domingo, 4 de dezembro de 2016

Sttau-Monteiro - angústia para o jantar (excertos)


«Gonçalo entrara um dia, à hora do almoço, em casa do porteiro dum dos seus prédios. A família estava reunida em torno da mesa. A mãe e os filhos comiam batatas fritas e o pai o único bife. Fora-lhe impossível não comentar. 
- Então a carne é toda para si, João? 
A mulher saltara logo a defender a casa portuguesa: 
- Carne é para quem trabalha, Sr. Doutor. 
O porteiro passara a manhã sentado numa poltrona, no átrio do prédio, lendo O Século, enquanto a mulher varrera a escada, limpara a casa, cozinhara e olhara pelas crianças. 
- Parece-me que a Maria é quem mais trabalha nesta casa... 
O porteiro, de pé, com o guardanapo na mão, esclarecera a situação: 
- O marido sou eu, Sr. Doutor.» 

 «Levantou-se, deu a volta ao sofá e aproximou-se da janela. Lá fora a chuva parara. Por entre uma aberta nas nuvens via-se o Sol, um Sol da cor do aço frio, e indiferente. Durante uns momentos, telhados molhados reflectiram a luz acinzentada do fim do dia. Depois, subitamente, as nuvens juntaram-se e recomeçou a chover. Lá em baixo, na rua escura e suja, passaram dois cães a correr, e ao fundo, à esquina, surgiram uns vultos curvados que logo desapareceram pela porta da taberna

"Teresa voltou a sentar-se. Parecia-lhe que acabara de ver o futuro. A rua escura e suja, a luz acinzentada e os vultos lá ao longe, à porta da taberna, constituíam uma antevisão do mundo pelo qual se batiam o Pedro e os seus amigos. Sem que soubesse porquê, voltou a ter medo.»(…) 

“Nunca vi nada que não fosse lógico. Tudo tem uma lógica, muito embora esteja por vezes escondida. É a isso que chamamos o segredo das coisas. O que distingue os homens lúcidos dos inconscientes é que os primeiros procuram descobrir a lógica das coisas, ao passo que os segundos julgam que as coisas surgem por si próprias e procuram, não a sua lógica, mas a sua rima.” (…)

 (…) “A cidade, vista à noite, é estranha. Já pensou no que farão em casa todos esses tipos que a gente vê na rua, com emblemas do Benfica na lapela? Uns emblemas feitos de pedrinhas?- Sou um deles.- É? E que faz você à noite, em casa?Hoje era capaz de responder. À noite, em casa, repetimos o que fizemos durante o dia: nada. À noite, em casa, continuamos a esperar pela morte e, quando ela se aproxima, compreendemos que devíamos ter feito mais qualquer coisa.” (…)

(...) " Se o meu destino histórico não se apressa, chega tarde...Estou velho. Velho e farto. E se eu tivesse agora uma mulher na cama? Se eu fosse casado? Não acontecia nada. Contava-lhe o que se passou no restaurante. Contava-lhe tudo. Tudo não. Há coisas que não se podem contar. Um homem não pode contar à mulher que foi humilhado por um amigo no restaurante. Essas coisas só se contam quando é possível rematá-las acrescentando que depois se deu um par de bofetadas no amigo. E os homens que levam bofetadas nos restaurantes? Que contam eles às mulheres? Nada. Deve ser difícil ser casado. Todo o homem, mais tarde ou mais cedo, leva um par de bofetadas de que não pode falar à mulher e depois, cada vez que olha para ela, lembra-se das bofetadas que não foram contadas. Cada vez que olha para ela, leva outro par de bofetadas.(...)

As mulheres odeiam os jogos dos homens, como odeiam todos os jogos de que não façam parte. Necessitam de estar no palco como os peixes de estar na água. É por isso que odeiam a guerra, o futebol, a caça. Sabem instintivamente que são jogos de homens, jogos inventados por eles, jogos que os homens preferem jogar sozinhos e nos quais elas, ainda que tomem parte, constituem um embaraço.(...)

O marido é quem decide, é quem vai à frente, é quem come o bife. Acima do marido está o pároco, acima do pároco, o bispo, e acima do bispo, Deus. Eu estou no meio, dou dinheiro ao pároco e pisco o olho ao beijar a mão do bispo. É o meu jogo, o meu lugar no jogo. Regra número sete dos jogos que não levam a nada: "ninguém escolhe o seu lugar no jogo. Ninguém ganha o seu lugar no jogo. Todos nascem no lugar que lhes compete."(...)

As pegas são mesmo assim. As baratas, as que estão no princípio da carreira e que ainda se chamam Lucindas, Lurdes ou Carmos, têm um profundo respeito pelas famílias e pelas mulheres legítimas dos amigos. Para elas a família é qualquer coisa de sagrado que está ligada ainda às recordações das mães que deixaram nas Beiras ou no Alto do Pina, no Minho ou em Campo de Ourique. No segundo grau da carreira já se chamam Odettes, Lizettes e Arlettes. Já falam dos "velhotes" com desprezo e da família como se esta fosse uma "velharia" merecedora do destino que tem. Num terceiro grau chamam-se Celines, Jeaninnes e Marguerites. Começam a compreender que existem regras e já não falam das famílias. Nem das suas, nem das famílias dos amigos.(...)

Gostaria de te chamar "amor", Alexandra, mas não o posso fazer. Eras capaz de acreditar, e como necessitas de amor e de acreditar em alguém, eras mesmo capaz de acabar com o matulão que te faz ler Aragon... e eu não te amo, Alexandra, embora gostasse, neste momento, de te chamar "meu amor"... só porque tenho pena de ti... e de mim... e de tudo...(...)

Não vale a pena responder. A estas coisas não se responde. São os diálogos domésticos dos casais da nossa idade e do nosso meio. Substituem o amor e a vida. Quebram o silêncio e dão a impressão de que tudo vai bem. E vai. O mais engraçado é que tudo vai bem. Quando nada há de comum entre um homem e uma mulher senão a cama e o facto de conhecerem a mesma gente, de que podem eles falar, na idade em que a cama começa a ser o local onde se dorme e nada mais?(...)"


sábado, 3 de dezembro de 2016

Sttau-monteiro - angústia para o jantar


O que dizer deste livro?

