D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 27 de março de 2026
Alfredo Barroso - NÃO É CÓMODO SER DE ESQUERDA
quinta-feira, 26 de março de 2026
Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia
* Daniel Oliveira
Desvinculações
do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre
vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os
tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu
lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas
não é um voto de exigência, é um voto de desistência
Em várias
autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma
ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega
ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto
seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja
difícil falar de estratégia.
Em apenas cinco
meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido
e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões
Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o
executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício
Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o
mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com
pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra,
Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas
numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela,
Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de
posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos
e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O
mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel
Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato,
o que é um pouco diferente.
Em poucos
meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e
ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de
câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.
Em São
Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos
conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros
vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos
do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores
do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o
orçamento é bom. Permitam-me duvidar.
Em Lisboa,
o vereador que não abandonou o partido queimou-se com
a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos
Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por
burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado
próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui
Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora.
Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma
irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.
Onde não há
debandada há balbúrdia.
Tudo contrasta
com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os
arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que
já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não
passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros
partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo
de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos
justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.
Nada
disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato
anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na
Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais
mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça,
há dirigentes e deputados do partido da “lei e da
ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de
álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de
pedofilia.
Não
é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça
estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para
fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto.
Alguns estarão de tal forma fanatizados que
ou justificarão o injustificável ou
encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada
vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho
de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.
Mas a maioria
apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos
desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto
de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema,
aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos
iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles
em quem votam.
2026 03 26
domingo, 22 de março de 2026
Jaime Nogueira Pinto - O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril
* Jaime Nogueira Pinto
Nestes dias
em que tanto se fala do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses
obscuros princípios do século XVI em que Portugal se iniciava na conquista e na
opressão além-fronteiras.
21 mar. 2026
Os portugueses
de hoje, criados nas alegrias da democracia e do progresso que lhes trouxe
Abril, são capazes de ter alguma dificuldade em conceber esse outro país que
Portugal já foi. Mais, confrontados com a liberalidade e a democraticidade dos
políticos, pode até parecer-lhes impensável, quando não impossível, a
resistência a Castela no século XIV e a conquista do império do Oriente no
século XVI, protagonizadas por homens tão iliberais e tão pouco inclusivos como
Nun’Álvares ou Afonso de Albuquerque.
Por isso,
nestes dias em que, a propósito da nova guerra do Irão, tanto se fala de Ormuz
e do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios
do século XVI em que um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e
católico, talvez para desviar as atenções de problemas internos (ou para os
resolver), se iniciava na opressão além-fronteiras a que alguns saudosistas
ousam chamar epopeia de navegação e conquista.
As chaves
dos mares
D. Manuel I, o
venturoso e feliz herdeiro do Príncipe Perfeito, coordenou uma política de
expansão no Índico que tinha como linha de rumo a conquista das chaves daquele
Oceano, por onde passava o precioso e estratégico tráfico das especiarias. E
essas chaves eram Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.
Em Abril de
1506, saiu de Lisboa para a Índia uma armada de dezasseis navios, onze sob o
comando de Tristão da Cunha (que capitaneava toda a expedição) e cinco sob o
comando de Afonso de Albuquerque. Albuquerque já passava dos cinquenta anos.
Nascera em 1453, fora próximo de D. João II e combatera no Norte de África. Ao
que parece, D. Manuel não o estimava muito e Albuquerque e Tristão da Cunha não
primavam pelo entendimento. Mas a longa viagem foi correndo: passaram o Cabo da
Boa Esperança e seguiram com combates, ataques e saques de cidades da costa
oriental africana; depois, já no Índico, a sul da península arábica, tomaram a
ilha de Socotra ou Socotorá.
A partir daí,
Tristão da Cunha rumou para a Índia e Albuquerque, com seis navios e
quatrocentos e cinquenta homens, decidiu conquistar Ormuz. A cidade de Ormuz
dominava as ilhas do Golfo Pérsico e a costa de Omã. Albuquerque deixou Socotra
a 10 de Agosto e, levando a bordo pilotos árabes, conhecedores dos mares e
terras da região, foi tomando posições – Calayate, Curiate, Mascate – e avançou
para Ormuz. Pelo meio, teve conselhos de guerra difíceis com os seus capitães,
que exprimiam dúvidas e receios perante a sua audácia e preferiam esperar e
pilhar os barcos dos peregrinos de Meca. A cena repetiu-se em Ormuz, quando
Albuquerque exigiu ao regente, Khodja-Atar, que prestasse vassalagem ao rei de
Portugal.
