sábado, 29 de novembro de 2025

25 de Novembro: entrevista a Vasco Louerenço

"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"

Tiago Palma

25 nov,2025

ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota


Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.

Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século depois, o coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”: “Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de Abril". 

Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a 1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos partidos.

O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares. Para quase todos, o episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.

É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.

Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço, não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil”, considera Vasco Lourenço.

Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos ‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.

Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?

Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril, aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo. Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto, de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25 de Abril.

 

Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é que foi, exatamente, o 25 de Novembro?

Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente, resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez — quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de Estado nenhuma.

 

Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?

Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também, de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa: a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer — tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000, eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta, ser atribuída ao COPCON.

 

Uma solução pacífica, portanto.

Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído —, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível? Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que, entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois tratamos disso'.

 

Mas a tensão foi aumentando.

A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -, mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura, convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a 'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento. Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe, ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa justificação'.

 

Só que transformaram as sessões de esclarecimento em ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...

O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.

 

Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou ali e acabou por não escalar noutros sítios?

Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém, eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém, ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a querer sangue, conseguissem sangue.

 

Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?

Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28 de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo, fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante operacional] conseguiu evitar.

 

E aí seria um banho de sangue.

Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.

 

Mas voltemos às mortes na Ajuda.

Foram três minutos.

 

Três minutos?

Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito 'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam: quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar. Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que não pertencia à unidade.

 

Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.

Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos — como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve essa situação.

 

E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?

Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação; estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa: apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã, a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário', porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e deram origem a isso.

O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo, trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o 25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável ao 25 de Abril. É assim?

O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os 'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo, queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia 29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz 'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25 de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo, inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975 para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a correr com o PCP e com a extrema-esquerda.

 

Não é totalmente verdade.

Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização. Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje. E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'. Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches, como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril. Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não se deu tanto por isso mas aconteceu.

 

Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?

Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o 28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça, acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno, de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que, também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem atingir os seus objetivos.

 

O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?

Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso. Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura, quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado democraticamente.

 

São os netos dos “falcões”?

[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um 'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25 de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios 'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…

 

Insubordinar-se.

Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me diz respeito, faço-lhes frente.

 

https://cnnportugal.iol.pt/25-de-novembro/vasco-lourenco/os-sobrinhos-dos-falcoes-da-extrema-direita-acham-que-podem-alcancar-agora-o-que-nao-conseguiram-alcancar-no-25-de-novembro/20251125/69247264d34e3caad84ba133? 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

William Schryver - O Presidente da Paz Imaginário

 * William Schryver

27 de novembro de 20- 25

Uma das afirmações mais comuns sobre o governo Trump 45 é que "ele não iniciou nenhuma guerra nova".

Isso é comprovadamente FALSO.

Durante seu primeiro mandato, Trump se tornou o principal agente causal de todos os conflitos atuais com a Rússia, a China, o Irã e a Venezuela.

Ele não apenas manteve a trajetória desses conflitos estabelecida pelas administrações americanas anteriores, como também aumentou drasticamente a tensão e acelerou o ritmo da marcha para a guerra.

Ucrânia

Na Ucrânia, entre 2017 e 2021, os preparativos já iniciados para a #MãeDeTodosOsExércitosPorProcuração foram ampliados e acelerados a um nível sem precedentes.

Quase duas dezenas de bases secretas de inteligência dos EUA foram estabelecidas em todo o leste da Ucrânia. Um grande número de militares ucranianos participou de programas de treinamento EUA/OTAN. Oficiais ucranianos foram instruídos no uso de comunicações EUA/OTAN e dados de inteligência/vigilância/reconhecimento (ISR). Uma cadeia de comando foi estabelecida de Kiev até o quartel-general EUA/OTAN na Base Aérea de Ramstein, na Alemanha. Armamento pesado americano foi pré-posicionado na Polônia, e acordos preliminares foram firmados com antigos países do Pacto de Varsóvia (muitos deles agora membros da OTAN) para fornecer à Ucrânia artilharia, blindados, munições e aeronaves de combate soviéticos.

As tropas ucranianas foram introduzidas ao uso de mísseis guiados antitanque Javelin, obuseiros M-777 de 155 mm e sistemas de lançamento múltiplo de foguetes HIMARS.

Algumas aeronaves soviéticas antigas da Força Aérea Ucraniana foram modificadas para transportar e lançar mísseis dos EUA/OTAN.

O enorme complexo de fortificações na região de Donbass foi ampliado e reforçado.

Alguns milhares de "contratados" dos EUA/OTAN foram integrados às forças armadas ucranianas, com preferência para as brigadas neonazistas mais radicais, consideradas as unidades de "elite" das Forças Armadas da Ucrânia.

O foco estratégico durante todo o governo Trump foi concluir a preparação das forças armadas ucranianas para atacar e esmagar os separatistas pró-Rússia em Donbass e, em seguida, retomar a Crimeia, que os russos haviam tomado após o golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos em Kiev, em 2014 – e que foi formalmente reintegrada à Federação Russa como resultado de um referendo popular com ampla maioria.

Trump chegou a se gabar de ter sido ele quem começou a armar os ucranianos em uma escala muito maior do que Obama jamais havia feito.

“Fui eu quem forneceu os mísseis Javelin. Lembram-se dos famosos Javelins? Fui eu. Não foi o Obama. Não foi o Biden. Não foi ninguém mais. Fui eu. E eles destruíram muitos tanques com esses Javelins. A expressão era: 'Obama deu lençóis'. E eu forneci os Javelins. Isso foi muito importante na época. Foi no começo, quando as pessoas disseram: 'Uau, isso é impressionante!'. Bem, aquilo era equipamento americano. Sem equipamento americano, esta guerra teria terminado muito rapidamente.”

Presidente Donald J. Trump, Conferência de Imprensa no Salão Oval, 26 de fevereiro de 2025

Aqui está o vídeo completo de onde foi retirada a citação acima:

Este é um fato irrefutável: o governo Trump 45 acelerou e tornou inevitável a guerra cujo estopim final foi aceso no início de fevereiro de 2022, quando os ucranianos iniciaram uma escalada de artilharia em larga escala contra o que alegavam ser posições da milícia de Donbass, mas que eram indistinguíveis de alvos civis aleatórios.

A combinação de todos esses fatores obrigou os russos a agir de forma decisiva (e mais cedo do que desejavam) para ampliar sua presença estratégica na região.

Todos aqueles que afirmam que Trump não tem culpa na guerra na Ucrânia ou desconhecem os inúmeros fatos objetivos, ou os negam.

Diversas vozes geopolíticas proeminentes já alertavam sobre a possibilidade de uma guerra na Ucrânia mesmo antes de Victoria Nuland, John McCain, Lindsey Graham e outros marcharem pelas ruas da Kiev conquistada em 2014.

 

E durante toda a guerra civil que se seguiu, até a intervenção russa no final de fevereiro de 2022, agentes de inteligência e forças especiais dos EUA/OTAN atuaram na Ucrânia, apoiando as movimentações militares do governo de Kiev em Donbass.

A crise tornou-se cada vez mais aguda ao longo do primeiro mandato de Trump, mesmo quando os objetivos gêmeos de subjugar o Donbass e retomar a Crimeia se tornaram cada vez mais evidentes.

Como publiquei no Twitter em abril de 2021:

A Ucrânia tem duas opções: aceitar seu papel como um estado-tampão ou ser desmembrada. Se os EUA a incitarem a tentar subjugar o Donbass, a Rússia irá separar o leste da Ucrânia e assimilá-lo — e não há *nada* que os EUA possam fazer para impedir isso.

Na verdade, as grandes guerras geoestratégicas entre Estados-nação sempre levam décadas para se concretizar. Assim foi no caso da guerra na Ucrânia.

Mas a trajetória inevitável da guerra foi traçada durante o PRIMEIRO mandato de Donald Trump na Casa Branca. Trump é mais responsável pela Guerra da Ucrânia do que Joe Biden pela sua caneta automática. Ao menos Trump demonstrou um grau modesto de coerência em seu primeiro mandato.

A aparição de Joe Biden, atordoada e confusa, simplesmente assistiu, estupefata, aos eventos há muito predestinados passarem diante de seus olhos vazios.

China

Uma das primeiras ações de Trump após sua posse em 2017 foi anunciar a venda para Taiwan de mísseis antinavio Harpoon, mísseis de defesa aérea naval SM-2 e SM-3, torpedos MK-48 e sistemas de radar avançados.

Em 2019, com grande alarde, Trump anunciou a venda de 66 caças F-16V para Taiwan.

 

Em 2020, Trump anunciou a venda de ainda mais mísseis antinavio Harpoon, sistemas HIMARS e drones MQ-9B.

