* Daniel Oliveira
Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.
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Dilara,
de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou.
O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o
número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter
homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao
TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma
violação". Kim,
de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores
sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que
a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no
TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se
"como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.
O que une estes dois casos não
são os homens, é o dispositivo usado. Um par de óculos inteligentes da
Meta, desenhado para não se distinguir de um acessório vulgar. Filmagens
ilegítimas e dissimuladas de mulheres sempre existiram, e muitas acabaram
expostas sem consentimento. Foi assim que se descobriu o caso da Gisele
Pélicot. A diferença é a escala e a impunidade. O que antes exigia esforço para
disfarçar tornou-se, com este objeto, a condição normal de qualquer encontro
casual na rua. E ainda só estamos no princípio. O futuro é cada ser
humano ser uma câmara.
Durante séculos, a privacidade
foi um luxo. Só quem tinha paredes, quartos próprios e distância social tinha
direito a ela. O povo vivia amontoado em espaços partilhados e sem
portas. Só muito recentemente conquistou o direito à privacidade, que é
condição para a individualidade. Por pouco tempo. Com a expansão
das câmaras de videovigilância no final do século passado,
justificada pela segurança, e com a internet e as redes sociais, já
neste século, a exposição tornou-se voluntária e quotidiana. Até ser o que é
natural.
Zygmunt Bauman chamou-lhe “vigilância
líquida”. Não é imposta por uma autoridade única e visível, mas difusa,
feita de mil pequenas cedências, em que cada pessoa entrega um pouco da sua
privacidade em troca de segurança, conforto ou pertença digital, sem que
ninguém a tenha obrigado a isso de forma explícita. Hoje, já nem se pode dizer
que seja um valor hegemónico das nossas sociedades.
As redes sociais deixaram de ser
espaços de comunicação para se tornarem motores de recolha de dados: cada
partilha, cada gosto, cada localização, tornou-se matéria-prima. No “capitalismo
de vigilância”, como lhe chamou Shoshana Zuboff, a experiência humana
privada é o recurso a extrair, processar e vender, para prever e influenciar
comportamentos futuros. Quanto mais as pessoas partilham, mais as empresas
ganham. A erosão da privacidade já não é um efeito colateral
indesejado, mas um modelo de negócio. Os óculos inteligentes são a sua
última versão.
PENSADO PARA ESPIAR
Estes óculos não são mais uma
câmara, são desenhados para não parecerem uma câmara. Têm, em teoria, uma
pequena luz que acende quando gravam, mas nenhuma das mulheres contactadas
pela CNN disse
alguma vez ter reparado nela durante os encontros em que foram filmadas. A
própria Meta reconhece que a luz pode ser tapada, com autocolantes bloqueadores
vendidos abertamente online. A discrição não é um defeito de fabrico, é a
própria proposta de valor do produto — óculos que ninguém suspeita de
serem uma câmara são, precisamente, o que torna o produto atrativopara quem
quer gravar às escondidas.
Em 2024, dois estudantes de
Harvard mostraram até onde esta lógica pode chegar. Combinando os
óculos da Meta com um serviço de reconhecimento facial e outras ferramentas
online, construíram um
sistema (I-XRAY) capaz de, através do rosto de um desconhecido, chegar
ao seu nome, número de telefone e morada, em segundos, sem que essa pessoa
alguma vez soubesse que estava a ser identificada. Testaram-no em pessoas
reais, na rua e no metro. Fizeram-no como alerta. Já não é preciso ser a Meta,
nem um governo, nem uma empresa de vigilância profissional. Bastam dois
estudantes com tempo livre.
Uma investigação dos
jornais suecos "Svenska Dagbladet" e "Göteborgs-Posten"
revelou que trabalhadores da Sama, uma subcontratada com sede em Nairobi,
reviam rotineiramente excertos de vídeo captados pelos óculos IA da
Meta como parte do treino da sua inteligência artificial. E que, nesse
processo, viram imagens de casas de banho, nudez, atividade sexual e outros
momentos íntimos. Um dos trabalhadores contou aos jornalistas ter visto, num
desses vídeos, um homem pousar os óculos na mesa de cabeceira e sair do quarto.
Os óculos continuaram a gravar, e a companheira entrou e despiu-se, sem se
imaginar filmada. O problema não é um mau uso ocasional, é um produto concebido
para esta inevitável exposição.
Estes riscos existem para todos,
mas não desabam sobre todos da mesma forma. Dilara e Kim encaixam na tese que
Katie Jagielnicka desenvolve num artigo traduzido e publicado em Portugal
pelo Shifter:
a Big Tech avança depressa e sem preocupações éticas e as mulheres e raparigas
são quase sempre as primeiras vítimas. Segundo um relatório da ONU,
menos de 40% dos países têm leis que protejam as mulheres contra assédio ou
perseguição digital. Os óculos inteligentes não inventam a assimetria, apenas
reforçam-na, porque a tecnologia acentua sempre a relação de poder que lhe é
prévia: o poder de vigiar quem já era mais vigiado.
REGULAÇÃO PRIMEIRO
Elle Hunt, do jornal “The
Guardian”, usou um par destes óculos durante um mês para os testar.
Descreve como o desconforto inicial depressa desaparece. Os óculos tornam-se
naturais e apanhou-se a pensar, em várias ocasiões, como "uma
pervertida" — quem me dera estar a gravar isto. Um especialista em IA
industrial ouvido para o mesmo artigo resume o problema: a tecnologia foi
lançada antes de o mundo e a regulação estarem preparados para ela. Mas
Zuckerberg já prevê que estes óculos se tornem, na próxima década, "a
principal forma de usarmos a tecnologia", substituindo o telemóvel. Avançar
depressa, partir coisas, resolver depois. Ou nunca.
A resposta institucional tem sido
reativa. O regulador britânico de proteção de dados escreveu a
exigir esclarecimentos à Meta depois da investigação sueca sobre o Quénia. Nos
EUA, uma ação coletiva acusa a Meta de publicidade enganosa, por vender os
óculos como "concebidos para a privacidade". E três senadores
democratas escreveram a Zuckerberg a exigir respostas sobre planos de
reconhecimento facial nos óculos, depois de um memorando interno da própria
empresa ter revelado a intenção de lançar essa funcionalidade "durante o
atual ambiente político dinâmico", para escapar ao escrutínio público.
Cabe ao Estado, não ao mercado, decidir, antes do lançamento e não depois do escândalo, o que pode ser captado, identificado e arquivado sem o consentimento. Assim como cabe ao Estado definir regras de segurança para brinquedos ou de saúde para medicamentos antes de um produto chegar ao público. O que está em jogo é se ainda existe, nalgum lugar, o direito à intimidade. Ou se essa possibilidade, que levou séculos a conquistar, voltou a ser um luxo quase impossível perante a voragem competitiva das Big Techs.
2026 07 27

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