"O mundo de hoje, descomposto, está à beira do estado de alucinação global"
A escritora Lídia Jorge recebe hoje
o Prémio Pessoa 2025. Na cerimónia marcam presença o Presidente da República,
Marcelo Rebelo de Sousa, e o CEO da Impresa, Francisco Pedro Balsemão. O
Expresso publica na íntegra o discurso de Lídia Jorge
- Face
10 fevereiro 2026
Receber o Prémio Pessoa, pela sua natureza e pelo nome do seu patrono, intimida. Não sei se os meus antecessores mais próximos na área da Literatura, os poetas João Luís Barreto Guimarães e José Tolentino Mendonça o sentiram. Eu, sim, e para tanto, preciso de imaginar que o anjo do bom humor se encontra pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.
No mundo da Literatura, o poeta Pessoa é mais do
que um rei, é o maior poeta do Século XX. Tudo na sua obra, de que a sua vida é
um capítulo, e não contrário, é poderoso e tocante. Até mesmo as suas
contradições colossais. Richard Zenith, na extraordinária biografia que
escreveu sobre Pessoa, define-o a dado passo como aquele que diante do visível,
fosse de que género fosse, e de forma absoluta, procurava o invisível.
Claro que o que ele buscava, como é próprio de quem se move no domínio da Literatura e das Artes, é do domínio do invisível, alguma coisa que se aproxima da demanda pela alma do mundo. Mas nenhuma das outras disciplinas que este Prémio abarca, mesmo que ande longe dessa finalidade última, dispensa a escada íngreme da busca de alguma coisa que transcende o facilmente alcançável. Pessoa foi selectivo, contante, obsessivo, fez de si mesmo uma entrega total. Para todos os ramos da Ciência, das Artes, da Cultura e do Pensamento reflexivo que são contemplados, a referência ao nome de Pessoa funciona como uma cúpula e um arco-botante.
Chamam-lhe o
Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o presidente
que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo. E esse é um legado
extraordinário.
Era na Praia dos Olhos de Água, entre o barlavento e o sotavento algarvio. Com ela vivia também o seu sobrinho, o actor José Manuel Mendes, e por lá passava Michel Giacometti, o musicólogo corso, que se apaixonou pela música popular portuguesa e andava a salvar canções. Maria Aliete Galhoz descia de tarde à praia e levava consigo um cesto. Dentro do cesto, cadernos, e dentro dos cadernos, fitas de papel com letras miúdas manuscritas. Um dia mostrou-me uma dessas fitas. Não sabia se era um E ou um C. Andava a decifrar palavras de Fernando Pessoa. Nunca irei esquecer. Mas Maria Aliete esqueceu. Nos últimos encontros em Lisboa, quando evoquei esses passeios à beira-mar, ela negou, disse que nunca tinha decifrado nada de Pessoa. Ou ela ou eu estávamos enganadas. Naquele momento, eu senti que não éramos verdade, que ela, a primeira grande pessoana, e eu sua admiradora juvenil, companheira de passeio à beira-mar, nós duas, não passávamos de dois sonhos pessoanos evasivos.
O que significa que, a pouco e pouco, como
leitora comum, a obra de Pessoa foi-se instalando, no seu formato de irradiação
fragmentada, e naturalmente que passei a escolher a máscara que mais me dizia
respeito e onde ainda permaneço imaginando-me aparentada. Uma fantasia, mas na
verdade é Álvaro de Campos quem me diz respeito. Não vale a pena explicar
porquê. Mas talvez valha a pena referir que em 1966, na Revista “O Tempo e o
Modo”, Eduardo Lourenço publicou aquele célebre ensaio com o título de
“Uma Literatura Desenvolta ou os filhos de Álvaro De Campos”, associando a
geração dos anos sessenta à ambição do engenheiro naval que andou por Glasgow.
Posteriormente, Eduardo não voltaria mais a fazer essa associação entre o autor
das Odes e da Tabacaria, às gerações que depois, nos anos oitenta e
noventa ele viu surgir. Possivelmente, não encontrou em nós, narradores
surgidos com a Democracia, nem o cosmopolitismo, nem a dinâmica técnica e
subjectividade caótica do poeta futurista, que ele mesmo, Eduardo Lourenço,
gémeo fraterno de Pessoa, reconhecia como a verdadeira lava ardente criadora.
