domingo, 26 de abril de 2026

Entreevista a Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você é humano”.


Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)

20 de Abril de 2026

Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo. Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.

Há um mês, Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.

O que fazer quando tudo arde está disponível na Apple PodcastsSpotifyYouTube e restantes aplicações para podcasts.

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 Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Ricardo Araújo Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro solo estreou na sexta-feira.

Ana Sá Lopes

26 de Abril de 2026

Esta conversa com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na sexta-feira.

Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.

Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista, não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun", por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável, no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.

Como diz um amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca justamente porque ele não está a brincar.

Já podemos falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo está a ser governado por um rapaz de 10 anos…

Eu estava a escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de contrariar no mesmo sentido em que é difícil.

Quando a criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade. Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”. E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.

Posso estar enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Será o riso mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo Capitão — ​que depois o Ricardo levou ao seu programa — ​desfez o Chega com muita graça.

São duas coisas muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda. Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo, pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.

O meu momento favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a indignação, acho eu, na qual eles medram.

O riso serve para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a pandemia de covid, por exemplo...

Na altura, tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente, dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma base.

Interessava-me bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...

E pronto, esses avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas, é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.

Porque, como palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos era engraçado.

O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.

Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci para isto, sabe?

Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o programa a seguir, eu já estou de férias.

 Eu não nasci para o palco. Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15 mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.

Já tem o guião pronto?

Está a ser dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...

O Ricardo tem falta de confiança?

Imensa.

É uma pessoa insegura?

A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.

Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.

Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança. Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.

Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios. E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.

Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente

A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?


Graça Castanheira - E o porco gosta

 * Graça Castanheira

 A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.

A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.

O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.

Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.

Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.

A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.

26 de Abril de 2026

sábado, 25 de abril de 2026

Intervenção de Alfredo Maia na Assembleia de República, em 25 Abril 2026


Abril foi e é justiça, liberdade, democracia e paz, salários, respeito por quem trabalha e produz a riqueza

Saudamos os militares que, naquela jubilosa madrugada de há 52 anos, fizeram imperar a voz da consciência, numa demonstração do imenso valor da juventude, da audácia, da generosidade e da coragem com que tomaram nas mãos o estandarte da liberdade.

Um tributo especial é devido aos incontáveis milhares e milhares de resistentes antifascistas – comunistas, outros democratas, católicos; estudantes, intelectuais, operários, empregados…

Uma homenagem ainda aos combatentes dos movimentos de libertação nas colónias, irmanados na luta comum pela liberdade.

Foi a luta dos trabalhadores, do povo, dos resistentes antifascistas que, em meio século de tenebrosa noite, foi iluminando as veredas que convergiram nessa madrugada e tornaram possível o levantamento de 25 de Abril, assim como a Revolução que o povo levou por diante.

Dezenas de milhares sofreram nas masmorras da PVDE, da PIDE e da DGS, a maioria brutalizada por sevícias e torturas, muitos pagando com a vida a luta pela liberdade e pela democracia: 

Manuel José Vieira, Alfredo Caldeira, Bento Gonçalves, Ferreira Soares, Germano Vidigal, Alfredo Dinis, Soeiro Pereira Gomes, Militão Ribeiro, José Moreira, Alfredo Lima, Catarina Eufémia, José Adelino dos Santos, José Dias Coelho, José Gregório, Cândido Martins, António Graciano Adângio, Estêvão Giro – e tantos outros mortos!

E foram milhões os alvos de vigilâncias e das devassas da PIDE/DGS e dos seus bufos.
Lembremos ainda as vítimas da longa e injusta guerra colonial: 

Pelo menos nove mil mortos, 30 mil feridos, 15 mil deficientes entre os jovens portugueses mandados para uma guerra sem sentido; talvez mais de 85 mil mortos nos movimentos de libertação, 50 mil a 100 mil civis.

