Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Raquel Varela e a inteligência artificial
Vladimir Putin - Discurso na 43ª Conferência de Segurança de Munique (2007)
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
João Rodrigues - As aparências enganam, isto não é um diário
Coimbra, sexta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Pus-me a caminho de Braga ao fim de almoço. Chovia, claro. Cheguei duas horas antes da hora. Braga é mais perto do que Lisboa e, no entanto, parece mais longe. Da distância à sua perceção, somos todos feitos de hábitos: afinal de contas, vivi uma dúzia de anos em Lisboa e vivo agora entre Vila Franca de Xira e Coimbra, as minhas duas cidades, Carina e Pedro.
Planeei para ter tempo de ir rever a Sé, aproveitando uma aberta. Fui bem recebido na Almedina, a que fica no centro de Braga, ao pé da porta aberta da liberdade, monumento inaugurado a 25 de abril de 2024.
A simpática responsável de uma livraria inaugurada há meses fez questão de me fazer uma visita, explicando a traça modernista muito bem restaurada da livraria, das estantes à escada. Tinha sido ali a livraria Vítor, de Vítor de Sá, antifascista bracarense e historiador (um dos principais prémios de História tem o seu nome). Ali estavam fotos da grande montra da livraria com buracos feitos por tiros da reação no PREC. Informou-me que as fotos tinham sido descobertas por acaso nas obras.
Entretanto, um cidadão montanhista de oitenta anos, que tinha subido o Monte Branco há três anos, disse-me simpaticamente que lia todos os dias o blogue. Antes da sessão começar, ainda fui brevemente entrevistado por uma jornalista do Correio do Minho, perguntas diretas, como se quer: sim, o fascismo nasce do extremar do capitalismo, como titulou no dia seguinte.
Pequena digressão. Apresentar livros é uma das minhas atividades intelectuais favoritas. Tenho tido a sorte de praticamente só apresentar livros com os quais aprendi e com os quais ganhei tempo, de José Reis a António Avelãs Nunes, só para referir dois distintos intelectuais antifascistas, professores jubilados da cada vez mais neoliberal Universidade de Coimbra, com quem tenho aprendido. Há quem resista, claro. Eles resistem.
Quem me lê sabe que tento ser mordaz na crítica, mas que também ensaio o elogio rasgado. Caldear é uma questão de justeza e uma forma de evitar o ressentimento que mata todo o conhecimento. Estou reconhecido e obviamente gosto de ser reconhecido, reciprocidade generalizada. Quem não?
Nour Ribeiro dos comunistas de Braga, que também dinamiza sessões de apresentação de livros “insubmissos” e que me convidou, introduziu e moderou a sessão. Bruno Madeira, historiador e professor da Universidade do Minho, fez a apresentação propriamente dita. Cada um no seu estilo, mais breve um, com mais tempo o outro, tinham ambos excelentes intervenções escritas, que muito valorizaram o livro de ensaios de economia política do antifascismo. Fiquei meio sem jeito, ainda para mais são mais jovens, há mesmo progresso.
Para disfarçar, lancei-me então ao ataque em pelo menos três frentes: ficheiros Epstein, inépcia governamental mais ou menos deliberada na catástrofe em curso e crítica do liberalismo até dizer chega. Procurei as ligações fascizantes no estado a que isto chegou em múltiplas escalas, tentando vislumbrar a alternativa antifascista, a que começa pela ação coletiva nos locais de trabalho e continua na reconstrução da economia mista, base material da soberania democrática. Houve boas intervenções da plateia e muita simpatia combativa, estava cheia a livraria. Autografei uns livros, com gosto.
Já depois da sessão, à saída, uma estudante militante, que tinha estado a assistir e que está a fazer uma tese de mestrado em história sobre democratas bracarenses, informou-me: Vítor de Sá andava pela cidade com um carrinho de madeira a vender livros clandestinos. Recomendaram-me um ensaio dele sobre o fascismo no quotidiano. Estamos sempre a aprender.
“Nem os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”, escreveu Walter Benjamin em 1940. Eles ainda não venceram a guerra, embora tenham ganhado tantas batalhas. Chovia no regresso a Coimbra. Estava satisfeito por não ter faltado ao encontro, e só os encontros constantes nos podem valer, embora quem viaja por gosto também tenha o direito de se sentir cansado.
Postado por João Rodrigues às 10.2.26
domingo, 8 de fevereiro de 2026
António Gil - Vivemos numa Era Pós-Verdade?