Nós, os que viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser. Só que eu, provavelmente, não serei filha de Álvaro de Campos, serei quanto muito uma trineta afastada, embora me identifique, no Cartão de Cidadão da fantasia literária, como uma sua parente.
Com a liberdade que a ficção permite, a Ode Marítima, esses quase mil versos que falam do grande pirata europeu que levou algum bem aos outros continentes, mas de que a actualidade só evoca os males, a partir dessa ode, escrevi um livro. E a minha obsessão, partilhada com milhões de leitores em Portugal e à volta do mundo, não fica por aí. Os fragmentos que são conhecidos como a Ode à noite, constituem uma outra parte da minha obsessão. Comos seria a ode se estivesse completa? Será legítimo tentar completá-la? - Não vou contar tudo o que se passa entre essa ode e a minha pessoa, só alguma coisa. É que ultimamente tenho pedido a poetas que tentem completá-la e ninguém ousa. Então virei-me para os chats. Pedi à minha amiga Dora Gago que procurasse nos Chats GPT e Gemini esse continuado, e o resultado foi do mais interessante que há. Com a limpidez do vidro e a desenvoltura dos relâmpagos, os chats ofereceram gratuitamente duas soluções acabadas. Acabadas, mas falsas. A antiga retórica ensinava que num texto havia três componentes distintas, a invenção, a composição e a elocutio, isto é a linguagem. Os chats em questão imitaram o que era possível imitar, o tipo de linguagem. O chat, como um ladrão furtivo, roubou daqui e dali e no escuro da imaterialidade, criou uma falsidade. No entanto, não é fácil desmontá-la.
Nós, os que
viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma
pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito
queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje
demora a ser.
Na realização
da poesia, instrumento de liberdade que a cada poema inaugura um mundo,
prova-se os ilimites da nossa invenção. Nela a linguagem surge como o reduto
mais importante da nossa condição de sujeitos autónomos, um recanto do ser que
se deixarmos violar determinará a nossa capitulação
O início do excerto dessa ode incompleta de Álvaro de Campos de que falávamos começa por esses versos que muitos portugueses sabem de cor – “Vem, Noite antiquíssima e idêntica/ Noite rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio. Noite/ Com as estrelas lantejoilas rápidas/ No teu vestido franjado de infinito…” Sabe-se como é. Continua-se, e diante dos nossos olhos, não fica só a Noite, fica o Cosmos. Não o Cosmos físico, o das forças que só se conhecem porque resultam do cálculo matemático e da ideação física, mas o Cosmos como nosso irmão da Criação, o relacional, aquele cujo sentido nos interpela enquanto pedaço que somos dele. Quando esses versos foram escritos por Pessoa, Álvaro de Campos, ainda Einstein andava a remoer a Lei da Relatividade. Stephen Hawking ainda demoraria a nascer, e faltaria quase um século para Peter Higgs revelar as imagens que representam ao bosão de Deus, mas Pessoa, que não era nem físico nem astrofísico, antes de todos eles, falou do sentimento de sideração e espanto, aniquilamento e elevação suprema que um ser humano experimenta diante da magnitude e dos segredos calculáveis, mas indizíveis, do Espaço, tal como se nos apresenta hoje em dia. Pessoa disse o que é possível dizer com palavras nossas, personificados no afecto maternal – “Noite, Vem e embala-nos,/ Vem e afaga-nos,/ Beija-me silenciosamente na fronte/ Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beija/ E um vago soluço…/ Talvez porque a alma é grande e a vida é pequena..”
A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse. Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado. Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim enquanto formos donos dela.
Por isso, eu desejo, como recém chegada, que este Prémio, que tem uma genealogia de 37 edições tão assinalável, continue a ir de vez em quando à procura dos que se entregam a manter o mundo humano, humano, pelo poder das palavras.
Obrigada.
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