* Carlos Coutinho
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Está agora sepultado no Cemitério de Benfica, em Lisboa, um extraordinário escritor que muito admiro e que muito me ensina ainda hoje, alguém que, inusitadamente, teve no Mosteiro dos Jerónimos as cerimónias fúnebres (o “velório”, no dizer de um repórter de alfurja de um canal de TV de crimes e escândalos, abaixo de qualquer respeito) um tal António Lobo Antunes que deixou uma profunda marca na escrita de autores que começaram a publicar depois dele e que, sendo o inverso de José Saramago, outro gigante também já falecido e nobelizado, contra ele combateu, por mal disfarçada inveja.
Diferente dele, ideológica e filosoficamente, este Lobo feroz, execrou-o por ter sido ele o galardoado com o Prémio sueco para a Literatura que o infeliz psiquiatra tanto desejou em vão.
Regressando da guerra colonial em Angola, onde penou e trabalhou como alferes miliciano médico, o António Lobo Antunes publicou em 1978 “Memória de Elefante”, uma estreia que surpreendeu críticos e acadêmicos, logo seguida por “Os Cus de Judas” e abrindo caminho a uma recepção fulgurante de “A Explicação dos Pássaros” e de “O Manual dos Inquisidores”, além do fabuloso “Fado Alexandrino” que ainda trina e ecoa por todo o lado.
O mais alto Poder homenageou-o e acrescentou aos muitos prémios em vida recebidos, nacionais e estrangeiros, um galardão póstumo, a poucos metros do homérico túmulo vazio de Luís de Camões, seguindo hoje o seu esquife para um cemitério alfacinha que recebe urnas e caixões de gente de todos os credos classes sociais.
Muito perto dele está enterrado, há meia década, um cunhado meu, comerciante de Benfica, e logo ao lado um jornalista que foi meu chefe.
Dulce Maria Cardoso, outra grande romancista que escreeu “O Retorno” e também entrou no que chama “literatura colonial”, confessa que a influência de Lobo Antunes também nela foi “enorme” e frisa: “Não conheço quem escreva tão bem em língua portuguesa. (…) Leio-o como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro.”
Para Gonçalo M. Tavares, outro aedo nobelizável com prestígio internacional, há em Lobo Antunes “uma síntese filosófica de uma ideia formulada” pelo filósofo José Gil: o “medo dc existir”
Agustina Bessa Luís, que muito dele gostava, disse-lhe um dia: “Sabes, filho, eu devia ter-me casado contigo ou com o Camilo.”
Já Maria Alzira Seixo, que o estudou meticulosamente escreveu:
“Entre todos os motivos literários (…), um dos mais fortes é o do espelho, porque caracteriza o narrador na presença irrecusável de si a si próprio, dando conta das coincidências entre volição e pragmática, entre desejo e remissão à incompletude.”
O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, que acompanhou Lobo Antunes numa ida a Nova Iorque, ouviu-lhe numa entrevista: ”Pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sótão, onde morava Deus.”
Aliás, já tinha escrito numa crónica na revista “Visão”:
“Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fases, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente, tenho exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha volta.”
E em 2018, numa entrevista com uma só pergunta do “Diário de Notícias”, respondeu: “Quero que o Nobel se foda.”
8 Março 2026
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