D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos
* Rodrigo Tavares
Professor
catedrático convidado na Nova SBE
A pergunta
decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde
Não há nenhuma
atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere
impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.
Ao ler este
artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem
alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério,
chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro,
flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio,
lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio,
platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo,
telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais
provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar,
Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria,
Bielorrússia ou Zimbabué.
Agora seria
chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para
a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países.
Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de
Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em
que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela
Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless
Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana
Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do
Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.
Continuo? Na
montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta
da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de
preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão
converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase
obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e
fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à
associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores
de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não
acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como
acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no
trabalho.
Não faltam
precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações
identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu
tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção
de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus
compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos
seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do
Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours,
discrimination and delayed pay”, disponível aqui.
Há ainda as
violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes
químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de
vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de
reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de
cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é
contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A
autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and
Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.
Se quiser
conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em
bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).
Entre o impulso
de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de
extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de
qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia
fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos;
apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o
cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à
descarbonização.
E é exatamente
quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições,
frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da
coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma
forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e
passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser
sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos
insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.
A UE seguiu o
caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as
atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um
labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores
financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças,
auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a
máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a
taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de
ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.
Não precisamos
de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”,
“sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”,
“carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”,
“conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto
positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas
papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos
produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem
da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.
Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.
2026 04 30
https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-
domingo, 26 de abril de 2026
Entrevista a Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo
Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na
semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você
é humano”.
Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)
20 de Abril de
2026
Ricardo Araújo
Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma
auto-estima bastante baixa”
Ricardo Araújo
Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast
sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo
Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em
Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo.
Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.
Há um mês,
Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia
sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente
composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma
auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu
tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o
segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.
O que fazer
quando tudo arde está disponível na Apple Podcasts, Spotify, YouTube e restantes aplicações para podcasts.
Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão
grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”
Ricardo Araújo
Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio
com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro
solo estreou na sexta-feira.
Ana Sá Lopes
26 de Abril de
2026
Esta conversa
com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast
“O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na
segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta
conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o
guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na
sexta-feira.
Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.
Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista,
não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun",
por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável,
no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer
deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.
Como diz um
amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau
aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de
intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca
justamente porque ele não está a brincar.
Já podemos
falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo
está a ser governado por um rapaz de 10 anos…
Eu estava a
escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de
embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia
muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por
exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário
tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de
contrariar no mesmo sentido em que é difícil.
Quando a
criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não
discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não
existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto
a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de
crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a
Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em
Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe
nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade.
Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem
animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”.
E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a
criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior
à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.
Posso estar
enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma
ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a
vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim
senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a
chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo
Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente
tente, falha”
Será o riso
mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo
Capitão — que depois o Ricardo levou ao seu programa — desfez o
Chega com muita graça.
São duas coisas
muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor
para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não
é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os
jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se
alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda.
Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para
o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao
humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos
deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo,
pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.
O meu momento
favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a
esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu
adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E
isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a
indignação, acho eu, na qual eles medram.
O riso serve
para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a
pandemia de covid, por exemplo...
Na altura,
tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director
de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar
ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém
sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente,
dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa
disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que
ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca
usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma
criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa
de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma
base.
Interessava-me
bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento
em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as
compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr
na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial
de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...
E pronto, esses
avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa
inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas,
é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.
Porque, como
palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a
razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os
sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso
nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto
de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos
era engraçado.
O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.
Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci
para isto, sabe?
Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus
amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando
ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais
experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor
o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o
programa a seguir, eu já estou de férias.
Eu não nasci para o palco. Há sempre uma
relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito
receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para
estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando
se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um
bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15
mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é
aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.
Já tem o
guião pronto?
Está a ser
dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro
de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...
O Ricardo tem falta de confiança?
Imensa.
É uma pessoa insegura?
A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.
Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.
Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por
exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas
ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança.
Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.
Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são
histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e
estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios.
E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.
Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa
que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente
A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?
Graça Castanheira - E o porco gosta
A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.
A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.
O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.
Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.
Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.
A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.
