D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 31 de maio de 2026
Francisca Napolitano - [Palestina livre]
Margarida Davim - Os ricos também choram
Ana Sá Lopes entrevista Carmen Garcia: “Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos”
Entrevista Podcast O que fazer quando tudo arde
Conversa com a
enfermeira e colunista do PÚBLICO Carmen Garcia sobre envelhecimento e de como
a sociedade trata os mais velhos: “Em Portugal, a entrada no lar é sinónimo da
saída da sociedade”.
* Ana Sá Lopes
31 de Maio de 2026
Contrariando os seus pseudónimos “mãe imperfeita” e “enfermeira imperfeita”, Carmen Garcia, colunista do PÚBLICO, é perfeita a falar daquilo a que tem dedicado a sua vida: cuidar de idosos. No seu sotaque doce e alentejano, diz tudo o que está errado nesta sociedade idadista, em que “todos queremos chegar a velhos, mas [em que] ninguém quer ser velho”. E aponta a patologia de uma sociedade animalizada, em que a vida de um humano perdeu o valor face à vida de um animal.
O que é que hoje suscita mais compaixão à maioria das pessoas? Um idoso abandonado num lar ou um cão abandonado num canil?
Um cão abandonado num canil. O cão, obviamente. Ainda bem que temos leis que protegem os animais, mas ainda mal que não temos leis que protegem os mais velhos, porque na verdade não temos. Temos agora um estatuto, mas eu olho para esse estatuto quase como um apanhado de boas vontades. O estatuto, por enquanto, ainda é só uma ideia. Mas entre um velho e um cão eu não tenho nenhuma dúvida que a esmagadora maioria das pessoas escolhe o cão.
Há uma desumanização em curso.
Há uma desumanização em curso e uma animalização. Acho que estamos já um bocadinho dentro do campo da patologia. Há aqui uma parte em que acho que isto já não é normal, nem saudável. Tenho uma gata que adoro. Mas a minha gata não é a minha filha — é a minha gata. Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos.
Há pouco tempo, numa discussão com uma colega, ela dizia que se houvesse um incêndio, não tinha dúvidas nenhumas, que entre uma pessoa que ela não conhecia de lado nenhum e o cão dela, ia tirar de lá o cão. Sou incapaz de compreender isto. Quer dizer, eu teria muita pena se acontecesse uma coisa destas à minha gata, mas, bolas, primeiro iria sempre tirar a pessoa.
Agora, isto piora muito se a pessoa, ainda por cima, for uma pessoa mais velha. Há uns anos, houve na minha cidade, Vendas Novas, no mesmo dia, à porta dos supermercados, duas campanhas. Uma era para angariar comida para os animais lá do canil e a outra tinha a ver com uma iniciativa para ajudar a população mais idosa. Foi uma coisa esmagadora, a diferença de adesão entre as duas coisas. A velhice não é sexy. A velhice é uma coisa que a gente arruma na gaveta, naquela gaveta que está fechadinha ao lado da nossa própria mortalidade.
Nós todos queremos viver muito e todos queremos chegar a velhos, mas ninguém quer ser velho. Vivemos presos nesta dualidade — queremos muito chegar lá, mas não queremos ser. Eu não sei se as pessoas ficam assustadas quando são confrontadas com a velhice dos outros, porque aquilo obriga-as a abrir a gaveta e a pensarem na sua.
Não somos uma sociedade que goste de velhos, e isso é notório para quem trabalha com estas pessoas todos os dias. E são pessoas que não têm voz. Apesar de tudo, os jovens têm alguma voz; apesar de tudo, enfim, alguns reformados que não sejam muito velhos também…
Os idosos que estão em lares não têm voz nenhuma. Até porque em Portugal a entrada no lar é quase sempre sinónimo da saída da sociedade. Eu às vezes tenho a sensação de que as portas dos lares de idosos só têm um sentido, que é o sentido da entrada.
A Carmen defende que os idosos devem ser cuidados em casa o máximo de tempo
possível. Porque é que o Estado não coloca isto como prioridade?
Não percebo. Há idosos que objectivamente não podem ficar em casa. Mas a maioria dos idosos em Portugal, cerca de 96%, quando questionados, dizem querer envelhecer na sua casa, na sua rede de vizinhança. É o “aging in place”. Há sempre aqui dois ministérios ao barulho, esse é outro problema, o Ministério da Segurança Social e o Ministério da Saúde. Nós vivemos muitos anos, mas não vivemos assim com tanta saúde. Portanto, começa a ser impossível dissociar o que é segurança social do que é saúde.
Estas coisas têm de caminhar juntas. Só que eu acho que há um problema nestes ministérios; que estas pessoas, no fundo, gostavam mesmo era de trabalhar na IKEA. Gostavam, porque eles gostam mesmo é de gerir camas. Gerir camas, gerir camas, camas, camas. Se as camas fossem um problema real, não é?
Acha que o Governo prefere gerir camas?
Tenho de acreditar nisso, porque nós estamos todos os dias a ouvir: “Há não sei quantos internamentos sociais nos hospitais portugueses que custam não sei quantos milhões por ano ao SNS.” E depois a solução é sempre: “Vamos tirá-los deste internamento para outro.” Vamos abrir mais camas em lares, vamos abrir residências assistidas, vamos criar vagas daqui e dali.
Camas, camas, camas. Em vez de pensarmos “o que é que eu posso fazer para que estas pessoas possam voltar para a sua casa”, que foi o sítio de onde elas vieram?
Por exemplo, esta ideia de pagarmos 1800 euros por cama às instituições. Se calhar, se pegarmos nesses 1800 euros e os entregarmos às famílias, muitas delas conseguem parar de trabalhar, por exemplo. Porque também é esse o problema, não é? Infelizmente, em Portugal temos um longo histórico de não confiar nas famílias. Portanto, a gente prefere entregar o dinheiro às instituições.
Até daria para pagar a um cuidador privado.
Isso é a outra solução que eu defendo, que é um bocado intermédia — a criação dos vouchers. Ou seja, os vouchers poderem ser usados, esses 1800 euros não serem entregues em dinheiro, mas poderem ser descontados em serviços que tivessem sido aprovados previamente, por exemplo, de apoio domiciliário. Um cuidador diurno no horário de trabalho, uma cama articulada, um colchão antiescaras, serviços de reabilitação, de fisioterapia… Portanto, haver um conjunto de serviços previamente aprovados. E, se calhar, não precisavam de ser esses 1800 euros. Se calhar, se o Estado entregasse às famílias 1000, 1500 euros, já ficava a poupar e as pessoas voltavam para o sítio onde elas querem estar e onde deveriam estar, que é a sua casa.
Se calhar, não resolvíamos 100% dos casos, mas resolveríamos muito mais de 50%, seguramente. Mas a gente gosta mais de camas, de criar vagas. Camas, vagas, camas, vagas. É terrível. IKEA, a mentalidade IKEA.
Se a Carmen tivesse poder executivo, quais seriam as suas três primeiras
prioridades?
A primeira era a promoção do Aging in Place. Não criava mais comissões. Ouvia
quem está no terreno. A minha primeira medida era: criar aqui uma política
nacional a sério de promoção do envelhecimento em casa, reforço daquilo que é o
serviço de apoio domiciliário. E reforçar a dotação financeira, reforçar estas
equipas, obrigar a que estas equipas tenham muito mais valências e garantir uma
rede de teleassistência. Trabalho numa coisa dessas, não quero falar em causa
própria.
Mas eu quero. Sei que está envolvida num projecto de Inteligência
Artificial. Explique como é que a IA se pode adaptar ao cuidado de pessoas mais
velhas.
Vou dizer o que é que nós fazemos no Alice, que é um acrónimo: Aging Longer Intelligent Care Environment. Por exemplo, a pessoa usa um relógio que é feito cá em Portugal, foi desenhado por nós. As funcionalidades foram desenhadas por mim. Aquele relógio, por exemplo, avisa a pessoa de que ela já está há muito tempo sem beber água. Avisa cada vez que a pessoa tem medicação para tomar. E a Inteligência Artificial aprende com os dados.
A pessoa anda com um sensor deste tipo, e aquilo, ao fim de duas semanas, já percebeu qual é o padrão de mobilidade da pessoa.
