quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

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16 de Fevereiro de 2017, 07:42

Por


Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

C
om ou sem acordo ortográfico, ouvem-se e lêem-se, com frequência, expressões de modismos mais ou menos tecnocráticos e de anglicismos forçados.

Sobretudo no futebol, propaga-se em toda a linha, o paupérrimo “à condição”. É assim que se diz e escreve em quase todo o lado, quando, por exemplo, uma equipa fica “líder à condição”. Os entendidos da bola teimam em falar de classificações antes de concluída uma qualquer jornada, usando aquela deficiente expressão. Confesso que tenho saudades do tempo em que os jogos se realizavam nas tardes de domingo, todos à mesma hora. Pelo menos, nessa altura, não havia classificações “à condição”. Neste contexto, bem se poderá concluir que esta expressão “à condição” é culpa da televisão que obrigou a “jornadas dominicais” estendidas por 4 dias!
A expressão “à condição” exige dizer-se qual ela é. Porque condições há muitas… Se eu disser simplesmente “estou à condição”, entender-se-á que a minha frase, além de um indigente modo de expressão (deveria dizer “sob condição”), está incompleta (qual é, afinal, a condição?). Já se viu o que seria uma pessoa “à condição” no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia é-o “à condição”? No caso da estafada frase em futebolês “primeiro classificado à condição”, melhor seria dizer “líder provisório”. Aliás, “à condição” é como estão todas as equipas antes de jogarem: a condição de jogarem mesmo. Na primeira jornada até todos os competidores serão campeões “à condição” …
Uma outra expressão, agora muito em voga, é a tradução literal de “by default” (“por defeito”). Muito usada na linguagem informática, expandiu-se endemicamente no uso e no abuso. Com a ridícula consequência de se poderem confundir três leituras possíveis: a que resulta directamente da expressão inglesa (que, verdadeiramente, quer dizer “por omissão”, “por predefinição”, “por norma”); a que está associada ao verdadeiro significado da palavra “defeito” enquanto imperfeição ou deformidade; ou ainda a expressão quantitativa de insuficiência que se opõe a “por excesso” (por exemplo, “O PIB foi avaliado por defeito”).
Com o avanço, de um modo de todo deslocado, da asserção “por defeito” com o significado da expressão inglesa, não faltará muito tempo para se dizer, com aparente naturalidade, por exemplo, “fez mal (ou bem), por defeito”, “sem carro, foi a pé, por defeito”, “como era o único candidato à liderança do partido, ganhou por defeito”, “era palhaço, por defeito”, “passou a ser ateu, por defeito” … Enfim, de defeito em defeito, até onde chegará o dito defeito?
Finalmente, entre os muitos anglicismos adoptados, há um que medra em escala logarítmica: o que advém do inglês “to realize”, que quer dizer notar ou aperceber-se. Por simpatia, o verbo realizar tem sido replicado no nosso idioma com o mesmo significado do verbo inglês.  Ora, realizar significa, em bom português, efectuar, conseguir, fazer, concretizar, pôr em prática, dirigir um filme, produzir. Mas há pessoas, sobretudo nas camadas ditas mais eruditas ou socialmente mais presentes, que, sistematicamente, usam o verbo no sentido que a palavra tem em inglês (“ele só ontem realizou que os impostos subiram”). Como diria Júlio Verne, “tudo o que um homem é capaz de imaginar, outro é capaz de realizar”.
Juntando estas breves notas, termino com uma charada de mau português: “Nos próximos dias, escreverei, à condição, sobre um tema que, por defeito, possa incluir neste blogue e que os leitores possam realizar”. Fiz-me entender?

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/02/16/hoje-escrevo-por-defeito-e-a-condicao/

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

* Nuno Pacheco
Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?
9 de Fevereiro de 2017, 8:00

No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.
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Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?
Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e actoótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.
Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.
E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.
O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Viver e Morrer em Angola de Paulino Soma

Cultura



3 de fevereiro de 2017 - 15h37 


Divulgação

Viver e morrer em Angola é um retrato profundo sobre a insensatez da guerra, a intolerância da guerra e a irracionalidade da guerra
Este é – verão depois – um livro forte, agudo, solenemente estranho num Fevereiro de 2017 mas corajoso o suficiente para nos lembrar, como angolanos e como humanos, que é escusada em absoluto a insensatez da guerra, a intolerância da guerra, a irracionalidade da guerra. Paulino Soma acaba de escrever o livro que os que decidem a guerra e a paz, os que instituem o “Nós e Eles”, os que assumem a juventude dos seus países como estatística fria e impessoal para alimentar exércitos A e exércitos B, fariam bem em colocar sobre a cabeceira da consciência e nunca no alto da estante onde ninguém o toca.

Passaram-me pela cabeça mil e uma interrogações quando iniciei a leitura deste livro, na última semana. A primeira grande pergunta foi sobre o tempo enquanto razão para a narrativa, a sua contextualização e até pertinência. Aos primeiros calafrios, às primeiras explosões de sangue, depois das dramáticas primeiras mortes, perguntei-me se este era um livro oportuno para década e meia de uma vida em paz e se, também, eu mesmo teria fôlego para lhe esmiuçar as linhas e parágrafos, as páginas e os capítulos, até ao fim.

Fi-lo sim, com o arrojo e o sangue-frio de quem vê um filme de terror ou, nas situações mais brandas, de quem se entrega aos instantes e aos minutos do clássico suspense de Alfred Hitchcok. E só foi ao chegar à última página que a minha pergunta ficou respondida. E só será no fim da minha apresentação que vos direi se o audaz Paulino Soma fez, em minha opinião, bem ou mal recuperando para o presente o tema da guerra fratricida em Angola. Esperemos até lá, então!

Caros Amigos

Receio que vos possa hoje cansar com a extensão do texto que julguei útil trazer-vos como percepção do que me ficou ao ler avidamente este livro com trezentas e sessenta e quatro páginas, mas só tenho como ajuda generosa à vossa provável impaciência o apelo para que sejam, por favor… pacientes!

É que uma obra feita com a incrível competência que esta respira, onde os diálogos, por exemplo, não nos chegam ao cérebro como captações repetidas do nosso olhar mas antes como vozes que se escutam, como sussurros que parecemos e queremos ouvir, como medos manifestados em voz alta por pessoas que temos a sensação de estar a ver por detrás das paredes ou do capim escondendo-se das balas e dos obuses, uma obra assim, dizia, tem de ser explicada, apreciada, tratada, com o rigor e a seriedade de um tempo generoso. Sem pressa!

Há mil e um planos que devem e precisam ser elevados até ao palco de uma apreciação justa. Não faze-lo seria frustrar enormemente o notável esforço que se percebe estar concentrado nesta soberba narrativa de Paulino Soma, que nos serve a guerra e os seus horrores numa bandeja como possivelmente não a tínhamos visto antes. E isso sabendo que muitos outros autores angolanos o elegeram também, sendo, para mim, particularmente recomendável por exemplo, Aníbal Simões no seu “Entre a Morte e a Luz”, editado há 15 anos atrás, em 2002.

O que tem de diferente a obra Viver e Morrer em Angola de Paulino Soma é, sem dúvidas, o modo como se mostra a violência da guerra que esventrou Angola, o sofrimento dos homens que a fizeram de armas na mão mas, essencialmente, a vulnerabilidade das populações indefesas. Digamos que o modo tão pateticamente selvagem como “o capim” sofreu nesta contenda “de leões”, recorrendo à célebre alegoria da sabedoria bantu.

Se o quisermos reduzir a uma linha de síntese, a tal pergunta clássica sobre o que é que o livro conta afinal, diremos que o livro relata o sofrimento das gentes de Caconda, município da província da Huíla de onde é natural o autor, nos sobe-e-desces de uma guerra com vencedores precários e heróis um tempo, mas que passadas semanas, meses ou anos, estão transformados em derrotados também eles.


Todo o mal e toda a barbárie que perpassou os campos de batalha de Angola, onde se viveram episódios de uma crueldade assombrosa e quase impossível de narrar só com a força da palavra escrita, é o que se tem neste livro, que quase precisa de uma advertência ao estilo da classificação dos cinemas: “Não aconselhável a menores de 30 anos”.


É que não apenas levamos para casa um testemunho de uma guerra que por muito cruel que tenha sido mas aconteceu de fato, é uma realidade da História, como também somos brindados com um extraordinário desempenho de escrita, surpreendendo a capacidade que o autor mostra de construir diálogos, de dar-nos a plástica dos episódios e até a densidade dos medos que acorrentam quem neles está envolvido.