Sttau Monteiro escreve-o em 1961 mas podia perfeitamente escrevê-lo em 71 ou 81 ou 91. O livro, na realidade, começa quase sem época. Isto é, a expressão Estado Novo nunca é referida e a primeira referência a um tempo é uma menção à guerra colonial. Assim se percebe, juntamente com a introdução de Pedro, o período em que as personagens vivem. Isto não é de menos pois a indefinição revela já algo do carácter generalista da história. Pessoas como o Gonçalo, a Teresa, o António e, graças aos céus, o Pedro, vão sempre existir.
O livro é profético. Sttau Monteiro via claramente o fim do Regime apesar do mesmo só vir a cair 14 anos mais tarde num belo dia de Abril. Contudo, o que está em causa não é “apenas” o fim do regime em Portugal mas a questão da classe. Aquilo a que Sttau Monteiro chama a “lógica de classe”, ou seja, a injustiça que é conscientemente perpetuada por uma classe privilegiada que despreza os que não nasceram com tais privilégios. Parafraseando o Gonçalo, as classes altas arranjam sempre mecanismos para se proteger, superando inclusivamente os próprios regimes que as suportam e que elas suportam. Este livro não é mais do que a velha história dos  mais fortes a baterem nos mais fracos e a conseguirem safar-se com isso. Ou quase.
É desta forma que Gonçalo se torna cada vez mais insuportável. Por detrás da ideia muito badalada que anuncia que ser cínico é que é bom, percebemos que se encontra alguém vazio de ideias, amargo, a quem nada – desde a amante até ao bentley – faz feliz. Gonçalo é uma personagem trágica porque é claramente um homem com um grande intelecto mas absolutamente vazio de tudo o que faz com que a vida valha a pena.
António faz a manobra contrária. Começando como insuportavelmente patético, vai crescendo em dignidade, apesar de ser constantemente repisado por tudo e todos. Mas se no princípio o leitor não lhe dá o benefício da dúvida, no fim já se coloca completamente do lado dele. António inspira pena e, para qualquer leitor atento, raiva. É mesmo para ficarmos zangados com o destino dele, de nos rebelarmos contra a injustiça de uma sociedade que detesta e despreza os seus Antónios.
Alexandra é a personagem menos conseguida. Não se entende bem se Sttau Monteiro nutria mesmo um verdadeiro desprezo por uma mulher que faz o que ela faz ou se acredita que o sistema que vitima e mata António é o mesmo que retira a dignidade a Alexandra. É possível que assim seja, mas podia estar mais bem demonstrado. Todas as diatribes sobre a “condição de pega” tornam-se cansativas e repetitivas.
Inicialmente eu fui no engano ingénuo de achar que Gonçalo tinha um bom fundo. De que ele se encontrava com o António porque gostava dele ou dos tempos em que tinham sido colegas. Pensei até que poderia haver algum tipo de sentimento escondido por Alexandra, por debaixo de todo aquele cinismo horroroso. Não, o Sttau Monteiro não esconde. O que parece, é. E Sttau Monteiro sabia, percebia perfeitamente, que aquele sistema ali representado, aquela burguesia maldosa, fútil e indiferente ia acabar. Ou devia acabar.
Pedro e Gonçalo lembram-me duas diferentes frases. Sartre escreveu uma vez : “Ce sont les enfants sages, Madame, qui font les révolutionnaires les plus terribles. Ils ne disent rien, ils ne se cachent pas sous la table, ils ne mangent qu’un bonbon à la fois, mais plus tard ils le font payer cher à la société. Méfiez-vous des enfants sages!”
Pedro é claramente um destes enfants sages de Sartre. O contraste entre Pedro, um enfant sage, e os colegas revolucionários é óbvio. Pedro, apesar de “burguês”, percebe bem o que está em causa e que a mudança, a chegar, não é uma mudançazinha individual que vai facilitar a vida aos medíocres. É uma mudança a sério, que vai mudar tudo, tudo para àqueles que realmente importam.
Gonçalo, por outro lado, lembra-me o Major Gervásio dos Capitães de Abril de Maria de Medeiros. A determinada altura, Salgueiro Maia zanga-se com ele e critica-lhe o cinismo inútil. Gonçalo é precisamente isso: um cínico inútil.
Haveria benefícios em por os alunos do 12º ano a ler este livro. O Felizmente, há luar é muito mais “politicamente correcto” no verdadeiro sentido do termo; isto é, o Felizmente, há luar é indisputável, é a luta do individuo contra a tirania. A Angústia para o jantar é um livro muito mais complexo que faria os alunos enfrentarem a sua própria maneira de ser de uma forma muito mais activa. Ou seja, a Angústia para o Jantar engana-nos porque torna a personagem aparentemente mais simpática, a personagem principal, num homem completamente irrascível e repugnante. Em alguém que somos obrigados a criticar muito mais fortemente porque ele próprio é muito mais realista do que o Principal Sousa ou o D. Miguel Forjaz do Felizmente, há Luar. Merecemos estar armados contra os Gonçalos desta vida. 
https://aventar.eu/2016/12/03/o-que-dizer-deste-livro/#more-1263065

[a última bilha de gás durou dois meses e três dias], de Herberto Helder

 * Herberto Helder

a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás, 
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DOS ESTADOS UNIDOS Por Oliver Stone e Peter Kuznick

30 de novembro de 2016 - 19h49 

Oliver Stone e A História não contada dos Estados Unidos





Autor de filmes emblemáticos sobre a história recente dos Estados Unidos, como Nascido em 4 de julho, Platoon, JFK, Wall Street e outros, Oliver Stone lutou na guerra do Vietnã. Diz que ficou espantado com o que os professores estão contando para seus filhos na escola, que, aliás, continua a ser o mesmo que ele havia aprendido em seu tempo de estudante: “Nós americanos éramos o centro do mundo. Havia um destino manifesto e nós éramos os mocinhos”. O cineasta juntou-se ao respeitado professor de História Peter Kuznick e, após uma pesquisa de cinco anos, a dupla fez um documentário e um livro com esta história não contada do seu país. Escrito em linguagem simples, tem como alvo imediato o público jovem norte-americano.


O que os autores fazem é mostrar a distância entre os acontecimentos relativos à política expansionista e hegemonista dos EUA e as fabulações criadas para justificar e enquadrá-los dentro da ideologia da missão divina concedida (sic) por Deus aos EUA para levar aos outros povos o cristianismo, a democracia e o livre mercado.