Durante seu primeiro mandato, Trump também enviou cerca de 300 operadores das forças especiais do Exército e da Marinha dos EUA para Taiwan. Desde o início de seu segundo mandato, esse número aumentou para mais de 500, incluindo contingentes substanciais em Penghu e na ilha de Kinmen, que fica a apenas dez quilômetros da costa chinesa.

b

O estacionamento permanente de um batalhão inteiro de tropas americanas em Taiwan era algo sem precedentes antes do primeiro mandato de Trump. E, compreensivelmente, é considerado pela China uma provocação sem precedentes. Consequentemente, os preparativos chineses para uma possível guerra em suas águas territoriais e arredores foram intensificados consideravelmente.

E, naquela que é possivelmente a sua jogada estrategicamente mais mal aconselhada, Trump 45 iniciou a guerra comercial e retórica com a China, que continua até os dias de hoje.

Já circulam rumores generalizados de que o Departamento de Guerra dos EUA está preparando um bloqueio naval às importações de energia da China — um ato de completa loucura.

Irã

Trump, em conjunto com os israelenses, iniciou a grande guerra com o Irã, que continua até hoje — embora atualmente esteja em um de seus intervalos típicos.

Naquele que considero o ato de guerra mais descarado de seu primeiro mandato, Trump ordenou o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, em 3 de janeiro de 2020, no aeroporto de Bagdá.

 

Soleimani estava em missão diplomática em Bagdá a convite do primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, que atuava como intermediário entre os sauditas e os iranianos, que trabalhavam para reduzir a escalada dos ataques com drones e mísseis realizados por milícias iraquianas contra bases americanas no Iraque e a Zona Verde em Bagdá.

Soleimani estava viajando para entregar a resposta oficial do Irã a uma proposta de mediação da Arábia Saudita.

Em 31 de dezembro de 2019, aparentemente em apoio a essas iniciativas saudita-iranianas para amenizar a situação no Iraque, o presidente Trump fez um telefonema pessoal para o primeiro-ministro iraquiano, Abdul-Mahdi. O líder iraquiano, por sua vez, telefonou para Soleimani para combinar uma reunião na Zona Verde, em Bagdá, marcada para a manhã de 3 de janeiro de 2020.

Soleimani e sua pequena comitiva viajaram abertamente em um voo comercial e foram recebidos no aeroporto pelo líder da milícia iraquiana Abu Mahdi al-Muhandis e alguns outros iraquianos. Enquanto Soleimani, al-Muhandis e outros oito se deslocavam do aeroporto para a Zona Verde em dois veículos, um drone americano MQ-9 Reaper disparou mísseis Hellfire, reduzindo todos eles a escombros.

O presidente Trump ordenou diretamente o ataque e, posteriormente, vangloriou-se publicamente de sua perfídia.

Soleimani era considerado um herói nacional no Irã e, possivelmente, a segunda figura política mais poderosa e influente do país na época, atrás apenas do aiatolá Khamenei.

Os iranianos ficaram justificadamente indignados.

Em 8 de janeiro de 2020, o Irã lançou um ataque com mísseis balísticos contra a base aérea americana de Ayn al-Asad, no Iraque. Cerca de 15 mísseis balísticos iranianos atingiram a base com uma precisão impressionante, embora fosse evidente que o ataque tinha um caráter meramente demonstrativo e que os iranianos evitaram deliberadamente matar soldados americanos.

Ainda assim, a potência do ataque claramente surpreendeu tanto os americanos quanto os israelenses, resultando em uma diminuição dos ataques dos EUA e de Israel contra alvos iranianos até 1º de abril de 2024, quando os israelenses mataram sete oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana em um ataque com mísseis contra a embaixada iraniana em Damasco.

Duas semanas depois (13 e 14 de abril de 2024), os iranianos lançaram um ataque massivo e sem precedentes com mísseis contra Israel. Isso levou diretamente a uma série de confrontos entre Israel e Irã que ocorreram ao longo dos meses seguintes, culminando na chamada Guerra dos Doze Dias entre os EUA/Israel e o Irã, de 13 a 24 de junho de 2025.

É claro que é preciso entender que esta guerra entre os EUA/Israel e o Irã AINDA NÃO acabou. Ela está apenas em um breve hiato, e há indícios nos últimos dias de que Israel está planejando novos ataques contra o Irã.

Mas não se enganem, o evento catalisador para essa guerra drasticamente intensificada com o Irã foi o assassinato traiçoeiro de Qasem Soleimani por Trump em 3 de janeiro de 2020.

Venezuela

Trump começou a expressar publicamente seu desejo de entrar em guerra contra a Venezuela e de se apoderar de seu petróleo, no máximo, em julho de 2017. Isso se tornou um tema recorrente para ele, culminando na tentativa fracassada de golpe de Estado de 2019 contra Nicolás Maduró, quando os EUA tentaram instalar o fantoche Juan Guaidó como líder da Venezuela.

Trump teria dito:

“Não entendo por que não estamos olhando para a Venezuela. Por que não estamos em guerra com a Venezuela?”

“É com esse país que deveríamos entrar em guerra. Eles têm todo esse petróleo e estão bem na nossa porta dos fundos.”

A linguagem belicosa de Trump em relação à Venezuela continuou durante todo o seu primeiro mandato e, como resultado, os aliados de longa data da Venezuela, Rússia, China e Irã, começaram a fortalecer de forma mais agressiva as capacidades militares venezuelanas, antecipando um eventual ataque dos EUA e uma potencial invasão do país sul-americano que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.

Agora, enquanto escrevo aqui no Dia de Ação de Graças de 2025, os Estados Unidos posicionaram uma enorme frota naval e uma força de desembarque de fuzileiros navais na costa da Venezuela, e parece quase certo que as operações militares contra o regime de Maduro começarão em breve, com o objetivo declarado de instalar um novo governo fantoche cuja suposta líder, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, preparada pela CIA, pediu explicitamente uma invasão americana da República Bolivariana e prometeu permitir que os EUA assumam o controle do petróleo, ouro e outras riquezas minerais da Venezuela.

 

O Comando Sul (SOUTHCOM) chegou a produzir um vídeo promocional bem elaborado para a próxima guerra contra a Venezuela:

O Presidente da Paz Imaginário

Trump, consumido por sua própria ânsia de se tornar um laureado com o Prêmio Nobel da Paz, vem afirmando há meses ter encerrado nada menos que oito guerras imaginárias.

Na realidade, o presidente Donald J. Trump demonstrou ser um dos presidentes americanos mais propensos a agir impulsivamente que já vi (Eisenhower ainda era presidente quando eu nasci).

Incrivelmente, ele optou por entrar em conflito com os adversários mais poderosos que os EUA enfrentaram desde a Segunda Guerra Mundial: Rússia, China e Irã. E, pior ainda, catalisou a formação de uma aliança militar e econômica imbatível entre essas três potências civilizacionais em ascensão, mesmo enquanto o poderio militar americano se deteriorava ao seu ponto mais baixo desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

É claro que a maioria dos americanos possui conhecimento e compreensão sobre a guerra e o poderio militar dos EUA, tal como retratado durante décadas em filmes de Hollywood e videogames. Portanto, quando Trump se vangloria de ser a maior força militar dos Estados Unidos na história da humanidade, a vaidade americana é facilmente convencida de que não há nação na Terra que os EUA não possam subjugar com uma mão amarrada nas costas.

Nem Donald Trump, nem muitos americanos, percebem que não há mais guerras fáceis para lutar. Mas essa verdade perturbadora será exposta para todos verem daqui até o fim do último mandato do Presidente da Paz Imaginário.

https://imetatronink.substack.com/p/the-imaginary-peace-president? 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

hélder moura - (559) Que fazer com os pobres que não querem deixar de ser pobres?


  •  hélder moura
  •  26.11.25

Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

A imagem do pobre como submisso, bendito, sentado à porta da paróquiamantem-se até ao século XIV.

 A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.

Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.

O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.

Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

O princípio em que assenta o sistema político-económico dos EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos, com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava, o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges dedicados profissionalmente a serem pobres).

Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os demais pudessem exercer a virtude da caridade.

Esta imagem da época em que o pobre é apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades, dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em pessoas que se deslocam.

imagem é agora a do sobrevivente que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder, descobrindo o valor dos seus braços.

pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se, pressionarem, revoltarem-se.

A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.

Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o da responsabilidade social da república para com os pobres, e o da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de Caridade.

Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único responsável por determinar como viria a ser a sua vida.

O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.

O conteúdo da ideia da caridade até então predominante encontrava-se esvaziado.

 

Em 1601Isabel I vai publicar a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.

Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho, onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do aparecimento das grandes empresas privadas.

 

 Os séculos XVII e XVIII prosseguem nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:

 “A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.

 “Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.

 “Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.

 

No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir, aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda a confiança em si depositada e a palavra dada.

Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de cada um.

A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido e famoso ‘equilíbrio de Nash’ (1950).

 Ficou assim demonstrado que é possível, e até desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados, uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu próprio egoísmo, sem leis nem polícias.

 

 No século XXI, em princípios de novembro de 2025, uma americana branca (Nikalie Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para 42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis ​​e quais as que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a ajudar.

Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de fórmula infantil de que necessitaria.