O país não era apenas pobre, atrasado (económica, social e culturalmente), tolhido pela censura, pelo analfabetismo, pela malnutrição e pela mortalidade infantil: estava submetido à repressão brutal que nenhum democrata esquecerá, sujeito a uma ditadura fascista que alguns evocam saudosamente.

São os que não se conformam com a Revolução, que insistem num ajuste de contas com o 25 de Abril e com as suas conquistas, que procuram impor a sua narrativa revanchista.

Mas não há mistificações, saudosismos ou falsificações que apaguem os momentos exaltantes da Revolução que viraram a página e inscreveram as conquistas – políticas, económicas, sociais, culturais e civilizacionais – nas quais o povo tem um orgulho imenso e irrenunciável:

As liberdades democráticas; o fim da repressão fascista e da guerra; o aumento geral dos salários e das pensões; o direito à greve e a proibição do lock-out; o salário mínimo nacional; a liberdade sindical; a generalização do direito a férias e respetivo subsídio; o direito à habitação, à saúde e à educação. 

Também as nacionalizações e o controlo público da banca, dos seguros, da energia, das comunicações, dos transportes, da construção e reparação navais e ferroviária; a reforma agrária; o acesso a estradas, eletricidade, comunicações, redes de água e de esgotos; o poder local democrático.

São, entre tantas outras, conquistas que os grupos monopolistas e as forças reacionárias tentaram travar pelo boicote económico, pela fuga de capitais, assim como pela força, com os golpes e tentativas de golpe. 

E também com os seiscentos ataques violentos, entre os quais 310 à bomba, 136 assaltos e 58 incêndios, contra sedes de partidos de esquerda e sindicatos e até residências de democratas, perpetrados pelo ELP, pelo MDLP e outras organizações de extrema-direita, entre maio de 1975 e abril de 1977.

Até ao último minuto, tentaram tudo, mas não conseguiram impedir a aprovação, há 50 anos, da Constituição mais democrática da Europa.

Cinco décadas de política de direita, de contrarrevolução, atacaram direitos, desmantelaram serviços públicos, alienaram instrumentos essenciais ao desenvolvimento do País, submeteram a soberania nacional a interesses estrangeiros. 

É nesse trajeto de retrocesso que se insere o Pacote Laboral com que o patronato, o Governo e a direita que o servem pretendem esmagar os direitos dos trabalhadores e impor mais exploração e injustiça, objetivo que os trabalhadores, com a sua luta, têm rejeitado amplamente.
 
Abril foi – e é! – Serviço Nacional de Saúde, Escola Pública, direito à habitação; direito das crianças, dos jovens, das mulheres, das pessoas com deficiência e dos idosos à dignidade. É justiça, liberdade, democracia e paz, salários, respeito por quem trabalha e produz a riqueza.

É necessário retomar esse rumo, derrotando o Pacote Laboral, travando a injusta distribuição da riqueza, enfrentando o galopante aumento do custo de vida e rejeitando o arrastamento do País para a loucura do militarismo e da guerra.

Cinquenta e dois anos após a radiosa madrugada de Abril que resgatou os trabalhadores e o povo da opressão, e 50 anos depois das primeiras eleições para a Assembleia da República, reafirmamos o compromisso com os valores dessa Revolução inapagável e com o projeto promissor que anunciou um Portugal mais justo, desenvolvido e soberano.

Viva o 25 de Abril!
25 de Abril sempre!

https://www.pcp.pt/abril-foi-justica-liberdade-democracia-paz-salarios-respeito-por-quem-trabalha-produz-riqueza

Mário Vieira de Carvalho - Obscurantismo de antanho


Em pleno cinquentenário da nossa Constituição — uma das mais humanistas e avançadas do mundo — respigo estas notas para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez...

* Mário Vieira de Carvalho


Há cem anos, surgia em Lisboa uma nova publicação periódica: Ordem Nova. Na folha de rosto anunciava a sua linha editorial nos seguintes termos:

"Revista antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista; contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica; intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa."

O seu diretor era Marcelo Caetano.