No livro, retratam uma política de Estado que, desde as origens, orienta e sustenta um empresariado sedento por concorrer com os impérios coloniais da Grã Bretanha, da França, Alemanha etc. Depois de anexar metade do México, inicia o século XX incorporando as Filipinas, Guam, Pago Pago, Ilha Wake, Atol Midway, Havaí e Porto Rico e reivindicando o controle sobre Cuba. Participa da 1ª. Guerra Mundial para romper o protecionismo das grandes nações e abrir os mercados para seus negócios enquanto impõe altas tarifas para importação. No plano interno, esmaga o movimento operário e sindical com grande violência, suborno e legislação restritiva e persegue ferozmente as associações e aspirações socialistas até reduzi-las à insignificância.

Simpatia pelo nazismo

O livro descreve e apresenta documentos sobre a simpatia e a colaboração dos grandes banqueiros e empresários norte-americanos com Hitler e o governo nazista. Ford, GM,Standard Oil, Alcoa, ITT, GE, Dupont, Kodak, Westinghouse e muitas outras empresas continuaram a fazer negócios com os nazistas até 1941. Ford e GM até aceitaram converter suas fábricas instaladas na Alemanha para a produção de armas. Banqueiros continuaram a negociar com os alemães durante toda a guerra.

Inglaterra, França e EUA se faziam de surdos aos insistentes apelos da URSS de Stalin para formarem uma aliança contra a Alemanha, e, ao mesmo tempo apresentavam apenas débeis protestos aos avanços das tropas de Hitler e Mussolini ocupando outros países (Etiópia, Austria, Thecoslovaquia, Sudetos etc). E vendiam armas a Franco para esmagar o governo republicano espanhol.

Para os autores, EUA e seus aliados fizeram muito pouco para auxiliar “a desesperada comunidade judaica-alemã quando em 1938 uma orgia de violência se desencadeou.” Em 1939, quando Hitler descumpriu os acordos feitos com a França e Inglaterra e invadiu a Thecoslovaquia sem qualquer reação, Stalin, certo de que a URSS estaria sozinha na luta contra o nazismo, procurou ganhar tempo para se armar, assinou o pacto de não agressão com a Alemanha, desviando o rumo da guerra para o Oeste. Em seguida, numa rápida sucessão, o exército alemão conquistou a Dinamarca, Noruega, Holanda e Bélgica. Em junho de 1940, a França desmoronava, com a maior parte de sua classe dominante optando pela colaboração com os nazistas.

Em 1941, diante dos apelos do primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, para os EUA entrarem na guerra contra a Alemanha, Franklin Roosevelt declarou: “Acredito que falo como presidente dos Estados Unidos quando digo que não ajudaremos a Inglaterra nessa guerra se for para eles continuarem a tratar com arrogância os povos coloniais”. Suas palavras significavam que os EUA queriam em troca ter livre acesso aos mercados até então sob o domínio imperial inglês.


Mas Roosevelt havia prometido ao seu povo que não mandaria os jovens norte-americanos para morrer na guerra europeia e precisava de um pretexto para descumprir a promessa. Com o ataque do Japão à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, o pretexto estava dado.

Heroísmo estóico da URSS derrotou Hitler

Atacada com ferocidade pelo exército alemão, a URSS clamou em vão pela abertura de um segundo front na Europa durante três anos. Sob influência de Churcill, as tropas aliadas foram desviadas para a África, frente secundária, mas de interesse da Inglaterra para a defesa de seu império (e de seu petróleo no Oriente Médio). A invasão da Normandia só aconteceu depois que o Exército da URSS, numa façanha inacreditável, havia destroçado a até então invencível máquina de guerra alemã, e marchava celeremente para Berlim. Ameaçava tomar controle da segunda maior base industrial e tecnológica do planeta, o que seria desastroso para os interesses dos capitalistas norte-americanos e ingleses. Os autores dizem: “Ainda que susbsista o mito de que os Estados Unidos venceram a 2ª. Guerra Mundial, importantes historiadores concordam que foi a União Soviética e toda sua sociedade, incluindo Josef Stalin, seu brutal ditador, que por meio do absoluto desespero e do heroísmo incrivelmente estóico, forjaram a grande narrativa da 2ª. Guerra Mundial: a derrota da monstruosa máquina de guerra alemã”.

A economia dos EUA quase dobrou durante a guerra, apoiada na indústria de armas. Como Franklin Roosevelt estava doente, sua terceira eleição à presidência envolveu uma batalha e um golpe branco para a escolha do vice-presidente. O progressista Wallace, que era o auxiliar mais próximo de Roosevelt, foi afastado por uma manipulação dos grandes industriais em favor de um senador provinciano e ignorante chamado Harry Truman. Meses depois, ao assumir a presidência após a morte de Roosevelt, segundo os autores, Truman estava “escandalosamente despreparado” para a função. Estimulado pelos representantes dos grandes empresários da indústria do aço e de armamentos e altos funcionários anticomunistas, rompeu unilateralmente os acordos estabelecidos entre Roosevelt e Stalin, suspendeu ajuda prometida para a reconstrução da economia da URSS.

As bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki foram jogadas sobre um país que já havia assumido a derrota, desnecessárias, dizem os autores. Depois de ter suas cidades severamente bombardeadas pela aviação norte-americana, e na iminência de a URSS entrar na guerra contra eles, os japoneses estavam buscando ativamente negociações para sua rendição. Na verdade, as bombas foram utilizadas para intimidar a União Soviética e conquistar vantagens nas negociações para o pós-guerra, ainda mais que o exército soviético estava em vias de derrotar a Alemanha e conquistar Berlim e todo o aparato industrial e tecnológico alemão.

A mais polêmica decisão da 2ª. Guerra Mundial foi tomada apesar das fortes restrições internas, mesmo entre os principais generais norte-americanos. O general Dwight Eisenhower, por exemplo, disse que era contra sua utilização porque “os japoneses estavam próximos a se render e não era necessário atingi-los com aquela coisa horrível”.

Os autores descrevem com detalhes o horror das consequências das bombas nucleares sobre a população japonesa e a euforia do presidente Truman ao receber a notícia.