Quando a jornalista internacional australiana Caitlin Jonhstone publicou um post no X sobre o assunto, diz ela que recebeu “uma enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e alimentá-lo por conta própria”.

E que “Não acham que os pobres devam receber comida do governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos. Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

 

Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de existir.

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/559-que-fazer-com-os-pobres-que-nao-222717

Eduardo Maltez Silva - É sempre assim que começa ...




*   Eduardo Maltez Silva
 
 ·
É sempre assim que começa: não com um ditador a bater à porta, mas com pequenos sinais que a sociedade finge não ver.

Uma criança brasileira entra na escola e sai dela sem dois dedos, depois de meses a pedir ajuda que ninguém quis ouvir, a direção encolhe os ombros. 

Um jovem bombeiro é violado num quartel que deveria ser símbolo de coragem, com os seus superiores a gravar o vídeo da humilhação. 

Centenas de imigrantes são empurrados pelo Estado para a ilegalidade, para alimentarem máquinas de lucro de máfias que corrompem funcionários do estado. 

Militares da GNR são detidos por proteger redes que transformam pessoas desesperadas em escravos descartáveis.

Empresários sem escrúpulos pagam 80 euros por mês a um imigrante que o próprio Estado força a permanecer ilegal, apenas para alimentar os apetites de ódio que nos mergulharam nesta desumanização do outro.

Nada disto acontece porque “algo correu mal”. 

Acontece precisamente porque está a correr como alguns querem: uma sociedade desenhada para que os de cima pisem os de baixo, para que a violência pareça normal e a indiferença, inevitável.

E esta normalização do mal não nasceu do nada.

Foi semeada, regada e fertilizada por um discurso político que, há anos, ensina o país a culpar os mais fracos em vez de olhar para cima.

Há um padrão a consolidar-se, a humilhação dos fracos pelos fortes. 

Uma hierarquização moral, racial, económica, étnica e ideológica.

A paranoia colectiva repete sempre o mesmo refrão: o inimigo é o imigrante, o cigano, o pobre, a mãe solteira, o sem-abrigo, a pessoa que chega sem nada.

É nesses alvos — e nunca nos verdadeiros predadores — que a extrema-direita treina a raiva do país.

Quem está em baixo é convidado a pisar quem está ainda mais em baixo, com a promessa que assim sobe mais alto.

E assim, a crueldade pinga da política para a sociedade, e da sociedade para as instituições.

Nada disto é acaso; tudo isto é ideologia em prática.

Quando a extrema-direita repete que há “pessoas que valem menos”, que há “portugueses de primeira” e “intrusos”, que os problemas do país se resolvem “limpando” quem está em baixo, está a ensinar uma ética perversa.

Essa ética infiltra-se nos corredores das escolas, nos balneários dos quartéis, nas empresas de trabalho temporário, nas esquadras e até nos partidos que antes se diziam moderados.

De repente, já ninguém estranha um pacote laboral feito para o topo esmagar o fundo, nem uma reforma fiscal criada para aliviar os muito ricos e sufocar quem depende da escola pública ou do SNS.

O Estado desprotege imigrantes, impedindo a sua legalização para que possam ser explorados. 

Os impostos descem para quem tem mais, os serviços descem para quem tem menos. 

A justiça torna-se suave para os poderosos e brutal para os vulneráveis. 

As escolas dividem-se entre as dos meninos ricos e as dos meninos pobres.

Dividir. Hierarquizar. Dominar.

E a tragédia maior é que muitos dos que repetem estas ideias não percebem que estão a entregar a própria vida aos poderosos.

Defendem bilionários que nunca conhecerão, atacam trabalhadores iguais a si, culpam imigrantes que fazem os empregos que eles recusam e entregam o país a elites que só prosperam porque há uma massa de gente ocupada a odiar-se mutuamente.

O fascismo funciona sempre assim: recruta os fracos para proteger os fortes, oferecendo apenas a ilusão de poder — o poder de pisar alguém.

A sociedade dá sinais antes de implodir. Os partidos sociais-democratas e humanistas perdem eleições, nasce um ódio visceral por tudo o que seja socialismo, sem que a maioria perceba o que isso quer dizer.

A democracia vai sendo abafada por algoritmos, por TikToks de ódio, por influencers políticos que transformam racismo, xenofobia e violência num produto viral.
 
Os berros abafam a lógica.   

E esse veneno espalha-se até contaminar tudo: famílias, escolas, instituições, partidos, a linguagem do dia-a-dia... as nossas próprias crianças e jovens.

Quando finalmente acordamos, já a crueldade deixou de chocar. Já o discurso hierarquizante se tornou norma. Já a exploração passou a ser tratada como inevitável.

E um país que se habitua a esmagar os mais fracos não tarda a descobrir que a esmagadora maioria vive do lado dos esmagados... mas, nessa altura, será tarde demais.

2025 11 26
https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

António José Rodrigues - Os revanchistas de Novembro de 1975

*  António José Rodrigues

A decisão do governo da AD de constituir uma comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro configura mais um capítulo da operação de falsificação e de deturpação da história, por parte daqueles que nunca se conformaram com a Revolução de Abril. Na verdade, 50 anos depois aí temos muitos dos herdeiros do regime de Salazar e Caetano, agora de forma aberta, a animarem as comemorações do 25 de Novembro, os mesmo que foram objecto das benesses do fascismo, e que são hoje, no Governo e fora dele, os protagonistas da defesa dos interesses do grande capital.

A tentativa de apagar da memória do povo o 25 de Abril e substituí-lo pelo 25 de Novembro está bem patente nas afirmações do ministro da Defesa Nuno Melo, o homem forte das comemorações, as quais foi decidido alongar o período das comemorações por mais cinco meses, até Maio de 2026, para assegurar «que outras datas e acontecimentos só possíveis porque houve o 25 de Novembro venham a ser consideradas, como sejam a aprovação da Constituição da República e as eleições legislativas que deram lugar à primeira legislatura em 25 de Abril de 1976». Afirmações confirmadas na Resolução do próprio Governo.

Uma subtil mas pura mentira, considerando que as primeiras eleições legislativas decorrem da Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, em pleno período revolucionário, e foram fruto da Revolução de Abril. Eleições que a contra-revolução quis adiar para impor uma solução referendária anti-democrática, à laia da Constituição de 1933, elaborada a partir de cima e sem a participação dos eleitos pelo povo. O objectivo em prolongar até Abril as reaccionárias comemorações para assinalar as eleições de 1976 anunciadas como as primeiras, é claro: identificar o processo revolucionário como um período ditatorial. Exemplo de que o 25 de Novembro não pôs fim ao processo iniciado em 25 de Abril, como pretendiam as forças reaccionárias, foi a aprovação e a entrada em vigor da Constituição da República, traduzindo, não apenas, o resultado dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas o resultado da luta do povo português e das forças revolucionárias.

Daí que a Constituição da República ainda hoje, apesar de amputada por sucessivas revisões constitucionais promovidas pelo PS e PSD, continue a manter conteúdos profundamente progressistas, e por isso a ser o alvo preferencial da direita de todos os matizes. Os partidos de direita perseguem o objectivo de rever a Constituição da República, procurando retirar princípios e valores que esta encerra e atentar contra os direitos nela inscritos, com o supremo objectivo de consumar a reconfiguração do Estado ao serviço dos interesses do grande capital nacional e estrangeiro.

O «verão quente» de 1975, que antecedeu o 25 de Novembro, foi um período caracterizado por uma profunda crise político-militar, com graves repercussões no plano económico e social e que, no essencial, resultou da ruptura no campo democrático, com os dirigentes socialistas a assumirem uma posição de reserva e oposição à evolução do processo revolucionário e a liderarem um processo de divisão, quer do movimento democrático quer do movimento popular e sindical em que a acção provocatória do 1.º de Maio de 1975 é momento marcante. Mas também pela cisão no MFA, entre o Grupo dos Nove e a Esquerda militar, que conduziria à desagregação e paralisação das estruturas superiores do Movimento das Forças Armadas (MFA). Um objectivo há muito perseguido pelas forças de direita e da social-democracia, do Grupo dos Nove, mas também de sectores esquerdistas agrupados em torno de Otelo Saraiva de Carvalho, ao mesmo tempo que a Esquerda militar perdia posições importantes nos centros de decisão político-militar.

Uma situação que permitiu que se desenvolvesse um conjunto de acções contra-revolucionárias na tentativa de inverter o curso da Revolução de Abril, nomeadamente recorrendo ao terrorismo, de forma organizada, procurando semear a intranquilidade e o pânico, isolar as forças de esquerda, desestabilizar a situação política e pôr em causa a própria democracia. Uma acção terrorista que atingiu sobretudo o PCP e os sindicatos, e de que é impossível desligar, como pretendem alguns, as acções e iniciativas políticas que caracterizaram o chamado «verão quente» de 1975.

