* Marta Pinho Alves
O filme realça a decrepitude e a deformidade do fascismo português
Falamos neste texto do mais recente filme de João Botelho, intitulado O Velho Salazar. O cineasta tem mostrado nos últimos anos uma abundante produção cinematográfica. Quase em simultâneo a esta obra estreou outra ainda não suficientemente conhecida e difundida, As Meninas Exemplares, uma adaptação muito livre do livro homónimo de Condessa de Ségur, com uma imagética fortemente inspirada no trabalho da artista plástica Paula Rego. No momento actual, entre as estreias dos dois antes mencionados, filmou já outro filme (em fase de pós-produção), O Rei Lear, de William Shakespeare, baseado na tradução para português de Álvaro Cunhal, e encontra-se a preparar o documentário Dancing People Are Never Wrong.
Neste afã criador, surge então um filme que se dedica, mais do que à figura do ditador português, a pensar o que foi o Estado fascista que vigorou durante 48 anos e qual o seu legado. Longe de poder ser entendido como um biopic, atitude cinemática que o realizador declara desprezar, O Velho Salazar é um exercício de caricatura e desconstrução de um conjunto de narrativas que não só perduram e parecem recrudescer no momento presente face a discursos nostálgicos e de deturpação do real. Botelho esclarece que há uma preparação documental para as informações que nos apresenta no filme, todas estas factuais e demonstradas, mas que não obedece à mesma preocupação quando intervêm as falas de Salazar. Essa personagem, que é apenas vista através de algumas fotografias conhecidas, não é corporizada em nenhum actor, expressa-se oralmente através de monólogos criados por ferramentas de inteligência artificial, pretendendo assim invalidar a sua expressão, não fazer eco da mesma, mas antes evidenciar os paradoxos entre o que afirmava e a sua acção, assim como o seu alheamento face à realidade e a sua natureza caduca e amoral (apesar da constante evocação de uma moralidade vigente, entendida como orientadora da conduta dominante).
Não obstante o nome do ditador que compõe o título e as personagens que surgem no filme lhe estarem associadas quer na esfera íntima (a governanta?, a jovem amante francesa, o calista, o enfermeiro), quer na esfera política (a governanta?, o cardeal, o ministro da propaganda), não é sobre a pessoa que se quer falar, mas sobre um regime personificado naquela figura. A forma como se adjectiva o suposto protagonista – velho –
assinala fundamentalmente a decrepitude e a deformidade de um sistema político marcado pelo mal, pela profunda violência e retirada de dignidade ao povo trabalhador, e pelo aprofundamento das desigualdades entre classes, no que diz respeito aos direitos mais elementares e à liberdade, impostos não apenas aos portugueses, mas também a todas as nações colonizadas, em nome de uma moral pedante e impiedosa e de uma autoridade penalizante e paralisadora. De “Novo”, o Estado português de então tinha apenas a sua designação, com propósitos propagandísticos. “Velho”, como aqui se designa o ditador, é a melhor forma de compreender este regime e de o ressignificar.
Tratar um tema como este com recurso ao humor, ao exagero, à amplificação e à caricatura, é talvez estratégia que possa deixar alguns desconfortáveis. Contudo, nenhuma das personagens tenebrosas que desfilam no ecrã são humanizadas ou reabilitadas, antes são expostas ao ridículo, observadas à lupa nos seus desvios, excentricidades e alienação.
A sátira tem sido um bom instrumento de análise de situações que deixaram marcas profundas nas suas vítimas e com as quais é difícil lidar. Durante o breve período do Cinema de Abril de que falámos em texto anterior, a Célula de Cinema do Partido Comunista Português produziu, em 1977, uma curta-metragem assinalável intitulada As Desventuras do Drácula Von Barreto nas Terras da Reforma Agrária, que tratava de forma jocosa, embora com um claro posicionamento político, o tema referido no título.
João Botelho cita o ditador no início do filme quando este afirma «Hão-de dizer muito mal de mim». O cineasta confirma a intenção do seu filme, afirmando «Assim será».
https://www.avante.pt/pt/2737/argumentos/183651/%E2%80%9CEstado-Velho%E2%80%9D.htm

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