26 de Abril de 2026
sábado, 25 de abril de 2026
Intervenção de Alfredo Maia na Assembleia de República, em 25 Abril 2026
Abril foi e é justiça, liberdade, democracia e paz, salários, respeito por quem trabalha e produz a riqueza
Uma homenagem ainda aos combatentes dos movimentos de libertação nas colónias, irmanados na luta comum pela liberdade.
Foi a luta dos trabalhadores, do povo, dos resistentes antifascistas que, em meio século de tenebrosa noite, foi iluminando as veredas que convergiram nessa madrugada e tornaram possível o levantamento de 25 de Abril, assim como a Revolução que o povo levou por diante.
Dezenas de milhares sofreram nas masmorras da PVDE, da PIDE e da DGS, a maioria brutalizada por sevícias e torturas, muitos pagando com a vida a luta pela liberdade e pela democracia:
Manuel José Vieira, Alfredo Caldeira, Bento Gonçalves, Ferreira Soares, Germano Vidigal, Alfredo Dinis, Soeiro Pereira Gomes, Militão Ribeiro, José Moreira, Alfredo Lima, Catarina Eufémia, José Adelino dos Santos, José Dias Coelho, José Gregório, Cândido Martins, António Graciano Adângio, Estêvão Giro – e tantos outros mortos!
Pelo menos nove mil mortos, 30 mil feridos, 15 mil deficientes entre os jovens portugueses mandados para uma guerra sem sentido; talvez mais de 85 mil mortos nos movimentos de libertação, 50 mil a 100 mil civis.
O país não era apenas pobre, atrasado (económica, social e culturalmente), tolhido pela censura, pelo analfabetismo, pela malnutrição e pela mortalidade infantil: estava submetido à repressão brutal que nenhum democrata esquecerá, sujeito a uma ditadura fascista que alguns evocam saudosamente.
As liberdades democráticas; o fim da repressão fascista e da guerra; o aumento geral dos salários e das pensões; o direito à greve e a proibição do lock-out; o salário mínimo nacional; a liberdade sindical; a generalização do direito a férias e respetivo subsídio; o direito à habitação, à saúde e à educação.
Também as nacionalizações e o controlo público da banca, dos seguros, da energia, das comunicações, dos transportes, da construção e reparação navais e ferroviária; a reforma agrária; o acesso a estradas, eletricidade, comunicações, redes de água e de esgotos; o poder local democrático.
São, entre tantas outras, conquistas que os grupos monopolistas e as forças reacionárias tentaram travar pelo boicote económico, pela fuga de capitais, assim como pela força, com os golpes e tentativas de golpe.
E também com os seiscentos ataques violentos, entre os quais 310 à bomba, 136 assaltos e 58 incêndios, contra sedes de partidos de esquerda e sindicatos e até residências de democratas, perpetrados pelo ELP, pelo MDLP e outras organizações de extrema-direita, entre maio de 1975 e abril de 1977.
Até ao último minuto, tentaram tudo, mas não conseguiram impedir a aprovação, há 50 anos, da Constituição mais democrática da Europa.
Cinco décadas de política de direita, de contrarrevolução, atacaram direitos, desmantelaram serviços públicos, alienaram instrumentos essenciais ao desenvolvimento do País, submeteram a soberania nacional a interesses estrangeiros.
É necessário retomar esse rumo, derrotando o Pacote Laboral, travando a injusta distribuição da riqueza, enfrentando o galopante aumento do custo de vida e rejeitando o arrastamento do País para a loucura do militarismo e da guerra.
Cinquenta e dois anos após a radiosa madrugada de Abril que resgatou os trabalhadores e o povo da opressão, e 50 anos depois das primeiras eleições para a Assembleia da República, reafirmamos o compromisso com os valores dessa Revolução inapagável e com o projeto promissor que anunciou um Portugal mais justo, desenvolvido e soberano.
Mário Vieira de Carvalho - Obscurantismo de antanho
Em pleno cinquentenário da nossa Constituição — uma das mais humanistas e avançadas do mundo — respigo estas notas para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez...
* Mário Vieira de Carvalho
Há cem anos, surgia em Lisboa uma nova publicação periódica: Ordem Nova. Na folha de rosto anunciava a sua linha editorial nos seguintes termos:
"Revista antimoderna,
antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista;
contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica;
intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e
quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa."