Os EUA no topo do mundo
Ao final da guerra, os EUA ocupavam sozinhos o topo do mundo. O império britânico se desmantelava e a Inglaterra se tornava um estado-cliente dos EUA. A União Soviética estava devastadoramente pobre, mas tinha o maior exército de todos, e os partidos comunistas desfrutavam de crescente influência na Europa, o que causava calafrios na diplomacia norte-americana. Com sua economia florescente, produzindo 50% dos bens industriais do planeta, e detentores do monopólio da arma nuclear, ainda assim os EUA acusavam a URSS de estar prestes a conquistar o mundo. E ameaçavam de usar a bomba contra ela. Com a brutal repressão aos comunistas na Grécia, os EUA inauguraram a Guerra Fria. Internamente, iniciou-se a “caça às bruxas”, as investigações para descobrir comunistas “infiltrados” entre funcionários do governo, artistas, intelectuais. Alguns delatores de seus colegas destacaram-se: Ronald Reagan, Robert Taylor, Gary Cooper e Walt Disney. O grande jornalista I.F. Stone declarou que estavam tentando converter “toda uma geração de americanos em dedo-duros”.

No plano externo, a CIA (Central Intelligence Agency) passou a promover “guerras secretas”, centenas de operações em todo o mundo (mais de oitenta durante o segundo mandato do presidente Truman). Chamada de “exército invisível do capitalismo” a CIA cresceria “exponencialmente nas décadas vindouras”, dizem os autores (o que, aliás, foi completamente confirmado por Snowden, como mostra o filme). Grandes somas do Plano Marshall, destinado à recuperação da Europa, foram desviadas à CIA.

Em 1949, a explosão da bomba atômica soviética e a vitória da revolução comunista na China foram motivo para criar um clima de vulnerabilidade nos EUA. A revista Time deu manchete: “A onda vermelha que ameaça engolfar o mundo”. A guerra da Coréia, em 1950-53, “foi a pior derrota que os norte-americanos já sofreram”, escreveu a revista.

Outro grande abalo para os americanos foi o lançamento do Sputnik pela URSS em 1957, que lançou os EUA numa frenética escalada armamentista. Mas as autoridades sabiam que a vantagem bélica americana era abissal. O arsenal norte-americano chegava a 22 mil bombas nucleares. Através dos aviões espiões U-2 “era possível ver cada folha de grama da URSS”, vangloriou-se Allen Dulles, diretor da CIA. O poder da CIA se estendia: assassinou Patrice Lumumba, líder do Congo e tentou inúmeras vezes assassinar o dirigente cubano Fidel Castro.
A tensão era muito grande em relação à Alemanha, os soviéticos temiam que os EUA cedessem armas nucleares aos alemães. A propaganda anticomunista visando conduzir a opinião pública norte-americana a aceitar a corrida armamentista acabou por criar uma histeria coletiva com a criação de um programa nacional de construção de abrigos atômicos nas casas das pessoas e o direito de matar os vizinhos que quisessem invadir seu abrigo.

Em 1962, a guerra nuclear por um triz

Em 1962, a crise dos misseis soviéticos instalados em Cuba levou ao paroxismo a tensão e houve uma grave ameaça de deflagração da guerra nuclear. O generais queriam atacar Cuba, mas Kennedy resistiu: “se nós os escutarmos e fizermos o que eles querem, nenhum de nós sobreviverá para dizer a eles que estavam errados”, disse. O livro relata o episódio de modo emocionante. Foi o momento em que as duas máquinas militares estiveram a pique de deflagrar a guerra escapando do controle dos seus governantes.

Os autores dão indicações de que a morte do presidente John Kenney de alguma forma se deveu à insatisfação dos “altos escalões das comunidades de inteligência, das forças armadas e dos negócios, sem falar na Máfia, nos segregacionistas e nos cubanos a favor e contra Castro (...) a raiva contra ele era visceral.”

Com Lyndon Johnson na presidência, a guerra do Vietnã se ampliaria, se dariam a instalação de ditaduras militares na América do Sul, novo golpe na Grécia. Na Indonésia, obra da CIA, o banho de sangue só foi menor que o do Vietnã. Aliás, um dos capítulos do livro mais ricos em detalhes trata da guerra do Vietnã, do presidente Richard Nixon e de seu assessor Henry Kissinger. Um exemplo de sua política: segundo Le Duan, dirigente norte-vietnamita, os EUA ameaçaram usar armas nucleares treze vezes. Os autores também mostram a indústria bélica que se desenvolveu para sustentar a guerra.

A criação dos mujahedins, um tiro no pé

Em 1979, dois acontecimentos teriam repercussão histórica de longo prazo. A revolução dos aiatolás no Irã; e, com apoio das ditaduras da Arabia Saudita e do Paquistão, a formação, pelos EUA, de grupos armados fundamentalistas islâmicos para combater o governo pró-soviético do Afeganistão. Nos anos futuros os EUA teriam motivos para se lamentar diante do crescimento exponencial do movimento islâmico radical e em especial pelo ataque às torres gêmeas, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001.

A partir dali, os Estados Unidos caminhariam para a direita talvez mais que em qualquer outro momento, mergulhando nas guerras fracassadas no Afeganistão e no Iraque, com apoio entusiástico da mídia, praticando a tortura e o assassinato em nome da defesa da democracia e dos direitos humanos.

Os autores perguntam: “quem foi o vencedor real? Depois de trilhões de dólares gastos, duas guerras, centenas de milhares de mortos no mundo todo, uma interminável guerra contra o terror, a perda das liberdades civis, uma presidência fracassada e uma extremamente maculada e o quase colapso da estrutura financeira do império, pode-se dizer que os EUA tiveram uma vitória de Pirro, em que suas perdas tornaram inútil a vitória”.

(Atualização de Resenha publicada em 2015 na revista Retrato do Brasil, da Editora Manifesto).

Livro
A HISTÓRIA NÃO CONTADA DOS ESTADOS UNIDOS
Por Oliver Stone e Peter Kuznick
355 páginas
Faro Editorial, 2015.


