Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Szymanski. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Szymanski. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de agosto de 2026

Miguel Szymanski - A União Europeia a desintegrar-se de acordo com os planos dos EUA

* Miguel Szymanski
  ·
 
Um chefe de Estado ou de Governo, seja português ou espanhol, não pode, no meio de uma crise cuja solução depende da boa vontade de um país vizinho — um regime policial e autoritário —, apontar-lhe o dedo e acusá-lo daquilo que, de facto, fez, e não pela primeira vez: instrumentalizar nas fronteiras uma multidão de milhares de pessoas desesperadas para fazer avançar a sua agenda. Mas é lamentável que um chefe de Estado na frase com que é citado pareça reforçar a tese central da extrema-direita. Foi o que Seguro fez, ou pelo menos assim é citado, quando um órgão de comunicação social resume a posição nesta crise à exigência de "mão forte contra a imigração ilegal". 

E em Espanha? Sánchez falou de "ataque à integridade territorial de Espanha". Mas nem uma palavra sobre Marrocos. A explicação oficial: máfias que aproveitaram uma sentença do Supremo Tribunal. Sánchez foi necessariamente omisso porque depende da boa vontade de Marrocos para resolver a crise criada por Marrocos. O contexto torna essa omissão ainda mais reveladora:

Há dias, Trump, depois de várias e repetidas ameaças contra Espanha, incluindo a de usar bases militares contra a vontade do governo espanhol,  anunciou que uma autoestrada no Sara Ocidental ocupado por Marrocos vai receber o seu nome. Rubio, secretário de Estado, disse na mesma ocasião que os EUA "reconhecem de forma inequívoca a soberania marroquina sobre o Sara Ocidental. Marrocos normalizou e estreitou as relações com Israel via Acordos de Abraão, parceria que inclui armas, drones e inteligência militar, reforçando o controlo marroquino sobre as suas populações, as fronteiras com Espanha e o Estreito de Gibraltar.

Também o governo israelita ameaçou repetidas vezes a Espanha por esta denunciar o genocídio na Palestina. Quando a crise em Ceuta rebentou, Trump disse à Fox News que as imagens deviam servir de aviso aos EUA e ao resto da Europa (Europa essa, cujas democracias os EUA assumiram abertamente e em documentos oficiais querer transformar em regimes nacionalistas e iliberais).

Convém lembrar: Marrocos nunca reconheceu a soberania espanhola sobre Ceuta, referindo-se-lhe oficialmente como enclave colonial, e Ceuta nem sequer pertence ao espaço Schengen. Não é um território menor para Marrocos instrumentalizar; é, no discurso marroquino, território em disputa cuja ocupação, há declarações nesse sentido, os EUA apoiariam. 

Um regime autocrático, com uma população na miséria, instrumentaliza dezenas de milhares de pessoas desesperadas como arma de pressão sobre Espanha, enquanto os EUA agitam a bandeira anti-imigração.

E a UE? À excepção da Irlanda, que manifestou o seu apoio ao governo espanhol, em vez de solidariedade com um Estado-membro sob pressão, a Itália e mais meia dúzia de países da UE ameaçam suspender Schengen com a Espanha. Na Alemanha, a extrema-direita dá a entender que milhares de marroquinos ilegais ameaçam chegar a Berlim, como se Ceuta ficasse nos arredores de Madrid e não no Norte de África.

Obviamente que a entrada de pessoas num país — quer queiram vir trabalhar, reformar-se com 'vistos gold' ou fazer turismo — tem de ser regulamentada. Afinal, não queremos ficar sem meios para arrendar ou comprar uma casa no nosso próprio país, nem deixar entrar mais pessoas em busca de trabalho do que a oferta do mercado de trabalho permite. Nunca foi isso que esteve em causa. Ou será que foi e este sistema económico precisa de mão de obra barata, ilegal e sem direitos, ao mesmo tempo que precisa de culpados a quem possamos apontar o dedo por termos perdido o controlo sobre o sistema económico que nos foi imposto e não sabermos como organizar as nossas vidas? Para citar mais uma vez o Papa Francisco: "este sistema económico mata"

2026 Agosto 01
https://www.facebook.com/miguelszymanski