segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bruno Amaral de Carvalho - De mãos dadas contra a fúria do vento

Clima

Quando as primeiras pessoas saíram de casa na manhã do dia 28 de janeiro, viram aquilo que poderia ter sido o retrato de uma cidade num país em guerra ou de um terramoto. Depois da fúria do vento amainar na Marinha Grande, já com a luz do dia, encontraram, por todo o lado, chapas torcidas, sinais de trânsito arrancados pela tempestade, fábricas destruídas, telhados levantados, enormes árvores atravessadas em rotundas e avenidas, janelas partidas, viaturas esmagadas por muros que ruíram.

Bruno Amaral de Carvalho Fevereiro 2, 2026

Sem eletricidade, água ou forma de comunicar com o exterior, na manhã a seguir à tempestade, a estupefação e o medo deu lugar à necessidade de enfrentar a realidade. Houve quem decidisse fazer de polícia sinaleiro para ordenar o trânsito numa cidade sem semáforos, outros começaram a recolher entulho e a providenciar formas de dar um tecto aos desalojados.

Nessa manhã, bem cedo, o jovem operário vidreiro Carlos Teixeira com outros seus camaradas do PCP decidiram abrir o Centro de Trabalho à população. “Começou com um quilo de arroz e um fogão de campismo”, descreve. Pouco a pouco, começou a chegar cada vez mais gente a querer ajudar ou a precisar de ajuda. Foi a primeira organização da cidade a arregaçar as mangas e a pôr as mãos ao trabalho. 

Quatro dias depois, a sede do PCP, naquele que foi historicamente um dos seus bastiões, é um corrupio de mulheres e homens que trazem lonas, roupa, alimentos, água, colchões, fogões e bilhas de gás. É também dali que saem brigadas para distribuir comida à população e grupos de enxadas, pás e motosserras ao ombro. Quase a paredes meias com a igreja fechada, dezenas de veículos estacionam como podem em frente ao enorme edifício vermelho com ajuda vinda de lugares tão insuspeitos como o Alto Minho. Em cima de um tapume das obras, aparece uma faixa, acabada de pintar, com a foice e o martelo cruzados, que diz “só o povo salva o povo”.

João Norte, responsável do PCP na Marinha Grande, explica que muitos dos voluntários que chegam às instalações da autarquia para ajudar, acabam por ser mandados embora porque não lhes conseguem arranjar trabalho. “Temos muita gente que chega aqui e que não é comunista. Querem apoiar a população e sabem que estamos organizados com esse objetivo”, afirma. “Tentámos arranjar motosserras junto da câmara municipal e disseram que não tinham dinheiro, aconteceu o mesmo na junta de freguesia. Uns operários conseguiram trazer-nos umas motosserras e só ontem já conseguimos ter cerca de 20 equipas, cada uma com cinco pessoas, a desbloquear estradas, jardins e escolas”.

Contudo, não tem ilusões, o que o PCP está a fazer é dar uma “resposta imediata”, tentando “minimizar as necessidades da população”. Os comunistas não têm meios suficientes para enfrentar uma situação desta dimensão e considera que é importante que o governo dê respostas. “Os meios são insuficientes. Não temos uma resposta nem do governo, nem da E-redes, sobre a reposição da energia elétrica. É preciso um reforço no terreno, é preciso um reforço nas autarquias”, sublinha.

Neste esforço comum coordenado pelos comunistas, vê como essencial “o impacto na comunidade”, lembrando que há muita gente que se sente isolada. Aqui não há só o conforto da comida quente, mas também palavras de desabafo. E gera-se uma onda de solidariedade. Há gente que diz: aqui está o PCP, como sempre”.

Enquanto decorre a entrevista, chega um casal de indianos que carrega produtos alimentares e garrafões de água. Satveer Kaur e Harmandeep Singh vivem na Marinha Grande desde 2015 e têm um supermercado ali ao lado. Dizem que é seu dever estar ao lado da comunidade num momento tão difícil. Algo envergonhados, explicam que não estão a fazer isto para serem entrevistados. Carlos Teixeira recorda que no primeiro dia, quando não era possível pagar com multibanco alguém disse a Satveer e Harmandeep que tinham de ter cuidado porque depois podiam ficar com dinheiro em falta. “Eles disseram que isso não importava, que o importante agora era ajudar”.