Ao longo do ano publicaram-se cerca de dez números. O guia era a “voz da Igreja”, “guarda da sabedoria eterna” — lê-se num dos artigos. A razão era “débil e impotente no seu mesquinho poder de adaptação compreensiva e daí a necessidade de a erguer sobre a colunata sólida e eterna do Evangelho”. A defesa da razão, assim entendida, opunha-se à “tara romântica”, uma “doentia manifestação de indisciplina moral” que afetava “o homem primitivo, o selvagem, a criança e a mulher”, até o próprio homem, “mas na sua adolescência”, isto é, em “certos estados de infância física e moral”. Historicamente, a “tara romântica” representava “uma inversão brutal da hierarquia”: “o regresso à barbárie, ao primitivismo, à infância mental”, a “feminização do masculino”, o “império dos elementos femininos sobre os elementos viris do espírito”. O “vírus romântico”, que causava “degenerescência”, irrompera com as Luzes e, particularmente, com Rousseau.

Noutro texto, assinado pelo próprio diretor, este insurgia-se contra “a praga dos intelectuais”, apelava a “varrê-los” como na Itália de Mussolini e louvava a “violência” como “virtude”. Era o antídoto “para curar as nações fundamente atacadas do mal”. Mal esse – dizia-se noutro número – que remontava mais longe ainda, ao século XV, englobava a Reforma e o Renascimento, e não só “a erupção violenta do século XVIII”. Tratava-se, enfim, de restaurar as relações feudais.

Tão abrangente era o desígnio reacionário dos autores que nem a música escapava. O diabo fizera-se músico e servira-se da mulher para atingir os seus fins: “O problema musical não é mais do que um aspecto da grande insurreição feminina. [...] Modernamente o sensualismo musical, envolvente e corruptor, domina o espírito. A razão perdeu-se nos desvios de uma sensibilidade desvairada. [...] Separada da razão, a música tornou-se como o ópio, a morfina e a cocaína, um perigoso dissolvente de energia. Ergue paraizos artificiais [...] – todo um universo rubro de pecado. [Produz uma] emoção toda carnal [...] continua a ser a voz do tentador.”

A “ordem nova” que assim saía da “moderna renovação escolástica” não era senão a velha ordem patriarcal: “Ordem nas ruas! Ordem nos espíritos! Ordem em casa!”, já se proclamava no manifesto da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira (1921).

Se, por um lado, o Integralismo Lusitano aspirava à instauração de uma teocracia medieval, hostil às artes e, em especial, à música, hostil à igualdade entre os humanos, à não-discriminação em função do género, da raça e da condição social, os novos “cruzados” sonhavam igualmente com uma ditadura, mas um pouco mais atualizada.


Em 1921, António Ferro falava do “Ditador que é preciso”, comparando-o a Parsifal, o protagonista do drama musical de Wagner, então estreado no São Carlos com um êxito colossal (nove representações, mais do dobro de qualquer outra ópera da temporada!). Sidónio Pais – lê-se numa entrevista de Ferro à escritora Veva de Lima – tinha sido “o Parsifal raté da nossa decadência”. Parsifal é também comparado ao “Santo Condestável” e a D. Sebastião. E como “o sebastianismo é a religião da raça", Ferro dedica “À saudade e à esperança do Encoberto” o seu livro Viagem em torno das ditaduras (1927). Por fim, o Encoberto revela-se em Salazar, a quem uma cronista do jornal católico A Voz dedica as suas impressões do Parsifal do Festival de Bayreuth de 1937... Não é, pois, por acaso que Salazar, “Salvador da Pátria”, é representado como um cavaleiro medieval, à imagem e semelhança de Hitler.

