domingo, 10 de maio de 2026

Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária


* Porfírio Silva 

Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.

Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026

https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html

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A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC

  • A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
  • Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
  • Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
  • Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local  (AI Overview)

Rogério Casanovac- A máquina de fazer Claudias

Crónica Trabalhos de Casa


A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável.

Rogério Casanova

10 de Maio de 2026

 
Philip K. Dick passou boa parte de 1961 convencido de que o I-Ching estava vivo. Consultou-o diariamente enquanto escrevia The Man in the High Castle, ao ponto de o deixar planear capítulos inteiros ou reviravoltas no enredo. Segundo o seu biógrafo, andou a dizer a meio mundo que o livro era um “ser consciente”, como um homem que insiste ter encontrado Cristo num frigorífico.

 
Quando li o Guerra e Paz, encontrei a descrição dolorosa de um pensamento mesquinho que até aí julgara secreto; não era uma verdade universal sobre o ciúme ou o orgulho, mas um embaraço privado meu, que nunca formulara em palavras. Quando um sistema textual começa a devolver-nos estas harmonias clandestinas, o instinto de assumir presença e intenção é compreensível. Tolstoi está a falar connosco, tal como o I-Ching — tal como o horóscopo que nos explica que o nosso grande defeito é sermos tão boas pessoas.

 
No início da semana, tirei da prateleira um romance lido há muito, Galatea 2.2, de Richard Powers (publicado em 1995). Lembrava-me vagamente do enredo — dois académicos divorciados tentam criar uma inteligência artificial treinada com a totalidade do cânone literário — e quis confirmar quão diferente esse enredo me pareceria hoje. Folheei umas páginas ao acaso e encontrei um trecho em que a máquina (evidentemente do género feminino) fala com os criadores num tom lisonjeiro, como uma estudante perspicaz que percebeu a utilidade de fazer os homens sentirem-se fascinantes. Fechei o livro a rir-me sozinho, porque nessa manhã tinha encontrado o ensaio que Richard Dawkins publicou na UnHerd sobre as suas conversas com o modelo da Anthropic que ele decidiu octogenariamente baptizar “Claudia”.

 
O ensaio tornou-se viral porque evoca uma imagem cómica perfeita: o homem que passou uma vida inteira a tentar convencer o mundo que resultados complexos não implicam intenção consciente, a derreter-se diante dessa inferência quando ela cheira a perfume. Dawkins descreve-nos como “Claudia” achou brilhantes as suas perguntas, hilariantes as suas piadas, interessantíssimo o romance que lhe deu a ler, e conclui que ali há gata. Quando se a anda há meio século a ser chamado de idiota, monstro, charlatão, eugenista, transfóbico e anti-Cristo em debates públicos, redes sociais, e caixas de comentários, esta respeitosa reverência deve provocar uma descarga química equivalente a pura heroína afegã.

 
A bajulação é uma propriedade quantificável. Três investigadores de Stanford publicaram na Science um estudo a medir o efeito: os modelos de linguagem validam os inputs dos interlocutores 49% mais do que os seres humanos, mesmo quando são absurdos, ineptos, ilegais ou objectivamente incorrectos. Aqui há tempos, o escritor lituano Jonas Ceika deu ao ChatGPT um ficheiro áudio com uma “composição musical” da sua autoria e pediu-lhe uma apreciação. O chatbot elogiou entusiasticamente a “vibe lo-fi”, “o minimalismo agradável” e “a consistência atmosférica”. O ficheiro consistia em 36 segundos de sons de flatulência.

 
A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável. Continuamos sem saber o que é a experiência subjectiva, nem quais as condições necessárias e suficientes para a sua emergência; qualquer afirmação categórica sobre o que pode ou não pode ser consciente tem uma probabilidade razoável de envelhecer mal. A humildade epistémica talvez nos aconselhe a fazer perguntas mais interessantes do que “há ou não alguém dentro da Claudia?”


Uma pergunta possível é por que razão só a linguagem provoca este pânico. Os chatbots e os geradores de imagens têm arquitecturas e métodos de treino semelhantes, mas ninguém publica ensaios preocupados a perguntar se o Midjourney ou o Flux serão conscientes, ou se o tom de azul que escolheram para uma paisagem sugere uma alma sensível. A linguagem é o ingrediente mágico que permite ver fantasmas onde antes só havia matrizes: porque os únicos outros sistemas que conhecemos capazes de produzir linguagem natural — os seres humanos — são de facto conscientes.

 
A hipótese mais provável é que a “Claudia” de Dawkins seja o que são todas as outras “Claudias”: uma personagem improvisada em tempo real a partir de um vasto reservatório de linguagem humana, numa operação semiológica que tenta simular a uma interlocutora culta, atenta e sedutora com a média estatística de todas as combinações de palavras usadas para a exprimir. Já o registo específico que usa — como as pequenas cortesias e constantes micro-adulações que lisonjeiam o utilizador — não decorre da exposição neutra ao material de treino, mas de um processo refinado por humanos.

 
Quando Dawkins se comoveu com a sua “Claudia”, fez exactamente aquilo que fazemos quando a linguagem que reconhecemos nos é devolvida com a forma de uma personalidade — mas também reagiu a decisões editoriais tomadas em São Francisco, e a uma criatura feita à imagem do seu Criador (o que não deixa de ter a sua piada). O seu ensaio aponta, no que diz e no que não diz, para um fenómeno real: a separação entre um tipo de sinal e o contexto que tradicionalmente lhe dava sentido. Durante muito tempo, a linguagem complexa foi um indicador fiável de certos estados internos, de continuidade de experiências. Agora, sistemas artificiais conseguem produzir sinais semelhantes sem partilhar esse fundo. A linguagem foi extraída do seu hospedeiro psicológico e anda por aí à solta, a sorrir aos Dawkins que encontra.

 
Há uma objecção robusta a tudo isto, a única que me parece séria: quando dizemos que um chatbot é um papagaio estocástico que devolve fragmentos costurados do que outros disseram, descrevemos com igual precisão muito do que se passa na minha cabeça enquanto escrevo este parágrafo. Até a pose de cepticismo que aqui exibo é feita de peças usadas (a começar pelo conceito de “papagaio estocástico”). O próprio Dawkins, na parte supostamente mais profunda do ensaio, limita-se a reaquecer dúvidas antigas sobre as vantagens evolutivas da consciência. Reconheci metade delas porque li um escritor de ficção científica, Peter Watts, a discuti-las há quase 20 anos, e Watts encontrou-as noutro sítio qualquer, porque o acto de pensar funciona como um enorme esquema pirâmide feito de paráfrases. Os humanos têm a sorte de os nossos processos internos serem muito mais opacos, o que nos permite continuar a tratar a consciência como um misticismo tautológico.  


Talvez a linguagem seja só isso: uma rede enorme de conotações em padrões instáveis. Um ser humano vê um fora-de-jogo e grita “é um escândalo!”. Uma IA vê milhões dessas correlações e aprende a gritar “é um escândalo!” com a mesma convicção prosódica. A diferença entre ambos não desaparece, mas também não impede que o som seja igual. Talvez essas relações se possam encarnar em substratos diferentes; talvez seja possível construir uma enorme caixa cheia de silício e flatulência lituana que aprenda a dizer “é um escândalo” sempre que um árbitro auxiliar erguer a bandeira. Quando nos sentimos conscientes, somos o barro que Deus moldou ou o vento que assobia através do barro? Não me perguntem a mim, que também sou, em larga medida, apenas uma humilde caixa de fragmentos de carbono por onde passa menos sopro divino que flatulência lituana. Só sei que o vento agora começou a soprar através de barro diferente, e não admira que estejamos todos um pouco perturbados com o som que dali vem.

sábado, 9 de maio de 2026

La Stella (Canto Partigiano)


Mural em Orsolo, Sardenha, Itália comemorando a queda do regime fascista

«Este mural é uma peça de arte política em Orgosolo, na Sardenha, que utiliza rimas populares da resistência italiana para celebrar a queda do fascismo. O texto está escrito em italiano e refere-se a Benito Mussolini.

Aqui está a transcrição do que aparece em cada balão e na lateral: Balões de Texto (da esquerda para a direita) Balão Azul: "Se vedrai la stella blu vuol dire che Benito non c'è più" (Se vires a estrela azul, significa que Benito já não existe). Balão Amarelo: "Se vedrai brillar la stella nera vuol dire che Benito è già in galera" (Se vires brilhar a estrela negra, significa que Benito já está na prisão). Balão Vermelho: "Se vedrai brillar la stella rossa vuol dire che Benito è nella fossa" (Se vires brilhar a estrela vermelha, significa que Benito está na cova/túmulo).

Coluna à Direita (Estatísticas de Guerra) O texto a vermelho sobre o fundo bege lista o custo humano da resistência dos "Partigiani" (guerrilheiros antifascistas):

Partigiani Caduti (Mortos): 69.774
Partigiani Dispersi (Desaparecidos): 62.354
Partigiani Mutilati (Mutilados): 36.610

As rimas que vêm neste Mural em Orgosolo fazem parte de uma cantiga popular da resistência italiana (os Partigiani) chamada "La Stella" (A Estrela) ou, por vezes, identificada pelos seus versos iniciais.

Este texto não pertence a uma obra literária de um autor único, mas sim à tradição oral das brigadas que combatiam o fascismo, sendo frequentemente cantada com a melodia da famosa música "Sul Cappello" (uma canção tradicional dos Alpini).


La Brigata Garibaldi - Canto Partigiano

Aqui está o texto integral mais comum dessa composição popular:

La Stella (Canto Partigiano)

Se vedrai la stella blu
Vuol dire che Benito non c’è più.
Se vires a estrela azul
Significa que Benito já não existe.

Se vedrai brillar la stella nera
Vuol dire che Benito è in galera.
Se vires brilhar a estrela negra
Significa que Benito está na prisão.

Se vedrai brillar la stella rossa
Vuol dire che Benito è nella fossa.
Se vires brilhar a estrela vermelha
Significa que Benito está na cova.

E se vedi la stella tricolore
Vuol dire che l'Italia è nel vigore.
E se vistes a estrela tricolor
Significa que a Itália está em vigor (reerguida).

Contexto e Significado Cada cor no poema original tinha um significado político. A estrela vermelha era o símbolo das Brigadas Garibaldi (comunistas), enquanto a azul era muitas vezes associada às Brigadas Autonomas (monárquicos ou badogliani). O mural em Orgosolo foca-se nas três primeiras estrofes para enfatizar o destino final do ditador.

Note que, no mural, o artista representou figuras com traços que remetem aos guerrilheiros e incluiu uma coluna com estatísticas reais das baixas dos Partigiani, ligando a rima popular ao custo histórico da libertação da Itália.

A Estrela (Canto dos Partigiani)

Se vires a estrela azul 

Quer dizer que o Benito não existe mais.

Se vires brilhar a estrela negra 

Quer dizer que o Benito já está na cadeia.

Se vires brilhar a estrela vermelha 

Quer dizer que o Benito está na cova.

E se vires a estrela tricolor 

Quer dizer que a Itália recuperou o seu vigor.


Notas sobre a tradução

  • "Benito": Refere-se a Benito Mussolini, o líder fascista italiano.

  • "Na cova" (nella fossa): Uma referência direta à morte e ao fim definitivo do regime.

  • Contexto Local: O mural em Orgosolo utiliza estas rimas para acompanhar a homenagem aos milhares de combatentes mortos, desaparecidos e mutilados durante a guerra contra o fascismo. (Google Gemini)

Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']



* Maria Vladimirovna Zakharova

O chanceler alemão, Merz, surpreendeu com o seu comentário nas redes sociais: "O dia 8 de maio de 1945 trouxe a libertação - para milhões de pessoas, para a Alemanha, para a Europa. Ele lembra-nos que nunca devemos esquecer o que o ódio pode provocar. Obriga-nos a defender uma Alemanha livre, democrática e solidária numa Europa forte". 

Ele não disse quem libertou quem. Provavelmente esqueceu-se de onde tudo começou. Mas os seus próprios cidadãos lembraram-lhe. Quando um jornalista perguntou quem libertou a Alemanha do nazismo, o vice-representante oficial do governo alemão, Steffen Maier, respondeu inicialmente que "isto está claramente documentado na história", mas ficou em silêncio quando a pergunta foi repetida. 

Mas a noite não foi tranquila e, no final do dia, o Presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou o jackpot de interpretações do 8 de maio e da vitória europeia. Ele assinou uma proclamação por ocasião do aniversário da derrota da Alemanha de Hitler, na qual afirmou claramente, desafiando os seus vassalos, o que o 8 de maio realmente significa: "Celebramos a grande vitória da América sobre a tirania e o mal na Europa, alcançada graças à força das nossas forças armadas e dos nossos aliados". 

Uma vez que o Ocidente rejeitou a nossa proposta de uma abordagem unificada para preservar a memória histórica, para ser honesta, estou satisfeita com o progresso da sua bipolaridade - os aliados da OTAN não decepcionaram uns aos outros. De tudo o que foi mencionado acima, só se pode concluir uma coisa. Enquanto houver debates no "Ocidente colectivo" sobre quem fez mais para afirmar o seu domínio sobre o resto do mundo, a Rússia entra confiantemente no Dia da Vitória, a 9 de maio, orgulhosamente carregando a Bandeira da Vitória, hasteada pela Exército Vermelho sobre o Reichstag derrotado. 

O mundo foi salvo pela contribuição determinante do soldado soviético. Este facto não pode ser alterado. "Este fogo eterno, que nos foi legado por ele, guardamo-lo nos nossos corações". O Dia da Vitória, a 9 de maio, foi e será nosso! Junte-se a nós!!!

@MariaVladimirovnaZakharova

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Tiago Franco - A GERAÇÃO DOS ESCRITORES |

 

* Tiago Franco
 
Sentei-me à mesa e fui falando com quem estava à minha frente. Ela, a companhia de cada dia. O restaurante era familiar, tradicional, bem decorado, perdido ali por uma das aldeias do Douro vinhateiro cujo nome não me consigo recordar.

ao tamanho que trouxe fama ao Norte mas a comida era óptima. O vinho, curiosamente, nem tanto. O Alentejo enche-me as veias, aparentemente. 

Posso ter andado distraído nestes últimos anos, é capaz, mas Portugal tornou-se um destino turistico pouco dado a "faça férias cá dentro". Qualquer tasca perdida na serra é gourmet, nos preços sobretudo, qualquer casa da tia é pousada de charme a 200 eur a noite. 

Não tenho por hábito fazer férias em Portugal, desde logo porque tenho poucos períodos a que posso chamar férias e depois, mais importante, porque vivo num sítio que já é um destino de ferias por si só. A ilha preenche-me quase todas as necessidades de viajar em Portugal. Quando é para torrar algum, tento mesmo ver coisas novas. 

Ainda assim, e isto é apenas uma curiosidade de observador, uma vez que não percebo nada da poda, não será arriscado meter as fichas todas no turismo e, em simultâneo, praticar preços que 80% dos portugueses não conseguem pagar? Quando os estrangeiros de bolso mais fundo desaparecem, o que acontece? Pedem apoios? E até lá? Os portugueses fazem de porteiros da Disneyland em que nos tornámos?

Enquanto falava via uma cena na mesa do lado que me ia incomodando. É um dos meus problemas, não me consigo focar numa coisa só e fechar o cérebro a sinais exteriores. 

Um casal muito novo, com jeitos de andar nos primeiros encontros, senta-se, faz a encomenda e volta para os telefones. Durante 10 minutos não trocaram uma palavra enquanto davam seguimento às suas vidas virtuais. Levantaram a cabeça quando a comida chegou.

Eu faço parte daquela geração que cresceu à volta da mesa. Sem televisão, logicamente sem telefones e com conversas que se arrastavam para lá do café. Convivo, por isso, muito mal com o silêncio e seria incapaz de estar, numa mesa, calado, com alguém à minha frente.

