sábado, 27 de agosto de 2016

A ORIGEM DO ”ABORTO ORTOGRÁFICO”


otto solano says:
27/08/2016 às 10:38
É na pharmácia da cultura que podemos obter o fortificante que nos protege de cahir no abysmo da mediocridade.

A ORIGEM DO
”ABORTO ORTOGRÁFICO”
(também chamado “Acordo Ortográfico)
( “LUSOFONIA” – “PALOP”- “CPLP” )

Lusofonia é um vocábulo derivado do termo “Lusitânia”, nome dado pelos romanos a uma província da Península Ibérica que englobava um território que faz actualmente parte de Portugal.

Luiz Vaz de Camões denominou o seu poema épico que evoca os feitos dos portugueses, as suas conquistas de além-mar e a abertura das vias marítimas para o Oriente contornando o continente africano “Os Lusíadas”, portanto os descendentes dos antigos “Lusos”.

As terras conquistadas na África, Ásia e Américas sob dominação portuguesa eram denominadas Colónias Portuguesas, e o seu conjunto foi o assim chamado “ Império Colonial Português “.

A ditadura fascista de Salazar passou a chamar às colónias portuguesas “Províncias Ultramarinas” , utilizando uma ideia apócrifa de unidade cultural e política, o que se pode traduzir numa “mania das grandezas” provinciana, mas que servia perfeitamente de apoio à sua ideologia politica conservadora e fascista. E é então que o vocábulo “Luso” entra novamente em cena, uma vez para chamar “Lusitos” aos jovens da “Mocidade Portuguesa”, organização fascista paramilitar formada segundo os moldes da juventude hitleriana, e de participação obrigatória para todos os jovens estudantes, em Portugal e nas Colónias, e outra para designar por “Lusofonia” uma mítica unidade cultural entre as Colónias e Portugal.

Após o 25 de Abril e a descolonização, aquela “mania das grandezas” ainda não tinha sido totalmente dissipada da cabeça de muitos portugueses que ainda sonhavam com o tal império ou com as tais províncias ultramarinas. E assim renasceu o termo “Lusofonia” para designar essa fantasiosa unidade cultural e linguística de Portugal com as ex-colónias,e que é na sua essência um mito fascista.

Uma ideia tão abstracta, apócrifa e ridícula como esta não servia muito bem certos interesses ocultos. Os revolucionários dos movimentos de libertação das ex-colónias, que tinham mandado à merda toda a ideologia progressista que defendiam, tornaram-se na elite burguesa desses países, em moldes feudais, e em conluio com a oligarquia portuguesa apossaram-se do poder político, militar e económico, explorando as riquezas dos países em proveito próprio, tornando-se nas elites mais ricas do continente e condenando assim à pobreza, à fome, à exploração e escravatura os seus conterrâneos. Passam a viver num luxo e ostentação como nunca na puta da sua vida sonharam, e criam uma organização chamada “PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa” julgando na sua mediocridade ética e cultural atingir um certo prestígio e utilizá-la perfeitamente para proveito próprio. Assim é que a organização oferece “tachos” bem remunerados não só para os seus membros como também para os familiares, amigos, amantes e amásias, viagens de “trabalho”, jantaradas, carros de luxo e mordomias de toda a espécie.

