segunda-feira, 1 de junho de 2026

Carlos Coutinho - [Crianças e pobreza em Portugal]

* Carlos Coutinho
 
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       São largas as dezenas de pessoas atreitas ao ato de virar a casaca – humaníssimos casos de cidadãos que ou conheço ou conheci – já que é determinante a terrível opção de, perante o futuro implacável, apodrecerem ou morrerem se perderam o emprego. 

   Olho para uma imagem inapagável na nossa consciência e no rasto da Humanidade, a do bombardeamento de Guernica, e confirmo que tudo foi deformado, não sei se para sempre. 

   Colho o grito desdentado e humaníssimo do cavalo, o olho deslocado do touro manso com uma lâmina preta a brotar-lhe da sobrancelha, o silenciado brado das crianças e dos adultos, as gradações do negro e a fragmentação da luz, assim como percebo o enigma que Picasso incrustou em cada traço, em cada dedo, em cada perna, em cada fisionomia sugerida, em cada fé, em cada religião, já que uma abarca todas as trevas da ancestralidade e a outra corporiza os complexos rios metafísicos que transformam superstições em religiões.

   Então, não há absurdos que não sejam lógicos, dislates que não sejam teoremas, nem notícias tão dolentes como, por exemplo, a de uma em cada 20 crianças portuguesas já haver sentido fome e ficado sem comer, só porque acabou o dinheiro lá em casa.

   Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da responsabilidade da economista Susana Peralta, académica da Nova School of Business & Economics (Nova SBE), que cita o Instituto Nacional de Estatística (INE), uma em cada 20 crianças, em 2024, não comeu, por falta de recursos financeiros do seu agregado familiar. 

   Em percentagem, esta fatia representa quase 5% do grupo das mais de 301 000 crianças pobres que existem em Portugal, o que remete o meu pensamento para Guernica, dado que, mesmo que fosse apenas 1% eram mais de 3 000 crianças a passar fome.

   Trocando por miúdos este tipo de privação, que tem tradução prática e quotidiana, o INE considera que metade das crianças pobres (49,7%) não tinha meios para participar, por exemplo, numa atividade extracurricular ou de lazer, de forma regular, o que traduz outra forma de pobreza. E isto, quando vemos o que se passa na Saúde, na Educação, na Habitação e nas necessidades básicas dos portugueses, com o País a participar em guerras e o Governo a investir no armamento.

2026 Junho 01

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