sábado, 23 de maio de 2026

Brecht e A Resistível Ascensão de Arturo Ui



«Este mural, pintado na fachada do histórico "Bar Ziu Mesina" em Orgosolo, é uma das obras mais complexas e politicamente carregadas da vila. Ele aborda os trágicos acontecimentos do "Outono Alemão" de 1977, ligando o terrorismo de Estado, a luta armada e o perigo latente do fascismo através das palavras do dramaturgo Bertolt Brecht.

Abaixo do monumento, encontram-se os nomes dos principais membros do grupo guerrilheiro de extrema-esquerda alemão RAF (Fração do Exército Vermelho), encontrados mortos na prisão de alta segurança de Stammheim precisamente em meados de outubro de 1977: "Andreas Baader" (escrito junto à árvore seca, à esquerda) /  "Gudrun Ensslin" (no centro-esquerda) / "Ulrike Meinhof" (no centro-direita, cuja morte ocorreu antes, em 1976, mas que iniciou o ciclo de mistério)

Os versos finais da peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941), de Bertolt Brecht, alertam sobre o perigo constante do fascismo, que pode ressurgir mesmo após ser derrotado . Escrita durante o exílio, a obra utiliza uma sátira sobre a máfia de Chicago para traçar um paralelo direto com a ascensão de Hitler e do nazismo, defendendo a vigilância democrática

A tradução para português dos famosos versos de Bertolt Brecht que encerram a peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (escrita em 1941 como uma parábola sobre a subida de Adolf Hitler ao poder) costuma ser traduzida da seguinte forma:

"E vós, aprendei a ver, em vez de olhar sem ver!
Agi, em vez de falar!
Este monstro esteve quase a governar o mundo!
Os povos conseguiram abatê-lo, mas ninguém cante vitória antes do tempo:
O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo."

Análise dos Termos-Chave na Tradução
"Aprendei a ver, em vez de olhar sem ver" (no original alemão: “Lernat sehn, statt glotzen” / no italiano do mural: “imparate che occorre vedere, non guardare in aria”): É um apelo à lucidez e à análise crítica. Brecht pede ao público que não seja mero espectador passivo dos acontecimentos políticos, mas que compreenda os mecanismos sociais que geram o autoritarismo.

"O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo": Esta é a metáfora central. O "monstro" (o fascismo/nazismo) não é um acidente histórico isolado ou a loucura de um único homem (Ui/Hitler), mas sim o produto de condições socioeconómicas específicas, de crises profundas e da cumplicidade de certas elites. Enquanto essas condições estruturais existirem na sociedade, o perigo do regresso de regimes totalitários continuará vivo.  (Google Gemini)

Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!


* Gonçalo Portocarrero de Almada 

Um partido ao serviço do imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.

23 mai. 2026c

Anda meio mundo zangado com o Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido, cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka, protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos recentes, o PCP está de parabéns.

A título de declaração de interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único. Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma afinidade com o PCP.

Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.

O primeiro caso parlamentar recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania representa o povo português.

Tem o seu quê de contraditório, ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a 23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e martirizada Polónia.

O segundo caso respeita à situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil cubana’.”

É significativo que o regime comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que, tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o vigente sistema repressivo.

Como era expectável, “o projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo ‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime comunista’.”

Em terceiro lugar, foi deplorável a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.

Apesar de estas três atitudes deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia, defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário, continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão. Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato de slogan, que não destoaria na festa do Avante!, poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!

 https://observador.pt/opiniao/assim-se-ve-como-e-o-pcp/ 

Eduardo Maltez Silva - Uma opinião sobre Sócrates e o futuro do PS

 


* Eduardo Maltez Silva

Esta é uma opinião controversa — e convém dizê-lo logo à partida: nada disto desculpa, apaga ou relativiza a mancha negra de corrupção que paira sobre José Sócrates.

Quem quer defender a verdade histórica não precisa de branquear a ferida democrática que esse caso abriu. Isso fica claro.

Mas reduzir todo o ciclo Sócrates à corrupção é intelectualmente desonesto.

Porque, goste-se ou não, houve ali uma coisa que hoje quase desapareceu da política portuguesa:

VISÃO DE PAÍS.

Sócrates teve vícios, arrogância, erros, obras discutíveis e uma relação perigosa com o poder económico. Mas também teve uma ideia de modernização nacional.

E muitas das coisas que, na altura, foram ridicularizadas, atacadas ou tratadas como propaganda são hoje absolutamente essenciais.

Foi assim com o Cartão de Cidadão.

Hoje, ninguém imagina voltar ao tempo em que cada pessoa andava com bilhete de identidade, cartão de contribuinte, cartão da Segurança Social, cartão de eleitor e cartão de utente separados. Mas, quando surgiu, foi apresentado como mais uma “mania modernizadora”.

O mesmo vale para o Simplex, a Empresa na Hora, o Documento Único Automóvel e a desmaterialização dos serviços públicos. Hoje parece banal. Na altura, era um gasto.

Foi assim com o Magalhães e com a escola digital.

O computador foi gozado até à exaustão. Era o “computadorzinho”, era a “propaganda”, era a “modernice”que só servia para jogarem jogos.

Mas a ideia era simples: pôr tecnologia nas mãos dos alunos, reduzir a desigualdade digital e aproximar a escola pública do futuro.

Hoje, quando o Estado distribui computadores a alunos e professores, ninguém acha isso uma loucura.

A forma podia ser discutível. A direção estava certa.

Foi assim com a lei do tabaco. Proibir fumar em restaurantes, cafés e locais de trabalho parecia, para muitos, uma violência contra a liberdade individual. Vieram os discursos do costume: “já não se pode fazer nada”, “é o Estado a meter-se na vida das pessoas”.

Hoje, entrar num restaurante cheio de fumo parece pré-histórico.

Foi assim com a escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a universalização do pré-escolar a partir dos 5 anos.

Hoje parece óbvio. Na altura, foi uma decisão política de fundo — com muitas críticas.

Foi assim com direitos civis.

A interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada em 2007; o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010.

Hoje, para uma parte significativa do país, isto já é normalidade democrática.

Na altura, a histeria conservadora dizia que vinha aí o colapso moral da família, da sociedade e da civilização.

Não veio. Veio apenas mais liberdade, mais dignidade e mais igualdade perante a lei.

Foi assim com o Complemento Solidário para Idosos, criado para combater a pobreza entre os mais velhos com rendimentos mais baixos.

Hoje, ninguém sério deveria achar estranho que o Estado proteja idosos pobres.

Mas é precisamente o tipo de política que a direita económica detesta em silêncio — porque prova que o Estado social não é uma abstração ideológica.

É comida, aquecimento, medicamentos e dignidade na vida concreta das pessoas.

Foi assim também com a reforma dos cuidados de saúde primários e com as Unidades de Saúde Familiar.

Não resolveu tudo, não impediu a degradação posterior do SNS, mas introduziu uma lógica mais próxima, organizada e eficaz nos cuidados de primeira linha.

E depois há as energias renováveis.

Hoje, Portugal é elogiado como uma das histórias solares e renováveis mais interessantes da Europa. Mas isto não caiu do céu.

A viragem começou antes. Em 2007, o Governo Sócrates assumia a meta de 45% da eletricidade consumida a partir de fontes renováveis até 2010.

Em 2010, a Estratégia Nacional para a Energia 2020 afirmava expressamente que Portugal queria reforçar o seu estatuto de referência nas renováveis e na eficiência energética. A potência eólica instalada passou de 537 MW em 2004 para mais de 3500 MW em 2009.

Portugal não se tornou líder nas renováveis por acidente.

Houve uma decisão política deliberada: pegar num país sem petróleo, sem gás, sem carvão competitivo, mas com sol, vento, água, território e capacidade técnica, e transformar isso em soberania energética.

Durante anos, a direita gozou com isto. Chamou-lhe fantasia verde, custo excessivo, capricho ideológico.

Em 2024, as renováveis abasteceram 71% do consumo elétrico nacional. Que falem agora.

Também no turismo houve visão.

Sócrates não inventou a promoção turística. Mas o Plano Estratégico Nacional do Turismo, aprovado em 2007, tratou o setor como estratégico a sério: marcas, mercados, produtos, qualificação, inovação, articulação entre Estado e empresas.

E até no aeroporto a história tem uma ironia brutal.

A localização em Alcochete, decidida em 2008, foi atacada, adiada, enterrada, ressuscitada, trocada pelo Montijo e novamente discutida — e, no fim, muitos anos e muitos milhões desperdiçados depois, o país voltou exatamente ao mesmo ponto.

Em 2024, o Governo Montenegro anunciou o novo Aeroporto Luís de Camões no Campo de Tiro de Alcochete.

A decisão que tantos trataram como delírio era, afinal, a solução estrutural.

O atraso custou tempo, capacidade, competitividade, dinheiro e décadas de saturação na Portela. Parabéns a todos.

Depois veio 2008.

E aqui também é preciso limpar a propaganda de uma vez por todas.

A crise não nasceu em Lisboa.

Não nasceu porque Portugal deu computadores a crianças.

Não nasceu porque se investiu em eólicas, escolas, tecnologia, cartões digitais ou modernização administrativa.

A crise nasceu na banca desregulada dos Estados Unidos, no subprime, na engenharia financeira tóxica, no colapso de confiança que atravessou o Atlântico e rebentou na zona euro.

Portugal tinha fragilidades? Tinha.

Défices, dívida a subir, dependência externa, PPP, problemas de competitividade. Tinha.

Mas transformar tudo numa historinha infantil sobre “Sócrates gastou demais e, por isso, veio a troika” sempre foi propaganda — e a prova disso foi a forma desastrosa como a austeridade de Passos Coelho empobreceu o país e agravou a dívida em percentagem do PIB, precisamente a dívida que dizia combater.

Em 2025, segundo o Banco de Portugal, a dívida pública ainda representava 89,7% do PIB.

Temos mais dívida hoje do que no tempo de Sócrates, mas hoje somos vistos com uma das melhores economias no mundo...embora extremamente desigual.

Muitos países que estavam a investir no futuro foram apanhados pela mesma tempestade financeira global. Uns estavam mais preparados, outros menos. Portugal estava vulnerável.

Mas não foi um Governo português que inventou o subprime, a banca-sombra, os derivados tóxicos, o colapso do Lehman Brothers ou a arquitetura europeia inflexível que transformou uma crise bancária numa crise de Estados.

O que a direita fez depois foi genial do ponto de vista propagandístico: pegou numa crise global, numa zona euro mal desenhada, em fragilidades portuguesas reais, em erros do Governo Sócrates e na podridão posterior da Operação Marquês, misturou tudo numa panela e vendeu uma moralina simples: “o socialismo destruiu Portugal”.

Só que esse “socialismo” nem sequer existia.

O que existia era social-democracia reformista — com defeitos, vícios e alguns erros —, mas também com uma ideia clara: modernizar o Estado, digitalizar serviços, qualificar a escola, apostar em renováveis, proteger direitos civis, combater a pobreza, planear o turismo, pensar infraestruturas e tentar colocar Portugal no século XXI.

Compare-se isso com o que temos hoje.

Com todos os seus defeitos, Sócrates tinha uma ideia de país. Podia falhar. Podia exagerar. Podia construir mal. Mas queria construir.

Hoje, temos um Governo que parece não querer construir nada.

Gere o dia a dia.

Faz conferências de imprensa. Distribui slogans. Chama “reforma” a cortes. Chama “responsabilidade” à resignação. Chama “modernização” a entregar o país aos mesmos de sempre.

E há uma diferença simbólica terrível entre a corrupção de ontem e a zona cinzenta de hoje.

No caso Sócrates, a imagem pública ficou associada a envelopes com dinheiro, motoristas, contas na Suíça, amigos e dinheiro escondido.

Era a corrupção clássica, clandestina, subterrânea, cinematográfica.

Hoje, a corrupção modernizou-se.

Já não precisa de envelope entregue às escondidas, nem escondidos em caixas de vinho.

Pode aparecer com fatura, empresa familiar, avenças, consultoria, clientes, sigilo profissional e “trabalhos” que o cidadão comum nunca consegue verdadeiramente escrutinar.

A única coisa que se modernizou verdadeiramente foi a sofisticação da zona cinzenta.

Foi o Simplex da corrupção.

E, enquanto isto acontece nos bastidores, a sociedade foi domesticada para odiar um “socialismo” que nunca existiu.

Confundiram socialismo com social-democracia. Confundiram proteção social com preguiça. Confundiram Estado social com desperdício. Confundiram direitos com privilégios.

Criaram medo e ódio pelos de baixo para proteger os de cima — e assim convenceram muita gente a votar contra aquilo que a protege: SNS, escola pública, pensões, salários dignos, habitação acessível, direitos laborais, serviços públicos.

Sempre foi assim.

Disseram que o divórcio destruía a família. Disseram que a IVG destruía a moral.

Disseram que o casamento entre pessoas do mesmo sexo destruía a sociedade.

Disseram que não fumar em restaurantes destruía os cafés.

Disseram que computadores nas escolas eram propaganda.

Disseram que as renováveis eram fantasia e desperdício.

Disseram que o Estado digital era mania tecnocrática.

Depois, o país avança, o avanço torna-se normal e os mesmos que gritaram contra acabam a viver dentro do mundo que outros tiveram a coragem de construir.

Sem nunca agradecer.

Sem nunca assumir que estavam errados.

Por isso, está na hora de recuperar a palavra sem medo.

Não como dogma. Não como nostalgia.

Mas como aquilo que fez dos países mais livres, mais justos e mais desenvolvidos do mundo sociedades decentes: uma social-democracia corajosa, reformista, popular e democrática.

O novo PS tem de deixar de parecer uma versão educada da direita.

Tem de abandonar essa moderação bafienta que chama responsabilidade à resignação.

Tem de deixar de pedir licença aos mercados, aos comentadores, às televisões e aos salões onde nunca falta nada a ninguém.

O PS tem de voltar a ser progressista, popular, democrático e combativo: com a coragem de Pedro Nuno, o reformismo de Sócrates sem os seus vícios, a inteligência de Costa, a honestidade de Sampaio, o punho erguido de Mário Soares e o sentido social de Guterres.

Tem de parar de olhar para as elites — para os mercados, para os equilíbrios de salão, para os donos disto tudo — e voltar a olhar para baixo e para o meio: para quem paga renda, para quem espera no SNS, para quem educa filhos com salários curtos, para quem trabalha uma vida inteira e continua sem segurança.

Um PS que faz a diferença não pede desculpa por proteger as pessoas.

Reforma o Estado.

Enfrenta privilégios.

Combate desigualdades.

Investe no futuro.

Protege os serviços públicos.

Moderniza sem entregar o país aos privados.

Simplifica sem fragilizar o interesse público.

Cresce sem abandonar quem trabalha.

Precidamos de visão para o país...e ela nunca virá da direita.

Make social democracy great again.


2026  05 23

 https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva/posts/

António Santos - Eleições intercalares nos EUA: a trafulhice é a lei

* António Santos

À me­dida que se apro­ximam as elei­ções in­ter­ca­lares de No­vembro nos EUA, a ad­mi­nis­tração Trump, que co­lec­ciona re­cordes his­tó­ricos de im­po­pu­la­ri­dade, não poupa es­forços para ga­rantir an­te­ci­pa­da­mente a vi­tória elei­toral, mesmo que ela ocorra na se­cre­taria, ou no sé­culo XIX. No mês pas­sado, uma mai­oria de juízes ultra-re­ac­ci­o­ná­rios do su­premo tri­bunal feriu com gra­vi­dade a Lei do Di­reito ao Voto que, em 1965, es­ta­be­leceu o fim da dis­cri­mi­nação elei­toral dos ne­gros. Apro­vei­tando-se da am­bi­gui­dade ine­rente ao con­ceito de “raça”, o su­premo es­can­carou a porta ao ra­cismo nas pró­ximas elei­ções.

Em causa está, por exemplo, o “Ger­ry­man­de­ring” – a prá­tica de al­terar os mapas dos cír­culos elei­to­rais para ga­rantir mais eleitos. Os Re­pu­bli­canos não in­ven­taram a per­versa arma do “Ger­ry­man­de­ring”, tão an­tiga como a de­mo­cracia bur­guesa, e os De­mo­cratas também a dis­param sempre que o alvo lhes é con­ve­ni­ente. O que aqui há de novo é que, por um lado, o “Ger­ry­man­de­ring” volta a ser no­va­mente usado para ga­rantir que os votos dos ne­gros não contam e que, por outro lado, à me­dida que Trump con­so­lida o do­mínio sobre o apa­relho ju­di­cial, o Par­tido De­mo­crata tem cada vez mais di­fi­cul­dade a ri­postar na mesma moeda. Esta se­mana, por exemplo, o prin­cipal dis­trito elei­toral negro de Memphis, no Ten­nessee, foi dis­sol­vido e dis­tri­buído por três dis­tritos de mai­oria branca e con­ser­va­dora. No Mis­sis­sipi, na Loui­siana e na Vir­ginia, os mapas elei­to­rais também estão a ser re­de­se­nhados no mesmo sen­tido. Con­tra­ri­a­mente, esta se­mana, o Par­tido De­mo­crata viu chum­badas pelos tri­bu­nais quatro ten­ta­tivas de al­terar os mapas a seu favor.

Nos EUA, as elei­ções acon­tecem em dias la­bo­rais (as in­ter­ca­lares, por exemplo, serão numa terça-feira) e só em 21 dos 50 Es­tados os pa­trões são le­gal­mente obri­gados a per­mitir que os tra­ba­lha­dores vão votar sem perda de ven­ci­mento, o que só por si já é ex­tre­ma­mente di­fícil ga­rantir e fis­ca­lizar. Nou­tros sete Es­tados, os tra­ba­lha­dores até podem parar de tra­ba­lhar para irem votar, mas perdem o dia de sa­lário, um con­vite a que os tra­ba­lha­dores mais po­bres não votem. Para pi­orar tudo, a ge­o­grafia dos EUA faz com que votar exija fre­quen­te­mente de­mo­radas e cus­tosas vi­a­gens de carro. Sem sur­presas, a taxa de par­ti­ci­pação dos mais ricos já é ac­tu­al­mente o dobro da dos mais po­bres, que até aqui se de­fen­diam vo­tando por cor­res­pon­dência.

Para tornar o voto dos tra­ba­lha­dores ainda mais di­fícil, Trump quer agora li­mitar quase por com­pleto o voto por cor­reio: deu or­dens ile­gais aos cor­reios pú­blicos para não en­tre­garem cartas com bo­le­tins de voto, ex­cep­tu­ando as dos “elei­tores pré-apro­vados” – por ele, claro está. No mesmo sen­tido, apre­sentou no con­gresso a Lei SAVE, que con­si­derou aliás «pri­o­ri­dade nú­mero um» e que, se avançar, tor­nará obri­ga­tória a apre­sen­tação do pas­sa­porte ou do bo­letim de nas­ci­mento para poder votar, ex­cluindo 21 mi­lhões de elei­tores que nunca ti­veram estes do­cu­mentos. Steve Bannon, ex-con­se­lheiro de Trump, foi mais longe e su­geriu mo­bi­lizar para as mesas de voto o ICE; a in­fame po­lícia mi­gra­tória, para ater­ro­rizar quem tenha ar de imi­grante.

 Avante n.º 2737 (14/05/2026)

https://www.avante.pt/pt/2737//183689
https://www.odiario.info/eleicoes-intercalares-nos-eua-a-trafulhice/

António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA


 

* António Santos

1. Os Es­tados Unidos têm a maior po­pu­lação pri­si­onal do mundo, com­pondo menos de 5% da hu­ma­ni­dade e mais de 25% da hu­ma­ni­dade presa. Em cada 100 ame­ri­canos um está preso.A subir em flecha desde os anos 80, a sur­real taxa de en­car­ce­ra­mento dos EUA é um ne­gócio e um ins­tru­mento de con­trolo so­cial: à me­dida que o ne­gócio das pri­sões pri­vadas alastra, uma nova ca­te­goria de mi­li­o­ná­rios con­so­lida o seu poder po­lí­tico. Os donos destes cár­ceres são também donos dos es­cravos que tra­ba­lham em fá­bricas dentro da prisão por sa­lá­rios in­fe­ri­ores a 50 cên­timos por hora. Uma mão-de-obra tão com­pe­ti­tiva que muitos mu­ni­cí­pios hoje so­bre­vivem fi­nan­cei­ra­mente das suas pri­sões ca­ma­rá­rias e graças a leis que vul­ga­rizam sen­tenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pas­tilha elás­tica. Os alvos destas leis são in­va­ri­a­vel­mente os mais po­bres, mas so­bre­tudo os ne­gros, que re­pre­sen­tando apenas 13% da po­pu­lação ame­ri­cana, com­põem 40% da po­pu­lação pri­si­onal do país.

2. 22% das cri­anças ame­ri­canas vivem abaixo do li­miar da po­breza.Cal­cula-se que cerca de 16 mi­lhões de cri­anças ame­ri­canas vivam sem «se­gu­rança ali­mentar», ou seja, em fa­mí­lias sem ca­pa­ci­dade eco­nó­mica para sa­tis­fazer os re­qui­sitos nu­tri­ci­o­nais mí­nimos de uma dieta sau­dável. As es­ta­tís­ticas provam que estas cri­anças têm pi­ores re­sul­tados es­co­lares, aceitam pi­ores em­pregos, não fre­quentam a uni­ver­si­dade e têm uma maior pro­ba­bi­li­dade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA in­va­diram ou bom­bar­de­aram 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já in­ter­vi­eram mi­li­tar­mente do que aqueles em que ainda não o fi­zeram. Nú­meros con­ser­va­dores apontam para mais de oito mi­lhões de mortes cau­sadas pelas guerras im­pe­riais dos EUA só no sé­culo XX. E por de­trás desta lista es­condem-se cen­tenas de ou­tras ope­ra­ções se­cretas, golpes de es­tado e pa­tro­cí­nios a di­ta­dores e grupos ter­ro­ristas. Se­gundo Obama, lau­reado do Nobel da Paz, os EUA têm neste mo­mento mais de 70 ope­ra­ções mi­li­tares se­cretas a de­correr em vá­rios países do mundo. O mesmo pre­si­dente criou o maior or­ça­mento mi­litar de qual­quer país do mundo desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, ba­tendo de longe Ge­orge W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem di­reito a qual­quer tipo de sub­sídio de ma­ter­ni­dade.
Em­bora estes nú­meros va­riem de acordo com o Es­tado e de­pendam dos con­tratos re­di­gidos pela em­presa, é prá­tica cor­rente que as mu­lheres ame­ri­canas não te­nham di­reito a ne­nhum dia pago antes nem de­pois de dar à luz. Em muitos casos, não existe se­quer a pos­si­bi­li­dade de tirar baixa sem ven­ci­mento. Quase todos os países do mundo con­tem­plam entre 12 e 50 se­manas pagas em li­cença de ma­ter­ni­dade. Os Es­tados Unidos fazem com­pa­nhia à Papua Nova Guiné e à Su­a­zi­lândia com zero se­manas.

5. 125 ame­ri­canos morrem todos os dias por não po­derem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver se­guro de saúde (como 50 mi­lhões de ame­ri­canos não têm) tem boas ra­zões para re­cear mais a am­bu­lância do que o ino­cente ataque car­díaco. Com vi­a­gens de am­bu­lância a cus­tarem em média 500 euros, a es­tadia num hos­pital pú­blico mais de 200 euros por noite e a mai­oria das ope­ra­ções ci­rúr­gicas si­tu­adas nas de­zenas de mi­lhares, é bom que se possa pagar um se­guro de saúde pri­vado.

6. Os EUA foram fun­dados sobre o ge­no­cídio de 10 mi­lhões de na­tivos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mu­lheres em re­servas ín­dias foram es­te­ri­li­zadas contra sua von­tade pelo go­verno.
Es­queça a his­tória do Dia de Acção de Graças, com ín­dios e co­lonos a par­ti­lhar pa­ca­ta­mente um peru. A his­tória dos EUA co­meça no pro­grama de er­ra­di­cação dos ín­dios: du­rante dois sé­culos, os na­tivos foram per­se­guidos e as­sas­si­nados, des­po­jados de tudo e em­pur­rados para mi­nús­culas re­servas de terras in­fér­teis, em li­xeiras nu­cle­ares e sobre solos con­ta­mi­nados. Em pleno sé­culo XX, os EUA pu­seram em marcha um plano de es­te­ri­li­zação for­çada das mu­lheres na­tivas, pe­dindo-lhes para as­si­narem for­mu­lá­rios es­critos num língua que não com­pre­en­diam, ame­a­çando-as com o corte de sub­sí­dios ou, sim­ples­mente, cor­tando-lhes o acesso à saúde.

7. Todos os imi­grantes são obri­gados a jurar não serem co­mu­nistas para po­derem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente se­creto nem um cri­mi­noso de guerra nazi, vão-lhe per­guntar se é ou al­guma vez foi membro do «Par­tido Co­mu­nista», ou se de­fende in­te­lec­tu­al­mente al­guma or­ga­ni­zação con­si­de­rada «ter­ro­rista». Se res­ponder que sim a qual­quer destas per­guntas, pode ser-lhe ne­gado o di­reito de viver e tra­ba­lhar nos EUA por «prova de fraco ca­rácter moral».

8. O preço médio de uma li­cen­ci­a­tura numa uni­ver­si­dade pú­blica é 80 000 dó­lares.
O En­sino Su­pe­rior é uma au­tên­tica mina de ouro para os ban­queiros. Vir­tu­al­mente todos os es­tu­dantes têm dí­vidas as­tro­nó­micas que, acres­cidas de juros, le­varão em média 15 anos a pagar. Du­rante esse pe­ríodo, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dí­vidas, sendo amiúde for­çados a con­trair novos em­prés­timos para pagar os an­tigos. Entre 1999 e 2014, a dí­vida total dos es­tu­dantes es­tado-uni­denses as­cendeu a 1.5 tri­liões de dó­lares, su­bindo uns as­sus­ta­dores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 ame­ri­canos, há nove armas de fogo.
Não é de es­pantar que os EUA levem o pri­meiro lugar na lista dos países com a maior co­lecção de armas. O que sur­pre­ende é a com­pa­ração com o resto do mundo: no resto do pla­neta há uma arma para cada 10 pes­soas. Nos Es­tados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA po­demos en­con­trar 5% de toda a hu­ma­ni­dade e 30% de todas as armas, qual­quer coisa como 275 mi­lhões.

10. São mais os ame­ri­canos que acre­ditam no Diabo do que aqueles que acre­ditam em Darwin.
A mai­oria dos ame­ri­canos são cép­ticos, pelo menos no que toca à te­oria da evo­lução, em que apenas 40% da po­pu­lação acre­dita. Já a exis­tência de Sa­tanás e do in­ferno soa per­fei­ta­mente plau­sível a mais de 60% dos ame­ri­canos. Esta ra­di­ca­li­dade re­li­giosa ex­plica as «con­versas diá­rias» do ex-pre­si­dente Bush com Deus e mesmo as ines­go­tá­veis di­a­tribes sobre a na­tu­reza te­o­ló­gica da fé de Obama.

Avante n.º 2105 (3/04/2014)
https://www.avante.pt/pt/2105//129683

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Maria J. Paixão - O estranho caso da cidade-evento


* Maria J. Paixão

21 de maio 2026 

A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Com a chegada da Primavera, germina, novamente, nas nossas cidades um fenómeno que tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos: a “eventificação” de expressões culturais no espaço urbano. Por todo o lado proliferam, incessantemente, os festivais, as mostras, as festas...

Todas estas iniciativas comungam de duas caraterísticas distintivas: por um lado, são acontecimentos pontuais e extraordinários, que não se inserem numa programação cultural regular; e, por outro, são ocorrências efémeras e de curta duração, que, muitas vezes, não duram mais do que umas horas ou um par de dias. Trata-se, portanto, de autênticos “eventos”, que, gerando descontinuidade na vida quotidiana da cidade, não assumem qualquer ambição de criar dinâmicas estruturais. São anunciados com pompa e circunstância e esfumam-se rapidamente; vêm e vão, entretendo, temporariamente, a cidade, sem deixar nada de substancial para trás.

Embora a vivência no espaço urbano sempre tenha sida pontuada por eventos, a sua recente proliferação, bem como a emergência de uma autêntica “época de eventos” nas nossas cidades, são dignas de nota. Recusando enveredar pela superficialidade do moralismo, mas também rejeitando o conformismo acrítico, importa refletir sobre o modo como este fenómeno tem transformado a cidade. Essa reflexão é tanto mais importante quanto a “evento-mania” a que assistimos é subsidiada por recursos públicos e influi decisivamente sobre o modo como o espaço urbano é organizado e ocupado. Se, como parece ser exato, os processos de urbanização são corresponsáveis pelo tipo de comunidade que construímos, então não podemos ignorar as consequências da saturação de eventos na polis.

A “eventificação” que se desenrola por toda a parte pode ser analisada tanto como causa como consequência das específicas dinâmicas de reorganização urbana do nosso tempo. Como nos ensinaram Lefebvre e, mais tarde, Harvey, a criação e recriação do espaço urbano devem ser compreendidas no quadro do modo de produção dominante. A compulsão expansiva do capitalismo, geradora de sucessivas crises de sobreprodução, tem sido, desde os seus primórdios, determinante para a transformação das cidades – das grandes avenidas da belle époque à gentrificação das capitais europeias dos nossos dias, passando pelos fenómenos de suburbanização, privatização do espaço público e, mais recentemente, financeirização do edificado urbano.

A mais recente etapa deste processo de mutação urbana reproduz as caraterísticas principais do estádio de desenvolvimento do capitalismo pós-industrial em que nos encontramos: mercantilização total, homogeneização e atomização. A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Desde, pelo menos, os anos 90 do século passado temos assistido à desindustrialização acelerada das sociedades ocidentais e à concomitante desmaterialização da economia. Em consequência, o mundo urbano passou a girar em torno do consumo, do turismo e do rentismo. Tudo é um produto, mas nada é produzido. A própria cidade é hoje produto de consumo fácil, mais para ver do que para ser. Em resultado, nos centros gentrificados, o vazio de habitantes contrasta com a saturação de visitantes. E essa transformação arrasta tudo o resto: em vez das mercearias e de comércio tradicional, a profusão de lojas de lembranças; em vez de bairros onde os residentes criam comunidades longevas, alojamentos de curta duração e arrendamentos precários; em vez de espaços públicos de qualidade que permitem circulação pedonal, congestionamento permanente de trânsito automóvel, gerado pela movimentação pendular da população; e em vez de cultura orgânica e participada, eventos.

A financeirização da economia, que tem permitido ao Capital continuar a expandir-se além dos limites materiais dos sistemas produtivos, também se faz sentir sobre as cidades, transformando casas em ativos financeiros e centrando a vida urbana no turismo. Este processo propagou-se, naturalmente, à cultura, que passa a habitar o cruzamento entre a turistificação e a especulação.

Nas cidades gentrificadas, o esvaziamento dos centros urbanos começou por provocar o declínio acentuado da vida cultural de base. Basta pensar na escassez crescente de teatros e cinemas de bairro e de livrarias independentes. A eventificação das cidades é um passo adiante nesse processo: os eventos que hoje se sucedem incessantemente nas nossas cidades não são principalmente culturais; são, antes de mais, comerciais. Trata-se, as mais das vezes, de iniciativas inorgânicas, que vivem, sobretudo, da aparência arrojada, o que lhes garante difusão alargada em meios de comunicação e redes sociais. O essencial é o espetáculo, pois é ele que serve de comburente à publicidade.

Embora propagandeados como veículo de dinamização económica local, os eventos assumem, muitas vezes, na prática, uma tendência extrativista, beneficiando sobretudo agentes económicos externos ao ecossistema local. Mesmo os efeitos locais positivos são, por norma, concentrados no tempo, não criando dinâmicas de revitalização económica duradouras.

Além disso, gerando uma ilusão de dinamismo cultural, a eventificação das cidades desencadeia um processo de substituição de prioridades políticas que tem efeitos perniciosos sobre o setor da cultura. De facto, o próprio conceito de ‘evento’ encerra uma confusão errónea entre cultura e entretenimento. Ainda que recusando moralizar opções individuais, é imperativo distinguir um e outro conceitos, já que os motivos que podem justificar a intervenção pública em cada setor são distintos. O financiamento público da cultura deve nortear-se por objetivos formativos, de promoção da cultura democrática e fomento da reflexão crítica coletiva. Ora, quando confundimos entretenimento com cultura, abrimos porta ao redirecionamento do financiamento público para iniciativas predominantemente comerciais, contribuindo ainda mais para o subfinanciamento crónico das iniciativas culturais orgânicas que prosseguem aqueles objetivos. Ademais, ao saturar a cidade de eventos, promove-se uma relação atomizada e consumista com a cultura, em vez de estimular ecossistemas de participação e envolvimento local que permitam revitalizar os espaços urbanos decadentes.

a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento

A ideia de que a eventificação das cidades é inócua e de que cabe aos poderes públicos locais apoiar quaisquer iniciativas de dinamização urbana que lhe sejam propostas assenta, em suma, em duas premissas erradas: por um lado, a neutralidade da intervenção pública; e, por outro, a inocuidade do tipo de atividade que ocupa o espaço público. Quando um Município escolhe subsidiar, sistematicamente, eventos sem quaisquer horizontes cívicos está, não só a comprometer o financiamento duradouro e estrutural do setor cultural local, mas também a promover uma cidade de consumo, atomizada e pouco resiliente. A polis só pode subsistir enquanto nela subsistirem espaços, físicos e simbólicos, de participação e reflexão. À medida que a cultura é transformada em produto turístico-financeiro, as nossas cidades afastam-se cada vez mais desse ideal, vendo-se transformadas em montras para negócios que asfixiam a vida em comunidade. Num golpe derradeiro, a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento.

https://www.esquerda.net/opiniao/o-estranho-caso-da-cidade-evento/98115

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril


* Manuel Augusto Araújo

32 anos depois da Revolução de Abril, rever os «cartoons» de João Abel Manta, é reviver alguns dos momentos fortes que balizaram a história daquele tempo que se viveu em aceleração apaixonada, entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro.

Se naquela altura radiografavam à velocidade do pensamento o que estava a acontecer, hoje são parte imprescindível da história da Revolução. Não perderem a ironia, feroz e subtil, com que João Abel Manta dissecava os sucessos desses dias traçando um mapa que nos continua a orientar pelas estradas vertiginosas do que ficou conhecido por PREC.

Eram comentários urgentes e acutilantes, feitos em cima do acontecimento e o que era e continua a ser espantoso, é nunca perderem o norte e acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu.

Em João Abel Manta a inteligência cortante, ancorada numa vasta e sempre actualizada cultura, distingue os seus «cartoons» desde os primeiros publicados na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Al­ma­naque ou no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do «Di­nos­sauro Ex­ce­len­tís­simo», personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava Salazar-o-Botas, parceria que continuou no «Burro em pé», uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

Arquitecto de profissão (um dos melhores conjuntos arquitectónicos de Lisboa, os blocos na avenida Infante Santo, são projecto que realizou com Alberto Pessoa e Hernani Gandra), pintor e desenhador por vocação, cartonista por gozo pessoal e para nosso gozo, o traço mesmo quando é grosso é de um rigor deslumbrante e filia João Abel Manta entre os Bordalos, os Steinbergs, os Daumier ou os François, colocando-o como um dos melhores cartonistas de todos os tempos

É evidente que não é indiferente ao risco dos «cartoons» o saber adquirido enquanto desenhador e pintor onde evidencia um saber, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

A história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas contradanças dos mar­ke­tings mais diversos, não tem dado a devida atenção a este artista que ocupa um lugar destacado na pintura, no desenho, na ilustração, no cartoon, nas maquetas de cenários, na tapeçaria e na arquitectura. Raramente alguém verteu o seu talento invulgar por tão diversas áreas, realizando obras como, por exemplo, os cenários para Shakespeare, a tapeçaria que foi premiada e figura no salão nobre da Gulbenkian, as ilustrações da «Arte de Furtar», o desenho distinguido na II Exposição Gulbenkian ou o já referido bloco de habitações na avenida Infante Santo.

Já é tempo de se realizar uma retrospectiva de toda a sua obra.

Em Abril há que lembrar que a história de Portugal entre Junho de 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os «cartoons» de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do país está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Olhar hoje para os «cartoons» de João Abel é reviver um tempo que alguns de nós vivemos exaltantemente, mas é igualmente descobrir como o seu fazedor coloca o cartonismo entre as artes maiores.

Avante nº 1602 - 2006 94 27

200https://www.avante.pt/pt/1691//13990

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~



O regresso dos cartoons de João Abel Manta

A Tinta da China re­e­dita, hoje, o livro com os «icó­nicos car­toons» (1969-1975) de João Abel Manta, um dos «me­lhores de­se­nha­dores e ilus­tra­dores por­tu­gueses» das úl­timas dé­cadas do sé­culo XX, que, desde cedo, re­velou a sua opo­sição à di­ta­dura fas­cista.

«Ao fim de 48 anos, esta é a pri­meira re­e­dição deste tí­tulo: levou, pois, quase tanto tempo a que estes de­se­nhos re­gres­sassem ao con­vívio dos lei­tores por­tu­gueses como o que durou o re­gime der­ru­bado pela Re­vo­lução de Abril de 1974. Fe­chados já os jor­nais para onde eles foram en­vi­ados, ama­re­le­cidos ou apo­dre­cidas as edi­ções onde foram im­pressos, es­que­cidos até al­guns dos mo­mentos ou per­so­na­gens neles re­pre­sen­tados, aqui os temos de novo, tão bri­lhantes e per­ti­nentes como quando saíram do es­ti­rador de João Abel Manta», des­creve a edi­tora, no texto de apre­sen­tação da obra.

Neste livro in­cluem-se car­toons an­te­ri­ores a 1975 que não cons­tavam da pri­meira edição e todos os pos­te­ri­ores a esse ano, com notas, da­tação ri­go­rosa, or­ga­ni­zação cro­no­ló­gica e uma in­tro­dução con­tex­tu­a­li­zada deste tra­balho.

Avante nº 2577 - 2023 04 20 

https://www.avante.pt/pt/2577//171296

Nazim Hikmet - Dom Quixote

 

2026 05 21 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - D. Quixote, de Cervantes

Este mural foca-se na literatura clássica universal, trazendo uma representação estilizada e abstrata de Dom Quixote de la Mancha e o seu fiel escudeiro, Sancho Pança, personagens imortalizadas pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes.

O poema parcialmente  transcrito neste mural do Dom Quixote é do famoso poeta turco Nâzım Hikmet (1902–1963).

"Il cavaliere dell'eterna gioventù
ormai verso la cinquantina
la legge che batteva
nel suo cuore
partì un bel mattino
di luglio
per conquistare il bene,
il vero il giusto..."

O poema intitula-se originalmente Don Chisciotte (Dom Quixote) e faz parte da sua célebre obra poética mundialmente traduzida. Como curiosidade, a tradução mais famosa deste poema para a língua italiana foi feita justamente por Joyce Lussu, a ativista e escritora que também foi homenageada no mural anterior (o do poema sobre as sapatilhas de Buchenwald).

Aqui está o texto integral do poema "Dom Quixote" (1947), do poeta turco Nazım Hikmet, traduzido para o português:

Dom Quixote

O Cavaleiro da Eterna Juventude
obedeceu, até os cinquenta anos,
à verdade que pulsava em seu coração.
Partiu numa bela manhã de julho
para conquistar o belo, o verdadeiro e o justo.
Diante dele estava o mundo
com seus gigantes abjetos,
e sob ele estava Rocinante,
triste e heroico.

Sei
que uma vez que se cai nessa paixão
e se tem um coração de um peso respeitável,
não há nada a fazer, Dom Quixote,
nada a fazer:
é preciso arremeter contra os moinhos de vento.

Tu tens razão: Dulcineia é a mulher mais bela do mundo.
Certo que seria preciso gritar isso mesmo
na cara dos grandes mercadores;
certo que eles se atirariam sobre ti
e te moeriam de pancada.
Mas tu és o invencível Cavaleiro da Sede.
Tu continuarás vivendo como uma chama
em tua áspera armadura de ferro
e Dulcineia será cada dia mais bela.» (Google Gemini)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil

Opinião

* Manuel Cardoso, Humorista

Já só falta transformar o 25 de abril num festival de cerveja artesanal chamado Li-beer-dade

21 abril 2026

Há quem aproveite o mês da liberdade para mostrar ressentimento. Como tem chovido pouco por esta altura nos últimos anos, o provérbio passou a ser "Abril, mágoas mil". O Centro Interpretativo do 25 de Abril está bloqueado porque o governo não cedeu o espaço que estava previsto para a instalação do museu, no Terreiro do Paço. Faz sentido. Não é exactamente um museu, é um centro interpretativo; portanto, não é essencial que abra mesmo, basta que se interprete que existe. É um museu que não se visita, imagina-se.

O governo já sugeriu alternativas à localização, como a lindíssima, central e muito visitada freguesia da Pontinha. Não é que isto signifique necessariamente que o governo da AD esteja contra o centro interpretativo, mas, colocando tantos entraves à sua abertura, correm o risco de serem mal interpretados.

O que não dá para grande espaço para interpretações é a atitude do Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, face ao 25 de abril. Depois de acabar com o concerto de 24 para 25 de abril, a Câmara de Lisboa quis agora renomear as Festas de Abril para Festas da Primavera. São decisões que agradam ao tipo de pessoa que considera que a liberdade não se deve ao 25 de abril, mas ao primeiro carro, oferecido aos 18 anos pelos pais.

Já só falta transformar o 25 de abril num festival de cerveja artesanal chamado Li-beer-dade. Não seria melhor cancelar as comemorações populares do 25 de abril e fechar antes da Avenida da Liberdade para uma parada de celebração do Dia Mundial do Pinguim, que se celebra no mesmo dia? Estou certo que o Guaraná Antártida patrocinaria essa mudança.

Qual é a ideia? Tornar o 25 de abril num 15 de agosto: uma daquelas datas em que as pessoas agradecem não ter de trabalhar, apesar de não conseguirem precisar o motivo do feriado? Antigamente, uma certa esquerda reclamava para si o 25 de abril. Hoje, há uma certa direita que faz questão de rejeitá-lo abertamente.

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-22