sexta-feira, 20 de março de 2026

Eugénia Galvão Teles - Uma Maria Antonieta das Caldas em Belém

* Eugénia Galvão Teles

Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social

19 março 2026 

Conforme o esperado, a polícia da moda analisou minuciosamente o vestido que Margarida Maldonado Freitas usou na posse do marido como Presidente da República. O jornalismo de investigação não descansou enquanto não deu com a origem daquele bocado de tecido azul da Valentino e apresentou a conta à população. Uma etiqueta com demasiados zeros transformou a farmacêutica das Caldas numa nova Maria Antonieta, insensível à pobreza dos seus súbditos. Como se não bastasse ser demasiado caro, apareceu ainda o demasiado estrangeiro. Com tantos costureiros nacionais, a mulher foi escolher um italiano e ainda lhe pregou uns corações de Viana, na esperança de nacionalizar à pressa a farpela.

Para brincar aos polícias da moda a sério, dava jeito saber alguma coisa sobre a história da roupa feminina — além da cor do ano, das bainhas que sobem e descem, da meia dúzia de marcas que aparecem nas revistas e do reflexo pavloviano quando um vestido é mais caro.

Já não peço que saibam que Chanel, em 1955, criou uma carteira com alça a tiracolo para deixar as mulheres com as mãos livres; que Yves Saint Laurent se ofereceu para vestir a mulher emancipada dos anos 70, caso ela não desse com o príncipe encantado; que o luxo online trocou a lady who lunches por uma compradora com vida profissional e pouco tempo para correr lojas à procura do traje mais adequado à ocasião.

Mas há mínimos. Não dá para não saberem que o mercado de luxo foi dos primeiros a apostarem numa cliente com cartão de crédito próprio. Não que o mercado se tenha tornado feminista. Fez apenas o que o capitalismo sabe fazer e reconheceu os frutos económicos da emancipação feminina. Margarida Maldonado Freitas é um bom exemplo dessa mudança. Já nasceu no mundo das que estudaram, trabalharam, ganharam o seu dinheiro e não pedem licença para existir ao lado de um homem com poder.

É verdade que a mulher a subir a calçada não é só a Margarida que pode comprar o que quer. Mesmo num país sem primeira-dama, está ao lado do Presidente. À mulher de César não basta ser; também tem de parecer.

Só que a António José Seguro ninguém cobrou os fatos Canali, que não são propriamente baratos. Felicitou-se a sua entrada bem-sucedida no clube dos homens políticos que se vestem como deve ser e procuram uma boa relação qualidade-preço. Já a indumentária da sua mulher, mesmo em saldo, só pode ser um brioche atirado ao povo pela calçada de Belém. O luxo masculino continua a ser competência. No feminino, é falha moral.

Também convém manusear com cuidado toda essa sensibilidade social. Da sobriedade republicana passa-se, amiúde demasiado depressa, para o Portugal dos pobrezinhos e dos pequeninos. Na investigação jornalística feita ao vestido, achou-se natural ir bater à porta da costureira da mulher do Presidente. Sendo das Caldas, logo havia de se vestir por lá, com a mediação social adequada ao código postal. O que incomoda não é só o preço do vestido. É a quebra de uma certa geografia de classe.

Quando me casei, cheguei à modista com uma página arrancada da “¡Hola!” e um modelo da Valentino para evitar acabar igual à princesa Diana, que ainda era a referência obrigatória em matéria de vestidos de noiva. É bem possível que a Margarida Maldonado tenha feito o mesmo. Nenhuma de nós tinha dinheiro para comprar o figurino da revista. Mas ambas sabíamos que ninguém reinterpretava a elegância clássica tirando-lhe o mofo como o Valentino. Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social.

O que se quer de um Presidente de todos os portugueses não é que ele e a mulher se vistam de pedagogia social ambulante. É que façam tudo para que essa história não pare neles. Qualquer que seja o vestido dela e o fato dele.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-19-uma-maria-antonieta-das-caldas-em-belem

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