* António Gil
Muitos de vós talvez pensem que pós verdade e pós realidade sejam a mesma coisa mas não são: há uma enorme diferença em grau e género. Quando se admitia existir apenas uma realidade, mesmo se povoada de mentiras e manipulações, já um número indeterminado de verdades podiam coexistir, mesmo se existisse tensão e contradição entre algumas delas.
Agora, existem várias realidades fabricadas: numa delas, por exemplo, a Ucrânia está a vencer a guerra com a Rússia. Noutra há um impasse militar. Numa terceira a Ucrânia precisa de negociar para garantir a sua sobrevivência como Nação. E ainda há aquela que nos diz que a Rússia não só já venceu a Ucrânia como está a invadir os Países Bálticos e por isso é preciso accionar o artigo 5º da NATO (o que nos conduziria a uma guerra nuclear, pela certa).
Notem que todas elas são promovidas pelos políticos e pela imprensa ocidental, não raro até, alguns dizem uma coisa hoje e dirão outra coisa completamente diversa amanhã, estas dissonâncias já foram normalizadas e poucas pessoas as estranham.
Em cada um destes universos paralelos coexistem ‘verdades’ sabendo nós que mesmo num só desses universos muitas dessas ‘verdades’ excluiriam outras.
Há quem defenda que a pós realidade surgiu graças às IAs (sim, elas são muitas e não dizem todas o mesmo) que produzem vídeos, artigos e outras ‘provas’ da realidade que garantem ser a verdadeira e única. Mas já temos um número incontável dessas verdades ‘únicas’.
De resto, se grosso modo é assim, fino modo isto sempre se fez mas com meios mais limitados. A ficção sempre coexistiu com a realidade e alguém chegou a dizer (Oscar Wilde , creio) que a Vida (a realidade) copiava a Arte ( e o que é a Arte senão uma ficção bem sucedida?).
Deixem-me lembrar-vos só um – entre muitos – dos factos históricos que provam isso: depois de Goethe ter publicado Werther, o trágico romance de um sensível jovem alemão que se suicida porque a sua amada não pode corresponder ao seu amor, já que está presa pelo comprometimento com outro homem e não pode fugir a isso.
Ela não é uma Julieta tardia, é só uma mulher do seu tempo, que está enredada numa teia de compromissos familiares e não concebe sua vida fora desse contexto.
O romance foi publicado e foi um sucesso de tal ordem que muitos jovens alemães se suicidaram, seguindo esse exemplo ficcionado. Goethe respondeu com alguma arrogância a quem o tentou responsabilizar por isso: “todos os anos os nossos notáveis generais prussianos arrastam jovens para a morte em número muito superior e por causas mais frívolas que o amor. Permiti que pelo menos uma vez, um pobre escritor faça algo semelhante mas por algo superior”.
Mas então a ficção era só literatura e ainda assim cobrou seu preço. Hoje ela invadiu todas as áreas da nossa vida e mobiliza todo o tipo de recursos de que a IA já se apoderou, incluindo o das vidas virtuais, que decorrem, por exemplo, nos multiversos da Meta, nossa anfitriã na nossa página do Facebook.
Para quem não sabe, os habitantes dessas vidas virtuais (seus avatares, enfim) até aí compram, com dinheiro real, propriedades fictícias: mansões, fazendas, o que seja.
Pós realidade pois, não é exagero, muito menos ficção: já cá está.
Não se admirem pois, que as pessoas andem tão confusas tantas delas nem sabendo bem a que realidade pertencem nem em qual delas se desenrolam suas vidas. Na dúvida, compartimentalizam e vivem várias vidas o que quer dizer que não vivem vida nenhuma.
Se a isto podemos chamar progresso é muito discutível mas podemos recear que não haja mais, como não houve no passado relativamente a outras aquisições tecnológicas, nenhum caminho de regresso. Melhor não entrarmos por aí – esse é um caminho para a loucura e, quem queira saber o que realmente se passa num certo local, opte por ir lá, para verificar com seus próprios olhos.
fev 08, 2026
https://antoniojfgil.substack.com/p/are-we-living-in-a-post-truth-era?
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Manuel Augusto Araújo - BOA EDUCAÇÃO, MÁ EDUCAÇÃO
▪️Manuel Augusto Araújo
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias.
