quarta-feira, 22 de julho de 2026

(34) - Giovan Matteo Garipa; língua e cultura sardas

 

Este mural em Orgosolo é uma exaltação da língua, cultura e história literária sarda, prestando homenagem a uma das figuras intelectuais mais importantes da história da vila: o padre e escritor Giovan Matteo Garipa (século XVII).

O texto nas paredes é uma citação direta retirada do prólogo da obra Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627), escrita por Giovan Matteo Garipa e considerada um marco da literatura em prosa sarda:


  • À esquerda (em cima):

    "Totas sas nationes iscrien, e istampan libros in sas proprias limbas naturales insoro..." ("Todas as nações escrevem e imprimem livros nas suas próprias línguas naturais...")

  • À direita (em cima e assinado "J. M. GARIPA"):

    "Et pusti sa limba latina Sarda est clara e intelligibile tantu... e plus qui non quale si querjat dessas vulgares..." ("E visto que a língua latina sarda é clara e inteligível tanto ou mais do que qualquer uma das línguas vulgares...")

O que representa o mural?

1. A Defesa do Sardo como Língua de Cultura

Em pleno século XVII, num período em que o castelhano e o italiano dominavam os escritos oficiais, Giovan Matteo Garipa (natural de Orgosolo) defendeu com unhas e dentes a dignidade da língua sarda. Este mural celebra essa visão pioneira: a de que o povo sardo tinha o direito e o dever de ler, escrever e publicar livros na sua própria língua nativa.

2. A Proteção e a Passagem de Testemunho

  • A Figura do Padre: À esquerda, o sacerdote (o próprio Garipa) acolhe as famílias e abençoa os mais jovens.

  • O Povo e as Crianças: Rodeado de mulheres com trajes e lenços tradicionais e muitas crianças de colo ou a aprender a andar, o grupo simboliza o nascimento, a infância e a transmissão de conhecimentos.

  • A Metáfora: A cena representa a proteção e a educação das novas gerações através da sua própria língua materna, mostrando que a identidade de um povo se preserva alimentando as suas raízes desde a infância.

3. A Igreja do Salvador

No fundo, no canto esquerdo, vê-se a Igreja de San Salvatore (São Salvador) de Orgosolo, enquadrando historicamente a cena e ligando o trabalho pastoral e literário de Garipa ao património arquitetónico do próprio coração da vila. 


O texto do Prólogo de Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (publicado em Roma em 1627 por Giovan Matteo Garipa) é um documento histórico fundamental. O excerto mais famoso e citado deste prólogo — que condensa o seu manifesto em defesa da língua sarda — diz o seguinte no sardo quinhentista/seiscentista original:

Excerptos Principais do Prólogo (Texto Original em Sardo)

«...est sufficiente motiuu pro iscrier in Sardu, vider, qui totas sas nationes iscrien, & istampan libros in sas proprias limbas naturales in soro, preciandesi de tenner historias, & materias morales iscritas in limba vulgare, pro qui totus si potan de cuddas aprofetare.»

«Et pusti sa limba latina Sarda est clara e intelligibile tantu, e plus qui non quale si querjat dessas vulgares...»

«Nexuna de quantas limbas si platican est tantu parente assa latina formale quantu sa Sarda.»

Tradução para Português

«...é motivo suficiente para escrever em Sardo o ver que todas as nações escrevem e imprimem livros nas suas próprias línguas naturais, orgulhando-se de ter histórias e matérias morais escritas em língua vulgar, para que todos delas se possam aproveitar.»

«E visto que a língua latina sarda é clara e inteligível tanto ou mais do que qualquer outra das línguas vulgares...»

«Nenhuma de quantas línguas se falam é tão parente do latim formal quanto a sarda.»

O Contexto do Prólogo

Neste prefácio, o sacerdote orgolês Giovan Matteo Garipa justifica a sua decisão de traduzir do italiano para o sardo as vidas das santas virgens e mártires. Ele argumenta que:

  1. Acesso à cultura: O povo sardo tem o direito de aceder à literatura moral e religiosa na sua própria língua nativa (e não apenas os eruditos que sabiam latim, espanhol ou italiano).

  2. Dignidade linguística: O sardo não é um "dialeto inferior", mas sim uma língua de pleno direito e a mais próxima do latim clássico.

O livro Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627) é, na sua essência, um hagiológio — ou seja, uma compilação de vidas e martírios de santas e mártires da Igreja Católica.

Trata-se de uma tradução e adaptação feita por Giovan Matteo Garipa a partir de obras devocionais italianas da época, mas adaptada especificamente para o público sardo.

Resumo do Conteúdo do Livro

1. As Histórias das Santas e Mártires (O Corpo da Obra)

O núcleo do livro reúne relatos detalhados sobre as vidas, milagres, julgamentos e martírios de diversas santas virgens da tradição cristã (como Santa Águeda, Santa Lúcia, Santa Inês, Santa Cecília, entre outras).

  • Fé e Resistência: As narrativas focam-se na firmeza inabalável das jovens perante a perseguição romana, a recusa em renunciar à sua fé e os tormentos que sofreram.

  • Modelo Moral: A intenção do livro era oferecer ao povo cristão da Sardenha exemplos práticos de virtude, piedade, coragem e devoção moral.

2. O Prólogo e a Defesa Linguística (O Valor Histórico)

Embora o conteúdo religioso fosse o objetivo primário no século XVII, o aspecto que tornou a obra verdadeiramente célebre na história cultural foi o seu prefácio.

Nele, Garipa fundamenta por que razão decidiu publicar uma obra em prosa na sua língua materna:

  • Democratização da Leitura: Permitir que as pessoas comuns (que não sabiam latim nem italiano) pudessem ler e compreender textos morais e religiosos.

  • Valorização da Língua Sarda: Reivindicar que o sardo era uma língua nobre, direta herdeira do latim formal e plenamente capaz de servir para a alta literatura e religião.

VER 

Em defesa da língua sarda

Sem comentários: