sexta-feira, 17 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano

* Miguel Sousa Tavares

A derrota e humilhação da selecção, erigida em exemplo do melhor que a pátria portuguesa tem, é toda uma lição sobre os nossos males profundos

16 julho 2026

Esta saga dos “heróis do mar”, feita parte fundamental da mensagem do nosso infeliz hino nacional, há-de perseguir-nos até à eternidade ou até ao dia em que nos deixarmos render à verdade histórica: nós não somos descendentes desses portugueses que partiram literalmente à aventura para demandar Índias, embarcados em banheiras de pinho vagamente flutuantes, ou dos que mais tarde embarcaram em baleeiros americanos para lhes ensinar como se caçava a “Moby Dick” nas águas do Pacífico, ou até mesmo daqueles que, ainda mais tarde, mas sempre em navios feitos de madeira, andaram a pescar bacalhau nas águas geladas de Newfoundland. Não, nós não somos descendentes desses que partiram: somos descendentes dos que ficaram. Pelo que já é tempo de acabarmos com essa história dos heróis do mar, que há muito deixámos de ser, e olharmos para nós próprios tal como somos hoje, com os nossos defeitos e as nossas qualidades, os nossos feitos e os nossos fracassos.


Esta nossa incansável demanda por heróis contemporâneos que possam ser comparados aos heróis do mar de antanho, leva-nos a confundir heróis genuínos com heróis fabricados nas redes sociais ou pelos influencers da banalidade. Corremos a transformar em heróis quem nasceu com jeito para dar chutos numa bola e é pago por isso com milhões, mas ignoramos o médico voluntário que a troco de nada faz missões para a AMI ou os Médicos Sem Fronteiras. E tudo isto, esta lusitana ilusão, é alimentada pela imprensa, pelos políticos, pelos governantes, todos unidos nesse esforço de fazer confundir a selecção nacional de futebol com a própria nação: mas no seu melhor, visto que esta é, garantem-nos, a melhor geração de futebolistas de sempre. De um passo, passamos logo para um ‘patrioteirismo’ saloio, das bandeirinhas nas varandas e nos carros, as criancinhas equipadas à selecção, os anúncios televisivos hiperbólicos com que os “heróis” aproveitam para facturar mais uns milhares, os apelos “tragam a taça!” ou “vamos fazer o que nunca foi feito” e, claro, o culto pornográfico de Cristiano Ronaldo — definido por Luís Montenegro como “um símbolo da portugalidade no mundo” e o homem que, tendo já erigido um museu a si próprio e tendo lugar cativo em todas as equipas de Portugal e em todo o tempo dos jogos que lhe interessam, seja quem for o seleccionador, nem assim se mostra saciado. Espanha, França, Inglaterra, Argentina, todas elas foram além de Portugal no Mundial de 2026, mas até às meias-finais nunca vi Pedro Sánchez, Emmanuel Macron, Keir Starmer ou Javier Milei nas bancadas dos estádios para demonstrar que os governantes estavam com o povo e os seus heróis — ao contrário da navette a que Luís Montenegro se submeteu durante 15 dias para ir assistir a três dos cinco jogos de Portugal, enquanto o país ardia, os estudantes desesperavam por classificações dos exames e Portugal, bem enturmado com os seus pares, prometia a Donald Trump gastar 5% do PIB, não para combater as alterações climáticas ou financiar a apregoada transição digital, mas para comprar armas aos americanos para enfrentar a iminente invasão russa da Europa.


A ‘selenação’: um fado lusitano
Ilustração Hugo Pinto


Eu cresci a adorar futebol, embora cada vez menos nos tempos que correm, em que o abuso da tecnologia na arbitragem e o abuso do calculismo dos treinadores rouba paixão, ritmo e beleza ao jogo. Mas também cresci a odiar a instrumentalização da fé e das paixões humanas, as multidões convocadas para a alienação colectiva, prontas a esquecerem tudo o que é importante na vida do seu país e nas suas, capazes de gastar milhares de euros num simples bilhete para um jogo, mesmo queixando-se todos os dias do custo de vida e mesmo sabendo que estão a contribuir para engordar a clique parasitária de Gianni Infantino e de toda uma trupe que vive à roda do mundo do futebol e das paixões que desperta e eles exploram fazendo fortuna. Em cada esquina do planeta há hoje um Mark Rutte ou um Gianni Infantino que tiram proveito máximo do medo ou da paixão que instigam nas massas. Podemos dizer que eles são o escalão inferior do poder, mas os danos que causam não ficam atrás dos poderosos do escalão superior. Acima, estão Musk, Bezos, Zuckerberg, Sam Altman, Dario Amodei, que controlam o espaço, as comunicações, as redes sociais, a inteligência artificial; em baixo estão Infantino ou Rutte, que fornecem o circo e a intimidação, para que as massas esqueçam ou não se incomodem a pensar que caminhamos para um estado civilizacional em que seremos um rebanho de escravos a mando de uns poucos que tudo têm e tudo podem.

A mim, desgosta-me que o futebol se tenha transformado nisto, numa negociata suja, ao ponto de se disputarem Mundiais, por voto comprado, no Catar ou na Arábia Saudita, e que, em prejuízo do jogo, cada vez haja mais países a disputar a fase final de um Mundial, pois que quantos mais houver mais dinheiro e mais votos recebe o presidente da FIFA. Mas aqui, como em quase todo o lado, fazemos de conta de que nada sabemos ou nada disto interessa: a pátria chama e lá vamos nós. A coisa, a demência, chega a tal ponto que até as jogadoras da selecção feminina — que, até ver, não conseguiu mais do que ser sistematicamente vencida e humilhada — são tratadas por “navegadoras”, num eloquente exemplo de como tanto fanatismo e alienação nos leva a ridicularizar a nossa própria História. E, num país onde um ministro com provas dadas de serviço público é trucidado por ter feito umas pífias obras numa ruína perdida do deserto alentejano, o mesmo povo é convidado a embasbacar-se com o avião privado de Cristiano Ronaldo, as férias em iate privado de CR7, o seu último carro de €700 mil e tudo o mais que estes mimados “heróis do mar” nos dão em troca para contemplarmos embevecidos. É bem um sinal dos tempos e dos valores pelos quais as sociedades se regem hoje.

Mas, desgraçadamente, este Mundial não nos correu bem. Melhor dizendo, foi mais do que um fiasco, foi um embuste. A “melhor geração de sempre” jogou a medo, sem atitude, sem garra, sem a coragem exigível a pretensos heróis do mar: vendo jogar Cabo Verde, jogadores que ganham um décimo dos nossos e a quem ensinámos a jogar futebol, a prestação portuguesa transformou-se numa vergonha. Uma vergonha que passou pela falta de valentia do seleccionador, pelo estatuto intocável de Ronaldo ou pela displicência geral, culminando no comunicado da Federação, após a derrocada, e cujo português é todo um tratado de saloiice e ignorância literária. Cito: “Quando nos propusemos a sermos candidatos a vencer o Mundial...” Pois, propuseram-se! Acharam que bastava proporem-se a ser e já o eram. A sua derrota, a humilhação que encaixaram, é, porém, toda uma lição sobre os nossos males profundos. Julgamos que nos basta anunciar e já está feito, independentemente do esforço e da preparação que façamos para atingir as coisas; subestimamos os outros porque acreditamos que somos melhores por natureza, nós, os descendentes daqueles de então; confundimos o trabalho de equipa com a veneração do chefe e do seu estatuto inquestionável; e, à falta de argumentos de mérito, apelamos aos patriotas para que nos compreendam e apoiem. Daqui a quatro anos há mais.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

https://expresso.pt/opiniao/2026-07-16-a-selenacao-um-fado-lusitano

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