terça-feira, 21 de março de 2017

Tutto è finito

(Danilo Errico – Otello Odorici – Sergio Odorici)

Nilla Pizzi
Tutto è finito ormai…
anche l’amore!
Tutto è finito ormai,
povero cuore!
Resta soltanto in te l’ombra
di quel passato che sogni sempre.
Tutto è finito ormai…
anche l’amore!
Tutto è finito ormai,
povero cuore!
Lacrime amare tu piangi,
ma non potranno mai più consolarti.

di Festival di Sanremo 1951

Tutto è finito

Si lo so, tutto è finito
non parlar, non dirmi niente
già da un pezzo l'ho capito
che il finale era imminente.
Si lo so, tutto è finito
sei d'un altro innamorata
già da un pezzo l'ho capito
questa scena l'ho aspettata.

La commedia dell'amore
è finita finalmente
hai spezzato questo cuore
non parlar, non dirmi niente.



Tutto è finito Mariù di Sergio Caputo

Non c’è champagne
ne Debussy
ne la tua gang
ne il gatto Fritz
sei solo tu
sotto le stelle del destino…
Ti sembrerà
che non ci sia
ne la tua ombra
ne la mia
ma è solo un film
è solo un trucco del destino
Ed è perciò che sono qui
per acciuffare un sogno beat
mi vuoi sparare sulle scale
o vengo su…
Sembra proprio che
tutto e’ finito Mariù…
è meglio che ci credi…
tutto è finito Mariù
se vuoi restare in piedi…
buffo è il tuo cuore…
dice parole
prese da dove
io non lo so…

E certe volte vedo te
dieci anni fa
come in un flash
sei proprio tu…?
o è solo un trucco del destino…
I tuoi chaffeurs
volati via
nemici ormai…
comunque sia
mi pensi più
o è solo un trucco del destino…
Ed è perciò che sono qui
a rintracciare un sogno beat
e adesso dimmi…
sei scappata pure tu…?

Perché sembra che
tutto è finito Mariù…
quant’è che non mi vedi…
tutto è finito Mariù…
la terra sotto i piedi…
grande è il tuo cuore…
dice parole
prese da dove
io non lo so…

Cerco tra le pagine
di un diario scritto mai
sulle tracce di fiori appassiti
e altre storie vecchie assai…

Sembra proprio che
tutto è finito Mariù…
è meglio che ci credi…
tutto è finito Mariù…
se vuoi restare in piedi…
buffo è il tuo cuore…
dice parole
prese da dove
io non lo so…

tutto è finito Mariù…
quant’è che non mi vedi…
tutto è finito Mariù…
la terra sotto i piedi.

sábado, 11 de março de 2017

Raul Brandão reeditado nos 150 anos do seu nascimento

Raul Brandão reeditado nos 150 anos do seu nascimento
Entre as edições previstas para os próximos meses estão alguns inéditos e um novo volume reunindo as Memórias do grande escritor português.
LUSA 
11 de Março de 2017, 14:39
Foto

Os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, que se assinalam este domingo, serão celebrados com a publicação de três obras do escritor, uma delas com textos inéditos. A segunda edição do Festival Húmus, que lhe é totalmente dedicado, também decorre em Guimarães até domingo, assim encerrando o Ano Raul Brandão promovido por aquela autarquia.UB
Nascido no Porto a 12 de Março de 1867, Raul Brandão ficou conhecido por obras como HúmusOs PobresA Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore ou Os Pescadores.

Para assinalar o aniversário do seu nascimento, a editora Ponto de Fuga vai publicar no dia 7 de Abril O pobre de pedir, o último livro que Raul Brandão escreveu e que há mais de 30 anos não era editado. Publicado postumamente, o volume revela um "escritor assombrado pela ideia da morte".
Através da ficção, o autor "faz um balanço da sua vida", explicou à Lusa Vladimiro Nunes, editor da Ponto de Fuga: "Raul Brandão estava muito doente desde 1923. Sabia que a qualquer momento podia morrer e isso ficou muito presente na obra dele", acrescentou. O livro inclui ainda a reprodução de alguns manuscritos do escritor, um texto de enquadramento dos seus últimos meses de vida e um prefácio de João de Melo.
Pela editora E-Primatur, sairá em Maio A Vida e o Sonho – Inéditos, Antologia e Guia de Leitura, organizado por Vasco Rosa. Além de textos nunca antes publicados, inclui uma introdução biográfica e de contexto ao autor e à obra, bem como um guia de leitura. Segundo Hugo Xavier, editor da E-Primatur, será "uma grande antologia de Raul Brandão", cobrindo toda a sua produção, tanto jornalística quanto literária. Além dos inéditos, incluem-se "alguns textos publicados na imprensa da altura e que nunca tinham sido reunidos em livro, como notícias, crónicas e outros", precisou.
Antes, a 24 de Março, a Quetzal lança as Memórias de Raul Brandão. "Publicadas originalmente em três volumes, as Memórias de Raul Brandão constituem um dos exemplos maiores da nossa literatura memorialística", refere a editora.
Raul Brandão é considerado um dos maiores escritores portugueses, embora pouco lido. Segundo os especialistas em literatura Fernando Pinto do Amaral e Helder Macedo, foi "um dos escritores de vanguarda" portugueses que ficaram ensombrados pela presença de Fernando Pessoa no panorama literário da época. 


Raul Brandão já não está disperso

12/03/2013 - 00:00


Raul Brandão e a sua mulher, Maria Angelina, com quem manteve uma grande cumplicidade criativa. Na página seguinte, imagem de O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira DR

Está completa a reunião dos textos dispersos que Raul Brandão escreveu ao longo de mais de 40 anos de produção literária. A Pedra ainda Espera Dar Flor (Quetzal) são 500 páginas, resultado de dez anos de pesquisa de Vasco Rosa
Foram precisos quase dez anos para chegar a estas 500 páginas que reúnem os textos dispersos de Raul Brandão, o escritor português que faria hoje 146 anos e que deixou uma das obras mais diversificadas na história da literatura portuguesa. Jornalismo, romance, viagem, teatro, história e sempre uma atenção ao efeito estético da palavra. "É profundamente injusta a desatenção de que tem sido alvo um autor tão marcante da literatura portuguesa", desabafa ao PÚBLICO Vasco Rosa, o investigador literário e organizador do volume que a Quetzal acaba de lançar com o título A Pedra ainda Espera Dar Flor. "É uma frase dele, um título mágico, perfeito, que é um elogio extraordinário à vida, a vida que custa, e à qual ele sempre esteve muito atento em todas as suas manifestações."
Vasco Rosa não sabe falar de Raul Brandão de forma desapaixonada. Autor de antologias de textos de Alexandre O"Neill e, mais recentemente, de Vitorino Nemésio - em concreto a produção literária publicada pelo escritor açoriano quando tinha 20 anos e a ser editado em breve -, Rosa aponta o dedo à academia que, afirma ele, "não se ocupa com um trabalho de fundo que contemple aqueles que se podem chamar os autores do cânone". "Há um trabalho de interpretação, mas não um trabalho que abrace toda a obra." Foi neste quase vazio que em 2004 se pôs à procura de tudo o que Brandão escreveu e que andava disperso pelos jornais, meio perdido para a leitura, naquele a que chama um trabalho de "arqueologia literária" com o qual quer ajudar a entender a biografia literária do escritor. Como grande auxiliar, apenas Vida e Obra de Raul Brandão, a biografia que em 1979 Guilherme de Castilho dedicou ao homem natural da Foz do Douro, no Porto, que viveu parte da vida numa aldeia chamada Nespereira, em Guimarães, e morreria em Lisboa em 1930. "Não há nada mais recente que possa substituir essa biografia", lamenta o investigador, que desde então já publicou dois livros resultado de uma longa busca por jornais velhos e arquivos microfilmados: Lume sob Cinzas e Paisagens com Figuras (Ambar, 2006).
Os dois títulos são "os pais", como lhe chama, deste A Pedra ainda Espera Dar Flor, a colectânea que culmina a sua investigação brandoniana ("sabe-se lá, à procura de outras coisas ainda posso dar com um texto de Brandão", ri Vasco Rosa), acrescenta 50 "novos textos velhos" e é um exemplo da diversidade de escrita do autor de Húmus (1917) - romance a partir do qual Herberto Helder haveria de construir um poema (Húmus Poema Contínuo) tendo como inspiração palavras, frases, imagens e metáforas usadas por Brandão - ou As Ilhas Desconhecidas, o título publicado em 1926 que resultou de uma viagem feita aos Açores e à Madeira em 1924 e que é considerado um dos mais originais exemplares da escrita de viagem. Uma diversidade não apenas temática, de género ou estilo, mas também geográfica. "Ele publicou em quase todos os jornais, não importa de onde eram, regionais, locais, nacionais." Fez apenas uma pausa. Dez anos em que se dedicou à Seara Nova, um movimento que quis "refundar" e no qual se dedicou quase em exclusivo á investigação histórica.
Coca-bichinhos
Em cerca de 40 publicações, com datas entre 1891 - ano da estreia literária - e 1930 - o ano da morte -, Vasco Rosa encontrou memórias, cartas, crítica literária, esboços de peças de teatro, textos onde se pode encontrar uma proximidade com a reportagem, todos a evidenciarem, por um lado, a atenção à condição humana, mas também um lirismo marcante. "Nele, estas duas características são perfeitamente compatíveis", conclui Vasco Rosa, que fala de um autor difícil de catalogar. "Acho que há uma dificuldade em abordá-lo. Às vezes é muito pesado, muito duro. Veja-se o Húmus. Mas ao mesmo tempo tem aquilo que a literatura deve ter: impacto sobre as pessoas, e esse impacto foi tendo variantes conforme as estéticas de cada leitor e resistiu." Como pôde, acrescenta-se, numa altura em que Brandão volta a ser falado e relido, ainda que quase nunca tenha deixado de ser visto no teatro.
"Não é fácil", nota Vasco Rosa, mas há sempre a descoberta de um "enorme humanismo e isso é muito recompensador", sublinha. Não é fácil também digerir o capítulo a que chamou Lisboa Negra, com textos sobre a dureza da vida na chamada cidade branca. Em Setembro de 1902, escreve para O Dia: "Lisboa, à noite, oferece libertinagens boémias, desperta ao noctâmbulo prazeres de vagabundo e acorda delírios misteriosos de observação flagrante. Sob o clarão do sol, pelos bairros pobres, há máscaras doentias, arrastando-se, tonturas, embriaguez de luz, que pervertem os bustos, derreando-os, e lhes tira a insaciável, perversa ânsia de uivarem a desgraça."
Numa Lisboa diferente, mas com a luz também a escassear, Vasco Rosa fala desse negrume para dizer que Brandão também tem luz, e que o trabalho de recolha de textos não foi depressivo. Ao contrário. Quando muito obsessivo, tal como "Brandão era obsessivo, fosse na descrição de uma paisagem ou na reconstituição da vida numa viela". Diz também que o modo como construiu o livro seguiu os preceitos de Raul Brandão, ou seja: "Na distribuição dos capítulos, tentei ser o máximo possível fiel aos temas fulcrais dele. Tentei jogar o jogo dele para que as pessoas percebam que tudo se encaixa na obra em todos os seus cambiantes. Por exemplo, no capítulo a que chamei A Voz do Homem - que é também uma expressão dele - destaco um texto sobre o sacerdócio católico, escrito numa época em que os padres viviam como banqueiros, de uma maneira totalmente não espiritual. Ele vem dizer que a espiritualidade faz parte da vida."
Como no capítulo Os Pescadores está toda a génese do que viria a ser o livro com o mesmo título, uma relação com o mar muito próxima e sempre presente. Raul Brandão nasceu e cresceu na Foz, já se disse, e, filho "de gente do mar", descreveu a vida de quem partilhava com ele esse universo, "a atracção por essa vastidão", como salienta Vasco Rosa. "Ele foi, de certeza, quem trouxe o mar para a literatura portuguesa nesse sentido, a vida no mar."
Muda de tom quando é para pôr em evidência a relação do escritor com os jovens poetas do Porto, outro capítulo, onde cultiva uma poética que haveria de o contaminar desde o início, desde que escreveu com eles o manifesto Nefelibatas (ou habitantes das nuvens), para definir o simbolismo e o decadentismo. Entre esses poetas estava António Nobre, como Brandão natural da Foz. "O que o impressiona arrepia-lhe a alma até o dolorir - dum arrepio histérico, próprio dos que vivem uma vida interior, a seguir uma Ilusão, curvados. Tudo o fere: é um tímido, sem nada de expansivo, e deve estar mal diante do seu Amigo: a sós respira, e dobrado, a olhar para dentro, vive com o seu sonho", escreve em Só, por António Nobre, uma das crónicas desta colectânea onde fica clara também a admiração por Camilo Castelo Branco num texto que começa de forma imperativa, dirigido aos alunos da então 4.ª classe e que faz parte do Livro de Leitura para as escolas de instrução primária (1903). "Decora este nome. Pertence a um dos maiores escritores do teu país. Poucos, raríssimos como ele, manejaram, nos tempos modernos, a língua portuguesa; nenhum como ele encheu as páginas dos seus livros de tanto riso, de tantas lágrimas."
Numa perspectiva estética colocou-se ao lado de pintores. Escreveu e falou e conviveu de perto com Columbano Bordalo Pinheiro. Não deixou de se irritar com alguma da sua pintura, ele que também pintava, e chegou a comparar a sua escrita a pinceladas. Vasco Rosa pega na ideia e diz que este é um livro onde convergem todas as pinceladas das suas grandes obras.
Durante os mais de 40 anos da produção literária de Brandão são raras as citações, a referência a inspirações, embora seja notória a influência de Dostoiésvki, ou mesmo "de Goya", conforme lembra Vasco Rosa que sublinha, no entanto, a singularidade como grande marca de Brandão, o escritor que viveu "numa época de gigantes" - Eça, Garrett, Camilo. E que se inconformou com o teatro. Primeiro na crítica, depois passando à prática, com a escrita de peças que levavam ao palco o seu olhar sobre uma sociedade "dura para com o homem", uma das quais a meias com Teixeira de Pascoaes, escritor com quem conviveu de perto, e outra recentemente adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra, onde mais uma vez é notório o seu questionar dos modos de representar o real. Essa é outra marca de Brandão. "Pegando nesse texto, Oliveira mostrou como se pode falar de uma forma contemporânea de um autor intemporal, injustamente remetido para um plano secundário", salienta o responsável por esta colectânea que não se pretende substituir a nenhuma leitura de Brandão. "Não é esse o objectivo. Apenas o de ajudar a entender um homem e a sua obra, situando-os no seu tempo."



