domingo, 2 de agosto de 2026

Onofre Varela - VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

*  Onofre Varela

Na colaboração que mantenho com dois jornais regionais (Gazeta de Paços de Ferreira e Semanário Alto Minho) estou a publicar um texto em "episódios" (como as telenovelas) por obrigação do espaço de que disponho. Decidi publicar aqui os mesmos textos, juntando "dois em um", para não maçar o leitor com prosa intensa, por considerar o texto com interesse para uma grande parte de nós.

Portanto, aqui vai a primeira entrega:

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

Por Onofre Varela

Miguel Szymanski - A União Europeia a desintegrar-se de acordo com os planos dos EUA

* Miguel Szymanski
  ·
 
Um chefe de Estado ou de Governo, seja português ou espanhol, não pode, no meio de uma crise cuja solução depende da boa vontade de um país vizinho — um regime policial e autoritário —, apontar-lhe o dedo e acusá-lo daquilo que, de facto, fez, e não pela primeira vez: instrumentalizar nas fronteiras uma multidão de milhares de pessoas desesperadas para fazer avançar a sua agenda. Mas é lamentável que um chefe de Estado na frase com que é citado pareça reforçar a tese central da extrema-direita. Foi o que Seguro fez, ou pelo menos assim é citado, quando um órgão de comunicação social resume a posição nesta crise à exigência de "mão forte contra a imigração ilegal". 

Ângelo Alves - A 'invasão« de migrantes

 `

* Ângelo Alves
 
Alguém pode por favor explicar a alguns comentadores e a outros seres que vendo nos primeiros os deuses da sabedoria, parecem desprovidos dessa incomum capacidade de pensar pela sua própria cabeça, duas coisinhas muito simples? 

1 - Ceuta é um território situado no continente Africano! É um muito pequeno enclave espanhol, que faz fronteira directa com Marrocos. Portanto, por mais que isto entristeça os manipuladores de direita e extrema direita, não,  não houve dezenas de milhares de pessoas a nadar de Marrocos para o continente europeu. E a menos que fossem todos profissionais do maratonismo de natação, nunca conseguiriam e nunca conseguirão fazer essa travessia a nado. O que aconteceu é que uns nadaram contornando um quebra mar e outros pura e simplesmente passaram a pé.

(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

(44) Deejay Telio & Deedz B - Não Atendo



Foto Victor Nogueira - Grafito em Setúbal, na Avenida Antero de Quental ( 2021 07 22 Canon 194_07)
Conteúdo partilhado com: Público

O número para qual você ligou, tá desligado
É para informar que eu hoje não atendo
Não atendo, eh
Deixa curtir minha drena, ya
Deixa curtir minha drena (deixa)
Ai hoje eu vou tchilar com meus avilos
Curtir uma drena longe do cubico
Please me liga só se tiveres guita
Hoje só atendo se o assunto for business, ay
Com tanta dama a tua volta só queres vir mesmo me incomodar, ohohoh
Tem lá calma contigo queres dar pra vip pois aqui não dá
Porque eu só quero curtir minha drena
Então deixa eu curtir assim

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~
  • A Reivindicação do Espaço e da Linguagem: Esta intervenção num muro de contenção junto a uma escadaria destaca-se pelo contraste entre a estrutura tipográfica azul da peça central e a frase inscrita em tom de desabafo ou manifesto direto: "Deixa curtir nha drena". A utilização do crioulo / calão urbano reafirma a identidade cultural e a apropriação do espaço público pelas dinâmicas da juventude periférica.

  • Técnica e Preenchimento: A peça principal faz uso de um preenchimento em linhas verticais (efeito hachurado a spray azul) com contornos a preto bem marcados e destaques a rosa/laranja na terminação direita, mostrando uma transição entre o throw-up rápido e a preocupação com a tridimensionalidade.

  • A Camada do Palimpsesto: No canto esquerdo, o aparecimento da tag "ENSI!" em formato de balão com uma pequena personagem/caricatura reforça a coabitação de diferentes assinaturas e linguagens visuais no mesmo suporte de betão. (Gemini)

  • sexta-feira, 31 de julho de 2026

    Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo

    *  Miguel Sousa Tavares

    1.  Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

    Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.


    Sinais de fogo, por Hugo Pinto
     
    1Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

    Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

    2.  2Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

    2026 Julho 31

    Mais Geografia - inversão da representação cartográfica

    *  Mais Geografia ·
     ·

    🇧🇷 Quem se irrita com o Brasil “de cabeça para baixo” provavelmente não entendeu uma das primeiras lições da geografia: norte para cima não é uma lei da natureza, é apenas uma convenção cartográfica.

    A Terra é uma esfera. No espaço, não existe “em cima” ou “embaixo”. Norte, Sul, Leste e Oeste são apenas referenciais criados para facilitar localização e orientação. Por isso, virar o mapa do Brasil não muda absolutamente nada: os estados continuam no mesmo lugar, as fronteiras permanecem iguais e o país segue exatamente o mesmo.

    O que muda é apenas a forma como enxergamos a representação do espaço.

    Mapas não são o mundo real, mas representações dele. E toda representação envolve escolhas técnicas, culturais e históricas. Durante séculos, os mapas produzidos majoritariamente na Europa colocaram o Norte na parte superior, consolidando essa visão como “natural”. Alguns estudiosos apontam que isso também ajudou a reforçar simbolicamente uma ideia de superioridade do Norte global sobre os países do Sul.

    Existe inclusive um viés psicológico associado a isso: muitas pessoas tendem a relacionar o que está “em cima” com riqueza, desenvolvimento e poder, enquanto associam o que está “embaixo” à pobreza ou inferioridade. Não por acaso, diversos países do hemisfério sul já questionaram essa lógica ao longo do tempo.

    Recentemente, o IBGE publicou novas versões do mapa-múndi com o Brasil no centro e também em perspectiva invertida. Nenhuma dessas representações está “errada”. São apenas diferentes formas de representar o planeta dentro das convenções cartográficas aceitas pela ciência.

    Outro ponto importante: todo mapa possui distorções. A Terra tem formato geoidal, arredondado, e transformar uma esfera em uma superfície plana exige adaptações. Por isso existem diferentes projeções cartográficas, como a projeção de Robinson, muito usada em livros didáticos justamente por buscar maior equilíbrio entre forma e área dos continentes.

    Geografia é ciência, não opinião.

    Entender que mapas são convenções e representações é o básico para compreender o mundo de forma crítica e menos limitada por costumes que muita gente aceita sem questionar.

    2026 Julho 31
    https://www.facebook.com/muitomaisgeografia? 

    (43) - Razão de ser das 'Letras na arte urbana'



    * Victor Nogueira / AI

    No Kant_O Photomatico tenho publicado fotos de minha autoria, designadamente sob as etiquetas 'estatuária' e  'murais', algumas das quais contêm textos literários ou excertos destes. Entretanto no  mesmo blogue fui publicando sob o verbete  fotos retiradas da internet, sobretudo relativas a a murais em Orgosolo, na região da Sardenha que é uma galeria a céu aberto, alguns dos quais reproduzem textos literários. Resolvi publicar no meu blogue 'D'ali e d'aqui', inicialmente agrupadas como 'Mural biblio', que o tempo tornou inadequado, pois as  fotos com textos literários abarcavam outros suportes.  Pensei em 'street art' (arte de rua), mas este termo está mais ligado ao muralismo e grafitismo. Escolhi, finalmente,  um termo mais abrangente: # Letras na 'arte urbana'
     
    Recorri ao chatGPT e ao Gemini para que gerassem três tipos de ilustrações, a saber:

    1. - Uma flâmula com a frase 'Letras na arte urbana' num desenho com um bloco de granito a ser esculpido, um mural a ser pintado, um idoso a escrever numa Remington, um ceramista a colocar azulejos, um calceteiro  a executar calçada à portuguesa, num desenho colorido e a preto e branco, harmonioso

    2. - Uma gravura representando um homem idoso a escrever num computador portátil e, no cenário, a pintura dum mural, o esculpir duma estátua, uma caneta e um pergaminho, uma impressora de Gutenberg- No ar esvoaçam letras de vários tipos.

    3. - Combinando sete fotos de minha autoria

    Eis os resultados obtidos;

    (42) - Henri Estienne - Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait (Les Prémices)

     

    Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Se gioventù sapesse, se vecchiaia potesse'


    * Victor Nogueira / Gemini

    Este provérbio — originalmente formulado em francês como «Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait» por Henri Estienne nas suas Premices (1594) — resume de forma brilhante uma das maiores contradições e paradoxos da vida humana.

    (41) Xoto - Setubalense

     

    Setúbal, Mural de Explicit Citizens Colectivo no Pavilhão Náutico Municipal ,no Parque Urbano de Albarquel (Foto victor nogueira IMG_8504)


    Xoto (IGNIS VERBIS) - SETUBALENSE


    * Xoto

    Setubalense carrego na alma uma garra uma raiva amarrada a uma corrente irreverente dum rio azul cresci a correr nú pa praia da tróia que saudades meu refúgio meu casulo... azul

    quinta-feira, 30 de julho de 2026

    Bruno de Carvalho - [Injluencers ... influenciados por Israel[

     * Bruno Carvalho

     ·
    A propagandista Rute Sousa, entre outros, foi a Israel numa viagem paga pelas autoridades daquele Estado. Em várias declarações diz que foram mostrar aquilo que as televisões não querem mostrar e, no entanto, não tem feito outra coisa senão estar nesses mesmos canais por estes dias.
     
    Num dos seus últimos vídeos atacou os jornalistas, falou do militante do PCP que esteve como repórter de guerra no Donbass e que teria afirmado que ali não tinha acontecido nada. Esse jornalista sou eu. E é muito curioso porque enquanto jornalista com carteira profissional, com trabalhos publicados em meios nacionais e estrangeiros, eu fui ao lado da guerra onde mais ninguém estava. A propagandista Rute Sousa foi ao lado onde já todos estão. Não há meio conhecido que não tenha enviado alguém a Israel nos últimos anos. Aliás, Israel é tão incrível para este grupo de influencers ao serviço da propaganda de Telavive que não conseguiram explicar porque é que Israel não permite a entrada sem barreiras de jornalistas na Faixa de Gaza. 

    Para alguns destes elementos que se gravaram a dançar em cima do chão de um território que está a ser alvo de um genocídio, nunca surgiu a questão sobre porque é que foi aprovada uma pena de morte exclusiva para palestinianos. Tampouco conseguiram explicar porque é que foram assassinados mais jornalistas na Faixa de Gaza do que em qualquer uma das guerras modernas, incluindo a mortífera Segunda Guerra Mundial. Não conseguiram porque esse não é o seu papel. 

    Da mesma forma que um publicitário serve para promover uma marca ou um produto, estes influencers são pagos para lavar a cara de Israel no pior momento da sua história. E por muito que o jornalismo esteja a passar por uma grave crise existencial, os jornalistas estão obrigados a cumprir um código ético e deontológico. Quando estive no Donbass, ao contrário do que diz Rute Sousa, nunca disse que ali não tinha acontecido nada. Repeti-o várias vezes: qualquer crime de guerra deve ser condenado e isso aconteceu em ambos os lados. Nunca me pus a defender Putin ou a Rússia, como faz Rute Sousa com Israel, nem me pus a dar a minha opinião ou a fazer análises segundo as minhas crenças religiosas (mesmo sendo ateu) como Rute Sousa. O trabalho de um jornalista não é opinar. 

    Noutro tempo, a Alemanha nazi teria feito a mesma operação de charme para atrair influencers, quem sabe para nos convencer de que não havia qualquer genocídio contra judeus, soviéticos e comunistas. Num mundo cada vez mais dominado pelos conteúdos em redes sociais controladas por grandes oligarcas, a tendência será para que os influencers com mais seguidores acabem por determinar a opinião pública. E o problema é precisamente que o algoritmo promova apenas aqueles que pensem como os seus donos. O que disse Rute Sousa, e o seu entourage, poderia perfeitamente ser dito por Elon Musk ou Mark Zuckerberg. 

    E o mais grave não é apenas que tenham ido a Israel branquear um Estado assassino. O mais grave é que canais como a CNN e o Now, entre outros meios, legitimem essa operação de turismo de propaganda dando voz à desinformação. É a prova de que o jornalismo gosta de cavar a sua própria sepultura

    30 Junho 2026
    https://www.facebook.com/pedro.bala/posts/ 

    A América que é grande


    Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma his­tória de opressão, guerra e de­si­gual­dades. Nas úl­timas muitas dé­cadas, a prin­cipal po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo re­pre­sentou, como ainda re­pre­senta, o grande ad­ver­sário das forças da paz, da de­mo­cracia e do pro­gresso so­cial. Mas, se­jamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha to­mado par­tido pelos que todos os dias lutam pela so­bre­vi­vência e a dig­ni­dade, por quem menos tem, pelos povos opri­midos e agre­didos.

    Era norte-ame­ri­cano o cam­peão de boxe Muhammad Ali, que se re­cusou a matar os seus “ir­mãos” vi­et­na­mitas, pois par­ti­lhavam um ini­migo comum – e foi por isso cas­ti­gado e im­pe­dido de de­fender o tí­tulo mun­dial. Como também o era o cantor Paul Ro­beson, que con­fessou ter sido na União So­vié­tica a pri­meira vez que não se sentiu ví­tima de ra­cismo e co­locou a sua mag­ní­fica voz ao ser­viço da paz e dos di­reitos dos povos (a sua in­ter­pre­tação das can­ções da Guerra Civil de Es­panha, num Con­gresso Mun­dial da Paz, emo­ciona).

