terça-feira, 3 de março de 2026

Dani,el Vaz de Carvalho -Assim estalou a guerra

3 de março de 2026

"Negociámos com os Estados Unidos duas vezes nos últimos 12 meses, e em ambos os casos, eles atacaram-nos no meio da negociação - disse o MNE do Irão. E assim estalou a guerra. Como terminará?Desde há mais de 30 anos que Israel afirma que o Irão está "a semanas" de ter uma arma nuclear. Quando se trata da intoxicação da opinião pública, não conta o facto de Ali Khamenei ter assumido através de uma fatwa (regra baseada na lei islâmica) o compromisso do Irão de não construir uma bomba nuclear.

O objetivo traçado também há mais de 30 anos é o império dominar o Médio Oriente, perante isto, não contam as vidas dos palestinos nem dos países recalcitrantes a serem submetidos. A questão pôs-se agora com maior acuidade dada a multipolaridade estabelecida. O plano global anti multipolaridade impunha fazer cair o Irão, enfraquecer a Rússia e a China, desarticular o Sul Global e dominar as fontes energéticas.

Que o principal oponente de uma bomba nuclear iraniana tenha sido morto num ataque direcionado, faz parte do esquema. Gente que clama por direitos humanos e direito internacional, refere extasiado o que não passou de um cobarde assassinato no decorrer de negociações. 

Na manhã de sábado, reuniram em Teerão os principais membros da liderança iraniana para avaliarem o andamento das negociações e cedências feitas. Os EUA bombardearam a reunião, matando altos funcionários e o líder supremo Ali Khamenei, provando que as suas negociações são simplesmente uma arma dos objetivos de domínio.

Os grandes media têm por missão a formatação das mentes dentro do padrão estabelecido. Assim, o que quer que o império realize é à partida aceitável e mesmo que existam algumas reticências vêm acompanhadas de um "mas" justificativo

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão fazem simplesmente parte do plano para remodelar o Médio Oriente a seu contento. Para submeter o Irão duas opções foram consideradas: o esquema venezuelano e o esquema sírio. O esquema venezuelano, supunha que eliminando o dirigente máximo e seus próximos o que restasse iria pedir a continuação das "negociações", por assim dizer de "baraço ao pescoço". Falhou.

A opção síria, implica um guerra civil de separatismo e focos de insurgência, como se viu antes, organizados pela CIA e Mossad, baseada na sedução por modelos ocidentais. Os focos de insurgência foram desmantelados, o separatismo agressivo só surgirá se as forças armadas iranianas forem decisivamente enfraquecidas. Resta uma terceira hipótese que Rubio disse que "para já" não se coloca: é a opção Afeganistão. Sem comentários...

Ora estas opções estratégicas dos EUA, encontram um Irão preparado para elas. Afirma o MNE do Irão: "Tivemos duas décadas para estudar as derrotas do exército dos EUA no nosso leste e oeste imediatos", referindo-se ao Afeganistão e ao Iraque. "Incorporámos lições em conformidade. Os bombardeamentos na nossa capital não têm impacto na nossa capacidade de conduzir guerra. A Defesa Mosaica descentralizada permite-nos decidir quando - e como - a guerra terminará".

A Defesa Mosaica é a abordagem de guerra assimétrica do IRGC para combater forças inimigas superiores. Inclui a delegação de autoridade de decisão significativa a comandantes locais (31 unidades autónomas), permitindo que as operações continuem mesmo que o comando central tenha sido decapitado. As táticas estabelecidas incluem a utilização da geografia do Irão (montanhas, desertos, mares), guerrilha, ataques surpresa e ações para perturbar as linhas de abastecimento inimigas. Cada unidade regional é praticamente autónoma com tudo o que é necessário para a guerra moderna, mísseis, drones, barcos de ataque rápido, baterias de defesa costeira, para a Marinha do IRGC. Defesa aérea integrada descentralizada permite a baterias individuais funcionarem como centros de defesa aérea locais. Note-se que o Irão tem uma superfície 1,648 milhões de km2 praticamente o dobro da França e Alemanha juntas e 93 milhões de habitantes.

Outros princípio da Defesa em Mosaico: silêncio de rádio e comunicações, para neutralizar as capacidades de guerra eletrónica dos EUA. Implantação de milícias voluntárias Basij (mais de 450 efetivos) para segurança interna, além de guerrilha de na retaguarda inimiga e defesa em profundidade no caso de uma incursão inimiga por terra.

Os media israelitas afirmam que Trump atacou o Irão para tentar suavizá-los para as negociações. Na véspera da agressão os estrategas militares dos EUA alegadamente esperavam um cenário de "pequena guerra decisiva", no qual os bombardeamentos seriam rapidamente seguidos por negociações de paz. De acordo com um relatório israelita, o planeamento dos EUA na véspera do ataque - ou pelo menos o que Nethanyau convenceu Trump - era para uma "operação de 4-5 dias" que "traria um Irão enfraquecido de volta à mesa de negociações".

Agora muitos começam a perceber que atacar o Irão foi uma "aposta excessiva" e que sem tropas no terreno as esperanças de mudança de regime não são possíveis.

O Irão resiste aos bombardeamentos e retalia não menos violentamente, os petroleiros estão parados no Golfo, há baixas dos EUA nas bases, grande aumento dos preços da energia, risco dos EUA e Israel ficarem sem intercetores à medida que o Irão intensifica os ataques e dos navios - mesmo porta-aviões - serem atingidos.

Publicada por Daniel Vaz de Carvalho à(s) terça-feira, março 03, 2026 

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