terça-feira, 21 de julho de 2026

(33) - Neo-realismo e pacifismo em Orgosolo: Vittorio de Seta e Charlot

 

Estes dois murais em Orgosolo (Sardenha) capturam duas vertentes fundamentais da identidade e do muralismo da vila: a valorização da memória cultural e a mensagem pacifista/antimilitarista.

1. O Mural do Cartaz de Cinema: "Banditi a Orgosolo" (À esquerda)

O que está escrito?

  • Topo: "CINEMA FONTANA"

  • Cartaz: "BANDITI A ORGOSOLO"

  • Preço: "INGRESSO L. 150"

  • Rodapé: "FILM DIRETTO DA VITTORIO DE SETA INTERPRETATO DAI PASTORI DI ORGOSOLO"

O que representa?

  • O Resgate da Identidade Local: Recreia o cartaz do icónico filme neorrealista de 1961 (Bandidos em Orgosolo), realizado por Vittorio De Seta.

  • Vittorio De Seta (1923–2011): É o autor e realizador do filme Banditi a Orgosolo (1961). Ele era famoso pelos seus documentários e filmes que retratavam com enorme realismo a vida dos camponeses, pescadores e pastores do sul da Itália e da Sardenha, usando frequentemente as próprias pessoas locais como atores.

  • A Dignificação dos Pastores: O filme usou os próprios habitantes e pastores da vila como atores (retratados no mural), abordando a dura realidade da região da Barbagia sem cair nos estereótipos pejorativos que o Estado costumava atribuir à população sarda.O filme é um clássico do cinema italiano porque não utilizou atores profissionais; foi protagonizado pelos próprios pastores de Orgosolo (como Michele Cossu e Peppeddu Cuccu, cujos rostos surgem pintados no mural) para contar a história realista de um pastor acusado injustamente que se vê forçado a fugir para as montanhas.

  • Em vez do estereótipo pejorativo de "povo criminoso" que o Estado italiano frequentemente atribuía à região da Barbagia, o filme (e este mural que o celebra) retrata a dura realidade socioeconómica, a solidão do pastor e as injustiças do sistema judicial, tornando-se um motivo de enorme orgulho comunitário.

2. O Mural do Soldado Charlot: "Un'altra guerra? No grazie." (À direita)

O que está escrito?

No balão de fala da personagem:

"un'altra guerra? no grazie." ("Uma outra guerra? Não, obrigado.")

O que representa?

  • A imagem de Charlot de capacete de aço, farda militar e espingarda às costas  foi inspirada no icónico filme mudo de 1918 "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms), rodado durante a Primeira Guerra Mundial.

    Nessa obra-prima da comédia pacifista, Chaplin retrata a vida difícil e absurda do seu lendário Vagabundo recrutado para as trincheiras da Frente Ocidental em França.

    Ao transpor essa figura para as paredes de Orgosolo, o pintor Francesco Del Casino usou essa exata imagem de Charlot vestindo a farda militar para criar a poderosa mensagem antagónica de paz: "Un'altra guerra? No grazie." ("Outra guerra? Não, obrigado.").

  • A Rejeição Absoluta do Militarismo: Com uma expressão melancólica e o olhar direto para o transeunte, a personagem recusa categoricamente novos conflitos. O mural sintetiza o forte sentimento antimilitarista de Orgosolo, marcado pela resistência histórica à ocupação de terras para bases e exercícios militares na Sardenha.

Margarida Davim - Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos


 

Foto Maxicam| Dreamstime.com

* Margarida Davim

Há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos

Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.

sábado, 18 de julho de 2026

Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]

* Raquel Varela

Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

(32) - Rui Belo - Esta rua alegre



* Rui Belo

Esta Rua é alegre

Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida

(31) - José Régio - Romance de Vila do Conde



* José Régio

Não se trata dum mural, mas resolvi incluí-lo nesta série. a partir duma inscrição na escadaria de acesso à Capela do Socorro, em Vila do Conde.


O excerto presente na lápide faz parte do poema "Romance de Vila do Conde", escrito por José Régio, uma composição lírica de tom nostálgico, onde o autor recorda com saudade as paisagens da sua infância e juventude na sua terra natal. 

O texto completo do poema é o seguinte:

Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano

* Miguel Sousa Tavares

A derrota e humilhação da selecção, erigida em exemplo do melhor que a pátria portuguesa tem, é toda uma lição sobre os nossos males profundos

16 julho 2026

Esta saga dos “heróis do mar”, feita parte fundamental da mensagem do nosso infeliz hino nacional, há-de perseguir-nos até à eternidade ou até ao dia em que nos deixarmos render à verdade histórica: nós não somos descendentes desses portugueses que partiram literalmente à aventura para demandar Índias, embarcados em banheiras de pinho vagamente flutuantes, ou dos que mais tarde embarcaram em baleeiros americanos para lhes ensinar como se caçava a “Moby Dick” nas águas do Pacífico, ou até mesmo daqueles que, ainda mais tarde, mas sempre em navios feitos de madeira, andaram a pescar bacalhau nas águas geladas de Newfoundland. Não, nós não somos descendentes desses que partiram: somos descendentes dos que ficaram. Pelo que já é tempo de acabarmos com essa história dos heróis do mar, que há muito deixámos de ser, e olharmos para nós próprios tal como somos hoje, com os nossos defeitos e as nossas qualidades, os nossos feitos e os nossos fracassos.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]

*  Raquel Varela
 
 ·
Ontem fiquei a saber que uma professora de geografia fez sucesso ao dizer que adora classificar intens, resolvi ir ver o exame de geografia. Não ouvi a professora, confesso, estava a caminho de Ponte Sor, numa automotora que acompanha o Tejo, atravessa montados, e onde toda a gente se trata por tu, do maquinista à senhora que trabalha numa fábrica no Carregado, do revisor, que com ternura dá águas quando o ar condicionado pifa, ao agrónomo que ia me falando dos cavalos, dos javalis e , claro, dos jovens maquinistas em formação, em visita de estudo, que me dedicaram o seu sorrido, conversa e um deles até me mostrou a foto das bochechas de porco preto que comeu com a avó. Devolvi contando das grandes greves dos heróis ferroviários no século XIX. Não há calor que me tire de um comboio, o transporte mais belo do mundo. Se é uma automotora a 100 à hora, o dia foi perfeito. Walter Benjamin, filósofo, disse um dia que a revolução não é o comboio da história, é o travão de emergência. Eu, ali, na automotora a caminho de uma formação de professores, levava no colo Vigotsky, o mais importante psicólogo que explica no fundo como aprendemos e desenvolvemos o cérebro. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra

* Daniel Oliveira

A polémica dos chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias. Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo

Durante anos, milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer outra.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro



* Domingos Lobo

É pa­rá­bola dos tempos som­brios da dé­cada de 60, do País sob Sa­lazar

O te­atro épico é a ten­ta­tiva mais ampla e mais ra­dical de cri­ação de um grande te­atro mo­derno; cabe-lhe vencer as mesmas imensas di­fi­cul­dades que, no do­mínio da po­lí­tica, da fi­lo­sofia, da ci­ência e da arte, todas as forças com vi­ta­li­dade têm de vencer.1

Ber­tolt Brecht e o seu con­ceito de te­atro épico teve in­fluência de­ter­mi­nante, em início dos anos 1960, em al­guns au­tores pro­gres­sistas como José Car­doso Pires, com “O Render dos He­róis”; Luís Sttau Mon­teiro, com “Fe­liz­mente Há Luar” e “As Mãos de Abraão Zacut”; Luzia Maria Mar­tins, com “Bo­cage”, “Alma Sem Mundo” e “O Judeu”, de Ber­nardo San­ta­reno.

Destes cinco textos dra­má­ticos, só “Fe­liz­mente Há Luar” e “O Judeu”, face às in­cur­sões cen­só­rias, não ti­veram es­treia entre nós antes de 25 de Abril de 1974.