segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alda do Espírito Santo - Onde estão os homens caçados neste vento de loucura

* Alda do Espírito Santo


O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Ai o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas
dos gritos, dos uivos de dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Ai, Zé Mulato, Zé Mulato.
As vítimas clamam vingança
O mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.
- Nós estamos de pé -
nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando pela vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança...
... Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vias queimadas,
erguem o coro insólito de justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
- Que fizeste do meu povo?...
- Que respondeis?
- Onde está o meu povo?
...E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar,
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chamada da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens...

http://aldadoespiritosanto1001poets.blogspot.pt/

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Maria Eugénia Cunhal - Quando vieres -



* Maria Eugénia Cunhal

Quando vieres 
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

Álvaro Cunhal, 14 anos mais velho que a irmã, estivera na prisão durante 11 anos e fugira 2 anos antes do Forte de Peniche, em 1960. Forçado a sair de Portugal, fez parte da Direcção do PCP no exterior (Moscovo e Paris), regressando em 1974. Torturado na prisão, esteve encarcerado em 1937, 1940 e 1949-1960, num total de 15 anos, oito dos quais em completo isolamento.

GRAVURA - Álvaro Cunhal - Desenhos na prisão

Alda Lara : Regresso

* Alda Lara

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...
Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...
Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...
Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
(Alda Lara 1948) - poetisa angolana

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Teresa Rita Lopes - Um dia quando eu morrer

Teresa Rita Lopes

Um dia quando eu morrer
isto é um dia quando eu estiver debaixo da terra
não quero que me vão levar flores
mas que as vão lá buscar
Gostava que por cima da minha cova não pusessem 
laje nenhuma
só terra por mim estrumada
e aí plantassem as flores que amei em vida
açucenas rosas Palminhas de Santa Teresa (ditas Frésias)
ervilhas-de-cheiro goivos cravos jasmins
tudo flores com perfume
que é a alma das plantas
Sempre gostei mais de dar do que de receber
por isso ficarei feliz se forem à minha beira
buscar flores
os que me quiserem bem
Que as levem para casa e as ponham numa jarrinha com água
à cabeceira ou em cima da mesa de escrever
ou de comer
onde possam sentir minha presença viva
e trocar comigo olhares e sorrisos
e quem sabe talvez palavras
essas as mais importantes que em vida
nós não soubemos dizer


Teresa Rita Lopes, in ". Afectos", Lisboa: Editorial Presença, 2000 

Ruy Belo - Um dia não muito longe não muito perto

* Ruy Belo 

Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?


Ruy Belo , in “ Homem de Palavra(s)”, Editorial Presença

José Gomes Ferreira - Dá-me a tua mão

* José Gomes Ferreira 


Dá-me a tua mão,
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira, in «Poeta Militante I», Dom Quixote, Lisboa, 1999

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Álvaro Feijó - Sonetos do Amor da Hora Triste

* Álvaro Feijó

Sonetos de amor da hora triste

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
Do que tu - não deixes fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro

Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.Eu, Marco Pólo,

Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-lo-ás em pensamento. Abarca

Nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

 

II

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já
como a alguém que se espera a cada instante.


  Que eu voltarei.Eu sei que hei-de voltar
  de novo para ti,no mesmo barco
  sem remos e sem velas, pelo charco
  azul do céu, cansado de lá estar.

  E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
  E não quero que chores por fora,
  Amor,que tu bem sabes que quem chora

  assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
  to peça, diz-mo. A travessia é longa...não atino
  talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.

Jorge Luis Borges

Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.




(Tradução: Charles Kiefer)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Conde de Monsaraz - O Senhor Morgado

* António de Macedo Papança (Conde de Monsaraz)
 
O senhor morgado
vai no seu murzelo,
todo impertigado,
é um gosto vê-lo
próspero, anafado,
véstia alentejana,
calça de riscado:
Homem duma cana!
Vai, todo se ufana
de ir tão bem montado.
E ela na janela...

Seja Deus louvado!

O senhor morgado
vai nas próprias pernas,
todo bandeado;
Tem palavras ternas
para cada lado.
Quando passa, sente
que é temido e amado;
Fala a toda a gente.
Topa um influente:
"Sou um seu criado..."
Eleições à porta,
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
vai na sege rica
todo repimpado
ai que bem lhe fica
o chapéu armado
e a comenda ao peito
e o espadim ao lado!
Que homem tão perfeito!
Deputado eleito
muito bem votado,
vai para o Te-Deum,
Seja Deus louvado!




