* Rodrigo Tavares
Professor
catedrático convidado na Nova SBE
A pergunta
decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde
Não há nenhuma
atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere
impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.
Ao ler este
artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem
alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério,
chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro,
flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio,
lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio,
platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo,
telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais
provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar,
Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria,
Bielorrússia ou Zimbabué.
Agora seria
chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para
a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países.
Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de
Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em
que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela
Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless
Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana
Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do
Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.
Continuo? Na
montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta
da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de
preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão
converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase
obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e
fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à
associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores
de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não
acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como
acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no
trabalho.
Não faltam
precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações
identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu
tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção
de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus
compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos
seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do
Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours,
discrimination and delayed pay”, disponível aqui.
Há ainda as
violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes
químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de
vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de
reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de
cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é
contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A
autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and
Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.
Se quiser
conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em
bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).
Entre o impulso
de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de
extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de
qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia
fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos;
apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o
cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à
descarbonização.
E é exatamente
quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições,
frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da
coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma
forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e
passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser
sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos
insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.
A UE seguiu o
caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as
atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um
labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores
financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças,
auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a
máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a
taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de
ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.
Não precisamos
de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”,
“sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”,
“carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”,
“conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto
positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas
papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos
produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem
da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.
Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.
2026 04 30
https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-