O seu diretor era Marcelo
Caetano.
Ao longo do ano publicaram-se
cerca de dez números. O guia era a “voz da Igreja”, “guarda da sabedoria
eterna” — lê-se num dos artigos. A razão era “débil e impotente no seu
mesquinho poder de adaptação compreensiva e daí a necessidade de a erguer sobre
a colunata sólida e eterna do Evangelho”. A defesa da razão, assim entendida,
opunha-se à “tara romântica”, uma “doentia manifestação de indisciplina moral”
que afetava “o homem primitivo, o selvagem, a criança e a mulher”, até o
próprio homem, “mas na sua adolescência”, isto é, em “certos estados de
infância física e moral”. Historicamente, a “tara romântica” representava “uma
inversão brutal da hierarquia”: “o regresso à barbárie, ao primitivismo, à
infância mental”, a “feminização do masculino”, o “império dos elementos
femininos sobre os elementos viris do espírito”. O “vírus romântico”, que
causava “degenerescência”, irrompera com as Luzes e, particularmente, com
Rousseau.
Noutro texto, assinado pelo
próprio diretor, este insurgia-se contra “a praga dos intelectuais”,
apelava a “varrê-los” como na Itália de Mussolini e louvava a “violência” como
“virtude”. Era o antídoto “para curar as nações fundamente atacadas do mal”.
Mal esse – dizia-se noutro número – que remontava mais longe ainda, ao século
XV, englobava a Reforma e o Renascimento, e não só “a erupção violenta do
século XVIII”. Tratava-se, enfim, de restaurar as relações feudais.
Tão abrangente era o desígnio
reacionário dos autores que nem a música escapava. O diabo fizera-se músico e
servira-se da mulher para atingir os seus fins: “O problema musical não é mais
do que um aspecto da grande insurreição feminina. [...] Modernamente o
sensualismo musical, envolvente e corruptor, domina o espírito. A razão
perdeu-se nos desvios de uma sensibilidade desvairada. [...] Separada da razão,
a música tornou-se como o ópio, a morfina e a cocaína, um perigoso dissolvente
de energia. Ergue paraizos artificiais [...] – todo um universo rubro de
pecado. [Produz uma] emoção toda carnal [...] continua a ser a voz do
tentador.”
A “ordem nova” que assim saía da
“moderna renovação escolástica” não era senão a velha ordem patriarcal: “Ordem
nas ruas! Ordem nos espíritos! Ordem em casa!”, já se proclamava no manifesto
da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira (1921).
Se, por um lado, o Integralismo
Lusitano aspirava à instauração de uma teocracia medieval, hostil às artes e,
em especial, à música, hostil à igualdade entre os humanos, à não-discriminação
em função do género, da raça e da condição social, os novos “cruzados” sonhavam
igualmente com uma ditadura, mas um pouco mais atualizada.
Em 1921, António Ferro falava do “Ditador que é preciso”, comparando-o a Parsifal, o protagonista do drama musical de Wagner, então estreado no São Carlos com um êxito colossal (nove representações, mais do dobro de qualquer outra ópera da temporada!). Sidónio Pais – lê-se numa entrevista de Ferro à escritora Veva de Lima – tinha sido “o Parsifal raté da nossa decadência”. Parsifal é também comparado ao “Santo Condestável” e a D. Sebastião. E como “o sebastianismo é a religião da raça", Ferro dedica “À saudade e à esperança do Encoberto” o seu livro Viagem em torno das ditaduras (1927). Por fim, o Encoberto revela-se em Salazar, a quem uma cronista do jornal católico A Voz dedica as suas impressões do Parsifal do Festival de Bayreuth de 1937... Não é, pois, por acaso que Salazar, “Salvador da Pátria”, é representado como um cavaleiro medieval, à imagem e semelhança de Hitler.
Na antologia de discursos de
Salazar publicada na Alemanha (1938), com uma Geleitwort do dr. Goebbels
e um prefácio de Gustavo Cordeiro Ramos, Sidónio é considerado um pioneiro e
Salazar colocado ao lado de Mussolini e Hitler, com a diferença de governar a
partir do seu gabinete, enquanto estes preferiam o permanente contacto com as
multidões. É que Salazar, como reconhece António Ferro, entretanto nomeado
Secretário da Propaganda Nacional, queria encenar uma “ditadura imponderável,
ausente” (discurso intitulado A Alma do Chefe, proferido solenemente, de
casaca, em 1942).