O Senhor Morgado - intérprete Adriano Correia de Oliveira
(letra de Conde de Monsaraz, música de José Niza)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

POEMA (SONETO) DE MANUEL ALEGRE, DEDICADO A ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

* Manuel Alegre


Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem quer caber e não cabia.

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia

 https://amigosmaioresqueopensamento.wordpress.com/2012/01/08/poema-soneto-de-manuel-alegre-dedicado-a-adriano-correia-de-oliveira/

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Manue lAlegre - Trova do vento que passa

* Manuel Alegre




Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Florbela Espanca - Desejos Vãos

* Florbela Espanca
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!
Mas o Mar também chora de tristeza …
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras … essas … pisa-as toda a gente! …
Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

poesia de manuel antónio pina



* Manuel António Pina

TRANSFORMA-SE A COISA ESCRITA NO ESCRITOR


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.


(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.


Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.


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Tenho a sensação de não estar onde não estou,
de já ter passado qualquer coisa que já se passou,
e de ter a sensação passada de sentir-me a não estar lá,
suspenso sobre a Literatura.


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Kindergarten


As filhas brincam fora de o quê, 
que infinitamente se interroga?
O fora de elas é dentro
de que exterior centro?

Quem está lá aqui
assistindo a isto e a mim,
e às filhas brincando e ao jardim?
Que coisa essencial em qualquer sítio perdi?

Também eu ou alguém brincou há muito tempo
em outro jardim, brincando.
Sem que palavras lá estando?
Fora de que memória não me lembrando?


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Teoria das cordas

Não era isso que eu queria dizer, 
queria dizer que na alma 
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve, 
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada, 
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente, 
um vazio no vazio, vagamente ciente 
de si, não haver resposta
nem segredo.


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O nome do cão

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,
nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava


ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.

E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.

Então sonhava
o sonho sólido que existia.
E não compreendia.

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.

Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: " É a vida..."


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O segundo gato 

Em cada gato há outro gato 
um pouco menos exacto 
e um pouco menos opaco. 

Um gato incoincidente 
com o gato, iridescente, 
caminhando à sua frente 

ou a seu lado, 
espírito alado 
do que é terrestre no gato. 

É o segundo gato 
que permanece acordado 
com o gato afundado 

em sono abstracto, 
aos seus pés enrolado, 
espécie de gato do gato. 

Ou que, mais tardo, 
deambula pela sala 
enquanto o gato se lava, 

às vezes assomando 
nos olhos do gato 
como um passado imóvel e 

enclausurado. 
O próprio gato 
não sabe 

que anda por ali 
algo que não cabe 
dentro nem fora de si. 


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Cálculo e elegia

Quantos dos que conheci
(se é que sempre os conheci)
homens, mulheres
(se é que ainda vigora esta diferença)
passaram este limiar
(se é isto limiar)
atravessaram esta ponte
(se ponte se lhe pode chamar) – 

Quantos após uma existência mais curta ou mais comprida
(se é que para eles persiste a diferença),
boa porque começou,
má porque teve um fim
(se é que não queriam tê-lo dito inversamente), 
se encontraram na outra margem
(se é que se encontraram
e a outra margem existe ) –

Certeza alguma me é dada
da sorte que os espera
(se comum destino há
ou mesmo até um destino) -

Tudo
(se com esta palavra não crio limites) 
deixaram para trás / (se é que não à frente) –

Quantos não saltaram do tempo vertiginoso 
para cada vez mais ternamente ao longe se sumirem
(se é que adianta crer na perspectiva) – 

Quantos
(se é que a pergunta tem sentido, 
se é que é possível alcançar a soma derradeira
antes que o que conta a si também se conte ) 
caíram nesse sonho mais fundo
(se é que não há outro mais fundo ainda) –

Adeus.
Até amanhã. 
Até à próxima. 
Já não o querem
(se é que não) repetir. 
Adstritos a um interminável
(se é que não outro) silêncio. 
Ocupados só com aquilo
(se é que só) 
a que os obriga a ausência.


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Schweizer Hof Hotel

Já aqui estive, já fiz esta viagem, 
e estive neste bar neste momento
e escrevi isto diante deste espelho
e da minha imagem diante da minha imagem.

Não mudou nada, nem eu próprio; a mão
escreve os mesmos versos no papel obscuro.
Que aconteceu então fora de tudo?
De que esquecimento se lembra o coração? 

Algum passado, alguma ausência, 
se passam talvez a meu lado, 
talvez tudo exista exilado
de alguma verdadeira existência. 

