Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Susana Peralta - Chega e o seu financiamento
sábado, 31 de janeiro de 2026
Jaime Nogueira Pinto - Uma escolha política
O duelo
político, com a tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae
venturiano, quer agora transformar-se na escolha aparentemente apolítica do
candidato com o perfil mais presidenciável.
31 jan. 2026
No Domingo, 8
de Fevereiro, a escolha, agora pintalgada como meramente protocolar,
não-ideológica e “moral”, vai ser particularmente consequente e política.
E Ventura, que
há meia dúzia de anos surgiu como “o Perturbador” daquilo a que começou logo
por chamar “o sistema”, está no centro da escolha e da perturbação, gerando uma
coligação negativa, cuja amplitude seria então difícil de imaginar.
Ora esta
polarização não se passa só em Portugal. Depois do fim da União Soviética e do
sonho globalista do comunismo, veio um globalismo plutocrático alternativo e,
com ele, a deslocalização e desindustrialização de muitos países da
Euro-América. Na Europa, esse globalismo tomou a forma de federalismo europeu,
um federalismo ideológico e económico impulsionado a partir de Bruxelas e da
Comissão Europeia.
Estes
movimentos globalistas, a par da imigração, ao irem contra as nações e as
identidades e ao causarem um empobrecimento relativo das comunidades atingidas,
levantaram fortes reacções populares a que os partidos do chamado Centrão, da
esquerda socialista e social-democrata à direita social-democrata e
democrata-cristã, não foram capazes de responder, gerando muitos “deixados para
trás”. Daí vieram as novas forças políticas nacionalistas, populares e
nacionais-conservadoras que, na Europa e nas Américas, apareceram como uma
“nova direita” essencialmente nascida do voto popular, em democracia e pela
democracia.
Em Portugal, as
condições especiais geradas pelo 25 de Abril, que trouxe uma situação de
pré-revolução comunista década e meia antes do fim do comunismo na Rússia e na
Europa Oriental, pesaram muito para que se mantivesse um regime governado pelo
Centrão, com tutela cultural esquerdista.
Quando André
Ventura e o Chega apareceram, ainda que centrados numa dialéctica anti-sistema
e num discurso tribunício e populista, com uma natural nota de generalização e
de excesso, foram-se afirmando casuisticamente valores de orientação esquecidos
ou negligenciados: a nação, a família, o trabalho, a identidade, o controlo da
imigração.
Por ironia do
destino, António José Seguro, que havia de correr contra ele, era alguém por
quem a esquerda do Partido Socialista e a Extrema-Esquerda não morriam de
amores. E por quem a Direita tinha até alguma simpatia, pela moderação, pelos
maus-tratos sofridos às mãos de camaradas, pela honestidade pessoal.
No entanto, com
esta nova moda estalinista do voto público ou de braço no ar, não deixa de ser
desconcertante ver todo o “arco da governação”, de Cavaco Silva a Catarina
Martins, a convergir em Seguro contra Ventura, no que aparenta ser a prova, não
apenas de uma persistente necessidade de sinalização de virtude, mas da
existência real de um “sistema” que, até aqui, muitos viam só como uma
inexistência populista esgrimida por Ventura e pelo Chega.
Mas parece que
não é nada disso. Parece que não se trata da súbita união de um qualquer
“sistema” em luta pela sobrevivência; trata-se, isso sim, de uma abrangente
cruzada para “salvar a democracia”. Vamos ver como:
Da luta
existencial ao manual de boas maneiras
Primeiro, era
unânime que a luta se faria contra o perigoso fascista-nazi-racista André
Ventura; agora, ainda que alguns “democratas” devotos da falecida União
Soviética ou do Grande Timoneiro chinês persistam na táctica, a estratégia é
outra: Seguro é bem-educado, manso, moderado, de fino trato, previsível e
presidenciável; Ventura não tem maneiras nem gravitas para o
cargo – é mal-educado, brutal, impetuoso e quer agitar as águas e fazer coisas.
E, bruscamente,
da salvação do mundo e da democracia em solo pátrio, passou-se ao protocolo do
MNE, ao manual de boas maneiras, à arte de saber estar; dos anti-fascistas,
passámos aos liberais chiques; dos Direitos do Homem em perigo ao horror
perante a etiqueta atropelada. Ventura deixou de encarnar Hitler, Mussolini,
Franco e Salazar para vestir a pele de um Zé Povinho sempre a fazer manguitos
que não sabe estar entre os grandes, de um grunho que promete deixar mal o
Estado português “lá fora”, em Bruxelas, no Buckingham Palace, no Eliseu, onde
seja.
Ora esta nova
estratégia oferece-nos um tipo de entretenimento inédito: o espectáculo do
choque, do escândalo, do alarme e da preocupação dos revolucionários de ontem e
dos activistas de hoje, dos herdeiros dos sans-cullotes de
Paris e do Proletariado de todo o mundo, perante a falta de moderação, de
decência, de decoro e de pose institucional de Ventura, a quem parecem exigir a
bonomia discreta e cinzenta de político do antigo regime que vêem (e apreciam)
no outro candidato…
Mas então e o
povo, os trabalhadores, tão queridos à Esquerda, e que fazem muito do
eleitorado de Ventura? poder-se-ia perguntar. Qual povo, se o candidato da
Direita é apoiado, não por formidáveis trabalhadores em luta ou por operários
fabris progressistas, mas por deploráveis “eleitores de baixa escolaridade”,
reaccionários, equivocados e febris? Responder-nos-iam.
Enfim, pouco
importa, porque a campanha existencial, o duelo político, ideológico, com a
tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano,
quer agora transformar-se (até para conquistar o centro e a direita que não
saiba resistir à pressão) na escolha aparentemente apolítica, não-ideológica,
do candidato com o perfil cívico, “moral” e até “cristão” mais presidenciável;
daí o apelo transversal à civilidade, à “humanidade”, em nome da preservação da
decência democrática.
Uma
escolha política
Convém, no
entanto, não esquecer que, ao contrário do que possamos ser levados a pensar, o
que vamos ter no dia 8 não é um concurso de misses, mas uma escolha política –
ainda que alguns a reduzam à “escolha fácil” entre um candidato que grita e um
outro que não grita.
Acontece que o
candidato que não grita é socialista… mas, lá está, não grita, e é simpático,
cordato, educado, decente, pacato, razões mais do que suficientes para ser
apoiado por todos os vultos do regime – da direita consentida, que corre feliz
para os braços temporária e interesseiramente abertos da Esquerda, à
extrema-esquerda, subitamente institucional. Todos juntos em morna, medrosa,
“civilizada” e moderada unanimidade para defender, não o bem-comum, não o país
do presente e do futuro, não o povo, mas a velha “pluralidade democrática”
instituída em que vivem e da qual vivem.
Esta pressão das elites políticas unidas contra um candidato que, cada vez mais, se vai consolidando como o único candidato alternativo junto dos “deixados para trás”, pode bem ser a prova viva de que “o sistema”, afinal, existe.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Tiago Franco, - UMA SAFRA DE FILHOS DA P*TA |
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Presidenciais 2026 - Entrevista a André Ventura
Ventura assume
que falhar segunda volta das eleições presidenciais "é mau e é uma
derrota"
Líder do Chega assume que, para 18 de janeiro, objetivo é "ganhar" ou garantir passagem à segunda volta. "Não há como mascarar a realidade se isso [não passar à segunda volta] acontecer", assume.
* Agência Lusa, Texto
O candidato
presidencial André Ventura admite que não passar a uma segunda volta das
eleições de janeiro será uma derrota e que, se lá chegar, será uma batalha
difícil, porque estarão “todos contra” si.
“Eu estou a
levar esta eleição em duas etapas. Há uma meta que é o dia 18 [de janeiro],
nessa meta nós queremos vencer ou passar à segunda volta das eleições.
Portanto, isto significa ou primeiro ou segundo lugar, e acho que estamos bem
encaminhados para isso”, afirmou.
Em entrevista à
agência Lusa no âmbito das eleições presidenciais de 18 de janeiro, o candidato
a Belém admitiu que, se não conseguir cumprir o objetivo de passar a uma
eventual segunda volta, “é mau e é uma derrota”.
“Se não estiver
[na segunda volta], é sinal de que o Chega e eu próprio não atingimos nesta
eleição o objetivo. Não há como mascarar a realidade se isso acontecer, porque
é praticamente impossível ter um valor próximo das legislativas e não ir à
segunda volta”, disse, referindo que “não atingir um valor próximo significaria
que houve um voto de não acompanhamento por parte do eleitorado”.
“É uma derrota,
só em partidos estalinistas ou leninistas é que as derrotas se tornam vitórias.
Há momentos que são de derrota e há momentos que são menos bons na vida
política. Saber assumi-lo é também um ato de grandeza democrática”, sustentou
André Ventura.
O candidato a
Presidente da República e líder do Chega indicou que o partido “continuará o
seu caminho” e ele próprio fará “a avaliação que tiver que fazer disso”.
“Saberei ler os
sinais que o eleitorado transmitir, mas evidentemente que se não for à segunda
volta não foi um resultado positivo. Mas estou mesmo convencido que isso não
vai acontecer, estou mesmo convencido que vamos ter uma segunda volta e que eu
estarei nessa segunda volta”, salientou.
Ventura
considerou que essa será a “batalha mais difícil, talvez da [sua] vida toda”,
porque acredita que “se vão juntar todos” contra si, que “o sistema todo vai se
juntar contra a candidatura”.
“Eu acredito
que seja possível ganhá-la, mas vai ser uma luta muito difícil para mim e para
o país”, admitiu.
“Seja quem for
o adversário, mesmo que o adversário fosse, ou venha a ser, António José
Seguro, tenho praticamente a certeza de que o PSD vai recomendar o voto em
António José Seguro, porque sabe que eu sou uma ameaça ao ‘statu quo’ e uma
ameaça ao domínio das instituições por estes dois partidos”, disse, antecipando
que pode acontecer o mesmo com Gouveia e Melo ou até António Filipe.
O candidato
mostrou-se também curioso sobre o que fará o PS caso venha a disputar uma
segunda volta com Luís Marques Mendes: “Não que eu queira o apoio do PS, o mais
distante disso possível, mas é curioso verificar se o PS vai entrar na segunda
volta dizendo para se votar em Marques Mendes”.
André Ventura
disse também não ter um adversário preferencial para a segunda volta, mas está
convencido de que será Henrique Gouveia e Melo, e assumiu-se como “o adversário
mais difícil na primeira volta”, mas “o mais fácil” de derrotar numa segunda.
Ventura
dissolve Parlamento se houver “suspeita de corrupção grave” envolvendo
primeiro-ministro
O candidato
presidencial André Ventura dissolvia o parlamento e convocava eleições
antecipadas perante um caso de “suspeita de corrupção grave” sem explicação
convincente, envolvendo um primeiro-ministro, mesmo que o Governo fosse
suportado por uma maioria absoluta.
“Para ser o
mais claro e não estar aqui com reservas mentais, se um primeiro-ministro, por
muita estabilidade que tivesse, inclusive se tivesse uma maioria absoluta, for
suspeito de corrupção, não conseguir explicar essas suspeitas, e a informação
que for dada ao Presidente da República é de que estas suspeitas são sérias,
fundamentadas, fundadas e com indícios fortes, então eu acho que, nesse caso,
com uma suspeita de corrupção grave, nós devemos dissolver a Assembleia da
República e chamar o país a votos”, afirma o candidato a Belém em entrevista à
agência Lusa.
Ventura admite
que, perante novas eleições, o país poderia renovar a confiança no mesmo
primeiro-ministro, criando “um drama institucional para um Presidente da
República”.
“Eu tenho um
perfil ativo, enérgico, e é assim que eu espero ser até ao final da minha vida.
E, portanto, se tivesse que agir num caso de corrupção, agiria. Mas serei o
mais ponderado possível para garantir que não lanço o país na instabilidade”,
assegura.
O também líder
do Chega refere-se a um cenário abstrato, apesar de o seu ponto de partida ser
o caso da antiga empresa do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que este passou
aos filhos depois de uma polémica mediática que levou o Ministério Público a
abrir um inquérito preliminar ainda sem resultado conhecido.
André Ventura
considera que, no caso Spinumviva, acima de tudo “tem faltado a este
primeiro-ministro” explicações.
“O caso
Spinumviva tem características graves devido às suspeitas, não estou a dizer
que elas são reais ou não, mas às suspeitas, enfim, de recebimento do indivíduo
de dinheiro, etc. Isso é grave. Se eu fosse Presidente da República e o
processo vier a desenvolver-se nos termos em que venha a desenvolver-se e o
Ministério Público entender que deve avançar para um inquérito, o que significa
que o primeiro-ministro será constituído arguido, acho que era importante, e é
o que eu direi ao primeiro-ministro, que dê explicações não só em sede de
justiça, mas também ao país”, precisou, acrescentando: “Eu avaliarei a
sustentabilidade dessas declarações do ponto de vista da sua razoabilidade e da
credibilidade que elas mereçam”.
“Não sou eu o
juiz, evidentemente, mas é o Presidente da República, em funções naquele
momento, que tem que dar uma palavra ou de confiança ou de entender que as
instituições estão em causa e que não deve continuar”, sustenta.
“Eu tenho
muitas críticas ao primeiro-ministro atual, mas consigo ter uma conversa com o
primeiro-ministro. Acho que conseguiria dizer ao primeiro-ministro ‘isto são
suspeitas graves, o que o primeiro-ministro tem que fazer é explicá-las e dar
uma explicação sobre elas’ e exigir-lhe que fizesse isso”, acrescenta.
Ventura
considera que “seria possível” levar o primeiro-ministro e evitar “um cenário
de deterioração permanente”.
Caso se
chegasse “a um ponto, enfim, que o primeiro-ministro fosse, tal como outros
atores políticos, acusado, aí até há trâmites legais que são próprios, mas se
as suspeitas fossem condensadas, evidentes e notórias, então eu acho que nem
era preciso dizer ao primeiro-ministro para sair, eu acho que sairia pelo seu
próprio pé”.
“Se eu for
Presidente da República, espero que nunca aconteça e também não vejo nenhum
motivo para isso, e houvesse uma acusação contra mim de corrupção, de desvio de
dinheiro público, de enriquecimento ilícito, eu próprio, chegando ao momento de
ver que havia coisas fundadas e reais, não tinha outra forma senão ir-me embora
e sair”, conclui André Ventura.
Durante a
entrevista, o candidato questionou a forma de nomeações para as instituições do
Estado e empresas públicas, que considerou deverem ser repensadas,
inclusivamente o caso do procurador-geral da República, apesar da consideração
que disse ter para com o atual titular, Amadeu Guerra.
“Mas quando
temos um sistema que nomeia o procurador-geral da República e é este
procurador-geral da República, depois, que vai investigar quem o nomeou, é
sempre um sistema frágil e é sempre um sistema que gera dúvidas de
independência e de imparcialidade”, sustenta, alegando que o mesmo se passa com
os titulares dos tribunais superiores e do Tribunal Constitucional.
“Faz sentido
que o tribunal que controla os partidos políticos, e eu agora estou à vontade
porque até somos o segundo maior partido, podíamos ter interesse em manter isto
como está, derive destes próprios partidos políticos. Não seria de pensar isto
como um todo, do ponto de vista de garantir a independência e a imparcialidade
destas pessoas? Poderia ser o Presidente?”, questiona, concluindo: “Acho que
temos que repensar um sistema que dê garantias de menor interferência política.
Ventura quer
revisão constitucional para tornar Presidente um “ator político decisivo”
André Ventura
defende uma revisão constitucional que reforce os poderes do Presidente da
República, transformando-o num “ator político decisivo”, e promete “conduzir o
país politicamente” a partir do Palácio Belém, designadamente com propostas
concretas para a Justiça.
“A Constituição
tem que consagrar um presidente que tem que ser mais do que um moderador. O
presidente tem que ser um ator político decisivo, porque tem uma legitimidade
política decisiva” que lhe advém de ser eleito diretamente com mais de 50% dos
votos, justifica André Ventura, em entrevista à agência Lusa no âmbito da
campanha para as eleições de 18 de janeiro.
O também líder
do Chega considera que, no sistema atual, o “poder real” do Presidente da
República “é o poder de veto, o poder de promulgar ou não promulgar, e esse
poder, se não for utilizado, ou se não tiver capacidade e extensão de ser
utilizado, nos casos mais dramáticos da vida nacional, acaba por ter pouca
expressão”, tornando o chefe de Estado numa “espécie só de reduto de
influência”.
“Se queremos
levar a sério o cargo de presidente e justificar o salário que lhe pagamos, e o
que gastamos com a presidência da República, então o presidente também tem que
ter poderes concretos e reais”, sustenta.
Ventura entende
que o presidente “não deve estar a ser um bloqueio, nem uma marioneta, nem uma
muleta do Governo”, mas “deve ter os poderes mais especificados do ponto de
vista do controlo, do escrutínio, da fiscalização” para que se saiba claramente
“em que águas se move”, alegando que “isso hoje não é absolutamente claro”.
A partir de
Belém, o também líder do Chega admite que não pode fazer propostas de revisão
da lei fundamental, mas pode influenciá-lo.
“Se for
Presidente da República, não terei o poder de fazer leis no parlamento, isso é
uma evidência. Mas estou convencido de que não há nenhuma outra figura com
tanta legitimidade e capacidade de influenciar o parlamento, até num processo
de revisão constitucional, como o Presidente da República”, advogou.
Entre críticas
a Marques Mendes e a “conversas de chacha” de Marcelo Rebelo de Sousa, André
Ventura defende que seria importante eleger, pela primeira vez, um chefe de
Estado “fora deste sistema partidário PS-PSD”, que nos 50 anos de vida
democrática tem feito pactos na Saúde, Finanças, banca, “em tudo o que é setor
público ou com influência pública”. Seria “uma garantia de independência e de
luta contra o sistema”.
Mais do que
romper com o sistema, o deputado e líder do Chega considera que “talvez a
independência aqui até seja mais relevante”, aproveitando para atacar o seu
adversário e ex-líder do PSD, Luís Marques Mendes, por “estar sempre a falar de
independência”, mas ser “a linha direta, o apoio de Luís Montenegro, que é
primeiro-ministro”.
