Este
manifesto dos “não-socialistas" é contra a unidade das direitas no futuro.
Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais
cedo as direitas terão que lidar com ele.
26 jan. 2026
Entre 2005 e
2011, Sócrates foi primeiro-ministro de dois governos socialistas, um deles com
maioria absoluta, o outro não chegou ao fim do mandato. Não me interessa falar
da falência de Portugal com Sócrates em São Bento. Também não me interessa
falar das acusações de corrupção contra o antigo PM socialista. Interessa-me
falar dos atropelos de Sócrates contra a democracia portuguesa.
Nenhum outro PM
em Portugal, desde 1976, ameaçou tanto a democracia. Sócrates controlou a
justiça, conseguindo ter na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça pessoas da sua
confiança e que sempre o ajudaram nos seus casos com a justiça (e mais tarde
sentaram-se, sem qualquer vergonha, na primeira fila a assistir ao lançamento
do livro de Sócrates). Sócrates usou uma empresa do Estado para tentar comprar
um grupo de comunicação social. Sócrates nunca soube lidar com a liberdade de
imprensa, ameaçando e procurando condicionar jornais, televisões e rádios. Não
faltarão jornalistas para o confirmar. Sócrates (juntamente com Ricardo
Salgado) controlou o sistema financeiro português, colocando pessoas da sua
confiança a mandar na CGD e no BCP. Nunca nenhum PM foi tão longe na tentativa
de criar um “capitalismo de Estado”, em aliança com Salgado.
Ou seja,
tivemos dois governos do PS que ameaçaram o estado de direito e a separação de
poderes, a liberdade de imprensa, a independência de bancos e que usaram
empresas públicas para fins políticos. Onde estavam as pessoas de direita que
assinaram agora um manifesto contra André Ventura quando Sócrates se comportou
como um tirano? Nessa altura, não tiverem sobressaltos democráticos? Nunca
escreveram manifestos? Ficam mais preocupados com as palavras de Ventura do que
com as decisões e as ações de Sócrates? No mínimo, é muito estranho considerar
que palavras de um líder da oposição são mais graves do que as decisões
anti-democráticas de um PM.
Só mais um
ponto. António José Seguro nunca se distanciou de Sócrates enquanto ele foi PM.
Foi sempre deputado e fez campanha a apoiar Sócrates em 2011. O distanciamento
de Sócrates depois de ele ser acusado é muito fácil.
Em 2015, sem
mandato dos eleitores (é o que o PS diz hoje contra a lei laboral do governo),
António Costa fez uma coligação parlamentar com partidos, o PCP e o Bloco, que
apoiaram sempre ditaduras. A última foi a da Venezuela, cheia de assassinatos e
de presos políticos. Aqui vou citar o manifesto dos “não-socialistas por
Seguro”: a defesa dos “valores democráticos e humanistas” e dos “direitos,
liberdades e garantias dos cidadãos.” Todos sabemos que os aliados do governo
socialista de António Costa defendem “valores democráticos” e “direitos,
liberdades e garantias dos cidadãos.” Onde esteve o sobressalto democrático dos
ilustres signatários em 2015? Muitos deles trabalharam com Passos Coelho e nem
isso os levou a escrever manifestos na altura.
Conheço muitos
dos signatários do manifesto dos “não-socialistas” e sou amigo de alguns, mas
cometeram um enorme erro político (e direi isso a todos quando falar com eles).
Antes dos erros, se os signatários não me levarem a mal, este manifesto não
terá impacto nas eleições de 8 de Fevereiro. Não vai trazer mais um voto a
Seguro na segunda volta, os portugueses são livres, e pensam pelas suas
cabeças. Se algum impacto tiver, será aumentar um pouco os votos de Ventura.
O manifesto
comete dois erros políticos graves. Em primeiro lugar, apelando ao voto em
Seguro estão a ajudar a reconstruir a legitimidade política do PS. É o que José
Luís Carneiro está a fazer à boleia da candidatura de Seguro; e o candidato vai
ajudar o líder socialista. Os signatários estão assim a contribuir para o
renascimento do PS, o que me espanta porque se definem como “não-socialistas.”
Também me surpreende que aqueles que conheço, e que sei bem o que me dizem do
PS, dos governos socialistas que Seguro apoiou e até do próprio candidato
(quando era líder do PS), assinem este manifesto. Mas ninguém está livre de
cometer erros.
Este manifesto
também é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega
e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que
lidar com ele. Há uma questão interessante quando se lê o texto do manifesto:
que tipo de governo maioritário os signatários defendem? Uma maioria absoluta
da AD; eu também gostava muito, mas não analiso a política com base em sonhos.
Uma maioria absoluta da AD com a IL. Também gostava, mas acho muito improvável.
Implicitamente, também viveriam bem com uma nova geringonça. Já viveram sem
sobressaltos democráticos e apoiam o candidato apoiado pelo PCP e pelo Bloco.
Essa maioria, não quero nunca mais.
Aliás, a AD na
prática já beneficia da dimensão eleitoral do Chega. É isso que impede uma nova
maioria parlamentar das esquerdas. No dia em que as esquerdas voltassem a ter
maioria parlamentar, voltará a haver uma nova geringonça, seja quem for o líder
do PS e mesmo que Seguro esteja em Belém. Algum dos signatários acha que o
Presidente Seguro impediria uma coligação entre o PS a as extremas esquerdas,
quando conta com os apoios dos comunistas e dos bloquistas?
Entendo
perfeitamente que nenhum destes signatários seja capaz de votar em André
Ventura. Há muita coisa em Ventura que me causam muito desconforto, desde as
generalizações injustas até à demagogia, passando pela sua visão da economia,
como mostram as suas posições sobre a privatização da TAP e o acordo comercial
entre a UE e o Mercosul. Discordo da visão presidencialista de Ventura. Mas é
muito diferente não ser capaz de votar em Ventura ou apelar ao voto em Seguro.
Estão a apoiar um socialista que nunca se distanciou dos piores erros feitos
pelos governos do seu partido, pelo contrário apoiou activamente Sócrates.
Estão a apoiar um socialista que fez ataques absolutamente injustos e falsos ao
governo de Passos Coelho quando liderava o PS. Estão a contribuir para a
legitimidade eleitoral do PS, quando os socialistas não o merecem. Um partido
que nos últimos 30 anos, esteve 22 no governo, e que tanto mal fez a Portugal.
O Chega
apareceu, em grande medida, por causa de todo o mal que os governos socialistas
fizeram a Portugal. Os eleitores do Chega e de Ventura são aqueles que mais
perderam com os governos socialistas. Não acho nada estranho que não se goste
do resultado do socialismo. Eu também não gosto. Mas, por isso mesmo, acho
muito estranho que se apoie um socialista. E Seguro nem sequer precisava destes
apoios para ganhar as eleições no dia 8 de Fevereiro. O manifesto foi um erro
inútil.
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