"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham
que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"
25 nov,2025
ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota
Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um
dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda
desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo
meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em
Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.
Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do
chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra
esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas
deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma
como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa
de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século
depois, o
coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”:
“Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de
Abril".
Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a
1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das
ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e
de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a
extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos
bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças
Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria
prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos
partidos.
O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe
falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares.
Para quase todos, o
episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.
É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a
voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na
crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da
Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no
limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras
partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.
Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço,
não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus
homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o
Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta
como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita
militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam
caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades
militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra
civil”, considera Vasco Lourenço.
Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e
vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A
extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se
no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem
transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta
reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas
foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O
que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25
de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia
consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num
tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos
‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer
dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.
Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?
Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei
para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril,
aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo.
Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a
certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de
casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi
preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto,
de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo
intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25
de Abril.
Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que
já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma
tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que
ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é
que foi, exatamente, o 25 de Novembro?
Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial,
foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção
que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos
perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se
tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente,
resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que
militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância
fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações
no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era
o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão
político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez —
quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do
Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós
aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no
Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que
tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando
com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de
Estado nenhuma.
Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de
Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os
momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma
palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente
considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem
figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho
Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que
Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?
Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também,
de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em
ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele
acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força
militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é
substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação
que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa:
a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que
era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa
os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para
Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo
tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer
— tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e
começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram
aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000,
eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante
dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma
solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e
faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da
República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o
general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta,
ser atribuída ao COPCON.
Uma solução pacífica, portanto.
Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a
oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do
Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído
—, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O
COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar
salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível?
Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar
de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de
Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que,
entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando
da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois
tratamos disso'.
Mas a tensão foi aumentando.
A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes
de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de
alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma
estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -,
mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for
nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa
solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O
que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura,
convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de
informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a
'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o
Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento.
Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois
capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para
os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar
para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe,
ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá
fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa
justificação'.
Só que transformaram as sessões de esclarecimento em
ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base
Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...
O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E
nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de
golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os
esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em
ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão
convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da
manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo
os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem
transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.
Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês
foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da
Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel
Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente
fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou
ali e acabou por não escalar noutros sítios?
Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que
tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa
Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade
de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em
golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a
unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém,
eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes
transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se
apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém,
ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a
querer sangue, conseguissem sangue.
Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?
Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a
frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e
tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados
umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28
de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo,
fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante
operacional] conseguiu evitar.
E aí seria um banho de sangue.
Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra
civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.
Mas voltemos às mortes na Ajuda.
Foram três minutos.
Três minutos?
Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito
'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me
disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e
com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com
uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que
eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes
para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em
determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não
foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe
bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por
atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade
estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da
Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas
atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que
estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam:
quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os
Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial
de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar.
Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que
não pertencia à unidade.
Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.
Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos
— como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o
Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com
o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve
essa situação.
E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a
tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?
Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu
digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação;
estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se
obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente
da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa:
apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã,
a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário',
porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e
deram origem a isso.
O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo,
trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e
outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o
25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece
haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que
tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele
foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável
ao 25 de Abril. É assim?
O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os
'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue
e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo,
queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam
caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado
numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do
MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia
29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz
'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas
conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25
de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes
derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de
facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo
institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um
vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo,
inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975
para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que
muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a
correr com o PCP e com a extrema-esquerda.
Não é totalmente verdade.
Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização.
Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que
é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de
radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou
deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje.
E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os
vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com
o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que
queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram
envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é
que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da
proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro
é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu
essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a
Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles
hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que
querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'.
Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa
derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches,
como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser
feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.
Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve
ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último
acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras
duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma
crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada
por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada
por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é
só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não
se deu tanto por isso mas aconteceu.
Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda
a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa
democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de
Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado
para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?
Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o
problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram
a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração
desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o
28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça,
acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno,
de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que,
também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo
ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem
atingir os seus objetivos.
O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?
Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA
tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso.
Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e
continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura,
quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao
Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala
esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em
determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este
deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um
ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder
gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado
democraticamente.
São os netos dos “falcões”?
[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O
Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de
um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à
mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes
bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um
'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse
que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25
de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um
dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede
terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no
PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios
'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…
Insubordinar-se.
Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram
alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da
extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar
no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me
diz respeito, faço-lhes frente.