Ao longo do livro, mesmo tratando-se de uma temática cruel, dolorosa, onde o medo e as tensões que provoca são explorados de uma maneira quase que nos assusta ler a obra estando sozinhos, ao longo do livro, dizia, deliciamo-nos em muitos outros momentos com magníficos rasgos que denotam uma superior capacidade de construção frásica do autor, aliada a uma estrutura de pensamento filosófico que constantemente deixa lições, apela a reflexões.

Posso enumerar-vos um conjunto de frases e expressões, diálogos e outros belíssimos trechos em que tudo isso foi muito bem conseguido, o que dá – repito – grande qualidade a esta obra que está muito longe de ser apenas mais uma a chegar ao mercado.

Por exemplo:

– Neste país há muitos mortos e muitas vidas mortas!

“Os rostos alegres e os tristes repentinamente entreolhavam-se e, aqueles alegres, tornavam-se tristes também”;

“Menino, menino, os meus olhos, agora cansados, já viram muitas coisas, e das coisas que viram que trazem o bem das pessoas, a guerra não está lá, não está não; Mas das coisas mais assassinas, e mais malditas, e mais ingratas que eu já vi, das coisas que fazem mesmo crescer a miséria e a fome e a dor, das coisas que despejam o sangue das pessoas, que não respeitam a vida, a primeira mesmo é a guerra. Por isso, é melhor pensar bem antes de ires lá, na guerra. A guerra tem garras que tiram sangue”

A banalização da morte e a insensibilidade de que uma guerra se cobre são estados de espírito que também vale a pena que os apreciemos, no modo frio e franco como o escritor Paulino Soma os descreve. É uma conversa entre o sargento Mingo e o soldado Enyenya, nome de guerra de Jamba, ambos pertencentes às forças governamentais:

– Hum, e como é que aprendeste a conviver com esta realidade tão cruel, sargento?!

– Fazendo a quitota com todo o meu corpo, com todo o meu coração, com toda a minha força, com toda a minha alma e com todo o meu amor. Eu adoro o gatilho, mô mano, e isso não me faz dizer que a nossa realidade seja bué malaiki como tu dizes.

– Adoras o sangue também?

– Tu continuas a ser um tropa de merda, meu. Porra! Um dia bates a cassuleta só porque não quiseste bondar. Na quitota é tudo ou nada. Eu sou um nganzado, Enyenya. Tu me sabes. Não poupo o meu inimigo quando tenho a oportunidade de o bondar. Mato os gajos a rir. Quando vejo os gajos a sangrar e a caírem no chão, me cuya feio!

– És um assassino de primeira, sargento!

– E tu pensas que te nego? Nem pensar; eu sou mesmo um assassino. No princípio também fui santinho, mas não tão santinho como tu. Quando vi os meus cambas a serem mortos como cães, eu preferi me tornar num cão danado, mô mano, com muita raiva para tudo o que é do lado do meu inimigo. Deixa-me te dizer um bizno que te servirá de conselho: a maior parte dos meus colegas que eram santinhos, assim como tu, não duraram muito! Baicaram! A quitota não é para santinhos, é para diabinhos! E se tu estás na quitota, para viveres mais tempo, precisas de te tornar num diabo, num grande diabo para levar aqueles kwatchas no Inferno.

– E quando, em vez do inimigo, morre um civil, um homem, uma mulher ou uma criança, ficas bem?

– Não no momento em que vejo a cena. Mas depois de dar as costas, mando tudo para o sítio mais escondido da minha consciência e, aos poucos, vou esquecendo. Então continuo com a minha missão de militar. Epa, a nossa intenção não é mesmo matar civis porreiros mas, às vezes, os nossos bagos, sem querer, vão dar neles. Ó meu, o que é que eu tenho a ver com isso?! Aliás, também já salvei civis. Também, sem querer, é claro, já bondei alguns. Mas, spera aí, Enyenya, tu tás a querer dizer-me que nunca bondaste nessas poucas missões em que estiveste? Eu mesmo já te vi a bondar os kwatchas.

– Já matei, sim. Mas confirmo que matei só adversários. Civis…não sei ainda. Talvez naquelas rajadas. Eu sentiria muito remorso se matasse um civil inocente (…).

– Pois mantém a tua laive mais taime para quitotares mais. Se assim for, ainda vais galar muitas mortes por aí; a minha, a dos outros kambas, quem sabe. Vais saber então que bondar, na quitota, nem sempre é uma opção, mas é, isso sim, uma obrigação; às vezes até uma necessidade. Mas não tem makas. Chegará o dia em que bondarás sem remorso".

Fim de citação.

Prestem agora atenção, por favor, ao relato de um ataque contra Caconda, quando guerrilheiros das Fala surpreendem um velho e sua filha menor, e todas as sevícias que se dão no ambiente febril de uma guerra.

“Catarina queria chorar nesse exato momento. Mas com um “psiu!”, o pai conseguiu impedi-la. Ela teve de obedecer, sabia que a situação era má. Os tropas aproximavam-se cada vez mais com as armas bem apontadas para o sítio. O tio Ngoma, como sempre fazia, começou a orar, a pedir que o seu Suku fizesse algum milagre para eles naquela situação, mas orava com o pensamento, a boca cerrada. Um dos guerreiros, impaciente, continuou a gritar:

– Eu vou te enfiar um tiro na cabeça! Mãos ao ar, mãos ao ar e vocês não obedecem, porra?!

Já estavam perto, tão perto que os corpos do tio Ngoma e sua filha apareciam sobrepostos:

– Estes já morreram ou estão a se fazer alguma coisa?! –disse um deles.

– Tu não vês que esta é só uma criança?! –defendeu um dos guerreiros.

O tio Ngoma queria fazer-se de morto sobre o corpo da filha, mas esta enxergou, no escuro, dois canos das armas a aproximarem-se e, desta vez, sem pensar, gritou chorando e mostrando apenas com os olhos o que via.

– Papá, estão aí!

Um dos canos da arma já estava sobre a sua cabeça, bem no occipital, enquanto os outros o colocavam um pouco distanciados.

– Levanta, mais-velho – ordenou ainda um deles.

O tio Ngoma não teve outro remédio. Embora tarde, obedeceu então. Obedeceu sem largar a filha.

Mas deram-lhe com uma coronhada no ombro direito e teve de a largar nesse momento. Catarina chorava pesarosamente.

– O gajo é mafioso! –disse o chefe dos dois. – Vamos depois ver o que fazer com eles. Por enquanto, ajudam-nos a levar as mochilas até à vila de Caconda.

Duas mochilas de munições e provisões alimentícias foram entregues ao Tio Ngoma, para as levar. Catarina teve de carregar três grandes obuses sobre as costas. Devia ser insuportável o peso».


Já vos arrepiei o suficiente e espero que vai sendo tempo de parar.


E faço-o regressando à pergunta do começo, sobre o que penso a respeito da ideia de um livro com esta temática chegar às nossas mãos quinze anos depois do calar das armas. Pois a minha resposta é franca, curta e directa: este livro é mais do que oportuno, pertinente, necessário. Porque deambulam ainda por aí os líricos que parecem não saber que os angolanos, todos indistintamente, já tivemos a nossa dose cavalar do inferno que é sempre uma guerra.

É um livro para recuperar memórias no sentido de se impedir que tropecemos de novo na mesma pedra; é um livro para dizer aos idealistas de umas certas primaveras que este é um país necessitado avidamente de paz para construir presente e futuro.

Este é um livro com voz e espaço num ano que é de eleições onde, na África imprudente que faz os nossos dias, está sempre latente o fantasma da convulsão, da paz que se periga, do sossego que se fragiliza.

Por isso, bem-haja ilustríssimo Paulino Soma com este magnífico exercício de cidadania e patriotismo; bem-haja também editora Mayamba, por mais esta demonstração de inequívoca independência e liberdade de atuação.

Muito obrigado a todos. Até um dia destes! 


*Luis Fernando é jornalsita em Angola, correspondente do Jornal Tornado
http://www.vermelho.org.br/noticia/292896-1

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa - Alma de Côrno

 * Fernando Pessoa




Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –

Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-te em verso. Tu
Fazes dôr de barriga á inspiração.

Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.


Nota: reprodução do poema respeitando a grafia original do fac-símile.


https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2017/02/03/alma-de-corno-fernando-pessoa/

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Salvé, Fernando Assis Pacheco

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31 de Janeiro de 2017, 16:02

Por


Salvé, Fernando Assis Pacheco

O
livro “Tenho Cinco Minutos pra Contar uma História” é uma memória daquele jornalista, ou poeta, ou prosador, que faria 80 anos e que anda a gozar com toda a gente. É por gozo que nos manda estas crónicas repescadas em papéis, que as gravações são escassas, e que deram em voz de rádio entre 1977 e 1978, na RDP.