As eleições presidenciais, ultrapassada a primeira volta, com algumas notas que merecem referência, entre os candidatos do consenso neoliberal – como o classificou certeiramente António Filipe, ainda que esse consenso seja variável e tenha vários matizes –, a segunda volta entre um candidato pouco entusiasmante, coleccionador de banalidades atérmicas ditas consensuais e um outro que é um demagogo manipulador sem escrúpulos, provocou um sobressalto entre barões assinalados de vários quadrantes políticos, que porém não demoveu partidos políticos como o PSD, CDS, IL de se entricheirarem numa neutralidade entre os dois candidatos, apesar de um ser manifestamente contra a democracia como está inscrita na Constituição, no que é acolitado pela IL, com o objectivo indisfarçado de a rever para recuperar os três salazares, o estado de sítio do salazarismo-fascista actualizado aos ventos da história.
Como vivemos um tempo dominado pelas máquinas mediáticas difundidas e controladas pelas oligarquias que favorecem as direitas, o seu avanço transnacional conquista cada vez mais espaço e relevância, por todo o mundo e por esta nossa periferia. Nesse ambiente, em linguagem modernaça nesse ecossistema, multiplicam-se os debates entre os candidatos mas o que mais se sobreleva são os comentadores que nas suas inúmeras chalras procuram um vencedor e um perdedor, em que a argumentação política de cada um dos intervenientes, muitas vezes intencionalmente condicionada a favor de um dos contendores pelos moderadores, é atirada para segundo plano, numa simulação de que se está a discutir política quando de facto o que se promove é a despolitização afundada no destaque concedido à capacidade argumentativa mesmo que utilize as mais evidentes mentiras, meias verdades, manipulações factuais, todo o arsenal sobretudo de políticos dispostos a os usarem sem pejo. A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.
A persistência desta situação amplifica-se com uma inusitada surgência de politólogos, cientistas (?) políticos, investigadores (?) de comunicação política e afins que florescem entre as hordas dos encartados, há sempre um a cada esquina. Uma dessas personagens consegue entrever, no último debate entre os dois candidatos frente a frente na segunda volta «que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro (…) provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes – e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita». De facto o confronto foi temperado, até por via dos hibernados moderadores, mas apesar da baixa temperatura e do mal-estar da democracia que está a degenerar, que se está a auto-corroer pelos vírus fascistas, pelos autoritarismos que saem debaixo dos tapetes, que entram pelas suas frinchas, o que para esta não sei quê politóloga configura uma normalidade futura, ainda que não seja expectável no imediato que o Chega alcance uma maioria, ou uma maioria numa qualquer espúria coligação, que coloque André Ventura em primeiro-ministro.
A banalização dos tiques fascizantes do Chega, também até mais da IL, essa pela via das etiquetas de boas maneiras e tiques corporativos, transparece como uma evidência nos copiosos grupos de falantes com acento fixo ou variável nos meios de comunicação social, em que uma boa parte são professores(as) universitários(as) com vários doutoramentos e pós-graduações, como actualmente é costumeiro e vezeiro nas misérias académicas, sobretudo nas áreas das ciências humanas, que proliferam nas universidades por todo o mundo e arredores onde nos situamos, em que é dominante a esterilidade do pensamento político reduzido a uma quase paródia, como tem sido exposto pelo que subsiste de pensadores sólidos da elite democrática e progressista como Georges Steiner, Noam Chomsky, Russell Jacoby, Edward Bernays, Domenico Losurdo, Edward W. Said, Sheldon S. Wolin, Zachary Karabell, Chris Hedge, Julien Benda ou István Mészaros.1
«A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.»
Outra das reacções a uma segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura, foi a da rejeição do segundo, com até declarado apoio ao primeiro, por muitos independentes mas também, como já se referiu, por muitos dos barões assinalados dos partidos que declararam neutralidade. Houve quem embandeirasse em arco e muito fogo de artifício, afirmando mesmo um habitual escriba de um jornal dito de referência, queira o que queira isso dizer ou não, que também é presença assídua nos ecrãs televisivos onde tartamudeia lugares comuns como se fossem detalhadas cerebralizações, proclamando que chegamos ao tempo em que a direita deixou de ser «fascista», acrescentando quase orgasticamente que «a direita democrática, ou a área "não-socialista", dá uma bofetada com luva branca à esquerda panfletária que a continua a olhar como "fascista". Quando, e se, a qualidade da democracia voltar a estar em causa, sabemos que há portugueses de bem a dar a cara para os defender». É a leitura mais mediocremente simplista em que subjaz uma básica conjectura direitolas.
