quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão

 


LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER DOS ESTADOS-UNIDOS

- livros sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...

Alfredo Barroso

2026 02 26

HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL

Para não ser apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade. Ei-las:

«DER BRAND. DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.

Até à publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas. O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.

Com base em numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas, o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de incomensurável riqueza.

JÖRG FRIEDERICH (nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus trabalhos.

«LUFTKRIEG UND LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.

«Da destruição como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno» (1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).

(Edição portuguesa da TEOREMA)

«HIROSHIMA», por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão integral.

Quando a bomba atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha. O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.

«A bomba atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando tantas outras pereceram».

Ao mesmo tempo que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego militar da energia atómica.

(Edição portuguesa da ANTÍGONA)

«CHAIN OF COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib, no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação ‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram escapar Ossama Bin Laden…

Vale a pena salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um mentiroso».

Este livro lê-se como um antídoto à desinformação.

SEYMOUR M. HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).

«DIRTY WARS, THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais, lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017), com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.

Nesta impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command (JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma América deveras sanguinária.

JEREMY SCAHILL é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana ‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo ‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as informações reveladas por Edward Snowden.

Este seu livro foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da América pela “Publishers Weekly”.

Campo d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)

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