sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Gorka Castillo - Espanha - Homem criado por lobos mais de uma década morreu aos 80

 

Marcos conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de deslumbramentoFoto D.R.

Marcos Rodríguez Pantoja foi adotado por uma alcateia em criança após a morte do pastor com quem vivia na serra Morena

Gorka Castillo em Madrid

Conhecido como “o menino-lobo da serra Morena”, Marcos Rodríguez Pantoja morreu no domingo aos 80 anos, deixando para trás uma das histórias mais extraordinárias, e dolorosas, da Espanha atual. Foi adotado por uma alcateia em criança e conviveu com os lobos, em completo isolamento da civilização, durante mais de uma década. A sua insólita biografia, marcada pelo abandono familiar, pela sobrevivência numa das zonas mais agrestes da Península Ibérica e pelas enormes dificuldades que teve para se reintegrar socialmente depois de ser encontrado por uma patrulha da Guarda Civil num lugar recôndito, tornou-o um chamariz para o estudo científico e protagonista de reportagens, de documentários e até de um filme.

Nascido a 7 de junho de 1946 na pequena aldeia cordovesa de Añora, chegou ao mundo em pleno pós-guerra espanhol e num ambiente de extrema pobreza. A mãe morreu no parto do oitavo filho e o pai voltou a casar-se com uma mulher que, segundo os testemunhos do próprio Marcos, o submetia a maus-tratos constantes. A parte mais dura da história começou quando, ainda criança, a família se mudou para uma aldeia de Ciudad Real para combater a fome e a penúria impostas pela ditadura. Foi ali que o pai decidiu vendê-lo a uns proprietários da serra Morena, que o enviaram para viver com um velho pastor de cabras numa gruta em plena montanha. Com aquele idoso aprendeu o imprescindível para subsistir em condições extremas: a fazer fogo, a reconhecer plantas, a cuidar de cabras, a procurar água e alimento.

Quando o pastor morreu, em 1954, Marcos ficou sozinho na montanha. “Um dia encontrei-me com umas crias de lobo e comecei a brincar com elas. Quando os adultos apareceram, em vez de me devorarem adotaram-me totalmente. Começaram a dar-me de comer porque eu ainda não era capaz de caçar. O que os meus pais não fizeram por mim fizeram os lobos”, disse num dos numerosos documentários que lhe foram dedicados ao longo dos anos.

Feliz entre lobos

Durante os anos de convivência com aqueles animais, aprendeu a comunicar-se através de sons, a deslocar-se de quatro e a alimentar-se como um predador, como um lobo. Em entrevistas posterio­res, assegurou ter-se sentido feliz naquele ambiente, talvez por não conhecer outro. “É fantástico que o Estado tenha decidido proteger a espécie. As caçadas que se organizavam eram aterradoras para as alcateias, além de injustas porque não eram para comer, mas por simples prazer. O problema não são os lobos, são os humanos. A mim os lobos nunca me fizeram nada, mas os humanos sim, fizeram-me mal”, respondeu quando questionado sobre a difícil convivência entre criadores de gado e grandes predadores.

“O que os meus pais não fizeram por mim fizeram os lobos”, disse Marcos Rodríguez Pantoja

Numa viagem a Segóvia, em 2002, teve a oportunidade de se reencontrar com uma alcateia. A reação dos animais aos seus sons foi instintiva e acabaram a brincar com ele, rebolando juntos na erva. “São animais selvagens e mordem. Eu ao princípio também mordia, quando encontrava pessoas que me tratavam mal e as via como ameaça. Por isso é preciso saber tratá-los. Só não te podes aproximar deles se houver uma fêmea com cio.”

O regresso forçado

Marcos foi encontrado em 1965 pela Guarda Civil em pleno monte. A captura foi complexa porque uivava, mordia e resistia a abandonar a montanha. Seguiu-se um processo de reintegração social extremamente longo e doloroso. Um sacerdote e umas freiras ensinaram-no a falar, a andar erguido, a vestir-se, a comer com talheres. Foi internado no Hospital de Convalescentes da Fundação Vallejo, em Madrid. Cumpriu o serviço militar, embora o desconhecimento das normas lhe causasse problemas. Sofreu enganos, burlas e abusos, e nunca chegou a compreender bem o funcionamento do dinheiro e das relações humanas. Mas todos concordam que “foi um homem honesto e leal”.

A sua história chamou a atenção do antropólogo Gabriel Janer Manila, que estudou o caso entre 1975 e 1976 e destacou nas conclusões a extraordinária inteligência natural que Marcos desenvolveu, uma habilidade que lhe permitiu sobreviver em condições que teriam sido letais para qualquer outra criança. Após anos de trabalhos precários e solidão, mudou-se para Ourense, na Galiza, em busca de um lugar onde viver com tranquilidade. Primeiro em Rante e depois em San Cibrao das Viñas, onde encontrou um ambiente que o tratou com respeito. Ali viveu numa pequena habitação cedida pelo município, rodeado de vizinhos que cuidavam dele sem paternalismos, conscientes de que por trás da fama havia um homem frágil, marcado por uma vida excecionalmente difícil.

O último refúgio

Em San Cibrao pôde, por fim, passear com calma, observar os animais como gostava e manter pequenas conversas com alguns vizinhos. Preferia falar de coisas mundanas, como a comida, o tempo ou as recordações da serra Morena. Quem lidou com ele diz que era afável e tímido, com dificuldade em entender algumas normas sociais e uma memória seletiva: recordava com clareza os sons, os odores e as cenas da montanha, mas esquecia com facilidade as horas, os números de telefone ou os nomes das ruas. A autarquia e os serviços sociais protegeram-no na sua extrema vulnerabilidade, mas o que realmente marcou a etapa em Ourense foi a rede humana que se criou à sua volta. Os vizinhos convidavam-no para comer, acompanhavam-no ao médico quando precisava, visitavam-no quase diariamente para se certificarem de que não lhe faltava nada.

Marcos conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de deslumbramento. Aprendeu a ler e a escrever num centro de educação para adultos e serviu de base a um projeto multidisciplinar da sua turma: o departamento de Francês compôs uma canção em seu nome, o de Ciências um herbário com as flores da serra Morena, o de Filosofia um estudo antropológico, o de Inglês uma banda desenhada e o de História um mapa dos lugares por onde andou com os lobos. “Estávamos orgulhosos do Marcos e muito unidos a ele”, afirma María Miguélez, a professora que o encorajou a tornar-se um bom estudante. Nos últimos anos, participou em palestras e encontros para contar a sua história com uma mistura de ingenuidade e tristeza, consciente de que a sua vida tinha sido extraordinária, mas também dolorosa.

Dizem hoje os habitantes de San Cibrao que se vão sentir muito sós sem ele. Pelo sim, pelo não, os que o conheceram olharam na segunda-feira para o céu. Para o caso de verem Marcos Rodríguez Pantoja fazer-lhes um piscar de olhos de lobo a partir da Via Láctea. Porque nas noites da Galiza gostava de se deitar junto a um velho carvalho e olhar para o céu. Talvez isso lhes sirva de consolo face à perda do seu mais ilustre vizinho.