Na antologia de discursos de Salazar publicada na Alemanha (1938), com uma Geleitwort do dr. Goebbels e um prefácio de Gustavo Cordeiro Ramos, Sidónio é considerado um pioneiro e Salazar colocado ao lado de Mussolini e Hitler, com a diferença de governar a partir do seu gabinete, enquanto estes preferiam o permanente contacto com as multidões. É que Salazar, como reconhece António Ferro, entretanto nomeado Secretário da Propaganda Nacional, queria encenar uma “ditadura imponderável, ausente” (discurso intitulado A Alma do Chefe, proferido solenemente, de casaca, em 1942).

Em pleno cinquentenário da nossa Constituição – uma das mais humanistas e avançadas do mundo – respigo estas notas do meu livro sobre o Teatro de São Carlos (INCM, 1993) para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez.

25 de Abril de 2026

Professor catedrático jubilado de Sociologia da Música (FCSH-UNL)

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Joyce Lussu - Scarpette Rosse


2026 04 21 - Mural em Orgosolo - A Joyce Lussu (2022)


Este é um dos poemas mais impactantes de Joyce Lussu, escrito após sua visita aos campos de concentração. O poema é uma poderosa denúncia do Holocausto, focando na imagem dilacerante da inocência interrompida.


Scarpette Rosse

C’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove:
sulla suola interna si vede ancora la marca di fabbrica
«Schulze Monaco».

C’è un paio di scarpette rosse
in cima a un mucchio di scarpette infantili
a Buchenwald

erano di un bambino di tre anni
di un bambino di tre anni
dai piedi scalzi
che correva piangendo
e s’è fermato fuori della porta
perché la sua mamma lo prendesse in braccio

e poi è entrato nel fumo
ed è diventato fumo
che nel vento si è disperso

ora c’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove
perché i piedini dei bambini morti
non consumano le suole.

Contexto e Significado
A Origem: O poema foi inspirado em um par de sapatos reais que a autora viu no museu do campo de concentração de Buchenwald. O Contraste: A força do texto reside no contraste entre a precisão técnica (o número 24, a marca "Schulze Monaco") e o destino trágico e imaterial da criança que se torna fumo. O Encerramento: Os últimos versos são considerados alguns dos mais pungentes da literatura italiana do pós-guerra, explicando o porquê de os sapatos estarem "quase novos": a morte não dá tempo ao desgaste.

Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:


Sapatinhos Vermelhos

Joyce Lussu

Há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos:

na sola interna ainda se vê a marca de fábrica

«Schulze Munique».


Há um par de sapatinhos vermelhos

no topo de um monte de sapatinhos infantis

em Buchenwald


eram de um menino de três anos

de um menino de três anos

de pés descalços

que corria chorando

e parou diante da porta

para que a sua mãe o pegasse no colo


e depois entrou no fumo

e tornou-se fumo

que no vento se dispersou


agora há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos

porque os pezinhos das crianças mortas

não gastam as solas.


Notas sobre a tradução

  • "Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.

  • "Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.

Entrevista a Pedro Lauret: “Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril”

Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido

* Joana Pereira Bastos, Jornalista

Pedro Lauret tinha 25 anos quando se juntou à conspiração de militares que levou ao 25 de Abril, integrando o primeiro grupo de ligação da Marinha ao Movimento dos Capitães. E fez parte da pequena comissão que redigiu o Programa do Movimento das Forças Armadas, no qual ficou escrito o rumo a seguir no país: liberdade e democracia, paz e descolonização. Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido. E que acusa de estar agora a ser intencionalmente menorizado pelo Governo.

Como interpreta o bloqueio do Governo ao Museu do 25 de Abril?

O 25 de Abril é uma das datas mais importantes da História de Portugal, porque derruba uma ditadura longuíssima, quebra o ciclo colonial e permite que, pela primeira vez, se realizem eleições livres e se institua uma democracia. Era fundamental ter um espaço museológico que preservasse esta memória, mas o Governo não quer que isso aconteça. Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril e branquear a ditadura, porque este Governo tem na extrema-direita o seu aliado preferencial e, para isso, convém-lhe menorizar a Revolução. Tudo o que seja feito para enaltecer o 25 de Abril não lhe interessa. Mas este apagar da História é criminoso. E os capitães de Abril, então, estão a ser completamente votados ao esquecimento. Mas isso já acontecia, mesmo antes desta conjuntura

Porque diz isso?