Em pleno cinquentenário da nossa
Constituição – uma das mais humanistas e avançadas do mundo – respigo estas
notas do meu livro sobre o Teatro de São Carlos (INCM, 1993) para relembrar o
obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez.
25 de Abril de 2026
Professor catedrático jubilado de Sociologia da Música (FCSH-UNL)
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Joyce Lussu - Scarpette Rosse
Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:
Sapatinhos Vermelhos
Joyce Lussu
Há um par de sapatinhos vermelhos
número vinte e quatro
quase novos:
na sola interna ainda se vê a marca de fábrica
«Schulze Munique».
Há um par de sapatinhos vermelhos
no topo de um monte de sapatinhos infantis
em Buchenwald
eram de um menino de três anos
de um menino de três anos
de pés descalços
que corria chorando
e parou diante da porta
para que a sua mãe o pegasse no colo
e depois entrou no fumo
e tornou-se fumo
que no vento se dispersou
agora há um par de sapatinhos vermelhos
número vinte e quatro
quase novos
porque os pezinhos das crianças mortas
não gastam as solas.
Notas sobre a tradução
"Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.
"Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.
Entrevista a Pedro Lauret: “Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril”
Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido
* Joana Pereira Bastos, Jornalista
Pedro Lauret
tinha 25 anos quando se juntou à conspiração de militares que levou ao 25 de
Abril, integrando o primeiro grupo de ligação da Marinha ao Movimento dos
Capitães. E fez parte da pequena comissão que redigiu o Programa do Movimento
das Forças Armadas, no qual ficou escrito o rumo a seguir no país: liberdade e
democracia, paz e descolonização. Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o
Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o
trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado
democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter
sido devidamente reconhecido. E que acusa de estar agora a ser intencionalmente
menorizado pelo Governo.
Como
interpreta o bloqueio do Governo ao Museu do 25 de Abril?
O 25 de Abril é
uma das datas mais importantes da História de Portugal, porque derruba uma
ditadura longuíssima, quebra o ciclo colonial e permite que, pela primeira vez,
se realizem eleições livres e se institua uma democracia. Era fundamental ter
um espaço museológico que preservasse esta memória, mas o Governo não quer que
isso aconteça. Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril e
branquear a ditadura, porque este Governo tem na extrema-direita o seu aliado
preferencial e, para isso, convém-lhe menorizar a Revolução. Tudo o que seja
feito para enaltecer o 25 de Abril não lhe interessa. Mas este apagar da
História é criminoso. E os capitães de Abril, então, estão a ser completamente
votados ao esquecimento. Mas isso já acontecia, mesmo antes desta conjuntura
Porque diz
isso?
Nunca houve um
grande reconhecimento do poder político, no geral, em relação aos capitães que
fizeram o 25 de Abril. E isso vê-se em várias coisas. Por exemplo, até ao final
do mandato de Jorge Sampaio tinham sido condecorados apenas os militares que
fizeram parte do Conselho da Revolução e da Comissão Coordenadora [do MFA] e,
mesmo no último dia do mandato, foram condecorados mais 15, que foram os
comandantes das unidades que saíram no dia 25 de Abril. O Mário Soares não
condecorou, individualmente, um único, mas apenas os estandartes das unidades.
E a maioria continua até hoje sem ter a Ordem da Liberdade. Por outro lado, se
olharmos para a toponímia de Lisboa, as ruas estão cheias de referências aos
heróis do Liberalismo e da República, mas não se veem ruas com nomes dos
militares de Abril. As nossas carreiras militares foram todas feitas em cacos.
E hoje em dia considera-se que os ‘pais da democracia’ são o Mário Soares, o
Freitas do Amaral, o Sá Carneiro... e os capitães são esquecidos. No discurso político
e mediático, é como se não existissem. E mesmo no âmbito das Comemorações dos
50 anos, houve muito pouco envolvimento dos capitães no programa. Tudo isto
entristece-nos e revolta-nos bastante. E não é por vaidade, mas por uma questão
de justiça e de verdade histórica.
