* Eduardo Maltez Silva
“Reclusos vão limpar florestas.” Vendido como se fosse uma mudança revolucionária, quando na verdade é apenas mais um episódio clássico de populismo punitivo e inútil, embrulhado como “novidade” para agradar aos cheganos.
A ideia é simples — não porque funcione, mas porque excita um certo reflexo emocional: alguém tem de ser punido, alguém tem de sofrer, alguém tem de “pagar” pela minha vida frustrada.
Décadas de investigação em psicologia social mostram que uma parte das marionetas do populismo tem forte adesão à crença do “mundo justo”: a necessidade quase visceral de acreditar que quem está mal alguma coisa fez para o merecer.
Quando essa crença é ativada — por medo, insegurança económica ou ansiedade social — cresce o apoio a soluções punitivas, mesmo quando são contraproducentes e até inúteis.
Não é racional. É emocional.
E emoções dão votos.
É por isso que estes partidos perdem mais tempo a falar de punir quem comete crimes do que a falar em prevenir o crime.
Porque prevenir o crime exige mais Estado, melhores escolas, melhor polícia, melhor justiça, melhor apoio social, melhor saúde mental, menos guetos, menos desigualdade… e isso incomoda as elites económicas.
O populismo sabe isto de cor. Qualquer manual de propaganda dos anos 30 já o sabia.
Por isso repetem esta coreografia moral: reclusos, beneficiários de RSI, desempregados, imigrantes — tudo embrulhado na mesma narrativa de suspeição e punição.
O objetivo não é resolver problemas estruturais. É oferecer catarse barata a quem precisa de sentir que alguém está a ser posto “no lugar”.
Mas vamos aos factos, porque a propaganda vive da ignorância.
Em Portugal, os reclusos sempre puderam trabalhar e ter formação.
Sempre. Vou repetir: SEMPRE.
Está na lei há anos. Faz parte do modelo de reinserção social.
Existem oficinas prisionais, serviços internos, cantinas, programas profissionais e até trabalho no exterior em regimes específicos.
Não, não estavam proibidos de trabalhar. Nunca estiveram.
Aliás, no final de 2024 havia perto de 43% da população prisional em actividade laboral. (fora os que estavam em formação)
O que existe — e existe há décadas — é um sistema onde a maioria dos reclusos que trabalha dentro da prisão recebe valores na ordem dos 2 a 3 euros por dia. Sim, por dia.
Quando se converte isto em horas de trabalho, estamos a falar de cêntimos por hora.
Isto não nasceu ontem.
Isto não foi agora descoberto.
A possibilidade sempre existiu.
O que mudou foi outra coisa: a propaganda.
De repente, vender trabalho prisional como se fosse uma invenção musculada rende cliques e rende votos num eleitorado que vibra com soluções simplistas servidas em tom de taberna.
Mas há um pequeno problema que o marketing político esconde.
Trabalho exterior de reclusos não é apenas mandar pessoas para o mato com uma enxada para apaziguar o instinto punitivo.
Para colocar reclusos fora dos muros é preciso:
– guardas prisionais
– transporte
– logística
– alimentação
– seguros
– formação para operar maquinaria
– segurança permanente
– protocolos formais com empresas e associações
Tudo isto custa dinheiro. Muito dinheiro.
E, na prática, o impacto nas florestas é altamente discutível.
Reparem: estamos a falar de um sistema onde o próprio sindicato do setor aponta para uma falta estrutural próxima dos 1.500 guardas prisionais.
Ou seja, enquanto se vende a imagem bonita da “limpeza das matas”, o custo real é empurrado para debaixo do tapete... mais recursos de segurança desviados para operações de impacto estrutural reduzido.
Mas isso é detalhe técnico.
E detalhe técnico não ganha votos.
Há outro ponto ainda mais incómodo neste populismo de taberna.
Quando o Estado começa a disponibilizar mão-de-obra prisional em larga escala, o risco — já observado noutros países — é criar pressão em baixa sobre os custos laborais e abrir espaço a modelos de negócio dependentes de trabalho ultra-barato supervisionado pelo erário público.
O mecanismo é perverso:
– o Estado paga a vigilância
– o Estado assume o risco
– o Estado mobiliza recursos escassos
– e terceiros beneficiam de custos mais baixos
Isto não é teoria da conspiração.
A literatura internacional sobre economias prisionais mostra precisamente este risco: o foco pode deslizar da reinserção para a utilidade económica do trabalho barato.
E é aqui que o populismo revela o truque.
Não é política pública séria.
Não é reforma estrutural.
Não é estratégia florestal.
É ilusionismo político.
Pega-se numa medida que já existia, dá-se verniz musculado, vende-se como novidade,
esconde-se os custos e a utilidade real da ação.
Ao mesmo tempo, alimenta-se a narrativa moral de que o problema do país são sempre os de baixo — o recluso, o beneficiário, o desempregado — nunca as falhas estruturais que dão muito mais trabalho resolver.
Convém relembrar o óbvio.
Quem recebe RSI já tem obrigações legais.
Quem está desempregado já tem deveres de procura ativa de trabalho.
Reclusos já trabalham no sistema prisional.
O Estado social moderno não funciona à base de chicote.
Funciona criando condições, incentivos e percursos de reinserção com racionalidade económica e social.
Tudo o resto é teatro punitivo...é performance...é maquilhagem, cabeleireiro e chuva digital.
Há trabalho prisional que pode e deve existir com dignidade, formação real e verdadeiro valor público — trabalho para reintegrar, não para alimentar oportunismos.
O que não precisamos é de políticas desenhadas para provocar aplausos fáceis enquanto desviam recursos escassos, colocam em causa a nossa segurança e vendem soluções simplistas a quem confunde punição com reinserção.
O país já paga caro demais por políticas feitas ao som de berros de taberna… e ainda assim votámos nesta porcaria.
Resultado? O que estava mal piorou.
O que estava bem, conseguiram estragar.
Por isso a distração faz parte do plano.
Não se distraiam...Não se deixem enganar.
2026 02 24
https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

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