Nunca houve um grande reconhecimento do poder político, no geral, em relação aos capitães que fizeram o 25 de Abril. E isso vê-se em várias coisas. Por exemplo, até ao final do mandato de Jorge Sampaio tinham sido condecorados apenas os militares que fizeram parte do Conselho da Revolução e da Comissão Coordenadora [do MFA] e, mesmo no último dia do mandato, foram condecorados mais 15, que foram os comandantes das unidades que saíram no dia 25 de Abril. O Mário Soares não condecorou, individualmente, um único, mas apenas os estandartes das unidades. E a maioria continua até hoje sem ter a Ordem da Liberdade. Por outro lado, se olharmos para a toponímia de Lisboa, as ruas estão cheias de referências aos heróis do Liberalismo e da República, mas não se veem ruas com nomes dos militares de Abril. As nossas carreiras militares foram todas feitas em cacos. E hoje em dia considera-se que os ‘pais da democracia’ são o Mário Soares, o Freitas do Amaral, o Sá Carneiro... e os capitães são esquecidos. No discurso político e mediático, é como se não existissem. E mesmo no âmbito das Comemorações dos 50 anos, houve muito pouco envolvimento dos capitães no programa. Tudo isto entristece-nos e revolta-nos bastante. E não é por vaidade, mas por uma questão de justiça e de verdade histórica.

A que acha que se deve essa falta de reconhecimento por parte do poder político?

Acho que há razões profundas. A oposição civil à ditadura sempre esteve muito dividida e nunca teve uma estratégia consistente para derrubar o regime. E foram os militares que, sozinhos, conseguiram fazê-lo. Um grupo de miúdos com 25, 30 anos que em nove meses fizeram uma conspiração e em 18 horas deitaram abaixo a ditadura. Acho que os políticos da altura sempre tiveram algum ciúme em relação a isso. E apesar de já terem passado uma ou duas gerações, isso permanece. Para os políticos, os militares são um incómodo. Mas o que fizemos é notável e não há, na história mundial, nenhum outro exemplo de militares que tenham feito um golpe e não tenham querido ficar com o poder. Tal como prometemos, um ano depois fizeram-se as primeiras eleições livres. E tivemos de fazer tudo para as pôr de pé, montando uma operação extraordinária para fazer o recenseamento e os cadernos eleitorais.

A instauração da democracia era consensual entre todos os militares de Abril?

Os militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam bem o que era isso da democracia. A vida de um oficial do Exército era muito difícil. Estava dois anos em comissão [na guerra], vinha para cá um ano e pouco e voltava novamente. Uma vida destas não dava para fazer grandes reflexões políticas. A preocupação era sobreviver. O que motivou os militares para o golpe foi a necessidade de acabar com a guerra, a partir do momento em que se tornou evidente que ela estava perdida.

“Os militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam bem o que era isso da democracia”

Em que momento isso aconteceu?

Em março de 1973, na Guiné, quando o PAIGC [movimento independentista da Guiné] adquiriu à União Soviética uma nova arma que mudou tudo: os mísseis antiaéreos. No mesmo mês abateram dois Fiat, que eram os nossos aviões mais sofisticados, e logo em maio abateram três no mesmo dia. A partir daí, a nossa Força Aérea deixou de conseguir, com a mesma eficácia, contrariar os ataques e fazer a evacuação de feridos. A guerra estava perdida e não estávamos dispostos a ser sacrificados. Além disso, o regime foi incompetente e criou uns decretos que punham os milicianos à frente dos outros, o que criou ainda mais descontentamento, mas a questão central não foi essa. Foi acabar com a guerra. E, a dada altura, percebemos que a única maneira de o fazer era derrubando o regime. Foi isso que motivou a conspiração.

Participou na conspiração desde o início?

Sim. Fiz parte do primeiro grupo de ligação da Marinha ao movimento dos capitães. O planeamento militar do golpe não teve dificuldade nenhuma e correu rapidamente. Em janeiro de 1974, a estratégia estava delineada. Depois faltava a parte política, que foi mais complicada. Só se começa a falar disso em fevereiro ou março, já às portas do 25 de Abril. E enquanto que a ordem de operações foi muito falada e discutida, o programa [político] foi muito restrito e feito por um núcleo muito pequeno. O Melo Antunes, que era dos oficiais do Exército mais politizados, e alguns oficiais da Marinha, nomea­damente o Martins Guerreiro, o Almada Contreiras e eu próprio, trabalhámos no documento político quase clandestinamente dentro do próprio movimento.

O programa político foi facilmente aceite por todos?

A grande maioria dos militares envolvidos no 25 de Abril não teve conhecimento do programa político até ao golpe. Mas nunca houve nenhuma contestação. A partir do momento em que se dá o 25 de Abril, o programa foi assumido por todos. Foi à militar: “Este é o nosso programa, temos de o cumprir.” E cumprimos. No programa do MFA estava escrito: no prazo máximo de um ano tem de ser eleita uma assembleia constituinte para fazer uma nova Constituição; quando ela estiver pronta, serão eleitos os órgãos de soberania que nela estiverem previstos. Assim foi. No dia 25 de Abril de 1975 formou-se a Assembleia Constituinte por sufrágio universal, no ano seguinte estava pronta a Constituição, que fez este mês 50 anos, e foi eleita a primeira Assembleia da República, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito, os Governos Regionais dos Açores e da Madeira e os órgãos das autarquias locais. E os militares saíram de cena. Mas fomos nós que construímos os alicerces da democracia e isso nunca foi devidamente reconhecido. E hoje menos ainda.

23 abril 2026  

https://expresso.pt/politica/2026-04-23-

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade


Manuel Pires da Rocha

Per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade”



Rei­vin­di­camos a ale­gria.
Rei­vin­di­camos as can­ções de li­ber­dade.
Rei­vin­di­camos a mú­sica or­de­na­dora do uni­verso.
Rei­vin­di­camos as mãos dadas dos amantes.
Rei­vin­di­camos o sabor des­co­berto de todas as coisas.
Rei­vin­di­camos as pontes tran­quilas.
Rei­vin­di­camos a in­venção das ci­dades ha­bi­tá­veis.
Rei­vin­di­camos a pa­lavra, o poema, o livro.
Rei­vin­di­camos a festa.
Rei­vin­di­camos esta arma.
(Mário Cas­trim)

Quando Adriano Cor­reia de Oli­veira, José Afonso, Ma­nuel Freire, Carlos Pa­redes e Fer­nando Alvim, José Ba­rata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Am­paro, Ary dos Santos, entre ou­tros, su­biram ao palco do Co­liseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as can­ções que ali le­varam ti­nham ecoado pelas co­lec­ti­vi­dades de cul­tura e re­creio, nos en­con­tros da opo­sição de­mo­crá­tica, nas reu­niões an­ti­fas­cistas que eram acam­pa­mento, pi­que­nique e ho­me­nagem.

Na­quela noite de quase-Abril, cinco mil an­ti­fas­cistas e uma dúzia de pides, uns can­tando e aplau­dindo, os ou­tros to­mando notas, as­sis­tiam à ante-es­treia de Grân­dola, Vila Mo­rena nos ca­mi­nhos da His­tória, no mesmo ta­buado em que Ary dos Santos de­cla­mava “aqui nin­guém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.

