quarta-feira, 2 de abril de 2025

Domingos Lopes - O KIT DA MAIS ILUSTRE COMISSÁRIA EUROPEIA

* Domingos Lopes

Uma comissária da União Europeia – Hadja Lahbib- a congeminadora do famoso do Kit para 72 horas para “responder” a crises.

Pode acontecer terramotos, tempestades, cheias, incêndios e é bom estar preparado. É preciso muito trabalhinho e juizinho.

Por outro lado, a comissária Hadja talvez não quisesse continuar a viver num anonimato que devia, sendo comissária da UE, considerar um infortúnio.

Ela deu conta doimpulso incontrolável dos cidadãos e das cidadãs para pegar em armas e partir para atacar a malévola Rússia que, segundo alguns estrategos, brevemente chegará a São Romão, bem próximo de Olivença. Ou, dizem outros, a Óbidos por causa do festival de chocolate.

Há até quem tenha visto para os lados da Sierra Morena (após o alerta do senhor Almirante por baixo do gelo da Gronelândia ao vislumbrar submarinos russos, perdão disfarçados de USA) carrinhas de caixa aberta cheia de drones e coisas desse género, disfarçadinhas de pacotes de rebuçados e de bolachas Cuetara que por sinal são muito boas.

Não desimaginemos das doenças e das intempéries, mas ao mesmo tempo imaginemos que os russos que fartos de batalhar na Ucrânia há mais de três anos, decidem contornar a Ucrânia e virem apanhar pela tardinha, sem dizer nem água vai, nem água vem, a Comissão inteirinha em Bruxelas a comer os chocolates belgas que também são bons, como eram os nossos Regina, que tinha uma fábrica para as bandas de Coimbra, quando havia fábricas de fazer coisas, que agora fazem notícias que é o que prende as pessoas aos telemóveis.

Cá está uma covardias sem limites, vir às escondidas e quando uma pessoa menos conta záscatrapás .  Oiçam lá, diz o oficial, agora os chocolates são para nós, vocês não têm direito a eles, temos de os aprisionar, e esta operação especial vai apanhá-los todos, e depois se quiserem negociamos, mas atenção, só depois de nos empanturrarmos.

Percebe-se bem o fito dos russos e a senhora comissária para não criar mau ambiente com o senhor Putin arranjou esta moenga do Kit para nos alertar para o perigo da Rússia vir por aí abaixo com os norte-coreanos a cheirar a alho e gastarem a água e as pilhas todas e nós sem nada. Os de cá sem água e sem os canivetes chineses que só a sra Hadja pode andar com eles nos aviões, porque o resto do pessoal nem corta unhas.

Esta ideia do kit é, por isso, fantástica. Num juízo de prognose é bem possível que os russos venham a Portugal aproveitar esta água das chuvas copiosas porque a deles ainda é do tempo dos bolchevistas.

E tem outra coisa; têm de o fazer enquanto está o Marcelo que é todo beijos e abraços. Se for com o senhor Almirante será muito diferente, mas mesmo muito. Fia fino. Se o artigo 5º ficar a seco ele vai direitinho a Washington e acerta as contas com o Trump num lampo.

Com ele é tudo armas, armas, nem pão, nem queijo. Ainda bem que há comissárias assim. Com ela é a sério – água, radio, medicamentos, pilhas e umas cartitas, não vão os russos fazerem amizades com os de cá e a coisa durar mais de 72 horas. Bem-haja o cérebro da sra. comissária, resplandecente de imaginação e prevenção.

2 de Abril de 2025  ~

https://ochocalho.com/2025/04/02/o-kit-da-mais-ilustre-comissaria-europeia/

Tiago Franco - TRÊS HORAS DE ROMANCE |

 * Tiago Franco

Esta administracão americana junta à ignorância, e falta de chá já agora, uma falta de inteligência processual que chega a ser arrepiante.

Não há propriamente uma grande novidade nisto de anexar territórios. Toda a minha vida vi este "business as usual" mas os métodos eram mais graciosos. Havia sempre uma razão moral para meter a pata em território alheio.

