terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rua do Ouro - Mário Cesarinny

Assunto: A TEIA DE ARANHA
Data: 26/Jan 15:09
MUITAS VEZES, O HOMEM QUE QUER VENCER PENSA QUE VAI NA DIRECÇÃO ONDE ESTÁ A VITÓRIA,SÓ PORQUE ESSE É O CAMINHO MAIS CLARO,E, AFINAL, O QUE O ESPERA NO FIM É A DERROTA E A MORTE. A LUZ PODE ENGANAR.SURGE, A QUEM PARA ELA OLHA, COMO UMA FINA TEIA DE ARANHA - BELA, OFUSCANTE PELAS GOTAS DE ORVALHO QUE A ENFEITAM E COMPLEXA NAS SUAS VOLTAS E CONTRAVOLTAS, MAS OFUSCA, ENLEIA E MATA QUEM A ELA SE DIRIGIU LEVADO SÓ POR ESSAS RAZÕES ATRAENTES, MAS ILUSÓRIAS. NEM SEMPRE O MAIS BRILHANTE ENCERRA EM SI A GLÓRIA QUE PROMETE...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinh Pereira (hi5)
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RUA DO OURO
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Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.
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Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)
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Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.
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Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batengo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.
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Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.
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É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.
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Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.
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Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.
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Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?
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Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos
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Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.
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Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sóciuo? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!
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Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.
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Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.
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O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard
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MÁRIO CESARINY
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