quinta-feira, 23 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?

* Daniel Oliveira

"A shining city upon a hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos sobre o maior mito político do século XX

"City upon a hill." A expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar. Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para isso.


Uma das primeiras democracias modernas, nascida sem a carnificina da Revolução Francesa. Uma revolução anti-colonial que produziu uma constituição que influenciou o mundo — a separação de poderes, a carta de direitos, o federalismo eram ideias novas. Nasceram contra o imperialismo e mantiveram esse impulso como corrente dominante até ao final do século XIX, quando começaram eles próprios a construir um império.

Travaram uma guerra civil para abolir a escravatura. Tiveram um papel decisivo na Segunda Guerra Mundial. Construíram, no pós-guerra, uma classe média de dimensão sem precedente histórico. Lideraram durante décadas a ciência, a tecnologia e a exploração espacial. Produziram uma cultura que varreu o mundo — jazz, cinema, literatura, rock — nascida paradoxalmente das suas maiores contradições.

liberdade de expressão americana é mais robusta do que em qualquer outro país ocidental. A liberdade religiosa e a separação formal entre Igreja e Estado foram conquistas reais. A tradição de jornalismo investigativo é genuína — Watergate, os Pentagon Papers, uma imprensa que derrubou presidentes e expôs guerras. A sociedade civil americana tem uma capacidade de auto-organização sem paralelo — quando Trump atacou os direitos de imigração, foram os advogados, as universidades e os cidadãos que correram para os tribunais, não os governos. A lei da nacionalidade é das mais abrangentes do mundo: qualquer pessoa nascida em solo americano é cidadã.

Era isto. E não era pouco. Mas isto é apenas parte da história e, pelo que vemos, cada vez mais parte do passado.

A OUTRA PARTE DA HISTÓRIA

Um país que se apresentava como modelo de democracia excluiu parte substancial da sua população do direito de votoaté há 60 anos. A Lei dos Direitos Civis é de 1964. A Lei do Direito de Voto é de 1965.

Cinco vezes na sua história, o candidato com mais votos não ganhou a presidência. Uma multidão armada invadiu o Capitólio para impedir a certificação de um resultado eleitoral, centenas foram condenados pela justiça e, no primeiro dia no poder, o presidente que os motivou indultou todos os envolvidos. Quatro presidentes foram assassinados. Um em cada quatro sofreram tentativas documentadas de assassínio.

Gastam mais do dobro da média da OCDE per capita em saúde e estão, em mortalidade infantil, estão entre os últimos lugares da OCDE, entre a Eslováquia e o Chile. Têm quase o triplo de mortes por mil nascimentos da Noruega. Na mortalidade até aos 5 anos, os EUA estão entre a Albânia e o Chile. O Mississippi entre Tonga e São Vicente e Granadinas. Nas crianças negras, entre a Tunísia e o Laos. Na esperança média de vida, entre a Colômbia e a Polónia.

São o único país do G10 sem um sistema de saúde universal e as despesas médicas e a perda de rendimentos causada pela doença estão entre os princiais fatores de insovência pessoal. Não existe licença de maternidade paga garantida a nível federal e, em 2023, apenas 27% dos trabalhadores do sector privado tinham acesso, através do empregador, a licença remunerada pfamiliar. Os medicamentos custam cerca de três vezes mais do que nos restantes países da OCDE.

Apesar do mito do sonho americano, estão em 27.º lugar no índice global de mobilidade social publicado em 2020, atrás da Lituânia, da Eslováquia e da Letónia.

Nos testes PISA de 2022, ficaram mais para o fim da tabela da OCDE em matemática. Têm 7% de alto desempenho, contra 41% em Singapura.

Gastam perto de um bilião de dólares por ano em defesa e segurança nacional, mais do que os seis países seguintes combinados, e protagonizaram centenas de intervenções militares desde a independência, não havendo um único ano sem uma nova intervenção desde 1974. Mas as suas estradas estão em mau ou medíocre estado em 39% da extensão total. Um estudo publicado em 2025 na revista The Lancet Global Health associa as sanções unilaterais dos EUA e UE a uma média estimada de 564.258 mortes anuais entre 1971 e 2021, com um impacto especialmente elevado nas crianças com menos de cinco anos.

Há 120 armas por 100 pessoas (2017), o dobro do Iémen, segundo classificado. O seu uso é a principal causa de morte até aos 19 anos, sem que a legislação seja mudada. Têm cerca de 150 mortes por dia por overdose de opioides.