*Carlos Azevedo é jornalista, editor e escritor, trabalhou em jornais como Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Diário da Noite e nas revistas O Cruzeiro, Quatro Rodas, Caros Amigos e Retrato do Brasil. Foi um dos fundadores do jornal Movimento e da revista Realidade e é autor do livro Cicatriz de Reportagem, reunindo suas melhores reportagens.
http://www.vermelho.org.br/noticia/290465-1

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Retalhos da Vida de Um Médico, de Fernando Namora

  • Domingos Lobo 


Crónicas do País da fome, do medo e da ignorância


Iniciando-se nas letras com As Sete Partidas do Mundo (1938), um romance da adolescência perpassado pelo estilo e influência da narrativa psicologista da Presença, Fernando Namora só em 1941, com o livro de poemas Terra, título que inaugurou a colecção Novo Cancioneiro, afirma a sua voz, pela mão do seu amigo e companheiro em Coimbra, João José Cochofel, no movimento neo-realista iniciando, já com alguma identidade discursiva, um estilo seguro, tematizando nesses poemas narrativos as feridas que o fascismo ia inculcando no tecido social, mormente nas comunidades rurais do Norte do País, realidade que o autor de Fogo na Noite Escura (1943) conhecia por origem e vivência. Este seu livro, o terceiro de poesia na obra do então jovem autor, será prelúdio de um processo de escrita que atingiu, dentro da estética neo-realista, embora com pontuais desvios de modo e rigor de análise, mais de 30 títulos publicados, entre romances, contos, crónicas e poesia, tornando-se Namora um escritor com raro acolhimento público, sucesso editorial que só encontra paralelo com a obra de Alves Redol.

A prosa romanesca de Fernando Namora pauta-se por uma adesão, expontânea e sem mácula, ao mundo dos outros. A sua experiência como médico rural, uma espécie de João Semana do século XX, pelas serras e aldeias raianas da Beira Baixa e, mais tarde, no Alentejo, permitiu-lhe construir uma obra banhada de atmosferas dramáticas, que o permanente optimismo do autor consegue modelar, arejar pelo pícaro, pela abordagem desconstrutiva do insólito que descreve.

Os graves problemas sociais das populações com as quais se cruza e contacta nas suas andanças de médico rural, esse estágio de quase submissão feudal que percepciona, permite-lhe reflectir nos textos um mundo fechado, imerso em brumas sebásticas, temente e conservador, que vive cercado de crenças ancestrais, de miséria, de ignorância, de obscurantismo – de medo.

O traço nítido, uma capacidade discursiva fluente e formalmente descomplexada, uma linguagem próxima do léxico comum, com uma impressiva componente poética, os comentários prosaicos que a pontuam, ilidindo o fluxo ficcional, são elementos que tornam esta escrita acessível a um vasto universo de leitores que em Namora encontram um autor próximo, sensível e preocupado com as grandes questões sociais do seu tempo.

Em Retalhos da Vida de Um Médico, percorremos os itinerários do país salazarento, interior, doente, matreiro e desconfiado, país das homílias da conformação, das leiras da fome, das casas celtiberas, da insalubridade quase medieval, da rudeza elementar e da transcendência. O jovem médico, acantonado em Monsanto, nessa que foi, no desvario folclórico do fascismo, a aldeia mais portuguesa de Portugal, percorre veredas, socalcos, caminhos abertos nas faldas da serra por onde as mulas, os burros e os carros de bois se esgueiram entre ventos e chuva, para socorrer os pacientes que o procuram quase sempre em situação extrema, quando desenganados de charlatães, bruxedos e mezinheiros, muitas vezes para apenas confirmar o óbito. Um povo triste e desamado.

A primeira série de Retalhos, publicada em 1949, fala-nos do período inicial das vivências do médico-escritor num meio que lhe é austero, da desconfiança dos aldeões, das aldeias e casebres perdidos nas serranias e lameiros das terras beirãs, numa escrita intimista, feita de fragmentos, de memórias, de perplexidades perante a dura realidade que o cerca, levando-o a questionar-se sobre a sua condição de médico e a valia da ciência numa sociedade fechada sobre os seus próprios mitos, ignorância e cupidez. Narrativas construídas a partir de apontamentos, de referências autobiográficas, nas quais o autor expressa as suas angústias, cansaços, incredulidade.

Raras estórias em Retalhos, da 1.ª série, se estruturam como contos, mas antes como se de uma narrativa-inquérito (sobre o País interior, as condições sócio-políticas que o cercam e inibem) se tratasse; de um percurso memorialístico, de tempo e circunstâncias singulares vividos no Portugal profundo, tolhido pela miséria e pela rudeza da vida e do trabalho. Romance-inquérito, lhe chamou Óscar Lopes, mas este Retalhos, contado na primeira pessoa, em discurso claro e apodíctico, aproxima-se, pelo menos nos textos da 1.ª série, de um diário, fragmentado e não cronológico, de uma experiência profissional que marcaria profundamente o autor e percorreria indelével grande parte da sua obra ficcional posterior.

Com vinte e quatro anos medrosos e um diploma de médico, tinha começado a minha vida em Monsanto. Ali, a província bravia despede-se da campina, ergue-se nos degraus das fragas para olhar com altivez as serras de Espanha, enquanto o friso de planaltos que corre as linhas da fronteira espreita as surtidas do contrabando e a fuga dos rios. Prosa eficaz, segura, por vezes carregada de humor, picaresca, de um pícaro que não define individualmente o camponês, como em Aquilino Ribeiro, mas que em Fernando Namora adquire um sentido mais amplo e colectivo, que é quase amargo, desarmado, dorido olhar sobre a pobreza circundante.

A 2.ª série de Retalhos da Vida de Um Médico, publicada em 1963 estrutura-se de modo autónomo do 1.º volume. O médico-escritor está já no Alentejo, o sol e as planuras dos lugares do Sul permitem-lhe que o verbo se abra, se expanda em ressonâncias menos circulares, a realidade é diversa, a luta e o querer dos homens mais determinada e consciente, embora a miséria persista. A forma narrativa também muda. Entre a 1.ª série e a 2.ª há uma diferença de 14 anos e neste período o autor publica outros textos (alguns títulos serão afins de Retalhos)A Noite e a Madrugada (1950); Deuses e Demónios da Medicina (1952); O Trigo e o Joio (1954); O Homem Disfarçado (1957); Cidade Solitária (1959); As Frias Madrugadas (1959), que marca o regresso de Namora ao registo poético; Domingo à Tarde (1961).

O modo fragmentário da narrativa dos textos incertos na 1.ª série transforma-se num modo discursivo mais depurado, exigente em termos formais e orgânicos. As fímbrias brumosas que atravessam a 1.ª série dão lugar a uma intervenção mais explícita sobre o que denuncia e o autor opta pela forma do conto clássico para expressar o estupor, a procura de si mesmo e da matéria inesgotável do sofrimento humano, como refere Eduardo Lourenço. Alguns dos contos desta série serão exemplares de um modo mais evoluído de efabulação, de textura amadurecida no âmbito do discurso ficcional neo-realista: O Influente; O Homem que Queria Morrer Apenas Uma Laranja, estão nesse grupo de contos de modelar apuro e exigência estética e conceptual.

Retalhos da Vida de Um Médico é um exemplo do texto clássico do neo-realismo e uma das obras fundamentais da literatura portuguesa do século XX. Um documento raro, sensível e lúcido sobre a realidade profunda do Portugal fascista; país de silêncios, de medos e de revoltas crescendo no meio dos trigais que Namora, sem contemplações, põe a nu – país de ocultas misérias denunciado pela pena de um autor que nestes textos se revela indignado com o sofrimento dos seus concidadãos, e é esse modo de dizer a revolta, de a tornar humana e lídima, que torna estes textos actuais e de uma indefectível universalidade.

A presente edição da Caminho concentra num único volume as duas séries de Retalhos, mantendo os prefácios de Eduardo Lourenço e Gregório Marañón, constantes de edições anteriores.

Retalhos da Vida de Um Médico, de Fernando Namora – Editora Caminho, 2016 – Organização de José Manuel Mendes


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O CHOQUE DA POBREZA CUBANA

O CHOQUE DA POBREZA CUBANA

SEGUNDA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 2016

A morte de Fidel foi mais um pretexto para a o avanço da ideologia dominante na propagação da ideia de que ou há este caminho ou não há caminho nenhum. Da social-democracia mais à esquerda ou mais à direita, poucos são os que têm coragem de assumir que as conquistas cubanas são tão profundas e importantes que não podemos compará-las com as democracias haitianas, porto-riquenhas ou dominicanas. É que, por incrível que possa parecer, é com esses países que Cuba deveria ser comparada. Porque foram países brutalmente colonizados, explorados nos seus recursos e nos seus povos. Porque era lá que os homens de família que deslocavam em negócios de saias, enquanto enchiam a boca com o moralismo e a santa madre igreja. No entanto, o progresso cubano foi tão expressivo que o comparamos com os países desenvolvidos, ou exploradores, como preferirem. E, por incrível que possa parecer, Cuba supera esses países em categorias tão importantes como a saúde infantil, materna, educação, tratamento do HIV, acesso à habitação. Mas o que importa isso?

Como é que é possível um país não ser aberto só porque o seu líder sofreu 638 tentativas de assassinato por parte da maior potência mundial, fora as tentativas de golpe de Estado?

Claro que o embargo não explica tudo. Afinal, o que pode explicar um país não poder efectuar trocas comerciais com outros? Olhemos para nós, que não nos importamos nada, nem há manchetes e campainhas e alarmes de cada vez que a nossa balança comercial se inclina para um lado ou para o outro? Um embargo não explica tudo.

Um embargo não explica tudo. Os cubanos pedem sabonetes e champôs aos turistas, onde já se viu. E o embargo não tem nada a ver com isto. Ainda se fossem sem-abrigo e pedissem pão, isso sim, era liberdade, democracia e desenvolvimento. 

Então e tu? Já visitaste Cuba? Ou reges-te pela imprensa, que lhe é tão favorável. Claro que sim. A imprensa, ao serviço da classe dominante que abomina e silencia tudo o que foi alcançado com a revolução cubana. A mesma imprensa que, no entanto, é obrigada a noticiar que é em Cuba que são operados doentes portugueses com cataratas. Fora isso, Cuba é um pesadelo. Nunca lá foste, pois não? Então não sabes nada.

O embargo não explica que o sistema eleitoral cubano não seja democrático porque não está de acordo com as nossas democracias amadurecidas, como a dos EUA, em que é possível, numa eleição uninominal, ser eleito alguém com menos votos. Mas pelo menos há eleições. Em Cuba também, mas não importa. As de Cuba são más porque são em Cuba.

E a pobreza em Cuba? Que é muito mais pobreza do que em qualquer cidade sul-americana? Os pobres em Cuba deviam ser pobres como os do Haiti, não é como os cubanos. Onde já se viu, andarem a pedir sabonetes. Já disse que deviam pedir comida e um abrigo, sei lá, não disse? Isso sim, é pobreza menos má, porque é nossa, e olhamos e atravessamos a rua e está resolvido. Agora pobreza quando vamos de férias? Onde já se viu? Nós habituados a ir a Paris, Londres, Barcelona, Madrid, Berlim e lá não há miséria, seus burros. São carências. Claro que não tem a ver com a expulsão dos habitantes locais das grandes cidades para os arredores, transformando-as em enormes centros turísticos, sem a pobreza, que incomoda tanto.

Sim, os putos sabem ler e escrever em Cuba, ao contrário de 200 milhões de crianças por todo o Mundo. Têm aulas de música, desporto e artes que aqui só temos se pagarmos. Muito. Mesmo muito. Pá, mas aquilo não é uma democracia porque não pensam como nós.

Sim, a saúde, está bem. Só porque tem um médico para cada 150 pessoas? Isso justifica alguma coisa? Até parece que, aqui, se eu precisar de um médico não posso ir ao privado. Está bem, tenho de ter um seguro de saúde e pagar por isso. Mas pronto. Posso ficar no público à espera. E se for urgente temos as urgências. Pagamos? Ok, mas ganhamos muito mais que os cubanos, até andam alguns a ver se a gente chega aos 557 euros por mês, em vez dos 600, é porque devemos estar bem. Depois, é pagar luz, água, gás, passe social, renda ou empréstimo e paga-se a consulta nas urgências com o que sobrar.

Fidel foi um criminoso porque matou pessoas durante a revolução. Que importa se o país permaneceu ameaçado, interna e externamente, pelos EUA? Onde já se viu, fazer uma revolução e assassinar pessoas? Isto não ia lá com veludo, ou com cores, ou com estações do ano, como se tem visto com tanto sucesso? Era preciso uma revolução tão revolução? 

Depois há os outros, que sim, Cuba tem coisas boas, como o ensino e a educação, mas. Claro que mas. Uma das principais opositoras cubanas vive na ilha, é paga por George Soros e é conhecida por ser blogger, entrando e saindo da ilha quando quer. Numa ilha sem internet, sem nada, onde se comunica por sinais de fumo. De charuto, claro. Nem liberdade, como canais de rádio e TV que emitem diariamente a partir de Miami. Para onde vão os democratas cubanos, com subsídios do governo norte-americano, desde que não cheguem de avião. Se chegarem de avião, não têm visto.

