terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sérgio Ferreira Borges - Passos Coelho e o regresso à Idade Média (2012)

 

* Sérgio Ferreira Borges

 Quando o Marquês de Pombal chegou ao poder, encontrou um Estado ainda medieval, quase inexistente, sacrificado aos egoísmos de uma aristocracia inútil e parasitária.

Os saques - coloniais e domésticos - eram coisa corriqueira que contavam com o beneplácito régio, para, do seu produto, se alimentarem os vícios da nobreza dissoluta. Talvez por isso, o Marquês de Pombal se tenha aproveitado da tentativa de regicídio dos Távoras, para desferir um golpe inclemente, contra os privilegiados da corte.

Há um elemento passional na origem do processo dos Távoras. O rei José era amante de Teresa Leonor, a mulher do Luís Bernardo, filho de Francisco Távora. E terá sido esse, aparentemente, o móbil do crime.

Mas havia também fortes motivações políticas para eliminar o rei e, com ele, o seu chanceler-mor. E Pombal respondeu, também, politicamente, com execuções e desterros, para que a aristocracia percebesse que alguma coisa tinha mudado, no Reino de Portugal.

Atacou depois os jesuítas que, desde a restauração de 1640, controlavam grande parte do comércio colonial e daí financiavam um poder imenso que abafava o Estado: Regiam o ensino, a cultura e a ciência, abuso que Pombal não lhes tolerava. Mas nesse tempo, a Igreja via no poder a sua própria sobrevivência.

Na realidade, o Estado não existia. Havia uma corte e, à sua volta, um conjunto imenso de privilégios que ninguém sabia justificar.

Hoje, o Estado está a caminhar para a mesma irrelevância que teve, até ao advento do Marquês de Pombal. Está pobre e falido, mas os privilegiados que o cercam estão ricos, prósperos, apoderando-se cada vez mais de um poder ilegítimo, que não lhes pertence. São os "Catrogas" que, além de meios financeiros, dispõem de influências enormes que lhes colocaram nas mãos todo o poder que devia ser público. Assim eram também os Távoras.

Reduzir o Estado, como eles dizem, não é nada de moderno, bem pelo contrário. É antes um regresso ao medieval, para manter os privilégios de uma horda que, sem pejo nem vergonha, à custa das mais escandalosas mentiras, vai usurpando o poder. E aqui, está uma questão nuclear: o poder tem de existir, mas resta saber se o queremos no domínio público, isto é, no Estado, ou nas mãos dos privilegiados, para serviço dos seus interesses privados.

Passos Coelho já optou pela segunda premissa. É um servidor de interesses privados, como ele próprio tem dito, por entre algumas inverdades. Repare-se na incongruência dele, quando pede mais investimentos aos investidores e mais poupança aos consumidores. As duas coisas não podem coexistir. Isto é uma enorme falácia, porque Passos Coelho sabe que, só o consumo pode remunerar o investimento. E sem remuneração, nenhum investidor está na disposição de malbaratar o seu capital.

Ele serve os interesses privados, como se pode ver pelos resultados da Caixa Geral de Depósitos. No último ano, pela primeira vez, registou prejuízos da ordem dos 488 milhões de euros. Dinheiro que foi tapar as falcatruas do Banco Português de Negócios e do Banco Privado Português. Trafulhices que se tomaram em lucro, para uma minoria. Para os Távoras do século XXI. A modernidade apregoada por este governo é um retrocesso, um regresso à idade média!

(in Diário de Coimbra, 12/02/2012)

23.02.26 | Manuel

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/passos-coelho-e-o-regresso-a-idade-246462

Sem comentários: