segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

João Marques de Almeida - Há sempre uma direita pronta para ajudar o PS

* João Marques de Almeida

Este manifesto dos “não-socialistas" é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele.

26 jan. 2026

Entre 2005 e 2011, Sócrates foi primeiro-ministro de dois governos socialistas, um deles com maioria absoluta, o outro não chegou ao fim do mandato. Não me interessa falar da falência de Portugal com Sócrates em São Bento. Também não me interessa falar das acusações de corrupção contra o antigo PM socialista. Interessa-me falar dos atropelos de Sócrates contra a democracia portuguesa.

Nenhum outro PM em Portugal, desde 1976, ameaçou tanto a democracia. Sócrates controlou a justiça, conseguindo ter na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça pessoas da sua confiança e que sempre o ajudaram nos seus casos com a justiça (e mais tarde sentaram-se, sem qualquer vergonha, na primeira fila a assistir ao lançamento do livro de Sócrates). Sócrates usou uma empresa do Estado para tentar comprar um grupo de comunicação social. Sócrates nunca soube lidar com a liberdade de imprensa, ameaçando e procurando condicionar jornais, televisões e rádios. Não faltarão jornalistas para o confirmar. Sócrates (juntamente com Ricardo Salgado) controlou o sistema financeiro português, colocando pessoas da sua confiança a mandar na CGD e no BCP. Nunca nenhum PM foi tão longe na tentativa de criar um “capitalismo de Estado”, em aliança com Salgado.

Ou seja, tivemos dois governos do PS que ameaçaram o estado de direito e a separação de poderes, a liberdade de imprensa, a independência de bancos e que usaram empresas públicas para fins políticos. Onde estavam as pessoas de direita que assinaram agora um manifesto contra André Ventura quando Sócrates se comportou como um tirano? Nessa altura, não tiverem sobressaltos democráticos? Nunca escreveram manifestos? Ficam mais preocupados com as palavras de Ventura do que com as decisões e as ações de Sócrates? No mínimo, é muito estranho considerar que palavras de um líder da oposição são mais graves do que as decisões anti-democráticas de um PM.

Só mais um ponto. António José Seguro nunca se distanciou de Sócrates enquanto ele foi PM. Foi sempre deputado e fez campanha a apoiar Sócrates em 2011. O distanciamento de Sócrates depois de ele ser acusado é muito fácil.

Em 2015, sem mandato dos eleitores (é o que o PS diz hoje contra a lei laboral do governo), António Costa fez uma coligação parlamentar com partidos, o PCP e o Bloco, que apoiaram sempre ditaduras. A última foi a da Venezuela, cheia de assassinatos e de presos políticos. Aqui vou citar o manifesto dos “não-socialistas por Seguro”: a defesa dos “valores democráticos e humanistas” e dos “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Todos sabemos que os aliados do governo socialista de António Costa defendem “valores democráticos” e “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Onde esteve o sobressalto democrático dos ilustres signatários em 2015? Muitos deles trabalharam com Passos Coelho e nem isso os levou a escrever manifestos na altura.

Conheço muitos dos signatários do manifesto dos “não-socialistas” e sou amigo de alguns, mas cometeram um enorme erro político (e direi isso a todos quando falar com eles). Antes dos erros, se os signatários não me levarem a mal, este manifesto não terá impacto nas eleições de 8 de Fevereiro. Não vai trazer mais um voto a Seguro na segunda volta, os portugueses são livres, e pensam pelas suas cabeças. Se algum impacto tiver, será aumentar um pouco os votos de Ventura.

O manifesto comete dois erros políticos graves. Em primeiro lugar, apelando ao voto em Seguro estão a ajudar a reconstruir a legitimidade política do PS. É o que José Luís Carneiro está a fazer à boleia da candidatura de Seguro; e o candidato vai ajudar o líder socialista. Os signatários estão assim a contribuir para o renascimento do PS, o que me espanta porque se definem como “não-socialistas.” Também me surpreende que aqueles que conheço, e que sei bem o que me dizem do PS, dos governos socialistas que Seguro apoiou e até do próprio candidato (quando era líder do PS), assinem este manifesto. Mas ninguém está livre de cometer erros.

Este manifesto também é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele. Há uma questão interessante quando se lê o texto do manifesto: que tipo de governo maioritário os signatários defendem? Uma maioria absoluta da AD; eu também gostava muito, mas não analiso a política com base em sonhos. Uma maioria absoluta da AD com a IL. Também gostava, mas acho muito improvável. Implicitamente, também viveriam bem com uma nova geringonça. Já viveram sem sobressaltos democráticos e apoiam o candidato apoiado pelo PCP e pelo Bloco. Essa maioria, não quero nunca mais.

Aliás, a AD na prática já beneficia da dimensão eleitoral do Chega. É isso que impede uma nova maioria parlamentar das esquerdas. No dia em que as esquerdas voltassem a ter maioria parlamentar, voltará a haver uma nova geringonça, seja quem for o líder do PS e mesmo que Seguro esteja em Belém. Algum dos signatários acha que o Presidente Seguro impediria uma coligação entre o PS a as extremas esquerdas, quando conta com os apoios dos comunistas e dos bloquistas?

Entendo perfeitamente que nenhum destes signatários seja capaz de votar em André Ventura. Há muita coisa em Ventura que me causam muito desconforto, desde as generalizações injustas até à demagogia, passando pela sua visão da economia, como mostram as suas posições sobre a privatização da TAP e o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. Discordo da visão presidencialista de Ventura. Mas é muito diferente não ser capaz de votar em Ventura ou apelar ao voto em Seguro. Estão a apoiar um socialista que nunca se distanciou dos piores erros feitos pelos governos do seu partido, pelo contrário apoiou activamente Sócrates. Estão a apoiar um socialista que fez ataques absolutamente injustos e falsos ao governo de Passos Coelho quando liderava o PS. Estão a contribuir para a legitimidade eleitoral do PS, quando os socialistas não o merecem. Um partido que nos últimos 30 anos, esteve 22 no governo, e que tanto mal fez a Portugal.

O Chega apareceu, em grande medida, por causa de todo o mal que os governos socialistas fizeram a Portugal. Os eleitores do Chega e de Ventura são aqueles que mais perderam com os governos socialistas. Não acho nada estranho que não se goste do resultado do socialismo. Eu também não gosto. Mas, por isso mesmo, acho muito estranho que se apoie um socialista. E Seguro nem sequer precisava destes apoios para ganhar as eleições no dia 8 de Fevereiro. O manifesto foi um erro inútil.

https://observador.pt/opiniao/ha-sempre-uma-direita-pronta-para-ajudar-o-ps/

José Manuel Fernandes - Quanto mais chamarem fascista a Ventura, mais ele agradece

José Manuel Fernandes 

Se continuam a dizer que é preciso votar Seguro para salvar a democracia não só não ajudam a sua campanha como degradam o prestígio da democracia, pois não há nada de antidemocrático em votar Ventura.

26 jan. 2026

Há inúmeras boas razões para não se votar em André Ventura na segunda volta destas eleições presidenciais – razões que em muitos casos partilho –, mas defender que é preciso fazê-lo para salvar a democracia é um insulto à inteligência e a repetição de uma estratégia que já deu muito maus resultados noutros países – precisamente o tipo de resultados que estes “gladiadores antifascistas” dizem querer evitar.

Devo dizer que logo na noite da primeira volta, ao ouvir o discurso de António José Seguro, receei que na sua campanha se fosse por aí pois ouvi-o afirmar, se bem que de passagem, que na segunda volta estaria em causa a democracia. A verdade é que, nas poucas vezes que falou ao longo desta última semana, me pareceu sempre mais moderado. O mesmo não pode ser dito de muitas outras intervenções nestes últimos dias, nalguns casos protagonizadas por pessoas com um trajecto de moderação.

Tomo dois exemplos, por os considerar significativos. O primeiro é a capa da revista Visão, que graficamente parece fazer um paralelo entre a segunda volta das eleições de 1986 mas depois acrescenta, sob o título “Democracia em jogo”, que, ao contrário do que sucedeu há 40 anos, “agora o que está em causa é o futuro do regime democrático”. O segundo é o podcast do Observador com Sérgio Sousa Pinto, Realpolitik, onde no mais recente episódio o antigo deputado sugere que quem for votar em Ventura sem perceber que a democracia está em jogo é porque é “atrasado mental”. Pelo que percebi esta passagem tornou-se viral nas redes sociais, ainda julguei que correspondia a um lapso passageiro, mas ao ouvir todo o episódio percebe-se que a convicção de Sérgio Sousa Pinto é que o que está em causa é mesmo a democracia, fazendo até comparações com o que se passou na Europa na década de 1930.

Esta retórica é factualmente errada e politicamente perigosa. No limite é ela que é antidemocrática por só admitir pensamentos e propostas políticas conformes ao socialmente estabelecido. Mas vamos por partes.

Esta eleição é assim tão diferente da de 1986? É, até porque os tempos são outros. A política vivia-se com muito maior intensidade há 40 anos, a clivagem esquerda-direita estava muito mais marcada na cabeça dos eleitores e os dois candidatos eram aquilo que podemos classificar como “figuras respeitáveis”, ambos vindos da elite lisboeta, ambos tendo passado por governos, numa ocasião tendo até estado juntos numa coligação governativa.

Dito isto, a verdade é que mesmo assim boa parte dos argumentos usados contra Freitas do Amaral, o candidato da direita, eram também “anti-fascistas”. Era considerado “irrecusável que o maior perigo no actual momento decorre da dinâmica ultra-reaccionária, fascizante e agressiva da candidatura de Freitas do Amaral” (Resolução Política do XI Congresso do PCP). Comparativamente os termos do apelo ao voto em Seguro pelo actual PCP até é feito em modos menos dramáticos.

Mais: eu acompanhei como jornalista essa campanha eleitoral (fui destacado para fazer a cobertura da candidatura de Freitas do Amaral do princípio ao fim) e por isso tenho memória de como o debate, vivíssimo na altura, era mesmo sobre se a sua vitória representaria ou não um regresso ao passado. O próprio Mário Soares, no famoso debate na segunda volta, insistiu por mais de uma vez na tecla de que Freitas “se tinha convertido tarde à democracia” e acusou-o várias vezes de radicalismo.

Em resumo: a campanha de 1986 foi muito diferente da que estamos a viver, mas infelizmente nessa altura como agora repetem-se argumentos e ressuscitam-se os fantasmas do “fascismo” e do “regresso ao passado”. Há hábitos que nunca mudam.

Desta retórica também faz sempre parte a ideia de que só a vitória de Seguro garante a defesa da Constituição e dos seus valores. Mais uma vez é uma retórica com vários problemas, a começar pelo se assumir que a nossa Constituição está escrita na pedra e nunca pode ser revista ou modificada. Não estou de acordo, como não estiveram de acordo as maiorias parlamentares de 1982 e 1989 que reviram substancialmente o texto constitucional apesar de também então haver quem garantisse que isso seria o fim do mundo, ou pelo menos o fim da democracia. Não foi, foi até o que permitiu tornarmo-nos numa democracia plena e não tutelada ou limitada.

Todos os partidos têm o direito de propor, no tempo certo, alterações à Constituição e a verdade é que o partido de André Ventura até já o fez em 2022. Será que essas propostas corresponderiam ao fim do regime constitucional? Sinceramente não creio, mesmo discordando de muitas delas. Na altura a que levantou mais controvérsia foi a criação da possibilidade de haver penas de prisão perpétua. Pessoalmente discordo, mas quando 25 dos actuais 27 países membros da União Europeia prevêem a possibilidade da prisão perpétua será que posso considerar que esse é um sinal do “fim dos direitos, liberdades e garantias” assegurados pelo actual texto constitucional?

Parece-me óbvio que não e também me parece óbvia outra coisa: há temas que hoje estão na discussão pública – nomeadamente os relativos à imigração e à nacionalidade – que até há bem pouco tempo eram considerados temas tabu. Quem quisesse debatê-los tinha logo de enfrentar uma chuva de insultos e de acusações. Era assim porque se queria impor uma determinada ortodoxia e calar, pela intimidação e pelo ostracismo social, quer discordasse. Formalmente não existia nem existe censura prévia, na prática havia e há um clima censório que poucos se atreviam e ainda atrevem a desafiar.

Mas há ou não há um risco para a democracia? É ou não verdade que a direita populista cria regimes autoritários, pelo que é melhor não correr qualquer risco e manter a política de “linhas vermelhas”?

A resposta a esta pergunta exige que olhemos para o que se tem passado noutros países europeus, sobretudo para aqueles onde partidos parecidos com o Chega já foram ou são governo. E a resposta é que apenas na Hungria nos deparamos com uma situação em que existe uma clara deriva autoritária e uma real eternização no poder, acontecendo porém que na Hungria tudo começou quando o partido de Viktor Orban ainda integrava a mesma família política europeia do nosso PSD, o PPE (Orban chegou pela segunda vez ao governo em 2010 e o seu Fidesz só saiu do PPE em 2021).

Temos depois situações onde partidos parecidos com o Chega já estiveram várias vezes em governos – a Áustria, a Finlândia, a Holanda, a Suécia, por exemplo –, tendo entrado e saído sem que a democracia acabasse. Na Polónia lideraram o governo durante muitos anos, governaram mal e por isso estão hoje na oposição, mesmo tendo eleito o Presidente da República. E quanto aos prognósticos de que a Itália regressaria ao fascismo quando Giorgia Meloni chegasse a primeira-ministra, estes revelaram-se não só errados como mistificadoras.

Por outras palavras: por mais que seja tentador fazer comparações com a Europa dos anos 30 do século passado, nem a Europa de hoje tem qualquer semelhança com a Europa desses anos negros, nem a maioria dos nossos actuais partidos populistas tem matrizes ideológicas sequer vagamente comparáveis (a não ser nalgumas franjas limite).

Vamos por isso ver se nos entendemos: esta segunda volta pode ser para escolher entre civilidade e alarvidade, entre europeísmo e nativismo, entre continuidade e ruptura, entre estatismo de esquerda e estatismo de direita, entre boa educação e má educação, entre serenidade e excitação, entre cordialidade e demagogia, entre institucionalismo e subversão das normas, pode ser sobre estes temas e muitos mais mas não é nem deve ser apresentada como uma escolha entre democracia e regresso ao autoritarismo. Até por ser um discurso perigoso para a própria saúde da democracia pois, para sectores importantes do eleitorado, sobretudo do eleitorado mais jovem e que já nasceu muitos anos depois do 25 de Abril, acaba-se a associar democracia a um estado do país que os deixa profundamente descontentes e insatisfeitos.

Infelizmente este risco existe – basta olhar para os estudos de opinião que revelam a degradação da ideia democrática entre as gerações mais novas. Essas gerações exigem mudanças porque são quem está, em termos relativos, a perder nas sociedades mais desenvolvidas. Em Portugal, por enquanto, ainda preferem candidatos mais institucionais, mas que propõem mudanças (o candidato mais votado pelos jovens foi Cotrim Figueiredo), mas se lhes disser que tudo é intocável a começar pela Constituição e a continuar nos políticos de sempre, um dia destes temos uma surpresa.

Ou melhor, já tivemos essa surpresa: André Ventura está na segunda volta.

https://observador.pt/opiniao/quanto-mais-chamarem-fascista-a-ventura-mais-ele-agradece/

sábado, 24 de janeiro de 2026

Luís Fazenda - A algazarra das direitas. O voto antifascista reúne-se para Belém

* Lus Fazenda

24 de janeiro 2026
 
O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo.

1 - A longa campanha eleitoral da primeira volta das presidenciais, com candidaturas anunciadas logo a seguir às legislativas de Maio, tornou-se num embate político significativo, sem desfecho previsível à partida. Este facto fez crescer a participação de eleitores.

A campanha, sobretudo à direita, teve pouca confrontação, ou sequer comparação, de programas e ideias e centrou-se nos perfis dos aspirantes a sucessor de Marcelo e nas sondagens constantes. Em parte, isso deveu-se a uma legião de comentadores de tv que censuram a discussão das políticas públicas porque supostamente tal facto seria "próprio" de eleições legislativas e não de eleições presidenciais. Os candidatos estariam limitados a expor a sua leitura das competências do cargo e, quando muito, falar de política internacional. A manobra é clara para poupar a crítica ao governo e fazer desaparecer as oposições.

2 - Os debates entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, ou entre Ventura e Cotrim de Figueiredo, foram cenas reles de ataques pessoais e acusações sucessivas e mútuas de imoralidade. Foi grande a algazarra. O clima de quezília, que seria imediatamente contestado em qualquer candidato de esquerda, transportou-se para propostas hostis.

Foi o caso de Cotrim de Figueiredo. Fez um ultimatum a Montenegro, numa espécie de OPA ao PSD. E conseguiu 16%, mais 5 pontos que Mendes. Esta tentativa de acossar o líder do PSD, pretendendo que o candidato laranja saísse da corrida fica como uma manobra de ultrapassagem da IL ao PSD.

Como tem sido hábito, as sondagens e pretensos barómetros foram as principais protagonistas, para os quais os candidatos são instrumentais. Estudos diários de amostra reduzida insinuam empates e provocam transferências de votos, verificando-se no final diferenças de monta onde havia proximidade. O "empate" entre Seguro e Ventura cifrou-se em 8 pontos de diferença.  

3 - Os candidatos e a candidata à esquerda trouxeram o debate das políticas governativas da AD. Foi reconhecido por todos os quadrantes democráticos que Catarina Martins fez uma excelente campanha sobre como cuidar da democracia política e da democracia social e reagiu sem tibiezas ao assalto à Venezuela por parte de Trump.

Seguro, o improvável candidato do centro, trouxe uma olímpica posição presidencial sem demarcação do governo, embora afirmasse a defesa da Constituição, com poucas referências a compromissos concretos, exceto no SNS. Averbou 31% e classificou-se em primeiro lugar, graças à divisão da direita.

Felizmente, a greve geral irrompeu pela campanha adentro, mudando a agenda até aí dominada pelas políticas anti-imigração. As questões do trabalho vieram para primeiro plano, forçando Seguro e Gouveia e Melo a endurecer posição. Seguro promete veto ao pacote laboral. A nota artística vai para o Almirante que confessou que teria feito greve. A defesa dos Direitos do Trabalho trouxe de forma concreta a resistência constitucional que atravessou esta contenda eleitoral.

4 - O que Montenegro caracteriza como "uma dispersão de votos do centro" é uma forte derrota do governo e da AD. A AD tem um desgaste claro na sua base eleitoral. Contudo, o 5º lugar do candidato do governo não pode apenas ser atribuído à irritação popular pelos seus negócios pessoais, ou por ser mal amado pelos caciques do PSD. Os ziguezagues de Mendes sobre as leis laborais, ou sobre a ministra da Saúde, desagradaram a gregos e troianos. E pôs em relevo que uma parte do eleitorado do PSD está a ser atraído pelo radicalismo da extrema-direita e pelo radicalismo dos liberais. É previsível que o governo acentue a sua agenda de direita para recuperar apoio nas classes médias, hoje muito permeáveis a hostilizar o Estado social. Em particular, a IL é uma pedra no sapato do PSD. O que deixa uma pergunta óbvia: que faz ali o PS como sócio orçamental?

5 - A candidatura de Gouveia e Melo merece uma reflexão. Foi mais uma arremetida populista contra os partidos, considerando todos em geral responsáveis pela oligarquia que controla o Estado. Incapaz de apontar o periscópio à elite económica que capturou os Partidos do poder e que põe e dispõe nessa oligarquia, veio paradoxalmente reclamar-se de uma posição entre PSD e PS. Precisamente os partidos que têm sido as válvulas de segurança da oligarquia. Rodeou-se de várias figuras do PSD, do ex-recluso Isaltino e de empresários do pior do "sistema". Este foi o maior dos paradoxos para os seus apoiantes. Colheu votos heterogéneos à direita e à esquerda, perdendo muitos destes para Seguro na reta final da campanha. Foram 12% de votos que não têm destino e acompanham o Almirante sem espaço político. O caldo de cultura que cimentou esta candidatura é o mesmo que anima André Ventura. A saber: a hostilidade aos negócios da elite e a rápida confusão entre estes e o regime democrático.

6- A "normalização" do Chega ganhou um novo fôlego. O discurso de equiparar a democracia à corrupção faz o viés do caudilho que quer três salazares e pretende uma constituição autoritária e um sistema presidencialista. Enganaram-se aqueles que prenunciavam um Ventura cordato, escondendo as arestas da sua dinâmica reacionária. Com apoio em todas as classes, da alta-finança ao operariado, realizou uma campanha popular beneficiando da sobreexposição nos canais televisivos a somar à hegemonia que apresenta nas redes sociais. A boçalidade é justificada por falar para o povo. Ninguém pode subestimar a votação de Ventura, alcançando 23%. Na Madeira ver suceder a extrema-direita ao PSD é como passar a um novo inferno. Em todo o caso, a consolidação da extrema-direita segue os métodos internacionais e genericamente trumpistas. Sem disfarce, o Chega tenta ganhar balanço para disputar a chefia da direita ao PSD.

7 - Os votos da candidata e dos candidatos apoiados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP e pelo Livre foram reduzidos. Catarina Martins teve 2% e os outros menos.  Pode dizer-se que, em certa medida, representaram a resistência ao voto útil em Seguro. É uma votação do núcleo forte das respetivas áreas políticas e as eleições presidenciais dão para ver essa elasticidade. Esta observação vale para todos. Qualquer um destes partidos sabe que tem uma margem de simpatia superior aos votos obtidos. O que obriga a uma reflexão sobre a força do chamado voto útil. Conhecemos durante muitos anos o apelo ao voto útil, alegando vantagens de poder contra o PSD. Hoje, a esta dinâmica juntou-se outra: a do voto útil antifascista. A resistência e afirmação destas áreas é essencial para não deixar a oposição à esquerda completamente nas mãos do liberalismo democrático do PS sem qualquer projeto social nem perspetiva soberana.

8 - O quadro que se apresenta para a segunda volta, a 8 de Fevereiro, é marcadamente bipolar. O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo. Um candidato democrata apoiado por setores da esquerda e da direita contra o candidato reacionário. A vitória de Seguro permite continuar a resistência constitucional aos ataques da extrema-direita e de parte da direita. Aqueles que lutam pelo Socialismo têm uma dupla tarefa: explicar que Seguro já se desfez do socialismo há muito, ao contrário do que diz Ventura, e de que não há luta a sério pelo socialismo sem democracia. A defesa do regime constitucional potencia o contra-ataque à AD e ao trumpismo mundial.

9- O governo de Montenegro e o PSD, tal como a IL decidiram não indicar o voto em Seguro num ato de suposta “neutralidade”.Alguns argumentam de que se trata de preservar o jogo parlamentar do governo para permitir maiorias de voto. Na verdade, é a perda de compromisso democrático e cedência a Ventura.

Entretanto, a direita que vai apoiar Seguro quer que essa candidatura se defina como “moderada” contra o extremismo, sem referência à causa democrática. Querem prolongar a “normalização “do Chega, apagando o perigo autoritário. Pretendem descafeinar ainda mais a plataforma política de Seguro, tentando aproximá-lo do candidato de “centro-direita” que perderam para a segunda volta da corrida a Belém. O povo de esquerda dirá melhor nas urnas.

https://www.esquerda.net/opiniao/algazarra-das-direitas-o-voto-antifascista-reune-se-para-belem/97197
 

Jaime Nogueira Pinto - Retrato eleitoral do país: da esquerda para a direita

 * Jaime Nogueira Pinto 

Pelos seus dois protagonistas não creio que esta campanha tenha muitas razões para se radicalizar. Seguro porque a radicalidade não está no seu modo de ser; Ventura porque já segurou o seu eleitorado.

24 jan. 2026,

No retrato eleitoral do país temos, da esquerda para a direita: Catarina Martins, do Bloco de Esquerda (2,06%); António Filipe, do Partido Comunista (1,64%); Jorge Pinto, do Livre (0,68%); e o anti-Chega com “licença para odiar” André Pestana da Silva (0,19%). Todos juntos, não chegam a 5% dos eleitores. Porém, independentemente da sua representatividade real, é de prever que a representação na comunicação social desta imaginária “vanguarda esclarecida” continue pujante.

Temos depois “o campo socialista”, dito “campo democrático”, como na Primeira República, curiosamente representado por António José Seguro, um filho mal-amado da Esquerda e do próprio PS. Seguro é alguém de grande honestidade pessoal que, de hesitação em hesitação, acabou por pôr reservas a Sócrates e por ser irradiado por António Costa.

À direita do campo socialista, o retrato fica simultaneamente mais fragmentado e mais nítido, com a primazia de André Ventura a deixar muito boa gente à beira de um ataque de nervos.

O PSD, ou o que ficou do velho PSD – que no breve consulado de Sá Carneiro e da primeira AD marcou a resistência possível aos desmandos do MFA e da extrema-esquerda; que no primeiro Cavaquismo enveredou por uma política que, infelizmente, não prosseguiu, e que, com Passos Coelho, voltou a mostrar sentido de bem público – sai mal na fotografia. O seu candidato captou pouco mais de um terço do eleitorado cativo da AD, que ou foi atrás do liberal Cotrim de Figueiredo ou se deixou encantar por Gouveia e Melo. Espera-se agora ardente e democraticamente que este eleitorado, deixado livre, se sinta obrigado a votar pelo seguro, ao lado do Partido Socialista e da extrema-esquerda, para “defender a democracia”.

Uma campanha alegre

Mas se os apparatchiks socialistas em funções foram apoiando António José Seguro a conta-gotas e a contragosto, ter um amigo dócil em Belém ser-lhes-á de extrema utilidade para se reorganizarem. Por isso o tempo vai ser agora de entusiasmo democrático e de serrar fileiras contra “o regresso do fascismo”.

Assim, daqui para a frente e nas duas semanas de campanha que nos esperam, é comprar pipocas para assistir ao filme que se anuncia: uma longa noite de cinema com dois campos bem definidos. No trailer, insiste-se que a luta não é entre esquerda e direita, mas, mais existencialmente, entre “democracia” e “autocracia”.

De um lado, no “campo extremista”, podemos já antever um Tarrafal em cada esquina, nazis empunhando fachos e cartazes não-inclusivos, Pides a perseguirem incautos imigrantes, intrépidos resistentes anti-fascistas e louçãs donzelas, enquanto três ou quatro Salazares saem vampirescamente das tumbas para devorar as conquistas de Abril… todos ao serviço do super-vilão Mordoor-Ventura, que se prepara para executar o maléfico plano de acabar com a democracia em Portugal. Do outro lado, no “campo democrático”, a racionalidade, a respeitabilidade, a moderação, enfim, a normalidade, o humanismo, a democracia.

“Democratas” e “Extremistas”

Convém, no entanto, recordar que “a democracia” ou a definição de democracia tem sido sempre um exclusivo da esquerda, da mais extrema (quem não se lembra dos regimes democráticos e das boas práticas que inspirou e inspira?) à mais moderada, à de “rosto humano”; e tem sido sempre a esquerda a incluir ou excluir da “democracia” e a chutar para o “fascismo” ou para a “autocracia” os protagonistas que a ameaçam.

Agora é Ventura. Parece que nem Ventura nem os seus muitos eleitores são democratas. Porquê? Porque não, porque todos os democratas, a começar pela candidata do Bloco de Esquerda e pelo candidato do Partido Comunista, que saberão do que falam, dizem que não é, que não pode ser, até para não estragar o enredo da fita.

Embora o método não varie muito, o facto de ser o PS de António José Seguro e de José Luís Carneiro a encabeçar este campo socialista, dito “campo democrático”, não deixa de evidenciar que a esquerda sobrevivente é agora a do centro, a colada ao Centrão. O PS que, com o PSD, constitui o eixo-ideológico e partidocrático da Terceira República, entra numa nova pele. Assim, pela moderação, fica nesta eleição mais próximo do seu parceiro alternativo de governação de meio século – o PSD – que, pela indefinição, também dele se aproxima.

De qualquer forma, passada a lua de mel na casa do campo democrático da segunda volta, o actual primeiro-ministro e líder do PSD vai ter de continuar a equilibrar-se num perigoso modelo tripartido de poder (três forças que colaboram em duo pela negativa, mas nunca pela positiva), ficando refém de dois inimigos, o PS, pela esquerda, mais forte se tiver um amigo em Belém, e o Chega, pela direita, mais forte por se ter encontrado, nesta eleição, a capitanear o campo da direita. Por quanto tempo irá este PSD resistir num “centrismo” que os ventos da História também parecem ameaçar? Poderá, sem grande cumplicidade em Belém, jogar o jogo do centro hegemónico, do centro charneira, ora pactuando à direita, com o Chega – como na lei da nacionalidade –, ora à esquerda, com o PS – como na recusa em alterar alguns pontos ideológicos programáticos da Constituição de 1976?

Mantendo essencialmente a lealdade do eleitorado do Chega, Ventura ganhou, para já, um espaço significativo na direita, marcando como seu um quarto do eleitorado nacional. Aproveitando o eventual aumento de votação que a segunda volta lhe poderá trazer, Ventura deverá definir e afirmar melhor os valores do nacionalismo conservador e social que são a razão principal da sua popularidade (a que os seus adversários chamam “populismo”, conceito que alguém definiu como “a popularidade dos outros”). E esses valores não são muito diferentes da patria et libertas romana e maquiavélica; ou, na versão mais contemporânea, cristianizada e conservadora, Deus, Pátria e Família, a trilogia agora adoptada em democracia por Meloni, por exemplo, e que o facto de já ter sido defendida autoritariamente não invalida.

Ou será que os seguidores da trilogia revolucionária de 89, Liberté, Égalité, Fraternité, à sombra da qual se assassinaram, de Paris à Vendeia, dezenas de milhares de franceses, ou os ainda admiradores do socialismo do Gulag têm alguma coisa a dizer contra esta trilogia conservadora?

O problema da direita tolerada pelo 25 de Abril foi precisamente deixar-se intimidar pela esquerda e pelos seus rótulos e não defender em democracia nada do que tivesse sido defendido pelo Estado Novo, independentemente da sua validade. André Ventura, com todos os seus defeitos e virtudes, não tem esses medos ou tabus. É um político de outros tempos, que nasceu e cresceu em democracia, que vive dela e não tem qualquer interesse em acabar com ela.

Seja como for, pelos seus dois principais protagonistas, não creio que esta campanha tenha muitas razões para se radicalizar. Seguro, também porque a radicalidade não está no seu modo de ser, poderá facilmente apresentar-se como “o único democrata”, o conciliador ou o reconciliador, deixando para os outros a “fúria antifascista”; André Ventura, porque já segurou o seu eleitorado, quererá capitalizar o facto de ser um contra todos e captar a direita que não se queira diluir em Seguro com a esquerda e a extrema-esquerda e capaz de resistir à pressão.

 https://observador.pt/opiniao/retrato-eleitoral-do-pais-da-esquerda-para-a-direita/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia
E a Dinamarca? E a UE? Não têm nada a dizer?

Há dias acabei um artigo com um poema de Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) . Hoje começo este com outro poema, no caso de Eduardo Alves da Costa, um poeta brasileiro não muito conhecido, texto que é erroneamente muitas vezes atribuído a Maiakovsky, talvez por causa de seu título:

NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Vem isto a propósito de como Mark Rutte decidiu entregar parte da Groenlândia aos EUA, concedendo-lhes o direito de instalar por lá as bases militares que entendessem e possuindo DE FACTO os territórios onde tais bases vierem a ser construídas.

Naturalmente, na versão de Donald Trump além dos locais onde tais bases venham a ser instaladas, os EUA possuiriam também todo o direito de explorar os recursos energéticos e minerais da grande ilha. Estamos portanto na fase em que os ladrões do poema de Maiakovsky já pisaram as flores.

Deve Mark Rutte ficar preocupado? Foi ele foi o cão que não ladrou quando a primeira flor foi roubada. Ele será a próxima vítima? Talvez não, dependendo de quem seja o seu dono.

De qualquer forma, está a esgotar-se o tempo da Dinamarca e seus supostos aliados europeus dizerem alguma coisa, antes que suas vozes lhes sejam arrancadas das gargantas

https://antoniojfgil.substack.com/p/mark-ruttes-greenland-bargain? 

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

 https://www.dn.pt/opiniao/temos-de-ser-vassalos-ou-escravos-de-trump

Discurso de Volodymyr Zelenskyy em Davos (2026)

Discurso do Presidente aos participantes da Sessão Especial do Fórum Econômico Mundial

22 de janeiro de 2026 - 21:29

Muito obrigado!

Caros amigos,

Todos se lembram do clássico filme americano "Feitiço do Tempo" (Groundhog Day), com Bill Murray e Andie MacDowell. Mas ninguém gostaria de viver assim – repetindo a mesma coisa por semanas, meses e, claro, por anos. E, no entanto, é exatamente assim que vivemos agora. E é a nossa vida. E cada fórum como este comprova isso. No ano passado, aqui em Davos, encerrei meu discurso com as palavras: "A Europa precisa saber se defender". Um ano se passou – e nada mudou. Ainda estamos numa situação em que preciso dizer as mesmas palavras.

Mas por que?

A resposta não se resume apenas às ameaças existentes ou que possam surgir. Cada ano traz algo novo – para a Europa e para o mundo.

Todas as atenções se voltaram para a Groenlândia. E é evidente: a maioria dos líderes simplesmente não sabe o que fazer a respeito. Parece que todos estão apenas esperando que os Estados Unidos "se acalmem" em relação a esse assunto, na esperança de que ele desapareça. Mas e se isso não acontecer? O que acontecerá então?

Muito se falou sobre os protestos no Irã, mas eles terminaram em banho de sangue. O mundo não ajudou o povo iraniano o suficiente. E é verdade: ficou de braços cruzados. Na Europa, aconteciam as celebrações de Natal e Ano Novo, os feriados de fim de ano. Quando os políticos voltaram ao trabalho e começaram a se posicionar, o aiatolá já havia matado milhares.

E o que será do Irã depois desse derramamento de sangue? Se o regime sobreviver, enviará um sinal claro a todos os valentões: matem pessoas suficientes e vocês se manterão no poder. Quem na Europa precisa que essa mensagem se torne realidade?

E, no entanto, a Europa nem sequer tentou elaborar a sua própria resposta.

Vejamos o Hemisfério Ocidental. O presidente Trump liderou uma operação na Venezuela. E Maduro foi preso. E houve opiniões divergentes, mas o fato é que Maduro está sendo julgado em Nova York.

Desculpe, mas Putin não está sendo julgado. E este é o quarto ano da maior guerra na Europa desde a Segunda Guerra Mundial – e o homem que a iniciou não só está livre, como ainda luta para reaver seu dinheiro congelado na Europa. E sabe de uma coisa? Ele está tendo algum sucesso. É verdade. É Putin quem está tentando decidir como os ativos russos congelados devem ser usados ​​– não aqueles que têm o poder de puni-lo por esta guerra. Felizmente, a UE decidiu congelar os ativos russos indefinidamente – e sou grato por isso – obrigado, Ursula, obrigado, António, e a todos os líderes que ajudaram. Mas quando chegou a hora de usar esses ativos para se defender da agressão russa, a decisão foi bloqueada. Putin conseguiu deter a Europa. Infelizmente.

Próximo ponto. Devido à posição dos Estados Unidos, as pessoas agora evitam o tema do Tribunal Penal Internacional. E isso é compreensível – é a posição histórica americana. Mas, ao mesmo tempo, ainda não há progresso real na criação de um Tribunal Especial para a agressão russa contra a Ucrânia, contra o povo ucraniano. E temos um acordo – é verdade. Muitas reuniões já aconteceram. Mas, ainda assim, a Europa não chegou nem ao ponto de ter uma sede para o Tribunal – com funcionários e trabalho efetivo acontecendo lá dentro. O que falta – tempo ou vontade política? Muitas vezes, na Europa, algo sempre parece mais urgente do que a justiça.

Neste momento, estamos trabalhando ativamente com parceiros em garantias de segurança, e sou grato por isso. Mas essas garantias são para depois do fim da guerra. Assim que o cessar-fogo começar, haverá contingentes e patrulhas conjuntas, e bandeiras dos parceiros em solo ucraniano. E esse é um passo muito positivo e um sinal correto de que o Reino Unido e a França estão prontos para realmente comprometer suas forças no terreno – e já existe um primeiro acordo sobre isso. Obrigado, Keir, obrigado, Emmanuel, e a todos os líderes da nossa Coalizão. E estamos fazendo todo o possível para garantir que nossa Coalizão dos Dispostos se torne verdadeiramente uma Coalizão de Ação. E, novamente, todos estão muito otimistas, mas – sempre, mas – o apoio do Presidente Trump é necessário. E, mais uma vez, nenhuma garantia de segurança funciona sem os EUA.

Mas e o cessar-fogo em si? Quem pode ajudar a concretizá-lo? A Europa adora discutir o futuro, mas evita agir hoje – agir de acordo com o tipo de futuro que teremos. Esse é o problema. Por que o presidente Trump pode impedir a entrada de petroleiros da frota clandestina e confiscar petróleo, mas a Europa não? O petróleo russo está sendo transportado bem ao longo da costa europeia. Esse petróleo financia a guerra contra a Ucrânia. Esse petróleo contribui para a desestabilização da Europa. Portanto, o petróleo russo deve ser interceptado, confiscado e vendido para benefício da Europa. Por que não?

Se Putin não tiver dinheiro, não haverá guerra para a Europa. Se a Europa tiver dinheiro, poderá proteger seu povo. No momento, esses petroleiros estão gerando lucro para Putin, e isso significa que a Rússia continua a insistir em sua agenda doentia.

Próximo ponto. Já disse isso antes e repito: a Europa precisa de forças armadas unidas – forças que possam realmente defender a Europa. Hoje, a Europa se baseia apenas na crença de que, se o perigo surgir, a OTAN agirá. Mas ninguém realmente viu a Aliança em ação. Se Putin decidir invadir a Lituânia ou atacar a Polônia, quem responderá? Quem responderá?

Neste momento, a OTAN existe graças à crença – a crença de que os Estados Unidos agirão, de que não ficarão de braços cruzados e de que ajudarão. Mas e se isso não acontecer?

Acredite, essa questão está... em todo lugar, na mente de todos os líderes europeus. E alguns tentam se aproximar do presidente Trump. É verdade. Alguns esperam, na esperança de que o problema desapareça. Outros já começaram a agir, investindo na produção de armamentos, construindo parcerias, buscando apoio público para maiores gastos com defesa...

Mas lembremos: até que os Estados Unidos pressionassem a Europa a gastar mais em defesa, a maioria dos países sequer tentava atingir 5% do PIB – o mínimo necessário para garantir a segurança. A Europa precisa saber como se defender.

E se você enviar 30 ou 40 soldados para a Groenlândia, qual o propósito disso? Que mensagem isso transmite? Qual a mensagem para Putin? Para a China? E, ainda mais importante, que mensagem isso transmite para a Dinamarca — o país mais importante —, seu aliado próximo?

Ou você declara que as bases europeias protegerão a região da Rússia e da China – e estabelece essas bases – ou corre o risco de não ser levado a sério, porque 30 ou 40 soldados não protegerão nada.

E nós sabemos o que fazer. Se navios de guerra russos estão navegando livremente ao redor da Groenlândia, a Ucrânia pode ajudar – temos a experiência e as armas para garantir que nenhum desses navios permaneça. Eles podem afundar perto da Groenlândia, assim como fazem perto da Crimeia. Sem problemas – temos as ferramentas e temos pessoal. Para nós, o mar não é a primeira linha de defesa, então podemos agir e sabemos como lutar lá. Se nos pedissem, e se a Ucrânia fizesse parte da OTAN – mas não fazemos –, resolveríamos esse problema com os navios russos.

Quanto ao Irã, todos aguardam para ver o que os Estados Unidos farão. E o mundo não oferece nada; a Europa não oferece nada e não quer se envolver nessa questão como apoiadora do povo iraniano e da democracia de que ele precisa.

Mas quando você se recusa a ajudar um povo que luta pela liberdade, as consequências retornam – e são sempre negativas. A Bielorrússia em 2020 é um exemplo disso. Ninguém ajudou seu povo. E agora, mísseis russos “Oreshnik” estão posicionados na Bielorrússia – ao alcance da maioria das capitais europeias. Isso não teria acontecido se o povo bielorrusso tivesse vencido em 2020.

E já dissemos várias vezes aos nossos parceiros europeus: ajam agora. Ajam agora contra esses mísseis na Bielorrússia. Mísseis nunca são apenas decoração. Mas a Europa ainda permanece no "modo Groenlândia" – talvez... algum dia... alguém faça alguma coisa.

A questão do petróleo russo é a mesma. É bom que existam muitas sanções. O petróleo russo está ficando mais barato. Mas o fluxo não parou. E as empresas russas que financiam a máquina de guerra de Putin continuam operando. E isso não mudará sem mais sanções. E somos gratos por toda a pressão exercida sobre o agressor. Mas sejamos honestos: a Europa precisa fazer mais, para que suas sanções bloqueiem os inimigos com a mesma eficácia que as sanções americanas. Por que isso é importante? Porque se a Europa não for vista como uma força global, se suas ações não intimidarem os atores mal-intencionados, então a Europa estará sempre reagindo – tentando acompanhar novos perigos e ataques.

Todos nós vemos que as forças que tentam destruir a Europa não perdem um único dia – operam livremente, inclusive dentro da Europa.

Todo “Viktor” que vive às custas do dinheiro europeu enquanto tenta vender os interesses da Europa merece um tapa na cabeça. E se ele se sente confortável em Moscou, isso não significa que devemos deixar as capitais europeias se tornarem pequenas Moscous. Precisamos lembrar o que separa a Rússia de todos nós. A linha de conflito mais fundamental entre a Rússia, a Ucrânia e toda a Europa é esta: a Rússia luta para desvalorizar as pessoas, para garantir que, quando os ditadores quiserem destruir alguém, eles consigam. Mas eles precisam perder o poder, não conquistá-lo.

Por exemplo, os mísseis russos só são produzidos porque existem maneiras de contornar as sanções. É verdade. Todos veem como a Rússia tenta congelar ucranianos, nosso povo, ucranianos, até a morte a -20°C. Mas a Rússia não conseguiria construir nenhum míssil balístico ou de cruzeiro sem componentes essenciais de outros países. E não é só a China. Muitas vezes, as pessoas se escondem atrás da desculpa de que "a China ajuda a Rússia". Sim, ajuda. Mas não só a China. A Rússia obtém componentes de empresas na Europa, nos Estados Unidos e em Taiwan.

Neste momento, muitos estão investindo na estabilidade em torno de Taiwan. Para evitar uma guerra… Mas será que as empresas taiwanesas podem parar de fornecer componentes eletrônicos para a guerra da Rússia? A Europa quase não diz nada. Os Estados Unidos não dizem nada. E Putin fabrica mísseis.

E agradeço a todos os países, é claro, e a todas as empresas que ajudam a Ucrânia a reparar seu sistema energético. Isso é crucial. Agradeço a todos que apoiam o programa PURL, ajudando-nos a comprar mísseis Patriot. Mas não seria mais barato e fácil simplesmente cortar o fornecimento dos componentes necessários para a produção de mísseis à Rússia? Ou até mesmo destruir as fábricas que os produzem?

No ano passado, a maior parte do tempo foi dedicada a discutir armas de longo alcance para a Ucrânia. E todos diziam que a solução estava ao alcance. Agora, ninguém sequer menciona o assunto. Mas os mísseis russos e os "Shaheds" ainda estão aqui. E ainda temos as coordenadas das fábricas onde são produzidos. Hoje, eles têm como alvo a Ucrânia. Amanhã, poderá ser qualquer país da OTAN.

E aqui, na Europa, somos aconselhados a não mencionar os mísseis Tomahawk aos americanos – para não estragar o clima. E nos dizem para não mencionar os mísseis Taurus. Quando o assunto é a Turquia, os diplomatas dizem: não ofenda a Grécia. Quando é a Grécia, dizem para termos cuidado com a Turquia.

Na Europa, existem inúmeras disputas internas e questões não resolvidas que impedem a união e o diálogo honesto necessários para encontrar soluções reais. E, com muita frequência, os europeus se voltam uns contra os outros – líderes, partidos, movimentos e comunidades – em vez de se unirem para deter a Rússia, que causa a mesma destruição a todos. Em vez de se tornar uma potência verdadeiramente global, a Europa permanece um belo, porém fragmentado, caleidoscópio de pequenas e médias potências. Em vez de assumir a liderança na defesa da liberdade em todo o mundo, especialmente quando o foco dos Estados Unidos se volta para outros assuntos, a Europa parece perdida, tentando convencer o presidente americano a mudar. Mas ele não mudará.

O presidente Trump ama quem ele é. E diz que ama a Europa. Mas ele não dará ouvidos a esse tipo de Europa.

Um dos maiores problemas da Europa atual – embora pouco discutido – é a mentalidade. Alguns líderes europeus são da Europa, mas nem sempre defendem a Europa. E a Europa ainda parece mais uma geografia, uma história, uma tradição – não uma força política real, não uma grande potência.

Alguns europeus são realmente fortes. É verdade. Mas muitos dizem: "Precisamos nos manter firmes". E sempre querem que alguém lhes diga por quanto tempo precisam se manter firmes. De preferência, até as próximas eleições. Mas, a meu ver, não é assim que funciona o poder. Os líderes dizem: "Precisamos defender os interesses europeus". Mas esperam que alguém o faça por eles. E, ao falarem de valores, muitas vezes se referem a bens materiais.

Todos dizem: "Precisamos de algo para substituir a velha ordem mundial." Mas onde está a fila de líderes prontos para agir — agir agora, em terra, no ar e no mar — para construir uma nova ordem global? Não se constrói uma nova ordem mundial apenas com palavras. Só as ações criam uma ordem real.

Hoje, os Estados Unidos lançaram o Conselho de Paz. A Ucrânia foi convidada. Assim como a Rússia, a Bielorrússia – embora a guerra não tenha parado. E nem sequer há um cessar-fogo. E vocês viram quem aderiu. Cada um tinha seus motivos. Mas o fato é que a Europa ainda não formou uma posição unificada sobre a ideia americana.

Talvez esta noite, quando o Conselho Europeu se reunir, eles decidam algo. Mas os documentos já foram assinados esta manhã. E esta noite eles também podem finalmente decidir algo sobre a Groenlândia. Mas ontem à noite, Mark Rutte conversou com o presidente Trump – obrigado, Mark, pela sua produtividade. Os Estados Unidos já estão mudando de posição – mas ninguém sabe exatamente como.

Então as coisas acontecem mais rápido do que nós, mais rápido do que na Europa. E como a Europa pode acompanhar?

