Ricardo Araújo
Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na
semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você
é humano”.
Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)
20 de Abril de
2026
Ricardo Araújo
Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma
auto-estima bastante baixa”
Ricardo Araújo
Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast
sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo
Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em
Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo.
Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.
Há um mês,
Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia
sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente
composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma
auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu
tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o
segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.
O que fazer
quando tudo arde está disponível na Apple Podcasts, Spotify, YouTube e restantes aplicações para podcasts.
Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão
grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”
Ricardo Araújo
Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio
com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro
solo estreou na sexta-feira.
Ana Sá Lopes
26 de Abril de
2026
Esta conversa
com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast
“O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na
segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta
conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o
guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na
sexta-feira.
Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.
Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista,
não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun",
por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável,
no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer
deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.
Como diz um
amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau
aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de
intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca
justamente porque ele não está a brincar.
Já podemos
falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo
está a ser governado por um rapaz de 10 anos…
Eu estava a
escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de
embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia
muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por
exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário
tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de
contrariar no mesmo sentido em que é difícil.
Quando a
criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não
discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não
existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto
a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de
crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a
Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em
Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe
nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade.
Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem
animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”.
E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a
criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior
à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.
Posso estar
enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma
ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a
vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim
senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a
chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo
Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente
tente, falha”
Será o riso
mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo
Capitão — que depois o Ricardo levou ao seu programa — desfez o
Chega com muita graça.
São duas coisas
muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor
para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não
é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os
jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se
alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda.
Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para
o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao
humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos
deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo,
pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.
O meu momento
favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a
esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu
adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E
isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a
indignação, acho eu, na qual eles medram.
O riso serve
para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a
pandemia de covid, por exemplo...
Na altura,
tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director
de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar
ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém
sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente,
dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa
disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que
ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca
usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma
criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa
de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma
base.
Interessava-me
bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento
em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as
compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr
na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial
de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...
E pronto, esses
avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa
inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas,
é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.
Porque, como
palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a
razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os
sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso
nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto
de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos
era engraçado.
O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.
Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci
para isto, sabe?
Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus
amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando
ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais
experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor
o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o
programa a seguir, eu já estou de férias.
Eu não nasci para o palco. Há sempre uma
relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito
receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para
estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando
se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um
bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15
mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é
aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.
Já tem o
guião pronto?
Está a ser
dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro
de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...
O Ricardo tem falta de confiança?
Imensa.
É uma pessoa insegura?
A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.
Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.
Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por
exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas
ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança.
Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.
Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são
histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e
estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios.
E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.
Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa
que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente
A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?