 Expresso 2026 Agosto 1

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

NEPE - Debate 'Pensar a Esquerda'



Pedro Nuno e João Ferreira trocam culpas na "pior fase das esquerdas": há caminho comum, mas “há somas que não são de somar”

Pedro Nuno Santos, Isabel Mendes Lopes, João Ferreira e Andreia Galvão participaram em debate que fez autópsia à situação da esquerda, com trocas de culpas entre antigos parceiros na habitação e sobre Lisboa

Cláudia Monarca Almeida (Jornalista)

O debate foi “em família”, mas como em todas as famílias teve os seus arrufos, sobretudo entre os antigos parceiros da “geringonça”. Da habitação aos “constrangimentos” provocados pela União Europeia e à “luta desigual” com os algoritmos, Pedro Nuno Santos (PS), Isabel Mendes Lopes (Livre), João Ferreira (PCP) e Andreia Galvão (BE) estiveram esta quarta-feira na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa para “Pensar a Esquerda” e debater o presente e o futuro de um campo político em “crise profunda”.


terça-feira, 20 de outubro de 2026

José Pacheco Pereira - O VERBO DO ÓDIO

 * José Pacheco Pereira

A melhor maneira de perceber o modo como pensam (embora chamar pensar seja um exagero) os homens e mulheres que hoje empurram a extrema-direita em Portugal são as redes sociais e os comentários não moderados. Respondo já a quem diz que o mesmo se passa do outro lado do espectro político – não é verdade, porque há uma enorme diferença de proporção. Há, de facto, mecanismos se afiguram parecidos, insultos, argumentos ad hominem, agressividade verbal, mas, para cada 100 de extrema-direita, há um da extrema-esquerda, e isso permite caracterizar este fenómeno como sendo um revelador significativo do populismo radical da direita.

José Pacheco Pereira - Os cristãos cruéis

*  José Pacheco Pereira

 «As pessoas deviam ler o programa do Chega. É um documento bem elaborado, consistente entre os seus diversos pontos, e traduz a prática do partido. Ele assenta, nos seus pontos programáticos essenciais, na ideia da “auto-responsabilidade”, uma ideia que tem origem no liberalismo económico, associada a uma interpretação cristã pós-reforma, muito comum nas igrejas evangélicas.

O primeiro ponto do programa, intitulado “primado da moral”, é histórica e ideologicamente falso. Não há nenhuma “tradição civilizacional portuguesa” que pressuponha “que o primado moral da auto-responsabilidade antecede e determina tudo o resto na condição humana”. Nem há, “no campo religioso, a auto-responsabilidade deriva da matriz milenar judaico-cristã e, no campo intelectual, deriva da matriz milenar greco-romana”. Bem pelo contrário.

No segundo ponto, o sujeito é o Chega e, por isso, a declaração programática da “legitimidade moral” da sua posição apenas ao partido responsabiliza. E a frase é mais clarificadora do modo como a direita radical populista vê a sua função.

José Pacheco Pereira - A destruição da Assembleia da República

 "O grau de degradação actual da Assembleia vai ser muito difícil de emendar enquanto o Chega tiver a significativa representação parlamentar que tem. Um dia, vai conseguir arranjar uma cena de confronto físico, dando mais um passo na destruição da instituição parlamentar", escreve José Pacheco Pereira na SÁBADO

* José Pacheco Pereira 

Na Assembleia da República, a táctica do Chega é fazer intervenções provocatórias muitas vezes insultuosas, para gerar incidentes e, depois, armar-se ou de valentão ou de vítima.

Como o Chega não reconhece como válidas as instituições da República (que alguns designam como III República), que considera parte do “sistema”, ou seja da democracia “abrilista”, a sua destruição é um elemento do programa não escrito do partido. Uma das instituições que mais tem sido atingida é a Assembleia da República. As cenas da semana passada são um exemplo desse processo, que se tem repetido vezes de mais com a complacência do Presidente.

Maria J. Paixão - Sobre a violência e a esquerda

* Maria J. Paixão

19 de outubro 2026 -  

Rita Matias quis fazer crer que a forma violenta da intervenção nos espaços da AAC foi um meio para alcançar o fim nobre de defender a liberdade de expressão e a democracia. A verdade é que a invasão foi fim em si mesma: uma demonstração de força perpetrada pelos fortes sobre os mais fracos.

A invasão da sede da Associação Académica de Coimbra e, em particular, dos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra por militantes do Chega foi mais um episódio circense como tantos outros a que o partido já nos foi habituando. Sendo evidente que assistimos a uma manobra de diversão, destinada a obscurecer o conluio do partido de Ventura com o governo a respeito da alteração da lei do arrendamento, a justificação apresentada e algumas reações à esquerda merecem reflexão mais aprofundada.

No rescaldo do incidente, Rita Matias e os seus seguidores repetiram ad nauseum duas linhas argumentativas. Por um lado, numa estratégia que já têm bem oleada, procuraram arregimentar para o seu campo a liberdade de expressão e a democracia, condenando as condições diferenciadas de debate que lhes haviam sido propostas pela RUC. Por outro lado, fazendo uso da sua também já habitual técnica de dizer tudo e o seu contrário, recusaram a acusação de “invasão”, invocando o convite para participação remota no debate, e ensaiaram surpresa face às reações da esquerda, apontando-lhe o apoio a formas de protesto que envolvem a ocupação de edifícios.

Ora, o fio condutor que une todos estes argumentos é a racionalidade instrumental que lhes subjaz: para o projeto político do Chega, a liberdade de expressão, a democracia e o protesto são simples meios – instrumentos a preservar enquanto e na medida em que continuarem a ser úteis para alcançar os seus fins. Só assim pode o partido cujo líder surge sistematicamente nos lugares cimeiros dos indicadores sobre exposição mediática (muitas vezes à frente do Presidente da República e até do Primeiro-Ministro) reclamar de “cancelamento” e invadir os espaços de uma associação estudantil em nome da liberdade de expressão.

Acontece que esta perspetiva instrumental dos valores fundamentais da ordem democrática não é uma excecionalidade do Chega, antes sendo a visão hegemónica, partilhada (e, porventura, produzida) pelos partidos do centro. Assim se compreende que a democracia tenha sido resumida ao ato eleitoral – um meio para selecionar representantes, e não um fim em si mesma. E assim se compreende também o impulso quase universal para reagir a episódios como o da invasão dos estúdios da RUC com censuras à violência, contrapondo-lhe o debate e o pluralismo de ideias. Esta tem sido, aliás, a cartilha do centrão político, no qual coabitam os “moderados” das mais diversas persuasões. Foi nessa linha a reação às invasões do Capitólio de 6 de janeiro de 2021 e do Planalto de 8 de janeiro de 2023, bem como a reação aos ataques a Donald Trump e à morte de Charlie Kirk.

A ideia pinacular da moderação política dos nossos dias é a de que se “condena todas as formas de violência”. A violênca, dizem-nos, é o meio errado para prosseguir quaisquer fins, por muito justos que sejam. Esta é, todavia, uma mundivisão, não só alicerçada numa série de falsas equivalências, como crescentemente incapaz de defender a democracia (material, e não meramente formal) perante os avanços da extrema-direita.

Comecemos por recordar que rejeitar “todas as formas de violência” implica, sobretudo à esquerda, negar o legado do abolicionismo esclavagista, do republicanismo, das lutas anticoloniais, do antifascismo, entre tantos outros movimentos contestatários que nos abriram o caminho. Depois, o próprio conceito de “violência política” deve ser desmascarado como o artifício que é: a adjetivação da violência pretende transformá-la num fenómeno excecional, por isso condenável, obscurecendo a violência quotidiana com que a maioria se depara todos os dias. Condenar a “grande violência”, independentemente do contexto e dos atores, é o exercício de performance moralizante favorito daqueles que perpetram a “pequena violência” do dia-a-dia. Continuam a precisar que Brecht lhes recorde que, enqnto “condenam” o rio que tudo arrasta, esquecem-se das margens que o comprimem violentamente.

A connação da violência em abstrato é, portanto, produto da exata mesma lógica instrumental que vê na democracia e nas liberdades cívicas meros meios para alcançar outros fins. Foi a fórmula encontrada pelo extremo-centro para se cobrir de superioridade moral enquanto encaminhava a nossa vida coletiva para o abismo do capitalismo tardio. Mas se assim é, fica a questão de saber se, porquê e como deve a esquerda opor-se ao tipo de ação política levada a cabo pelo Chega na sede da AAC. Em respeito pela reflexão que nos é exigida, temos de conceder que há uma parcial verdade na argumentação apresentada: historicamente, a ocupação e a resistência aos poderes instituídos têm sido patrimónios da esquerda. E terá sido, porventura, o seu abandono, mais ou menos consciente, em nome da “tolerância” e do “pluralismo” abstratos, que abriu caminho à cavalgada da extrema-direita.

A invasão das instalações da RUC é condenável, não porque a democracia privilegia sempre o “debate de ideias” em detrimento da ameaça da força, nem tão-pouco porque a ocupação e a interrupção das atividades regulares de um programa informativo são necessariamente meios condenáveis de protesto, mas porque se trata de uma tática de intimidação exercida no quadro de uma relação desigual por quem defende valores antidemocráticos – afinal, falamos do partido que tem a segunda maior bancada parlamentar na Assembleia da República a intimidar uma rádio universitária independente. Rita Matias quis fazer crer que a forma violenta da intervenção nos espaços da AAC foi um meio para alcançar o fim nobre de defender a liberdade de expressão e a democracia. A verdade, todavia, é que a invasão foi fim em si mesma: uma demonstração de força perpetrada pelos fortes sobre os mais fracos. O problema não é o meio, é o fim.

Tal visão é a única compatível com uma interpretação material da democracia e da própria liberdade de expressão. Se democracia não for perspetivada apenas como processo, mas antes como sistema político orientado para a emancipação, cujo objetivo é garantir a todos a participação na construção da vida coletiva, então ser-lhe-á antagónico qualquer projeto político alicerçado na exclusão e na opressão – tanto quando esse projeto vem embalado em respeitabilidade institucional, como quando rompe com essa respeitabilidade.

Censurar a invasão executada pelo Chega a partir de uma condenação genérica da violência, como se viu em vários quadrantes da esquerda liberal, é, por isso, uma armadilha a dois tempos. Primeiro, arrasta essa mesma esquerda liberal para becos sem saída quanto à sua relação com formas legítimas de protesto democrático mais ou menos violento – das ruas francesas até às acampadas espanholas e portuguesa. Segundo, esse apegamento infindável à ordem e à moderação afastam-na cada vez mais de uma base popular legitimamente zangada e descrente na democracia liberal formal.

A uma esquera socialista, por oposição, é exigível que consiga ver para além da “ordem pública” e do “respeitinho”, combatendo a narrativa instrumental da democracia e das liberdades cívicas e a associada condenação de “todas as formas de violência”. Em tempos de acendimento da convulsão social, combatemos a extrema-direita, não discutindo os meios, mas recentrando a luta política nos fins. 

Maria J. Paixão

Professora universitária. Deputada municipal do Bloco em Coimbra.

https://www.esquerda.net/opiniao/sobre-violencia-e-esquerda/99264

sábado, 17 de outubro de 2026

São José Almeida - Pedro Passos Coelho, a tentativa de golpe interno e o fim do PSD

* São José Almeida

A entrevista feita por Maria João Avillez ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, na SIC Notícias, no domingo passado, não me surpreendeu. Na minha opinião, foi até um momento político confrangedor. Com a convicção com que sempre defende as suas posições, Pedro Passos Coelho deu um passo em frente na possibilidade de se voltar a candidatar à liderança do PSD. Um comportamento que, associado às críticas que teceu ao actual primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, surgiu como um abrir de portas a uma tentativa de golpe de Estado interno no PSD.

Numa surpreendente declaração sobre a sua vontade de voltar ao poder executivo, Pedro Passos Coelho tentou defenestrar o actual chefe do Governo: “Se eu tivesse de equacionar uma possibilidade dessas, isso teria de corresponder a uma situação em que o PSD visivelmente não tivesse a possibilidade de entregar um resultado satisfatório face àquilo que o país precisa e de eu achar que eu o poderia fazer. E, se isso vier a acontecer, eu ponderarei e tomarei uma iniciativa, se for caso disso.”

E, voltando a defender que o PSD devia, logo no início da legislatura, ter feito um acordo com o Chega e a Iniciativa Liberal, Pedro Passos Coelho teceu elogios ao líder de direita radical populista André Ventura e considerou-o um político de “bastante mérito”, com “poder de iniciativa notável”, que foi capaz de construir um partido com o peso eleitoral do Chega.

Logo na noite de segunda-feira, num jantar do PSD, para comemorar um ano da conquista do município do Porto, Luís Montenegro tratou de responder. Sem nunca referir o nome de Pedro Passos Coelho, não deixou de afirmar que aqueles que desejam o seu “insucesso político” terão de “esperar sentados”.

Na mesma segunda-feira, também o líder do Chega, André Ventura, respondeu a Pedro Passos Coelho, em termos que são até humilhantes para o antigo primeiro-ministro. Tratou de afirmar que, logo a seguir às últimas legislativas, tinha proposto ao PSD um acordo à direita, para que fossem criadas “condições de unidade para fazer reformas na área da saúde, da segurança, da agricultura, da justiça”, acrescentando: “Mas, francamente, esse tempo já passou. Os protagonistas do PSD, na altura, entenderam que isso não devia ser feito, nós respeitámos, e a vida continua. Portanto, eu acho que essa crítica, que é justa, não é certamente para o Chega; o Chega esteve disponível para construir essa maioria, que, depois, por decisões de líderes do PSD e não do Chega, acabou por não se construir.”

E, baseando-se nos estudos de opinião que colocam o Chega à frente do PSD, André Ventura considerou que “não faz muito sentido agora estar a falar de um governo liderado por Montenegro nestas condições, com o Chega como parceiro”. Para inverter a proposta de Pedro Passos Coelho e afirmar que o Chega tem de “liderar as alternativas à governação” e concluir: “Eu tenho de construir essa alternativa à governação, porque, quando governar, e eu espero que isso aconteça, eu quero ter um governo maioritário, quero ter um governo com condições de governar, e quero poder fazer reformas.” Seguindo a lógica do líder do Chega, será que Pedro Passos Coelho aceitaria ser vice-primeiro-ministro de André Ventura?

Já a 8 de Novembro 2025, neste espaço de opinião, questionei as reais possibilidades e o espaço político que Pedro Passos Coelho tem para voltar a liderar o PSD e tentar ser primeiro-ministro. Não só pela forma como a memória da sua anterior governação provoca reacções e unifica à esquerda, mas também porque o PSD não é o PSD de há uma década. O país mudou e o PSD também mudou. Tem novas gerações de dirigentes, de militantes e de eleitores. Como então escrevi, há um vasto grupo de comentadores políticos que alimentam, em relação a Pedro Passos Coelho, um fenómeno de sebastianismo. O que eu não esperava é que a sede de poder e de protagonismo de Pedro Passos Coelho ficasse tão ávida que o levassem a dar o passo que deu, no sentido de abater Luís Montenegro, como líder do PSD e primeiro-ministro.

Continuo, contudo, a pensar que o tempo de Pedro Passos Coelho passou. Mais. Duvido que tenha sucesso eleitoral se regressar à liderança do PSD, para assumir uma aliança de poder com o Chega. Os níveis de votação com que António José Seguro foi eleito Presidente da República mostram a rejeição que André Ventura provoca no eleitorado. E tudo indica que, se tal aliança política vier a existir, o ideário político do PSD será adulterado e será desviado para um programa político ainda mais neoliberal do que o do actual Governo. Seria, provavelmente, ultraliberal, extremista, populista de direita radical. Até porque Pedro Passos Coelho abriu a porta a esse extremismo, quando era primeiro-ministro, e tem pressionado Luís Montenegro, criticando-o por não fazer reformas.

É certo que Pedro Passos Coelho exige reformas, mas não explicou ainda o que são essas suas reformas, no concreto. Só nesta entrevista a Maria João Avillez, na SIC Notícias, deixou um indicador claro do que pensa sobre o que deve ser feito para resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), ao afirmar que “o Estado já não tem autoridade para reabilitar o Serviço Nacional de Saúde, como ele precisava de ser reabilitado”. Só não concluiu a ideia, assumindo a defesa da entrega da gestão do SNS aos grupos privados de saúde, mas esta ideia ficou implícita. Isto quando o SNS já está a financiar os grupos privados de saúde, com a externalização de serviços de saúde. Até já há centros de saúde que são geridos pelo sector privado.

Um regresso de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD e a eventual aliança política de governação com o Chega podem até vir a acontecer, mas isso significará o fim do PSD, que ajudou a construir a democracia portuguesa.

P]ublico 2026 10 17

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Hugo Dionísio - A inteligência artificial que (não) queremos!

 
* Hugo Dionísio

As opiniões dividem-se profundamente sobre o que será o trabalho sob o domínio da Inteligência Artificial. Entre os que dizem que não sobrará trabalho algum e os que dizem o contrário, temos opinião para todos os gostos. Será que a legislação existente está adaptada? Será que o trabalho «tradicional» é compatível com a Inteligência Artificial?

Ora, é opinião consolidada que o modelo de trabalho mais paradigmático nesta matéria será o das «plataformas informáticas». Consequentemente, sabendo que assistimos à expansão deste modelo para a restante actividade económica, talvez seja avisado começarmos, precisamente, por aqui e tomarmos como exemplo a prática, supostamente excepcional, já entre nós instalada.  

Até ver, não nos é difícil constatar que, quanto mais avançado o uso da inteligência artificial, maior a desumanização da relação estabelecida entre «plataforma» e trabalhador. «Plataforma», porque não se conhece o empregador. Nesta relação, o trabalhador apenas conhece acessos, contas, tarefas, preços, rankings, metas, tudo emaranhado num processo cujas variáveis são unilateralmente fixadas e mutáveis, desprovido de interacção humana.

Para já, o paradigma do trabalho entre Inteligência Artificial e hum

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Daniel Oliveira - A barbárie de novo, agora em direto

* Daniel Oliveira

Após a execução falhada de Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam a ser o farol da barbárie

Sónia Sapage - Uma execução em directo é um retrocesso civilizacional

 * Sónia Sapage

“Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreve o republicano Austin Scott nas redes sociais. “A América é melhor do que isso.”

Há uma semana, o Pentágono anunciou que irá transmitir em directo (streaming), no dia 3 de Dezembro, às 13h, a execução por fuzilamento de um militar condenado a pena de morte pelo massacre de Fort Hood, no Texas, do qual resultaram 13 mortos e 32 feridos, em 2009.

Nidal Malik Hasan, major e psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, especialista em stress pós-traumático, tinha 39 anos quando concretizou o ataque. Durante o julgamento, declarou-se culpado e assumiu a sua adesão aos ideais da jihad (guerra santa). “Eu estava no lado errado, mas mudei de campo”, justificou.

Hygo Dionísio - Da plataforma à plataformização do real



* Hugo Dionísio, 
in Denorteasul.eu., 08/10/2026


Um espectro ronda o mundo – o espectro da “Inteligência Artificial”

Um espectro tomou o mundo civilizado. Pretensamente civilizado, digo eu! Pouco a pouco, esse espectro foi-se instalando nos telemóveis, computadores e tablets, não necessariamente por essa ordem. De forma gradual fomos absorvidos como parte de um mundo onde tudo é medido, parametrizado, vigiado, programado, reprogramado, num ciclo interminável de aperfeiçoamento que visa tornar-te cada vez mais parte de um todo que te é mentalmente inalcançável ou escrutinável. A desigualdade de circunstâncias constitui a pedra angular que sustenta o sistema que o promove. Esse espectro é o que convencionámos designar de «Inteligência Artificial».

Sob uma capa de personalização, segurança e protecção da privacidade, o espectro aprimora continuamente os seus instrumentos, fornecendo-nos precisamente o contrário: despersonalização, precariedade e supervigilância. Ninguém o elegeu, negociou a sua velocidade e extensão de implantação. Chegou aclamado por quem o declarou como disruptor e aterrador. Contudo, não obstante o carácter destrutivo com que o apresentam, também o assumem como inevitável.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Carlos Dias - Vereador do PS de Beja critica mural alusivo a Catarina Eufémia


O mural dedicado a Catarina Eufémia Ana Rodrigues

 Vereador do PS de Beja critica mural alusivo a Catarina Eufémia porque diz que os tempos mudaram

* Carlos Dias

Autarca alega que o país vive um tempo diferente daquele em que a ceifeira de Baleizão foi assassinada. “Já não há tenentes Carrajolas a disparar impunemente sobre manifestantes.”