Mas a clientela ia crescendo e a organização não tinha mais capacidade de os contentar. Como nesse sentido a criatividade dessa gentalha desses países e de Portugal não tem limites, nasceu assim a “CPLP – Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa” . Os seus membros são todos aqueles países onde as elites governamentais optaram pelo idioma português como língua oficial, desprezando os idiomas nativos, mesmo que a maioria dos seus habitantes não o fale nem o entenda, como são os casos extremos da Guiné-Bissau e Goa; e ridiculamente também Timor, uma ex-colónia à qual Portugal durante séculos nunca deu qualquer atenção e que só servia como local de desterro para personalidades civís politicamente incómodas e militares que não se submetiam a directrizes arbitrárias. Só depois da Austrália ter descoberto petróleo no mar que rodeia aquela ilha é que Portugal, fazendo o papel vergonhoso de “libertador” a troco de generosas esmolas das companhias exploradoras do petróleo para o bolso de certa gente, enviou, “para disfarçar”, alguns professores para ensinar português àquelas gentes; e cujo nativo traidor que foi o primeiro dirigente governamental após o país ter sido artificialmente criado, teve de aprender português durante o cativeiro político na Indonésia, o que ainda hoje se revela na sonoridade metálica do seu falar mecânico, à semelhança do som do leitor de cassetes por onde aprendeu o idioma. Mais ridícula ainda, e também perversa, é a recente aprovação da adesão da Guiné-Equatorial a esta organização, país que nunca foi colónia portuguesa e onde o português não é nem nunca foi língua oficial e nem o povo o fala ou jamais falou.

O Brasil, a maior ex-colónia portuguesa, e o país membro com maior extensão territorial e maior número de habitantes também só possui, à semelhança das ex-colónias africanas, uma elite culta que fala e escreve, quase correctamente, português. A grande maioria da população fala variantes adulteradas deste idioma, com as influências regionais dos diversos idiomas nativos e de os daquelas etnias de colonos oriundas de todas as partes do mundo, e utilizando vocábulos estrangeiros, principalmente ingleses, idiotamente “abrasileirados”. E onde um sistema escolar público precário ainda hoje existente nunca permitiu um ensino correcto da língua portuguesa.

A CPLP viabiliza assim a criação de novos “tachos” para a sua clientela. E na página da “Internet” relativa à sua estrutura e organização não são revelados, além do nome do Secretário Executivo, nem os nomes dos seus colaboradores nem o número de funcionários ao seu serviço, e os objectivos, como também publicado naquela página, são difusamente generalizados e abertamente não comprometedores.

Dado o total desconhecimento que a grande maioria da população dos países desta “Comunidade” possui sobre a existência destas organizações, PALOP e CPLP, e não ter igualmente a menor ideia do que seja essa “Lusofonia”, e até hoje não se ter verificado qualquer tentativa, mesmo que seja “só para inglês ver” duma divulgação das mesmas, é evidente que elas só servem os interesses das elites nacionais, e por extensão os das diversas personalidades que constituem o escol representativo das organizações satélites apoiantes, como a “Fundação Oriente” e o “MIL – Movimento Internacional Lusófono”, entre outras cuja existência é mantida em segredo, e a qual só se revela quando por qualquer motivo se descobre alguma daquelas trafulhices financeiras que são amanhadas entre elas, a banca privada, e os políticos e os governos corruptos dos diversos países membros.

São organizações criminosas legalizadas, sustentadas pelo erário público, que urge desmantelar e expropriar, revertendo o património, mesmo que esteja por “artes mágicas” nos bolsos desses cleptocratas, para os cofres daquelas instituições de utilidade pública de comprovada idoneidade.

Devemos relalçar e reafirmar aqui, que português é a língua que se fala e escreve em Portugal.

É no âmbito deste contexto e no alastrar do terreno da mediocridade, fertilizado com as secreções endémicas defecadas pelas mentes de intelectualóides pífios e politiqueiros reles e sem qualidades argumentando interesses mercantis ridículos e anódinos, que se pode entender o engendrar deste famigerado e assim chamado “acordo ortográfico”, sua aprovação e imposição arbitrária e à revelia por decreto governamental.

A duvidosa questão jurídica da sua oficialização e as alterações ortográficas absurdas já foram suficientemente analisadas, criticadas e divulgadas por muitas personalidades, destacando-se entre elas pela luta acérrima contra este “acordo” o intelectual, escritor, poeta e tradutor Vasco Graça Moura, falecido em Abril do passado ano, hoje censurado por omissão pela maioria dos orgãos de comunicação social do país. Os seus escritos sobre este tema, assim como os dos demais autores, podem contudo ser lidos em muitos portais da “internet”.

É culturalmente obscena a forma como hoje se escreve, e fala, em Portugal. Basta ver os muitos exemplos denunciados em vários sítios da “internet”, para se constatar que se trata dum crime cultural premeditado. Os seus autores deveriam ser previamente julgados e punidos pelos tribunais civís, pois pelo tribunal da cultura e da história já foram há muito condenados a pena de morte.

Torna-se assim cada vez mais urgente a constituição duma acção concertada, programada e militante de todos os opositores, principalmente dos escritores, poetas, tradutores, jornalistas e professores para a anulação imediata e sem quaisquer reservas deste “acordo ortográfico”, de modo a que seja possível, dentro do menor espaço de tempo, minimizar e neutralizar os enormes danos culturais causados por este atentado criminoso contra a dignidade da língua portuguesa.

Otto Solano
13.02.2015
otto.solano@gmx.de

https://aventar.eu/2016/08/26/contate-hoje-mesmo/#more-1256838

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Elisabete Rodrigues - O burkini da avó Maria






ilustrações da responsabilidade do editor deste blog
A dona Maria foi visitar os netos a Paris. Também ela lá viveu durante 37 anos, graças aos quais juntou uma pequena fortuna, construiu casa na vila onde nasceu e vive uma reforma desafogada. O regresso a Portugal foi mais complicado do que alguma vez previu. Os filhos não vieram com ela e agora vive, com o marido, numa grande vivenda de cinco quartos. Casa a mais para tão poucas visitas, pois na verdade são mais eles que vão visitar a família a Paris do que o contrário.
Este ano alugaram um apartamento mais para o sul de França, para os meninos, dois rapazes de 4 e 7 anos, poderem aproveitar a praia que tão bem lhes faz às alergias. Nem uma hora depois de pisar a areia a dona Maria já estava a ser chamada à atenção por estar vestida dos pés à cabeça e de lenço a cobrir os cabelos. Os polícias foram educados, simpáticos até, e explicaram que depois dos atentados mais recentes o uso do burkini tinha sido proibido naquela praia e a forma como se apresentava em muito se assemelhava ao tal traje muçulmano. Raúl, o filho, indignou-se de tal maneira que toda a família acabou por abandonar a praia. As férias foram um desastre pois, como devem imaginar, ninguém equacionou enfiar a avó Maria num biquíni.
Vou falar-vos um pouco mais da avó Maria. A avó Maria não pinta o cabelo porque isso desagradaria o marido, a avó Maria não usa verniz nas unhas porque sabe que o marido não aprovaria, a avó Maria não toma decisões sobre o uso do dinheiro em casa, a avó Maria já foi traída pelo marido, mas sempre escondeu isso da família, pensa que são coisas que os homens não conseguem evitar… A avó Maria decidiu todos os dias fazer aquilo que é esperado dela, com todas as limitações que esta decisão encerra.
A avó Maria tem 68 anos, mas poderia ter 35 anos. Marias há muitas, todos nós sabemos isso! Mais do que o dress code, é o espirito de submissão ao homem que aproxima as Marias de uma muçulmana que usa burkini na praia. Talvez, quem sabe, algumas dessas mulheres de burkini tenham uma relação mais igualitária com o marido. Talvez não.
De qualquer forma, cabe ao Estado garantir a igualdade de direitos entre homens e mulheres, protegendo os mais fracos, nomeadamente a sua integridade física. Quando é que isso passou a significar pôr o Estado a despir as mulheres conservadoras?
Eu não defendo o burkini, eu abomino o burkini e tudo o que ele significa. No entanto, não sou capaz de concordar que numa democracia se use a autoridade para fazer desaparecer desta forma aquilo que nos incomoda. E há tanta coisa que me incomoda!
Socióloga
http://lifestyle.publico.pt/qualquercoisadogenero/364287_o-burkini-da-avo-maria

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Rainer Maria Rilke - Deus, que será de ti... (Was wirst du tun,Gott...)

