* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
Uma das primeiras democracias
modernas, nascida sem a carnificina da Revolução Francesa. Uma revolução
anti-colonial que produziu uma constituição que influenciou o mundo — a
separação de poderes, a carta de direitos, o federalismo eram ideias novas.
Nasceram contra o imperialismo e mantiveram esse impulso como corrente
dominante até ao final do século XIX, quando começaram eles próprios a
construir um império.
Travaram uma guerra civil para
abolir a escravatura. Tiveram um papel decisivo na Segunda Guerra
Mundial. Construíram, no pós-guerra, uma classe média de
dimensão sem precedente histórico. Lideraram durante décadas a ciência, a
tecnologia e a exploração espacial. Produziram uma cultura que varreu o
mundo — jazz, cinema, literatura, rock — nascida paradoxalmente das
suas maiores contradições.
A liberdade de expressão americana
é mais robusta do que em qualquer outro país ocidental. A liberdade
religiosa e a separação formal entre Igreja e Estado foram conquistas
reais. A tradição de jornalismo investigativo é genuína —
Watergate, os Pentagon Papers, uma imprensa que derrubou presidentes e expôs
guerras. A sociedade civil americana tem uma capacidade de
auto-organização sem paralelo — quando Trump atacou os direitos de imigração,
foram os advogados, as universidades e os cidadãos que correram para os
tribunais, não os governos. A lei da nacionalidade é das mais
abrangentes do mundo: qualquer pessoa nascida em solo americano é cidadã.
Era isto. E não era pouco. Mas
isto é apenas parte da história e, pelo que vemos, cada vez mais parte do
passado.
A OUTRA PARTE DA HISTÓRIA
Um país que se apresentava como
modelo de democracia excluiu parte substancial da sua população do direito
de votoaté há 60 anos. A Lei dos Direitos Civis é de 1964. A Lei do Direito
de Voto é de 1965.
Cinco vezes na sua
história, o candidato com mais votos não ganhou a
presidência. Uma multidão armada invadiu o Capitólio para impedir a
certificação de um resultado eleitoral, centenas foram condenados pela justiça
e, no primeiro dia no poder, o presidente que os motivou indultou todos os
envolvidos. Quatro presidentes foram assassinados. Um em cada quatro sofreram
tentativas documentadas de assassínio.
Gastam mais do dobro da média da
OCDE per capita em saúde e estão, em mortalidade infantil,
estão entre os últimos lugares da OCDE, entre a Eslováquia e o Chile. Têm quase
o triplo de mortes por mil nascimentos da Noruega. Na mortalidade até aos 5
anos, os EUA estão entre a Albânia e o Chile. O Mississippi entre Tonga e São
Vicente e Granadinas. Nas crianças negras, entre a Tunísia e o Laos. Na
esperança média de vida, entre a Colômbia e a Polónia.
São o único país do G10 sem um
sistema de saúde universal e as despesas médicas e a perda de rendimentos
causada pela doença estão entre os princiais fatores de insovência pessoal. Não
existe licença de maternidade paga garantida a nível federal e, em 2023, apenas
27% dos trabalhadores do sector privado tinham acesso, através do empregador, a
licença remunerada pfamiliar. Os medicamentos custam cerca de três vezes mais
do que nos restantes países da OCDE.
Apesar do mito do sonho
americano, estão em 27.º lugar no índice global de mobilidade social publicado
em 2020, atrás da Lituânia, da Eslováquia e da Letónia.
Nos testes PISA de
2022, ficaram mais para o fim da tabela da OCDE em matemática. Têm 7% de alto
desempenho, contra 41% em Singapura.
Gastam perto de um bilião de
dólares por ano em defesa e segurança nacional, mais do que os seis países
seguintes combinados, e protagonizaram centenas de intervenções
militares desde a independência, não havendo um único ano sem uma nova
intervenção desde 1974. Mas as suas estradas estão em mau ou medíocre estado em
39% da extensão total. Um estudo publicado em 2025 na revista The
Lancet Global Health associa as sanções unilaterais dos EUA e UE a uma
média estimada de 564.258 mortes anuais entre 1971 e 2021, com um impacto
especialmente elevado nas crianças com menos de cinco anos.
Há 120 armas por 100
pessoas (2017), o dobro do Iémen, segundo classificado. O seu uso é a
principal causa de morte até aos 19 anos, sem que a legislação seja mudada. Têm
cerca de 150 mortes por dia por overdose de opioides.
Têm 4% da população mundial e
perto de um quinto da população prisional. Têm menos de um quarto
da população chinesa e mais presos do que a China. Dos 41 países classificados
como economias avançadas pelo FMI, apenas os EUA, o Japão e Singapura continuam
a aplicar a pena de morteativa. Mais de 90% dos arguídos federais acontecem sem
julgamento. Quem paga advogados, resiste; quem não paga, assina.
Em 2024, apenas cem bilionários
foram responsáveis por um quinto do financiamento de candidatos. Um
único contribuiu com o equivalente a três milhões de pequenos doadores. O
dinheiro sem origem declarada passou de cinco milhões em 2006 para dois mil
milhões em 2024. 92% dos americanos acreditam que o Congresso prioriza os
interesses dos grandes financiadores — e têm razão. A corrupção foi
institucionalizada e equiparada à liberdade de expressão pelo próprio
Supremo.
Nos primeiros 100 dias do segundo
mandato, Trump assinou 142 ordens executivas, enquanto o Congresso aprovava
menos de 20 leis. Foi possível usar essas ordens para começar por impor tarifas
globais sem aprovação do Congresso, desmantelar o organismo de proteção do
consumidor financeiro, despedir 17 inspectores-gerais federais numa única
noite, colocar o ICE nas ruas a deter pessoas sem mandado emitidos por juízes e
cortar financiamento a universidades e canais de televisão que não lhe
obedeçam. Porque o sistema de suposta dispersão de poderes permite esta
concentração de poder num único homem.
Segundo uma sondagem de 2005, 38%
dos americanos defendia substituir o ensino da evolução pelo criacionismo nas
escolas públicas. Em 2017, outra sondagem confirmava que o criacionismo estrito
continuava enraizado em 38% da população. Numa sondagem de 2008, mais de
metade acreditava que anjos os protegem de acidentes. Um quarto acredita que o
sol gira em torno da Terra. Mais de um quinto acredita que Jesus regressará à
Terra durante a sua vida. Uma sondagem diz-nos que mais de metade acredita que
vive no melhor país do mundo, outra que apenas 27% acham que há
países melhores.
O QUE TRUMP TORNOU IMPOSSÍVEL
IGNORAR
Trump não criou nada disto.
Encontrou as portas abertas e entrou.
Uma democracia não se mede apenas
pelas suas instituições formais. Mede-se pelas condições para ser exercida por
todos. Um país que em vários indicadores de saúde e bem-estar se compara com as
nações mais pobres dificilmente pode sustentar uma democracia saudável. A
polarização política tem sempre origem numa polarização social não
resolvida — e a diferença racial americana nunca foi resolvida. Nenhuma
democracia aguenta indefinidamente esse peso. E a ausência de estado social tem
sempre um preço. O preço é um estado policial. As duas coisas não cabem numa
democracia saudável.
Um país militarizado e
com permanentes intervenções militares noutros países desde 1776 normaliza a
força como instrumento e até como motor da sua economia. Isso não fica à porta
quando se trata da política interna.
As instituições americanas são
das mais antigas do mundo democrático. Talvez por isso sejam também das que
menos se atualizaram. As democracias que vieram a seguir aprenderam com os
erros americanos. Os EUA ficaram presos ao seu próprio texto
fundador. Nunca terem vivido uma invasão, nunca terem experimentado a
perda de liberdade, nunca terem sido obrigados, desde a guerra civil, a
defender o que têm — deu-lhes uma extraordinária autocomplacência que
venderam ao mundo, apesar de todos os seus gravíssimos problemas.
E depois há o dinheiro. O domínio
absoluto do dinheiro sobre a política, a justiça e o Estado não é uma distorção
do sistema americano. É o sistema americano. Quando o dinheiro compra a
política, subjuga-a. Quando compra a justiça, destrói-a. Quando compra o
Estado, privatiza-o. Não é por acaso que o maior símbolo de tudo o que
corre mal nos EUA é um milionário feito Presidente. Nada disto foi criado por
Trump. Mas foi Trump que tornou impossível continuar a não ver.
Nota importante: Os dados citados sem fonte e ano são de fontes oficiais e correspondem a anos diferentes, entre 2021 e 2024, podendo, em alguns casos, haver discrepâncias com os mais atuais.
2026 07 23
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NOTA VN - O articulista 'esqueceu-se' de referir que desde a colónia britânica que originou os EUA a sua prosperidade baseou-se no extermínio dos ameríndios e no trabalho escrevo, que a Constituião de 1776 permitiram continuasse e persistisse. E no esbulho e roubo de territórios mexicanos. Um título mais adequado teria sido «Os Estados Unidos têm sido mesmo um modelo de democracia?»
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