A pessoa tem um movimento qualquer que é incompatível com esse padrão. Ele dá alarme de uma queda. Sempre que a pessoa autoriza, nós damos o local onde a pessoa está e mais quatro coordenadas para trás.
Isto permite-nos o quê? Não só perceber onde é que a pessoa está, mas o trajecto que ela está a fazer. Há um tempo tivemos, por exemplo, um senhor que fugiu do sítio onde estava — ele não fugiu, tinha o portão aberto e saiu, na verdade. Era um senhor já demente. E percebeu-se logo, pelo movimento, que ele estava a ir em direcção ao monte onde tinha nascido e onde não vivia há 60 e tal anos.
O nosso call center tem enfermeiros 24 horas. Há um ponto em que a Inteligência Artificial não substitui o humano. Mas o interessante da Inteligência Artificial é isto: ela consegue ir aprendendo com a pessoa, vai-se alimentando dos dados e vai percebendo, acaba por ser muito mais seguro e muito mais personalizado.
Nós sabemos que aquela pessoa é alguém com um grande padrão de mobilidade. De repente, o relógio percebe que aquele padrão do dia não é bem igual.
A gente recebe um alarme, a enfermeira liga. Mas ainda assim tivemos de criar uma coisa chamada SOS Solidão, que tem imensa utilização, eu não esperava que tivesse tanta. Lá está, a tecnologia é muito importante e é uma grande ajuda, mas a parte humana conta.
Eu tornaria estes sensores obrigatórios. A gente fala de muita coisa, pensa em muita coisa e tem muito boa vontade, mas depois, na hora de avançar, criamos mais um gabinete, mais uma comissão, vamos nomear mais não sei quem, e as coisas não andam.
Portanto, se eu mandasse, as minhas três primeiras medidas eram todas direccionadas para o envelhecimento em casa, para permitirmos que as pessoas envelhecessem, as que o desejassem, com o máximo de condições possíveis na sua própria casa.
Como é que consegue fazer tanta coisa? Teve recentemente uma filha, já tem
dois filhos, tem dois enteados, escreve para o PÚBLICO, trabalha, faz comida,
publica livros...
Estou a escrever um agora, já devia ter acabado a semana passada.
Podemos saber o tema?
É uma história baseada numa história real. Este não fala de velhice, é baseado na história de um burlão, de um português que burlou imensas pessoas muito conhecidas, nomeadamente uma que não é muito conhecida, mas que sou eu, também caí lá. Foi uma burla pequenina, porque a burla também é proporcional à carteira de cada um. Mas vou contar essa história, sim.
Com tanta criança e tanta comida para fazer, caiu no caldeirão da poção
mágica quando era pequenina.
Não, não há poção mágica nenhuma, vou tentando, com a consciência de que não consigo sempre. Devia ter acabado o livro há uma semana e não está, ainda me faltam três capítulos, e depois o processo todo de voltar a ler, de edição. As coisas todas que faço são coisas que me fazem feliz. O que eu já deixei cair há muito tempo — acho que deixei cair quando nasceu o Pedro, que é o meu filho mais velho, o meu filho que é surdo —, foi aquela ideia de tentar ser perfeita.
Não me interessa já. Não me interessa se os meus filhos estão com nódoas nas camisolas, não me interessa se a minha casa… eu adorava já ter feito obras na casa… Ou seja, interessa, mas não é prioritário, não me consome, não me tira o sono. Houve muitas coisas que antes me importavam e deixaram de me importar.
E daí a “mãe imperfeita”, o blogue que criou e se tornou um sucesso. Ficou
admirada com o sucesso que criou?
Quando comecei a escrever aquilo, achava que estava a escrever para a minha irmã, para a minha outra irmã e para mais três ou quatro amigas. Aquilo foi crescendo mesmo sozinho, de verdade. E percebi que havia mais gente que, tal como eu, estava farta daquelas imagens de influencer, aquelas casas onde é tudo bege, aqueles tons de terra, tudo neutro, as crianças sempre todas vestidas de igual. E depois viajam imenso; eu não sei se consigo ir de férias para Armação de Pêra e aquela gente sempre nas Maldivas e... E o que eu percebi foi que começava a haver um sentimento de identificação do género: “A nossa vida é como a tua, não é como aquelas.”
Tento aproveitar as minhas redes para falar sobre as áreas que domino: para fazer educação para a saúde; para falar sobre envelhecimento; para contrariar a falsa ciência, que é uma praga. Portanto, para combater a desinformação.
Mas a maioria do conteúdo é o dia-a-dia, e o meu dia-a-dia não tem nada de especial: não tenho uma casa muito bonita; não faço comidas daquelas que a gente tem de ir buscar amores-perfeitos e pinças, não... Mas, de alguma forma, as pessoas identificaram-se.
https://www.publico.pt/2026/05/31/sociedade/entrevista/carmen-garcia
sábado, 30 de maio de 2026
Francisco Teixeira da Mota - A justiça na revolução
O caso José Diogo foi, durante o período revolucionário, o mais evidente embate judicial entre a legalidade instituída e uma nascente (?) legalidade revolucionária.
* Francisco Teixeira da Mota
30 de Maio de
2026
“Há 50 anos, um homem matou outro, numa
escaramuça corpo a corpo. À navalhada. Há 50 anos, um trabalhador rural matou o
seu patrão. Há 50 anos, um proletário dos campos, um comunista, um
revolucionário matou um latifundiário salazarista, legionário, prepotente,
arrogante, uma fera 'fascista' que o tinha despedido. Hoje, 50 anos depois,
tudo regressou à simplicidade, um criminoso assassinou um homem que foi a sua
vítima. A história é assim, passa depressa e muda de roupagens”, escreve José
Pacheco Pereira no prefácio do recém-publicado livro A Justiça no 25 de
Abril e o Caso José Diogo, de Luís Eloy Azevedo. Um livro denso que
analisa, detalhadamente, a evolução do mundo da justiça no pós-25 de Abril e
vai muito para além do caso José Diogo, em que se defrontaram dois modos de ver
as leis e a justiça, radicalmente opostos.
A acusação
(querela, na altura) referia que José Diogo “alimentava certa animosidade
contra Columbano Líbano Monteiro, o seu antigo patrão”, que o tinha despedido
dias antes, pelo que, “no dia 30 de Setembro de 1974, José Diogo entrou na casa
daquele" e, “depois de breve troca de palavras (...), ofendeu-o voluntária
e corporalmente com uma navalha de bolso (...). Como consequência necessária da
lesão traumática do intestino, a que sobreveio como complicação uma peritonite,
resultou a morte do ofendido”. Concluía o Ministério Público que “dadas a
natureza do instrumento empregado, a sede da sua entrada e a violência
necessária para a produção da lesão”, José Diogo agira com intenção de matar,
pelo que o acusou do crime de homicídio voluntário.
A partir de
Abril de 1975, José Diogo passa procuração aos advogados Amadeu Lopes Sabino,
Luís Filipe Sabino e José Augusto Rocha, que vêm introduzir no processo o
conceito de “justiça burguesa”, defendendo a liberdade provisória para José
Diogo e transformando, numa estratégia de ruptura, o processo judicial num
processo político em nome de uma legalidade revolucionária. Do lado da família
de Columbano Líbano Monteiro, encontrava-se o advogado Daniel Proença de
Carvalho, que procurava defender a aplicação dos códigos legais vigentes e
sublinhava que a legitimação do acto de José Diogo representava um “retrocesso
milenário na história da humanidade, das suas regras e dos seus códigos” e que
o direito à vida não podia “ser imolado a deuses ou a ideologias”.
Depois de
variadas peripécias processuais e de uma imensa mediatização e politização, o
julgamento foi marcado para o dia 25 de Julho de 1975, no Tribunal de Tomar,
mas nesse dia, perante a decisão do seu adiamento, foi sugerido e imediatamente
posto em prática o julgamento popular de José Diogo. Nas escadas do tribunal,
um júri de 20 trabalhadores, neles se incluindo dois representantes da
Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas, a que pertenciam os advogados
de José Diogo, foi deliberado que o trabalhador não cometera nenhum crime e “o
latifundiário Columbano, pela opressão e exploração sobre o povo de Castro
Verde”, foi considerado “inimigo do povo alentejano”. Mais deliberou o júri
“enviar esta sentença à assembleia do Movimento das Forças Armadas, reunida
hoje”.
Acelerando a
fita do tempo: José Diogo, que tinha sido libertado provisoriamente e
desaparecera, tendo sido julgado à revelia, veio a ser condenado em 1980
definitivamente pelo Supremo Tribunal de Justiça numa pena de prisão de dois
anos e seis meses, após uma ampla controvérsia sobre a existência da intenção
de matar e da causalidade entre a agressão e a morte. Segundo refere Luís Eloy
Azevedo, citando uma reportagem do semanário Tal e Qual, em 1992, José
Diogo levava uma “vida triste” em Casével, Santarém, tinha dificuldade em
arranjar trabalho e não ganhava “sequer para os copos”. Viria a morrer em
Agosto de 2015, com 77 anos.
O livro A Justiça no 25 de Abril e o
Caso José Diogo, de Luís Eloy Azevedo, é uma obra de indiscutível interesse
para os juristas que pensam, mas, também, para os não juristas que, igualmente,
pensam
A história é
longa e Luís Eloy Azevedo relata-nos, de forma exaustiva e rigorosa, tudo o que
se passou, recorrendo à variada documentação da época, judicial e não só, como
também ao filme Liberdade para José Diogo, realizado por Luís Galvão
Teles (disponível actualmente na plataforma Filmin), e ainda a depoimentos,
agora por si obtidos, dos advogados Daniel Proença de Carvalho e Amadeu Lopes
Sabino.
Foi durante o período revolucionário o mais evidente embate judicial entre a legalidade instituída e uma nascente (?) legalidade revolucionária; no entender do autor do livro, “o processo de José Diogo deixou clara a saturação da alternativa revolucionária da justiça e reflectiu as vulnerabilidades tradicionais do corpo judicial nos processos de transição”. Uma obra de indiscutível interesse para os juristas que pensam, mas também para os não juristas que, igualmente, pensam.
https://www.publico.pt/2026/05/30/opiniao/opiniao/justica-revolucao-2176337
Alice Walker - Nothing on earth can stop the freedom of my spirit
O que está escrito?
No topo (Data e Local):
No primeiro painel: "30 settembre"
No segundo painel: "2000"
No terceiro painel: "GAZA"
Na parte inferior (Poema/Manifesto): O texto distribui-se sob os três painéis e diz o seguinte em italiano:
Painel 1:
Come uccelli, sogni e speranze volano via...Painel 2:
Nessuna catena riuscirà a tenerliPainel 3:
"Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito"Canto inferior esquerdo (em tons avermelhados):
"Terra mia, Spirito mio"Tradução: "Como aves, sonhos e esperanças voam para longe... Nenhuma corrente conseguirá prendê-los. 'Nada na terra travará a liberdade do meu espírito'. Terra minha, Espírito meu."
O que representa?
O mural é uma recriação artística e direta das filmagens televisivas que captaram a trágica morte de Muhammad al-Durrah (um rapaz palestiniano de 12 anos) e a tentativa desesperada do seu pai, Jamal al-Durrah, de o proteger atrás de um cilindro de betão sob fogo cruzado no cruzamento de Netzarim, na Faixa de Gaza, a 30 de setembro de 2000.
A Sequência do Drama (Os Três Painéis):
Primeiro painel: O pai acena desesperadamente com o braço, gritando para que parem os disparos, enquanto tenta cobrir o filho com o próprio corpo.
Segundo painel: O momento de pânico absoluto, onde ambos tentam encolher-se contra a parede de betão à medida que o tiroteio se intensifica.
Terceiro painel: O desfecho devastador. O rapaz surge caído sem vida sobre as pernas do pai, que se encontra gravemente ferido e desfalecido contra o muro, rodeado por uma mancha de sangue.
O Significado Político e Social: As imagens reais deste acontecimento, gravadas pelo operador de câmara Talal Abu Rahma para o canal de televisão francês France 2, chocaram o mundo e transformaram-se instantaneamente num símbolo global do sofrimento dos civis apanhados no fogo dos conflitos armados.
Ao transpor este episódio de Gaza para as paredes da Sardenha, os artistas de Orgosolo mantêm a sua longa tradição de solidariedade internacionalista com as causas dos povos oprimidos, transformando a dor local num grito universal pela liberdade, dignidade humana e denúncia da violência militar sobre os mais indefesos.
o texto que se encontra na parte inferior deste mural é um excerto de um poema. Trata-se de uma tradução para italiano de alguns versos adaptados de um poema escrito pela ativista, poetisa e escritora feminista afro-americana Alice Walker (famosa mundialmente por ser a autora do livro A Cor Púrpura).
O Poema Original
A frase principal do terceiro painel — "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito" ("Nothing on earth can stop the freedom of my spirit") — sintetiza a essência da poesia de Walker voltada para a resistência espiritual, a superação do trauma e a invencibilidade da liberdade interior face à opressão física ou à violência.
A Relação com o Coletivo de Orgosolo
Os muralistas de Orgosolo costumavam cruzar imagens de forte impacto jornalístico e geopolítico com a grande poesia humanista e de intervenção social. Ao juntar as palavras de Alice Walker à trágica sequência dos acontecimentos de Gaza de 30 de setembro de 2000, o mural ganha uma nova dimensão:
O Contraste entre o Corpo e o Espírito: Enquanto as imagens mostram a fragilidade da carne e a violência brutal que ceifa uma vida no plano físico, a poesia na base responde com uma declaração de imortalidade ideológica.
A Mensagem: O texto sugere que, embora as forças militares consigam encurralar, ferir ou matar os corpos, os sonhos, as esperanças de um povo e o seu desejo intrínseco de autodeterminação e liberdade permanecem intocáveis, voando livres "como aves".
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Eduardo Washington - Quando tu sentires vontade de chorar, não chores sozinho…
António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
8 de Dezembro de 2022
“O problema não é só o de que a maioria de nós
luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho
incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente
dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês
A inteligência da desigualdade
É o furor da semana no domínio
dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que
consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das
sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços
demonstrados pelo ChatGPT
deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por
máquinas num futuro não muito distante.
O entusiasmo infantil com que
olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do
divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências
do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais
à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados
com a mortalidade.
Tem mais que ver com o impacto da
máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos
Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão
autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas
por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São
despedidos? Reciclados? Rejeitados?
Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S.
Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um
todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas
também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos
valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais
especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da
desigualdade nos países mais desenvolvidos.
O Peru aboliu a escravatura há
168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda
existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y
Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru
anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.
Esta informalidade económica, em
que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo
pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o
conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de
quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano
com a cumplicidade do Estado.
Mais de 3,4 milhões de
trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados,
mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa
as vítimas por não denunciarem os crimes.
Mesmo que o próprio ministro do
Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um
encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss
Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho
forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram
peso às palavras.
“Aqui temos um assunto de dignidade do ser
humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de
fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro,
que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo,
de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua
manutenção.
Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário
El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100
metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de
nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com
o ouro que eventualmente encontrarem.
Oito horas
Quase 140 anos passados desde que
o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há
maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução
tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais
horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria
ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.
As 35 horas semanais em França
ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos
para a semana das 32
horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.
Quando as oito horas laborais,
oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta,
defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços
com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos
que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho”
americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa
da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do
trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.
Como refere
Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com
segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir
trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu
horrivelmente mal”.
E a pandemia, que acentuou o
teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o
trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a
(auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da
sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou
ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e
mental.
Amanhã, tenho 15 minutos para
ti
As aplicações para gerir a nossa
vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil
milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à
frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser
humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia
para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E
mesmo assim queda curto.
“A gestão do tempo não é a solução, na verdade
é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy:
How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua
inglesa.
ocupação dos minutos, não visa
ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva,
fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas
para arranjar tempo para encaixar outras.
E o mais incrível é que, se
calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na
mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de
trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos,
o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível
burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são
tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.
A auto-ajuda, o empreendedorismo,
“o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando
transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal
do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex
machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos
para ti.
António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
29 de Maio de
2026
“Algumas das maiores empresas da história da
humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção.
Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano
A Suécia
assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase
tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta,
diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos
seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao
básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e
osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.
A Suécia tinha
criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado.
Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o
Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para
menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de
aulas.
Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em
força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram
os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas
conclusões.
Randi
Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores
dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em
inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10
points to boost student learning and success in the AI era, que “as
crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das
principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.
“O ritmo desta
revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a
ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para
defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA).
“A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o
conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e
aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”
Higienização
O tema está
aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende
ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas,
propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação,
enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública
sobre os conflitos.
Criado pelo
Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de
revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem
na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos
critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos
ângulos para olhar e das perspectivas de análise.
“Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa
não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de
decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em
tempos de conflito”, lê-se no site.
“À força de fazer desfilar as notificações, os
alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir
absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados,
acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de
fundo cruelmente banal.”
O uso cada vez maior de meios digitais para
travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as
mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando
aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de
impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.
E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann
d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo
que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se
colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”
Atenção
A Meta, a
empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o
Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em
inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede
social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase
metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.
“Outros
sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o
investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o
ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa
razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma
automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações
foram concebidos para fazer.”
Na sua
intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada
na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do
escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O
verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos
receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar,
mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há
muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão
a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.
Dar valor à nossa atenção é importante porque
se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a
informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os
ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a
escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas
de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.
Como disse
Foster Wallace naquele dia, no Kenyon
College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que
mais custa ver e discutir”.
Empatia
Uma das piores
expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só
negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel
social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento,
pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.
Nestes tempos
política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica
e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar
decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a
carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à
ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica
especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança,
aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo
pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”
A empatia já
não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que
se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer.
Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações
profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os
terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.
No entanto,
como refere Wedellsborg no site do International Institute for
Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar
uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa,
mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a
confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo
factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.
Para a autora
de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a
inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria
tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se
se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Carlos Coutinho - Homenagem a Manso Pinheiro
Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926
* Raquel Varela
Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?
Portugal teve
desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas
revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro,
espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça
revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente
fascista.
A incapacidade
de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase
imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia
portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria
burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do
poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder
económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o
Parlamento – a Ditadura Militar.
Entre 1926 e
1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia
portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital,
baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos
e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado,
não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a
par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.
O
pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade
ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.
Se a República
teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se
instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os
protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a
“instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social”
operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas
e Gomes da Costa.
O golpe de 28
de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República
burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim,
resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do
vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra
a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via
para a ditadura que se segue.
Como lembra
César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial
até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático
à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos
eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da
contrarrevolução.
Contexto
internacional da Ditadura Militar
Não se pode
compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender
o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução
europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses
anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois
de 1927.
Gramsci
sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende
eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma
de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a
sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de
crise orgânica do capitalismo.
Primo de Rivera
liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido
fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se
com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento
social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram
obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a
burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela
exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções
insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e
envolver estivadores, transportes, etc.
À semelhança de
outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão
constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia
“democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado –
organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das
socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a
estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.
É bonapartista
a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de
um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte
coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro
para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em
todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas
revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será
proibida em 1935.
Após o golpe de
Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento
do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a
censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A
Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma
contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário
de seis para quatro anos.
Em 1928,
promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias
portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do
trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses
“públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A
27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das
Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da
Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças
que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de
receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas
restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira
“política de austeridade” no país.
Qual regime?
Mas afinal o
que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a
Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado,
de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde
1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.
Não houve
resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926.
Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a
República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.
A repressão
durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem
traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta
de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o
consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção.
Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os
detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido
Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos
monárquicos”.
A República
decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara,
para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura
Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário
– os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia
nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.
Raquel Varela e
Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand).
Todas as referências estão no livro


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