O que será a «esquerda panfletária»? Não devemos errar muito, pelo andar da carruagem da figura, que, sem muita coragem para o nomear, se esteja a referir ao PCP, o qual chama fascista ao que é fascista, reaccionário ao que é reaccionário, direita ao que é direita, extrema-direita ao que é extrema-direita, não se deixa enrodilhar no linguajar pós-moderno dos populismos, das democracias iliberais, mas sempre soube e assim o demonstrou ao longo da sua longa história de luta pela democracia e pelas amplas liberdades, distinguir mesmo entre os reaccionários e os de direita não os metendo indistintamente no mesmo saco. O que ele não entende – é o problema da escassez das tão celebradas por Poirot celulazinhas cinzentas –, porque atesta de forma parvóide a morte do fascismo. Escasseia-lhe entendimento para perceber os avisos de Umberto Eco que explicava que o fascismo não é um sistema fechado, é um fenómeno psicológico e cultural — o «Ur-Fascismo» – que pode ressurgir sob novas roupagens, mesmo em tempos de democracia, e que quando voltar fascismo não dirá «eu sou o fascismo», dirá «eu sou a liberdade». Tal como não ouviu um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, 1997, com uma frase premonitória, de uma implacável lucidez: «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas».
Os neo-fascistas dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas, dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade. Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.
A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que este se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. Decretar a morte do fascismo é cegar-se voluntariamente, na realidade é pago para isso, perante a desmesurada presença do gauleiter do Chega na comunicação social escrita, televisiva, radiofónica, para sustentar a sua tese de que «o que está em jogo, nisso têm razão os apologistas de Ventura, não é uma ameaça do fascismo (...) Nada em André Ventura ou no Chega se conjuga para impor um programa totalitário com milícias de camisa negra ou castanha a marchar no compasso das coreografia marciais. No que não têm razão é negarem que André Ventura e o seu programa são apenas uma manifestação normal da democracia». Aqui entronca uma questão de fundo que é perante o risco de Ventura se eleger Presidente da República concluir que «a direita democrática esteve à altura das suas responsabilidades num momento crítico da democracia.» Mais uma simplificação, em boa verdade não se lhe pode exigir mais. O momento é crítico para a democracia tal como António Guerreiro, numa das suas crónicas no Ypsilon, sublinhou: « o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).
A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário». Quando por cá se permite a construção de um partido que é declaradamente contra a Constituição, que reiteradamente não cumpre decisões do Tribunal Constitucional, há que questionar este súbito despertar democrático.
«Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.»
Coloque-se uma hipótese: se em vez de André Ventura o adversário de António José Seguro fosse Cotrim Figueiredo, o repúdio desses barões assinalados seria o mesmo? No entanto tanto Ventura como Cotrim pugnam por uma profunda revisão constitucional, chegaram mesmo a propor um pacto com esse objectivo, que aplainasse a democracia tal como está instituída, preconizando formas mais autoritárias. Ambos são favoráveis à privatização do que ainda resta por privatizar e nisso Cotrim até é mais vocal. Os direitos sociais, económicos e políticos são para Ventura esmurrar e Cotrim motoserrar. Cotrim poderia eventualmente ter contra ele um alegado e não provado caso de assédio sexual, que no Portugal coutada do macho ibérico, como um ilustre juiz despachou num julgamento de violação de duas jovens estrangeiras que estavam a pedi-las, qualquer mulher só por ser mulher está sempre a pedi-las, não lhe deveria desgastar substancialmente os apoios. Se fosse Cotrim em vez de Ventura haveria algum similar sobressalto democrático? Cotrim que, não passando à segunda volta, também não se demarcou de extrema-direita, preferindo avisar sobre os riscos de se ter um presumível perigoso socialista em Belém.
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias. O que os perturba e assusta é a eventualidade de, num jantar num qualquer Palácio da Ajuda, abancar um Presidente da República que se desbrague em discursos carregados de impropérios, que confunda os talheres de carne com os de peixe, não distinga copos de vinho tinto dos de vinho branco, que no limite até limpe os beiços com a gravata. Por detrás do pano de fundo deste vasto bater de tambores, da direita à esquerda, com declarados apoios a Seguro, os partidos políticos em que se inscrevem o façam entricheirando-se numa neutralidade oportunista, não vá o diabo tecê-las e muitas dessas tessituras até se encontram.
Uma última e muito reveladora observação é o silêncio desses partidos e personalidades sobre a Operação Irmandade da PJ que investigou o grupo neo-nazi 1143, a qual não lhes provocou grande indignação pública, tal como nem timidamente invectivaram o candidato presidencial Ventura que acaba por considerar essa bandidagem seus eleitores, apoiantes, mesmo companheiros de estrada, como foi evidente na sua última entrevista na RTP. O que se poderá concluir? É que o muito festejado e celebrado consenso entre direitas e esquerdas em torno da escolha que está em causa está muito mais ancorado entre a má educação de um candidato e a boa educação do outro do que na defesa da democracia tal como a vivemos, com todos os défices acumulados em anos de governos PS, PSD, CDS. Um candidato à direita, com os mesmos princípios e objectivos, mas mais palatável que Ventura, não produziria esta sucessão de declarações, o que de algum modo implode a pulsão democrática que tanto excita essa turbamulta de comentadores e jornalistas. Há que enfatizar que, depois de anos e anos a perorar sobre o desaparecimento de direitas e esquerdas, agora lembram-se que essa diferenciação sempre existe e está para durar, a que se adicionam todos os outros que, quando declaram não ser de direita nem esquerda, são obviamente de direita.
Merece ainda destaque as intranquilidades dos intelectuais orgânicos na hipótese de André Ventura ter o apoio de um em cada quatro portugueses depois de se ter comemorado os 50 anos do 25 de Abril, interrogando-se mesmo onde é que se terá falhado! Não sabem? Há muito para lembrar-lhes, sem colocar qualquer dúvida sobre o seu empenho democrático, principalmente porque nestes 50 anos ocuparam lugares importantes nas instituições democráticas e foram dos que mais presença assídua tiveram nos meios de comunicação social. É bom auxiliarmos a sua memória.
▪️1.Refiram-se, entre outros, Russell Jacoby, The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, Basic Books, 1987; Edward Bernays, Propaganda, Comment Manipuler l'Opinion en Democratie, La Découverte, 2007; Zachary Karabell, What's College For? The Strugle to Define the American Higher Education, Basic Books, 1998; Edward W. Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996; Noam Chomsky, Mudar o Mundo, Bertrand, 2014; Domenico Losurdo, Critique de l’apolitisme. La leçon de Hegel d’hier à nos jours, Delga 2014; Frank Furedi, Where are the Intellectuals Gone? Cofronting 21th century Philistinism, Continuum, 2004; Sheldon S. Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, Princeton University Press, 2008; István Mészáros, A teoria da alienação em Marx, Boitempo, 2016, Chis Hedges, La Mort de l'Élite Progressiste, Lux Futur Proche, 2012.
▪️ www.abrilabril.pt
«Golconda», de Rene Magritte, 1953Créditos/ The Menil Collection, Houston
03 de Fevereiro de 2026
https://www.abrilabril.pt/nacional/boa-educacao-ma-educacao
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Bruno Amaral de Carvalho - De mãos dadas contra a fúria do vento
António Gil - Os porcos estão no poder
domingo, 1 de fevereiro de 2026
António Gil - Apocalipse ontem, hoje e amanhã
Sobre um banimento — e sobre a miséria política que ele expõe
2026 02 01
Sobre um banimento — e sobre a
miséria política que ele expõe
Banimos recentemente uma pessoa
chamada Isabel Coelho, da Marinha Grande.
Convém dizê-lo desde já: não foi
por divergência ideológica abstrata, nem por capricho, nem por intolerância.
Foi por comportamento político
concreto.
A Isabel Coelho apresenta-se, no
seu próprio perfil, como socialista convicta, com o mural recheado de
publicações do PS e de apoio a António José Seguro. Está no seu direito.
Ninguém foi, nem é, banido por apoiar o PS.
O problema começou quando essa
pessoa decidiu intervir num post que nós publicámos, onde se republicava o
testemunho de um jovem da Marinha Grande. Um testemunho simples, direto e
politicamente legítimo:
que o PCP teve uma boa atitude,
que ajudou pessoas, que esteve presente no terreno, e que, apesar disso, é
sistematicamente isolado e silenciado pela comunicação social, ao contrário do
que acontece com figuras como André Ventura, omnipresente nos ecrãs.
Não havia ataques ao PS.
Não havia insultos.
Não havia provocação.