quarta-feira, 8 de março de 2017

MULHER, de José Carlos Ary dos Santos

* Ary dos Santos

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher – cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

Manuel da Fonseca - um grande escritor



Para Manuel da Fonseca, a literatura era um sonho de viver. 

Por Baptista-Bastos|00:30

Recordo muitas vezes o meu amigo, o seu sorriso triste, a palavra rápida, a percepção imediata das coisas, a coragem inaudita; e, também, a sua abalada ternura pelos companheiros, as melancólica confissões. Manuel da Fonseca, um dos maiores escritores de sempre da literatura portuguesa, o mais felino dos sarcastas e o mais generoso dos amigos. 

Havia, nele, a placidez dos grandes sonhos e a nobreza de olhar os camaradas com o respeito que eles, muitas vezes, não mereciam. Para ele, a literatura era um sonho de viver, e feria-o quando, aparentemente, o ignoravam. Passou, há dias, o aniversário da sua morte, recolhido ao Alentejo que escrevera como ninguém, num fulgor magoado e com o olhar enevoado de desgostos. 

‘O Fogo e as Cinzas’, admirável livro de contos, cuja organização se deve a Carlos de Oliveira, à mulher deste, Maria Ângela de Oliveira, e a José Gomes Ferreira, é um trabalho de amor e uma doação ao espírito daqueles tempos. Outros grandes títulos do grande autor; ‘Seara de Vento’, ‘Cerromaior’, filmado por Luís Filipe Rocha com a paixão devida, e outros mais. 

Certo dia, sabedor de que o meu amigo andava de dinheiro em baixo, falei com Francisco Pinto Balsemão para a entrada de Manuel da Fonseca como colaborador do jornal onde eu era redactor. E assim nasceram crónicas admiráveis, que eu editava no suplemento de domingo, sob o título ‘Pessoas na Paisagem’, uma experiência que me deu grande felicidade. Pontualmente, o meu velho amigo publicou, durante anos, sem uma falha, um texto ímpar que falava do seu Alentejo com a grandeza imaculada de quem escreve sobre o que ama. 