(duas traduções e o original)

Deus, que será de ti...

Deus, que será de ti, quando eu morrer? 
Eu sou teu cântaro (e se me romper?) 
A tua água (e se me corromper?) 
Sou teu agasalho, sou teu afazer. 
Vai comigo o significado teu. 

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus, 
que com quentes palavras te acolhia. 
Perdem teus pés exaustos as macias 
sandálias: também elas eram eu. 

De ti desprende-se o teu longo manto. 
O teu olhar, que a minha face, quente 
coxim acolhe, virá entrementes, 
virá procurar-me longamente 
e deitar-se depois, ao sol poente, 
entre pedras estranhas, nalgum canto. 

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


trad. José Paulo Paes

- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.


Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)


Was wirst du tun,Gott...

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel läßt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.



RILKE, Rainer Maria. "De O livro das horas". Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
trad. José Paulo Paes
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 09:39 
http://voarforadaasa.blogspot.pt/2016/08/deus-que-sera-de-ti-rainer-maria-rilke.html

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Manuel Bandeira - A Estrela da Manhã

* Manuel Bandeira


Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

domingo, 21 de agosto de 2016

«Pranto por Ignacio Sánchez Mejías», em tradução de Jorge de Sena.


García Lorca, por Jorge de Sena




Na tradução de Jorge de Sena, publicada em seu Poesia do Século XX, apresentamos um dos mais conhecidos poemas de García Lorca – sua elegia em homenagem ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías -, acompanhado pelo verbete criado por Sena para o poeta espanhol.  

PRANTO POR IGNACIO SÁNCHEZ MEJÍAS
I
A COLHIDA E A MORTE
Às cinco da tarde.
Eram as cinco em ponto dessa tarde
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco da tarde.
Uma alcofa de cal já prevenida
às cinco da tarde.
O mais era só morte e apenas morte
às cinco da tarde.
O vento arrebatou os algodões
às cinco da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco da tarde.
Já luta com a pomba o leopardo
às cinco da tarde.
E uma coxa com uma haste desolada
às cinco da tarde.
Começaram os dobres do bordão
às cinco da tarde.
Sinos e sinos de arsénico e o fumo
às cinco da tarde.
Há nas esquinas grupos de silêncio
às cinco da tarde.
E só o touro coração acima!
às cinco da tarde. 
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco da tarde.
Quando a praça de iodo se cobriu
às cinco da tarde.
A morte pôs seus ovos na ferida
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Às cinco em ponto dessa tarde.
Ataúde com rodas é a cama
às cinco da tarde.
Ossos e flautas soam-lhe no ouvido
às cinco da tarde.
O touro já mugia por sua fronte
às cinco da tarde.
O quarto se irisava de agonia
às cinco da tarde.
Ao longe uma gangrena já vem vindo
às cinco da tarde.
Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco da tarde.
As feridas ardiam como sóis
às cinco da tarde.
E as gentes rebentavam as janelas
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Ai que terríveis cinco eram da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco em sombra dessa tarde!