Caros amigos, 

Não devemos nos rebaixar a papéis secundários – não quando temos a chance de sermos uma grande potência juntos. Não devemos aceitar que a Europa seja apenas uma "salada" de pequenas e médias potências, temperada com inimigos da Europa. Unidos, somos verdadeiramente invencíveis. E a Europa pode e deve ser uma força global. Não uma força que reage tardiamente, mas uma que define o futuro.

Isso ajudaria a todos – do Oriente Médio a todas as outras regiões do mundo. Isso ajudaria a própria Europa, porque os desafios que enfrentamos agora são desafios ao modo de vida europeu, onde as pessoas importam, onde as nações importam.

A Europa pode ajudar a construir um mundo melhor. A Europa deve construir um mundo melhor. E um mundo sem guerra, claro.

Mas para isso, a Europa precisa de força. Para isso, devemos agir em conjunto – e agir a tempo. E, acima de tudo, devemos ter a coragem de agir.

E estamos trabalhando ativamente para encontrar soluções. Soluções reais. Hoje nos reunimos com o Presidente Trump – e nossas equipes estão trabalhando quase todos os dias. Não é simples. Os documentos que visam pôr fim a esta guerra estão quase prontos. E isso é realmente importante. A Ucrânia está trabalhando com total honestidade e determinação. E isso traz resultados. E a Rússia também precisa estar preparada para acabar com esta guerra, para deter esta agressão – a agressão russa, a guerra russa contra nós. Portanto, a pressão precisa ser forte o suficiente. E o apoio à Ucrânia precisa se fortalecer ainda mais.

Nossos encontros anteriores com o Presidente dos Estados Unidos nos trouxeram mísseis de defesa aérea. E obrigado, europeus. Eles também ajudaram. E hoje, também conversamos sobre a proteção do espaço aéreo – o que significa proteger vidas, é claro. E espero que os Estados Unidos continuem ao nosso lado.

E a Europa precisa ser forte. E a Ucrânia está pronta para ajudar – com tudo o que for necessário para garantir a paz e evitar a destruição. Estamos prontos para ajudar outros a se tornarem mais fortes do que são agora. Estamos prontos para fazer parte de uma Europa que realmente importa – uma Europa de poder real – uma grande potência.

Hoje, precisamos desse poder para proteger nossa própria independência. Mas vocês também precisam da independência da Ucrânia, porque amanhã talvez tenham que defender seu modo de vida. E quando a Ucrânia estiver com vocês, ninguém os oprimirá. E vocês sempre terão uma maneira de agir – e ajam a tempo. Isso é muito importante: ajam a tempo.

Caros amigos,

Hoje é um dos últimos dias de Davos – embora certamente não seja o último Davos, é claro. E todos concordam com isso. Muitas pessoas acreditam que, de alguma forma, as coisas se resolverão por si mesmas. Mas não podemos confiar no "de alguma forma". Para uma segurança real, a fé não basta – fé em um parceiro, em uma reviravolta fortuita.

Nenhuma discussão intelectual é capaz de impedir guerras. Precisamos de ação. A ordem mundial vem da ação. E nós só precisamos da coragem para agir. Sem ação agora, não há amanhã. Vamos acabar com este "Dia da Marmota". E sim, é possível. 

Obrigado.

Glória à Ucrânia!

https://www.president.gov.ua/en/news/zvernennya-prezidenta-do-uchasnikiv-specialnogo-zasidannya-v-102517

Discurso de Volodymyr Zelenskyy wm Davos (2025)

  • Em seu discurso especial em Davos, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, adverte que a Europa não pode se dar ao luxo de ser a segunda ou terceira opção para seus aliados.
  • Um dia após a posse do presidente Donald Trump, Zelenskyy afirma que a Europa precisa se consolidar como um ator global forte e indispensável.
  • Esta é a transcrição do discurso especial do presidente ucraniano Zelenskyy na Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial de 2025 em Davos.

Senhoras e senhores,

Quero falar com vocês sobre o futuro da Europa – o que, basicamente, significa o futuro da maioria das pessoas aqui.

Neste momento, todos os olhares estão voltados para Washington. Mas quem está realmente observando a Europa?

Essa é a questão fundamental para a Europa. E não se trata apenas de ideias. Trata-se, antes de tudo, de pessoas. Trata-se de como elas viverão em um mundo em constante transformação.

Vinte horas atrás, ocorreu a posse do presidente Trump em Washington. E agora todos aguardam para ver o que ele fará em seguida. Suas primeiras ordens executivas já demonstraram prioridades claras.

A maior parte do mundo está pensando agora: o que vai acontecer com o relacionamento com os Estados Unidos? O que acontecerá com as alianças? Com ​​o apoio? Com ​​o comércio? Como o presidente Trump planeja acabar com as guerras?

Mas ninguém está fazendo esse tipo de pergunta sobre a Europa. E precisamos ser honestos quanto a isso.

Quando nós, na Europa, olhamos para os Estados Unidos como nosso aliado, fica claro: eles são um aliado indispensável.

Em tempos de guerra, todos se preocupam se os Estados Unidos permanecerão ao seu lado. Todos os aliados se preocupam com isso. Mas será que alguém nos Estados Unidos se preocupa com a possibilidade de a Europa os abandonar algum dia – de deixar de ser sua aliada? A resposta é 'não'.

Washington não acredita que a Europa possa oferecer algo realmente substancial.

Lembro-me da Cúpula de Segurança Asiática do ano passado em Singapura – o Diálogo de Shangri-La . Lá, representantes da delegação dos Estados Unidos disseram abertamente que sua principal prioridade de segurança era a região do Indo-Pacífico, a segunda era o Oriente Médio e o Golfo, e apenas a terceira era a Europa – e isso foi durante o governo anterior.

Será que o Presidente Trump sequer dará atenção à Europa? Ele considera a OTAN necessária? E respeitará as instituições da UE?

Senhoras e senhores, a Europa não pode se dar ao luxo de ser a segunda ou terceira opção para seus aliados. Se isso acontecer, o mundo começará a avançar sem a Europa, e esse será um mundo que não será confortável nem benéfico para todos os europeus.

A Europa precisa competir pela liderança em prioridades, alianças e desenvolvimento tecnológico.

Estamos em mais um ponto de virada, que alguns veem como um problema para a Europa, mas outros consideram uma oportunidade. A Europa precisa se consolidar como um ator global forte; como um ator indispensável.

Não nos esqueçamos: não há oceano separando os países europeus da Rússia. E os líderes europeus devem lembrar-se disso: batalhas envolvendo soldados norte-coreanos estão agora acontecendo em locais geograficamente mais próximos de Davos do que de Pyongyang.

A Rússia está se transformando em uma versão da Coreia do Norte – um país onde a vida humana não significa nada, mas que possui armas nucleares e um desejo ardente de tornar a vida de seus vizinhos miserável.

Embora o potencial econômico geral da Rússia seja muito menor que o da Europa, ela produz várias vezes mais munição e equipamentos militares do que toda a Europa junta. É exatamente esse o caminho das guerras que Moscou escolhe seguir.

Putin assinou o novo acordo estratégico com o Irã. Ele já tem um tratado abrangente com a Coreia do Norte. Contra quem eles fazem esses acordos? Contra vocês, contra todos nós. Contra a Europa, contra os Estados Unidos.

Não podemos nos esquecer disso. Não é por acaso. Essas são as prioridades estratégicas deles, e as nossas prioridades devem estar à altura do desafio – na política, na defesa e na economia.

Essas ameaças só podem ser combatidas em conjunto. Mesmo quando se trata do tamanho do exército. A Rússia pode mobilizar cerca de 1,3 a 1,5 milhão de soldados. Nós temos mais de 800 mil em nossas forças armadas. Em segundo lugar vem a França, com mais de 200 mil; depois vêm a Alemanha, a Itália e o Reino Unido. Todos os outros têm menos. Esta não é uma situação em que um país possa se proteger sozinho. Trata-se de todos nós nos unirmos para fazer a diferença.

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Por ora, felizmente, a influência do regime iraniano está diminuindo. Isso dá esperança para a Síria e o Líbano. E eles também devem se tornar exemplos de como a vida pode se recuperar após a guerra.

A Ucrânia já está intervindo para apoiar a nova Síria. Nossos ministros estiveram em Damasco e lançamos um programa de ajuda alimentar para a Síria chamado "Alimentos da Ucrânia". E estamos envolvendo nossos parceiros para investir nessas entregas e na construção de instalações de produção de alimentos. A Europa poderia, sem dúvida, intervir como doadora de segurança para a Síria – já passou da hora de pararmos de ter dores de cabeça nessa direção.

E a Europa, juntamente com os Estados Unidos, deve pôr fim à ameaça iraniana.

A seguir, neste momento, não está claro se a Europa ainda terá um lugar à mesa quando a guerra contra o nosso país terminar.

Vemos a enorme influência que a China exerce sobre a Rússia e somos profundamente gratos à Europa por todo o apoio que tem dado ao nosso país durante esta guerra. Mas será que o Presidente Trump ouvirá a Europa, ou negociará com a Rússia e a China sem a participação da Europa?

A Europa precisa aprender a cuidar plenamente de si mesma, para que o mundo não possa se dar ao luxo de ignorá-la.

É vital manter a unidade na Europa, porque o mundo não se importa apenas com Budapeste ou Bruxelas – importa-se com a Europa como um todo.

Precisamos de uma política europeia unificada de segurança e defesa, e todos os países europeus devem estar dispostos a investir em segurança o quanto for realmente necessário – e não apenas o quanto se acostumaram durante anos de negligência.

Se for preciso destinar 5% do PIB para cobrir a defesa, que assim seja, serão 5%. E não há necessidade de manipular as emoções das pessoas, insinuando que a defesa deve ser compensada em detrimento da saúde, das aposentadorias ou de outros setores – isso não seria justo.

Já estabelecemos modelos de cooperação para a defesa da Ucrânia que podem fortalecer toda a Europa. Estamos construindo drones juntos – incluindo alguns totalmente exclusivos que ninguém mais no mundo possui. Estamos produzindo artilharia juntos – e na Ucrânia, é muito mais barato e mais rápido do que em qualquer outro país do mundo.

E investir agora na produção de drones ucranianos é investir não apenas na segurança da Europa, mas também na capacidade da Europa de ser uma garantidora de segurança para outras regiões vitais.

E precisamos começar a construir sistemas de defesa aérea em conjunto – sistemas que sejam capazes de lidar com todos os tipos de mísseis de cruzeiro e balísticos. A Europa precisa de sua própria versão do Domo de Ferro, algo que possa enfrentar qualquer tipo de ameaça.

Não podemos contar com a boa vontade de algumas capitais quando se trata da segurança da Europa, sejam elas Washington, Berlim, Paris, Londres, Roma ou – depois que Putin bater as botas – algum democrata imaginário em Moscou algum dia.

E precisamos garantir que nenhum país europeu dependa de um único fornecedor de energia – especialmente não a Rússia. No momento, as coisas estão a nosso favor – o presidente Trump vai exportar mais energia.

Mas a Europa precisa intensificar seus esforços e realizar um trabalho mais a longo prazo para garantir uma verdadeira independência energética. Não dá para continuar comprando gás de Moscou e, ao mesmo tempo, esperar garantias de segurança, ajuda e apoio dos americanos. Isso simplesmente não funciona.

Por exemplo, o primeiro-ministro da Eslováquia não busca acesso ao gás dos EUA, mas não perde a esperança de usufruir da proteção de segurança americana.

A Europa deve ter um lugar à mesa quando se negociam acordos de guerra e paz. E não estou a falar apenas da Ucrânia. Este deveria ser o padrão.

A Europa merece ser mais do que uma mera espectadora, com os seus líderes reduzidos a publicar mensagens sobre assuntos diversos após um acordo já ter sido alcançado. A Europa precisa de moldar os termos desses acordos.

Em seguida, precisamos de uma abordagem completamente nova e mais ousada para as empresas de tecnologia e o desenvolvimento tecnológico. Se perdermos tempo, a Europa perderá este século.

Atualmente, a Europa está ficando para trás no desenvolvimento da inteligência artificial.

Os algoritmos do TikTok já são mais poderosos do que alguns governos. O destino de pequenos países já depende mais dos donos de empresas de tecnologia do que de suas leis.

A Europa já não lidera a corrida tecnológica global, ficando atrás tanto dos Estados Unidos quanto da China. Isso não é um problema menor – trata-se de fragilidade, primeiro tecnológica e econômica, depois política.

A Europa muitas vezes se concentra mais na regulamentação do que na liberdade, mas quando é necessária uma regulamentação inteligente, Bruxelas hesita. Devemos garantir o máximo desenvolvimento tecnológico na Europa e tomar juntos todas as decisões importantes – para toda a Europa.

Da produção de armamentos ao desenvolvimento tecnológico – a Europa deve liderar.

A Europa precisa se tornar o mercado mais atraente do mundo – e isso é possível.

E, finalmente, a Europa deve ser capaz de garantir a paz e a segurança para todos – para si própria e para os outros, para aqueles no mundo que são importantes para a Europa.

A Europa merece ser forte. E para isso, a Europa precisa da UE e da NATO.

Isso é possível sem a Ucrânia e sem um fim justo para a guerra da Rússia contra a Ucrânia? Tenho certeza de que a resposta é 'não'.

Somente garantias de segurança reais para nós servirão como garantias de segurança reais para todos na Europa. E devemos garantir que os Estados Unidos também nos vejam como essenciais. Para que isso aconteça, o foco dos Estados Unidos deve mudar para a Europa. Para que um dia, em Washington, digam: "Todos os olhos voltados para a Europa". E não por causa da guerra, mas por causa das oportunidades na Europa.

A Europa precisa saber como se defender.

Centenas de milhões de pessoas visitam a Europa para ver seus pontos turísticos e aprender com seu patrimônio cultural. Milhões de pessoas no mundo sonham em viver como os europeus. Seremos capazes de preservar esse estilo de vida e transmiti-lo aos nossos filhos? Se nós, na Europa, pudermos responder afirmativamente, os Estados Unidos precisarão da Europa, assim como de outros atores globais.

A Europa precisa moldar a história para si mesma e para seus aliados, a fim de permanecer não apenas relevante, mas viva e grandiosa.

Obrigado.

Slava Ukraini!

https://www.weforum.org/stories/2025/01/davos-2025-special-address-volodymyr-zelenskyy-president-ukraine/

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ricardo E. Rubenstein - As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial

Ricardo E. Rubenstein

Pouco depois da primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações “inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.

Esses dois aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam, dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois, fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.

Na minha opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução gera guerras globais.

O que obscurece essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo. Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos, declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.

Essa versão autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais. Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a história e para a dinâmica do imperialismo.

História.   No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente. Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra mundial.

Por quê? Por que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África, a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos. Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China (e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.

Dinâmica. Deixando de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto, mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva “guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América Latina, África e Ásia Oriental.

Mas isso não é tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em 1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até então era considerado o quintal da Europa.

Qual é a moral da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria viabilidade), vão armadas até aos dentes.

Comentadores liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam – problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.

O facto de a guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta. Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma guerra global iminente.

O intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de liberais do establishment, centristas de ambos os partidos, especialistas em política externa e pela grande mídia.

Devotados ao dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump, exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes, age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz” colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores da “liderança mundial” dos EUA.

Sejam anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes. Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.

Enquanto isso, os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.

Para citar a faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.

21 de janeiro de 2026

Fonte aqui.

https://www.counterpunch.org/2026/01/21/trumps-ignoble-interventions-how-regional-imperialism-leads-to-world-war/

https://estatuadesal.com/2026/01/22/as-intervencoes-ignobeis-de-trump-como-o-imperialismo-regional-leva-a-guerra-mundial