O homem, “coimbrinha de nascimento e alfacinha pelo local de trabalho”, ficou famoso pela participação num concurso de TV, a Cornélia, com um empreendimento familiar que fizera dele um pop star. “Aqui há quatro meses as mães aproximavam-se de mim e diziam aos meninos pequenos: ‘Vá, dá lá um beijinho ao senhor da Cornélia!’,”explica-nos ele, envergonhado por, depois de tanto beijo, ainda ter sido transformado em cromo da caderneta do concurso. O certo é que ficou famoso, mas o merecimento era maior do que a pilhéria de umas noites de TV.
Assis Pacheco vem de uma história de galeguices, de um avô que atravessou para Portugal para vender panos pelas feiras e que era pesado com o cajado nos lombos de quem lhe agourasse. Por cá instalados, os Pachecos arribaram a Coimbra e o Fernando à universidade. Fez tropa e rimas e deu em jornalista.
Como Dinis Machado, um escritor de que tanto gostava, ele dava em flanar. “Fica-se por aí, homem de poucas falas, desconfiado talvez de que a glória (ah, a glória…) não passa de um engodo das Parcas, as cabras das Parcas, dissimulando a tesoura na dobra véstia. Do que ele parece que gosta é de flanar, mais flanar do que falar, de flanar claro, diria eu.” Só que Assis Pacheco era mesmo de flanar, de falar e sobretudo de escrever.
As crónicas são o registo em papel daquelas falas. Nelas nos conta como viajou a cobrir jogos de futebol na Alemanha, ou a acompanhar um escritor, José, não se deite a adivinhar, era o Cardoso Pires, desembarcando ambos na Dinamarca para receberem toda a hospitalidade, incluindo “saborear um amável peixe de coloração encarnada, em português ‘rodovalho’, cozido na altura, como deve ser, cercado de batatas novas e, ó José, que bem me lembro, suicidado num molho branco e doce, com leite, açúcar, etc., que ia agonizando toda a história da Literatura Portuguesa dos últimos 40 anos.” O viajante gosta de Cesário Verde, vendedor de ferragens, dono de poesia ao balcão, que morreu tísico aos trinta e muito pouco, lembra o Joaquim Agostinho e antes dele o Alves Barbosa e os ciclistas perdidos por esse mundo, regista as conversas entre passageiros de eléctrico, manda recado ao Arnaut que entrou para o governo, para os assuntos sociais, é um rapaz da minha geração lá de Coimbra e dará conta do recado, conta matreiro como chegou à Conservatória para o casamento, na bicicleta do cabo enfermeiro Barra e com um grãozito na asa, para ser solenemente admoestado pelo chefe de balcão – este Assis Pacheco é uma torrente, qual flanar.
É saboroso: e não é que o oficial da censura continuou a insistir com o jornal, pela tarde de 25 de abril, que as provas estavam atrasadas, até o telefone ficar a tocar sozinho? É pícaro: revela a “sociedade aldrabófona nacional”, como aquele homem que lhe pediu duas vezes um contributo para o funeral da mesma esposa estimada com poucos anos de intervalo. É jornalista: “Sento-me na bancada, acendo um cigarro e vejo calmamente os 90 minutos de chuto na bola, divertindo-me imenso com a paranóia ambiente. No meu tempo dizíamos ‘fora o árbitro’ e a boca escaldava com tanta enormidade; hoje um estudioso poderia aproveitar os sábados e domingos para se por à la page com o calão mais recente e sofisticado, e sobrar-lhe-ia tempo para admirar como o português, esse brando de costumes, enriquece a língua por dá cá aquela finta.” Este Assis Pacheco era tudo.
Salvé, Fernando.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/01/31/salve-fernando-assis-pacheco/

Journal of a lady of quality ou Diário duma Senhora Distinta (Janet Schaw)

posted by Joao Aldeia in

cetóbriga



Diário de uma Senhora Distinta [1]


4 de Dezembro de 1775, a bordo do 'Georges' em St. Tubes


     «Entre as 10 e 11 da noite fomos guiados por um barco piloto, a que os marinheiros chamaram bear-cod [?], pois fazia lembrar um. Pelo Mestre foi-nos dito que estávamos mesmo no lado oposto a Lisboa, e embora fosse extremamente escuro, eu ansiava por sair do barco para visitar esta terra onde se encontravam os meus amigos, mas não foi pequena a minha surpresa ao ser informada de que o barqueiro que me levasse a terra seria enforcado, além de que não seria fácil dizer o que é que me poderia acontecer. Isto foi justificado pelas coisas que teríamos de fazer antes de podermos desembarcar, e eu fiquei mortificada pelo facto de estarmos tão perto do nosso porto e, no entanto, teríamos de esperar vários dias antes de caminhar em terra firme. 

     «O Capitão também nos lembrou que não tínhamos o certificado de saúde e que corríamos, por isso, o risco de sermos enfiados num Lazaretto [local de quarentena]; mas, felizmente, Neilson era o próprio oficial que nos poderia passar o certificado, tendo consigo o selo, e não teve escrúpulos em o antecipar de um mês e de nos redigir um longo certificado em Latim. Os nossos receios de uma quarentena acabavam deste modo e dormimos despreocupadamente, pois esperávamos chegar ao porto pela hora do pequeno-almoço. O vento, porém, começou a soprar contrário e levámos quase um dia a avançar, e não chegámos à costa antes da tarde, que felizmente se revelou muito calma, e aqui tivemos o prazer de observar um céu italiano, tão belo como você me tem frequentemente descrito, e para o qual olhei com raro prazer, pois me trouxe à memória o que você me contou acerca deste e de muitos outros assuntos. 

     «Mas eu não me absorvi totalmente nos céus, pois a terra também pedia parte da minha atenção, e as colinas, os rochedos, os vales, tudo se juntava para agradar aos olhos que tinham sido privados de tão deliciosa variedade, e confinados a uma imensa monotonia ou reverenciando pinheiros negros igualmente desagradáveis (a). A verdura agora é muito deliciosa e encontra o olhar por todo o lado. Embora este seja, sem dúvida, o tipo de terra que imaginei, tal como imaginei uma Ilha da Índia Ocidental tão grande como o mundo, fiquei enormemente impressionada com os nobres edifícios enquanto navegávamos junto à costa (b), até que fui informada pelo nosso piloto de que eram, na generalidade, prisões [bastiles] — oh que som horroroso e assustador para uns ouvidos ingleses! 

     «Chegámos finalmente à baía, onde ancorámos a menos de uma milha da cidade de St. Tubes [Setúbal]. A cena no seu conjunto era muito viva e animada, particularmente quando associada à ideia de estar de novo na Europa. O fim de tarde foi óptimo, o Sol deslizando pelo horizonte e proporcionando uma beleza adicional às verdes colinas. O céu estava plácido e sereno; havia mais de cinquenta navios ancorados, e mais de uma centena de outros barcos envolvidos na pesca da sardinha e cantando Vésperas (c). A cidade enchia a perspectiva, com muitos moinhos de vento sobre ela, que eu penso ser um tema muito inspirador. A costa é extremamente escarpada e as colinas e planaltos, cobertos com searas ou pastagens, emanavam tal frescura que animavam perfeitamente os sentidos.

     «Mas enquanto estávamos ocupados a admirar esta agradável cena, aproximou-se um barco ...»
[continua]     outros excertos:
 1  2  3  4  5  6  7  8  9 
Journal of a Lady of Quality;
Being the Narrative of a Journey from Scotland
to the West Indies, North Carolina, and
Portugal, in the Years 1774 to 1776
Obra constituída pelas cartas redigidas por Janet Schaw, uma senhora escocesa. Pensa-se que teria entre 35 a 40 anos quando fez esta viagem à América, viagem que se iniciou a 25 de Outubro de 1774. Esteve nas Caraíbas, na Carolina do Norte e no Cabo do Medo, de onde partiu a bordo do 'George' em rota para Portugal. Chegou à nossa costa a 4 de Dezembro de 1775, conforme a descrição cuja tradução iniciámos hoje (o editor do texto crê que a data certa é 12 de Dezembro). Depois de alguns dias em Setúbal viajou por terra até Lisboa, onde ficou até meados de Janeiro seguinte, após o que regressou à Escócia (ver mapa da viagem).