Começaram as
negociações, mas o capitão português, entendendo que os de Ormuz esperavam
reforços da costa e procuravam ganhar tempo, ordenou aos comandantes da frota
portuguesa que abrissem fogo sobre os navios inimigos parados no porto. Ao
mesmo tempo, ordenou o desembarque, enquanto, das naus portuguesas, a
artilharia flagelava a cidade e os barcos adversários. Khodja-Atar não tardou
em pedir uma trégua para negociar.
Nas
negociações, pelo lado dos locais, falou o primeiro-ministro Seif-ed-Din, que
aceitou, a troco da paz, pagar ao rei de Portugal, anualmente, “quinze mil
xerafins de ouro”. Além disso, devia desembolsar imediatamente uma quantia de
cinco mil xerafins para as despesas da esquadra portuguesa e, mais importante,
permitir que os portugueses edificassem na ilha uma fortaleza. Prontamente,
contra as objecções dos seus capitães e dos chefes muçulmanos, Albuquerque
iniciou a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, que
levaria trinta anos a ser concluída (ficaríamos em Ormuz até a perdemos para os
ingleses, em 1622).
Albuquerque
abandonou então Ormuz, onde só voltaria em 1515, no seu último ano de vida.
Seria, entretanto, nomeado governador da Índia por D. Manuel I em 1509; em 1510
conquistaria Goa e, em 1511, Malaca.
Com estas três
praças, assegurara posições terrestres a partir das quais os portugueses
dominariam o comércio do Índico até ao fim do século XVI.
Para fechar o
controlo português, apenas lhe faltava Adem, uma cidade-Estado à entrada do Mar
Vermelho, que, uma vez conquistada, acabaria com o comércio dos mamelucos com
Veneza.
A frota
portuguesa partiu de Goa em 18 de Fevereiro de 1513. Eram vinte navios, com
1700 marinheiros e soldados portugueses e 800 aliados malabares. Fizeram uma
paragem em Socotra e, a 26 de Março, Domingo de Páscoa, atacaram Adem. Mas na
escalada das muralhas, as escadas partiram-se sob o peso dos atacantes e o
ataque foi repelido; um segundo ataque também falhou, e assim se gorou o
ambicioso plano do “Leão dos Mares” de fechar, para a Coroa portuguesa, as
portas e chaves do Índico.
Rezam as
crónicas que as escadas cederam à precipitação dos oficiais e soldados
portugueses, todos querendo ser os primeiros no perigo e na glória.
Ocupando Goa e
Diu, os portugueses dominavam parte importante da Índia; com Malaca, vigiavam a
passagem do Índico para o Pacífico; controlando Ormuz, dominavam a circulação
no Golfo Pérsico; com Adem, ficariam também senhores da entrada e circulação do
Mar Vermelho e do caminho de Meca.
A narrativa
destes sucessos ficou nas Décadas da Ásia, de João de Barros, e nos
Comentários, de Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque.
Camões, o
profeta
Além do
comércio da pimenta e do controle dos recursos, D. Manuel e Albuquerque
pensavam em termos de nova cruzada, de “mudança de regime”, dir-se-ia hoje.
Roger Crowley voltou a lembrar-nos isso, recordando a importância das
referências ao rei cristão perdido no Nordeste de África, o Preste João.
Camões, na
estrofe 40 do Canto X de Os Lusíadas, celebra os feitos do governador, pela voz
da ninfa Thétis:
«Esta luz é do
fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»
Nas estrofes
seguintes, continuam os louvores a Albuquerque, mas, a partir da estrofe 45,
Camões censura o grande capitão pela severidade com que pune com a morte um dos
seus subordinados por um delito sexual menor. E segue com a narrativa de outros
governadores e capitães da Índia.
A ninfa leva
então o Gama ao cume de um monte na Ilha dos Amores e mostra-lhe a “máquina do
mundo”, a terra com os seus reinos, os seus mares, os seus povos, correndo e
percorrendo todos os continentes. No final, o poeta dirige-se a D. Sebastião,
incitando-o a seguir o exemplo dos heróis portugueses, praticando grandes
feitos:
«De sorte em
que Alexandre em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja!»
Alexandre
conquistou o mundo, mas morreu novo, aos 33 anos. Aquiles também fez grandes
coisas, mas teve azar com a flecha de Páris, o filho de Príamo, causador da
desgraça de Troia, pelo rapto da bela Helena.
O poeta aqui
foi também profeta: D. Sebastião ia perder-se no nevoeiro aos 24 anos.
…E Portugal,
teria de esperar que raiasse Abril para ver raiar a Democracia e poder, enfim,
realizar grandes feitos.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Eugénia Galvão Teles - Uma Maria Antonieta das Caldas em Belém
* Eugénia Galvão Teles
Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social
19 março 2026
Conforme o esperado, a polícia da
moda analisou minuciosamente o vestido que Margarida Maldonado Freitas usou na
posse do marido como Presidente da República. O jornalismo de investigação não
descansou enquanto não deu com a origem daquele bocado de tecido azul da
Valentino e apresentou a conta à população. Uma etiqueta com demasiados zeros
transformou a farmacêutica das Caldas numa nova Maria Antonieta, insensível à
pobreza dos seus súbditos. Como se não bastasse ser demasiado caro, apareceu
ainda o demasiado estrangeiro. Com tantos costureiros nacionais, a mulher foi
escolher um italiano e ainda lhe pregou uns corações de Viana, na esperança de
nacionalizar à pressa a farpela.
Para brincar aos polícias da moda
a sério, dava jeito saber alguma coisa sobre a história da roupa feminina —
além da cor do ano, das bainhas que sobem e descem, da meia dúzia de marcas que
aparecem nas revistas e do reflexo pavloviano quando um vestido é mais caro.
Já não peço que saibam que Chanel,
em 1955, criou uma carteira com alça a tiracolo para deixar as mulheres com as
mãos livres; que Yves Saint Laurent se ofereceu para vestir a mulher emancipada
dos anos 70, caso ela não desse com o príncipe encantado; que o luxo online
trocou a lady who lunches por uma compradora com vida profissional e pouco
tempo para correr lojas à procura do traje mais adequado à ocasião.
Mas há mínimos. Não dá para não
saberem que o mercado de luxo foi dos primeiros a apostarem numa cliente com
cartão de crédito próprio. Não que o mercado se tenha tornado feminista. Fez
apenas o que o capitalismo sabe fazer e reconheceu os frutos económicos da
emancipação feminina. Margarida Maldonado Freitas é um bom exemplo dessa
mudança. Já nasceu no mundo das que estudaram, trabalharam, ganharam o seu
dinheiro e não pedem licença para existir ao lado de um homem com poder.
É verdade que a mulher a subir a
calçada não é só a Margarida que pode comprar o que quer. Mesmo num país sem
primeira-dama, está ao lado do Presidente. À mulher de César não basta ser;
também tem de parecer.
Só que a António José Seguro
ninguém cobrou os fatos Canali, que não são propriamente baratos. Felicitou-se
a sua entrada bem-sucedida no clube dos homens políticos que se vestem como
deve ser e procuram uma boa relação qualidade-preço. Já a indumentária da sua
mulher, mesmo em saldo, só pode ser um brioche atirado ao povo pela calçada de
Belém. O luxo masculino continua a ser competência. No feminino, é falha moral.
Também convém manusear com cuidado
toda essa sensibilidade social. Da sobriedade republicana passa-se, amiúde
demasiado depressa, para o Portugal dos pobrezinhos e dos pequeninos. Na
investigação jornalística feita ao vestido, achou-se natural ir bater à porta
da costureira da mulher do Presidente. Sendo das Caldas, logo havia de se
vestir por lá, com a mediação social adequada ao código postal. O que incomoda
não é só o preço do vestido. É a quebra de uma certa geografia de classe.
Quando me casei, cheguei à modista
com uma página arrancada da “¡Hola!” e um modelo da Valentino para evitar
acabar igual à princesa Diana, que ainda era a referência obrigatória em
matéria de vestidos de noiva. É bem possível que a Margarida Maldonado tenha
feito o mesmo. Nenhuma de nós tinha dinheiro para comprar o figurino da
revista. Mas ambas sabíamos que ninguém reinterpretava a elegância clássica
tirando-lhe o mofo como o Valentino. Trinta anos depois, faz sentido que passe
do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma
história de emancipação feminina e mobilidade social.