A que acha
que se deve essa falta de reconhecimento por parte do poder político?
Acho que há
razões profundas. A oposição civil à ditadura sempre esteve muito dividida e
nunca teve uma estratégia consistente para derrubar o regime. E foram os
militares que, sozinhos, conseguiram fazê-lo. Um grupo de miúdos com 25, 30
anos que em nove meses fizeram uma conspiração e em 18 horas deitaram abaixo a
ditadura. Acho que os políticos da altura sempre tiveram algum ciúme em relação
a isso. E apesar de já terem passado uma ou duas gerações, isso permanece. Para
os políticos, os militares são um incómodo. Mas o que fizemos é notável e não
há, na história mundial, nenhum outro exemplo de militares que tenham feito um
golpe e não tenham querido ficar com o poder. Tal como prometemos, um ano
depois fizeram-se as primeiras eleições livres. E tivemos de fazer tudo para as
pôr de pé, montando uma operação extraordinária para fazer o recenseamento e os
cadernos eleitorais.
A
instauração da democracia era consensual entre todos os militares de Abril?
Os militares
eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam
bem o que era isso da democracia. A vida de um oficial do Exército era muito
difícil. Estava dois anos em comissão [na guerra], vinha para cá um ano e pouco
e voltava novamente. Uma vida destas não dava para fazer grandes reflexões
políticas. A preocupação era sobreviver. O que motivou os militares para o
golpe foi a necessidade de acabar com a guerra, a partir do momento em que se
tornou evidente que ela estava perdida.
“Os
militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos
nem sabiam bem o que era isso da democracia”
Em que
momento isso aconteceu?
Em março de
1973, na Guiné, quando o PAIGC [movimento independentista da Guiné] adquiriu à
União Soviética uma nova arma que mudou tudo: os mísseis antiaéreos. No mesmo
mês abateram dois Fiat, que eram os nossos aviões mais sofisticados, e logo em
maio abateram três no mesmo dia. A partir daí, a nossa Força Aérea deixou de
conseguir, com a mesma eficácia, contrariar os ataques e fazer a evacuação de
feridos. A guerra estava perdida e não estávamos dispostos a ser sacrificados.
Além disso, o regime foi incompetente e criou uns decretos que punham os
milicianos à frente dos outros, o que criou ainda mais descontentamento, mas a
questão central não foi essa. Foi acabar com a guerra. E, a dada altura,
percebemos que a única maneira de o fazer era derrubando o regime. Foi isso que
motivou a conspiração.
Participou
na conspiração desde o início?
Sim. Fiz parte
do primeiro grupo de ligação da Marinha ao movimento dos capitães. O
planeamento militar do golpe não teve dificuldade nenhuma e correu rapidamente.
Em janeiro de 1974, a estratégia estava delineada. Depois faltava a parte
política, que foi mais complicada. Só se começa a falar disso em fevereiro ou
março, já às portas do 25 de Abril. E enquanto que a ordem de operações foi
muito falada e discutida, o programa [político] foi muito restrito e feito por
um núcleo muito pequeno. O Melo Antunes, que era dos oficiais do Exército mais
politizados, e alguns oficiais da Marinha, nomeadamente o Martins Guerreiro, o
Almada Contreiras e eu próprio, trabalhámos no documento político quase
clandestinamente dentro do próprio movimento.
O programa
político foi facilmente aceite por todos?
A grande
maioria dos militares envolvidos no 25 de Abril não teve conhecimento do
programa político até ao golpe. Mas nunca houve nenhuma contestação. A partir
do momento em que se dá o 25 de Abril, o programa foi assumido por todos. Foi à
militar: “Este é o nosso programa, temos de o cumprir.” E cumprimos. No
programa do MFA estava escrito: no prazo máximo de um ano tem de ser eleita uma
assembleia constituinte para fazer uma nova Constituição; quando ela estiver
pronta, serão eleitos os órgãos de soberania que nela estiverem previstos.
Assim foi. No dia 25 de Abril de 1975 formou-se a Assembleia Constituinte por
sufrágio universal, no ano seguinte estava pronta a Constituição, que fez este
mês 50 anos, e foi eleita a primeira Assembleia da República, o primeiro
Presidente da República democraticamente eleito, os Governos Regionais dos
Açores e da Madeira e os órgãos das autarquias locais. E os militares saíram de
cena. Mas fomos nós que construímos os alicerces da democracia e isso nunca foi
devidamente reconhecido. E hoje menos ainda.
23 abril 2026
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade
Manuel Pires da Rocha
Permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade”
Reivindicamos a alegria.
Reivindicamos as canções de liberdade.
Reivindicamos a música ordenadora do universo.
Reivindicamos as mãos dadas dos amantes.
Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas.
Reivindicamos as pontes tranquilas.
Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis.
Reivindicamos a palavra, o poema, o livro.
Reivindicamos a festa.
Reivindicamos esta arma.
(Mário Castrim)
Quando Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Carlos Paredes e Fernando Alvim, José Barata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Amparo, Ary dos Santos, entre outros, subiram ao palco do Coliseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as canções que ali levaram tinham ecoado pelas colectividades de cultura e recreio, nos encontros da oposição democrática, nas reuniões antifascistas que eram acampamento, piquenique e homenagem.
Naquela noite de quase-Abril, cinco mil antifascistas e uma dúzia de pides, uns cantando e aplaudindo, os outros tomando notas, assistiam à ante-estreia de Grândola, Vila Morena nos caminhos da História, no mesmo tabuado em que Ary dos Santos declamava “aqui ninguém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.
Vozes mais antigas seriam, porém, iniciadoras deste canto que quis ser arma libertadora. No Outono de 1945, Fernando Lopes-Graça juntou na casa de aldeia de João José Cochofel, perto de Coimbra, os também poetas Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, dando início à escrita de um projecto inspirado nos cancioneiros revolucionários históricos da Revolução Francesa e da Revolução de Outubro. Marchas, Danças e Canções seria o primeiro cancioneiro político da luta antifascista portuguesa, a que seguiriam oito cadernos mais, que Lopes-Graça intitularia Canções Heróicas, Dramáticas, Bucólicas e Outras.
As Heróicas seriam inicialmente divulgadas pelo Coro do Grupo Dramático Lisbonense, constituído no seio do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Em 1946, após uma apresentação pública na Biblioteca da Incrível Almadense, a censura proibiu o repertório. Tarde demais, porém – as Heróicas viviam já nas vozes de grupos formais e informais, juntas e afinadas na luta contra o fascismo. Tanto, que não haverá memória de lugar conspirativo, das salas do associativismo popular às celas das prisões, onde não tenha havido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.
O século XX das lutas anticoloniais, antifascistas e anti-imperialistas viria a ser o momento da expansão geral da música de combate pela liberdade e pela construção do socialismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Violeta Parra, Mikis Theodorakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Silvestre Revueltas, Chostakovitch e Carlos Paredes, entre tantos outros, a música assumiu opção de classe à escala universal, independentemente da natureza dos palcos e do vocabulário próprio de cada género musical.
Em Portugal, o século passado é também o lugar da descoberta da música popular das comunidades rurais, condutora de sinais civilizacionais que também são os da consciência social (“Ó minha mãe dos trabalhos / Para quem trabalho eu / Trabalho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jornada é companheira da Canção da Vindima, em José Afonso o Cantar Alentejano (em homenagem a Catarina Eufémia) divide intenções com Milho Verde e, no canto de Adriano Correia de Oliveira, Tejo Que Levas As Águas ombreia com ‘Inda Eu Era Pequenino.
Chegados aqui, constata-se que o cantar que (também) abriu caminho à Liberdade que em cada Abril se celebra, não perdeu actualidade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à habitação, à saúde e à educação, democratas de todas as idades entoam o velho refrão de Liberdade – palavra de ordem intemporal da exigência de um tempo de justiça. E cantam Os Vampiros denunciando o saque, o Acordai chamando para a luta, o Hino de Caxias cerrando fileiras. E acolhem cantos emergentes, que são mornas e dizeres de hip hop, somando-se ao cantar histórico nas lutas dos movimentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas acções do movimento sindical, nas iniciativas pela paz, nas acções de solidariedade com a Palestina e com Cuba.
Juntam-se, no rumor do nosso tempo, timbres e sotaques diversos, mas o estribilho geral permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade" q”e, cantando “junta a tua à nossa voz”, marca encontro com o futuro.
https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm





