segunda-feira, 27 de julho de 2026

Daniel Oliveira ~ Smart Glasses are watching you!


* Daniel Oliveira

Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.

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Dilara, de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou. O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma violação". Kim, de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se "como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.


O que une estes dois casos não são os homens, é o dispositivo usado. Um par de óculos inteligentes da Meta, desenhado para não se distinguir de um acessório vulgar. Filmagens ilegítimas e dissimuladas de mulheres sempre existiram, e muitas acabaram expostas sem consentimento. Foi assim que se descobriu o caso da Gisele Pélicot. A diferença é a escala e a impunidade. O que antes exigia esforço para disfarçar tornou-se, com este objeto, a condição normal de qualquer encontro casual na rua. E ainda só estamos no princípio. O futuro é cada ser humano ser uma câmara.

Durante séculos, a privacidade foi um luxo. Só quem tinha paredes, quartos próprios e distância social tinha direito a ela. O povo vivia amontoado em espaços partilhados e sem portas. Só muito recentemente conquistou o direito à privacidade, que é condição para a individualidade. Por pouco tempo. Com a expansão das câmaras de videovigilância no final do século passado, justificada pela segurança, e com a internet e as redes sociais, já neste século, a exposição tornou-se voluntária e quotidiana. Até ser o que é natural.

Zygmunt Bauman chamou-lhe “vigilância líquida”. Não é imposta por uma autoridade única e visível, mas difusa, feita de mil pequenas cedências, em que cada pessoa entrega um pouco da sua privacidade em troca de segurança, conforto ou pertença digital, sem que ninguém a tenha obrigado a isso de forma explícita. Hoje, já nem se pode dizer que seja um valor hegemónico das nossas sociedades.

As redes sociais deixaram de ser espaços de comunicação para se tornarem motores de recolha de dados: cada partilha, cada gosto, cada localização, tornou-se matéria-prima. No “capitalismo de vigilância”, como lhe chamou Shoshana Zuboff, a experiência humana privada é o recurso a extrair, processar e vender, para prever e influenciar comportamentos futuros. Quanto mais as pessoas partilham, mais as empresas ganham. A erosão da privacidade já não é um efeito colateral indesejado, mas um modelo de negócio. Os óculos inteligentes são a sua última versão.

PENSADO PARA ESPIAR

Estes óculos não são mais uma câmara, são desenhados para não parecerem uma câmara. Têm, em teoria, uma pequena luz que acende quando gravam, mas nenhuma das mulheres contactadas pela CNN disse alguma vez ter reparado nela durante os encontros em que foram filmadas. A própria Meta reconhece que a luz pode ser tapada, com autocolantes bloqueadores vendidos abertamente online. A discrição não é um defeito de fabrico, é a própria proposta de valor do produto — óculos que ninguém suspeita de serem uma câmara são, precisamente, o que torna o produto atrativopara quem quer gravar às escondidas.

Em 2024, dois estudantes de Harvard mostraram até onde esta lógica pode chegar. Combinando os óculos da Meta com um serviço de reconhecimento facial e outras ferramentas online, construíram um sistema (I-XRAY) capaz de, através do rosto de um desconhecido, chegar ao seu nome, número de telefone e morada, em segundos, sem que essa pessoa alguma vez soubesse que estava a ser identificada. Testaram-no em pessoas reais, na rua e no metro. Fizeram-no como alerta. Já não é preciso ser a Meta, nem um governo, nem uma empresa de vigilância profissional. Bastam dois estudantes com tempo livre.

Uma investigação dos jornais suecos "Svenska Dagbladet" e "Göteborgs-Posten" revelou que trabalhadores da Sama, uma subcontratada com sede em Nairobi, reviam rotineiramente excertos de vídeo captados pelos óculos IA da Meta como parte do treino da sua inteligência artificial. E que, nesse processo, viram imagens de casas de banho, nudez, atividade sexual e outros momentos íntimos. Um dos trabalhadores contou aos jornalistas ter visto, num desses vídeos, um homem pousar os óculos na mesa de cabeceira e sair do quarto. Os óculos continuaram a gravar, e a companheira entrou e despiu-se, sem se imaginar filmada. O problema não é um mau uso ocasional, é um produto concebido para esta inevitável exposição.

Estes riscos existem para todos, mas não desabam sobre todos da mesma forma. Dilara e Kim encaixam na tese que Katie Jagielnicka desenvolve num artigo traduzido e publicado em Portugal pelo Shifter: a Big Tech avança depressa e sem preocupações éticas e as mulheres e raparigas são quase sempre as primeiras vítimas. Segundo um relatório da ONU, menos de 40% dos países têm leis que protejam as mulheres contra assédio ou perseguição digital. Os óculos inteligentes não inventam a assimetria, apenas reforçam-na, porque a tecnologia acentua sempre a relação de poder que lhe é prévia: o poder de vigiar quem já era mais vigiado.

REGULAÇÃO PRIMEIRO

Elle Hunt, do jornal “The Guardian”, usou um par destes óculos durante um mês para os testar. Descreve como o desconforto inicial depressa desaparece. Os óculos tornam-se naturais e apanhou-se a pensar, em várias ocasiões, como "uma pervertida" — quem me dera estar a gravar isto. Um especialista em IA industrial ouvido para o mesmo artigo resume o problema: a tecnologia foi lançada antes de o mundo e a regulação estarem preparados para ela. Mas Zuckerberg já prevê que estes óculos se tornem, na próxima década, "a principal forma de usarmos a tecnologia", substituindo o telemóvel. Avançar depressa, partir coisas, resolver depois. Ou nunca.

A resposta institucional tem sido reativa. O regulador britânico de proteção de dados escreveu a exigir esclarecimentos à Meta depois da investigação sueca sobre o Quénia. Nos EUA, uma ação coletiva acusa a Meta de publicidade enganosa, por vender os óculos como "concebidos para a privacidade". E três senadores democratas escreveram a Zuckerberg a exigir respostas sobre planos de reconhecimento facial nos óculos, depois de um memorando interno da própria empresa ter revelado a intenção de lançar essa funcionalidade "durante o atual ambiente político dinâmico", para escapar ao escrutínio público.

Cabe ao Estado, não ao mercado, decidir, antes do lançamento e não depois do escândalo, o que pode ser captado, identificado e arquivado sem o consentimento. Assim como cabe ao Estado definir regras de segurança para brinquedos ou de saúde para medicamentos antes de um produto chegar ao público. O que está em jogo é se ainda existe, nalgum lugar, o direito à intimidade. Ou se essa possibilidade, que levou séculos a conquistar, voltou a ser um luxo quase impossível perante a voragem competitiva das Big Techs.

2026 07 27 

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