Paulo Arsénio foi categórico na reunião do executivo municipal de 23 de Setembro: “Se fôssemos nós (socialistas) a decidir, não autorizaríamos o mural a Catarina Eufémia, digo-o de uma forma muito clara, muito directa e muito objectiva.”

E para justificar o seu posicionamento disse que o país “vive, felizmente, um tempo muito diferente do que se vivia em 1954”, quando Catarina Eufémia foi assassinada em Baleizão no decorrer de uma manifestação por melhores salários para quem trabalhava na ceifa das searas de trigo.

Como tal, mesmo que o propósito expresso na pintura do mural seja o enaltecimento “da luta das mulheres alentejanas pela emancipação, igualdade de oportunidades, salariais e outras, não nos parece que tenha sido de facto o mais adequado nesta altura e em Beja”, sentencia o autarca socialista, convicto de que “já não há tenentes Carrajolas a disparar impunemente sobre manifestantes”.

Em síntese, considera que o mural com a imagem de Catarina “não é o gesto mais adequado para reflectir toda essa luta das mulheres alentejanas e das mulheres do país em 2026”, contrasta Paulo Arsénio, com um reparo: por detrás da pintura “há uma opção ideológica demasiado forte e desadequada aos nossos tempos”, interpretando a iniciativa como um precedente que pode vir a incentivar num futuro próximo a pintura na fachada da biblioteca de Beja de um “mural dedicado a Karl Marx” ou no edifício da câmara municipal “o desenho de Lenine”.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Pedro Candeias - O ChatGPT devia ser banido das escolas?

 * Pedro Candeias

É inevitável que o uso de IA seja discutido brevemente, porque as sociedades estão mais sensibilizadas para o tema, mais bem preparadas para o discutir – e porque há uma desconfiança generalizada.

O trabalho de Jonathan Haidt influenciou decisivamente o debate que se gerou à volta do uso desregulado do smartphone, sobretudo entre os mais jovens, argumentando que a exposição prolongada a estas tecnologias tinha criado A Geração Ansiosa.

No livro seminal sobre o tema, o psicólogo norte-americano traçou causalidades entre o crescente consumo do TikTok ou do Instagram e o aumento de casos de depressão, isolamento e ansiedade, e defendeu que as crianças e os adolescentes não deveriam ter acesso a nenhuma destas plataformas.

Agora, Haidt volta-se para a Inteligência Artificial (IA) e alerta para os riscos que as crianças podem correr se abusarem nas interacções com os modelos OpenAI, Google ou Anthropic. Citemos alguns: a 'natureza' hiper-responsiva da IA, que está programada para agradar, cria vínculos emocionais artificiais capazes de rivalizar com as relações familiares; a externalização do trabalho intelectual, que atrofia o pensamento crítico; e a falha sistemática das tecnológicas em cumprir os protocolos de segurança que haviam prometido.

Por isso, propõe que a IA seja banida das escolas até ao secundário, que os chatbots para menores funcionem apenas como ferramentas de pesquisa e com perguntas limitadas, e que as empresas sejam juridicamente responsáveis por garantir a segurança.

Ora, tal como aconteceu no caso das redes sociais, é inevitável que o uso dos modelos de linguagem seja discutido brevemente, porque as sociedades estão mais sensibilizadas para o tema, mais bem preparadas para o discutir – e porque há uma desconfiança generalizada sobre a IA. Sim, é verdade que uma conversa com o chatbot pode tornar-se tão viciante como um scroll no Instagram; e sim, é verdade que a máquina, ao reduzir o atrito ao máximo, responde a perguntas feitas até no português mais deficitário.

Mas a tentação de proibir por proibir ignora a realidade: a IA vai revolucionar o mercado de trabalho. Uma proibição por decreto nas escolas públicas, por exemplo, não iria impedir o uso pelos mais novos e criaria uma nova linha de fractura social. Enquanto as famílias com maiores recursos poderiam continuar a fornecer aos seus filhos os modelos mais recentes, que aprenderiam a dominar, os estudantes desfavorecidos seriam duplamente penalizados. Se há uma virtude na IA, é a possibilidade de democratizar e universalizar o acesso ao conhecimento complexo e a ferramentas tecnológicas.

Uma democracia não ergue muros, mesmo os digitais, e deve garantir que todos partem de uma mesma base para enfrentar o futuro.

PÚblico 2026 Outubro 06

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

(105) Hoàng Hà - O País Repleto de Alegria (Đất nước trọn niềm vui)


O maior muro de flores do Vietnã: quando os muros contam histórias  

Este mural vietnamita celebra a libertação do Vietbame. Na parte inferior da composição, destaca-se em letras douradas em relevo a frase: «Đất nước trọn niềm vui» (que significa em português "O país em plena alegria" ou "País de alegria total"), inspirada no célebre título da canção patriótica homônima do compositor Hoàng Hà que celebra a reunificação do Vietname

A canção "Đất nước trọn niềm vui" (O país em plena alegria), composta por Hoàng Hà, é uma das obras musicais mais emblemáticas e comemorativas da história do Vietname. Escrita e estreada na rádio nacional logo após o anúncio da queda de Saigão a 30 de abril de 1975, a música captura a imensa euforia, o alívio e a alegria transbordante da reunificação do país após décadas de guerra.


ĐẤT NƯỚC TRỌN NIỀM VUI - NSND Trung Kiên

Temas centrais da letra:

  • A celebração da vitória e da paz: O texto descreve as ruas repletas de bandeiras com estrelas douradas, as multidões em marcha e a emoção do reencontro e da libertação de Saigão.

  • A memória e o legado: Evoca a figura inspiradora do Presidente Hồ Chí Minh e a resiliência indómita do povo vietnamita face à destruição causada pelos conflitos.

  • O orgulho nacional: Exalta a soberania recuperada e a beleza de uma pátria unificada. (Gemini)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

(104) - Malcolm X e Yuri Kochiyama (citações)

 

 ' De Harlem com Amor - Um Projeto de Mural para Yuri e Malcolm'', situa-se em Nova Iorque, homenageando também às lutas contra o racismo, colonialismo, violência e drespectivamente de uma de Malcom X  (o histórico líder e orador dos direitos civis dos afro-americanos.e de  Yuri Kochiyama (a ativista nipo-americana de direitos civis e direitos humanos). Destes são nele reproduzidas citações dos homenageados.

Citação de Malcolm X (no lado direito): « A única maneira de conseguirmos a liberdade para nós mesmos é nos identificarmos com todos os povos oprimidos do mundo » (A única maneira de conseguirmos a liberdade para nós próprios é identificarmo-nos com todos os povos oprimidos do mundo).

Frase de Yuri Kochiyama (no lado esquerdo): «Keep expanding your horizon, decolonize your mind, and cross borders» (Continuem a expandir os vossos horizontes, descolonizem a vossa mente e cruzem fronteiras).

Pedro Tadeu - O futebol profissional é um veneno?

P Pedro Tadeu, 
in Diário de Notícias, 02/10/2026


Ofutebol profissional fornece às televisões e às redes sociais uma sucessão interminável de conflitos, declarações, especulações e insultos. Tudo muito apaixonante, hipocritamente comercial e quase sempre irrelevante para as nossas vidas. A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da seleção nacional confirma isso. 

O futebol profissional exalta o culto da vedeta. A celebração dos milhões ganhos pelos grandes futebolistas normaliza a aceitação de desigualdades extraordinárias e desproporcionadas. A notícia da Forbes que estima que Ronaldo ganhou 300 milhões de dólares, só no último ano, confirma isso. 

O futebol profissional ajuda a criar uma horda de milhões de viciados em apostas. Um relatório da Organização Mundial de Saúde, que associa esta questão a endividamento, pobreza e problemas familiares, confirma isso. 

Em Portugal, no segundo trimestre de 2026, o futebol representou 69,9% do volume das apostas desportivas online que geraram 125,1 milhões de euros de receita bruta para os seus donos.  

O futebol profissional é aproveitado por fascistas e traficantes. O facto de em 20 de janeiro de 2026 a operação Irmandade ter detido 37 suspeitos ligados aos nazis do Grupo 1143, que tem antecedentes numa fação da Juventude Leonina, por suspeitas de crimes de ódio e violência, confirma, mais uma vez, isso. Os problemas com racismo, violência organizada e tráfico de droga, que se repetem em quase todos os jogos e em todo o mundo, comprovam também essa infiltração. 

O futebol profissional é cada vez mais para ricos ou especuladores e menos para pobres ou remediados; é mais para criminosos do que para gente honrada. As negociatas deste mundo à parte ilustram isso. 

Em abril de 2026 a FIFA colocou à venda bilhetes da categoria mais cara para a final do Mundial a 10.990 dólares. As assinaturas para ver futebol na TV atingem valores cada vez mais elevados. Os bilhetes para jogos importantes também. 

Um relatório da UEFA revela que os clubes ingleses, os mais ricos do mundo, estiveram envolvidos em 52% do valor mundial das transferências deste verão. 

Segundo a FIFA, entre janeiro e o início de dezembro de 2025 os clubes pagaram 1,37 mil milhões de dólares a agentes, mais de 90% acima do ano anterior.   

Há dias uma comissão independente considerou o Manchester City responsável por graves violações financeiras (o clube recorreu), incluindo contratos fictícios que alteraram receitas e custos em mais de 900 milhões de libras.  

Em 9 de dezembro de 2025 a polícia argentina fez buscas na federação e em vários clubes numa investigação relacionada com a Sur Finanzas, suspeita de branqueamento e evasão fiscal. 

Em junho passado uma operação conjunta da polícia e da comissão anticorrupção de Hong Kong deteve 19 pessoas, incluindo treinadores e jogadores, por suspeitas relacionadas com apostas ilegais e suborno para manipular partidas locais. 

Em 2023, na operação El Dourado, feita numa academia de futebol para miúdos em Famalicão, a polícia encontrou 47 alegadas vítimas de tráfico de pessoas, incluindo 36 menores a quem tiraram os documentos de identificação. 

O futebol até já deu um prémio da paz a Donald Trump! E revelou-nos a retórica brutal de André Ventura. 

Tanta coisa que, todos os dias, confirma o veneno social em que o futebol profissional se transformou – e não, não aprofundo aqui mais casos portugueses porque, sinceramente, tenho amor à pele e o futebol, que já foi o desporto mais belo do mundo, agora mete medo…
 
https://estatuadesal.com/2026/10/06/o-futebol-profissional-e-um-veneno/

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Gustavo Carneiro - Neutralidade?

Gustavo Carneiro

O rapper norte-ame­ri­cano Mac­kle­more foi ex­cluído da di­gressão de Ed She­eran por ex­pressar o seu apoio a uma Pa­les­tina livre da ocu­pação e do ge­no­cídio. Dos 10 es­pec­tá­culos pre­vistos, par­ti­cipou apenas em dois, mas não se ar­re­pende: nu­ma­men­sagem par­ti­lhada nas redes so­ciais, va­lo­rizou essas «duas opor­tu­ni­dades para dizer pe­rante 90 mil pes­soas as pa­la­vras que de al­guma forma se tor­naram de­ma­siado pe­ri­gosas de serem ditas: Pa­les­tina livre! E se essas pa­la­vras me cus­tarem o palco ao mesmo tempo que re­co­locam a atenção na Pa­les­tina, então foi a minha di­gressão mais bem su­ce­dida».


O caso deu que falar e não se ficou por aqui. A banda Beoga, que também acom­pa­nhava She­eran, so­li­da­rizou-se com Mac­kle­more e aban­donou a di­gressão, a maior em que al­guma vez es­teve en­vol­vida: «Nós somos ir­lan­deses que per­cebem o que é co­lo­ni­a­lismo. Como fun­da­dores do mo­vi­mento Ar­tistas Ir­lan­deses pela Pa­les­tina, somos ac­ti­vistas com­pro­me­tidos com a jus­tiça e con­ti­nu­a­remos a sê-lo. Todo este epi­sódio está a servir no­va­mente para dis­trair da ver­da­deira questão: mais de 1000 pa­les­ti­ni­anos foram mortos desde o cha­mado cessar-fogo.»


Da mú­sica pas­samos para o ci­nema. “Naza”, dos is­ra­e­litas Yuval Abraham e Ra­chel Szor, ga­nhou o Prémio Es­pe­cial do Júri da edição deste ano do Fes­tival de Ve­neza e me­receu o aplauso do pú­blico du­rante longos 25 mi­nutos. «Fil­mado à noite a partir dos te­lhados de Te­la­vive, este do­cu­men­tário de in­ves­ti­gação exa­mina as ví­timas civis das ope­ra­ções mi­li­tares is­ra­e­litas em Gaza e os sis­temas por de­trás dos as­sas­si­natos se­lec­tivos de pa­les­ti­ni­anos», lê-se na si­nopse do filme que tem es­treia mar­cada para hoje na salas por­tu­guesas. Ao re­ceber o ga­lardão, Yuval Abraham re­feriu-se ao ge­no­cídio em curso como um pro­jecto cons­ci­ente, as­sente na «total de­su­ma­ni­zação dos pa­les­ti­ni­anos». Os re­a­li­za­dores foram ame­a­çados com a perda de na­ci­o­na­li­dade is­ra­e­lita e as suas fa­mí­lias já re­ce­beram di­versas ame­aças.


Por cá, o ma­estro e com­po­sitor César Viana deixou a di­recção ar­tís­tica do Fes­tival In­ter­na­ci­onal de Mú­sica Re­li­giosa de Gui­ma­rães por «ra­zões de cons­ci­ência», dada a apro­xi­mação ins­ti­tu­ci­onal e co­mer­cial da Câ­mara Mu­ni­cipal a Is­rael. No con­texto da si­tu­ação que se vive em Gaza, jus­ti­ficou, não lhe era pos­sível «per­ma­necer in­di­fe­rente».


Todos estes gestos – e tantos ou­tros ha­veria a des­tacar por esse mundo fora – con­frontam a “neu­tra­li­dade” exi­gida pelos in­te­resses po­lí­ticos e eco­nó­micos que de forma as­su­mida ou en­ver­go­nhada apoiam o ge­no­cídio e a ocu­pação.

Nos úl­timos três anos, mais de 20 mil cri­anças foram as­sas­si­nadas na Faixa de Gaza pelo exér­cito de Is­rael, bem ar­mado pela maior po­tência mi­litar do pla­neta. A que se somam as so­bre­vi­ventes – am­pu­tadas, fa­mintas, órfãs, ir­re­me­di­a­vel­mente trau­ma­ti­zadas. Como bem afirmou Mac­kle­more na sua de­cla­ração, de­nun­ciar o ge­no­cídio já não é um acto de co­ragem, mas de mera hu­ma­ni­dade. Não há neu­tra­li­dade pos­sível!

Avante n.º 2757 (1/10/2026)

https://www.avante.pt/pt/2757/opiniao/185234/Neutralidade.htm


Discurso de Donal Trump a ONU (2026)

*  Donald Trump 

( 00:04 ):

Muito obrigado. Senhor Presidente, Senhor Secretário-Geral, Primeira-Dama dos Estados Unidos, distintos delegados, embaixadores e colegas líderes. É uma grande honra dar as boas-vindas ao mundo à América, enquanto celebramos 250 anos de gloriosa liberdade e independência. Dois séculos e meio depois de a Causa da Liberdade ter encontrado seu lar neste continente, posso afirmar com orgulho que a América está de volta e nosso país está mais forte hoje do que nunca. Nossa economia é a inveja do mundo. Nossas forças armadas são as mais poderosas da Terra. Nossa tecnologia não fica atrás de nenhuma outra e estamos na vanguarda em praticamente tudo. Nossa energia está abastecendo o planeta. A América está em ascensão. Nossa nação está crescendo. Nosso poder está se expandindo. Nosso país está melhor do que nunca e nosso futuro é muito, muito promissor.

( 01:12 )
Desde que assumi o cargo, criamos mais de um milhão de novos empregos no setor privado, e hoje há muito mais americanos trabalhando do que nunca. Na semana passada, foi anunciado que a taxa de pobreza atingiu seu nível mais baixo na história americana. Tiramos 1,5 milhão de americanos da pobreza somente no ano passado, outro recorde. As taxas de pobreza entre afro-americanos e hispânicos estão em seus níveis mais baixos de todos os tempos. A renda real das famílias americanas disparou para o nível mais alto da história, US$ 87.000 em média, superando o recorde anterior que estabeleci em meu primeiro mandato.

( 01:58 )
Desde o primeiro dia, meu governo trabalhou para remover todas as regulamentações e obstáculos desnecessários para fazer negócios nos Estados Unidos. Aprovamos os maiores cortes de impostos da história americana e, como resultado, mais dinheiro está sendo investido nos Estados Unidos agora do que jamais foi investido em qualquer nação, em qualquer lugar do mundo. Os mercados de ações dos EUA bateram 80 recordes históricos, e isso apenas nos últimos 12 meses. Garantimos compromissos de US$ 21 trilhões em novos investimentos de todo o planeta, em comparação com menos de US$ 1 trilhão em quatro anos no governo anterior. Dois anos atrás, nosso país estava morto, e agora temos o país mais quente do mundo. Antes de eu assumir o cargo, tínhamos a fronteira mais perigosa e pior do planeta, e agora temos a fronteira mais segura da história americana. Ninguém entra sem ser convidado, sem ter permissão.

( 03:03 )
Nos últimos 16 meses, nenhum imigrante ilegal foi admitido nos Estados Unidos, e isso foi feito por pessoas muito sofisticadas. Não foi feito pelo governo Trump. Zero. Como resultado, no ano passado alcançamos a maior queda na criminalidade violenta já registrada. A taxa de homicídios despencou para o nível mais baixo em 125 anos, desde 1900. Enviei nossos agentes de combate ao crime para Memphis, Tennessee, e Nova Orleans, Louisiana, e a criminalidade em cada um desses lugares caiu mais de 80% e vai cair ainda mais. Mais importante ainda, quando cheguei a Washington D.C. em 20 de janeiro do ano passado, a cidade estava assolada pelo crime, e agora a criminalidade caiu 87% e estamos caminhando para os 100%. Se vocês observarem, e imagino que muitos de vocês já estiveram lá, o turismo está prosperando. Os restaurantes estão lotados e as pessoas estão orgulhosas da capital do nosso país. Estão orgulhosas como nunca antes.

sábado, 26 de setembro de 2026

José Pacheco Pereira - Onde aprendeu George Orwell

* José Pacheco Pereira

No Portugal de hoje, como um pouco por toda a Europa e, em particular, nos EUA, esta “polícia do pensamento” funciona 24 horas por dia.

A  palavra propaganda é hoje uma palavra maldita, em parte pela sua história passada, em parte por hipocrisia. Hoje, chama-se marketing, que é, no essencial, a mesma coisa. É encomendada, paga, difundida por empresas especializadas em manipular a informação, por serviços secretos, por agentes políticos, por aquilo a que se chama "agências de comunicação". Não há nada que chegue às paredes das ruas, aos sites de classificação de restaurantes, aos comentários das redes sociais pagos e não pagos, por clubismo ou proselitismo, aos influencers, que não exija uma rigorosa verificação. Sítios no YouTube com pequenos filmes e comentários políticos, gritos e saltos no TikTok, roupa, maquilhagem, venda de casas com fotografias magníficas de casas sem janelas, apostas desportivas que vivem da adicção como as drogas duras.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Os pecados da Igreja serão perdoados?

 segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Crónica alinhavada há 4 anos mas actual quando se vê um PR Seguro e um PM Montenegro a inaugurar uma escola pública com a presença e intervenção de um clérigo católico. República Portuguesa laica ou estado confessional? Estaremos no Irão ou na Arábia Saudita? Neste caso, os pecados dos políticos do establishment serão perdoados?


 Ainda nos lembramos das palavras de um bispo, quando os crimes de pedofilia cometidos dentro da Igreja Católica (mas lá fora) começaram a ser mais falados, de que tais crimes não aconteciam em Portugal. Haveria uma barreira sanitária que impedia a entrada do vírus do pecado entre muros nacionais. Quando começaram a surgir, de forma indesmentível, os primeiros casos, e possivelmente por pressão do Papa Francisco, ele por sua vez também obrigado a ter de limpar a casa, as declarações da hierarquia católica indígena passaram a reconhecer a prevaricação, no entanto desconhecendo o número exacto dos casos. Por fim, e com receio ou já notando descontentamento entre os fiéis, a ICAR lá se decidiu a criar uma comissão independente, e “independente” para não ser acusada de querer encobrir o rol dos crimes.

