, nas fronteiras da Rússia!

No seu desespero para pôr fim à guerra na Ucrânia, os trabalhadores alemães estão a voltar-se para o AfD neofascista, que professa ser contra a guerra (embora se saiba que irá inevitavelmente trair esta promessa assim que se aproximar do poder) e para o novo partido de esquerda de Sahra Wagenknecht, que se separou do partido de esquerda-mãe, Die Linke, precisamente por causa desta questão da guerra.

Exatamente o mesmo se passa com as atitudes alemãs em relação ao genocídio em Gaza. Enquanto a maior parte da população alemã se opõe a este genocídio, o governo alemão criminalizou toda a oposição ao genocídio israelense, alegando que constitui “anti-semitismo”. Chegou mesmo a interromper uma convenção que estava a ser organizada para protestar contra o genocídio, para a qual tinham sido convidados oradores de renome internacional como Yanis Varoufakis. A utilização do bastão do “anti-semitismo” para derrotar toda a oposição à agressão de Israel também é generalizada noutros países metropolitanos. Na Grã-Bretanha, Jeremy Corbyn, o antigo líder do Partido Trabalhista, foi expulso do partido, ostensivamente com base no seu chamado “anti-semitismo”, mas na realidade devido ao seu apoio à causa palestina; e as autoridades universitárias dos EUA invocaram esta acusação contra os protestos universitários generalizados que abalaram o país.

Este tipo de domínio sobre a opinião pública é normalmente conseguido mantendo estas questões candentes da paz e da guerra fora da discussão política. Nas próximas eleições presidenciais americanas, por exemplo, uma vez que ambos os candidatos, Donald Trump e Kamla Harris, concordam com o fornecimento de armas a Israel, esta questão em si não figurará em nenhum debate presidencial ou na campanha presidencial. Enquanto outros temas em que divergem ocuparão um lugar central, o tema crucial que afecta as pessoas e sobre o qual têm uma opinião diferente da dos concorrentes não será objeto de debate.

Uma razão para o apoio do establishment político às acções israelenses, que está longe de ser negligenciável, é o generoso financiamento ao mesmo de doadores pró-Israel. De acordo com um relatório publicado na Delphi Initiative (21 de agosto), metade do gabinete de Keir Starmer, o recém-eleito primeiro-ministro trabalhista da Grã-Bretanha, havia recebido dinheiro de fontes pró-Israel para disputar as eleições que os levaram ao poder. O mesmo número da mesma revista informa também que um terço dos membros conservadores do parlamento britânico havia recebido dinheiro de fontes pró-Israel para as eleições. Por outras palavras, o dinheiro a favor de Israel está disponível para ambos os principais partidos da Grã-Bretanha, o que torna o apoio às ações israelenses um assunto bipartidário.

Por outro lado, o que acontece àqueles que se colocam ao lado da Palestina é ilustrado por dois casos nos EUA:   os membros do Congresso, Jamaal Bowman e Cori Bush, ambos representantes negros progressistas, que simpatizavam com a causa palestina e eram fortes críticos do genocídio israelense, foram derrotados pela intervenção do AIPAC (American-Israel Public Affairs Committee), um poderoso lobby pró-Israel, que investiu milhões de dólares no esforço. A Delphi Initiative de 31 de agosto informa que foram gastos 17 milhões de dólares para a derrota de Bowman e 9 milhões de dólares para a campanha publicitária contra Cori Bush. É interessante notar que a campanha contra Cori Bush não mencionou a agressão de Israel a Gaza, pois a AIPAC sabia que, nessa questão específica, o público teria apoiado Cori Bush e não o seu adversário, frustrando assim os seus planos para a sua derrota. O que tudo isto significa é que uma decisão fundamental sobre a guerra e a paz, que afecta toda a gente, está a ser tomada nos países metropolitanos , contra a vontade dos povos, por um establishment político que é financiado por lóbis com interesses instalados.

Assim, na metrópole, passou-se da “manipulação do dissenso” através da propaganda para a ignorância total do dissenso, mesmo o dissenso de uma maioria que se revelou imune à propaganda. Trata-se de uma nova etapa na atenuação da democracia, uma etapa caracterizada por uma falência moral sem precedentes do poder político. Essa falência moral do poder político tradicional constitui também o contexto para o crescimento do fascismo; mas, quer o fascismo chegue ou não ao poder, a atenuação da democracia nas sociedades metropolitanas já retirou ao povo um poder sem precedentes.

08/Setembro/2024

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2024/0908_pd/bizarre-state-western-democracy

Este artigo encontra-se em resistir.info