O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
29 de Maio de
2026
“Algumas das maiores empresas da história da
humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção.
Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano
A Suécia
assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase
tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta,
diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos
seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao
básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e
osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.
A Suécia tinha
criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado.
Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o
Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para
menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de
aulas.
Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em
força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram
os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas
conclusões.
Randi
Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores
dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em
inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10
points to boost student learning and success in the AI era, que “as
crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das
principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.
“O ritmo desta
revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a
ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para
defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA).
“A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o
conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e
aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”
Higienização
O tema está
aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende
ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas,
propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação,
enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública
sobre os conflitos.
Criado pelo
Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de
revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem
na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos
critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos
ângulos para olhar e das perspectivas de análise.
“Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa
não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de
decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em
tempos de conflito”, lê-se no site.
“À força de fazer desfilar as notificações, os
alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir
absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados,
acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de
fundo cruelmente banal.”
O uso cada vez maior de meios digitais para
travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as
mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando
aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de
impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.
E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann
d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo
que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se
colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”
Atenção
A Meta, a
empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o
Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em
inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede
social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase
metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.
“Outros
sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o
investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o
ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa
razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma
automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações
foram concebidos para fazer.”
Na sua
intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada
na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do
escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O
verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos
receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar,
mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há
muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão
a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.
Dar valor à nossa atenção é importante porque
se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a
informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os
ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a
escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas
de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.
Como disse
Foster Wallace naquele dia, no Kenyon
College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que
mais custa ver e discutir”.
Empatia
Uma das piores
expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só
negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel
social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento,
pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.
Nestes tempos
política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica
e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar
decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a
carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à
ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica
especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança,
aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo
pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”
A empatia já
não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que
se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer.
Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações
profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os
terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.
No entanto,
como refere Wedellsborg no site do International Institute for
Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar
uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa,
mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a
confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo
factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.
Para a autora
de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a
inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria
tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se
se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.
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