Têm 4% da população mundial e perto de um quinto da população prisional. Têm menos de um quarto da população chinesa e mais presos do que a China. Dos 41 países classificados como economias avançadas pelo FMI, apenas os EUA, o Japão e Singapura continuam a aplicar a pena de morteativa. Mais de 90% dos arguídos federais acontecem sem julgamento. Quem paga advogados, resiste; quem não paga, assina.

Em 2024, apenas cem bilionários foram responsáveis por um quinto do financiamento de candidatos. Um único contribuiu com o equivalente a três milhões de pequenos doadores. O dinheiro sem origem declarada passou de cinco milhões em 2006 para dois mil milhões em 2024. 92% dos americanos acreditam que o Congresso prioriza os interesses dos grandes financiadores — e têm razão. A corrupção foi institucionalizada e equiparada à liberdade de expressão pelo próprio Supremo.

Nos primeiros 100 dias do segundo mandato, Trump assinou 142 ordens executivas, enquanto o Congresso aprovava menos de 20 leis. Foi possível usar essas ordens para começar por impor tarifas globais sem aprovação do Congresso, desmantelar o organismo de proteção do consumidor financeiro, despedir 17 inspectores-gerais federais numa única noite, colocar o ICE nas ruas a deter pessoas sem mandado emitidos por juízes e cortar financiamento a universidades e canais de televisão que não lhe obedeçam. Porque o sistema de suposta dispersão de poderes permite esta concentração de poder num único homem.

Segundo uma sondagem de 2005, 38% dos americanos defendia substituir o ensino da evolução pelo criacionismo nas escolas públicas. Em 2017, outra sondagem confirmava que o criacionismo estrito continuava enraizado em 38% da população. Numa sondagem de 2008, mais de metade acreditava que anjos os protegem de acidentes. Um quarto acredita que o sol gira em torno da Terra. Mais de um quinto acredita que Jesus regressará à Terra durante a sua vida. Uma sondagem diz-nos que mais de metade acredita que vive no melhor país do mundo, outra que apenas 27% acham que há países melhores.

O QUE TRUMP TORNOU IMPOSSÍVEL IGNORAR

Trump não criou nada disto. Encontrou as portas abertas e entrou.

Uma democracia não se mede apenas pelas suas instituições formais. Mede-se pelas condições para ser exercida por todos. Um país que em vários indicadores de saúde e bem-estar se compara com as nações mais pobres dificilmente pode sustentar uma democracia saudável. A polarização política tem sempre origem numa polarização social não resolvida — e a diferença racial americana nunca foi resolvida. Nenhuma democracia aguenta indefinidamente esse peso. E a ausência de estado social tem sempre um preço. O preço é um estado policial. As duas coisas não cabem numa democracia saudável.

Um país militarizado e com permanentes intervenções militares noutros países desde 1776 normaliza a força como instrumento e até como motor da sua economia. Isso não fica à porta quando se trata da política interna.

As instituições americanas são das mais antigas do mundo democrático. Talvez por isso sejam também das que menos se atualizaram. As democracias que vieram a seguir aprenderam com os erros americanos. Os EUA ficaram presos ao seu próprio texto fundador. Nunca terem vivido uma invasão, nunca terem experimentado a perda de liberdade, nunca terem sido obrigados, desde a guerra civil, a defender o que têm — deu-lhes uma extraordinária autocomplacência que venderam ao mundo, apesar de todos os seus gravíssimos problemas.

E depois há o dinheiro. O domínio absoluto do dinheiro sobre a política, a justiça e o Estado não é uma distorção do sistema americano. É o sistema americano. Quando o dinheiro compra a política, subjuga-a. Quando compra a justiça, destrói-a. Quando compra o Estado, privatiza-o. Não é por acaso que o maior símbolo de tudo o que corre mal nos EUA é um milionário feito Presidente. Nada disto foi criado por Trump. Mas foi Trump que tornou impossível continuar a não ver.

Nota importante: Os dados citados sem fonte e ano são de fontes oficiais e correspondem a anos diferentes, entre 2021 e 2024, podendo, em alguns casos, haver discrepâncias com os mais atuais.

2026 07 23

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

NOTA VN - O articulista 'esqueceu-se' de referir que desde a colónia britânica que originou os EUA a sua prosperidade baseou-se no extermínio dos ameríndios e no trabalho escrevo, que a Constituião de 1776 permitiram continuasse e persistisse. E no esbulho e roubo de territórios mexicanos. Um título mais adequado teria sido «Os Estados Unidos têm sido mesmo um modelo de democracia?»

Sem comentários: