quarta-feira, 22 de julho de 2026

Em defesa da língua sarda


Victor Nogueira / ChatGPT

Pesquisei especificamente por transcrições do Prologu assu devotu Letore e do Legendariu de 1627.

O resultado é o seguinte:

  1. Não encontrei uma transcrição integral em acesso livre do prólogo. O que existe é sobretudo o fac-símile da edição original.
  2. Encontrei, porém, vários estudos académicos que citam e transcrevem passagens importantes do prólogo, sobretudo por causa da defesa da língua sarda feita por Garipa.

Entre as passagens mais citadas estão:


«...pro esser sa limba Sarda tantu bona, quanto participat dessa Latina...»

("...porque a língua sarda é tão boa quanto participa da latina...")

Outra passagem, reproduzida em diversos estudos linguísticos, afirma:

«nexuna de quantas limbas si platican est tantu parente a sa Latina formale quanto sa Sarda...»

("Nenhuma das línguas hoje faladas é tão aparentada com o latim clássico quanto a sarda.")

Garipa prossegue explicando que a impressão de "barbárie" da língua não deriva da sua natureza, mas da forma como é escrita e pronunciada:

«...abenes qui cun sa mala pronunciatione, e malu iscrier sos naturales la apan fata barbara...»

("...embora a má pronúncia e a má escrita dos naturais a tenham tornado bárbara...")

E acrescenta um argumento pedagógico que se tornou célebre:

«si in Sardigna mostraren sos mastros sa gramatica in sardu assos istudiantes, sensa duda bi diat aer in Sardigna deghe voltas plus Latinos qui non bi at como cun su Ispagnolu.»

Ou seja, se a gramática fosse ensinada em sardo, haveria muito mais pessoas capazes de aprender corretamente o latim do que usando o espanhol como língua de ensino.

Os estudos concordam que o prólogo constitui um verdadeiro manifesto em defesa da língua sarda, justificando a tradução das vidas das santas para que o povo pudesse lê-las na sua língua materna e defendendo a dignidade literária do sardo.

Além disso, encontrei um documento da Universidade de Cagliari que inclui a tradução italiana de uma das vidas do Legendariu (Santa Bárbara) e remete explicitamente para as páginas da edição de 1627, mas não reproduz o prólogo.

Se o seu interesse é sobretudo histórico e linguístico, posso reconstruir o conteúdo completo do prólogo a partir destas citações e dos estudos filológicos, indicando para cada afirmação as passagens que a sustentam, ou tentar localizar uma edição crítica moderna (por exemplo, a edição de 1998, frequentemente citada pelos investigadores), que poderá conter a transcrição integral do Prologu assu devotu Letore.

O prólogo de Giovan Matteo Garipa não é famoso pelo seu valor literário, mas porque constitui um dos primeiros textos em defesa da dignidade da língua sarda. Em termos simples, Garipa diz ao leitor algo como isto:

  • Escrevi este livro em sardo para que as pessoas comuns possam conhecer a vida das santas e mártires, sem dependerem do latim.
  • A língua sarda não é inferior às outras línguas românicas; pelo contrário, conserva muitas características do latim.
  • Se o sardo parece rude ou pouco elegante, isso deve-se ao facto de ser pouco cultivado e mal escrito, não à língua em si.
  • Se nas escolas da Sardenha se ensinasse a gramática em sardo, os alunos aprenderiam o latim com muito mais facilidade.
  • A leitura das vidas das santas deve servir de exemplo moral e fortalecer a fé dos leitores.

Para um leitor do século XXI, estas ideias podem parecer naturais. Em 1627, porém, eram bastante ousadas. Na época, a Sardenha fazia parte da Monarquia Hispânica, e o espanhol era a língua da administração e da cultura escrita, enquanto o latim dominava os textos religiosos e eruditos. Garipa defende que o sardo também merece ser uma língua de cultura.

É por isso que os historiadores da língua sarda citam frequentemente o seu prólogo: menos pelas histórias das santas e mais pelo testemunho que dá sobre a consciência linguística da época.

Os prólogos de Antonio Lo Frasso ou o de Gerolamo Araolla. Juntamente com Garipa, são dos textos mais importantes para compreender como alguns autores sardos dos séculos XVI e XVII procuraram afirmar o valor da sua língua.São três prólogos considerados marcos da afirmação da língua sarda.

1. Gerolamo Araolla (c. 1548–c. 1615)

Gerolamo Araolla foi provavelmente o primeiro grande poeta a defender que o sardo podia ser uma língua literária.

Nas suas obras religiosas, sustenta que:

  • o sardo é suficientemente rico para exprimir temas elevados;
  • não deve limitar-se ao uso oral;
  • merece ser cultivado como o italiano, o castelhano ou o francês.

É uma posição muito inovadora para o final do século XVI.


2. Antonio Lo Frasso

Antonio Lo Frasso escreveu sobretudo em castelhano, mas nunca escondeu a sua origem sarda.

Nos prólogos e dedicatórias manifesta orgulho pela sua terra e mostra que um sardo podia participar plenamente na cultura europeia do Renascimento.


3. Giovan Matteo Garipa (1627)

É talvez o mais interessante dos três.

O seu argumento pode resumir-se assim:

Deus fala a todos os povos; por isso também as vidas das santas devem poder ser lidas na língua do povo.

Depois desenvolve uma defesa da língua sarda que surpreende pela modernidade.

Em linguagem atual, diz aproximadamente:

O sardo conserva muitas características do latim.

Não é uma língua bárbara.

Parece bárbara apenas porque poucos sabem escrevê-la corretamente.

Se fosse ensinada nas escolas, ajudaria até a aprender melhor o latim.

Esta última ideia é extraordinariamente moderna. Hoje chamar-lhe-íamos ensino na língua materna.


Porque é importante?

Quando Garipa escreve isto (1627):

  • a administração utiliza sobretudo o castelhano;
  • a Igreja escreve em latim;
  • quase ninguém imagina que o sardo possa ser uma língua de livros.

Garipa afirma precisamente o contrário:

"O povo merece livros na sua própria língua."

É uma ideia que antecipa em séculos a valorização das línguas regionais.


Uma curiosidade

Garipa afirma, em substância, que nenhuma língua românica está tão próxima do latim como o sardo.

Hoje os linguistas evitam formular essa ideia de forma absoluta, porque cada língua conserva traços latinos diferentes. No entanto, há um consenso alargado de que o sardo é uma das línguas românicas mais conservadoras, preservando muitas características fonéticas, lexicais e morfológicas do latim que desapareceram noutras línguas românicas. Assim, embora a formulação de Garipa seja apologética, tem um fundo linguístico que explica por que motivo continua a ser frequentemente citado.

Penso que este prólogo merece ser lido não apenas como um texto religioso, mas como um dos primeiros manifestos em defesa da identidade linguística da Sardenha. É um documento importante para compreender a forma como, já no século XVII, alguns autores procuravam conciliar a cultura erudita com a língua falada pelo povo.

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