Estive, agora, a reler o grande escritor, com a emoção de quem está, de novo, a ouvi-lo e à sua voz pausada e lenta, revendo os seus olhos pequenos e vivos, recordando a sua lúcida atenção às coisas, aos homens e ao seu tempo. Mas, sobretudo, recordando a amizade e o afecto, de que sinto a falta.

segunda-feira, 6 de março de 2017

“Tom The Dancing Bug” de Ruben Bolling

Este humor é sério. It's true
05.03.2017 às 23h00


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CÓMICO. A tira cómica existe desde 1990 e tem um apurado espírito político, que tem vindo a ser desafiado com a subida ao poder de Donald Trump
RUBEN BOLLING / UNIVERSAL UCLICK 2016
As tiras cómicas de “Tom The Dancing Bug” ganharam um prémio pelo seu apurado sentido crítico. É tempo de revisitar a obra do cartoonista Ruben Bolling: não há livros recentes (há sempre a internet), mas é mais atual do que nunca

Como é Carnaval e ninguém leva a mal, a Estante de Livros desta semana continua na senda da banda desenhada (já que na semana passada, o colega Pedro Cordeiro sugeriu uma bem disposta novela gráfica de Jeffrey Brown sobre o quotidiano dos jovens na Idade da Pedra) e apresenta uma sugestão de um livro que já foi publicado em... 2004. Mas apresenta-o como um isco para o leitor ir em busca das tiras cómicas mais atuais de “Tom The Dancing Bug”, na Internet. O seu criador, Ruben Bolling, cartoonista e comentador político, iniciou em 1990 este cartoon semanal, que não tem narrativa contínua. As personagens multiplicam-se mas, apesar de tudo, há uma ou outra recorrentes. E nenhuma delas é Tom, o inseto dançarino: o título destas tiras tem inspiração dadaísta e pode ser tudo e coisa nenhuma.
O que interessa é que, com quase 30 anos de vida, “Tom The Dancing Bug”, publicado ao longo das décadas em vários jornais e que, todos os dias, pode ser visto no site BoingBoing.net, acaba de ser distinguido com o prémio Herblock Prize Award, na categoria de cartoon editorial. Porquê agora? Porque ao longo de 2016, marcado pelas eleições norte-americanas, por vários acontecimentos 'nonsense' e pela inesperada (?) vitória de Donald Trump, a acutilância política dos desenhos de Ruben Bolling fez-se sentir. Senão, vejamos:
“Ruben Bolling criou o seu estilo único de cartoon político, que está cheio de alusões astutas e desfechos imprevisíveis”, escreveu Mark Wuerker, cartoonista político vencedor de um Pulitzer, citado pelo The Washington Post. “'Tom The Dancing Bug' levou o cartoon para um novo território com um imaginário ágil e alegorias provocativas”, acrescentou.
O vencedor, que irá receber o prémio em março, já veio agradecer a distinção. E afirmou: “Estou muito honrado, mas também triste por o prémio me ser atribuído pelo facto de satirizar, ridicularizar, parodiar e lamuriar-me contra Trump, durante a sua escalada até ao poder.”
“Thrilling Tom The Dancing Bug Stories”, de Ruben Bolling, Andrews McMeel Publishing, 224 páginas, a partir de €2,80 (usado, na Amazon)

O humor é político. Contudo, numa altura em que T-U-D-O é, de facto, político, convém dar uma gargalhada. Para tal, nada como visitar a obra deste cartoonista. “Tom The Dancing Cat” tem três livros publicados e, qualquer deles, passível de ser comprado pela internet, em segunda mão: “Tom The Dancing Cat” (1992), “All I Ever Needed to Know I Learned From My Golf-Playing Cats” (1997) e “Thrilling Tom The Dancing Bug Stories” (2004). Mas nada como uma visita à página BoingBoing.ne para rir (ou chorar) com as últimas novidades da Casa Branca.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Um poema de José Gomes Ferreira

* José Gomes Ferreira


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Armando Silva Carvalho - A conversa do poema e da vida

CRÍTICA LIVROS

A conversa do poema e da vida

Armando Silva Carvalho regressa com a novidade de quem tem na escrita um dos caminhos de maior solidão, pelo radicalismo da sua experiência do corpo, do ser humano, de deus e do mundo.

José Mário Branco - Eu vim de longe



Eu vim de longe



Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

http://amusicaportuguesa.blogs.sapo.pt/540307.html

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

I, Daniel Blake



João Vasconcelos-Costa escreve

Lembram-se da carta que Daniel Blake deixa e que é lida no funeral pela sua jovem amiga? Só agora consegui o magnífico texto.

“I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar nor a thief.
I am not a national insurance number, nor a blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and was proud to do so.
I don’t tug the forelock but look my neighbour in the eye. I don’t accept or seek charity.
My name is Daniel Blake, I am a man, not a dog. As such I demand my rights. I demand you treat me with respect.”
I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more, nothing less. Thank you.”