O que se quer de um Presidente de
todos os portugueses não é que ele e a mulher se vistam de pedagogia social
ambulante. É que façam tudo para que essa história não pare neles. Qualquer que
seja o vestido dela e o fato dele.
sábado, 14 de março de 2026
Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais
* Daniel Oliveira
A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.
domingo, 8 de março de 2026
Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]
sexta-feira, 6 de março de 2026
João Rodrigues - Parabéns - 105º aniversário do PCP
Poemas de Rui Lage
A CARTA NA MÃO
ao meu pai, Carlos
País perdido no regaço da palha
sob o peso da luz e do pão,
tenho-te escrito e aberto nas mãos,
tenho-te perto da vista e longe
cada vez mais do coração.
Sobre os joelhos o fruto seco da carta,
a nódoa de veneno deixada
pelos insectos, a invasão dos vermes,
as unhas imundas que feriram
a polpa, o caroço onde guardo
os sinos da manhã.
O pátio na carta aberta,
a casa remota, perdida
após montes e montes deitados
sobre o perfume das hortas,
o eco das minas bebendo em sossego
o pensamento, a lentidão dos animais
que perduram na curva dos caminhos.
Na carta aberta o cimo das escadas,
o céu tranquilo as mãos na cintura,
a súplica de pó no rosto que olha
pedindo a mão pequena
para a borda da saia,
o primeiro dia de escola
para o colo do regresso.
Mas se morrermos agora,
no pátio ou no deserto, quem dará conta
do país perdido?
Que me pede a carta nas mãos
cantando o país perdido?
Também aqui as cigarras cantam
mas estranhas aves amplificam
no tímpano sujo dos muros
o ar queimado da savana.
Que faço na terra do marfim?
Porque não há cravos
na pequena horta da prisão?
Dizem que o Sr.João não se lava,
que em certas noites
dorme no monte junto ao cavalo;
que bebe muito e cai pela terra
em redondo o pensamento,
que a sua cama não tem lençóis
e que a suportam quatro tijolos;
que nunca lava as escadas
e que nunca lava a roupa
embora permaneça preso ao ribeiro
muito depois
de as mulheres terem partido.
Vejo
que a cova dos seus olhos
foi aberta num sítio
rodeado de terra por todos os lados.
As árvores, que se saiba,
não se lavam
e dormem ao relento
encostadas ao cavalo do estio
(se assim não fosse não amaria
o que já não seriam árvores).
O Arquivo de Renato Suttanna https://www.arquivors.com/ruilage.htm
Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES
MORREU ANTÓNIO
LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO
POR PREGUIÇA…
- confessa
Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas
António Lobo
Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo
Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português.
Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se,
tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela
extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.
Foi um amigo
meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a
“Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de
Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”.
E por aqui me fiquei.
Confesso que,
neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de
construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava
a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos
romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se
topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em
dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo,
«a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira
estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E
repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da
cabeça para que se saiba quem é o patrão»…
E assim por
diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto
talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e
ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e
pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a
implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu
filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem
reticências…
O narcisismo,
ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais
que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis
crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não
lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…
NOTÍCIA DA
DEMÊNCIA E DA MORTE
O certo é que
António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83
anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que
escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou
bastante do mundo, devido à demência que o afectou.
«A doença que o
foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de
Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O
jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes.
Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas
aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves,
ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…
“É a minha
geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã,
tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever:
deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de
todos nós esteve ele.”
Para Lídia
Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance
psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história
viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da
relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo,
um modo e uma forma que são universais”.
Essa forma que,
segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de
tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo.
“Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus,
de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É
uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da
página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever
como ele.”
E se gostou dos
primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas”
-, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo
“impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais
difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da
linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo
da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.
Dulce Maria
Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de
originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”,
que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi
sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho,
trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito
ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o
escritor nascido em Benfica.
Carlos Vaz
Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo
relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui
entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico
psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a
conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a
porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que
vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali
mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’,
explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a
frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’
Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a
ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz
bem timbrada, na minha cabeça.”
Campo
d’Ourique, 5 de Março de 2026
https://www.facebook.com/somera.simoes/post


