quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Helder Moura - (570) A arte de virar o bico ao prego

 * hélder moura

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, Mark Carney, 1º Ministro do Canadá.

 Se não estão à mesa, estão no menu, Mark Carney.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

  

No dia 20 de janeiro de 2026, Mark Carney, ex-banqueiro central e atual primeiro-ministro do Canadá, proferiu um notável discurso (vídeotranscrição) no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Tratou-se aparentemente de um ataque à “ordem internacional baseada em regras”, o conceito que as nações ocidentais com impérios impuseram, promoveram e utilizaram para poderem justificar os seus inúmeros desvios e abusos ao direito internacional. Eis, o que entre outros, Carney disse:

 

“Esta noite falarei de uma rutura na ordem mundial, do fim de uma ficção agradável e do início de uma dura realidade onde a geopolítica – onde a grande potência dominante – não está sujeita a limites nem restrições. […]”

“[…] Parece que todos os dias somos recordados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está a desaparecer. De que os fortes fazem o que podem e os fracos devem sofrer o que devem.”

“[…] Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos uma ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos seguir políticas externas baseadas nesses valores sob a sua proteção.

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando lhes conviesse. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variável consoante a identidade do arguido ou da vítima.

Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de litígios.

Assim, pendurámos a placa na janela. Participámos nos rituais. E, em grande parte, evitámos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este acordo já não funciona.

Deixem-me ser direto: estamos no meio de uma rutura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas das finanças, da saúde, da energia e da geopolítica expuseram os riscos da integração global extrema.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração económica como arma. As tarifas como forma de pressão. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar.

Não se pode “viver na mentira” do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação.”

“[…] E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a pretensão de regras e valores em prol da busca irrestrita do seu poder e interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornar-se-ão mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem monetizar continuamente os seus relacionamentos.

Os aliados diversificar-se-ão para se protegerem contra a incerteza. Contratarão seguros. Aumentarão as opções. Isto reconstrói a soberania – soberania que antes se baseava em regras, mas que estará cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão clássica do risco tem um preço, mas este custo da autonomia estratégica, da soberania, também pode ser partilhado. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Os padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades são um resultado positivo.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se se devem adaptar a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos – ou se podemos fazer algo mais ambicioso.”

 

Mas, atenção: Carney não defende um regresso completo ao Estado de Direito. Não pede que o direito internacional seja aplicado de forma igual a todas as nações. Defende uma colaboração entre as "potências médias" para resistir à hegemonia e poderem continuar a explorar o resto do mundo:

 

“As potências médias devem agir em conjunto porque, se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm a dimensão do mercado, a capacidade militar, a influência para ditar as regras. As potências médias não. Mas quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos entre nós para sermos os mais complacentes.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermédios têm uma escolha: competir entre si pela influência ou unir-se para criar um terceiro caminho com impacto.”

“[…] Não devemos permitir que a ascensão do poder coercivo nos impeça de ver que o poder da legitimidade, da integridade e das regras se manterá forte — se optarmos por exercê-lo em conjunto.”

 

Carney está a implorar aos vassalos da potência hegemónica que resistam coletivamente ao seu poder e, ao mesmo tempo, apelando às "médias potências" para que se juntem ao Canadá no novo clube.

Descartar a “ordem baseada em regras”, expô-la como a mentira que sempre foi, é um bom passo na direção certa. É uma mudança fundamental na forma de ver o mundo.

Mas também há que ter cuidado para não se cair na armadilha do significado que querem atribuir à ovação de pé que Carney escutou em Davos.

Recorde-se que os “liberais” como Carney, depois de patrocinarem o genocídio em Gaza, de saudarem o rapto de Nicolás Maduro, de celebrarem o bombardeamento do Irão, de apoiarem os ataques mortais contra Beirute e Iraque e aplaudirem o assassinato do governo do Iémen, de repente, quando Trump tenta tomar a Gronelândia, pregam a adesão ao direito internacional.

Recorde-se que estes mesmos líderes da França, Alemanha, Itália, Polónia, Reino Unido e outros, que numa declaração conjunta, afirmaram que o futuro da Gronelândia só poderia ser decidido “respeitando os princípios da Carta da ONU, incluindo a soberania, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras”, que pouco mais de duas semanas antes, tinham apoiado o ataque dos EUA à Venezuela e o rapto de Maduro.

A "ordem internacional baseada em regras" foi útil para alguns até deixar de o ser. Agora que foi declarada morta, fica a dúvida sobre que outro conceito fictício será inventado.

E quando os tidos como principais órgãos de comunicação social relatam que o discurso, escrito pelo próprio Carney, foi recebido com aplausos de pé, talvez queiram com isso dizer que os aplausos de pé possam ser tomados como prova de legitimidade, quando são meramente sinais de aprovação da elite.

É que talvez seja desta forma eficiente, educada e sob aplausos estrondosos que o modelo avança.  Provavelmente já nem está na fase de modelo ….

 https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/

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