“Ora, os
portugueses gostam e querem um presidente que fiscalize a ação do governo, não
um presidente que seja ou um pau-mandado, ou alguém condicionado pelo governo”,
argumenta, acrescentando: “se é um presidente que tem conluio com o governo,
isso não é bom para a democracia, é mau. E por isso eu percebo esta ansiedade
[de Marques Mendes], automaticamente, em tentar desligar-se do Governo agora”.
Do mesmo modo,
pretende combater a ideia de que o presidente é “uma espécie de senador
reformado”.
“Eu não vou ser
o Presidente da união fácil, de palavra certa e barata, confortável em todos os
momentos. Nós não podemos tapar as clivagens, a polarização, os problemas com
conversa de atleta”, disse.
Ventura promete
travar uma batalha para convencer a opinião pública de que não é “nem uma jarra
de enfeitar”, nem que irá estar “a dizer aquelas coisas banais, politicamente
corretas”.
“Se votarem em
mim no dia 18 de janeiro, vai haver uma mudança no estilo de Presidente da
República”, assegura.
A partir de
Belém, terá como prioridades a Justiça, as comunidades e os jovens, não se
limitando a alertar que são precisas reformas, mas indicando ele próprio um
caminho.
“Quero dar um
sinal à reforma da justiça que ela tem que ser feita. E tem que ser feita em
que sentido? Temos que garantir o fim destas penas suspensas que existem para
muitos crimes, garantindo que as pessoas ficam presas em casos de abusos
sexuais de menores, violência doméstica, que é um flagelo que temos em
Portugal, o chamado crime contra o património, considerado às vezes pequeno
crime, mas que é esse pequeno crime que vai gerando a insegurança nas pessoas”,
aponta.
Segundo o
candidato, todos os presidentes defendem reformas da Justiça, mas nunca dizem
qual. “Eu ao menos digo qual é. É limitar recursos, porque nós temos recursos
que nunca mais acabam, e temos que garantir que a pessoa tem direitos e que têm
direito a uma justiça que funcione, imparcial, mas não pode ter direito a fazer
mil recursos garantindo que as decisões nunca são efetivadas”, concretiza, numa
alusão implícita ao processo Marquês.
“Acho que é
preciso uma reforma da justiça e o presidente tem que ser o principal
protagonista dela do ponto de vista político”, sublinha.
Segundo André
Ventura, isso “não é governar, é conduzir o país politicamente”. “Eu estaria a
ser um mau presidente e defraudaria completamente as expectativas das pessoas
se lhes desse uma entrevista um dia ou dois depois de ser eleito Presidente da
República e a minha conversa passasse a ser que temos que agregar vontades,
temos que nos juntar todos, pensar a justiça a médio prazo e a longo prazo”,
argumenta.
No decorrer da
entrevista, quando abordava questões relacionadas com o processo Marquês, que
envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, Ventura reitera críticas à
imprensa portuguesa, sem apontar casos concretos, sobretudo ao que chamou o
ativismo de muitos jornalistas.
“E acho que
também os jornalistas, em grande parte, não são bons. E acho que temos um
ativismo muito grande no jornalismo, é a minha opinião. Mas eu seria o último a
condicionar a liberdade da imprensa. Mais, digo-lhe outra coisa. Podia ser o
órgão de comunicação, não é o caso da Lusa, mas podia ser o órgão de
comunicação que eu menos gostasse, eu tudo faria para garantir que ele não é
nem censurado, nem silenciado, nem ameaçado com questões económicas ou de
natureza societária”, disse.
domingo, 23 de novembro de 2025
Alfredo Barroso - VENTURA, O POLÍTICO DE EXTREMA-DIREITA LÍDER DO "CHEGA"
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Boaventura de Sousa Santos - O Kampf de André Ventura
* Boaventura de Sousa Santos
As primeiras intervenções dos
principais candidatos às eleições para a Presidência da República portuguesa em
Janeiro de 2026 têm levado muita gente (muita dela, angustiadamente) a pensar
que André Ventura (AV), o candidato da extrema-direita, tem possibilidades de
ganhar as eleições. Para alguns, a razão principal está na mediocridade dos
outros candidatos. No caso do Almirante Gouveia e Melo, o grande operacional da
luta contra o COVID-19, ocorre lembrar-lhe que o país não é uma pandemia nem a
política é uma questão de logística. Já tivemos um presidente Almirante (no
tempo da ditadura) e já foi demasiado. Marques Mendes é uma cópia de Marcelo
Rebelo de Sousa, o actual presidente. É sabido que o original é sempre melhor
que a cópia. Se o cinzento falasse e lhe perguntassem a identificação, ele
responderia sem hesitação: António José Seguro, apoiado pelo partido
socialista. Perante isto fica a sobrar o único candidato que não quer ser
Presidente, porque, como a sua aspiração é mandar e conduzir, só o cargo de
Primeiro-Ministro lhe serve. Pode então correr o risco de ser eleito contra a
vontade.
A primeira vez que me chamaram a
atenção para AV resultou de uma observação de uma jornalista perplexa com o
facto de AV citar várias vezes o meu trabalho na sua tese de doutoramento. O
intrigante era o facto de ele começar a ser conhecido como a figura principal
da extrema-direita enquanto eu era conhecido como um intelectual de esquerda.
Haveria alguma contradição ou algum conluio? Li a tese e conclui rapidamente
que era uma tese competente e que as citações estavam certas e eram
pertinentes. A tese era animada por um impulso securitário, mas dentro das
normas académicas. Portanto, nada a comentar. Não havia nem contradição nem
conluio.
Hoje, AV é o líder da oposição, uma
oposição de extrema-direita a um governo de direita. Estou convencido de que a
democracia portuguesa dificilmente sobreviverá à Presidência da República de
AV. Tentarei explicar porquê. As razões têm a ver com a estratégia de AV e com
as condições por que as sociedades europeias vão viver nos próximos anos.
AV em acção
Não há nenhuma originalidade nem nas
ideias nem na estratégia de AV. Vêmo-la hoje a ser seguida por muitos outros
líderes de extrema-direita. Todos eles são cópia de um líder que também foi
cópia de outros líderes do seu tempo, mas que as circunstâncias da Europa das
primeiras décadas do século XX permitiram que passasse de cópia a original.
Refiro-me a Adolf Hitler. Apesar de serem muitas as diferenças entre o original
e as diferentes cópias, penso ser adequado estabelecer a original como termo de
comparação para o que observamos hoje. Uma diferença óbvia: enquanto AV foi um
aluno brilhante e é altamente credenciado, Hitler nunca concluiu nenhuma
formação académica, foi rejeitado duas vezes nas escolas de arte de Viena,
nunca quis ter emprego fixo e, apesar de em Viena se autodesignar como pintor,
ficava possesso quando lhe perguntavam se era pintor de paredes.
Se analisarmos a conduta deste
austríaco que só em 1932 se naturalizou alemão, um ano antes de se candidatar à
presidência da República da Alemanha, verificamos que ele catalogou um
receituário que continua hoje a ser seguido por todos os aspirantes à destruição
da democracia, usando para isso todos os instrumentos que a democracia lhes
proporciona. Vejamos alguns componentes desse catálogo. As citações de Hitler
são dos seus muitos discursos e também de Mein Kampf [A Minha
Luta], escrito em 1924 nos nove meses que Hitler esteve preso depois do
fracassado golpe (Putsch) de Munique em Novembro de 1923.
Sobre a natureza humana. Desde os tempos de fome e de dormida
nos abrigos municipais, Hitler aprendeu algo que viria a repetir nos seus
discursos: “Tudo o que o homem conseguiu deveu-se à sua originalidade e
brutalidade.” Astúcia, habilidade para mentir, distorcer, enganar, eliminar
qualquer sentimentalidade ou lealdade em favor da crueldade eram os
ingredientes básicos da afirmação fundamental: a vontade. A desigualdade entre
os seres humanos e entre as raças é uma lei da natureza. AV não proclama o
eugenismo racista, mas estabelece o portuguesismo como um privilégio a que só
alguns têm acesso, sugerindo que mesmo alguns desses só são portugueses, não
por pertencerem a “nós”, mas pela corrupção ou complacência de funcionários que
deleteriamente destroem a “alma portuguesa”. O nacionalismo excludente serve
para naturalizar a exclusão social e o colonialismo interno nos nossos dias,
por exemplo nos campos da agro-indústria.
A construção de um só inimigo. É necessário eleger um inimigo apenas
e centrar nele toda a crítica. Segundo Hitler, a arte da liderança consiste “em
consolidar a atenção do povo contra um só adversário e tudo fazer para que nada
distraia essa atenção. O líder de génio é aquele que tem a capacidade de fazer
com que os seus diferentes adversários pareçam um só, pertençam todos a uma só
categoria”. Para Hitler, o inimigo é o Marxismo (a social-democracia, o
comunismo) e os judeus. Não são dois inimigos, são um só. Num discurso em 27 de
Fevereiro de 1926, Hitler afirmou “Se necessário, um só inimigo significa
vários inimigos”. Esse inimigo é responsável por todos os males da sociedade. A
rendição (traição) da Alemanha em 1918 e todo o desastre socioeconómico e
político que se lhe seguiu na República de Weimar foi obra do mesmo inimigo.
Esse inimigo conspira contra a sociedade, não apenas pelo que faz, mas também
pelo que é. É uma raça inferior. Os judeus não são seres humanos; são a
incarnação do mal. Por isso, não há nacionalismo sem racismo. Hoje, como
sabemos, o inimigo de eleição é a esquerda e os imigrantes. Parecem dois
inimigos, mas são um só.
O principal inimigo é o inimigo
interno. A
Alemanha tinha perdido a Primeira Guerra Mundial porque não se tinha sabido
sobrepor aos seus inimigos. Para Hitler, a Alemanha não perdeu a guerra, o
exército, a que pertenceu como sargento, manteve a sua integridade. A Alemanha
foi atraiçoada pelos inimigos internos que provocaram a sua rendição. No
discurso de Fevereiro de 1926, Hitler invoca o passado glorioso do império e
das colónias alemãs para concluir que os males que sobrevieram foram devidos
aos revoltosos internos. “Esses não eram cidadãos; eram escumalha, uma
escumalha de traidores”. Nos anos que se seguiram ao fim de guerra, a
militância política do operariado comunista era intensa e exprimia com
violência o mal-estar do país. Era reprimido com maior violência ainda, tanto
por forças de direita, como pelos socialistas. Rosa Luxemburgo e Karl
Liebknecht foram assassinados em 1919 com a cumplicidade do governo socialista.
Falou-se então da fracassada revolução alemã (1918-1923). Foi nesse contexto,
que Hitler soube substituir o ódio de classe pelo apelo à cidadania racista.
Hoje, para a extrema-direita
portuguesa, o 25 de Abril foi uma capitulação evitável e o que se seguiu foi um
desastre provocado por “gente” como Otelo Saraiva de Carvalho, Álvaro Cunhal ou
Mário Soares que, entre outras coisas, escancararam as portas do país à invasão
de estrangeiros que vieram pôr em perigo a integridade do país.
A solidariedade negativa. A unidade e o consenso que se
promovem visam destruir o status quo – o sistema. Não há que
perder tempo em elaborar soluções alternativas porque estas emergirão
espontaneamente, uma vez destruído o inimigo. A união é para destruir, nunca
para construir, porque só a necessidade da destruição é “óbvia”. A construção
exige compromissos que devem ser mantidos na obscuridade, na ambiguidade e na
conveniência do momento para conquistar o poder. Para Hitler, o importante não
era o programa, mas a imagem. Em 1920, o programa do partido agradou a toda a
gente, excepto aos judeus, aos capitalistas e aos que tinham ganho fortunas com
a guerra. O objectivo central era mobilizar a insatisfação popular com o status
quo. O importante era declarar a sociedade doente, não entrar em detalhes
sobre o que seria uma sociedade saudável.
A unidade negativa deve ser tão forte
quão importante é o que há a destruir. Para isso é necessário construir o
passado recente como um desastre e dramatizar sem nuances a sua dimensão, de
modo a que a gravidade da situação seja considerada irremediável dentro do
sistema político presente. A Alemanha não perdeu a guerra; os traidores fizeram
com que ela se rendesse e se humilhasse como nação com o Tratado de Versalhes e
as condições que lhe foram impostas. Compare-se hoje com o “desastre do 25 de Abril”
e “toda a bandalheira de esquerda que se seguiu” (André Ventura).
A democracia é apenas um meio para
atingir outros fins. Desde os tempos de Viena, Hitler cultivou um desprezo total pela
democracia, pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pelo
parlamento etc. Dedicou quinze páginas de Mein Kampf para
demonstrar que “a maioria representa apenas a ignorância e a cobardia… a
maioria nunca pode substituir o homem”. Trata-se do homem forte que conduz as
massas, elimina a corrupção e devolve a auto-estima ao país.
Temos ouvido a multiplicação retórica
do homem forte como a necessidade urgente do país. Precisaríamos de “três
Salazares”, um político que, aliás, nunca teve interesse em entusiasmar as
massas e as conduzir. Não qualquer homem forte, mas aquele capaz de “pôr a casa
em ordem”. E para que ninguém se ofenda com a referência ao passado ditatorial,
mencionam-se outros homens fortes recentes que a esquerda portuguesa
“normalizou”: Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal. Porque o importante é
a repetição do preconceito, não interessa saber que Otelo contribuiu
decisivamente para o derrube da ditadura salazarista, que cometeu erros e que
pagou caro por isso, enquanto Cunhal passou onze anos na prisão (oito dos quais
em isolamento) pela sua luta contra a ditadura.
Hitler usou os meios legais e
democráticos enquanto estes lhe ofereceram melhores oportunidades para vencer
os seus inimigos. Aliás, a legalidade é uma arma ideal quando se usa para
desarmar os democratas: os processos legais são lentos e com isso dão mais
tempo ao tempo rápido da conquista do poder. O uso instrumental da legalidade
significa, por outro lado, que ela deve ser descartada na medida em que
atrapalhar.
Segundo uma sua militante, há uma
“balbúrdia jurídica em que vive o Chega”, o partido de AV. Deve entender-se que
essa “balbúrdia” é intencional porque o sistema judicial que a avaliar levará o
tempo processual necessário até eventualmente deixar de ter efeito útil.
Controle absoluto sobre o
partido. A
ascensão política de Hitler foi um processo longo e tortuoso, desde a entrada
no Partido dos Operários Alemães de Anton Drexler até chegar ao líder
incontestado do Partido Nacional Socialista (o partido nazi). A sua notável
persistência foi o seu maior segredo ante o desprezo ou a indiferença de
muitos. Habituou-se a testar os seus argumentos em infindáveis reuniões nas
cervejarias de Munique. A sua política começou por ser a política da rua. Mas
desde cedo se convenceu de que o líder não deve tolerar divergências internas
porque elas dão armas a um inimigo já de si muito poderoso. Depois do
fracassado Putsch de Munique em 1923 e da prisão de Hitler, o Partido Nacional
Socialista ficou reduzido a muito pouco. No norte da Alemanha e na Renânia, o
partido era dominado pelos irmãos Strasser e, na concepção destes, as duas
bandeiras principais do partido eram o anticapitalismo e o nacionalismo, e eram
igualmente prioritárias. As tensões com Hitler eram evidentes, uma vez que
Hitler pretendia uma aliança com o capitalismo. Nessa altura (1925-26), os
Strassers tinham contratado um jovem que ainda não tinha 30 anos para as
tarefas de propaganda. Chamava-se Paul Josef Goebbels. A tensão com Hitler era
tão grande que o jovem Goebbels chegou a pedir a expulsão do partido do
“pequeno burguês”. Hitler manobrou o partido, em parte recorrendo aos seus
indiscutíveis dotes de orador. Pouco tempo depois, Goebbels passou-se para o
lado de Hitler depois de o ouvir num discurso inflamado durante duas horas.
Alguns anos depois os irmãos Strasser foram expulsos do partido. Em 1926,
Hitler instituiu a Uschla (Comité para a investigação e resolução) que pôs ao
seu serviço para manter o controle total sobre o partido. O outro lado do
controle total do partido é o carácter excepcional do líder. Hitler cultivou a
sua excentricidade, o exagero e a surpresa do seu comportamento. O poder à
parte só pode vir de um ser à parte.
A trajectória de AV e o modo como tem
gerido as divergências dentro do partido mostram como ele se julga (e
efectivamente está) muito acima da média dos seus correligionários. A sua
excentricidade e os seus excessos de linguagem são calculados ao milímetro.
Não há verdade nem mentira. Há a
repetição do que nos convém até que seja verdade. Uma das maiores aprendizagens de
Hitler foi aprender a mentir com convicção. Exerceu-a durante toda a vida. No
final, foi-lhe fatal. Levou-o ao suicídio. Para Hitler, o exercício da força
física, apesar de fundamental, nunca é suficiente se não for acompanhado pela
força espiritual. Escreveu ele: “A força que combate um poder espiritual
permanece como força defensiva se os que a detêm não são também os apóstolos de
uma nova doutrina espiritual”. Quando se mente deve dizer-se grandes mentiras.
Escreveu: “uma mentira grosseiramente impudica deixa sempre rastro mesmo depois
de ser denunciada”. O colapso de uma nação só pode ser evitado por uma
“tempestade de brilhante paixão, mas só os apaixonados são capazes de despertar
a paixão dos outros”.
Quem já ouviu AV certamente sentiu
isso.
De bem com as massas e com o
dinheiro. Hitler
sempre cultivou um desprezo enorme pelas “massas”. As “massas” tinham sido a
sua companhia em Viena e a falta do que Hitler julgava ter (cultura) tornava-as
repugnantes a seus olhos. Escreveu em Mein Kampf : “Não sei o
que mais me repugnou naquele tempo: a miséria económica dos meus companheiros,
a rudeza da sua moral e dos seus costumes ou o baixo nível da sua cultura
intelectual”. Odiava toda a ideologia do operariado: desprezo pela nação e pela
pátria, pelo direito, pela religião e pela moral. Segundo ele, o pobre
operariado tinha sido envenenado pela doutrinação dos socialistas que
exploravam para seu benefício as difíceis condições em que os operários eram
forçados a viver.
Hitler escreveu: “Ser um líder
significa ser capaz de mover as massas”. Mas também anotou: “Aprendi que as
massas só são atraídas por quem é forte e intransigente…Não sabem como fazer
uma escolha liberal e tendem a sentir que foram abandonados… Também cheguei à
conclusão de que a intimidação física é importante tanto para as massas como
para os indivíduos …O poder das massas para compreender é fraco. Por outro
lado, elas esquecem rapidamente. Sendo assim, a propaganda eficaz deve
limitar-se a necessidades básicas e exprimir-se em poucas fórmulas
estereotipadas”.
Se as massas significavam votos, o
dinheiro era fundamental para alimentar a propaganda e manter a organização.
Por isso, Hitler quis sempre ser todas as coisas para todos aqueles que via
como instrumentos para atingir o poder. Por isso, arreou a bandeira do
anticapitalismo e enviou Goering para Berlim a fim de estreitar os laços com o
grande capital. Em 1929, Hitler já era saudado pelo grande capital e pela
grande indústria que via nas suas qualidades de agitador o futuro que mais
convinha ao capital numa situação de crise, uma política antidemocrática e
anticlasse operária.
Certamente serão os portugueses mais
vulneráveis ou mais ressentidos com as ameaças de descer de classe que encherão
as urnas de votos no Chega, mas não serão eles que pagarão os custos de uma
organização que exibe tamanha abundância de propaganda, tanto no mundo
tradicional da publicidade, como no mundo novo das redes sociais.
Se as condições do povo melhoram,
nega-se esse facto ou declara-se que é precário e vai durar pouco tempo. O projecto de Hitler beneficiou de
condições iniciais muito especiais. Quando, em 1923, um país humilhado pelas
condições da rendição que lhe tinham sido impostas se declarou impossibilitado
de continuar a pagar as indemnizações de guerra, a França ocupou a rica região
do Ruhr, o coração energético e industrial da Alemanha. Para além da
humilhação, degradou-se ainda mais a situação económica. A desvalorização do
marco aumentou, e, com ela, aprofundou-se a crise económica, o desemprego e o
desespero de milhões de trabalhadores e suas famílias. Hitler aproveitou
astutamente todos os elementos desta crise, juntando-os num só diagnóstico
contra um só inimigo. Em 1923, 30% dos membros do partido estavam
desempregados. A sua leitura manteve-se inflexível: “Enquanto a nação não se
livrar dos assassinos dentro das suas fronteiras, nenhum êxito externo será
possível”. O ódio de Hitler, em vez de se dirigir aos franceses, dirigia-se ao
bando corrupto que governava o regime. Este foi o contexto que levou ao golpe
de Munique. No tribunal, Hitler assumiu toda a responsabilidade, mas
acrescentou: “não sou por essa razão um criminoso. Se hoje estou aqui como
revolucionário é porque sou um revolucionário contra a Revolução. Não existe
alta traição contra os traidores de 1918”. E os traidores são sempre os mesmos:
socialistas, comunistas e judeus.
A partir de 1925, as condições da
Alemanha começaram a melhorar e a Alemanha foi admitida na Liga das Nações
(1926) (da qual saiu dez anos mais tarde por decisão de Hitler). As profecias
do apocalipse e do desastre iminente deixaram de ser eficazes. A partir de
então, Hitler passou a insistir no carácter precário e passageiro das
melhorias. Por puro instinto de propaganda, esta era a melhor maneira de
persistir na sua caminhada para o poder. A Grande Depressão de 1929 viria a
dar-lhe razão.
As circunstâncias epocais
Os líderes de extrema-direita criam
muita realidade artificial, mas fazem-no, em geral, a partir de fragmentos da
realidade real. Há circunstâncias que favorecem o salto autoritário e há
condições que, pelo contrário, o impedem. A partir de 1924, a Alemanha começou
a recuperar e, como vimos, Hitler sentiu que era necessário assumir posições
mais centristas. Talvez tudo ficasse por aí se, entretanto, não ocorresse a
Grande Depressão de 1929. O desemprego massivo, a proliferação das greves, em
suma, a profunda crise social que se seguiu foram o grande impulso para a
clarificação e ressurgimento do partido. Ao mesmo tempo que as milícias do
partido (as SA, Sturmabteilung) faziam agitação social, Hitler declarava-se
contra as greves para não perder o apoio dos grandes capitalistas que já então
assegurara. Quando em 1930, Strasser, líder da ala radical do partido, lhe
perguntava (pouco antes de ser expulso do partido) se, no caso de conquistar o
poder, nacionalizaria o grande grupo capitalista Krupp, Hitler respondeu-lhe:
“Claro que o deixaria em paz. Julgas que eu seria louco ao ponto de destruir a
economia do país?”. Pouco depois, Goebbels escrevia, “não somos contra o
capitalismo, somos contra o seu abuso…Para nós a propriedade é sagrada”. Em
Setembro de 1930, o partido Nazi, para espanto do mundo, tinha um êxito
eleitoral estrondoso. Depois, foi o tapete vermelho que conhecemos. Primeiro, o
vermelho da glória; depois, o vermelho do sangue inocente de milhões.
A democracia portuguesa não corre
neste momento nenhum perigo existencial, mas os tempos que se avizinham não
auguram nada de bom para o mundo, para a Europa e, portanto, para
Portugal. O crescimento global da extrema-direita é um sintoma (não a causa)
do que está para acontecer. Não vou aqui discutir a questão mais geral da
incompatibilidade entre o capitalismo (assente na acumulação capitalista
infinita) e a democracia (assente no princípio da soberania popular). Limito-me
a afirmar que o neoliberalismo (a versão globalmente dominante do capitalismo
desde a década de 1980) tem vindo a destruir tudo o que na democracia
significava bem-estar e segurança humana (viver sem medo e sem carências
básicas) para as grandes maiorias (digamos, sem excesso de rigor, para as
classes populares). Essa destruição está a atingir limites que se expressam na
passagem do Estado de bem-estar para o Estado de mal-estar. É dessa passagem
que a extrema-direita se alimenta.
As respostas dos governos do arco da
governação (direita, centro e centro-esquerda) não se têm oposto a esta
destruição e procuram responder ao mal-estar com medidas repressivas, em vez de
medidas que garantam a reposição do bem-estar. Como mostrei, a repressão e a
solidariedade negativa são o DNA da extrema-direita e por isso não admira que
ela cresça menos pelo seu mérito do que pelo demérito das forças que se lhe
deviam opor. Esta últimas “esqueceram-se” que sem tributação progressiva não há
o bem-estar social relativo no capitalismo. Esqueceram-se de que no imediato
pós-guerra os rendimentos mais altos chegaram a ser tributados em mais de 80% e
nem por isso ficaram pobres ou deixaram de continuar a prosperar. Esqueceram-se
de que sem políticas públicas sociais de qualidade (educação, saúde e pensões e
transportes) não é possível garantir o bem-estar das populações, e que essa
garantia em caso algum pode ser dada pelo sector privado, cujo objectivo
legítimo é acumular riqueza, não distribuí-la.
A democracia tem vindo a ser
desfigurada e substituída por um novo tipo de regime, o autoritarismo eleitoral
vigente em países tão diferentes como a Índia, a Rússia, os EUA, a Turquia, El
Salvador e a Hungria. A extrema-direita prefere o autoritarismo eleitoral à
ditadura por um simples cálculo político: é aparentemente mais legítimo,
sobretudo num mundo ainda bem lembrado das ditaduras. Mas para se manter este
regime tem de desviar a atenção das verdadeiras causas do mal-estar (um
capitalismo em grande medida auto-regulado, sobretudo no sector financeiro),
transformando consequências em causas. A imigração é hoje o caso paradigmático
desta transformação. Mas, como dizia Hitler, o uso da repressão nunca é eficaz
se não for animado por um desígnio espiritual, seja ele Make America Great
Again (MAGA) ou o orgulho de ser português e cristão. A corrupção é o outro
caso de transformação de consequências em causas. A corrupção é endémica ao
neoliberalismo porque este assenta na promiscuidade entre o mercado dos valores
políticos (que não se compram nem se vendem) e o mercado dos valores económicos
(os valores que têm preço e que se compram e se vendem). Viola assim o
princípio central da teoria da democracia liberal desde John Locke que propunha
a separação total entre os dois mercados de valores. A corrupção é, assim, tão
endémica ao neoliberalismo quanto a luta contra ela.
O importante é que se ocultem as
verdadeiras causas do mal-estar da população: sejam elas o aumento do custo de
vida, a estagnação dos salários e a asfixia do poder sindical, o aumento do
custo da habitação que pode consumir mais de metade do rendimento familiar, a
liberalização escandalosa do preço dos medicamentos, que se tornam
progressivamente inacessíveis, sobretudo a doentes crónicos.
No actual tempo europeu inventaram-se
dois inimigos para distrair a atenção dos problemas reais. O inimigo interno é
o imigrante, sobretudo se for islâmico; o inimigo externo é a Rússia. Nenhum
europeu é capaz de imaginar a vida no seu país sem a participação dos
imigrantes. Nenhum cidadão europeu é capaz de ver na Rússia uma ameaça,
sobretudo se se lembrar que a Rússia foi invadida duas vezes por europeus
(Napoleão e Hitler) e nunca se propôs invadir a Europa. A invasão da Ucrânia
tem razões históricas antigas e recentes. É condenável a todos os títulos, mas
não significa a invasão da Europa. Hoje, os europeus sabem que a guerra entre a
Rússia e a Ucrânia podia ter terminado três meses depois de ter começado se os
EUA e os seus lacaios (Boris Johnson, aparentemente bem pago para isso) não
tivessem impedido a assinatura do acordo de paz praticamente concluído. Os
europeus sabem hoje que o objectivo da guerra foi inicialmente duplo. Por um
lado, visou amputar a Europa de uma das suas regiões, a Rússia, com o fim de
impedir o acesso da Europa à energia barata vinda da Rússia e com isso acelerar
o declínio e a dependência da Europa em relação ao império declinante dos EUA.
Por outro lado, visou bloquear o acesso da China à Europa e ao mundo ocidental
por via da Rússia.
Mais tarde, os empresários da guerra,
os lobistas da indústria de armamento, com as suas embaixadas em Bruxelas,
convenceram uma classe política medíocre e ignorante a promover a guerra por
sua própria iniciativa. Esta classe política nem sequer se deu conta de que
todos os benefícios iriam para a indústria norte-americana, enquanto os custos
recairiam exclusivamente sobre os europeus. De repente, os europeus ouviram os
seus líderes a falar de guerra como se fosse a mais importante missão política
dos próximos anos. Os europeus mais velhos lembram-se do passado recente e
perguntam-se perplexos e impotentes. A Europa ocidental foi, depois da Segunda
Guerra Mundial, o grande promotor global da paz, tendo intermediado activamente
a resolução de várias guerras locais. Foi o berço do grande movimento pela paz.
Mais tarde, assumiu pioneirismo na preocupação ecológica e foi o berço do
movimento ecologista global. Como é que, de repente, desaparecem tanto o
movimento pela paz como o movimento ecológico, e a Europa passa a ser um
continente em guerra contra uma ameaça que só a classe política vê?
A invenção dos inimigos é, assim
fundamental para ocultar a grande causa do mal-estar dos europeus nos próximos
anos: os orçamentos militares aumentam à custa da diminuição das políticas
sociais. Os políticos europeus viram-se “forçados” a mentir aos seus cidadãos.
Quando estes se derem conta, haverá agitação social e a resposta será
repressiva, uma vez que, neste sistema, não é possível outra resposta. Por
isso, quem se diz contra o sistema é quem mais investe na vigência integral e,
portanto, repressiva deste sistema. Mente duplamente, e é por isso que a sua
mentira se confunde tanto com a verdade.
Neste contexto, surge uma preocupação
especificamente portuguesa. Portugal é um dos países europeus com menos
tradição democrática. É também um dos países com mais desigualdade social e
maiores índices de pobreza. A combinação destas duas condições torna Portugal
uma presa fácil de qualquer demagogia de extrema-direita. A democracia
sobreviverá? Bastará a sua transformação num autoritarismo eleitoral?
A história não se repete. Isto não
quer dizer que os ecos do passado não nos soem estranhamente familiares. Nem as
diferenças nem as semelhanças são pura coincidência.
https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/13/o-kampf-de-andre-ventura-por-boaventura-de-sousa-santos/