Vozes mais an­tigas se­riam, porém, ini­ci­a­doras deste canto que quis ser arma li­ber­ta­dora. No Ou­tono de 1945, Fer­nando Lopes-Graça juntou na casa de al­deia de João José Co­chofel, perto de Coimbra, os também po­etas Carlos de Oli­veira e José Gomes Fer­reira, dando início à es­crita de um pro­jecto ins­pi­rado nos can­ci­o­neiros re­vo­lu­ci­o­ná­rios his­tó­ricos da Re­vo­lução Fran­cesa e da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mar­chas, Danças e Can­ções seria o pri­meiro can­ci­o­neiro po­lí­tico da luta an­ti­fas­cista por­tu­guesa, a que se­gui­riam oito ca­dernos mais, que Lopes-Graça in­ti­tu­laria Can­ções He­róicas, Dra­má­ticas, Bu­có­licas e Ou­tras.

As He­róicas se­riam ini­ci­al­mente di­vul­gadas pelo Coro do Grupo Dra­má­tico Lis­bo­nense, cons­ti­tuído no seio do Mo­vi­mento de Uni­dade De­mo­crá­tica (MUD). Em 1946, após uma apre­sen­tação pú­blica na Bi­bli­o­teca da In­crível Al­ma­dense, a cen­sura proibiu o re­per­tório. Tarde de­mais, porém – as He­róicas vi­viam já nas vozes de grupos for­mais e in­for­mais, juntas e afi­nadas na luta contra o fas­cismo. Tanto, que não ha­verá me­mória de lugar cons­pi­ra­tivo, das salas do as­so­ci­a­ti­vismo po­pular às celas das pri­sões, onde não tenha ha­vido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.

O sé­culo XX das lutas an­ti­co­lo­niais, an­ti­fas­cistas e anti-im­pe­ri­a­listas viria a ser o mo­mento da ex­pansão geral da mú­sica de com­bate pela li­ber­dade e pela cons­trução do so­ci­a­lismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Vi­o­leta Parra, Mikis The­o­do­rakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Sil­vestre Re­vu­eltas, Chos­ta­ko­vitch e Carlos Pa­redes, entre tantos ou­tros, a mú­sica as­sumiu opção de classe à es­cala uni­versal, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos palcos e do vo­ca­bu­lário pró­prio de cada gé­nero mu­sical.

Em Por­tugal, o sé­culo pas­sado é também o lugar da des­co­berta da mú­sica po­pular das co­mu­ni­dades ru­rais, con­du­tora de si­nais ci­vi­li­za­ci­o­nais que também são os da cons­ci­ência so­cial (“Ó minha mãe dos tra­ba­lhos / Para quem tra­balho eu / Tra­balho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jor­nada é com­pa­nheira da Canção da Vin­dima, em José Afonso o Cantar Alen­te­jano (em ho­me­nagem a Ca­ta­rina Eu­fémia) di­vide in­ten­ções com Milho Verde e, no canto de Adriano Cor­reia de Oli­veira, Tejo Que Levas As Águas om­breia com ‘Inda Eu Era Pe­que­nino.

Che­gados aqui, cons­tata-se que o cantar que (também) abriu ca­minho à Li­ber­dade que em cada Abril se ce­lebra, não perdeu ac­tu­a­li­dade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à ha­bi­tação, à saúde e à edu­cação, de­mo­cratas de todas as idades en­toam o velho re­frão de Li­ber­dade – pa­lavra de ordem in­tem­poral da exi­gência de um tempo de jus­tiça. E cantam Os Vam­piros de­nun­ci­ando o saque, o Acordai cha­mando para a luta, o Hino de Ca­xias cer­rando fi­leiras. E aco­lhem cantos emer­gentes, que são mornas e di­zeres de hip hop, so­mando-se ao cantar his­tó­rico nas lutas dos mo­vi­mentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas ac­ções do mo­vi­mento sin­dical, nas ini­ci­a­tivas pela paz, nas ac­ções de so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina e com Cuba.

Juntam-se, no rumor do nosso tempo, tim­bres e so­ta­ques di­versos, mas o es­tri­bilho geral per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade" q”e, can­tando “junta a tua à nossa voz”, marca en­contro com o fu­turo.

https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

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Soneto presente, de Ary dos Santos

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

domingo, 19 de abril de 2026

Discurso de Chaplin em 'Monsieur Verdoux'


Aguardando a execução por seus crimes, Verdoux diz a um jornalista: "Um assassinato faz de alguém um vilão... milhões fazem de alguém um herói. Os números santificam meu bom amigo."



Transcrição das declarações finais de Verdoux ao tribunal durante seu julgamento em Monsieur Verdoux :

Juiz: Senhor Verdoux, o senhor foi considerado culpado. Tem algo a dizer antes que a sentença seja proferida?

Verdoux: Sim, senhor, eu tenho. Por mais negligente que o promotor tenha sido em me elogiar, pelo menos admite que eu tenho cérebro. Obrigado, senhor, eu tenho. E por trinta e cinco anos o usei honestamente, depois disso… ninguém o quis. Então fui forçado a abrir meu próprio negócio. Quanto a ser um assassino em massa, o mundo não o incentiva? Não é construir armas de destruição com o único propósito de matar em massa? Não explodiu mulheres e crianças inocentes em pedaços, e o fez de forma muito científica? Como assassino em massa, sou um amador em comparação. No entanto, não quero perder a cabeça, porque muito em breve perderei a cabeça. Mesmo assim, ao deixar esta centelha de existência terrena, tenho isto a dizer… Vejo vocês todos muito em breve… muito em breve…


As seguintes linhas foram suprimidas do discurso, presumivelmente para satisfazer o gabinete de Breen:

Ficar chocado com a natureza do meu crime não passa de uma farsa… uma simulação! Vocês se deleitam no assassinato… vocês o legalizam… vocês o adornam com galões de ouro! Vocês o celebram e o exibem! Matar é a atividade que sustenta o seu Sistema, a base da sua indústria!


Trecho de uma carta do Escritório Breen para Chaplin, parte de uma correspondência relativa à censura "necessária" do filme antes de seu lançamento: "A alegação de Verdoux é, derivativamente, que é ridículo se chocar com a extensão de suas atrocidades, que elas são uma mera 'comédia de assassinatos' em comparação com os assassinatos em massa legalizados da guerra, que são embelezados com galões de ouro pelo 'Sistema'."

Naturalmente, a alegação de Verdoux não foi bem recebida pelos responsáveis ​​pela censura.

https://www.charliechaplin.com/en/articles/244-Speech-from-Monsieur-Verdoux

O pecado original de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje, repetiria”

Em declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.

Alexandra Tavares-Teles

16 Abr 2026,  

“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.

Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.

O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega,  com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.

Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”

Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas.”

Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.

Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.

https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/pacheco-pereira-no-se-arrepende-do-frente-a-frente-com-ventura-se-fosse-hoje-repetiria#google_vignette

 

Opinião DN

O pecado original de Pacheco Pereira

Paulo Guinote, Professor do Ensino Básico

16 Abr 2026

Não sou dos que acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e, nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.

André Ventura só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical), nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora, qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.

O “verdadeiro fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder? Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.

Pacheco Pereira sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate foi, pois, a CNN Portugal.

Ao desafiar Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a emoção encenada. Enganou-se.

Todos cometemos erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi esse o seu pecado original.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261


Ventura sabe que mentiu?

Pedro Tadeu, Jornalista

17 Abr 2026,  

No debate, segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos “do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado “Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.

Esse relatório, publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por Ventura.

O documento foi um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.

O ponto central para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a gente, no site da Presidência da República, não está escondido.

Portanto, quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.

Outra manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.

Nem Salazar, nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962, aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar, que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.

Ventura queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que 30 mil pessoas fugiram do país.

Em 1974, segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado, altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em liberdade?”

Na verdade, até seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.

Mais de 30 mil resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de Abril.

Como é que se pode comparar uma coisa com a outra?!

https://www.dn.pt/opiniao-dn/ventura-sabe-que-mentiu