As linhas onde Janet Schaw relata a sua chegada a Portugal deixam transparecer a emoção de quem demorou mais de um mês a atravessar o Atlântico e regressa à sua Europa passado mais de um ano, deslumbrando-se com a magnífica paisagem. Pelo seu relato também se percebe que os experimentados marinheiros se entretinham a impressioná-la com informações exageradas (sobre a possibilidade uma quarentena ou coisa pior, ou ainda estar a costa cheia de prisões) (d). É interessante o olhar feminino de quem chega a Setúbal e procura transmitir a alguém que muito admira — o destinatário das cartas, um amigo escocês — essa experiência. O conjunto destas cartas é muito reverenciado na Carolina do Norte pela sua importância histórica. No entanto, nunca ouvi qualquer associação deste relato à história de Setúbal, certamente por ignorância minha.

Notas:
(a) passagem obscura, cujo sentido me escapa; talvez se refira ao facto de ter estado confinada no interior do navio durante muitos dias. "Reverenciar pinheiros negros" poderia ser uma alusão à oscilação do barco e à visão dos mastros do navio, única paisagem disponível.
(b) talvez se refira ao Forte do Outão.
(c) estariam mesmo a cantar Vésperas? É possível que sim. Mais à frente no texto, durante a travessia do Tejo, refere que os barqueiros começaram a cantar Vésperas. Mas também poderia ser um canto de trabalho ao alar as redes.
(d) Veja-se, por exemplo, o caso do certificado de saúde: assustam a senhora Schawn dizendo-lhe que a falta do documento é grave. Mas depois o certificado aparece milagrosamente, porque — grande coincidência! — o sr. Neilson por sorte até trazia no seu baú o selo necessário! O próprio editor estranha o caso, até porque Nielson, embora nomeado, nunca chegou a tomar posse do cargo de oficial. Inconsistências deste tipo voltam a surgir mais à frente, com Nielson a exagerar sempre o seu papel de providencial salvador (mas há-de acabar humilhado pela teimosia de uma mula e enganado pelos barqueiros do Tejo).
posted by Joao Aldeia @ 5:33 pm

Diário de uma Senhora Distinta [2]

Setúbal, 1818
     «Mas enquanto estávamos ocupados a admirar esta agradável cena aproximou-se um barco que identificámos como sendo da Alfândega. Vinham nele três ou quatro funcionários, à vista dos quais os nossos Joões começaram a resmungar e a praguejar (a) de tal modo que eu não percebia o que é que os irritara tanto, até que o Capitão me explicou que estas pragas vinham apenas para nos extorquir todo o tabaco, e não nos deixariam nem uma onça nas bolsas. E eu não me poderia admirar do seu desagrado ou raiva em tal ocasião, nem sequer ficar ofendida quando disseram que a América tinha todo o direito de se ver livre destas ratazanas. (b)
     «No entanto estes eram apenas os guardas que vinham prevenir que algo fosse levado para terra. Os outros vieram apenas de manhã. Recebemos a bordo figos, uvas e um delicioso vinho, do qual nos estamos a servir sem restrições. Estou encantada com os sinos — lá está a ouvir-se um agora mesmo, tal como o nosso Sino das Oito (c) — clink, clink, como é bonito! Boa noite.
     «Houve uma busca geral por tabaco, e os nossos Joões entregaram as suas onças com uma tal boa disposição que me convenço de que não perderam todo o seu conforto (d). Apesar das pessoas que vieram a bordo terem um aspecto pessoal desagradável, encontrei grande diferença entre os seus modos e os dos seus equivalentes entre nós. Mostraram mesmo ficar atrapalhados quando viram as senhoras e desfizeram-se em mil desculpas (e). Como Mr. Nielson fala todas as línguas europeias, nós ficámos a saber tudo o queríamos por seu intermédio. Mas apesar de ele ter feito uma viagem pela Europa há poucos anos, nunca antes estivera em Portugal, e por isso desconhece os seus costumes. Ele está particularmente preocupado com a ida a terra, o que, segundo estas pessoas dizem, não poderá acontecer antes de dois ou três dias. (f)
     «Vê-se claramente que ele pretende tomar boa conta de nós, a qualquer custo — Deus o ajude, mal sabe ele como sou pouco inclinada a preocupar-me, sendo mais fácil eu rir do que chorar perante as pequenas contrariedades que temos encontrado nesta viagem. Oh, meu querido amigo! Oxalá fossem apenas estas todas as minhas preocupações — mas não nos aborreçamos nem discutamos, de acordo com a sábia doutrina que nos deve guiar. Reside em nós que os acontecimentos do destino se materializem. A recepção que lhes dermos e as voltas que em nós fizerem é que farão com que sejam bons ou maus. Mas de uma coisa, pelos menos, estou certa: é que se o meu amigo estiver feliz, eu jamais me poderei sentir infeliz. (g)
     «Fui interrompida por uma mensagem informando-me que os oficiais da saúde e a Santa Inquisição estavam a subir a bordo, e também que o Governador solicitava a honra de falar com as Senhoras Inglesas. Embora a Inquisição tenha já perdido a sua grande força, a simples palavra ainda provoca horror, e Miss Rutherfurd garante que eu empalideci só de ouvir o nome. Mas tal foi sem razão. Em vez de um severo Inquisidor quem surgiu foi um jovem e sorridente Padre, o qual, admito, tornaria qualquer penitência muito fácil para algumas de nós, caso fosse escolhido como nosso confessor. A nossa saúde foi certificada e as nossas bolsas, embora abertas, não foram devassadas. Ao abrir a minha bolsa reparei no olhar de extrema atenção de Mrs. Miller, a quem foi dito que, se alguma Bíblia fosse encontrada, o seu possuidor seria entregue à Inquisição (h). Ela tinha uma in folio, a qual transferiu para a nossa bolsa, e não teve sequer o cuidado de a esconder. Contudo não deram por ela.
     «O Governador falava bom Francês e o nosso Padre conversou com Mr. Neilson em Italiano (i). Beberam chá connosco e depois de fazerem o Capitão assinar um curioso conjunto de normas, para ele a para a sua tripulação, deixaram-nos com total liberdade para ir a terra quando quiséssemos e carregar os nossos baús (que eles marcaram) livres de qualquer outra busca.
     «Eu pedi a Neilson que me traduzisse as normas subscritas pelo Capitão, pelo imediato e por ele próprio, algumas das quais são as seguintes: que os ditos oficiais e a tripulação não deverão insultar nenhuma mulher que por acaso encontrem; que tirarão os respectivos chapéus perante membros do Clero e que não os insultarão de nenhum modo; que se ajoelharão perante a sagração da hóstia; que de modo algum insultarão a cruz, onde quer que haja uma, vertendo [águas], não importando a urgência das suas Necessidades, devendo retê-las até uma distância adequada. E muitas outras de igual importância foram subscritas.»
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Notas:
Agradeço ao João Reis Ribeiro a informação de que ele próprio já tinha divulgado este texto de Janet Schaw, com transcrição parcial de alguns dos trechos relativos a Setúbal, no "Jornal da Região" e também no seu livro "Histórias da Região de Setúbal e Arrábida" (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2003).
(a) "Joões": referência à tripulação em geral; noutra parte do texto Janet refere-se-lhes como "honest Johns". Em calão actual "honest John" significa um homem bom e ingénuo, enquanto que um "John" é um "cliente de uma prostituta".
(b) a expressão usada, damly in the right, poderia ser considerada como praguejar, Janet, porém, não se deveria sentir ofendida. O tom de desprezo dos marinheiros é bem característico de quem não gosta de ser inspeccionado por alguém que considera inferior.
(b) "Sino das Oito": toque de recolher; expressão também usada metaforicamente para indicar que chegou a hora de terminar qualquer coisa, e é o que Janet aparentemente faz, interrompendo a escrita com um "boa noite".
(d) isto é, não entregaram todo o tabaco que tinham; é constante a contradição entre a dramatização dos comportamentos que supostamente os portugueses estariam a preparar e o que na realidade acontece, que é exactamente o oposto: um normal controlo alfandegário, sempre acompanhado dum comportamento correcto e frequentemente cordial.
(e) ou seja: foram muito mais correctos os funcionários portugueses do que eram habitualmente os ingleses.
(f) informação errada, que será desmentida logo a seguir. Este Mr. Neilson gostava mesmo de salientar a sua própria importância, dramatizando as expectativas, para depois prometer que faria tudo para poupar as senhoras...
(g) curiosa transposição: perante a evocação das atenções de Mr. Nielson, a autora realça a sua relação, certamente especial, com o destinatário das cartas; o parágrafo, um pouco misterioso, só se poderia entender mediante o conhecimento de circunstâncias que apenas eles dois partilham.
(h) ou seja, seria perigoso ser encontrado na posse de uma Bíblia protestante; mais um evidente exagero que o próprio desenrolar dos acontecimentos desmente.
(i) desconfio que este Neilson estava longe de saber falar "todas as línguas europeias".

Diário de uma Senhora Distinta [3]

     «Neilson, que desembarcara com os nossos Visitantes, regressou e informou-nos que, com a ajuda deles, nos conseguira excelentes alojamentos e que amanhã poderemos comer carne em terra, embora estejamos num período de rigoroso jejum. Ele transmitiu-nos um retrato verdadeiramente hilariante da Senhora que nos vai receber, a Senhora Maria, que lhe disse imensas coisas amáveis, a tal ponto que ele acabou por ficar receoso dela. Por causa disso convenceu-a de que era casado e de que a sua mulher o acompanharia. Imagino porque é que ele achou necessário dizer isto, e vou ajudá-lo com a minha protecção.(a)
     «Garantiram-me que o correio sairá de Lisboa dentro de poucos dias, e poderei enviar-lhe então estas cartas. Verá, pelas coisas que escrevo, que tivemos uma boa viagem, embora eu me tenha esquecido de o referir. Nunca foi preciso proteger as vigias nem fomos nunca incomodadas pelo tempo, embora tivéssemos uma brisa fresca durante toda a viagem.
     «Jantámos ontem com a Senhora Maria, uma dama rotunda, entre os trinta e os quarenta, mas muito Amarosa (b), de tal forma que Nielson teve de chamar a sua suposta esposa para o proteger de tantas atenções e carícias — as quais, para ser sincera, ela distribuiu igualmente por todos nós, abraçando-nos e fazendo-nos festas até ficarmos meio sufocadas. Mas isto não foi o pior: depois quis que conhecêssemos a sua criada. Era uma autêntica Maritornes do Don Quixote (c), com a sua jaqueta e olho torto; nunca eu vira semelhante coisa. Media tanto em altura como em largura. O seu cabelo parecia um arbusto espigado e, juntamente com os seus olhinhos piscaretas e o nariz de galo, compunha uma figura única. Eu temi quando se aproximou para me abraçar, já que o cheiro a cozinha era fortíssimo, mas felizmente revelou-se mais humilde do que a sua patroa, pois baixou-se e abraçou-nos pelas pernas, beijando-nos os pés, o que permitimos que fizesse sem no entanto a elevarmos aos nossos braços, como parece que seria normal fazer. A Senhora Maria informou-nos, com muita pena dela, que não era estalajadeira e apenas mantinha a casa para acomodação dos seus amigos, em cujo número, no entanto, ela nos incluía. (d)
     «Isto certamente teria causado surpresa a um Inglês — embora uma surpresa não tão grande quanto a ponte de Tay — mas eu, que me habituei a estas expressões de amizade com muitos mais no seu país, onde fui tratada como amiga mas com muito pouca cerimónia, e tive de pagar contas decentes, ou muito indecentes, por comida e bebida da qual provei uma parcela muito pequena.(e)
     «Após o jantar fomos ver a cidade, que em tempos foi magnificente mas que está agora em quase total ruína, em parte devido ao horrível terramoto.(f)»
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Notas:
(a) mais um ridículo mal-entendido do sr. Nielson, perante a afabilidade duma estalajadeira setubalense. No entanto, o ardil de Nielson para se defender da senhora não pode deixar de ser interpretado como um desejo oculto, consciente ou não. Janet, alegremente, entra no jogo. Honni soit qui mal y pense.
(b) 'Amarosa': sic no original. Um dicionário actual não inclui esta palavra, mas sim 'amorosa', com o significado de "mulher provocadora", "cortesã".
(c) figura algo grotesca da novela de Cervantes
(d) mais uma "história mal contada"; não sabendo falar português, Janet toma conhecimento destas coisas pela tradução de Nielson, que pelos vistos tem grande imaginação. Talvez tenha decidido ser ele a pagar a hospedagem, criando este estratagema para não constranger a sensível Janet. De qualquer modo, trata-se de uma charada que não termina aqui, pois acabarão por nem sequer dormir naquele local, como se verá.
(e) Ainda hoje existe uma grande diferença entre o caloroso acolhimento dado na Escócia, a forasteiros, e a frieza e indiferença inglesa. Janet recorre aqui à ironia, começando por dizer que um inglês sentiria surpresa pela amizade expressa pela Senhora Maria, mas não tão grande como comprida era a ponte de Tay, acrescentando que os ingleses lhe cobraram em excesso por comida e bebidas que escassamente lhe serviram.
(f) terramoto de 1755, ocorrido portanto vinte anos antes; tanto a "magnificência" como a "quase total ruína" são prováveis exageros; se o terramoto era uma das causas da destruição da cidade, quais seriam a outras? Não perca o próximo capítulo.


 

Diário de uma Senhora Distinta [4]

Setúbal - 1839
     «Após o jantar fomos ver a cidade, em tempos magnificente mas que está agora em quase total ruína, em parte devido ao horrível terramoto e em parte devido aos efeitos ainda mais devastadores do despotismo. Pude observar com os meus próprios olhos o palácio do Duque de Alvara [Aveiro (a)], uma ruína muito nobre. O seu destino, conhece-o bem, e eu ouso dizer que estamos de acordo em pensar que tanto ele como o seu filho, o Marquês, mereceram todos os castigos. Pois está para além de qualquer dúvida que atentaram contra a vida do seu soberano — um crime que não admite complacência.
     «No entanto, tal como afirma Voltaire, não existe crime, por maior que seja, em que não percamos a razão, quando o castigo ultrapassa os limites da humanidade. Por isso a memória destes dois parricidas seria evocada com ódio, se apenas eles tivessem sofrido a morte. Mas quando vemos a vulnerável Duquesa, os dois gentis jovens ainda menores de 18 anos, sofrerem o mesmo horrível destino, apesar de serem completamente inocentes, a natureza revolta-se, e já não se pode considerar justiça, mas sim diabólica barbaridade. Nem parece ser menos chocante descobrir a impotência do poder extender-se a objectos incapazes de sentir ou compreender o castigo — uma filha pequena declarada infame e fechada num convento para se ocupar nas mais baixas tarefas; cinzas espalhadas ao vento; um palácio arrasado e o chão salgado, um outro inteiramente arruinado, embora as paredes ainda se mantenham o suficiente para observarmos quão grande foi em tempos esta família, cujo destino é silenciosamente lamentado neste país. Como sabe, a expulsão dos Jesuitas seguiu-se a estes acontecimentos, e com eles abrandou o poder da Inquisição.
     «Visitámos diversas igrejas, que estão agora a ser decoradas para o Natal — a Virgem com roupas novas, umas vezes muito bonita, mas noutras muito gloriosamente ridícula. Algumas das igrejas são excelentes mas as imagens são em geral toscas e em nenhum lado vi pinturas de qualidade. Mas temos um convite para um convento de Missionários, amanhã, onde me dizem que tudo é nobre, e são ricos, embora pedintes por obrigação (b).
     «Não será fácil para os marinheiros o cumprimento estrito das normas para não ofender a Cruz, pois encontramo-las tão próximas umas das outras, que estará muito longe do seu poder o evitarem qualquer ofensa. Na realidade esta profusão do mais sagrado de todos os assuntos choca-me enormemente. Encontramo-la sobre todas as portas em lugares de uso mais baixo. Observa-se a sua mais horrível violação, onde quer que se coloque a vista, e poder-se-ia pensar que tudo isto foi congeminado pelos Turcos ou Judeus, para ridicularizar e criticar uma religião que eles desprezam e descrêem. Não será aqui que me irei converter à fé Católica, pois não parece diferente de um espectáculo de marionetas.
     «Tenho de lhe contar uma anedota sobre a nossa hospedeira Maria. Conduziu-nos através de uma casa muito desarrumada e suja, até que chegámos a uma espécie de arrecadação onde se encontrava um pequeno roupeiro. Colocou então uma expressão solene, e intimou Neilson a informar-nos que nos encontrávamos na sua capela privada; que não era rica, mas tudo o que podia poupar gastava com Deus. Eu aprovei o objecto da sua prodigalidade, mas não via nada na sua capela que valesse o que fosse para qualquer pessoa do mais baixo estado. Mas, ao abrir-se o referido roupeiro, fomos surpreendidos com a visão da Virgem e do seu filho em figurinhas, não muito maiores que o comprimento do meu dedo médio, acompanhados por uma multidão de santos liliputianos, vestidos com cores alegres e alinhados em boa ordem de cada um dos lados. Abriu então um pequeno altar desdobrável, no qual se encontravam todos os utensílios necessários para a devoção, em miniatura, todo o conjunto parecendo uma casinha de bonecas. A Senhora Maria ajoelhou e benzeu-se com devoção, ao mesmo tempo que o senhor Neilson libertava um grande suspiro (c).
     «Eu fiz a uma pequena vénia, mas a Fanny observou tudo com o maior desdém. Mal a caixa foi fechada, a vivacidade da Senhora regressou, e abrindo as gavetas por baixo da sua igreja romana mostrou-nos o seu guarda-roupa, do qual não tinha a menor vaidade. Fez-nos depois oferta de algumas cruzes artificiais, e levou-nos para o canto mais afastado da capela, onde se encontrava um grande número de cestos de entrançado para venda, extremamente bonitos, dos quais lhe compramos vários. Se tivesse comigo mais dinheiro poderia comprar aqui muitas coisas, muito baratas.
     «Ainda gastei algum dinheiro pois estou segura de que obterei crédito em Lisboa. E se não fosse por isso eu teria sentido um baque de cada vez que abria a minha bolsinha, que contém uma larga soma para um pobre refugiado, e da qual eu nunca perco vista, dado que não tenho uma alta consideração pela honestidade dos Portugueses. Os quartos da Maria estavam tão sujos que não pudemos lá ficar. Neilson, na realidade, estava absolutamente decidido a levar-nos a dormir a bordo, de tal modo que não pude deixar de pensar que ele estaria com receio de se encontrar sob minha protecção nessa noite, em que me seria difícil manter a personagem de esposa.» (d)
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Notas:
(a) Refere-se ao Duque de Aveiro, José de Mascarenhas, acusado, com a família, de tentativa de assassinio do Rei em 1758. O processo judicial impressionou o mundo pela extensão do castigo a toda a família, incluindo crianças, pelo uso da tortura durante os interrogatórios, e pela barbaridade da morte em praça pública, precedida, por imposição da sentença, de violências destinadas a destroçar e desmembrar os sentenciados ainda em vida (1759). A Lisboa popular, como de costume, assistiu a tudo como espectáculo de primeira qualidade, tal como acontecera com inúmeros autos-de-fé.
(b) As esmolas podiam render somas consideráveis; por isso, os franciscanos da Arrábida, devido ao voto de pobreza, estavam proibidos de esmolar. Tinham de se contentar com os produtos das suas hortas e, diz-se, com lagostas que encontravam no Portinho...
(c) atendendo a que Neilson não sabia falar Português, toda a conversa deve ter sido deliciosa.
(d) recordemos que foi Neilson quem arranjou inicialmente aquele alojamento, tendo garantido que era excelente. Estariam os quartos sujos ou seria Neilson que estava assustado com a perspectiva de ali dormir com a "sua esposa", como sugere Janet? E haveria alguma verdade nisto, ou não passaria tudo de uma fantasia inventada em cada momento por Neilson? Estaria ele com medo da própria sombra?