    Eram na­tu­rais dos EUA os mem­bros do Ba­ta­lhão Abraham Lin­coln, que atra­ves­saram o Atlân­tico para in­te­grar as Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais que tra­varam ao lado dos re­pu­bli­canos es­pa­nhóis uma ba­talha de­ci­siva contra o fas­cismo – e muitos por lá fi­caram, mortos. Nas­cido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os de­ser­dados da Grande De­pressão e cantou um país que de­veria ser para todos, em­pu­nhando a sua gui­tarra – essa má­quina que, avi­sava, “mata fas­cistas”. É também pro­fun­da­mente norte-ame­ri­cano Tom Joad, o per­so­nagem de “As Vi­nhas da Ira”, obra-prima de Stein­beck, que ins­pirou cada luta pelo pão e pela jus­tiça num país di­la­ce­rado pela de­si­gual­dade so­cial e ra­cial.

    Era norte-ame­ri­cano o jor­na­lista John Reed, que como ne­nhum outro re­latou ao mundo as epo­peias re­vo­lu­ci­o­ná­rias do Mé­xico in­sur­recto e da Rússia bol­che­vique, com a qual se man­teve so­li­dário até ao fim pre­coce da sua vida, pe­rante a in­vasão de 14 po­tên­cias es­tran­geiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Har­riet Tubman e Fre­de­rick Dou­glass, an­tigos es­cravos que de­di­caram as suas vidas a com­bater a es­cra­va­tura e a apoiar os que não ti­veram as mesmas pos­si­bi­li­dades de eman­ci­pação.

    Outro norte-ame­ri­cano, o ve­te­rano da Guerra Civil Henry Reeve, vi­ajou para Cuba para com­bater ao lado dos pa­tri­otas que no sé­culo XIX lu­tavam contra o do­mínio es­pa­nhol, luta essa que via como uma ex­tensão da sua pró­pria, contra a es­cra­va­tura (de origem ir­lan­desa, opunha-se também ao co­lo­ni­a­lismo). Nas fi­leiras do exér­cito re­belde cu­bano, Henry Reeve atingiu o posto de Bri­ga­deiro-Ge­neral antes de morrer em com­bate. Mais de um sé­culo pas­sado, a Re­vo­lução cu­bana honrou o herói in­ter­na­ci­o­na­lista dando o seu nome ao Con­tin­gente Mé­dico In­ter­na­ci­onal es­pe­ci­a­li­zado em si­tu­a­ções de emer­gência na­tural e sa­ni­tária.

    Esta Amé­rica sim, é grande!

    Avante n.º 2748 (30/07/2026)

    (40) - António Maria Eusébio, “o Calafate” - Nunca fui mal procedido

    * Victor Nogueira

     
    Setúbal - Parque do Bonfim - António Maria Eusébio, “o Calafate” (1819 - 1911), nome pelo qual era conhecido devido à profissão que tinha. foi um poeta  popular analfabeto e apelidado também de “o cantador de Setúbal”, somente aos 84 anos de idade publica os seus versos em folhetos. Este monumento inaugurado em  1968,  é da autoria do escultor Castro Lobo, em bronze e mármore branco 


    Nunca fui mal procedido.
    Nunca fiz mal a ninguém.
    Se acaso fiz algum bem
    não estou disso arrependido.
    Se mau pago tenho tido,
    são defeitos pessoais.
    Todos seremos iguais
    no reino da eternidade.
    Na balança da igualdade
    Deus sabe quem pesa mais.

    Setúbal Monumento a Calafate, poeta popular (foto victor nogueira  _EDC1040 editada pelo Gemini 

    (39) Sebastião da Gama - Naufrágio

    * Victor Nogueira

    Monumento de Homenagem aos Pescadores de Setúbal” da autoria de António Pacheco, inaugurado em 2006, situa-se na Doca dos Pescadores. (fotos em 2012) A embarcação com a imagem de  "N. Sra da Arrábida" retratada recebeu o nome de "Nossa Senhora Estrela-do-mar" e, numa placa, está contido o poema "Naufrágio", de Sebastião da Gama.

    NAUFRÁGIO

    Não era por mal …
    A onda que vinha
    não vinha por mal.

    Mas veio, mas veio…
    E logo a barquinha
    partiu pelo meio.

    Nem homem, nem velas.
    Quando a bordo ia,
    com fé abalara,
    morreu já sem ela.

    Mas, se a onda veio,
    não veio por mal:
    era irmã daquela
    que chegou à praia,
    que embala barquinhos
    de meninos pobres.

    Os meninos brincam.
    Navegam em barcos
    Feitos de cortiça,
    Feitos de jornal.
    Quase à mesma hora,
    longe, os pais naufragam
    sem nenhuma ajuda.

    Mas não é por mal…

          In ‘Cabo da Boa Esperança’
     
    Setúbal - Monumento aos pescadores (Foto victor noguera HPIM2955)

    quarta-feira, 29 de julho de 2026

    (38) Laureano Rocha - Rio Azul




    Setúbal Av Luísa Todo Escultura Golfinhos - Rio Azul poema de Laureano Rocha (Fotos victor Nogueira MG_6471  e IMG_6469)

     

    Xico da Cana - Rio Azul (Laureano Rocha / Mario Regalado)

    Rio Azul

    Setúbal, eu tenho pena
    de não te poder cantar.
    Tu és mote de um poema
    que ninguem pode ensinar

    Se há beleza em qualquer lado
    se valesse algum dinheiro
    com a princesa do Sado
    comprava-se o mundo inteiro

    Onde é que existe um rio azul igual ao meu
    que em certos dias tem mesmo a cor do céu,
    minha cidade é um presépio é um jardim
    queria guardá-la inteirinha só para mim.

    Setúbal terra morena
    onde tudo fica bem,
    tens a beleza serena
    no rosto de minha mãe.

    Ó rio Sado de águas mansas
    que pró mar vais a correr,
    não leves minhas esperanças
    sem esperanças não sei viver.

    (Rio Azul, poema de Laureano Rocha)


    Na Rua do Seixal, no Bairro do Troino e à sombra da Igreja de N. Sta da Anunciada, defronte da Tasca do Xico da Cana, encontra-se este mural, com versos da canção "Rio Azul" (Foto victor nogueira IMG_4057)

    Setúbal, Mural de Explicit Citizens Colectivo no Pavilhão Náutico Municipal ,no Parque Urbano de Albarquel (Foto victor nogueira IMG_8503)

    VER

    (37) - Sebastião da Gama - Serra Mãe - excerto


    * Victor Nogueira 



    O agoiro do bufo, nos penhascos, 
    foi o sinal da Paz. 
    O Silêncio baixou do Céu, 
    mesclou as cores todas o negrume, 
    o folhado calou o seu perfume, 
    e a Serra adormeceu. 

    Depois, apenas uma linha escura 
    e a nódoa branca de uma fonte amiga; 
    a fazer-me sedento, de a ouvir, 
    a água, num murmúrio de cantiga, 
    ajuda a Serra a dormir. 

    O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou 
    e anda agora à procura, pela Serra, 
    da verdade dos sonhos que na Terra 
    nunca alcançou. 

    E outros murmúrios de água escuto, mais além: 
    os Poetas embalam sua Mãe, 
    que um dia os embalou. 

     (Sebastião da Gama - Serra Mãe - excerto)

     


    Monumento evocativo do poeta Sebastião da Gama, com excerto dum poema Fotos Victor Nogueira IMG_6485, IMG_6488 e  IMG_6493)

    (36) Bocage - Auto-retrato [Magro, de olhos azuis, carão moreno]

    * Victor Nogueira

    Em Setúbal o  'Auto-retrato', de Bocage, figura num painel de azulejos e numa exposição efêmera ' Bocage na Rua - 30 + 1 Poemas' 

     

    Auto-retrato - Palácio do Salema (Praça de Bocage) (foto victor nogueira editafa pelo chatGPT IMG_0524) 

    Auto-retrato

    Magro, de olhos azuis, carão moreno,
    Bem servido de pés, meão na altura,
    Triste de facha, o mesmo de figura,
    Nariz alto no meio, e não pequeno;

    Incapaz de assistir num só terreno,
    Mais propenso ao furor do que à ternura,
    Bebendo em níveas mãos por taça escura,
    De zelos infernais letal veneno;

    Devoto incensador de mil deidades
    (Digo, de moças mil) num só momento,
    E somente no altar amando os frades;

    Eis Bocage, em quem luz algum talento;
    Saíram dele mesmo estas verdades
    Num dia em que se achou mais pachorrento. 
     
    12. - Terreiro de Santa Maria
    casa da avó materna de Bocage
    intervenção plástica de Jaf Jaf