quarta-feira, 26 de agosto de 2026

(95) Pedro Barroso - 'Bonita'


 foto victor nogueira - oeiras - ilha dos amores no parque dos poetas - escultura de Francisco Simões

Conteúdo partilhado com: Público
Pedro Barroso - Bonita

Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
falavas de projectos e futuro
de coisas banais frivolidades
mas quando me sorriste parou tudo
problemas do mundo enormidades
senti que um rio parava e o nevoeiro
vestia nos teus dedos capa e espada
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse preciso dizer nada
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

(94) 'Companheira', de Pedro Barroso


foto victor nogueira - oeiras - parque dos poetas - ilha dos amores - escultura de francisco simões

COMPANHEIRA - pedro barroso
Deixei pousar minha boca em tua fronte
toquei-te a pele como se fosses harpa
escorreguei em teu ventre como o vento
e atravessei-te em mim como se fosse farpa
Deixei crescer uma vontade devagar
deixei crescer no peito um infinito
morri da morte lenta do desejo
e em cada beijo abafei um grito
Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira
Inventei mil paisagens no teu peito
rebentei de loucura e fantasia
quando me olhavas devagar com esse jeito
e eu descobri tanta coisa que não via
Havia em ti uma forma grande de incerteza
que conseguias converter em alegria
havia em ti um mar salgado de beleza
que me faz sentir saudades em cada dia
Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira

(93) - Fidel Castro e o 'Conceito de Revolução'

 

Mural em Cuba

O trecho pintado no mural representa o «Concepto de Revolución» completo na sua versão mais famosa (a definição síntese). No entanto, ele faz parte de um discurso político muito mais longo proferido por Fidel Castro no dia 1 de maio de 2000, na Tribuna Abierta de la Juventud, los Trabajadores y todo el Pueblo (Praça da Revolução, em Havana). O discurso original completo tem cerca de 4 000 palavras e abordava temas da época (como a crise do caso do rapaz Elián González, as críticas aos Estados Unidos e a situação dos médicos cubanos no estrangeiro). Na parte final, Castro faz a síntese teórica da Revolução. Na fase final do seu mandato, Castro sintetizou em 13 pontos/postulados a definição ética, política e filosófica do que significava a Revolução Cubana para o país e para o futuro.

A passagem completa e exata que define o Conceito de Revolução — tal como ficou gravada e transcrita integralmente na fachada — é a seguinte: 

«Revolución es sentido del momento histórico; es cambiar todo lo que debe ser cambiado; es igualdad y libertad plenas; es ser tratado y tratar a los demás como seres humanos; es emanciparnos por nosotros mismos y con nuestros propios esfuerzos; es desafiar poderosas fuerzas dominantes dentro y fuera del ámbito social y nacional; es defender valores en los que se cree al precio de cualquier sacrificio; es modestia, desinterés, altruismo, solidaridad y heroísmo; es luchar con audacia, inteligencia y realismo; es no mentir jamás ni violar principios éticos; es convicción profunda de que no existe fuerza en el mundo capaz de aplastar la fuerza de la verdad y las ideas.

Revolución es unidad, es independencia, es luchar por nuestros sueños de justicia para Cuba y para el mundo, que es la base de nuestro patriotismo, nuestro socialismo y nuestro internacionalismo.»

No mural o o artista  'partiu' em linhas na parede, aproveitando a pontuação (os pontos e vírgulas) e o início de cada oração com a palavra "es" para formatar o painel como se fossem versos de um poema, adaptando a prosa ao espaço vertical do portal da fachada.

(92) - Martí e Fidel - Luchar contra lo impossible y vencer


Luchar contra lo impossible y vencer - Mural de propaganda política del régimen cubano. 

* Gemini 

A imagem mostra um mural político e ideológico em Cuba composto por três símbolos principais:

  • Fidel Castro: Representado à direita, com a sua clássica boina verde e barba, líder da Revolução Cubana.

  • Busto de José Martí: Fixado na parede, à esquerda acima da bandeira, representando o herói nacional cubano e poeta que inspirou a luta pela independência no século XIX.

  • Bandeira de Cuba: No centro, onde se une simbolicamente a figura histórica de José Martí ao movimento revolucionário moderno.

para a série «Letras na 'arte urbana'», existem excertos e citações diretas de José Martí e de Fidel Castro que dialogam perfeitamente com a frase e os elementos visuais do mural (luta, superação do impossível, patriotismo e unidade).


terça-feira, 25 de agosto de 2026

(91) John Lennon - 'Give Peace a chance'

 

 Setúbal, Avenida Manuel M Portela Acampamento pela Paz  'Dêem uma oportunidade à Paz' (Foto victor nogueira 2024 04 10 IMG_4375).

* Victor Nogueira / Gemini


A frase escrita na parede remete.nos para a um hino pacifista lançado em 1969 pela Plastic Ono Band, concebido por John Lennon e Yoko Ono durante o famoso protesto Bed-In for Peace em Montreal. A letra enumera de forma acelerada diversos temas sociais, políticos, religiosos e culturais da época para defender que, acima de todas as discussões e ideologias, a prioridade deve ser dar uma chance à paz.

A mensagem central traduz-se no seu célebre refrão:

"All we are saying is give peace a chance"

(Tudo o que dizemos é dêem uma oportunidade à paz)


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(90) José Régio - Coimbra em Edmundo Betencourt e José Régio

* ictor Nogueira / Gemini 


Fotos victor nogueira - Coimbra Casas com História – Edmundo Bettencourt (Foto victor nogueira 2000 F1060041)

Neste prédio habitou / enquanto escolar de Direito / o poeta e cantor presencista / Edmundo de Bettencourt

Gritos de cristal e oiro
Que o Betencourt alto erguia
Que é da roda que algum dia
Vos sabia acompanhar! “ (José Régio)

Homenagem da Academia de Coimbra / aos trovadores presencistas / da década de oiro / Artur Paredes Albano Nogueira / Afonso de Sousa e Guilherme Barbosa / que ao lado de Bettencourt / ergueram um canto novo

Na tomada da Bastilha 25 – 11 – 1988
D.G. da A.A.C.

"Balada de Coimbra" é uma elegia nostálgica em que o poeta evoca o ambiente boémio e académico da cidade universitária. Ao longo do poema, Régio percorre lugares emblemáticos — como o Penedo da Saudade, a Quinta das Lágrimas, o Choupal e a Sé — evocando a memória de estudantes, amantes e músicos que por ali passaram. A estrofe da lápide surge no clímax dessa homenagem, imortalizando a genialidade de Artur Paredes na guitarra e o timbre inconfundível de Edmundo de Bettencourt no fado de Coimbra.

(89) Representações de Álvaro Cunhal 03 - A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche

 

Setúbal  - Memorial comemorativo do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal (2013), (Foto victor nogueira  IMG_1522)

Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)

  • Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.

  • Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.


Euma poética de resistência militante, escrita por anónimos, operários e comunistas na clandestinidade (ou durante a prisão), dedicada a Álvaro Cunhal  e à lendária fuga do Forte de Peniche a 3 de janeiro de 1960.

1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)

Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:

  • Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):

«Caiu a grade, quebrou-se o muro,

rasgou-se o vento na noite fria.

O Duarte volta ao nosso lado, 

traz a promessa de um novo dia.

 

Peniche ruiu na sua vaidade, 

a maré alta não guardou a prisão: 

quem tem o povo na sua voz 

nunca esteve preso na amplidão.»

2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)

O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:

  • Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):

«Na cela fria onde o tempo para, 

não vergam a fibra do teu pensar.

Escreves no escuro, Duarte irmão, 

aquilo que o povo há de cantar.

 

A tua ausência é presença viva 

na nossa jornada contra a dor, 

por cada grade que te prende a carne, 

cresce no peito o nosso amor.»

3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade

José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:

  • Quadras populares clandestinas (1960):

«Peniche já não é fortaleza,

uma porta que se abriu, o camarada 

 Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.

 

Guardavam-no torres e marés,  

guardavam-no armas e sentinelas, 

mas a vontade de um povo livre 

consegue saltar todas as janelas.»

(Gemini) 

(88) Representações de Álvaro Cunhal 02 - Pablo Neruda - 'A làmpada marinha'


.Palmela - Mural  da JCP 'Não ao aborto clandestino' (Foto victor nogueira  IMG_8596)


 * Pablo Neruda

Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
 
Como é isto?
 