E eu, os versos, o bar, o espelho, 
sejamos só imagens noutro espelho
diante de algum Deus em cujo lasso 
olhar se fundem outro e mesmo, tempo e espaço.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A classe operária não vai ao paraíso

25 de dezembro de 2016 - 19h42 

A classe operária não vai ao paraíso


 

Tudo miúdo, até a vida.

(Do conto “O pano vermelho”)

Ao que me consta, foi Amando Fontes com Os Corumbas, romance de 1933 sobre o calvário e a desagregação de uma família sergipana na cidade grande pré-industrializada, que introduziu a fábrica (e, por extensão, o proletariado) na literatura brasileira. Quase meio século depois, o mineiro Roniwalter Jatobá amplia o tema apenas sugerido por Amando Fontes e faz da exploração do operário - o migrante nordestino que fugiu da seca e da miséria para viver na periferia de São Paulo - o leitmotiv de sua obra, sobretudo deste No chão da fábrica - contos e novelas (Editora Nova Alexandria, SP, 2016), que acaba de sair do pátio da indústria de personagens miúdos, derrotados e desencantados em que se transformou a ficção desse autor que deixou o interior da Bahia, onde foi chofer de caminhão, para ser também operário na maior metrópole do Brasil.


No chão da fábrica - contos e novelas é a reunião de três livros anteriores de Jatobá: Sabor de química, de 1976; Crônicas da vida operária (1978) e a novela, visceral e dolorosa, Tiziu (1994). Em comum com as três a utilização do peão de fábrica como personagem coletivo de uma tragédia brasileira: a impiedosa exploração do trabalhador iludido com as promessas jamais cumpridas do “milagre brasileiro”, a maior peça de marketing político da ditadura militar instalada no país em 1964. De milagre mesmo para os deserdados da sorte, os humilhados e ofendidos de Roniwalter Jatobá, só a capacidade de sobrevivência em meio às condições mais adversas e o apego à esperança quando todas as portas para uma vida melhor parecem trancadas por dentro, para que os pobres não possam entrar na Terra Prometida da justiça social.

Tanto em Amando Fontes quanto em Roniwalter Jatobá, a fábrica tem um quê de ente naturalista, como sua sirene apitando, engolindo e vomitando homens. Em Os Corumbas: 

Manhã.

Homens entroncados, sujos de pó, chegam junto às caldeiras da Têxtil, empurrando vagonetes de lenha. Lavados de suor, os foguistas não descansavam, jogando grandes toros em meio ás labaredas. Todas as máquinas da Fábrica se moviam, num barulho ensurdecedor.

E ainda:

A grande chaminé da Têxtil vomitava no espaço rolos fumo negro.

Um silvo curto e agudo anunciou a hora do almoço. E logo - como um bando de reses famintas que tivessem rebentado as cercas do curral - de todos os cantos surgiram centenas de operários a correr. Meninos, homens, mulheres. Uns, ganhavam o largo portão da frente; outros se lançavam para o vasto pátio da Fábrica, na ânsia de obter um bom lugar sob as árvores. Os mais retardados contentavam-se com o se abrigar em qualquer parte onde o sol não batesse bem a prumo.

Agora, Roniwalter Jatobá, a fábrica parecendo um campo de concentração (“A fábrica”):

A construção da fábrica tomava tudo, cerca de arame com quatro fios, farpados. Só se ouvia de longe o barulho de concreto sendo despejado no chão, serras elétricas, serrotes comuns serrando madeira; enxadas e pás tinindo de manhã à noite. Fizesse sol ou chuva. Aquilo nunca parava. Crescia, sim.

A fábrica sugando as últimas forças do homem e, depois, o descartando como o bagaço da laranja (em “Odília”):

Lembro do meu homem que a fábrica de química em tão pouco tempo, em cinco anos, por muito, definhou como um trapo ou pano de prato de fustão ruim que se gasta no trabalho diário e caseiro.

A fábrica envenenando, a prestações, os trabalhadores (em “Nos olhos, gases e batatas”):

Segunda de noite, a fábrica: seção F5, Nitroquímica, o gás rondando os olhos, entrando nas vistas marejadas, cegueira. A voz do feitor apressando, o sinal de saída demorando a tocar lá fora, os minutos se segurando, a dor nas vistas.

E ainda (em “Tiziu”):

O gás de química voava no espaço do galpão queimando em todos os cantos e penetrando até debaixo do pano grosso do macacão azul de brim.

Na novela “Tiziu”, mais um crime: o barracão da fábrica era feito de telhas de amianto.

Vemos ainda o operário afastado do trabalho, irremediavelmente doente e desprezado pelas pessoas sãs, do conto “Sabor de química”, que desabafa ante o desprezo dos demais:

Cuspo meu câncer nos pés deles.

Crônica da vida infeliz

Num clima em que a questão social parece ainda um caso de polícia como na República Velha (1889-1930), a carteira de trabalho, assinada, era o único salvo-conduto do trabalhador. A carteira de identidade de nada valia. O importante era estar trabalhando para provar que não era vagabundo (em “Trabalhadores”):

[...] Empregado. Carteira profissional só esperando a promessa que depois de todos os exames ficaria assinada, fichada, o carimbo da firma estampado dentro dela, aí, já podendo andar de cabeça erguida dentro dos bares, sem precisão de correr ao menor movimento de carro de polícia, assombrado.

O medo do desemprego assombrava a todos na fábrica. Todos temiam o facão, gíria para a dispensa na próxima leva de demissões (em “Trabalhadores”):

Fiquei dois anos e meio, novecentos dias esperando, toda manhã, em ser posto pra fora, vendo o medo passeando em todos, assim esperando, assim trabalhando. O coração palpitando forte na chegada da manhã; na hora de marcar o ponto, o dia inteiro assustado nos chamamentos para qualquer coisa que partisse de chefe, feitor, o pensamento voltado pra casa, ali no serviço corrido, na família, lá longe em outros bairros.

A pobreza, a exploração, o trabalho sem direito a domingo e feriado, os baixos salários, a constante ameaça de demissão, a família crescendo, os filhos nascendo e precisando das coisas, tudo isso dá no trabalhador uma tristeza de chorar, como na música “Gente humilde”, de Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque, a mesma gente humilde que também na ficção de Roniwalter Jatobá mora nos subúrbios (em “Domingo tem cinema):

[...] a gente perde o gosto pelas coisas, vai definhando, se acomoda num canto, só não chora porque é feio. Mas que dá vontade, isso dá.

A mutilação de membros aleija e inutiliza os trabalhadores mais distraídos (em “A mão esquerda”):

E foi passando na cabeça o meu choro, o sangue melando a máquina, o azul dela, fui sentindo vergonha, não me veio um tico de nada de ódio da prensa, da prensa que me deixou com tocos nos dedos, um homem aleijado, inutilizado como dizem por aí, não, não senti raiva cega da máquina, só da minha fraqueza, do meu medo, do meu descuido, do choro, essa mão, agora, pois vê, pesada e quieta como se não parecesse minha.

Na grande cidade e no pátio da fábrica, todos são joões, joões ninguém (em “Trabalhadores”):

Éramos três joões que se perderam por aí, nesse São Paulo sem datas, os dias parecidos, todos iguais, cada um de nós carregando sua sina traçada desde o nascimento ou muito antes, nos rostos suas esperanças estampadas e trazendo de outras erras seus sonhos, cada um indo e vindo na marcação de seu destino.

Porém, apesar de toda a vida de sacrifícios, de todo cansaço e de todo sofrimento, a esperança resiste, como um pássaro que pousa sobre uma prensa desativada, ou o homem do conto “O trem, a estação... todos os dias”, do livro Crônicas da vida operária, que observa a cidade e os companheiros taciturnos dentro o trem lotado que traz os operários de volta para casa, após a jornada de trabalho exaustiva:

[...] aí não dá pra perder a fé e não me vejo mais só no mundo.

Para o crítico literário Fábio Lucas, autor de O caráter social da ficção no Brasil, alguns contos de Roniwalter Jatobá “se apresentam como uma crônica da vida infeliz”. E assim é. O escritor mineiro empunha sua pena para tomar o partido dos pequenos, dos mais fracos, dos explorados e o faz com ardor militante, sem contudo cair nas armadilha sectária e maniqueísta do chamado “realismo socialista”. Por isso mesmo, como observou outro crítico, Celso Frederico, professor da USP, sua obra “possui um inestimável valor documental”.

Roniwalter Jatobá resgatou a agruras do operário brasileiro, mas não esgotou o tema, pois, como diz Tiziu (apelido de um trabalhador que volta mutilado para a sua terra natal, na Bahia, sem nada no bolso e com as mãos vazias, após 25 anos de dura labuta em São Paulo), “dois olhos não conseguem presenciar tudo o que se passa no mundo”.

Na ficção, dura e crua de Roniwalter Jatobá, a classe operária não vai ao paraíso, desce ao inferno da exploração do trabalho e rola no limbo da lenta e progressiva derrocada de seus sonhos.

Como disse Rubem Braga, numa crônica, “a vida é triste, Sizenando.”




 
*Eliezer Cesar é jornalista, escritor e mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia

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