Ou iam levar camiões de democracia ou derrubar um ditador que fazia mal ao seu povo. Não se dizia à boca cheia que o interesse era sacar petróleo.

E quando o tema não era pilhar recursos mas sim criar governos amigos, também se fazia tudo com algum "glamour". Patrocinavam-se uns "Contras", escolhia-se a dedo um presidente, interferia-se com a democracia sem grande alarido. Eram bons tempos, cheios de histórias secretas, conspiracões em bailes de gala, recepcões a embaixadores ou desembarques de mercenários em baías vigiadas.

Todo o império tem a sua, ou as suas, Bielorrússias. A arte está na forma que usam para nos convencerem da anexacão. Agora, vir um bronho com a melhor alcunha de sempre (Mango Mussolini), dizer repetidas vezes na televisão que "temos que ter aquilo porque há navios chineses e russos por todo o lado"...epá...corta todo o romance e encanto da espionagem e da política externa.

Nós sabemos que é por isso que queres aquilo. Nós sabemos a história da guerra aos recursos naturais....mas mente, pá! Mente! Dá algum charme a esta coisa de se anexar território alheio.

Uma coisa é perceber no início do século 20 que o Hawai dá jeito para encaixar umas bases. Anexa-se e ninguém se queixa. Nem havia instagram nessa altura. Tudo bem.

Mas hoje em dia, com a velocidade a que a informacão se espalha, francamente, é deprimento ver o facho encartado a visitar um território sem ser convidado e, de forma improvisada, a fazer uma conferência de imprensa na base militar onde se dirigia às maravilhosas pessoas da Gronelândia e às lindíssimas paisagens, quanto desancava os dinamarqueses.

JD...tu conheces alguma pessoa na Gronelândia? Viste alguma paisagem nas 3h que passaste na base? Sinceramente fico desiludido porque os EUA habituaram-nos com espectáculos muito melhores e bem mais ensaidados. Estes gajos são muito amadores, nem chegam a actores de fimes B. São o Stevan Seagel numa sequela que pedia Denzel Washington.

Dito isto...tenho dúvidas técnicas. Se de facto os americanos se abarbatarem com a Gronelândia:

1 - A Nato mete as botas no terreno para correr com eles de lá, cumprindo o artigo 5?

2 - A Ursula vai cobrar-nos mais impostos para apoiar a Gronelândia for as long as it takes?

3 - Os Dinamarqueses vão passar a terroristas na lista do FBI?

4 - A UE vai impôr sancões económicas a Washington?

5 - Os refugiados dinamarqueses também vão para o Ruanda (para onde eles mandam os que lá chegam) ou fazemos uma vaquinha para os acomodar em Alicante?

Esta história da Grônelandia promete ser apaixonante, tanto na parte da narrativa histórica como na das anexacões democráticas. É certo como o destino que os chineses ainda vão ser os culpados disto. Bem vistas as coisas, ainda só passaram dois meses do Donald. Dois mesitos.

Eu já só quero que me expliquem isto com o papel da conta à frente. Retencões na fonte, IVA, IRC, IRS, taxa do audiovisual, imposto nos combustíveis...não importa. Digam-me só quanto é que nos vão sacar para mais esta e tudo bem, seguimos cantando e rindo, a pagar.

2025 04 02

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Carlos Coutinho - [Abriladas]

 ABRILADA é nome por que foi registado na história de Portugal um terramoto político ocorrido no dia 30 de abril de 1824, mas que falhou. Essa revolta dos absolutistas tentou ressuscitar a Vilafrancada que também falhara no ano anterior. Felizmente. 

   A batuta estava na mão do infante D. Miguel, irmão de D. Pedro, o normal herdeiro do trono português e imperador do Brasil.

 O terramoto inverso precisou de um século aparentemente inacabável para também acontecer e ninguém o tomou como uma segunda abrilada, precisamente pelo que nos trouxe esse luminoso levantamento político-militar que ainda hoje muito nos ajuda a viver pacificamente o desenvolvimento solidário e patriótico, que continua consagrado na Constituição da República, embora seja cada vez menos respeitado.