E os médicos, engenheiros, professores que passam por tantas dificuldades? E os nossos todos aqui tão bem nos callcenter e na Uber ou emigrados ou a servirem de mão-de-obra barata nos supermercados, através das empresas de trabalho temporário? Pelo menos podem sair do país. Em Cuba também, desde que não vão de avião e para os EUA.

Matou pessoas, Fidel. Foi um criminoso sem um pingo de humanidade. Democracia em Cuba, só mesmo em Guantánamo. Devia ter sido mais como nós, que somos cheios de humanidade, mas estamos no lado dos que votaram para eleger um presidente que se recusou a condenar o Apartheid. Curiosamente, Fidel foi uma das pessoas a quem Mandela agradeceu todo o apoio dado à causa dos negros sul-africanos, bem como à libertação de países daquele continente.E o Amílcar Cabral. Tudo bem, mas não era preciso matar pessoas, até parece que não se resolvia a descolonização de outra forma, com paciência e jeitinho.

A malta é de esquerda e está com a Palestina. Fidel é um criminoso admirado na Palestina pelo apoio dado àquele povo, às tantas temos aqui um problema, mas não, porque teremos sempre um mas. Matou pessoas e tudo numa revolução. Que bruto. Em vez de abrir o país à democracia de modelo burguês ocidental, como fez ao Chile de Allende. Morreu mas pelo menos morreu cheio de democracia imposta pelos nossos aliados. O Pinochet é que sabia.

A gente é de esquerda e até esteve pelo Obama. Guantánamo? Mas ele é mesmo cool. Viste-o naquele talk-show? Super engraçado.

E aquelas férias na Tailândia? Que importa o turismo sexual, os pobres lá são muito melhores. Mesmo que, à chegada, nos digam quais os locais para onde podemos ir sem correr o risco de ser assaltados. A pobreza lá é muito melhor. Não pedem champô nem sabonetes. Isto sim, são pobres à maneira. Nem falo na Índia. Lá é que a pobreza é como deve ser.

E Marrocos? É lindíssimo o Saara Ocidental. Presos saarauís? Mas os pobres lá são de categoria, tens é de entrar e fechar-te no hotel e escolher bem o percurso com os guias. Estes ao menos não te pedem champôs. Mas, se puderes deixar ficar uns dólares… Aquele deserto é lindo.

A gente quer é escrever as nossas sentenças nos nossos smartphones feitos com mão-de-obra escrava, a nossa roupa cosida por crianças e poder dar às nossas crianças os brinquedos que são feitos por crianças mais pequenas do que elas. Nenhuma delas é cubana, podem ser haitianas, salvadorenhas ou porto-riquenhas, mas aquela pobreza lá, com pessoas que pedem champôs e sabonetes, choca muito qualquer um.

Cuba não é o paraíso na terra. Mas também não é o inferno que são os seus vizinhos sul-americanos. Por muito que isso custe a quem gostava que fosse.

domingo, 27 de novembro de 2016

Fidel, por Gabriel Garcia Marquez

* MANUEL AUGUSTO ARAUJO

27 DE NOVEMBRO DE 2016

Em memória de um HOMEM! Deixei passar propositadamente o dia de ontem, registando o que foi por aí foi escrito e visto sobre Fidel de Castro!

Registando com enorme indignação o que a poderosa máquina de propaganda imperialista consegue instilar até inesperadamente em muita gente, alguma que muito se tem indignado com Trump mas que, chegado o momento, não se distinguem de Trump. Nada de novo a oeste! Também nada de novo muita gente de esquerda perdida nos seus labirintos e sem encontrarem o fio de ariadne que os salvaria do minotauro e já sem sequer saber como fabricar as asas de Ícaro. Que poderia escrever sobre FIdel? Que música estou a ouvir por Fidel? Texto, o de Gabriel Garcia Marquez bem como a música de Dvorak aqui ficam.

FIDEL  
fcastro
A sua devoção pela palavra. O seu poder de sedução. Vai buscar os problemas onde estão. O Ímpeto e a inspiração são próprios do seu estilo. Os livros reflectem muito bem a amplitude dos seus gostos. Deixou de fumar para ter a autoridade moral para combater o tabagismo. Gosta de preparar as receitas de cozinha com uma espécie de fervor científico. Mantém-se em excelentes condições físicas com várias horas de ginástica diária e natação frequente. Paciência invencível. Disciplina férrea. A força da imaginação arrasta-o até ao imprevisto. Tão importante como aprender a trabalhar é aprender a descansar.
Fatigado de conversar, descansa conversando. Escreve bem e gosta de fazê-lo. O maior estímulo da sua vida é a emoção do risco. A tribuna de improvisador parece ser o seu meio ecológico perfeito.

Começa sempre com uma voz inaudível, com um rumo incerto, mas aproveita qualquer assunto para ir ganhando terreno, palmo a palmo, até que uma espécie de grande vaga se apodera da audiência. É a inspiração: o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só o negam aqueles que não tiveram a glória do viver. É anti-dogmático por excelência. José Martí é o seu autor de cabeceira e teve o talento de incorporar o seu ideário à corrente sanguínea de uma revolução marxista.

Na essência do seu pensamento poderia estar a certeza de que para fazer trabalho de massas é fundamental ocupar-se dos indivíduos.

Isto poderia explicar a sua confiança absoluta no contacto directo.

Tem uma linguagem, para cada ocasião e um modo distinto de persuasão para cada interlocutor. Sabe situar-se ao nível de cada um e a sua informação casta e variada permite-lhe mover-se com facilidade em qualquer meio. Uma coisa é segura: esteja onde esteja, como esteja e com quem esteja, Fidel Castro está ali para ganhar.

A sua atitude perante a derrota, ainda que seja nos actos mínimos da vida quotidiana, parece obedecer a uma lógica privada: nem sequer a admitem e não tem um minuto de sossego enquanto não consegue inverter os termos e convertê-la numa vitória.

Ninguém consegue ser mais obsessivo quando se propôs chegar ao fundo de qualquer coisa. Não há projecto colossal e milimétrico, em que ele não se empenhe de uma forma apaixonada.

E em especial se tem que defrontar-se com a adversidade. Nunca como então parece com melhor disposição, Alguém que acredita conhecê-lo bem, disse-lhe: as coisas devem andar muito mal, porque você está esfusiante.

Insistir e aprofundar as coisas é uma das suas formas de trabalhar. Exemplo: o assunto da dívida externa da América Latina, apareceu pela primeira vez nas suas conversas há alguns anos, e foi desenvolvendo-se, ramificando-se, aprofundando-se. A primeira coisa que disse, como uma simples conclusão aritmética, era que a dívida era impagável. Depois apareceram as medidas escalonadas: As repercussões das dívida na economia dos países, o seu impacto politico e social, a sua influência decisiva nas relações internacionais, a sua importância providencial para uma politica unitária da América Latina… até chegar a uma visão totalizadora, a que expôs numa reunião internacional convocada para o efeito e que o tempo se encarregou de demonstrar.

A sua mais rara virtude de politico é essa capacidade de vislumbrar a evoluções dos factos até às suas consequências remotas… no entanto, não exerce esta faculdade por revelações, mas como resultado de um raciocínio árduo e tenaz. O seu auxiliar supremo é a memória que usa até ao abuso em conversas privadas com raciocínios espantosos e operações aritméticas de uma rapidez incrível.

Tudo isto, requer o auxílio de uma informação incessante e bem mastigada e digerida. A sua tarefa de acumulação informativa começa desde o momento em que acorda. Pequena almoça com mais de 200 páginas de notícias de todo o mundo. Durante o dia, fazem-lhe chegar informações urgentes, calcula que cada dia tem que ler 50 documentos, a esses têm que se somar as informações dos serviços oficiais e as conversas com os seus visitantes e tudo aquilo que possa despertar o interesse da sua curiosidade infinita.

As respostas têm de ser exactas, pois é capaz de descobrir a mais pequena contradição numa frase casual. Outra fonte vital de informação são os livros. É um leitor voraz. Ninguém consegue explicar como tem tempo nem qual é o método que utiliza para ler tanto e com tanta rapidez, ainda que ele insista que não tem nenhum talento especial para isso.

Muitas vezes levou um livro de madrugada e na manhã seguinte comenta-o. Lê inglês mas não o fala.

Prefere ler castelhano e a qualquer hora está disposto a ler o mais pequeno papel que lhe caia nas mãos.

É um leitor habitual de assuntos económicos e históricos. É um bom leitor de literatura que segue com atenção.

Tem o costume de interrogar os seus visitantes. Perguntas sucessivas até descobrir o porquê do porquê do porquê.

Quando um visitante da América Latina lhe deu um dado apressado sobre o consumo de arroz dos seus compatriotas, ele fez os seus cálculos mentais e disse-lhe: que estranho, quer dizer que cada um come quatro libras de arroz por dia.

Uma das suas tácticas é perguntar coisas que sabe para confirmar os seus dados. E em alguns casos para medir o calibre do seu interlocutor e tratá-lo em consequência.

Não perde ocasião para informar-se. Durante a guerra de Angola descreveu uma batalha com tantos pormenores e minúcia, numa recepção oficial, que foi difícil convencer o diplomata europeu de que Fidel Castro não tinha participado nela.

O relato que fez da captura e assassinato do Che, o que fez do assalto do quartel da Moneda e da morte de Salvador Allende ou o que disse dos estragos do ciclone Flora, davam grandes reportagens faladas.

A sua visão da América Latina e do seu futuro, é a mesma de Bolívar e de Martí, uma comunidade integral e autónoma, capaz de mover o destino do mundo. O pais do qual sabe mais depois de Cuba, os Estados Unidos. Conhece a fundo as características da sua gente, as suas estruturas de poder, as segundas intenções dos seus governo, e segundas intenções dos seus governos, e isto ajudou-o a contornas a tormenta incessante do bloqueio.

Numa entrevista de várias horas, detém-se em cada assunto, quando se aventura em temas menos conhecidos, nunca descuida a precisão, consciente que uma só palavra mal usada pode causar estragos irreparáveis. Jamais recusou responder a nenhuma pergunta, por mais provocadora que seja, nem perdeu nunca a paciência. Sobre os que escamoteiam a verdade para não lhe causar mais preocupações que as que tem: descobre-o. A um funcionário que o fez, disse-lhe: Ocultam-me verdades para não me preocupar, mas no fim, quando descobrir, morrerei pelo choque de enfrentar tantas verdades que me deixaram de dizer. As mais graves, no entanto, são as verdades lhe ocultam para encobrir erros e deficiências, pois ao lado dos enormes sucessos que sustentam a revolução – as conquistas politicas, científicas, desportivas e culturais – há uma enorme incompetência burocrática monstruosa que afecta toda a vida diária e em especial a felicidade doméstica.

Quando fala com a gente da rua, as conversas ganham expressividade e a franqueza crua dos afectos reais. Chamam-no: Fidel. Rodeiam-no sem riscos, tratam-no por tu, discutem, contradizem-no, protestam, como num canal de transmissão imediata por de onde circulam a verdade aos borbotões. É então que se descobre o ser humano insólito, que o resplendor da sua própria imagem não deixa conhecer: um homem de costumes austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal à antiga, de palavras cautelosas e ténues e incapaz de conceber nenhuma ideia que não seja descomunal.

Sonha que os “seus” cientistas encontrem o remédio final contra o cancro e criou uma politica externa de potencia mundial, numa ilha 84 vezes mais pequena que o seu inimigo principal.

Tem a convicção que a conquista mais do ser humano é a boa formação da sua consciência e que os estímulos morais, mais do que os estímulos materiais, são capazes de mudar o mundo e empurrar a história.

Ouvi-o nas suas escassas horas de meditação à vida, evocar as coisas que poderia ter feito de outra maneira para ganhar mais tempo de vida. Ao vê-lo muito aborrecido pelo peso de tantos destinos de pessoas, perguntei-lhe o que quisera fazer neste mundo, respondeu-me de imediato: parar num local qualquer.

Gabriel Garcia Marquez in Rebellion

Antonín Dvořák - Requiem
Krassimira Stoyanova, soprano
Elīna Garanča, mezzo-soprano
Stuart Skelton, tenor
Robert Holl, bass
Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
Mariss Jansons, conductor

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