(103) Gandhi - "You must be the change you wish to see in the world"

 

Mural de Gandhi , em Londres, da autoria de Gnasher (nome artístico de Dave Nash), Foto de Indico. Do lado esquerdo, encontra-se inscrita a célebre frase atribuída a Mahatma Gandhi:

«YOU MUST BE THE CHANGE YOU WISH TO SEE IN THE WORLD.»
(Deves ser a mudança que queres ver no mundo).

A frase "Youst be the change you wish to see in the world" ("Deves ser a mudança que queres ver no mundo") é universalmente atribuída a Mahatma Gandhi, mas os historiadores e investigadores de citações apontam que ela não foi escrita nem dita exatamente por ele dessa forma.

Trata-se de uma paráfrase moderna (popularizada a partir de meados da década de 1970). No entanto, o pensamento original e conceptual que lhe serve de base foi escrito por Gandhi em 1913, num artigo onde refletia sobre a transformação pessoal e social.  

O parágrafo completo e original do qual deriva a famosa frase popular é este:

«We but mirror the world. All the tendencies present in the outer world are to be found in the world of our body. If we could change ourselves, the tendencies in the world would also change. As a man changes his own nature, so does the attitude of the world change towards him. This is the divine mystery supreme. A wonderful thing it is and the source of our happiness. We need not wait to see what others do.»

Em português, a tradução integral deste pensamento é:

«Nós somos apenas o espelho do mundo. Todas as tendências presentes no mundo exterior podem ser encontradas no mundo do nosso corpo. Se pudéssemos mudar a nós mesmos, as tendências no mundo também mudariam. À medida que o homem muda a sua própria natureza, assim muda também a atitude do mundo em relação a ele. Este é o supremo mistério divino. Uma coisa maravilhosa que é e a fonte da nossa felicidade. Não precisamos de esperar para ver o que os outros fazem.»

'Soy Cuba', um filme de Mikhail Kalatozov

 

Soy Cuba; em russo: Я Куба, Ya Kuba) é um filme de antologia dramática de 1964 dirigido por Mikhail Kalatozov na Mosfilm. Uma coprodução internacional entre a União Soviética e Cuba, não foi bem recebida pelo público russo ou cubano e foi quase completamente esquecida até ser redescoberta por cineastas nos Estados Unidos trinta anos depois. Os planos-sequência acrobáticos e a mise-en-scène peculiar levaram diretores de Hollywood, como Martin Scorsese, a iniciar uma campanha para restaurar o filme no início da década de 1990.

Um filme soviético-cubano em duas partes, dirigido por Mikhail Kalatozov e lançado em 1964. O filme foi rodado após o triunfo da Revolução Cubana, a ascensão do regime socialista em Cuba e o estabelecimento de relações de aliança entre Cuba e a URSS. Em termos de enredo, consiste em quatro novelas independentes que narram a história dos cubanos lutando contra os "opressores americanos" para transformar seu país na Ilha da Liberdade. Na década de 1960, devido à ascensão dos ideais socialistas, o tema da revolução tornou-se relevante tanto para o cinema soviético quanto para o ocidental. O filme é de alto nível profissional, principalmente devido às inovações do diretor de fotografia Sergey Urusevsky e sua equipe. Esta foi a última vez que Urusevsky e o diretor Kalatozov trabalharam juntos. 

A produção do filme foi desafiadora em termos de encenação, trabalho de câmera, montagem interna, filmagem com câmera na mão para criar cenas dinâmicas usando uma câmera em movimento e transferindo-a de mão para mão, utilizando estruturas de engenharia especialmente construídas, etc. O filme foi rodado entre 1963 e 1964 com considerável apoio das autoridades soviéticas e cubanas durante um dos episódios mais tensos da Guerra Fria - a Crise dos Mísseis de Cuba, o bloqueio americano à ilha e a difícil situação econômica em Cuba.

Ano de produção: 1964 Direção: Mikhail Kalatozov Roteiro: Yevgeny Yevtushenko, Enrique Pineda Barnet Direção de fotografia: Sergei Urusevsky Música: Carlos Fariñas Direção de arte: Yevgeni Svidetelev Elenco: Sergio Corrieri, José Gallardo, Raúl García, Salvador Wood, Luz María Collazo, Jean Bouise, Celia Rodriguez O filme foi restaurado digitalmente pela Mosfilm Cinema Concern.

https://www.youtube.com/watch?v=Y3HpI898dwg


João Lopes - 'Soy Cuba'. Ser ou não ser revolucionário



* João  Lopes

11 Agosto 2026

Se pensarmos em filmes com componentes de propaganda política, como O Couraçado Potemkine (1925), de Sergei Eisenstein, ou O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, encontramos um paradoxo com que não é fácil lidar: a retórica dos seus discursos ideológicos combina-se de forma espectacular com a ousadia experimental das respetivas narrativas. Podemos reencontrar tal dinâmica noutro clássic…

Estamos perante um filme de denúncia da ditadura de Fulgencio Batista e exaltação da revolução liderada por Fidel Castro, triunfante a 1 de janeiro de 1959. A sua produção resultou da aliança da Mosfilm, o maior estúdio da URSS, com o Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficas (ICAIC), fundado a 24 de março de 1959. Na altura, Kalatozov era um símbolo forte da produção soviética, sobretudo através de Quando Passam as Cegonhas, Palma de Ouro de Festival de Cannes de 1958.


'Soy Cuba',  Official Trailer [1964]


Domingos Lobo . “Memórias Transmontanas e de Outros Lugares”, de Filipe Rua



* Domingos Lobo

Fi­lipe Rua per­corre toda a pa­leta so­cial das pe­quenas al­deias do Alto Douro


Se a grande e im­pres­cin­dível no­vi­dade da nossa Festa do Livro foi a apre­sen­tação pú­blica do livro sobre os 50 anos da Festa do Avante!, livro que nos conta e re­produz em ima­gens icó­nicas o muito que de belo, de in­con­tor­nável e único acon­teceu ao longo de cinco his­tó­ricas dé­cadas, pelos vá­rios es­paços que a Festa per­correu até en­con­trar o seu chão pró­prio, a sua casa frente à be­lís­sima baía do Seixal. A po­lí­tica, a ami­zade, a so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­o­na­lista, o me­lhor da nossa mú­sica e das mú­sicas do mundo, es­ti­veram sempre pre­sentes, com­ple­tando a magia e a fra­ter­ni­dade de muitas noites e dias das nossas vidas. Este ano não foi di­fe­rente, mas an­dava pelo ar um raro sor­ti­légio, res­pi­rava-se uma at­mos­fera de ale­gria, de jú­bilo e de or­gulho: a nossa Festa, mesmo contra as di­a­tribes sa­zo­nais, afirmou-se uma vez mais como es­paço cul­tural, so­cial e cí­vico de ex­ce­lência.