“Não sou um cliente, nem um consumidor, nem um utente de serviços. Não sou um mandrião, nem um pedinchas, nem um mendigo, nem um ladrão.
Não sou um número de cartão de segurança social, nem uma mancha no ecrã de computador. Pago os meus impostos, nunca a dever sequer um cêntimo, e sempre me orgulhei disto.
Nunca me ponho em bicos de pés e viro-me para os outros com os olhos nos olhos. Não aceito nem procuro a caridade.
Chamo-me Daniel Blake, sou um homem, não sou um cão. Como tal, exijo os meus direitos. Exijo que me tratem com respeito.
Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais, nada menos. Obrigado.”

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

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16 de Fevereiro de 2017, 07:42

Por


Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

C
om ou sem acordo ortográfico, ouvem-se e lêem-se, com frequência, expressões de modismos mais ou menos tecnocráticos e de anglicismos forçados.

Sobretudo no futebol, propaga-se em toda a linha, o paupérrimo “à condição”. É assim que se diz e escreve em quase todo o lado, quando, por exemplo, uma equipa fica “líder à condição”. Os entendidos da bola teimam em falar de classificações antes de concluída uma qualquer jornada, usando aquela deficiente expressão. Confesso que tenho saudades do tempo em que os jogos se realizavam nas tardes de domingo, todos à mesma hora. Pelo menos, nessa altura, não havia classificações “à condição”. Neste contexto, bem se poderá concluir que esta expressão “à condição” é culpa da televisão que obrigou a “jornadas dominicais” estendidas por 4 dias!
A expressão “à condição” exige dizer-se qual ela é. Porque condições há muitas… Se eu disser simplesmente “estou à condição”, entender-se-á que a minha frase, além de um indigente modo de expressão (deveria dizer “sob condição”), está incompleta (qual é, afinal, a condição?). Já se viu o que seria uma pessoa “à condição” no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia é-o “à condição”? No caso da estafada frase em futebolês “primeiro classificado à condição”, melhor seria dizer “líder provisório”. Aliás, “à condição” é como estão todas as equipas antes de jogarem: a condição de jogarem mesmo. Na primeira jornada até todos os competidores serão campeões “à condição” …
Uma outra expressão, agora muito em voga, é a tradução literal de “by default” (“por defeito”). Muito usada na linguagem informática, expandiu-se endemicamente no uso e no abuso. Com a ridícula consequência de se poderem confundir três leituras possíveis: a que resulta directamente da expressão inglesa (que, verdadeiramente, quer dizer “por omissão”, “por predefinição”, “por norma”); a que está associada ao verdadeiro significado da palavra “defeito” enquanto imperfeição ou deformidade; ou ainda a expressão quantitativa de insuficiência que se opõe a “por excesso” (por exemplo, “O PIB foi avaliado por defeito”).
Com o avanço, de um modo de todo deslocado, da asserção “por defeito” com o significado da expressão inglesa, não faltará muito tempo para se dizer, com aparente naturalidade, por exemplo, “fez mal (ou bem), por defeito”, “sem carro, foi a pé, por defeito”, “como era o único candidato à liderança do partido, ganhou por defeito”, “era palhaço, por defeito”, “passou a ser ateu, por defeito” … Enfim, de defeito em defeito, até onde chegará o dito defeito?
Finalmente, entre os muitos anglicismos adoptados, há um que medra em escala logarítmica: o que advém do inglês “to realize”, que quer dizer notar ou aperceber-se. Por simpatia, o verbo realizar tem sido replicado no nosso idioma com o mesmo significado do verbo inglês.  Ora, realizar significa, em bom português, efectuar, conseguir, fazer, concretizar, pôr em prática, dirigir um filme, produzir. Mas há pessoas, sobretudo nas camadas ditas mais eruditas ou socialmente mais presentes, que, sistematicamente, usam o verbo no sentido que a palavra tem em inglês (“ele só ontem realizou que os impostos subiram”). Como diria Júlio Verne, “tudo o que um homem é capaz de imaginar, outro é capaz de realizar”.
Juntando estas breves notas, termino com uma charada de mau português: “Nos próximos dias, escreverei, à condição, sobre um tema que, por defeito, possa incluir neste blogue e que os leitores possam realizar”. Fiz-me entender?

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/02/16/hoje-escrevo-por-defeito-e-a-condicao/

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

* Nuno Pacheco
Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?
9 de Fevereiro de 2017, 8:00

No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.
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Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?
Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e actoótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.
Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.
E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.
O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.