   Se formos à História, vamos ver que a revolta miguelista foi derrotada, mas cavou os alicerces do viria a ser a fratricida e longa Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). Descendo ao pormenor, reparamos que no dia 30 de Abril de 1824, o Infante D. Miguel, que havia sido nomeado generalíssimo do Exército Português, fez deter nos calabouços do Castelo de S. Jorge e da Torre de Belém importantes personalidades civis e militares do País...

   Entre os encarcerados estavam o Intendente-geral da Polícia, barão de Rendufe, o duque de Palmela (então no governo em coligação com o conde de Subserra) e o o visconde de Santa Marta. 

D. Miguel, que contava com o apoio de sua mãe, a gorducha Rainha Carlota Joaquina, considerava-os partidários do “nefando liberalismo” e de conspirarem contra o pai, D. João VI. Na chamada “Proclamação da Abrilada”, proferida nesta ocasião, D. Miguel diz que  era sua intenção acabar com o que denominava de "pestilenta cáfila de pedreiros-livres", numa referência à Maçonaria, que além de liberal, era constitucional.    

    "Soldados! se o dia 27 de Maio de 1823 raiou sobremaneira maravilhoso, não será menos o de 30 de Abril de 1824; antes hum e outro irão tomar distincto lugar nas paginas da história Lusitana; naquelle deixei a Capital para derribar uma Facção desorganizadora, salvando o Throno, e o Excelso Rei, a Real Família, e a Nação inteira, dando mais hum exemplo de virtude á Sagrada Religião, que professamos, como verdadeiro sustentaculo da Realeza, e da Justiça; e neste farei triumfar a grande obra começada, dando-lhe segura estabilidade, esmagando de huma vez a pestilente cáfila dos Pedreiros Livres, que aleivosamente projectava alçar a mortifera fouce para àcabar, e de todo extinguir a Reinante Casa de Bragança.

     "Soldados! foi para este fim que vos chamei ás armas, plenamente convencido da firmeza do vosso caracter, da vossa lealdade, e do decidido amor pela Causa do Rei.

Soldados! sejais dignos de Mim, que o Infante D. Miguel, Vosso Commandante em Chefe, o será de vós. Viva ElRrei Nosso Senhor, Viva a Religião Catholica Romana, Viva a Rainha Fidelíssima, Viva a Real Família, Viva o Briozo Exercito Portuguez, Viva a Nação, Morram os malvados Pedreiros Livres.

   "Palacio da Bemposta 30 de Abril de 1824.
Infante C. em C”

   Enviou, então, diversos corpos militares ao antigo Palácio dos Estaus (onde  hoje está o Teatro Nacional D. Maria IIT,  em Lisboa, aí instalando o seu quartel-general. Deu ordens ainda para que se impusesse cerco ao Palácio da Bemposta, onde estava o rei, acompanhado do seu conselheiro inglês, o general William Carr Beresford que o trazia pela trela, embora enojado com o aspeto físico monarca resultante da procriação endógena.

   Para a resolução deste conflito parece ter sido determinante o apoio do corpo diplomático em Portugal, nomeadamente a ação do embaixador francês Hyde de Neuville. Numa tentativa de apaziguamento, este diplomata conseguiu entrar no palácio e convencer o rei a chamar o filho para uma conversa a a sério. 

   Alcançou-se, desse modo, um acordo que fez regressar as tropas aos quartéis, mas que mantinha os detidos encarcerados, com exceção do duque de Palmela, que se refugiou num navio inglês, prosseguindo assim a situação de instabilidade política e militar.

Em maio, os diplomatas ajudaram D. João VI a refugiar-se no navio britânico “HMS Windsor Castle”, onde tomou uma série de medidas: demitiu D. Miguel do seu cargo no Exército, ordenou a libertação dos presos políticos e a captura dos apoiantes do filho, que foi intimado a vir a bordo. 

   Assim retido, D. Miguel foi obrigado a embarcar com destino à França na fragata “Pérola”, acabando a sublevação dos absolutistas. O infante foi seguidamente deportado para Viena e D. Carlota Joaquina ficou internada no Palácio de Queluz com a devida assistência médica e religiosa. 

   Não sei se os seus aposentos finais foram convenientemente desinfetados, mas é de crer que sim, porque já passeei pelos jardins afrancesados do palácio e também assisti a concertos musicais inesquecíveis no salão dos embaixadores. E nada me aconteceu.

2025 04 02 

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terça-feira, 1 de abril de 2025

Prabhat Patnaik - O regresso do macartismo



Prabhat Patnaik [*]

A atual repressão da administração Trump à liberdade de expressão nos Estados Unidos faz lembrar assustadoramente a década de 1950, quando houve uma caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy que não só vitimou toda uma geração de artistas e intelectuais sob a acusação de serem comunistas, como também deixou uma marca negativa profunda na vida criativa daquele país durante décadas. As vítimas dessa caça às bruxas incluíram numerosas personalidades notáveis, desde artistas e escritores como Dashiel Hammet, Dalton Trumbo, Bertolt Brecht e Charles Chaplin, a académicos como Lawrence Klein, Richard Goodwin, E H Norman, Daniel Thorner, Moses Finlay e Owen Lattimore. Mesmo figuras públicas notáveis como J Robert Oppenheimer, que dirigiu o Projeto Manhattan para a construção de uma bomba atómica, e Harry Dexter White, que fundou o sistema de Bretton Woods (juntamente com J M Keynes do Reino Unido) não foram poupados:   foram convidados a comparecer perante uma ou outra das comissões criadas para investigar o comunismo nos EUA. O prejuízo para os EUA com esta caça às bruxas foi imenso. Há mesmo quem sugira que o país se envolveu na Guerra do Vietname porque os estudos disponíveis sobre o Leste e o Sudeste Asiático foram dizimados pelo McCarthyismo; se estivessem disponíveis, os EUA poderiam ter tirado partido deles e evitado entrar no atoleiro.

A semelhança entre o fenómeno macartista e as acções agora iniciadas por Trump é sentida por muitos; mas foi explicitamente articulada pelo Professor da Universidade de Columbia, Bruce Higgins (MR online, 21 de março). À primeira vista, pode parecer que traçar esse paralelo constitui um grande exagero. Afinal de contas, até agora só houve uma mão-cheia de casos de detenção e deportação; porquê ficar tão exaltado com isso e sugerir paralelos com a caça às bruxas macartista? Do mesmo modo, pode argumentar-se que os alvos até agora têm sido cidadãos não americanos, que residem no país quer com um visto quer com uma Green Card; isto é certamente diferente do período macartista, em que os cidadãos americanos, e não apenas os “forasteiros”, tinham sido vítimas da caça às bruxas.

Mas dificilmente se pode retirar muito conforto de tais considerações. Trump deixou claro que casos como o de Mahmoud Khalil são apenas o começo; seguir-se-ão acções em milhares de outros casos semelhantes. Mahmoud Khalil, recorde-se, era o estudante de Columbia titular de um Green Card e casado com uma cidadã americana que, por acaso, estava grávida de oito meses. Khalil foi detido e aguarda a deportação sob a acusação de ter ligações com “terroristas” por ter liderado as manifestações de estudantes de Columbia contra o genocídio em Gaza. Do mesmo modo, quando se verificar a deportação em larga escala de titulares de vistos e de Green Card, os cidadãos americanos que participarem em protestos contra genocídios do tipo de Gaza e também contra essas deportações, dificilmente serão poupados a acções punitivas. Também eles serão vitimados por apoiarem actividades “terroristas” estrangeiras. Em suma, é impossível, uma vez iniciado o processo de vitimização de uma parte da população por exprimir livremente as suas opiniões, sentirmo-nos seguros de que esse processo se limitará apenas a essa parte e não afectará o resto da população. É, portanto, justificado sentirmos que estamos no início de uma caça às bruxas ao estilo de McCarthy.

De facto, a caça às bruxas que se aproxima é ainda pior, em muitos aspectos, do que a lançada pelo Senador Joe McCarthy. Em primeiro lugar, a deportação de Mahmoud Khalil está a ser ordenada ao abrigo de uma disposição da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos de 1952, que afirma que qualquer “estrangeiro, cuja presença ou actividades nos Estados Unidos, o secretário de Estado tenha motivos razoáveis para acreditar, teria consequências adversas potencialmente graves para a política externa dos Estados Unidos, é deportável”. A invocação desta cláusula significa, de facto, que nenhum estrangeiro, quer seja titular de um visto ou de uma Green Card, pode criticar a política externa dos Estados Unidos. No caso de Khalil, por exemplo, a acusação contra ele, para além de ser próximo de uma organização “terrorista”, o Hamas (para a qual não foi apresentada qualquer prova), é de “antissemitismo”, que é uma das caraterísticas que a política externa dos EUA pretende combater em todo o mundo; a sua oposição ao genocídio infligido em Gaza por Israel é classificada como “antissemitismo” e, portanto, como tendo consequências adversas para a política externa dos EUA. Mas uma acusação semelhante pode ser feita contra qualquer “estrangeiro” que critique qualquer aspecto da política externa dos EUA; e mesmo os cidadãos americanos que “ajudem e sejam cúmplices” desses “estrangeiros”, participando em manifestações contra a política externa dos EUA, um eufemismo para actos do imperialismo americano noutras partes do mundo, podem sem dúvida ser também acusados.

Por outras palavras, o âmbito da atual caça às bruxas é ainda mais vasto do que o do senador Joe McCarthy. Não é apenas dirigida contra um segmento da população, nomeadamente os comunistas e os seus simpatizantes, como era o caso do macartismo; pelo contrário, é dirigida contra qualquer pessoa que ouse criticar a política externa dos EUA e, acima de tudo, a política dos EUA de controlar a Ásia Ocidental através de um colonato israelense agressivo e expansionista.

Em segundo lugar, o macartismo foi desencadeado no contexto da Guerra Fria. A própria Guerra Fria fazia parte da luta do imperialismo contra o prestígio e o apêlo que a União Soviética havia adquirido durante a Segunda Guerra Mundial; criou o fantasma da agressão soviética, embora a União Soviética, devastada pela guerra, não tivesse quaisquer intenções agressivas. Em suma, o macartismo fazia parte de uma estratégia imperialista muito específica num contexto muito específico; mas a atual ofensiva de Trump surge numa situação em que o imperialismo não pode apresentar qualquer ameaça específica de qualquer potência em particular. Destina-se simplesmente a encobrir a agressividade do imperialismo num mundo em que nenhuma potência específica pode ser citada como uma ameaça, mas em que um grande número de países, empurrados para a parede pela crise infligida pela ordem neoliberal, procuram algum alívio aos acordos económicos que lhes são impostos. O contexto para o ataque de Trump é a falência moral do imperialismo e não a estatura moral subitamente reforçada de qualquer potência não imperialista em particular.

Em terceiro lugar, o facto de o ataque de Trump à liberdade de expressão ter um alvo mais vasto do que o do macartismo é confirmado pela forma totalmente anticonstitucional e peremptória como a sua administração está a ditar às universidades americanas a forma como devem conduzir os seus assuntos e a reter fundos federais no caso de se oporem. Assim, foram retidos 450 milhões de dólares de fundos federais à Universidade de Columbia [NR] se esta não acedesse à exigência da administração Trump de proceder a uma série de alterações no seu funcionamento; e a universidade terá alegadamente acedido agora a estas exigências, o que truncará grandemente a liberdade académica. Condicionar o acesso das universidades a fundos federais à sua gestão a contento do governo é tanto uma violação da autonomia da universidade como do seu ambiente académico. Obriga as universidades a tornarem-se órgãos do governo e não espaços de pensamento criativo e crítico. Trata-se de uma inovação inédita em comparação com o macartismo.

Por outras palavras, estamos a assistir a uma investida neofascista contra o pensamento que é ainda mais vasta do que a investida macartista da década de 1950. É claro que mesmo no resto dos países imperialistas que não têm regimes neofascistas no poder, o pensamento crítico e a liberdade de expressão também estão a ser atacados. Na Europa, por exemplo, não só se assiste a uma ameaça totalmente infundada de expansionismo russo (quando a realidade é o expansionismo da NATO até às fronteiras da Rússia e até o estacionamento de tropas alemãs na Lituânia), mas também a um apoio total à ação israelense em Gaza. De facto, qualquer crítica à ação israelense está a ser alcunhada de antissemitismo; e reuniões para discutir o genocídio em Gaza foram canceladas na Alemanha por ordens oficiais.

Assim, os países imperialistas, quer sejam governados por regimes neofascistas, quer por regimes burgueses liberais, estão a atacar fortemente a liberdade de expressão e estão a tornar-se mais repressivos; os regimes neofascistas são, evidentemente, comparativamente mais repressivos, mas os regimes burgueses liberais não ficam muito atrás. Além disso, isto está a acontecer numa altura em que os países imperialistas também estão a aumentar as despesas militares. A Alemanha acaba de aprovar uma alteração constitucional que eleva o limite máximo do seu défice orçamental, de modo a poder gastar mais em armamento. Também a França e o Reino Unido estão a aumentar as suas despesas militares em relação ao seu produto interno bruto. Em suma, o capitalismo metropolitano está a entrar numa fase de militarismo repressivo como não se via desde a Segunda Guerra Mundial, o que é um mau presságio para os povos do mundo.

30/Março/2025

[NR] Ver In complying with Trump’s demands to crack down on free speech, Columbia confesses that money, not education, is its goal

Ver também:
The dark, McCarthyist history of deporting activists

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0330_pd/return-mccarthyism

António Gil - A ilusão de uma Europa pacífica



* António Gil

Um mito persistente mas agora moribundo.

Durante décadas acreditou-se que a União Europeia (antes CEE) seria a garantia de paz no continente. Eu mesmo, quando jovem acreditava nisso mas acordei para a dura realidade há mais de 3 décadas, por ocasião da guerra na ex Jugoslávia.

A crença era partilhada por muitos não europeus. Não por acaso, o neo con Robert Kagan escreveu que "Os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus". Marte, como se sabe, era o Deus romano da guerra e Vénus a Deusa do amor. E a expressão resultou de uma conversão do título de um livro do filósofo John Gray ‘’Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus’’.

Bom, ambas as ideias estão erradas. No que ao impulso belicista diz respeito, a Europa esteve na origem de duas guerras mundiais. E depois disso, não apenas no caso jugoslavo mas também na Líbia, os europeus (franceses e ingleses, no caso) foram os verdadeiros iniciadores da guerra, a administração Obama acabou por se lhes juntar mais tarde.

Se algum mérito Trump teve, no caso da guerra da Ucrânia, foi dar a machadada final na crença que os EUA são entusiastas da guerra e os europeus apenas os seguem. Ninguém agora pode mais acreditar nisso.

A indignação de Macron, Starmer, Baerbock e Merz diante da possibilidade dos EUA simplesmente se retirarem de uma guerra que eles teimam em continuar é evidente. Os apelos de Ursula, Kallas e Mark Rutte (um holandês) para o rearmamento europeu, falam por si.

Isto é tanto mais grave quanto sabemos que duas guerras mundiais na Europa arruinaram o continente e levaram a sua perda de influência mundial. Uma terceira guerra generalizada ao continente devia, por isso, fazer soar todos os alarmes e despertar todos os terrores.

No entanto, não se nota, nas opiniões públicas europeias qualquer agitação. Em alguns países fala-se de serviço militar obrigatório, a Dinamarca irá mobilizar também as mulheres, Ursula propõe um kit ridículo de sobrevivência para 3 dias e poucos cidadãos reagem a tais propostas.

Há um sonambulismo incompreensível dos europeus quanto a esta verdadeira ameaça a sua sobrevivência e ainda não entendi se ela resulta do cepticismo (ninguém acreditar em tal possibilidade) se de conformismo ou preguiça de reagir.

https://antoniojfgil.substack.com/p/the-illusion-of-a-peaceful-europe?