O balanço destas acções é público e conhecido. Em Julho tiveram lugar 86 actos terroristas, dos quais 33 assaltos, pilhagens e incêndios de Centros de Trabalho do PCP e outras 23 tentativas repelidas. Acções acompanhadas do lançamento de bombas, fogos postos e agressões. Em Agosto, mais de 153 acções, das quais 82 assaltos e destruições de Centros de Trabalho (55 do PCP e 25 do MDP/CDE), 39 incêndios, 15 bombas, 23 agressões.

Neste quadro, o 25 de Novembro de 1975 foi o corolário de um longo período de instabilidade, em que o agravamento da crise político-militar e a ofensiva contra-revolucionária decorrem em paralelo, nomeadamente com a queda do V Governo Provisório e o afastamento do general Vasco Gonçalves, também das estruturas superiores das Forças Armadas e do MFA. O afastamento de Vasco Gonçalves era um objectivo há muito perseguido, como nos retrata António Avelãs Nunes no seu livro O Novembro que Abril não merecia: «A pedido do grupo de Melo Antunes, Carlucci pressionava Costa Gomes no sentido de demitir o V Governo Provisório, substituindo o Primeiro-Ministro e afastando os comunistas do novo Governo, e instava os embaixadores da França, RU, e RFA para que também eles pressionassem Costa Gomes (“temos agora de nos interrogar de que lado está Costa Gomes ou, em qualquer caso, se ainda vale a pena preservá-lo”)».

Este longo processo que antecedeu o 25 de Novembro foi também marcado por várias tentativas e acções contra-revolucionárias, em que se destacam o golpe Palma Carlos, o 28 de Setembro e o 11 de Março, através das quais os seus autores e cúmplices as procuraram sempre justificar como sendo respostas a tentativas ou golpes do PCP. O 25 de Novembro não foi excepção.

Das várias provocações montadas neste período com o objectivo de responsabilizar os comunistas e o movimento operário e contra eles atear a ira popular, o assalto à Embaixada de Espanha é profundamente ilustrativo, enquanto o terrorismo bombista ganhava também um lugar de destaque, com a activa participação de militares e políticos, bem como de organizações como o MDLP-Movimento Democrático de Libertação de Portugal, inspirado e chefiado por Spínola, e o ELP-Exército de Libertação de Portugal, entre outras organizações terroristas e contra-revolucionárias que actuavam a partir do estrangeiro, nomeadamente do Brasil e de Espanha.

O 25 de Novembro foi sustentado numa grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada e que contou com o importante contributo de Mário Soares, principal promotor de uma vergonhosa campanha anti-comunista, realizada na base da mentira e de processos de intenções irreais, do PS e do Grupo dos Nove, onde participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, cujo objectivo era a instauração de uma nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente, a ilegalização e destruição do PCP.

A verdade é que, após o golpe do 25 de Novembro, a rápida tomada de consciência dos militares democratas dos riscos que a democracia corria, nomeadamente aqueles que tendo combatido a Esquerda militar não se identificavam com a direita reaccionária, conduziu à criação de uma nova linha de defesa da democracia, designadamente no seio das Forças Armadas, e impediu que o 25 de Novembro liquidasse a revolução portuguesa e as suas conquistas. Importa, a propósito, relembrar o papel do esquerdismo e de forças como o MRPP, a AOC ou o PCP(m-l) que se aliaram ao PSD e ao CDS, e acabaram por se revelar agentes da direita e da extrema-direita, sem esquecer que destes partidos emergiu um número infindável de figuras, de que Durão Barroso será o expoente máximo pelos elevados cargos que exerceu no plano nacional e internacional, mas que se estende por um número infinito de políticos, jornalistas, «comentadores» e «analistas», que hoje se albergam no bloco central de interesses e continuam, «coerentemente», anticomunistas e ferozes defensores do grande capital, que havia sido derrotado no 25 de Abril e no 11 de Março.

O 25 de Novembro, ao contrário do que muitos dos seus protagonistas disseram e escreveram e alguns continuam a insinuar, não foi um golpe promovido pelo PCP, pela Esquerda militar ou pela «ala gonçalvista» do MFA, mas sim um golpe militar contra-revolucionário, fruto de uma cuidada e longa preparação, no quadro de um tumultuoso processo de rearrumação de forças no plano político e militar.

Álvaro Cunhal, no livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), explica que, «como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se a tese do "recuo" – a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe. Essa tese do "recuo do PCP" é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas "abandonados pelo PC" à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral (O Antigo Regime e a Revolução).

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um, as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL1). Outro, uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política».

O PCP teve uma acção incansável no sentido de evitar o confronto, expressa em intervenções do seu secretário-geral, comunicados da sua Comissão Política e em variados documentos incluindo no próprio jornal Avante!, apontando uma saída política para a crise, propondo e concretizando encontros com todos os sectores, do PS (que recusou) aos agrupamentos esquerdistas, da Esquerda militar ao Grupo dos Nove e a militares esquerdistas ligados ao COPCON, embora sem resultados práticos.

Uma proposta que não obteve respostas, até porque o PS e os seus aliados tinham prosseguido as encenações e provocações com o objectivo de atingir e responsabilizar o PCP: primeiro, o caso do jornal República com os trabalhadores a tomarem posição contra a direcção do jornal e a orientação política por este seguida, tendo os dirigentes socialistas e os responsáveis do República, como então afirmou o PCP, «elementos mais do que suficientes para saberem que é uma calúnia tão torpe como absurda o atribuírem a responsabilidade da posição dos trabalhadores do jornal ao PCP»; depois, as manifestações no Patriarcado, resultado de algumas justas reivindicações profissionais do trabalhadores da Rádio Renascença não terem encontrado, por parte da hierarquia da Igreja, qualquer perspectiva de solução, com os comunistas a condenarem «todos os actos e atitudes que representam uma ofensa aos sentimentos religiosos do nosso povo». Na altura, o PCP sublinhou ainda «que sempre tem defendido e continua a defender a liberdade religiosa» sem, contudo, deixar de registar com preocupação uma nota pastoral dos Bispos, considerando-a uma «clara intromissão negativa na actual situação política, o que só poderá agudizar as dificuldades existentes».

Os acontecimentos do 25 de Novembro, porventura, nunca teriam acontecido se os golpistas liderados por Spínola não tivessem sido derrotados em 11 de Março, uma derrota que originou a imediata tomada de decisões históricas como a institucionalização do Movimento das Forças Armadas (MFA), a extinção da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, a criação do Conselho da Revolução, a nacionalização da banca, dos seguros e de empresas como a TAP, a CP, a CIDLA, a SACOR, e ainda o aumento do Salário Mínimo Nacional para quatro mil escudos. A democracia portuguesa escolhe o rumo do socialismo.

Após a derrota do golpe de 11 de Março, em «meados de Julho» de 1975, como nos relata o insuspeito historiador José Freire Antunes (antigo deputado e dirigente do PPD/PSD) no livro O segredo do 25 de Novembro, o então major Ramalho Eanes, usando o nome de «João Silva», faz um contacto telefónico com o tenente-coronel Tomé Pinto, que se encontrava na 2.ª repartição do Estado-Maior do Exército. Era o pontapé de saída para a constituição do «Grupo Militar» que haveria de promover o golpe do 25 de Novembro.

Curiosamente, o mesmo Tomé Pinto, agora tenente-general na reforma, foi escolhido por Nuno Melo para presidir à comissão das comemorações dos 50 anos do 25 de Novembro.

O golpe do 25 de Novembro significou a criação de uma nova situação política, uma viragem à direita na vida nacional, mas os mais ambiciosos objectivos contra-revolucionários foram derrotados. A força e a dinâmica do movimento operário e popular e a intervenção esclarecida do PCP foram factores determinantes para a contenção do golpe. Em lugar de reprimido e ilegalizado, o PCP continuou no Governo e a reforçar a sua influência social e política. A aprovação da Constituição e a sua entrada em vigor constituiu um factor de primeiro plano para travar os planos golpistas. Será com a formação do primeiro governo constitucional do PS sozinho, mas de facto aliado à direita, que se virá a institucionalizar o processo contra-revolucionário.


Revolução de AbrilEdição Nº 399 - Nov/Dez 2025

https://omilitante.pcp.pt/pt/399/447/2218/Os-revanchistas-de-Novembro-de-1975.htm? 


Mistificações em torno do 25 de Novembro

 
* Ana Sousa

 ·
Da responsabilidade do esquerdismo no 25 de Abril não se fala. Não se fala de um Otelo que abandonou os seus e foi para casa. Não se fala das mistificações de Vasco Lourenço a tentar retocar a sua imagem para a posteridade . Não se fala do ElP , do MDLP e de um Carlucci maestro e financiador da contra revolução a mando do Império . 

Os ditos historiadores que participaram nos acontecimentos fazem a história pelas lunetas da sua facção, como é o caso de um Rosas ou de um  Pacheco Pereira  , no Público , no seu mal disfarçado anti comunismo , diz-nos que por alturas do 25 de Novembro eram as forças esquerdistas que dominavam as ruas de Lisboa..Coitado, nenhum oftalmologista  o consegue curar

...Até descobriu um inexistente discurso secreto de Álvaro  Cunhal que  certamente lhe terá sido dado por Zita Seabra que o terá descoberto numa das suas peregrinações ao Santuário de Fátima .

Dos mais recentes não posso deixar de citar o livro da brilhante estúpida Varela que no seu militantismo trotsquista avant lá lettre ainda não percebeu o que é a relação de forças ou a correlação de forças. Valha-nos Deus e a Santíssima Trindade 


26 Novembro 2025 
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Aurélien -- Você não consegue chegar lá partindo daqui.

 

* Aurélien

Todas aquelas coisas chatas depois da derrota na Ucrânia.


Os especialistas têm nos proporcionado muita diversão inocente ultimamente, e gerado muita controvérsia interessante, ao opinarem sobre temas como possíveis planos de paz para a Ucrânia, possíveis golpes de Estado em Kiev, supostas tentativas ocidentais de substituir Zelensky, o impacto potencial de investigações de corrupção, hipotéticos futuros destacamentos de forças ocidentais na Ucrânia, e assim por diante. Tudo isso é (em sua maioria) diversão inofensiva, e mantém os especialistas, que precisam de audiência e dinheiro, mas não possuem qualquer conhecimento político ou militar, ocupados de forma inócua. Contudo, grande parte disso permanece no nível de especulação desenfreada.

Por outro lado, há vários anos venho tentando incentivar as pessoas a analisarem questões mais fundamentais e de longo prazo sobre as adaptações que o Ocidente terá de fazer em função de uma vitória russa e da preeminência militar da Rússia na Europa. Hoje, quero abordar uma questão que, até onde sei, sequer foi levantada, muito menos devidamente considerada. Se a relação entre a Rússia e o Ocidente após a Ucrânia for tensa e conflituosa, e se a possibilidade de um conflito aberto não for descartada, como podemos sequer compreender o que isso poderá significar e como, se é que é possível, podemos nos preparar para tal?

É claro que alguns políticos e especialistas já acreditam ter a resposta. Assim, fantasias de gastar 5% do PIB em defesa, planos mirabolantes para retomar o serviço militar obrigatório (ou algo parecido), tentar reconstruir a capacidade de produção militar, comprar mais deste ou daquele tipo de equipamento… certamente a resposta está aí em algum lugar, não é? Mas não está. Como já enfatizei repetidamente, nada disso faz sentido, e a maior parte é um desperdício de dinheiro, até que se reflita bastante e se tenha uma ideia clara do que se pretende alcançar. Caso contrário, é como ir a uma loja de jardinagem e voltar com uma coleção aleatória de ferramentas e plantas sem a menor ideia do que fazer com elas. Mas, para o Ocidente, é claro, o problema é ainda pior: imagine trinta famílias de diferentes tamanhos e rendas tentando decidir os detalhes de como, se é que é possível, recuperar um terreno baldio, e você terá uma vaga ideia dos problemas envolvidos.

Neste ensaio, abordarei três questões. Primeiro, como devemos entender essa conversa sobre conflito e até mesmo “guerra” entre a Rússia e o “Ocidente”, e é sequer possível discuti-la de forma sensata? Segundo, o que essa compreensão implicaria em termos práticos? E terceiro, supondo que as duas primeiras questões possam ser respondidas, o que seria realmente necessário caso se decidisse dar uma resposta? É evidente que essas questões são interdependentes e, em certa medida, se sobrepõem, mas tentarei, mesmo assim, abordá-las em uma sequência lógica e, em particular, utilizarei exemplos históricos. Quero enfatizar o quão impreciso é o conceito de “guerra” com a Rússia e como estamos vivendo um momento de incerteza estratégica sem precedentes, mesmo que nossos políticos e especialistas pareçam não perceber isso.

Para começar, já nem sabemos o que é “guerra”. Tecnicamente, claro, não existem mais guerras, exceto aquelas autorizadas pelo Conselho de Segurança. Em vez de “guerras”, que eram situações legais declaratórias , temos “conflitos armados”, que são situações objetivas definidas por níveis de violência em certas áreas. (Não temos tempo para entrar nos porquês e nos detalhes: basta dizer que essa simples mudança é evidentemente complexa demais para a maioria dos políticos e especialistas compreenderem.) Mas os velhos hábitos de pensamento persistem, e especialistas falam da Grã-Bretanha ou da França “em guerra” com a Rússia, enquanto políticos dizem acreditar que uma “guerra” pode “eclodir” na próxima década, mesmo que nenhum dos dois tenha muita ideia do que isso significa.

Vamos tentar dissipar um pouco a confusão dizendo que o que está sendo invocado aqui é a ideia de que, em algum momento num futuro próximo, forças ocidentais e russas poderiam entrar em confronto, levando a uma troca de tiros, possíveis baixas e uma possível escalada para um conflito maior. Se isso corresponde ou não à compreensão popular de "guerra" é irrelevante, principalmente porque um simples choque entre aeronaves sobre o Mar do Norte seria suficiente, por si só, para gerar uma crise diplomática no Ocidente, mesmo que a situação não se deteriorasse ainda mais.

O problema é que, essencialmente pela primeira vez na história, não temos ideia de como seria um conflito sério com outro Estado (ou "guerra", se preferir) na prática, nem como, ou mesmo por que, ele seria travado. Assim, a "guerra" com a Rússia hoje é apenas uma espécie de conceito existencial. Durante a maior parte da história da humanidade, não foi assim. No século XVIII, na Europa, a guerra era uma questão de objetivos políticos, batalhas planejadas, exércitos profissionais, campanhas eleitorais, tratados de paz e ganhos e perdas. As consequências a longo prazo da Revolução Francesa e a crescente sofisticação dos governos fizeram com que, no final do século XIX, a guerra fosse vista como um empreendimento contínuo, com grandes exércitos de recrutas, travada por objetivos importantes, geralmente territoriais. Antes de 1914, a guerra era vista principalmente como algo relacionado à industrialização, à mobilização de forças muito grandes, ao transporte ferroviário e a um conflito longo e sangrento. (É um mito que os exércitos europeus em 1914 esperassem uma guerra curta, embora certamente desejassem que fosse.) Antes de 1939, a guerra era concebida como algo que exigia toda a capacidade de uma nação, envolvendo destruição massiva e o uso de novas tecnologias, como aeronaves, além do potencial de exterminar a civilização europeia. Além de divagarem sobre drones, poucos dos especialistas de hoje parecem ter sequer a mais remota ideia de como um conflito futuro poderá ser, o que talvez seja perdoável no momento, ou mesmo de terem pensado nisso de forma organizada antes de escreverem algo, o que não é.

A questão aqui não é que estudos, planos, exercícios etc. impliquem previsão. Essa é uma suposição comum, mas está errada. O ponto é que você precisa ter algumas premissas básicas sobre a natureza e a extensão de qualquer conflito em que possa se envolver, ou simplesmente não conseguirá planejar nada. Essas premissas podem ser parcial ou até mesmo totalmente invalidadas com o tempo, mas pelo menos fornecem uma base para o trabalho e para que os militares elaborem planos. Não faz sentido a liderança política pedir aos militares que "planejem para a guerra" sem essas premissas mínimas: seria o mesmo que ir a uma seguradora e pedir "uma apólice de seguro". Vejamos alguns exemplos.

O fator que mudou tudo após a Primeira Guerra Mundial foi o bombardeiro tripulado, cuja capacidade de "ultrapassar" fronteiras e até oceanos, lançando bombas diretamente sobre cidades, aterrorizou tanto os governos quanto o público em geral. Medidas de defesa passiva, na medida do possível, foram tomadas e, num vislumbre precoce da teoria da dissuasão, discutiu-se a construção de bombardeiros de longo alcance para desencorajar potenciais inimigos. Naquela época, porém, não havia defesa contra tal ataque: o político britânico Stanley Baldwin foi muito ridicularizado por sua declaração de 1932 de que "o bombardeiro sempre conseguirá passar", mas ele não disse nada além da verdade. Como Baldwin apontou, mesmo com caças em alerta máximo, quando estes pudessem ser acionados e localizar seus alvos, os bombardeiros já estariam a caminho de casa. Contudo, essa constatação forneceu uma orientação para a futura política aérea britânica: desenvolvimento de caças de alta velocidade capazes de se comunicar com o solo e entre si, desenvolvimento de radares para alerta antecipado e formação de um sistema central de comando e controle para a defesa aérea. Ao mesmo tempo, a frota de bombardeiros foi enormemente expandida e novos tipos de aeronaves foram encomendados, na esperança de desferir um golpe rápido e decisivo contra a Alemanha. É verdade que a realidade acabou sendo um pouco diferente, como geralmente acontece, mas foi essencialmente essa estrutura que permitiu aos britânicos vencer a Batalha da Grã-Bretanha e que significou que eles começaram a guerra com um conjunto coerente de políticas e planos.

