quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro



* Domingos Lobo

É pa­rá­bola dos tempos som­brios da dé­cada de 60, do País sob Sa­lazar

O te­atro épico é a ten­ta­tiva mais ampla e mais ra­dical de cri­ação de um grande te­atro mo­derno; cabe-lhe vencer as mesmas imensas di­fi­cul­dades que, no do­mínio da po­lí­tica, da fi­lo­sofia, da ci­ência e da arte, todas as forças com vi­ta­li­dade têm de vencer.1

Ber­tolt Brecht e o seu con­ceito de te­atro épico teve in­fluência de­ter­mi­nante, em início dos anos 1960, em al­guns au­tores pro­gres­sistas como José Car­doso Pires, com “O Render dos He­róis”; Luís Sttau Mon­teiro, com “Fe­liz­mente Há Luar” e “As Mãos de Abraão Zacut”; Luzia Maria Mar­tins, com “Bo­cage”, “Alma Sem Mundo” e “O Judeu”, de Ber­nardo San­ta­reno.

Destes cinco textos dra­má­ticos, só “Fe­liz­mente Há Luar” e “O Judeu”, face às in­cur­sões cen­só­rias, não ti­veram es­treia entre nós antes de 25 de Abril de 1974.

A peça de Sttau Mon­teiro foi con­si­de­rada pela crí­tica, logo em 1961, data da sua pu­bli­cação, um texto in­con­tor­nável, ven­cendo o Grande Prémio de Te­atro. Uma ten­ta­tiva, do pró­prio autor, de en­cenar a peça, em 1962, no Te­atro Ex­pe­ri­mental do Porto, re­sultou go­rada. Mas a peça de Sttau tornou-se, ao longo dos anos, marco re­fe­ren­cial da nossa pro­dução dra­má­tica da se­gunda me­tade do sé­culo XX, texto de lei­tura quase obri­ga­tória entre aqueles que se opu­nham à di­ta­dura sa­la­za­rista, de tal forma que a Ática lan­çava, dois anos de­pois, a 5.ª edição desta peça, to­ta­li­zando treze mil exem­plares. Con­tudo, a peça de Sttau Mon­teiro só che­garia aos palcos por­tu­gueses em 1978, no Te­atro Na­ci­onal de D. Maria II, en­ce­nada pelo pró­prio autor.

“Fe­liz­mente há Luar” tem como ce­nário o am­bi­ente po­lí­tico de iní­cios do sé­culo XIX: em 1817, uma cons­pi­ração, en­ca­be­çada pelo ge­neral Gomes Freire d’ An­drade, que pug­nava pelo re­gresso do Brasil do rei D. João VI e se ma­ni­fes­tava con­trária à pre­sença in­glesa, foi des­co­berta e re­pri­mida com muita se­ve­ri­dade, sendo Gomes Freire en­for­cado e os ou­tros cons­pi­ra­dores acu­sados de traição à pá­tria, quei­mados pu­bli­ca­mente num acto bár­baro e me­di­eval. Os man­dantes, entre os quais se des­taca a fi­gura si­nistra do Prin­cipal Sousa, mas igual­mente do me­lí­fluo D. Mi­guel Forjaz, da usura cí­nica de Be­res­ford, dos sa­bujos de­nun­ci­antes (os de­la­tores do sé­culo XIX, her­dados de Pina Ma­nique, fi­guras em que Sttau Mon­teiro pro­curou sim­bo­lizar os bufos pi­descos), con­tra­pondo as fi­guras po­pu­lares, os mais cons­ci­entes da sua classe, Ma­nuel e Rita e Ma­tilde de Melo, a co­ra­josa com­pa­nheira de Gomes Freire d’An­drade. Não por acaso, a peça abre com a fala de Ma­nuel que, num pro­cesso de in­ter­ro­gação bre­ch­tiana, in­tro­du­zindo na di­e­gese, de modo di­a­léc­tico, a in­qui­e­tação re­ve­la­dora do trá­gico final: «Que posso eu fazer? Sim: que posso eu fazer: Vê-se a gente livre dos Fran­ceses e zás! Cai na mão dos in­gleses! E agora? Se aca­bamos com os In­gleses fi­camos na mão dos reis do Rossio... Entre os três o diabo que es­colha... Deus todo-po­de­roso para a frente... […] E en­quanto eles andam para trás e para a frente, para a es­querda e para a di­reita, nós não pas­samos do mesmo sítio.»2

A peça es­tru­tura-se pelo con­teúdo for­te­mente ide­o­ló­gico, como ale­goria da opressão que se vivia na época em que foi pu­bli­cada (1961), sob a di­ta­dura de Sa­lazar. O re­curso à dis­tan­ci­ação his­tó­rica e à des­crição das in­jus­tiças pra­ti­cadas no início do sé­culo XIX, per­mitiu a Sttau, de forma as­ser­tiva, in­ferir os ma­le­fí­cios do seu tempo que ti­veram como alvo ho­mens e mu­lheres an­ti­fas­cistas. É, assim, uma «pa­rá­bola dos tempos som­brios da dé­cada de 60»3, da re­a­li­dade so­cial e po­lí­tica do País, vi­vida sob o jugo de Sa­lazar, que Sttau Mon­teiro traça ana­lo­gias com o pe­ríodo his­tó­rico em que a peça se es­tru­tura, com a re­a­li­dade po­lí­tica ao tempo da sua ges­tação. Tempo in­comum, em termos so­ciais e po­lí­ticos, para o fas­cismo: ano em que o pa­quete Santa Maria é to­mado de as­salto por Hen­rique Galvão; os mo­vi­mentos de li­ber­tação ini­ciam a in­sur­reição ar­mada em An­gola; a Índia de Nehru in­vade e toma Goa, Damão e Diu e José Dias Co­elho é as­sas­si­nado pela PIDE numa rua de Lisboa.

“Fe­liz­mente Há Luar” é um drama nar­ra­tivo, dentro da es­té­tica do te­atro épico, que des­creve a “trá­gica apo­teose” do mo­vi­mento li­beral oi­to­cen­tista em Por­tugal e in­ter­preta as con­di­ções da so­ci­e­dade por­tu­guesa do início do sé­culo XIX e a re­volta das massas mais es­cla­re­cidas, das so­ci­e­dades se­cretas (a ma­ço­naria, as franjas do ja­co­bi­nismo nas­cente) contra o poder ab­so­lu­tista e ti­râ­nico do mi­gue­lismo, de Be­res­ford e se­quazes.
Na si­tu­ação ac­tual do nosso Te­atro e da Cul­tura em geral, sob a ba­tuta do PSD, pa­rece-nos grave que os res­pon­sá­veis dos nossos te­a­tros con­ti­nuem a ig­norar au­tores como Sttau, San­ta­reno, Redol, Torga, Romeu Cor­reia, Car­doso Pires, Re­belo, ou seja, a Arte Viva que o Te­atro é, fron­teira cul­tural e de re­sis­tência contra as de­rivas con­ser­va­doras que atra­vessam o nosso tempo.

 
 

1Ber­tolt Brecht, Es­tudos Sobre Te­atro, p.26, Por­tu­gália edi­tora, Lisboa, 1964

2Fe­liz­mente Há Luar, pp. 13 e 14, 5.ª edição, Ática

3Fi­lo­mena Oli­veira/​Mi­guel Real, O Te­atro na Cul­tura Por­tu­guesa do Sé­culo XX, p. 134, Vega, Lisboa, 2016

 https://www.avante.pt/pt/2743/argumentos/184202/%E2%80%9CFelizmente-H%C3%A1-Luar%E2%80%9D-a-prop%C3%B3sito-do-centen%C3%A1rio-de-Lu%C3%ADs-de-Sttau-Monteiro.htm