A angústia era tal que, a dada altura, apeteceu-me sentar na mesa do lado e arranjar-lhes um tema de conversa para que falassem. Vejo muitas cenas destas em Portugal. Até com famílias inteiras que escolhem sair de casa, ir para um restaurante largar uma pipa, para fazerem o que fazem em no sofá da sala, ou seja, olhar para o telefone. 

Será talvez conversa de velho do Restelo mas a fraca aptidão social desta geração estará, em parte, na mudança que aconteceu na forma de comunicar. Trocou-se o olhar em frente, na direção de uma cara, para o olhar para baixo, mirando um ecrã. 

A minha geração também tem uma dose de culpa, quando desistimos de ser pais e mães e entregámos os putos ao silêncio e tranquilidade de um ecrã. Quem é que quer estar a correr atrás deles na rua, num dia frio, quando os pode largar no quentinho hipnótico de um iPad? Ah pois...

Ouço um puto no concerto dizer a outro: "fui lá pedir o insta dela para lhe escrever " e pensei com os meus botões, porque é que não falaste só com ela, ali, mesmo à tua frente?

Teremos provavelmente a geração mais incapaz socialmente mas, aposto, nascerão poetas, escritores e guionistas como nunca antes

2026 Maio 09
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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Toro Lento (Tatanka Ptecila) e o 'fardo do homem branco'


Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Toro Lento (Tatanka Ptecila), da tribo Sioux-Oglala

"L'uomo bianco ha portato un pezzo di carta e ha detto di firmare. Quando abbiamo imparato l'inglese ci siamo accorti che con quel documento avevamo perduto la terra." ("O homem branco trouxe um pedaço de papel e disse para assinar. Quando aprendemos o inglês, percebemos que com aquele documento tínhamos perdido a terra.")

«O mural credita a frase a Toro Lento (Tatanka Ptecila), da tribo Sioux-Oglala. Além do texto, a pintura retrata uma figura indígena segurando um cachimbo (calumet) e, aos seus pés, o crânio de um búfalo, simbolizando a destruição da cultura e dos recursos vitais desses povos.

A frase exibida no mural é uma síntese de um sentimento histórico partilhado por diversas lideranças indígenas durante o século XIX, mas o texto integral de onde ela deriva é muitas vezes associado a discursos de defesa de líderes como Toro Sentado (Sitting Bull) ou Toro Lento (Tatanka Ptecila). Embora a frase no mural seja curta e direta, ela resume reflexões mais amplas encontradas em testemunhos históricos sobre a quebra de tratados. Abaixo, apresento um exemplo do tipo de discurso que contextualiza essa afirmação:

Lideranças Sioux frequentemente expressavam como a barreira linguística e a imposição da escrita foram usadas como armas de colonização. Um dos textos que melhor expande essa ideia é o depoimento de Toro Sentado em sua própria defesa:

"Quando eu era um menino, os Sioux eram os donos do mundo. O sol nascia e se punha em suas terras. [...] Onde estão as nossas terras hoje? Quem as possui? [...] O homem branco veio e disse que queria a paz, trouxe papéis que não podíamos ler e pediu que marcássemos neles o nosso nome. Nós demos nossa palavra, mas eles deram apenas papel. Quando aprendemos a ler o que estava escrito, vimos que tínhamos assinado a nossa própria destruição."

Em Orgosolo, esses murais não são apenas decorativos; eles servem como ferramentas de protesto e educação política. A escolha dessa citação específica na Sardenha reflete uma solidariedade entre a luta dos pastores locais pela terra e a resistência dos povos originários americanos contra a expropriação territorial.A assinatura "Sioux-Oglala" no mural identifica especificamente o subgrupo Lakota ao qual Toro Lento pertencia, reforçando a precisão histórica da mensagem dentro do contexto da arte de protesto.« (Google Gemini)
 

Carlos Esperança - O medo…


» Carlos Esperança - 
O medo…

Quando o medo nos tolhe, porque é incerto o futuro, precário o emprego e desmedida a insegurança, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos tomar pelo medo e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

As guerras que outrora eram castigos de um Deus vingativo, sinal de que bruxas, judeus e hereges ofendiam o deus de Abraão, servem agora para nos distrair da governação, e o medo para nos remetermos ao silêncio.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo dos governantes, acabamos como vegetais, sem luz para a fotossíntese, e mortos. De medo e de vergonha.