Em contraste, a enorme guerra convencional e nuclear na Europa, temida entre as décadas de 1950 e 1980, nunca chegou a ser travada. Mas ambos os lados levaram a possibilidade extremamente a sério, e por isso existiam planos e doutrinas coerentes para tal guerra. Isso era particularmente verdadeiro para a União Soviética, para quem essa seria a Grande Guerra: o conflito final, inconcebivelmente destrutivo, lançado pelo Ocidente num esforço desesperado para frustrar o triunfo mundial do comunismo e que definiria o futuro da humanidade. Esperava-se que a guerra fosse total, incluindo o que na época era descrito timidamente como uma “troca nuclear estratégica”, e que resultasse numa devastação pior do que a da Segunda Guerra Mundial, da qual levaria décadas para se recuperar. Mas a prioridade incondicional dada aos gastos militares, uma economia de guerra permanente e uma preparação antecipada massiva levariam a União Soviética à vitória. Se tiver interesse, você pode acompanhar essa mentalidade apocalíptica em todos os níveis dos preparativos militares soviéticos.

O Ocidente não pensava nesses termos e, por razões políticas, não podia, mas isso não o impediu de desenvolver doutrinas e estruturas que tentassem contrariar os preparativos soviéticos. Presumia-se que a União Soviética seria a atacante (o que, de fato, era sua doutrina) e que uma crise levaria semanas para se desenvolver. Isso significava que as forças da OTAN poderiam ser otimizadas para a defesa (portanto, tanques mais lentos e pesados, por exemplo) e que forças relativamente pequenas em tempos de paz poderiam ser complementadas por milhões de reservistas mobilizados, o que, incidentalmente, implicava um serviço militar obrigatório ou algo semelhante. Por sua vez, e importante para os dias de hoje, havia pouca necessidade de se preocupar com a logística da projeção de forças para a frente de batalha. A OTAN também dava muita importância ao poder aéreo, onde o considerava superior ao do Pacto de Varsóvia.

Felizmente, nunca saberemos como uma guerra desse tipo teria sido na prática, mas o fato de cada lado ter um conceito bastante preciso, e de isso ter servido de base para planos, estruturas de força, treinamento e exercícios, mostra o quão distantes estamos, em comparação, de qualquer reflexão organizada sobre um hipotético “conflito” futuro. Portanto, teremos que fazer isso por eles. Proponhamos que analisemos uma gama de possibilidades, desde confrontos de pequena escala entre forças russas e ocidentais, sem necessariamente causar baixas, até algum tipo de engajamento direto por terra e ar no continente europeu para objetivos limitados. Podemos supor conflitos de maior escala e abrangência, se quiserem, mas a realidade é que eles estão agora, e provavelmente sempre estarão, além da capacidade do Ocidente de conduzi-los. Nada do que se viu na evolução da doutrina militar ocidental desde 2022, muito menos na prática militar, sugere que o Ocidente sequer tenha começado a assimilar as lições do conflito na Ucrânia.

Antes de prosseguirmos, preciso enfatizar que definir os cenários militares para o planejamento é apenas parte da tarefa. A outra parte, muito mais difícil, é elaborar algum tipo de doutrina política e procedimentos para lidar com o surgimento de conflitos ou com a ameaça de um conflito. Fazer isso em nível nacional não é fácil. Fazer isso em nível internacional pode ser uma agonia. A única vez em que uma OTAN (bem menor) teve que enfrentar uma operação militar séria foi no Kosovo, em 1999, e isso quase destruiu a aliança. Tentar lidar, por exemplo, com uma exigência russa de que os navios da OTAN mantenham uma certa distância de embarcações russas em exercício, sob a ameaça de serem atacadas, provavelmente seria suficiente para paralisar o processo de tomada de decisão em Bruxelas após apenas alguns minutos de discussão, sem uma solução óbvia. Portanto, o primeiro objetivo, e um que eu acho que nunca alcançaremos, será um conceito político-militar da OTAN acordado para lidar com provocações, acidentes e escaladas com a Rússia.

Certo, mas vamos supor que sim. Que tipos de planos devemos orientar os militares a elaborar, para quais tipos de contingências? Aqui estão alguns exemplos e, mais uma vez, não os apresento como profecias. Em vez disso, são exemplos genéricos dos tipos de suposições necessárias para que toda essa conversa sobre "preparação para a guerra" se concretize de fato.

A primeira, que considero bastante realista, é o policiamento das fronteiras aéreas e marítimas. Uma grande potência militar, como a Rússia é atualmente, possui, em virtude desse status, uma capacidade de intimidação contra nações mais fracas, como as da Europa, ou os Estados Unidos, enquanto potência europeia. Essa capacidade é existencial, independentemente de ser usada deliberadamente ou não. Mas eu esperaria que os russos, tanto por princípios gerais quanto por razões específicas, sondassem as fronteiras aéreas e marítimas ocidentais, buscando interromper exercícios da OTAN, perturbar o tráfego marítimo e aéreo e assim por diante. Se os russos estivessem pressionando, ao mesmo tempo, por algum tipo de Tratado de Segurança Europeu que os favorecesse fortemente, então esse tipo de comportamento seria bastante lógico e razoável. Algum tipo de política da OTAN para responder a tais situações será necessária, e duvido que seja fácil de elaborar. Mas chegaremos às consequências práticas mais adiante.

Em seguida, há os cenários de fronteira terrestre, que poderiam envolver conflito direto entre as forças russas e da OTAN através de fronteiras internacionais. Na prática, esses cenários se limitam aos Estados Bálticos e à Finlândia, que, convenientemente, concedeu à OTAN uma extensa fronteira com a Rússia, que esta não consegue defender. Não precisamos nos preocupar, por ora, com a forma como tal crise poderia surgir, até porque a história sugere que essas tentativas costumam ser fúteis. Vale apenas ressaltar, talvez, que outro conflito na Geórgia também poderia provocar exigências, por parte de pessoas ignorantes e belicosas, pela intervenção da OTAN, e isso teria que ser levado em consideração, ao menos em teoria.

Por fim, haveria um conflito deliberado em larga escala entre a Rússia e a OTAN, por algum motivo que nem vamos abordar aqui. Na prática, isso teria que ser iniciado pela Rússia, porque a OTAN não tem forças nem capacidade logística para lançar um ataque por conta própria, mesmo que tivesse coesão política, como veremos adiante. Isso envolveria forças russas transitando pela Bielorrússia e Ucrânia e invadindo, provavelmente, a Polônia, a Hungria, a Eslováquia e a Romênia, antes de, possivelmente, ir além.

Neste ponto, quero abordar aspectos tediosos, porém essenciais para a compreensão, como mapas, distâncias, estradas e rotas de transporte aéreo e marítimo. O primeiro ponto a ressaltar é que não estamos falando da Guerra Fria. Naquela época, forças maciças eram mobilizadas, efetivamente frente a frente. Só a Bundeswehr (Forças Armadas Alemãs) podia mobilizar doze divisões em 48 horas (e em seu próprio território, é claro), além de unidades de defesa territorial. Belgas, holandeses e franceses já tinham forças posicionadas. Reforços (principalmente pessoal e unidades leves) chegariam por terra e trem para a batalha apocalíptica no que hoje é o centro da Alemanha. Os britânicos, com tropas ainda mais distantes, teriam transportado cerca de 40.000 soldados para reforçar suas quatro divisões, mas, novamente, a maior parte dos reforços era composta por pessoal ou unidades leves, e eles estavam a apenas algumas horas de Antuérpia. Praticamente nenhuma infraestrutura para isso existe hoje.

As forças do Pacto de Varsóvia também não tinham um longo caminho a percorrer. O Grupo de Forças Soviéticas na Alemanha, com cerca de 350.000 homens e mantido em alerta máximo permanente, deveria ser aniquilado nos primeiros dias de combate, por isso levaram consigo toda a sua logística. Esperava-se, então, que o segundo e o terceiro escalões conseguissem avançar até o Canal da Mancha, praticamente sem resistência. Em contraste, um ataque russo hoje contra a Polônia, através da Ucrânia ou da Bielorrússia, mesmo partindo de um ponto como Kharkiv, teria que avançar mil quilômetros apenas para chegar à fronteira polonesa. Isso talvez coloque em perspectiva as sugestões sobre uma "ameaça" russa à França ou ao Reino Unido.

Manteremos essa possibilidade em mente como teórica, sobretudo porque se trata de um caso extremo do que será um tema recorrente no restante deste ensaio: as distâncias, o terreno, a disponibilidade de forças, os problemas de reabastecimento logístico seriam uma ordem de grandeza mais graves do que qualquer operação militar já enfrentada, e os recursos disponíveis, mesmo no caso russo, são drasticamente menores do que em tempos recentes.

A realidade é que um conflito armado de grande escala entre a Rússia e o Ocidente seria travado predominantemente com mísseis e drones, e seria extremamente unilateral. Os russos não têm capacidade, se é que alguma vez tiveram, para invadir a Europa Ocidental com forças terrestres convencionais: aliás, eu argumentei, e continuo a acreditar, que mesmo a ocupação total da Ucrânia seria uma meta ambiciosa demais. Mas os mísseis e drones russos atuais, quanto mais os de um futuro próximo, poderiam atingir alvos ocidentais por terra, mar e ar: o Pentágono, o Palácio do Eliseu, o número 10 de Downing Street, todos seriam vulneráveis, e mesmo cobrir a superfície dos países ocidentais com baterias Patriot (se é que algum dia poderiam ser implantadas em tal número) não seria suficiente para detê-los. E basta olhar um mapa para perceber por que, mesmo que o Ocidente desenvolvesse mísseis semelhantes, suas aeronaves não conseguiriam se aproximar o suficiente para lançá-los. A geografia é implacável. Mas isso não é nenhuma novidade. Numa das partes menos estudadas do Livro 1 de Da Guerra , Clausewitz insistiu no “país” como um “elemento integrante” do conflito, e na importância de fortalezas, rios e montanhas para absorver forças que, de outra forma, estariam disponíveis para o combate: algo sobre o qual aqueles que reclamam da “lentidão” dos russos na Ucrânia fariam bem em refletir.

Para manter as coisas em proporções administráveis, vamos considerar o caso do destacamento de forças da OTAN em algum tipo de função “dissuasora” ou “preventiva”, no caso de um confronto que pudesse levar a combates reais. Os cenários mais óbvios incluiriam um conflito envolvendo os Estados Bálticos, a Finlândia ou ambos, e uma crise no Mar Negro com o possível risco de confronto naval e operações anfíbias contra a Bulgária e a Romênia. (Poderíamos incluir a Geórgia também para tornar as coisas um pouco mais interessantes.)

Então, o que é um papel “dissuasor” ou “preventivo” em tais situações? Como o próprio nome sugere, trata-se de uma atividade destinada a impedir que algo aconteça ou, no mínimo, a evitar que uma situação piore. Mas como fazer isso? Bem, existem dois elementos fundamentais. Primeiro, é preciso ser capaz de agir rapidamente; segundo, é preciso ter um plano de escalonamento visível para o caso de a dissuasão falhar. Caso contrário, a postura não será credível. Durante a Guerra Fria, e por um tempo depois, existiu uma unidade da OTAN chamada Força Móvel Terrestre do Comando Aliado da Europa. Era uma pequena unidade multinacional de alta prontidão, destinada a ser mobilizada rapidamente para os flancos da OTAN. Por razões políticas, praticamente todos os membros da OTAN designaram um contingente, mesmo que pequeno. Ela foi mobilizada muitas vezes em exercícios ao longo dos anos e provavelmente poderia ter sido mobilizada em uma crise real, desde que houvesse um acordo político. No entanto, ela tinha duas características importantes. Primeiro, seu componente terrestre era uma brigada leve de cerca de 5.000 homens. Seu potencial militar era, portanto, muito limitado, e seu objetivo principal era servir como um sinal político. No entanto, por trás da AMF(L) havia uma máquina militar muito maior, capaz de ser mobilizada com relativa rapidez. Assim, a mobilização da AMF(L) visava ser um aviso político: estamos prontos para lutar, se necessário, e a cavalaria não está longe.

É evidente que tal lógica não é possível hoje. De tempos em tempos, falava-se sobre o envio de forças “dissuasoras” europeias para partes da Ucrânia, e comentaristas entusiasmados frequentemente afirmavam que isso iria acontecer. Claro que não aconteceu, porque havia uma falha fundamental: se os russos não se intimidassem com a mera presença das forças europeias e simplesmente as ignorassem, quanto mais as atacassem, não haveria mais nada que o Ocidente pudesse fazer. Nessa situação, os russos teriam o que se chama de “domínio da escalada”, ou seja, poderiam passar a níveis progressivamente mais altos de violência, e o Ocidente não. Na prática, a própria força dissuasora proposta foi dissuadida de ser enviada. Podemos esperar uma história mais ou menos semelhante nos flancos da OTAN. Se quiserem, os russos sempre podem superar qualquer contingente da OTAN sem o menor esforço. A única esperança que tal envio teria é que os russos não desejassem um confronto armado com a OTAN por razões políticas mais amplas. Isso pode ser verdade, mas seria imprudente contar com isso, e, claro, depende de quão seriamente os próprios russos encaram a situação. Da mesma forma, nada impediria os russos de ameaçarem simplesmente aniquilar a força com mísseis e drones, a menos que ela fosse retirada, ou mesmo de ameaçarem destruí-la em seu caminho para a posição. Como essa é uma ameaça que eles de fato poderiam cumprir, configura uma postura de dissuasão.

O que nos leva à última parte deste ensaio. Suponhamos que, mesmo assim, se inicie o planejamento de uma operação desse tipo em algum ponto nos flancos da OTAN. O que ela envolveria e seria sequer possível? Minha argumentação é que as respostas são (1) mais do que você provavelmente pode imaginar e (2) não. Mas vamos detalhar um pouco mais.

Durante a Guerra Fria, as forças permanentes eram bastante numerosas: só o Exército Alemão contava com cerca de 350.000 homens em tempos de paz, e o francês um pouco mais, mesmo sem considerar os reservistas que podiam ser mobilizados rapidamente. Isso significava que grandes contingentes podiam ser destacados perto das fronteiras ou na própria Alemanha. As unidades permaneciam em seus postos por longos períodos (eu conhecia alguns oficiais britânicos que passaram quase toda a sua carreira operacional na Alemanha), desenvolviam sua própria infraestrutura e conheciam muito bem a área onde iriam lutar. Nem a OTAN nem o Pacto de Varsóvia precisariam "projetar" as forças para um futuro conflito: as mais importantes já estavam lá. A estrutura logística estava estabelecida, os sistemas de transporte eram altamente desenvolvidos e, em muitos casos, ambos os lados simplesmente haviam assumido o controle das instalações da antiga Wehrmacht.

Agora, se considerarmos um dos exemplos acima, o Exército finlandês normalmente se preocupa com o treinamento em tempos de paz (cerca de 20.000 recrutas por ano). Pelo menos no momento, não possui forças permanentes e profissionais que possam ser estacionadas em sua fronteira com a Rússia — que por si só tem mais de 1.300 quilômetros de extensão — e, portanto, depende da mobilização para qualquer resistência útil. Acontece que, durante a Guerra Fria, a fronteira entre a Alemanha Oriental e Ocidental tinha praticamente a mesma extensão: em tempos de paz, cerca de um milhão de soldados da OTAN estavam posicionados atrás dela.

Claramente, não se pode forçar muito a analogia. O terreno é, para dizer o mínimo, diferente da Alemanha, como o Exército Vermelho descobriu em 1939/40, assim como o clima (Clausewitz novamente). E o único objetivo plausível para os russos seria Helsinque, no extremo sul do país. Acima de tudo, o Exército Russo de hoje é uma fração do que era em 1939, quando mobilizou um milhão de homens apenas para essa operação. Por outro lado, se a OTAN quisesse "dissuadir" ou "demonstrar determinação" ao longo daquela que é hoje sua fronteira mais extensa com a Rússia, de longe, não teria muitas opções. Se as forças pudessem ser encontradas de alguma forma (veja o próximo parágrafo), uma presença permanente da OTAN no país, mesmo no sul, seria um empreendimento logístico fabulosamente caro e difícil, que exigiria talvez uma década de planejamento e construção e, provavelmente, na prática, se resumiria a uma presença apenas nos arredores de Helsinque, com incursões ocasionais fora dessa região.

Mas será que as forças necessárias seriam encontradas, de qualquer forma? Se quisermos uma força apenas simbólica — um batalhão multinacional, por exemplo — então a resposta provavelmente é “sim”. Mas seria um gesto puramente simbólico, sem qualquer significado militar e, como vimos, sem valor dissuasor. (Isso não significa que não vá acontecer, é claro.) Mas as chances de se mobilizar uma força internacional permanente de tamanho útil são remotas. Os exércitos são pequenos hoje em dia em comparação com a Guerra Fria, e há poucos indícios de que se tornarão significativamente maiores. Uma coisa é ter forças belgas mobilizadas na Alemanha durante a Guerra Fria, a poucas horas de casa. Outra é ter unidades de infantaria mobilizadas por alguns meses no Iraque ou no Afeganistão em condições de campo. Mas ter uma fração importante do seu Exército permanentemente mobilizada a milhares de quilômetros de casa em tempos de paz provavelmente está além da capacidade de qualquer Estado europeu hoje em dia, mesmo que fosse politicamente aceitável. Além disso, por que a Finlândia? Não deveríamos fazer o mesmo pelos Estados Bálticos, pela Polônia, pela Romênia e outros também, ou até mesmo em vez deles? As discussões, principalmente sobre financiamento, poderiam se estender por anos. (E acredite, isso é apenas a ponta do iceberg dos problemas.)

Como eles não vêm até nós, e como não podemos chegar até eles, a única maneira pela qual as forças ocidentais (incluindo as dos EUA) poderiam se encontrar "em guerra" com a Rússia seria se fossem mobilizadas em uma crise. Há, como você pode imaginar, alguns problemas com essa ideia. O tempo é o primeiro. Para reiterar, mesmo durante a Guerra Fria, um ataque de curto prazo não era considerado muito provável. Havia toda uma indústria de Indicadores de Alerta que as agências de inteligência de ambos os lados monitoravam, e presumia-se que a guerra se seguiria a um período de tensão política que poderia durar semanas. Assim, os exercícios militares da OTAN (e imagina-se que exercícios semelhantes em Moscou) incluíam uma análise minuciosa sobre quando a crise seria suficientemente grave para mobilizar e deslocar forças. Mas, repetindo novamente, as distâncias e os requisitos de transporte, e, portanto, os prazos naquela época, simplesmente não eram comparáveis ​​à situação atual. Além disso, as unidades eram mobilizadas para áreas que conheciam, juntavam-se a outras unidades já presentes, e os meios de transporte necessários para as distâncias relativamente curtas envolvidas existiam naquela época. Não existem mais.

Vamos nos deter nesse último pensamento. Afinal, embora não haja um aumento exorbitante nos gastos com defesa, nem uma expansão maciça das forças armadas, diversos governos planejam adquirir novos equipamentos ou mais dos mesmos, e é provável que haja um aumento modesto no tamanho e na capacidade das forças ocidentais, teoricamente para enfrentar a “ameaça” russa e enfrentá-la em operações militares. Mas a questão é se isso realmente faz algum sentido, e o argumento até agora sugere que não. Tais forças são pequenas demais e fracas demais para terem qualquer valor dissuasor, e seriam rapidamente aniquiladas em qualquer combate. Mas tudo bem, digamos que, por ser necessário “fazer alguma coisa”, a OTAN estabeleça algum tipo de força de intervenção pronta para se deslocar rapidamente para o local de um possível confronto e fornecer, pelo menos, uma resposta política e uma presença militar simbólica.

Ou talvez não. Lembre-se de que, durante a Guerra Fria, a orientação da OTAN era defensiva. Presumia-se que as forças da OTAN recuariam para suas próprias linhas de logística, utilizando boas estradas e rotas conhecidas. Embora houvesse a esperança de contra-atacar e, em última instância, expulsar o Exército Vermelho do território da OTAN, não havia intenção, e de qualquer forma não havia capacidade, para ir além. Assim, a logística foi relativamente negligenciada, e pouca atenção foi dada ao deslocamento, e nenhuma à projeção de força. Simplesmente não era necessário planejar a projeção de forças a centenas de quilômetros de distância, portanto, as capacidades, habilidades, equipamentos e pessoal para tal nunca foram desenvolvidos. Nos últimos trinta anos, houve apenas um esforço sério de projeção de força à distância, e esse foi o Iraque 2.0. Nesse caso, o deslocamento foi feito por mar, e as forças invasoras tiveram todo o tempo que desejaram e o controle total das rotas aéreas e de transporte. Mas a capacidade para tal operação não existe mais, mesmo que fosse relevante neste caso.

Assim, enviar mesmo uma força simbólica, motivada por razões políticas — digamos, duas brigadas mecanizadas e um quartel-general, com 10 a 12 mil militares — para as fronteiras da OTAN exigiria uma projeção de força a uma distância nunca antes tentada na história militar, num momento em que a capacidade ocidental de movimentar tropas pesadas nunca foi tão limitada. E teria de ser feito rapidamente. Isso cria uma série de problemas, porque uma força multinacional teria de ser mantida em um estado permanente de prontidão elevada, totalmente treinada, totalmente equipada, totalmente exercitada e pronta para ser mobilizada. (Em comparação, vários exércitos europeus orgulham-se de ter um batalhão com esse nível de prontidão.) Mesmo assim, os desafios logísticos de projetar forças a essa distância são enormes. Um tanque moderno pesa cerca de 60 toneladas e só pode ser transportado por ferrovia ou, longe das linhas férreas, por um transportador de tanques de 30 toneladas. Mas os transportadores de tanques são usados ​​hoje em dia apenas para movimentações rotineiras e não há o suficiente deles na Europa para garantir qualquer mobilidade estratégica real. Muitas pontes rodoviárias e ferroviárias na Europa não suportam cargas desse porte. Essencialmente, o mesmo se aplica à maioria dos outros tipos de unidades. Talvez, ao longo de algumas semanas ou um mês, uma única brigada consiga chegar, um tanto desgastada pela viagem, a tempo do fim da crise.

A OTAN realizou exercícios concebidos para, pelo menos, ensaiar essa capacidade, e os resultados não foram nada animadores. Fomos informados de que o Exercício DACIAN FALL, realizado recentemente, "envolveu" o envio de uma brigada multinacional de 5.000 homens para a Romênia, dos quais 3.000 eram franceses. Mas é quase impossível ter certeza até mesmo dos fatos básicos. Algo entre 500 e 800 soldados franceses já estavam posicionados, e alguns dos "envolvidos" nunca chegaram a sair da França. A maioria das estimativas aponta para um número de tropas efetivamente enviadas de, no máximo, 2.000, e mesmo assim, levaram semanas para chegar. Provavelmente, este é o melhor resultado que se pode esperar.

Mas certamente, você deve estar pensando, isso não aconteceu na Segunda Guerra Mundial? Os alemães não conquistaram grandes extensões de território russo em questão de semanas, e ainda por cima enfrentando resistência? Se eles conseguiram mobilizar milhões de homens dessa forma, por que nós não conseguiríamos mobilizar alguns milhares? Bem, por muito tempo, nossa compreensão desse episódio — na ausência de fontes soviéticas confiáveis, diga-se de passagem — veio das memórias tendenciosas de generais alemães, segundo os quais os vitoriosos tanques Panzer teriam aberto caminho até Moscou não fosse a intervenção das chuvas de outono e do frio do inverno, nenhum dos quais poderia ter sido previsto. Mas com a abertura dos arquivos soviéticos e com as pesquisas de uma nova geração de historiadores militares — notadamente David Stahel — fica claro que a invasão estava fadada ao fracasso desde o início, e por razões muito semelhantes às discutidas acima. O Alto Comando Alemão não fez nenhuma tentativa séria de avaliar a capacidade do Exército Vermelho e simplesmente presumiu que, após algumas grandes vitórias alemãs, ele se desintegraria, o regime em Moscou cairia e toda a campanha terminaria em seis ou oito semanas. (Isso pode lhe lembrar algo.) A logística foi simplesmente ignorada, pois a campanha terminaria antes que os problemas logísticos surgissem, ainda mais porque Stalin havia anexado metade da Polônia em 1939 e, portanto, os dois exércitos estavam frente a frente. O consenso atual é que, uma vez que essa fantasia de vitória rápida não se concretizou, a campanha estava basicamente perdida.

De fato, pode-se argumentar que os alemães só chegaram tão longe devido a erros catastróficos do lado soviético. Grande parte da culpa foi de Stalin: por vender aos alemães o combustível usado na invasão, pela destruição do corpo de oficiais do Exército Vermelho, por ignorar os avisos de ataque até o último segundo e, principalmente, por insistir que o Exército Vermelho fosse posicionado perto da fronteira para contra-atacar rapidamente, o que significava que, uma vez que os alemães cruzassem a linha de frente, o Exército Vermelho não tinha muita reserva. Mas, por outro lado, o Exército Vermelho conseguiu operar com sucesso na lama e em temperaturas abaixo de zero porque estava treinado e equipado para isso, e parece ter compreendido o que Clausewitz disse sobre a importância da "pátria", usando isso a seu favor.

O que é mais do que a nossa geração atual de especialistas (incluindo especialistas militares, infelizmente) parece ser capaz de compreender. A distância não pode ser simplesmente ignorada. É preciso combustível para mover qualquer coisa, inclusive o veículo que a move. Uma brigada blindada pode ter até 250 veículos de combate, e outros tantos em funções de apoio, e você não pode enviar tudo isso como anexo de um e-mail ou como um pacote da Amazon. Veículos e equipamentos exigem manutenção em instalações sofisticadas. Uma brigada blindada consome talvez de quinze a vinte toneladas métricas de alimentos por dia. E assim por diante.

Em outras palavras, a “guerra” que políticos e especialistas parecem antecipar com entusiasmo não acontecerá, porque não pode acontecer. Há uma série de coisas que poderiam ocorrer, desde confrontos aéreos e navais de pequena escala até ataques russos massivos e paralisantes contra um ou mais países ocidentais, passando por movimentações políticas de pequena escala nas fronteiras. Mas nada muito além disso. A ideia de batalhas blindadas massivas nos Estados Bálticos é uma fantasia, e esperemos que nenhum governo ocidental jamais a leve a sério. Há questões mais importantes e fundamentais com que nos preocuparmos neste momento.

26 de novembro de 2025

https://aurelien2022.substack.com/p/you-cant-get-there-from-here?