ª Fernando Martins~
CARLOS BRITO E O COMUNICADO
Carlos Brito foi um combatente antifascista e comunista durante uma parte da sua vida, como tantos outros e outras. Depois, abjurou (sem o "eppur si muove") e tornou-se social-democrata. Traiu o seu ideário original e os camaradas que nele confiavam. Nada mais natural que o PCP louve a parte inicial do seu percurso existencial, prestando-lhe assim a merecida homenagem, e omita o resto, por respeito para com o decesso e a dor dos próximos. O resto (que incluiria hipócritas "sentidas condolências") é o habitual aproveitamento político dos anticomunistas. O combate político e a luta de classes não são disputas futebolísticas em que os adversários se podem abraçar findo o jogo. Porque o que está em jogo não é uma tabela de classificações, mas sim o futuro da humanidade, que não se compraz com rodriguinhos aristocrático-burgueses
2026 05 11
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A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.
A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.
Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.
Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.
Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.
O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.
Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.
Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.
Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.
Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.
E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.
Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.
Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.
Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.
Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.
Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas
o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas.
Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.
No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um
partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.
2026 05 12
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Ainda a propósito de C. Brito e de um comentário a post anterior
O Dicionário da Língua Portuguesa 2006, da Porto Editora, define assim o substantivo feminino “traição”: «1 crime de quem deserta para o inimigo ou passa informações para outro país; 2 infidelidade conjugal; 3 deslealdade para com um amigo ou pessoa com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso […].»
Descontada a infidelidade conjugal e o passar de informações para outro país, que não vêm ao caso, o Carlos Brito cometeu (1) deserção para o inimigo e (3) deslealdade para com os seus camaradas, obviamente enquadráveis na designação de “amigos ou pessoas com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso”.
Quanto ao “laço de solidariedade”, os homens e mulheres que aderem livremente a um projecto político de construção de uma sociedade nova, sem classes, solidária, fraterna e igualitária estão unidos pelo mesmo objectivo ou compromisso, e só em conjunto, só unidos, só solidariamente (“solidário” tem que ver com “sólido”) podem aspirar à sua consecução.
É mais do que evidente que a definição de “traição” não se circunscreve ao âmbito das seitas e irmandades. Para nos cingirmos ao domínio político e ao rigor com que a traição era tratada noutra época, porque estavam em causa a segurança da organização e a vida de muitos camaradas (para além do futuro do país e do mundo), quando ocorria uma traição por parte de resistentes, durante a ocupação nazi da França, no início dos anos 40 do séc. XX, o traidor era, muitas vezes, executado.
Claro que o contexto da guerra e da ocupação não é comparável àquele em que vivemos, mas traição é traição em qualquer contexto.
A deserção para o inimigo não é menos óbvia. Para quem não conhece os princípios marxistas ou não tem consciência de classe ou se compraz em raciocínios de cariz liberal ou neoliberal dominantes no Estado burguês, este vocabulário parecerá naturalmente excessivo, agressivo ou mesmo indutor do ódio. Mas não. Não se trata disso. Trata-se, sim, da consciência de que os interesses da classe dominante são antagónicos dos interesses da classe trabalhadora e de que a história da humanidade é a história da luta de classes, como soube ver o autor dos princípios que refiro mais atrás, autor esse que, aliás, também deu uma nova dimensão à filosofia: até então, a filosofia limitava-se a explicar o mundo; o marxismo visa transformá-lo. O afastamento de CB dos princípios e da acção do seu Partido de origem e a sua aproximação aos partidos da classe dominante configuram claramente uma traição, por muito que ele tenha dito que continuava a ser comunista.
Coisas difíceis de entender por quem vê a acção política como um torneio entre equipas vermelhas, azuis, verdes, torneio esse que se disputa durante uma época e que recomeça daí a meses, com ou sem mudança de treinador e de jogadores, em função dos resultados obtidos e do capital disponível nos cofres da equipa. Ora, para os comunistas, a acção política não é um torneio; é um objectivo de vida, é a acção continuada pela concretização do projecto de transformação político-social, e este objectivo, esta busca persistente do bem comum e não da satisfação pessoal não se compadece com o divisionismo nem com alianças espúrias com o inimigo de classe, seja qual for a designação oficial da organização em causa, excepção feita de acordos pontuais, visando afastar do poder as facções mais aguerridas da classe dominante.
Para concluir:
1. Liberdade de pensamento é coisa de que os comunistas não têm falta. Acontece é que os comunistas são capazes de aceitar nem sempre terem razão naquilo que pensam, o que os leva a deixar o seu pensamento em surdina, quando isso acontece, e a junta
r-se à maioria, que pode ter uma opinião diferente.
2. “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, mas, pelos vistos, há machados que cortam a fidelidade a princípios e a compromissos assumidos
2026 05 13
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