II
O SANGUE DERRAMADO
Que eu não quero vê-lo!
Digam à lua que venha
que não quero ver o sangue
de Inácio marcando a areia.
Que eu não quero vê-lo!
A lua de par em par.
Cavalo de nuvens quietas
e a praça parda do sonho
com salgueiros nas barreiras.
Que eu não quero vê-lo!
Que o recordar se me queima.
Avisai todo o jasmim
com sua brancura pequena!
Que eu não quero vê-lo!
A vaca do velho mundo
passava sua triste língua
sobre um focinho de sangues
derramados pela arena,
e os touros de Guisando,
quase morte e quase pedra,
mugiram como dois séculos
fartos de pisar a terra.
Não.
Que eu não quero vê-lo!
Pelos degraus sobe Inácio
com sua morte toda às costas.
Ele buscava o amanhecer,
e o amanhecer não era.
Busca seu perfil seguro,
e o sonho o desorienta.
Busca seu formoso corpo
e encontra seu sangue aberto.
Ai não me digam que o veja!
Não quero sentir o jorro
cada vez, com menos força;
esse jorrar que ilumina
o palanque e se desaba
no veludilho e no couro
da multidão tão sedenta.
Quem me grita que me assome?!
Ai não me digam que o veja!
Não se cerraram seus olhos
quando viu os cornos cerca,
porém as mães mais terríveis
levantaram a cabeça.
E pelas ganadarias,
houve um ar de voz secreta
gritando a touros celestes,
maiorais de névoa pálida.
Não houve em Sevilha príncipe
que lhe possa comparar-se,
nem espada como era a sua,
nem coração de verdade.
Como um rio de leões
sua força maravilhosa,
e como um torso de mármore
a desenhada prudência.
Um ar de Roma andaluza
a cabeça lhe dourava
onde o seu riso era um nardo
de sal e de inteligência.
Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!
Porém já dorme sem fim.
Já os musgos maila erva
abrem com dedos seguros
a flor da sua caveira.
E já seu sangue por aí vem cantando:
cantando por marinhas e por prados,
e resvalando pelos cornos hirtos,
vacilando sem alma pela névoa
tropeçando com milhares de patas
como uma longa, obscura e triste língua,
para formar um charco de agonia
junto ao Guadalquivir de altas estrelas.
Ó branco muro de Espanha!
Ó negro touro de pena!
Ó sangue duro de Inácio!
Ó rouxinol de suas veias!
Não.
Que não quero vê-lo!
Que não há cálix que o contenha,
que não há andorinhas que o bebam,
não há de orvalho luz que o esfrie,
nem canto nem dilúvio de açucenas,
não há cristal que o cubra de prata.
Não.
Eu não quero vê-lo!
III
CORPO PRESENTE
A pedra é uma fronte adonde os sonhos gemem
sem ter as águas curvas nem ciprestes gelados.
A pedra são uns ombros para levar o tempo
com árvores de lágrimas e faixas e planetas.
Já vi chuvas cinzentas correndo para as ondas,
levantando os seus ternos braços tão esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que seus membros desata sem se empapar de sangue
Porque a pedra recolhe sementes e nublados,
esqueletos de pássaros e lobos de penumbra;
porém não dá nem sons, nem cristais, nem fogo,
mas praças e mais praças e outras praças sem muros.
E já está sobre a pedra Inácio o bem-nascido.
Já se acabou. E agora? Contemplai sua imagem:
a morte o recobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de obscuro minotauro.
Já se acabou. A chuva penetra por sua boca.
O ar como um louco deixa o peito que se afunda,
e o Amor, empapado em lágrimas de neve,
aquece-se nos cumes das ganadarias.
Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara que teve rouxinóis
e vemo-la afastar-se em abismos sem fundo.
Quem o sudário enruga? É falso quanto diz!
Ninguém por aqui canta, nem pelos cantos chora,
nem co'as esporas pica, nem a serpente espanta,
aqui não quero mais do que os redondos olhos
para ver esse corpo sem possível descanso.
Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que cavalos domam e dominam os rios:
os homens a quem tine o esqueleto e cantam
com uma boca cheia de sol e pedregais.
Aqui os quero eu ver. Diante desta pedra.
Diante deste corpo com as rédeas quebradas.
Eu quero que me ensinem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.
Eu quero que me ensinem um pranto como um rio
que tenha doces névoas e profundas margens,
para levar o corpo de Inácio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.
Que se perca na praça redonda dessa lua
que finge criança triste ser uma rês imóvel;
que se perca na noite sem cânticos dos peixes
e na maldade branca do fumo congelado.
Não quero que lhe tapem o seu rosto com lenços
para que se acostume à morte que o arrasta.
Vai-te, Inácio! Não sintas o ardente bramido.
Dorme, voa, repousa: também se morre o mar.
IV
Não te conhecem touro nem figueira,
nem cavalo ou formiga da tua casa.
Nem o menino te conhece, ou a tarde,
porque tu estás morto para sempre.
Não te conhecem os lombos da pedra,
nem o plaino negro aonde te destroças.
Não te conhece uma saudade muda
porque tu estás morto para sempre.
Há-de vir o Outono com seus búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quer fitar-te nos teus olhos
porque tu estás morto para sempre.
Porque tu estás morto para sempre,
como todos os mortos pela Terra,
como todos os mortos que se olvidam
em um montão de cães que se apagaram.
Ninguém já te conhece. Não. Mas eu te canto.
Eu canto antes de mais o teu perfil e graça.
A madureza insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve a tua valente alegria.
Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Eu canto-lhe a elegância com palavras que gemem
e recordo uma brisa triste nos olivais.