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
 
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
 
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
 
aprenderás de novo a ser estrela.


(87) Representações de Álvaro Cunhal 01 - Eugénia Cunhal - 'Quando vieres'



Palmela Mual de homenagem a Álvaro Cunhal -(foto victor nogueira   em 2021 12 18 Canon 199_12)IMG_8593) 

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

(86) Fidel Castro - A História me absolverá (1953)

 

Nápoles - Mural em homenagem a Fidel Castro Ruz A História me absolverá

* Gemini 

  • A HISTÓRIA ABSOLVER-ME-Á (frase famosa de Fidel Castro, também traduzida comumente como A história me absolverá).

Textos secundários:

  • BEM-VINDO FIDEL (repetido duas vezes no muro à esquerda).

  • Viva Cuba ★ Viva Fidel (manuscrito em pequeno sobre o mapa, à direita).


  • O Discurso (1953): É a defesa oral proferida por Fidel Castro em tribunal a 16 de outubro de 1953, quando foi julgado pelo assalto ao Quartel Moncada contra o regime de Fulgêncio Batista. A famosa frase fecha a sua intervenção: "Condenai-me, não importa, a História absolver-me-á".

  • O Livro (1954): Enquanto cumpria pena na prisão da Isla de Pinos, Fidel reconstituiu e redigiu o discurso de memória. O texto foi retirado de forma clandestina da prisão em cartas escritas com sumo de limão (tinta invisível) e publicado em 1954 sob a forma de manifesto/livro, tornando-se o programa político do seu movimento.

O texto integral de «A História Absolver-me-á» é um documento histórico extenso, com mais de 30 000 palavras e cerca de 100 páginas impressas, o que torna inviável a sua publicação completa numa única mensagem. Eis  os pontos-chave, da intervenção de Fidel Castro, incluindo transcrições da mesma..
  • A introdução: Onde Fidel critica o julgamento à porta fechada e a violação dos direitos de defesa.

  • As medidas revolucionárias: Os 5 pontos económicos e sociais propostos para Cuba (reforma agrária, industrialização, habitação, educação e saúde).

  • O encerramento: A emblemática passagem final onde pronuncia a frase histórica


Rezgar Akrawi - inteligência artificial Revolução ou escravidão silenciosa?

 inteligência artificial

Revolução ou escravidão silenciosa? Como os algoritmos remodelam a consciência ao serviço do capital

22 de agosto 2026 - 12:51

A submissão da humanidade ao controlo da máquina já não é uma mera suposição filosófica, pois tornou-se cada vez mais real perante os avanços da inteligência artificial e a ausência de controlos jurídicos internacionais eficazes que regulem o seu funcionamento.

* Rezgar Akrawi


domingo, 23 de agosto de 2026

(85) Textos para um mural


Mural em Setúbal na Rua Edmond Bartissol, reconstituído pelo  Gemini a partir de 4 fotos de Victor Nogueira


* Victor Nogueira / Gemini

As fotos são de 2019, na Rua Edmond Bartissol, onde se localiza a casa onde presumivelmente nasceu o poeta setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage e o mural, estilo naïf, foi pintado no murete que a separa do Largo de S. Domingos. Nele se inscrevem várias frases: Todos nós fazemos a diferençaAqui somos felizes - Casa BocageMude e o Mundo muda. Inserido no projecto Setúbal Mais Bonita,  este mural foi pintado em 2019  por iniciativa do Centro Comunitário de S. Sebastião

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O MUNDO É COMPOSTO DE FAZENDA E MUDANÇA (Victor Nogueira)


 Cada um de nós é só ele próprio

E a sua boa ou má circunstância,

Procurando em tudo uma substância,

Com arte ou não, o alfa milenário.

 

Há na terra quem faça santuário

Do sentir ou razão, em abundãncia;

Mas é do cacau terna a fragância

Do fado ter um bom ou mau solário.

 

O tempo bem diz que é tudo ilusão;

O amor, doçura, felicidade,

Em lixo ou pó substanciando.

 

Honra, beleza, sentir, no caixão;

Erramos, pelo campo ou na cidade,

No mundo, bem ou mal, vagueando.

  Pinhal Novo 1989.09.10