Diário de uma Senhora Distinta [5]

Arrábida - 1839
     «Deixaremos St. Tubes [Setúbal] amanhã e seguiremos para Lisboa — mas embora não seja uma longa viagem, a modalidade que há-de tomar tem dado não pouco trabalho a Mr.Nielson, cuja bondade e atenção não tem limites. Que seria de nós sem ele? Creio que teria sido impossível continuar. No entanto, fico um pouco incomodada pela sua ansiedade, pois como se manifesta alarmado em presença da nossa mais pequena inconveniência, torna-se permanentemente incómodo, já que estes incidentes teriam de acontecer constantemente na nossa presente situação. O modo como nos deslocaremos tem sido uma fonte de grande aborrecimentos, pois não se conseguiu arranjar outro meio que não seja uma albarda sobre um burro ou uma mula.
     «Quanto a mim, tinha estado a admirar a facilidade com que um grupo de mulheres do mercado se movimentam, com os seus gorros mounterrara (a), quando ele entrou no quarto e, com grande consternação, me contou que, segundo lhe parecia, não chegaríamos a Lisboa. Quando me informou sobre os problemas que já referi, disse-lhe que não seria isso que me iria impedir a Viagem, pois penso que a albarda é um método tão conveniente para viajar como qualquer outro que eu já tenha visto. O quê? Miss Rutherfurd e eu sentadas em albardas? Ainda que seja um método simples, ele não se sujeitaria a ver-nos viajar assim. Pedi-lhe que considerasse que não temos qualquer dignidade a defender em St. Tubes, e que a desgraça da albarda estaria completamente esquecida antes de chegarmos à Grã Bretanha (b) . Mas nada o demovia, e dizendo-me que estas aventuras pareciam mais fáceis em teoria do que na prática, saiu com um padre, que lhe arranjou a caleche de uma senhora nobre que está desterrada da Corte nesta terra, por se ter casado, sem consentimento do Rei, com um bravo oficial, o qual está preso numa das prisões dos arredores (c) , supondo-se que acabará por ser morto. Como ela tem relações muito influentes, ofereceu-se para se encerrar num Mosteiro, entregando toda a sua fortuna à corte, caso perdoem o oficial. Oh, Bretões, Bretões, como desconheceis o quão felizes sois! (d)
     «Com este assunto resolvido, fomos dar a volta às igrejas, a qual terminamos hoje. As novas vestimentas da Virgem estão mais de acordo com o gosto inglês, branco e prata, e azul e prata, são os preferidos. Mas numa das igrejas ela tinha uma peruca — mas para que estou eu a descrever-lhe o que conhece tão bem? No entanto, deixe-me dizer-lhe que não julgava possível que o simples, nobre e racional culto ordenado pelo seu abençoado Criador pudesse ser transformado numa farsa, tal como a que se representa aqui neste momento, a custa-me até a crer que os Actores não se riam de si próprios. Travámos conhecimento com vários padres, que me agradaram, e um deles ficou tão agradado com a nossa companhia que ainda não conseguiu encontrar o caminho para o Convento, desde que chegámos (d) - . Ele fica em casa do Sr. G---, um comerciante inglês, que nos acolheu na sua casa e nos apresentou à sua irmã, a qual, embora casada com um português, toma todas as liberdades de uma esposa britânica.
     «Encontramos nela uma excelente companhia, e como ela conhece toda a gente é muito melhor para ela. O nosso padre Francis tem uma alegre carinha redonda, bem como uma barriguinha igualmente anafada. Uma certa jovem Americana tem prendido, no entanto, a sua atenção, tanto como a sua sagrada Senhora; não que ele negligencie as obrigações para com ela, longe disso — de vez em quando larga as cartas e corre para junto de uma vela e um Missal, que está a jeito, repete as suas Avé Marias o mais depressa que pode, para logo regressar para junto do objecto da sua actual adoração, e, pedindo-lhe perdão, encolhe os ombros, dizendo que estas coisas têm de ser feitas. Este padre, cujos votos o obrigam à pobreza e mortificação, usa a batina muito graciosamente, com a capa pendente das costas de modo descuidado, e manifesta uma contenção adequada. Come monstruosamente e engole um copo de vinho a cada três ou quatro garfadas, e no fim do jantar está pronto para qualquer brincadeira. Tem, no entanto, uns modos decentes, e, no meio de uma conduta muito amalucada, apresenta uma sobriedade no olhar que não se encontra nos restantes.»
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Notas:
(a) - "mounterrara caps": segundo o editor inglês, a palavra designa as monteras espanholas, gorros com 'orelhas'; as actuais monteras dos matadores de touros apresentam umas pequenas saliências laterais, mas existem modelos antigos em que a montera tapa completamente as orelhas (montera da Gran Canaria)
(b) - ou seja: sendo desconhecidos em Setúbal, não teriam que se preocupar que a sua dignidade fosse afectada pelo uso de uma besta albardada.
(c) - a palavra usada por Janet Schaw para prisão é bastile, palavra certamente derivada da prisão parisiense da Bastilha, associada ao despotismo do regime absolutista. A Bastilha viria a ser tomada pela população em 14 de Julho de 1789, data que marca o início da Revolução Francesa.
(d): ou seja, os Bretões (da Grã-Bretanha) desconheciam a sorte que tinham por viverem livres de regimes absolutistas, como o português da altura.




Diário de uma Senhora Distinta [6]

Arrábida - 1839
     «Um deles [um religioso] em particular, a cujo Convento fizemos ontem uma visita, é um perfeito e divertido Oxfordiano. Ficou de tal modo contente por nos ver no Convento que se descontrolou, caindo sobre os próprios joelhos e abraçando-se aos nossos, para nossa grande surpresa e perturbação. Correu então para o seu Superior, cujo olhar me impressionou verdadeiramente, e involuntariamente o revelei, mal conseguindo acreditar no efeito que produzia (a). Além disso, era tal a reverência inspirada por este velho homem de setenta anos que eu, sinceramente, lhe solicitei a bênção, e fiquei afectada pela benevolente solenidade com que me agraciou.
     «O nosso alegre padre foi então buscar uma pequena merenda (b) para nós, que colocou sem cerimónia num dos altares laterais que adornam esta Igreja, a qual é de facto excelente, possuindo boas pinturas e imagens, particularmente uma da Nossa Senhora do Arrependimento (c), colocada abaixo de um grande crucifixo, a qual penso que é tão bela como poderia ser imaginada por qualquer artista. Porém, a imagem colocada na cruz mais parece concebida para produzir terror, do que amor ou devoção. Não se pode mostrar este amável exemplo de toda a perfeição humana, desde a infância, para depois o exibir numa atitude de tanta agonia e miséria extrema (d). Isto deve-se sem dúvida à obscura superstição peculiar deste povo, onde a religião é entendida como um chicote que paira sobre os escravos, e onde cada um alberga um Tribunal da Inquisição no seu próprio peito. Eles imaginam o misericordioso pai das suas criaturas como sendo obscuro, assustador e inexorável, à semelhança dos primeiros Inquisidores. Que esta atitude não prevalece em todos os países de religião Romana Católica, disso estou certa. A prova são as belas pinturas que tenho visto reproduzidas, onde vemos essa figura divina delineada no acto de perdão e misericórdia, com uma contenção que inspira o observador com amor, gratidão e adoração — mas nada disso vi aqui.
     «Dormimos a noite passada numa divisão do palácio do Duque de Alvara [Aveiro]. Felizmente não o soubemos senão já de manhã, ou essa muito desafortunada e nobre família teria assombrado os nossos sonhos. Embora a zona em que ficámos faça parte do vasto edifício, parece no entanto que albergava os aposentos dos criados, pois tem uma entrada separada, mas vê-se que foram, ainda assim, instalações magnificentes e encontram-se agora ocupadas por um cavalheiro inglês, como já tinha mencionado, e ele mantém tudo muito ordenado. Mas as grandes divisões onde a família residira estão sob a condenação da infâmia, com as janelas emparedadas e ninguém se dispôs a lá entrar. O Terramoto não lhe provocou danos, e ainda é visível um balcão de grande nobreza, coberto com chumbo a toda a volta, sendo maior que a nossa Abadia de Holyrood (d).
     «Também existem as ruínas de uma adega, com a dimensão de pelo menos mil pés, onde tinham uvas todo o ano. Os jardins e lagos de peixes foram nobres e extensos, estando agora transformados em vinhas e alugados a rendeiros. Embora a traição seja um crime de tão grande gravidade que não admite desculpa, ainda assim devemos lamentar que esta família tenha cometido tal crime, merecedor de tão grande castigo. Adeus, até que vos escreva de Lisboa, o que certamente farei com o primeiro pacote de correio.
     «Acabo de receber uma carta da senhora Paisley, em retribuição de uma outra que lhe enviei (f). É difícil dizer qual é maior: se o seu prazer ou a sua surpresa. A sua afectividade, no entanto, é muito expressiva e estou segura de que o meu coração o sente de igual modo.»
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Notas:
(a) - Frase provavelmente mal traduzida por mim; o original é: "I could not believe any of his order could have deserved".
(b) - Collation: uma refeição ligeira que pode ser permitida em dias de jejum.
(c) - Lady of Sorrow
(d) - Outra tradução duvidosa; a frase original é: "Nor are you ever shown this amiable pattern of all human perfection from his childhood, till he appears in the attitude of agony and extreme misery."
(e) - A Abadia de Holyrood está localizada em Edinburgo, na Escócia.
(f) - A senhora Paisley era uma antiga amiga de Janet Schaw, "desde o berço". Tinha casado com um comerciante inglês, agora estabelecido em Lisboa. É esta família que irá acolher Janet durante a sua estadia nesta cidade.


 

Diário de uma Senhora Distinta [7]

Setúbal - 1839
     «Lisboa, 20 de Dezembro de 1775
     «Chegámos aqui a noite passada, após muitas aventuras, e estamos tão felizes quanto é possível fazerem-nos sentir os mais dedicados e afectuosos amigos. Porém, devo seguir a ordem das coisas, começando por descrever a nossa viagem, a qual se veio a revelar uma verdadeira tragicomédia, onde, muitas vezes, eu já não sabia se devia rir ou chorar. Começámos na caleche da nobre Senhora, que era na verdade muito adequada, tirada por duas excelentes mulas e conduzida por um cocheiro cuja cabeça faria inveja ao maior dos viajantes britânicos (a).
     «Mas o nosso inexcedível Governador [Neilson] estava tão contente por nos ter proporcionado estas condições de transporte que se esqueceu de tomar conta dele próprio, e deixou que um muleteiro lhe encontrasse três mulas — uma para a nossa bagagem, outra para um reles cicerone, e uma terceira para ele próprio, exigindo-lhe apenas que lhe arranjasse uma simples sela em vez de uma albarda. E conseguiu de facto uma sela, mas que não era uma sela vulgar, porque se tratava de um modelo francês que não via a luz do dia há pelo menos cinquenta anos, com uma espora ferrugenta num dos lados e uma caixa de madeira no outro, onde teve de enfiar os pés.
     «O muleteiro colocou a bagagem na melhor mula, o cincerone ficou com a escolha seguinte, enquanto que a arcaica sela foi colocada no dorso de uma mula que, à sua natural malícia, tinha somado os humores de pelo menos vinte e cinco anos de experiência, pelo que, tendo adivinhado que íamos subir uma montanha, recusou terminantemente mover-se. Foi em vão que o seu montador fez ressoar as botas nos seus costados: mostrou-se insensível a qualquer admoestação.
     «O dia estava horrivelmente quente, o sr. Neilson tinha-se estafado para nos conseguir estes meios, o que lhe provocou a reincidência duma febre, acompanhada de uma violenta enxaqueca. Não admira que a sua postura filosófica estivesse a ceder. A sua determinação tinha sido posta à prova de tal modo que esteve prestes a ceder a vitória ao seu antagonista. Veio então o muleteiro em seu auxílio, e com três ou quatro chibatadas nos costados da sua teimosa propriedade, convenceu-a finalmente a avançar, mas com a maior das lentidões, parando constantemente, até que o correctivo foi repetido, provocando desta vez um súbito arranque aos solavancos que levou o nosso amigo sentir todos os defeitos da velha sela. Isto não ajudou nada à sua dor de cabeça, nem o barulho dos chocalhos que enxameavam a mula da bagagem, a qual eu insistia em ter debaixo de olho, dada a fraca consideração em que tinha a honestidade do muleteiro português.
     «Um desinibido oficial português, que estava na parada quando entrámos na caleche, decidiu ajudar-nos, apesar de nos ser totalmente estranho, e observando as dificuldades do sr. Neilson, solicitou polidamente a honra de poder chicotear o animal. Por esta altura o sr. Neilson estava já tão saturado que não se importaria nem que fosse o Diabo a chicotear, e aceitou a oferta. Então a ridícula criatura começou a trotar à sua volta, montado num belo cavalo espanhol, fustigando o chicote sobre a mula e gritando: "Diabo, mula, mula". Foi-nos impossível evitar as gargalhadas, e até o nosso sacrificado amigo nos fez companhia, apesar da sua enxaqueca.
     «Eu, no entanto, fiquei extremamente aborrecida com este incidente, que ameaçava privar-nos da companhia do sr. Neilson para o resto do dia, na travessia desta gloriosa região, diversificada para além do que é possível descrever, com nobres edifícios a chamar a nossa atenção de quando em quando, mas sobre os quais não poderíamos obter qualquer informação, com o nosso cocheiro falando apenas a sua língua nativa, sem cicerone e com o nosso melhor instrutor afastado pelo seu confuso e bruto ajudante. Quantas vezes suspirei pela companhia do meu irmão, que teria apreciado esta paisagem em extremo, tornando-a ainda muito mais agradável por via dos seus judiciosos comentários.
     «Já impacientes, resolvemos finalmente abandonar a caleche e subir o resto da montanha a pé, que nessa altura se tornara de tal modo íngreme que as mulas apenas conseguiam puxar a carruagem. Toda a estrada estava repleta de mulas e burros, transportando vinho em recipientes de pele, até à zona ribeirinha. O sr. Neilson não se arrependeu de abandonar o seu teimoso meio de transporte, e com a ajuda do seu braço prosseguimos em condições aceitáveis, não sem parar numerosas vezes, para retomar o fôlego, mas igualmente para nos deliciarmos com a agradável vista que nos rodeava por todos os lados.»
[continua]     outros excertos:
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Janet Schaw
Journal of a Lady of Quality;
Being the Narrative of a Journey from Scotland
to the West Indies, North Carolina, and
Portugal, in the Years 1774 to 1776
Notas:
(a) - a palavra usada por Janet é "macaronie", arcaismo inglês que designava um dandy, jovem viajante dos séculos XVIII ou XIX, comportando-se com modos adoptados no estrangeiro. A palavra deriva do italiano maccarone .