GARCÍA LORCA, FEDERICO — Um dos maiores poetas e dramaturgos da Espanha e do século XX, nasceu em Fuente Vaqueros, nos arredores de Granada, em 1898. Em Granada estudou, e aí apareceu o seu primeiro livro (em prosa), Impresiones y paisajes (1918). Formando-se em Direito em Madrid (1923), dedicou-se às letras (em 1920, uma juvenil peça, El malefício de la mariposa, foi um desastre madrileno). Libro de poemas (1921) era já uma afirmação de um poeta notável, se bem que muito marcado de preciosismo parnasiano-simbolista (que nunca inteiramente abandonou, mas transfigurou numa expressão sua). A ironia transcendente e um metaforismo surrealista são, todavia, patentes nas Canciones (1927). O êxito teatral deMariana Pineda, neste mesmo ano, revela-o um grande poeta do teatro. Mas é com o Romancero Gitano (1928) que o grande lírico aparece, senhor de uma linguagem própria em que o romanceiro se funde com uma riqueza modernista e um muito contemporâneo sentido trágico da vida. Uma viagem a New York deu-lhe o versilibrismo e a intensidade de Poeta en Nueva York(1930). Em 1931, funda o seu teatro popular-experimental "La Barraca", em que percorre a Espanha. Bodas de sangre (1933) e Yerma (1934) são outras duas grandes peças do teatro. Nesses anos de 33-34 viaja pela Argentina. De 1935 é o Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, uma das mais extraordinárias elegias modernamente escritas. Muito ligado aos meios republicanos, mas sem actividade política, Lorca, ao estalar a guerra civil, deixou Madrid, onde estava e a república resistiria, pela sua Granada aonde a revolução não rebentara ainda. Na Granada que tanto amava (e a quem, todavia, verberara havia pouco tempo o reaccionarismo), foi preso e fuzilado nos primeiros dias da rebelião (Agosto de 1936) pela repressão militar-fascista (uma obra recentemente publicada em Paris é uma investigação minuciosa e devastadora das responsabilidades que rodearam o seu assassinato). Deixava entre muitos outros inéditos a sua maior peça, La Casa de Bernarda Alba. A execução do poeta pesou e pesa tremendamente na consciência da Espanha, e foi por muito tempo usada pelo anti-fascismo com absoluta ou relativa sinceridade. Mas não pela sua morte trágica e criminosa é Lorca um grande poeta. É-o pela força da imaginação, pela arte com que renovou o romanceiro tradicional e transformou em profunda poesia todo o convencionalismo regionalista da Andaluzia. Mais: tanto na sua poesia como no seu teatro (outros escritos dele são muito frágeis, e só possuem quase interesse para o estudioso ou para o admirador incondicional), há uma insistência obsessiva no tema da morte violenta, a que o seu fim deu um selo atroz de veracidade, e é essa mesma insistência que é essencial à sua visão do mundo, em que beleza e escuridão coexistem, a liberdade é um permanente desafio, e a própria expressão poética uma inocência reconquistada.

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/traducao/garcia-lorca-por-jorge-de-sena/