Havia uma constatação política
óbvia — e incômoda para alguns.
A resposta da Isabel Coelho não
foi debate.
Não foi discordância.
Não foi argumentação.
Foi isto, em substância:
“Aqui vocês não têm que falar. Vão
fazer política para o outro lado. Aqui quem manda somos nós.”
Isto não é opinião.
Isto é autoritarismo político,
embrulhado em militância partidária.
Foi por isso que houve banimento.
E foi um banimento legítimo.
Porque isto não é um caso isolado
Quem quiser reduzir isto a “uma
socialista exaltada” está a mentir — ou a proteger o problema.
Este comportamento não nasce do
nada.
É expressão de uma cultura
política profundamente enraizada no PS: a ideia de que a esquerda à esquerda do
PS existe apenas para servir, calar e alinhar.
O PS quer o voto da esquerda.
Quer o voto comunista.
Quer o voto “útil”.
Mas não tolera autonomia política,
nem crítica, nem memória histórica que não controle.
Quando alguém lembra que o PCP
esteve no terreno, ajudou populações concretas e fez trabalho real, a reação
não é debate: é mandar calar.
Aqui convém dizer as coisas pelo
nome.
Ajoelham e rezam sempre que
precisam apanhar os votos dos comunistas.
Sempre. Não é ocasional, não é
acidente. É rotina.
Rezaram com Costa.
Ajoelham e rezam agora com Seguro.
E vão ajoelhar e rezar sempre que
chegarem os pedidos de voto útil.
O ritual é claro:
Primeiro, arrebanhar os votos da
esquerda, de preferência ajoelhados.
Depois, insultar, mandar calar e
desprezar quem ousou pensar por si.
Repetir infinitamente, como se a
política fosse apenas uma devoção ritual à própria sobrevivência eleitoral.
Querem o voto comunista de
joelhos,
mas nunca suportam comunistas de
pé.
A hipocrisia socialista
É obsceno ver quem:
manda comunistas “fazer política
para outro lado”
diz “aqui quem manda somos nós”
deslegitima o PCP e o seu trabalho
ser a mesma gente que, em período
eleitoral, aparece com ar piedoso a pedir unidade, contenção e sacrifício.
Querem o voto, não querem a voz.
Querem o número, não querem o
sujeito político.
E ainda se indignam quando alguém
ousa não baixar a cabeça.
O voto em Seguro não é confiança —
é contenção de danos
Convém ser claro, porque o PS
gosta de confundir tudo.
Quem pondera votar em António José
Seguro não o faz por acreditar no PS, nem porque ache que o PS mudou de
natureza.
Fá-lo, quando muito, por voto
defensivo,
contra André Ventura,
não a favor do PS.
Isso não cria qualquer dívida
moral.
Não cria silêncio.
Não cria submissão.
E muito menos dá ao PS o direito
de insultar, humilhar ou mandar calar quem sempre esteve na linha da frente
contra a direita e a extrema-direita.
O PS errou, erra e continuará a
errar
Não é um problema de comunicação.
Não é um deslize local.
É linha política.
O PS:
gere o capitalismo
aceita a lógica do mercado
normaliza desigualdades
governa para os mesmos interesses
e depois finge surpresa com o
crescimento da extrema-direita
O PS não é o dique contra a
direita.
É, demasiadas vezes, o terreno
onde ela cresce.
Banir não foi censura — foi
higiene política
Espaços de esquerda não são
obrigados a tolerar:
intimidação
arrogância
lógica de dono do território
nem o “aqui mando eu” travestido
de militância
Quem entra para mandar calar não
entra para dialogar.
Banir esse comportamento foi um
ato de autodefesa política.
Conclusão
Este episódio não diz nada de
essencial sobre uma Isabel Coelho.
Diz tudo sobre o PS.
Um partido que exige votos à
esquerda enquanto despreza a esquerda.
Que pede unidade enquanto insulta.
Que fala de democracia enquanto
tenta silenciar quem luta.
A esquerda não existe para servir
o PS.
O PCP não existe para legitimar
carreiras socialistas.
E a democracia não pertence a quem
acha que manda nela.
Quem fala assim não tem projeto
democrático.
Tem apenas instinto de poder.
E isso, sim, é o verdadeiro problema.
%20Foto%20jo%C3%A3o%20Rodrigues%20in%20'ladr%C3%B5es%20de%20bicicletas'.jpeg)