Diário de uma Senhora Distinta [8]

Setúbal - 1839
     «À medida que avançávamos para o cume, deixámos para trás St. Tube [Setúbal], o mar, os navios, as grandes salinas, as belas ruínas, e uma região maravilhosamente verde das searas e pastagens. Perante nós tínhamos agora o rio Tejo, Lisboa e todas as terras adjacentes na margem oposta. À nossa esquerda observava-se uma cena nobremente selvagem e maravilhosamente romântica. As montanhas presenteavam-nos com rochedos e florestas, através dos quais fluíam rápidas correntes de água, caindo em ruidosas cascatas para os vales em baixo. E apesar destes vales se encontrarem repletos de plantações e nos convidassem a observar as vinhas, laranjais e olivais, era a Natureza que mais atraía o nosso olhar, tão fundo quanto os nossos olhos podiam penetrar nas florestas e sobre os rochedos.
     «Enquanto íamos comentando esta visão, Miss Rutherfurd observou que lhe fazia recordar uma descrição que ela sempre admirara, a da cena em que D. Quixote se encontra com o infeliz cavalheiro privado da sua razão. Todos nós concordámos com a justeza da afirmação, e nesse preciso momento, como de propósito, a cena foi completada pela aparição de um infeliz miserável na mesma situação descrita no livro. No profundo vale que dividia as duas montanhas, ele estava mesmo frente a nós, na vertente oposta, e podíamos vê-lo e ouvi-lo com clareza.
     «Estava quase completamente despido, o cabelo caindo sobre os ombros, enquanto que a rapidez com que saltava de um rochedo para o outro indicava claramente o estado da sua mente, e quando se aproximou do precipício, temi, com receio de que caísse. No entanto, parou já próximo do limite, e prostando-se de joelhos parecia implorar-nos, com as mãos erguidas, numa voz suplicante, que rapidamente se converteu num som selvagem, enquanto se manifestava num grande frenesim. Bateu no peito, arrepanhou os cabelos, e pelos gestos parecia estar a rogar-nos pragas, após o que, com terríveis gritos, regressou para lá das rochas e não o vimos mais.
     «Ficámos muito afectados com esta visão dum extremo da miséria humana, e o nosso cicerone explicou-nos que o homem tinha sido vítima da infidelidade da esposa, que ele adorava; matou o amante e refugiou-se no convento próximo de nós, mas ficou rapidamente privado da razão. No entanto, os frades decidiram tomá-lo a seu cuidado, apesar dele escapar muitas vezes para os matos e rochedos. Qualquer mulher que ele avistasse, julgava ser a sua mulher, dirigindo-se-lhe ao princípio com doçura, mas logo depois com raiva, pelo que era perigoso estar próximo dele.
     «Ficámos tão afectados por esta melancólica cena que acabámos de subir a montanha em silêncio, e chegámos ao topo quase sem dar por isso, e encontrámo-nos no Convento de Palmela, que dá o nome à pequena vila junta, conhecida pelo agradável vinho produzido no vale e encostas à nossa direita. Não sei se foi a agitação da cena presenciada antes o que nos predispôs a olhamos com particular deleite aquilo que se nos afigurava como o vale do contentamento, mas é verdade que nos trazia à mente uma forte ideia de felicidade rural, e este pensamento foi partilhado por todo o grupo. Parecia tudo uma grande vinha contínua, com algumas aldeias a povoá-la, cuja perfeição não é demais realçar, e toda a cena prefigurava humildade e segurança. Uma visão mais próxima poderia ter revelado o nosso engano.»
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Janet Schaw
Journal of a Lady of Quality;
Being the Narrative of a Journey from Scotland
to the West Indies, North Carolina, and
Portugal, in the Years 1774 to 1776


Diário de uma Senhora Distinta [9]

Setúbal - 1839
     «Deixámos a povoação e o Convento sem nos determos, embora muito necessitados de refrescamento. As nossas mulas, no entanto, beberam numa elegante fonte de mármore, construída para alívio dos viajantes. Regressámos à nossa caleche, Neilson subiu para a sua mula, que parecia agora mais reconciliada com o seu cavaleiro, e iniciámos a descida sem qualquer problema.
     «Para minha grande surpresa, avistei uma planura coberta de urze, com três milhas de extensão, no extremo da qual se encontrava uma planície desagradável, ainda que cultivada, e chegámos finalmente a Mytoe [Moita], que pertence já a Lisboa, da qual dista cerca de 4 horas. O nosso guia conduziu-nos por uma estreita vereda, e avistámos sobre uma porta um letreiro indicando uma estalagem inglesa (a) - . Entrámos ali mas não vimos nada que fizesse crédito a Inglaterra. Porém, alertados pelo nosso cicerone, já nos tínhamos antes precavido com o necessário para a nossa refeição, pelo que tivemos apenas de pagar para comermos ali a nossa própria comida.
     «O rio Tejo, tal como o nosso Firth, só pode ser atravessado na maré. Mr Neilson conseguiu contratar o primeiro barco para nós, e já estávamos a subir a bordo quando dois ou três homens se atravessaram, dizendo-nos que éramos prisioneiros do Estado e deveríamos voltar atrás. O nosso guia esforçou-se por nos garantir que não era nada, mas eu não apreciei nada a aventura. Fomos levados a casa de um Juíz, que nos recebeu na sua biblioteca, mas parecendo muito incomodado com esta interrupção dos seus estudos. Embora a consideração devida ao nosso sexo por todos os homens deste país nos tenha garantido um tratamento civilizado, o nosso Juíz, ou carcereiro, era já um velho, enrolado numa grande capa e com uma cabeleira de lã na careca, que ele todavia destapou em saudação, e como não podia voltar a cobrir-se ou sentar-se enquanto nós estivessemos de pé, assim nos mantivémos até que o sr. Neilson foi levado ao Governador, do qual veio uma mensagem informando-nos de que estávamos em liberdade, embora o cavalheiro [Neilson] ficasse em prisão. Mas eu recusei terminantemente este favor e declarei que ficaria até que conseguisse pedir a intervenção dos meus amigos de Lisboa.
     «Logo que Neilson saíra de casa do juiz, este pedira que nos sentássemos, e atrevo-me a dizer que nos prestou muitos cumprimentos, o que fez com um ar revelador do maior enfado. Percebemos que nos oferecera fruta, o que, todavia, não aceitei, apenas retribuí com o meu silêncio durante mais de uma hora, tempo durante o qual o nosso condutor de caleche, o guia e o muleteiro, foram interrogados, tendo fornecido respostas que convenceram o Governador, que felizmente não era idiota, de que não tínhamos qualquer intenção de tirar a vida ao Rei ou ao Marquês do Pombal.
     «Vieram dois homens fazer o inventário das nossas características, cor de pele, cor do cabelo, e fizeram-nos tirar os chapéus para se assegurarem de que não usávamos perucas. Depois disto, foi emitido um certificado, entregue ao senhor Neilson, e fomos enviados em liberdade. Tivemos de pagar nada menos de nove xelins e nove dinheiros cada um, pelo certificado, e entretanto acabámos por perder a maré e tivemos de regressar à nossa ridícula estalagem, à espera da nova maré.
     «Foi então, pela primeira vez desde que iniciei esta viagem, que a minha calma quase me abandonou. A noite estava fria e uma chuva miudinha começou a cair. Estava também tão escuro que perdi a esperança de atravessarmos o Tejo. Embora tivéssemos pago o barco só para nós, estava meio cheio de porcos mortos, peixes e uma diversidade de artigos para o mercado, e mal nos tínhamos afastado um pouco da margem, a tripulação começou a cantar Vésperas, de tal modo que se o porco morto que estava ao seu lado os tivesse acompanhado com grunhidos, não teria conseguido tornar o concerto mais desagradável.
     «Mas adeus, o Capitão do "Packet" chama, é ele que vai levar este correio, bem como para o meu irmão. AdieuAdieu
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Janet Schaw
Journal of a Lady of Quality;
Being the Narrative of a Journey from Scotland
to the West Indies, North Carolina, and
Portugal, in the Years 1774 to 1776
Notas:
(a) - "we saw wrote over a door an Anlish hot for man and bost"

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Texto  original em

Journal of a lady of quality (Janet Schaw)