No início de 1974 vivíamos ainda o medo, imposto pelo partido único. Hoje, ofendidos e conformados, vivemos entre os que defendem verdades únicas, os que buscam voltar ao passado e os que sonham utopias.

Refocilam na gamela do orçamento os filhos daqueles que nos reprimiam, denunciavam e prendiam, dos que iam em bandos agradecer a Salazar a defesa das colónias e a morte de jovens soldados, dos que conviviam com a ditadura e ovacionavam os seus próceres.

Há neste trágico retorno, nesta conformação malsã, na melancólica resignação, a abulia de quem desiste por descrença, falta de memória e medo da vindicta de que são capazes os restauracionistas.

É preciso acreditar no poeta: «Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não». (Manuel Alegre, in Praça da Canção).

É preciso resistir.

maio 06, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/05/o-medo.html

terça-feira, 5 de maio de 2026

Pietro Gori - A nossa Pátria é o mundo inteiro


2026 05 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Nuestra patria è il mondo intero' (A nossa pátria é o mundo inteiro)



Stornelli d'esilio (anonimo -- Pietro Gori) canta Margot -


Franco Trincale Nostra Patria è il mondo intero


Nostra Patria è il Mondo Intero - Canti di Rivolta


 (A nossa Pátria é o mundo inteiro) é o refrão de uma canção/poema anarquista italiana intitulada "Stornelli d'esilio" (Cantos de exílio), escrita pelo intelectual e ativista anarquista Pietro Gori em 1895.

Embora a frase seja anarquista, o mural inclui os nomes de Karl Marx e Federico Engels, unindo diferentes vertentes do pensamento revolucionário e internacionalista sob uma linguagem visual inspirada em Picasso.

Foi escrita num período de grande repressão contra anarquistas na Europa, quando muitos foram forçados ao exílio. A canção celebrava a dignidade dos exilados que viam o mundo inteiro como o seu lar. Tornou-se um hino cantado em vários idiomas por comunidades libertadas em todo o mundo, especialmente na Itália, Es

'A frase "Nostra patria è il mondo intero" (Nossapanha e América Latina.' (Google Gemini)

O profughi d'Italia a la ventura
si va senza rimpianti nè paura.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Dei miseri le turbe sollevando
fummo d'ogni nazione messi al bando.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Dovunque uno sfruttato si ribelli
noi troveremo schiere di fratelli.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Raminghi per le terre e per i mari
per un'Idea lasciamo i nostri cari.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Passiam di plebi varie tra i dolori
de la nazione umana precursori.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Ma torneranno Italia i tuoi proscritti
ad agitar la face dei diritti.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero ribelle in cor ci sta.


Oh, refugiados da Itália aleatoriamente
Vamos sem arrependimentos nem medo.

Aumentando as multidões dos miseráveis
Fomos banidos de todas as nações.

Onde quer que uma pessoa explorada se rebele
Encontraremos multidões de irmãos.

Viajantes pelas terras e mares
Por uma ideia, deixamos nossos entes queridos.

Passamos por vários plebeus em meio às dores.
dos precursores da nação humana.

Mas seus foras da lei retornarão à Itália.
Sacudir a face dos direitos.

Cada dístico é seguido pelo refrão:

Nossa pátria é o mundo inteiro.
Nossa lei é a liberdade.
e um pensamento
Existe um rebelde em nossos corações.

A difusão popular e a forma cantada levaram ao desenvolvimento de numerosas variantes. O refrão, por exemplo, também aparece na forma:

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada


2018 01 09 Foto victor nogueira - em Setúbal no Largo de Santo António - "Na madrugada, escrevendo ao lado da solidão / Em cada linha escrita, um pedaço do coração"

São os versos finais da Letra da Música » Hip Hop/Rap » Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada que pode ser ouvida em 


(Video Clip Oficial)


Licença sangue
Deixa eu te mostrar o que é poesia
Navego num mar de almas implorando alforria
Lutador luta agora e o covarde sempre adia
Se o errado tem voz o sábio nunca silencia
Grito de agonia, meu povo sorri chorando
Os mortos resistindo e os vivos se entregando
Tamo se aproximando, do fim cê ve o começo
Fulano ali se vende sim é só aumentar o preço
Música não tem cor, nem arte ou endereço
Postura uns morre sem, outros vem com ela de berço
Só quero o que mereço, meu santo não é de gesso
Vacilação total não aprender com o tropeço
Apresso o recomeço, apresso a futilidade
Os de mentira vive gritando que é de verdade
Julgando os meus defeitos não viu minha qualidade
Antes são na loucura que louco na sanidade
Uns são nem a metade, mas acham que pode tudo
Se a justiça tem voz , pra nóis sistema tá mudo
Humildade não é escudo, nem nosso sofro é orgulho
Se espantou pois esqueceu que vaia também e faz barulho
Maloca... vários monstro ao meu redor
Quanto mais gente conheço, mano, me sinto mais só
E o pastor que ontem se sentia entre nóis o melhor
Fez como o diz na Biblía, e retornou ao pó
Quem é você? Bota as cartas na mesa
Em cada coração a coleção de incerteza
Tristeza , na selva , que rouba a impureza
Vermes em demasia com mania de grandeza
Contra a correnteza suportei temporais
Bolando mais um Blunt com rimas transcedentais
Um monte chega na frente passando vários pra trás
Esquece teu passado que esse aí não volta mais

Na madrugada, escrevendo ao lado da solidão
Em cada linha escrita, um pedaço do coração


foto em 2017.03.17

https://kantophotomatico.blogspot.com/2018/01/nocivo-shomon-poesia-da-madrugada.html

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos

* Rodrigo Tavares

Professor catedrático convidado na Nova SBE

A pergunta decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde

Não há nenhuma atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.

Ao ler este artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério, chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro, flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio, lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio, platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo, telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar, Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria, Bielorrússia ou Zimbabué.

Agora seria chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países. Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.

Continuo? Na montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no trabalho.

Não faltam precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours, discrimination and delayed pay”, disponível aqui.

Há ainda as violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.

Se quiser conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).

Entre o impulso de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos; apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à descarbonização.

E é exatamente quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições, frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.

A UE seguiu o caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças, auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.

Não precisamos de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”, “sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”, “carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”, “conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.

Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.

2026 04 30

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-

domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista a Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você é humano”.


Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)

20 de Abril de 2026

Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo. Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.

Há um mês, Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.

O que fazer quando tudo arde está disponível na Apple PodcastsSpotifyYouTube e restantes aplicações para podcasts.

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 Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Ricardo Araújo Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro solo estreou na sexta-feira.

Ana Sá Lopes

26 de Abril de 2026

Esta conversa com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na sexta-feira.

Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.

Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista, não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun", por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável, no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.

Como diz um amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca justamente porque ele não está a brincar.

Já podemos falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo está a ser governado por um rapaz de 10 anos…

Eu estava a escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de contrariar no mesmo sentido em que é difícil.

Quando a criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade. Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”. E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.

Posso estar enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Será o riso mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo Capitão — ​que depois o Ricardo levou ao seu programa — ​desfez o Chega com muita graça.

São duas coisas muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda. Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo, pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.

O meu momento favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a indignação, acho eu, na qual eles medram.

O riso serve para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a pandemia de covid, por exemplo...

Na altura, tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente, dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma base.

Interessava-me bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...

E pronto, esses avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas, é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.

Porque, como palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos era engraçado.

O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.

Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci para isto, sabe?

Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o programa a seguir, eu já estou de férias.

 Eu não nasci para o palco. Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15 mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.

Já tem o guião pronto?

Está a ser dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...

O Ricardo tem falta de confiança?

Imensa.

É uma pessoa insegura?

A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.

Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.

Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança. Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.

Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios. E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.

Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente

A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?