* Christiana Martins, Jornalista~
Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Pouco a pouco, o Presidente da República vai-se despedindo dos portugueses. No final desta tarde, apesar da chuva e do tempo cinzento, no átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, a audiência, repleta de figuras da política, da economia e das letras, marcou presença para o ouvir. E a vencedora do Prémio Pessoa de 2025 não o poupou à emoção
10 fevereiro 2026
O átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos encheu-se esta terça-feira para ouvir a escritora agraciada com o Prémio Pessoa 2025 e para, mais uma vez, abraçar, cumprimentar o ainda chefe de Estado. Desde a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, a Leonor Beleza, Guilherme D'Oliveira Martins, Pedro Abrunhosa e à reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil, bem como vários banqueiros, empresários e premiados das edições anteriores.
“Querida premiada”, foi como Marcelo Rebelo de Sousa se dirigiu a Lídia Jorge. E, depois de recordar Francisco Pinto Balsemão e "o seu contributo para a projeção da língua portuguesa no mundo", o Presidente da República falou de literatura com o à vontade de quem navega na Cultura como quem nada no mar de Cascais.
Fez uma digressão diacrónica e detalhada sobre a obra da autora, sublinhando a presença do Algarve, de África, o papel da mulher e dos feminismos e “o registo que se aproxima da auto-ficção de ‘Misericórdia’” e a atenção à população mais velha. Nem a coluna de Lídia Jorge no jornal “El País” foi esquecida.
Por fim, falou do controverso discurso do 10 de Junho do ano passado. "Um escritor é um estilo e uma linguagem e todos conhecemos o estilo e a linguagem da nossa homenageada", disse o Presidente, para acrescentar, “mas é justo dizer que este discurso alargou a nossa percepção quanto à sua figura e o seu empenhamento”.
“O lugar do escritor enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz ‘preocupem-se’”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa sobre a comunicação da escritora. “Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros”, concluiu. Sem deixar de lembrar que os portugueses têm sabido recusar “divisionismos”, numa achega subtil e indireta à última eleição Presidencial.
Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Depois de longos aplausos, Lídia Jorge respondeu ao discurso do chefe de Estado. “Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo.” Foi assim, com a delicadeza do agradecimento, que Lídia Jorge deu a Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República que se despede do cargo, um estatuto nobre, para lá da emoção a ele continuadamente associada.
Pinto Balsemão evocado
A edição de 2025 também ficou marcada por ter sido este o primeiro Prémio Pessoa a ter sido decidido sem a presença ou a orientação do seu criador, Francisco Pinto Balsemão, falecido no ano passado. Por isso mesmo, a cerimónia começou por render uma homenagem ao fundador do grupo Impresa. Mas, mesmo após o seu desaparecimento, a iniciativa da Caixa Geral de Depósitos e da Impresa resistiu.
As primeiras palavras da escritora foram para o chefe de Estado: “Se o admirava à distância, os últimos anos fizeram com que o pudesse admirar na proximidade.” Mas a resistência do Prémio Pessoa foi também assinalada pela escritora. E, por isso, a Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo a que pertence o Expresso, desejou: “O seu pai entregou este prémio a 37 premiados. Desejo que o entregue a 77. Seria sinal de que o futuro, para além das coisas boas que irá criar, manterá algumas das que são louváveis do presente.”
A Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, Lídia Jorge reconheceu, mais do que um gestor, um leitor. “A primeira vez que nos encontrámos foi na feira do Livro de Lisboa. Alguém me disse ‘Vem aí o Presidente da Caixa Geral dos Depósitos’ e as pessoas na minha pequena fila desviaram-se. Eu olhei e só vi um homem. Um homem que falava de livros. É assim que o vejo.”
E, antes de encerrar o capítulo dos agradecimentos, na presença de vários premiados em edições anteriores, Lídia Jorge permitiu-se um espaço a ela mesma, ao recordar o instante em que foi informada de que tinha conquistado a última edição do Prémio Pessoa. “Num primeiro momento, a pessoa pergunta 'Porquê eu?'. Num segundo momento, já formula a questão de modo diferente 'Porque não eu?'. É neste segundo momento, que já implica uma certa acomodação, que me encontro.”
Em tom de improviso, dirigiu-se à ministra da Cultura, dizendo que devia ser mesmo apenas ministra da Cultura, desejo que mereceu o aplauso dos presentes.
A força da poesia
Voltando ao discurso da escritora, ficou evidente que a relação entre Lídia Jorge, também conselheira de Estado, e Marcelo Rebelo de Sousa recebeu um impulso fundamental quando, também no ano passado, o Presidente a escolheu para proferir o discurso do 10 de Junho. Um discurso polémico, que tanto feriu como agradou, que tanto incomodou como incentivou, com frases marcantes, como a que vaticina que “por aqui ninguém tem sangue puro” e que “a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma”. Houve quem a aplaudisse, houve que a quisesse calar definitivamente.
Ditos os obrigadas, Lídia Jorge falou de si, da literatura, e do futuro. Começou por falar do sentimento de intimidação em receber um prémio com o nome de Fernando Pessoa. E disse que, para conseguir aceitar, prefere pensar na presença de um anjo benfazejo e bem humorado, um trocista. “O anjo do bom humor encontra-se pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.”
A sétima mulher e a primeira romancista premiada contou a sua relação com “o maior poeta do Século XX”. Lembrou-se da infância, de quando tinha apenas 13 anos e começou a lê-lo, antes de Pessoa ser para ela um mito.
Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Recordou também Eduardo Lourenço, “gémeo fraterno de Pessoa”, que no poeta reconhecia “o cosmopolitismo, a dinâmica técnica e subjectividade caótica" e ”a verdadeira lava ardente criadora".
É quando a escritora toca no presente, que diz ser um tempo “descomposto, à beira do estado de alucinação global”. Um tempo em que a poesia, que “corresponde à articulação mais sofisticada das línguas”, “serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso”. Uma poesia humana, para lá dos artefactos e artifícios da inteligência artificial, que tem de funcionar como “um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos”.
Não sendo poeta, Lídia Jorge exaltou a poesia. “A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse.”
Para lamentar - “Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado” - e alertar: “Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios.”
Ao despedir-se, a escritora preferiu apostar no otimismo. “A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim, enquanto formos donos dela.” A audiência gostou e a ela se associou, num aplauso reconhecido.
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