Lar de infância em emergência
Para além da cerca de uma centena de desalojados que estão no estádio municipal e em tendas do exército, há centenas de pessoas com problemas graves em casa. Se uns ficaram sem nada, outros têm as paredes e os tectos cheios de infiltrações. Podem ser muitas centenas neste momento em toda a cidade. Os problemas são muitos. A presidente da Junta de Freguesia da Marinha Grande, Isabel Freitas, eleita pela CDU, confessa que ela própria não tem eletricidade e água em casa. “Tenho ido tomar banho à casa do meu filho em Pataias”, conta. Com a responsabilidade da proteção civil na freguesia, teve como prioridade garantir a ajuda aos utentes dos lares, sobretudo aqueles que dependem de aparelhos alimentados por energia elétrica, e proceder ao cuidado das crianças em situação de acolhimento institucional num centro ali perto que viu um dos seus tectos de pladur desabar durante a noite.

Estas meninas e meninos vão ser transferidos para uma creche e estão alojados temporariamente no centro dos escoteiros, onde a associação Teatro do Botão está responsável pela animação e o PCP pelas refeições. Fora da creche, futura casa destas crianças, dezenas de voluntários desdobram-se em esforços para transportar todo o recheio da instituição carregando sofás, fogões, máquinas de lavar a roupa e outro tipo de mobiliário. 

“Vem lá a carrinha do PCP”
A carrinha é branca e traz uma placa de madeira na sua traseira atada com duas cordas onde se pode ler “apoio PCP”. Com um amplificador, a voz de Maria Loureiro chega às casas das freguesias mais afastadas do centro da Marinha Grande. Depois de ouvir o altifalante preso ao tejadilho da viatura, uma idosa abre a porta e vem pedir comida. Vários voluntários ajudam-na a carregar alguns garrafões de água. Aqui não há eletricidade e as torneiras estão secas. De porta em porta, os comunistas vão perguntando o que faz falta e prometem regressar se necessário. Maria Loureiro explica que esta ajuda é essencial para romper o isolamento, para saberem que alguém se preocupa com elas. A dirigente comunista local, acrescenta ainda que trazerem comida quente para gente que há vários dias só tem comido enlatados é essencial.

Aos solavancos, as rodas da pesada carrinha branca atravessam cabos elétricos e outros detritos numa paisagem onde reinam centenas de pinheiros decepados. Aquele que é descrito como o eucalipto mais antigo da Europa foi arrancado pela raiz cujo diâmetro tem cerca de quatro metros.

Há muitos, muitos anos, por este cemitério de pinheiros atravessava um comboio de lata que carregava consigo a madeira que alimentava o fogo dos homens que criavam vidro. Desde meninos, ainda descalços, nas condições mais extremas, tornavam-se vidreiros ou empalhadeiras. Durante as longas décadas do fascismo, e já antes, praticamente desde que nasciam, ensinavam-lhes que o Estado servia os mesmos que os sujeitava à miséria e à pobreza.

Pela estrada, também entre pinheiros, foram conduzidos para Lisboa, em 1934, vários operários agrilhoados para mais tarde estrearem o campo de concentração do Tarrafal depois de terem tomado o poder na cidade durante uma greve geral contra o fascismo, no episódio que ficou conhecido como o Soviete da Marinha Grande. 

Cerca de 60 anos depois, os operários vidreiros serraram pinheiros e atravessaram-nos nas entradas da cidade para impedir a chegada da polícia de choque que tinha ordens do governo de Cavaco Silva para reprimir a luta dos trabalhadores vidreiros contra o encerramento da empresa Manuel Pereira Roldão.

Em 2017, a população procurou sem êxito combater os incêndios que destruíram boa parte do pinhal, numa tragédia que ficou marcada a fogo na fisionomia do concelho. Oito anos e meio depois dos incêndios, a fúria do vento deixou milhares de árvores decepadas a perder de vista.

Cada cidade pulsa ao ritmo de quem a vive. Cada geração lega à seguinte o seu próprio passado que um dia foi presente e é neste encontro que se diluem as cicatrizes e os traumas, que tantas vezes forjam identidades. É impossível entender a Marinha Grande sem olhar para a sua história comum e para as suas formas coletivas de organização: com um poderoso movimento associativo, foi assim que os marinhenses enfrentaram todas as adversidades.

https://vozoperario.pt/jornal/2026/02/02/de-maos-dadas-contra-a-furia-do-vento/? 

Sem comentários: