quarta-feira, 2 de abril de 2025

Domingos Lopes - O KIT DA MAIS ILUSTRE COMISSÁRIA EUROPEIA

* Domingos Lopes

Uma comissária da União Europeia – Hadja Lahbib- a congeminadora do famoso do Kit para 72 horas para “responder” a crises.

Pode acontecer terramotos, tempestades, cheias, incêndios e é bom estar preparado. É preciso muito trabalhinho e juizinho.

Por outro lado, a comissária Hadja talvez não quisesse continuar a viver num anonimato que devia, sendo comissária da UE, considerar um infortúnio.

Ela deu conta doimpulso incontrolável dos cidadãos e das cidadãs para pegar em armas e partir para atacar a malévola Rússia que, segundo alguns estrategos, brevemente chegará a São Romão, bem próximo de Olivença. Ou, dizem outros, a Óbidos por causa do festival de chocolate.

Há até quem tenha visto para os lados da Sierra Morena (após o alerta do senhor Almirante por baixo do gelo da Gronelândia ao vislumbrar submarinos russos, perdão disfarçados de USA) carrinhas de caixa aberta cheia de drones e coisas desse género, disfarçadinhas de pacotes de rebuçados e de bolachas Cuetara que por sinal são muito boas.

Não desimaginemos das doenças e das intempéries, mas ao mesmo tempo imaginemos que os russos que fartos de batalhar na Ucrânia há mais de três anos, decidem contornar a Ucrânia e virem apanhar pela tardinha, sem dizer nem água vai, nem água vem, a Comissão inteirinha em Bruxelas a comer os chocolates belgas que também são bons, como eram os nossos Regina, que tinha uma fábrica para as bandas de Coimbra, quando havia fábricas de fazer coisas, que agora fazem notícias que é o que prende as pessoas aos telemóveis.

Cá está uma covardias sem limites, vir às escondidas e quando uma pessoa menos conta záscatrapás .  Oiçam lá, diz o oficial, agora os chocolates são para nós, vocês não têm direito a eles, temos de os aprisionar, e esta operação especial vai apanhá-los todos, e depois se quiserem negociamos, mas atenção, só depois de nos empanturrarmos.

Percebe-se bem o fito dos russos e a senhora comissária para não criar mau ambiente com o senhor Putin arranjou esta moenga do Kit para nos alertar para o perigo da Rússia vir por aí abaixo com os norte-coreanos a cheirar a alho e gastarem a água e as pilhas todas e nós sem nada. Os de cá sem água e sem os canivetes chineses que só a sra Hadja pode andar com eles nos aviões, porque o resto do pessoal nem corta unhas.

Esta ideia do kit é, por isso, fantástica. Num juízo de prognose é bem possível que os russos venham a Portugal aproveitar esta água das chuvas copiosas porque a deles ainda é do tempo dos bolchevistas.

E tem outra coisa; têm de o fazer enquanto está o Marcelo que é todo beijos e abraços. Se for com o senhor Almirante será muito diferente, mas mesmo muito. Fia fino. Se o artigo 5º ficar a seco ele vai direitinho a Washington e acerta as contas com o Trump num lampo.

Com ele é tudo armas, armas, nem pão, nem queijo. Ainda bem que há comissárias assim. Com ela é a sério – água, radio, medicamentos, pilhas e umas cartitas, não vão os russos fazerem amizades com os de cá e a coisa durar mais de 72 horas. Bem-haja o cérebro da sra. comissária, resplandecente de imaginação e prevenção.

2 de Abril de 2025  ~

https://ochocalho.com/2025/04/02/o-kit-da-mais-ilustre-comissaria-europeia/

Tiago Franco - TRÊS HORAS DE ROMANCE |

 * Tiago Franco

Esta administracão americana junta à ignorância, e falta de chá já agora, uma falta de inteligência processual que chega a ser arrepiante.

Não há propriamente uma grande novidade nisto de anexar territórios. Toda a minha vida vi este "business as usual" mas os métodos eram mais graciosos. Havia sempre uma razão moral para meter a pata em território alheio.

Ou iam levar camiões de democracia ou derrubar um ditador que fazia mal ao seu povo. Não se dizia à boca cheia que o interesse era sacar petróleo.

E quando o tema não era pilhar recursos mas sim criar governos amigos, também se fazia tudo com algum "glamour". Patrocinavam-se uns "Contras", escolhia-se a dedo um presidente, interferia-se com a democracia sem grande alarido. Eram bons tempos, cheios de histórias secretas, conspiracões em bailes de gala, recepcões a embaixadores ou desembarques de mercenários em baías vigiadas.

Todo o império tem a sua, ou as suas, Bielorrússias. A arte está na forma que usam para nos convencerem da anexacão. Agora, vir um bronho com a melhor alcunha de sempre (Mango Mussolini), dizer repetidas vezes na televisão que "temos que ter aquilo porque há navios chineses e russos por todo o lado"...epá...corta todo o romance e encanto da espionagem e da política externa.

Nós sabemos que é por isso que queres aquilo. Nós sabemos a história da guerra aos recursos naturais....mas mente, pá! Mente! Dá algum charme a esta coisa de se anexar território alheio.

Uma coisa é perceber no início do século 20 que o Hawai dá jeito para encaixar umas bases. Anexa-se e ninguém se queixa. Nem havia instagram nessa altura. Tudo bem.

Mas hoje em dia, com a velocidade a que a informacão se espalha, francamente, é deprimento ver o facho encartado a visitar um território sem ser convidado e, de forma improvisada, a fazer uma conferência de imprensa na base militar onde se dirigia às maravilhosas pessoas da Gronelândia e às lindíssimas paisagens, quanto desancava os dinamarqueses.

JD...tu conheces alguma pessoa na Gronelândia? Viste alguma paisagem nas 3h que passaste na base? Sinceramente fico desiludido porque os EUA habituaram-nos com espectáculos muito melhores e bem mais ensaidados. Estes gajos são muito amadores, nem chegam a actores de fimes B. São o Stevan Seagel numa sequela que pedia Denzel Washington.

Dito isto...tenho dúvidas técnicas. Se de facto os americanos se abarbatarem com a Gronelândia:

1 - A Nato mete as botas no terreno para correr com eles de lá, cumprindo o artigo 5?

2 - A Ursula vai cobrar-nos mais impostos para apoiar a Gronelândia for as long as it takes?

3 - Os Dinamarqueses vão passar a terroristas na lista do FBI?

4 - A UE vai impôr sancões económicas a Washington?

5 - Os refugiados dinamarqueses também vão para o Ruanda (para onde eles mandam os que lá chegam) ou fazemos uma vaquinha para os acomodar em Alicante?

Esta história da Grônelandia promete ser apaixonante, tanto na parte da narrativa histórica como na das anexacões democráticas. É certo como o destino que os chineses ainda vão ser os culpados disto. Bem vistas as coisas, ainda só passaram dois meses do Donald. Dois mesitos.

Eu já só quero que me expliquem isto com o papel da conta à frente. Retencões na fonte, IVA, IRC, IRS, taxa do audiovisual, imposto nos combustíveis...não importa. Digam-me só quanto é que nos vão sacar para mais esta e tudo bem, seguimos cantando e rindo, a pagar.

2025 04 02

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Carlos Coutinho - [Abriladas]

 ABRILADA é nome por que foi registado na história de Portugal um terramoto político ocorrido no dia 30 de abril de 1824, mas que falhou. Essa revolta dos absolutistas tentou ressuscitar a Vilafrancada que também falhara no ano anterior. Felizmente. 

   A batuta estava na mão do infante D. Miguel, irmão de D. Pedro, o normal herdeiro do trono português e imperador do Brasil.

 O terramoto inverso precisou de um século aparentemente inacabável para também acontecer e ninguém o tomou como uma segunda abrilada, precisamente pelo que nos trouxe esse luminoso levantamento político-militar que ainda hoje muito nos ajuda a viver pacificamente o desenvolvimento solidário e patriótico, que continua consagrado na Constituição da República, embora seja cada vez menos respeitado.

   Se formos à História, vamos ver que a revolta miguelista foi derrotada, mas cavou os alicerces do viria a ser a fratricida e longa Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). Descendo ao pormenor, reparamos que no dia 30 de Abril de 1824, o Infante D. Miguel, que havia sido nomeado generalíssimo do Exército Português, fez deter nos calabouços do Castelo de S. Jorge e da Torre de Belém importantes personalidades civis e militares do País...

   Entre os encarcerados estavam o Intendente-geral da Polícia, barão de Rendufe, o duque de Palmela (então no governo em coligação com o conde de Subserra) e o o visconde de Santa Marta. 

D. Miguel, que contava com o apoio de sua mãe, a gorducha Rainha Carlota Joaquina, considerava-os partidários do “nefando liberalismo” e de conspirarem contra o pai, D. João VI. Na chamada “Proclamação da Abrilada”, proferida nesta ocasião, D. Miguel diz que  era sua intenção acabar com o que denominava de "pestilenta cáfila de pedreiros-livres", numa referência à Maçonaria, que além de liberal, era constitucional.    

    "Soldados! se o dia 27 de Maio de 1823 raiou sobremaneira maravilhoso, não será menos o de 30 de Abril de 1824; antes hum e outro irão tomar distincto lugar nas paginas da história Lusitana; naquelle deixei a Capital para derribar uma Facção desorganizadora, salvando o Throno, e o Excelso Rei, a Real Família, e a Nação inteira, dando mais hum exemplo de virtude á Sagrada Religião, que professamos, como verdadeiro sustentaculo da Realeza, e da Justiça; e neste farei triumfar a grande obra começada, dando-lhe segura estabilidade, esmagando de huma vez a pestilente cáfila dos Pedreiros Livres, que aleivosamente projectava alçar a mortifera fouce para àcabar, e de todo extinguir a Reinante Casa de Bragança.

     "Soldados! foi para este fim que vos chamei ás armas, plenamente convencido da firmeza do vosso caracter, da vossa lealdade, e do decidido amor pela Causa do Rei.

Soldados! sejais dignos de Mim, que o Infante D. Miguel, Vosso Commandante em Chefe, o será de vós. Viva ElRrei Nosso Senhor, Viva a Religião Catholica Romana, Viva a Rainha Fidelíssima, Viva a Real Família, Viva o Briozo Exercito Portuguez, Viva a Nação, Morram os malvados Pedreiros Livres.

   "Palacio da Bemposta 30 de Abril de 1824.
Infante C. em C”

   Enviou, então, diversos corpos militares ao antigo Palácio dos Estaus (onde  hoje está o Teatro Nacional D. Maria IIT,  em Lisboa, aí instalando o seu quartel-general. Deu ordens ainda para que se impusesse cerco ao Palácio da Bemposta, onde estava o rei, acompanhado do seu conselheiro inglês, o general William Carr Beresford que o trazia pela trela, embora enojado com o aspeto físico monarca resultante da procriação endógena.

   Para a resolução deste conflito parece ter sido determinante o apoio do corpo diplomático em Portugal, nomeadamente a ação do embaixador francês Hyde de Neuville. Numa tentativa de apaziguamento, este diplomata conseguiu entrar no palácio e convencer o rei a chamar o filho para uma conversa a a sério. 

   Alcançou-se, desse modo, um acordo que fez regressar as tropas aos quartéis, mas que mantinha os detidos encarcerados, com exceção do duque de Palmela, que se refugiou num navio inglês, prosseguindo assim a situação de instabilidade política e militar.

Em maio, os diplomatas ajudaram D. João VI a refugiar-se no navio britânico “HMS Windsor Castle”, onde tomou uma série de medidas: demitiu D. Miguel do seu cargo no Exército, ordenou a libertação dos presos políticos e a captura dos apoiantes do filho, que foi intimado a vir a bordo. 

   Assim retido, D. Miguel foi obrigado a embarcar com destino à França na fragata “Pérola”, acabando a sublevação dos absolutistas. O infante foi seguidamente deportado para Viena e D. Carlota Joaquina ficou internada no Palácio de Queluz com a devida assistência médica e religiosa. 

   Não sei se os seus aposentos finais foram convenientemente desinfetados, mas é de crer que sim, porque já passeei pelos jardins afrancesados do palácio e também assisti a concertos musicais inesquecíveis no salão dos embaixadores. E nada me aconteceu.

2025 04 02 

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terça-feira, 1 de abril de 2025

Prabhat Patnaik - O regresso do macartismo



Prabhat Patnaik [*]

A atual repressão da administração Trump à liberdade de expressão nos Estados Unidos faz lembrar assustadoramente a década de 1950, quando houve uma caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy que não só vitimou toda uma geração de artistas e intelectuais sob a acusação de serem comunistas, como também deixou uma marca negativa profunda na vida criativa daquele país durante décadas. As vítimas dessa caça às bruxas incluíram numerosas personalidades notáveis, desde artistas e escritores como Dashiel Hammet, Dalton Trumbo, Bertolt Brecht e Charles Chaplin, a académicos como Lawrence Klein, Richard Goodwin, E H Norman, Daniel Thorner, Moses Finlay e Owen Lattimore. Mesmo figuras públicas notáveis como J Robert Oppenheimer, que dirigiu o Projeto Manhattan para a construção de uma bomba atómica, e Harry Dexter White, que fundou o sistema de Bretton Woods (juntamente com J M Keynes do Reino Unido) não foram poupados:   foram convidados a comparecer perante uma ou outra das comissões criadas para investigar o comunismo nos EUA. O prejuízo para os EUA com esta caça às bruxas foi imenso. Há mesmo quem sugira que o país se envolveu na Guerra do Vietname porque os estudos disponíveis sobre o Leste e o Sudeste Asiático foram dizimados pelo McCarthyismo; se estivessem disponíveis, os EUA poderiam ter tirado partido deles e evitado entrar no atoleiro.

A semelhança entre o fenómeno macartista e as acções agora iniciadas por Trump é sentida por muitos; mas foi explicitamente articulada pelo Professor da Universidade de Columbia, Bruce Higgins (MR online, 21 de março). À primeira vista, pode parecer que traçar esse paralelo constitui um grande exagero. Afinal de contas, até agora só houve uma mão-cheia de casos de detenção e deportação; porquê ficar tão exaltado com isso e sugerir paralelos com a caça às bruxas macartista? Do mesmo modo, pode argumentar-se que os alvos até agora têm sido cidadãos não americanos, que residem no país quer com um visto quer com uma Green Card; isto é certamente diferente do período macartista, em que os cidadãos americanos, e não apenas os “forasteiros”, tinham sido vítimas da caça às bruxas.

Mas dificilmente se pode retirar muito conforto de tais considerações. Trump deixou claro que casos como o de Mahmoud Khalil são apenas o começo; seguir-se-ão acções em milhares de outros casos semelhantes. Mahmoud Khalil, recorde-se, era o estudante de Columbia titular de um Green Card e casado com uma cidadã americana que, por acaso, estava grávida de oito meses. Khalil foi detido e aguarda a deportação sob a acusação de ter ligações com “terroristas” por ter liderado as manifestações de estudantes de Columbia contra o genocídio em Gaza. Do mesmo modo, quando se verificar a deportação em larga escala de titulares de vistos e de Green Card, os cidadãos americanos que participarem em protestos contra genocídios do tipo de Gaza e também contra essas deportações, dificilmente serão poupados a acções punitivas. Também eles serão vitimados por apoiarem actividades “terroristas” estrangeiras. Em suma, é impossível, uma vez iniciado o processo de vitimização de uma parte da população por exprimir livremente as suas opiniões, sentirmo-nos seguros de que esse processo se limitará apenas a essa parte e não afectará o resto da população. É, portanto, justificado sentirmos que estamos no início de uma caça às bruxas ao estilo de McCarthy.

De facto, a caça às bruxas que se aproxima é ainda pior, em muitos aspectos, do que a lançada pelo Senador Joe McCarthy. Em primeiro lugar, a deportação de Mahmoud Khalil está a ser ordenada ao abrigo de uma disposição da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos de 1952, que afirma que qualquer “estrangeiro, cuja presença ou actividades nos Estados Unidos, o secretário de Estado tenha motivos razoáveis para acreditar, teria consequências adversas potencialmente graves para a política externa dos Estados Unidos, é deportável”. A invocação desta cláusula significa, de facto, que nenhum estrangeiro, quer seja titular de um visto ou de uma Green Card, pode criticar a política externa dos Estados Unidos. No caso de Khalil, por exemplo, a acusação contra ele, para além de ser próximo de uma organização “terrorista”, o Hamas (para a qual não foi apresentada qualquer prova), é de “antissemitismo”, que é uma das caraterísticas que a política externa dos EUA pretende combater em todo o mundo; a sua oposição ao genocídio infligido em Gaza por Israel é classificada como “antissemitismo” e, portanto, como tendo consequências adversas para a política externa dos EUA. Mas uma acusação semelhante pode ser feita contra qualquer “estrangeiro” que critique qualquer aspecto da política externa dos EUA; e mesmo os cidadãos americanos que “ajudem e sejam cúmplices” desses “estrangeiros”, participando em manifestações contra a política externa dos EUA, um eufemismo para actos do imperialismo americano noutras partes do mundo, podem sem dúvida ser também acusados.

Por outras palavras, o âmbito da atual caça às bruxas é ainda mais vasto do que o do senador Joe McCarthy. Não é apenas dirigida contra um segmento da população, nomeadamente os comunistas e os seus simpatizantes, como era o caso do macartismo; pelo contrário, é dirigida contra qualquer pessoa que ouse criticar a política externa dos EUA e, acima de tudo, a política dos EUA de controlar a Ásia Ocidental através de um colonato israelense agressivo e expansionista.

Em segundo lugar, o macartismo foi desencadeado no contexto da Guerra Fria. A própria Guerra Fria fazia parte da luta do imperialismo contra o prestígio e o apêlo que a União Soviética havia adquirido durante a Segunda Guerra Mundial; criou o fantasma da agressão soviética, embora a União Soviética, devastada pela guerra, não tivesse quaisquer intenções agressivas. Em suma, o macartismo fazia parte de uma estratégia imperialista muito específica num contexto muito específico; mas a atual ofensiva de Trump surge numa situação em que o imperialismo não pode apresentar qualquer ameaça específica de qualquer potência em particular. Destina-se simplesmente a encobrir a agressividade do imperialismo num mundo em que nenhuma potência específica pode ser citada como uma ameaça, mas em que um grande número de países, empurrados para a parede pela crise infligida pela ordem neoliberal, procuram algum alívio aos acordos económicos que lhes são impostos. O contexto para o ataque de Trump é a falência moral do imperialismo e não a estatura moral subitamente reforçada de qualquer potência não imperialista em particular.

Em terceiro lugar, o facto de o ataque de Trump à liberdade de expressão ter um alvo mais vasto do que o do macartismo é confirmado pela forma totalmente anticonstitucional e peremptória como a sua administração está a ditar às universidades americanas a forma como devem conduzir os seus assuntos e a reter fundos federais no caso de se oporem. Assim, foram retidos 450 milhões de dólares de fundos federais à Universidade de Columbia [NR] se esta não acedesse à exigência da administração Trump de proceder a uma série de alterações no seu funcionamento; e a universidade terá alegadamente acedido agora a estas exigências, o que truncará grandemente a liberdade académica. Condicionar o acesso das universidades a fundos federais à sua gestão a contento do governo é tanto uma violação da autonomia da universidade como do seu ambiente académico. Obriga as universidades a tornarem-se órgãos do governo e não espaços de pensamento criativo e crítico. Trata-se de uma inovação inédita em comparação com o macartismo.

Por outras palavras, estamos a assistir a uma investida neofascista contra o pensamento que é ainda mais vasta do que a investida macartista da década de 1950. É claro que mesmo no resto dos países imperialistas que não têm regimes neofascistas no poder, o pensamento crítico e a liberdade de expressão também estão a ser atacados. Na Europa, por exemplo, não só se assiste a uma ameaça totalmente infundada de expansionismo russo (quando a realidade é o expansionismo da NATO até às fronteiras da Rússia e até o estacionamento de tropas alemãs na Lituânia), mas também a um apoio total à ação israelense em Gaza. De facto, qualquer crítica à ação israelense está a ser alcunhada de antissemitismo; e reuniões para discutir o genocídio em Gaza foram canceladas na Alemanha por ordens oficiais.

Assim, os países imperialistas, quer sejam governados por regimes neofascistas, quer por regimes burgueses liberais, estão a atacar fortemente a liberdade de expressão e estão a tornar-se mais repressivos; os regimes neofascistas são, evidentemente, comparativamente mais repressivos, mas os regimes burgueses liberais não ficam muito atrás. Além disso, isto está a acontecer numa altura em que os países imperialistas também estão a aumentar as despesas militares. A Alemanha acaba de aprovar uma alteração constitucional que eleva o limite máximo do seu défice orçamental, de modo a poder gastar mais em armamento. Também a França e o Reino Unido estão a aumentar as suas despesas militares em relação ao seu produto interno bruto. Em suma, o capitalismo metropolitano está a entrar numa fase de militarismo repressivo como não se via desde a Segunda Guerra Mundial, o que é um mau presságio para os povos do mundo.

30/Março/2025

[NR] Ver In complying with Trump’s demands to crack down on free speech, Columbia confesses that money, not education, is its goal

Ver também:
The dark, McCarthyist history of deporting activists

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0330_pd/return-mccarthyism

António Gil - A ilusão de uma Europa pacífica



* António Gil

Um mito persistente mas agora moribundo.

Durante décadas acreditou-se que a União Europeia (antes CEE) seria a garantia de paz no continente. Eu mesmo, quando jovem acreditava nisso mas acordei para a dura realidade há mais de 3 décadas, por ocasião da guerra na ex Jugoslávia.

A crença era partilhada por muitos não europeus. Não por acaso, o neo con Robert Kagan escreveu que "Os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus". Marte, como se sabe, era o Deus romano da guerra e Vénus a Deusa do amor. E a expressão resultou de uma conversão do título de um livro do filósofo John Gray ‘’Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus’’.

Bom, ambas as ideias estão erradas. No que ao impulso belicista diz respeito, a Europa esteve na origem de duas guerras mundiais. E depois disso, não apenas no caso jugoslavo mas também na Líbia, os europeus (franceses e ingleses, no caso) foram os verdadeiros iniciadores da guerra, a administração Obama acabou por se lhes juntar mais tarde.

Se algum mérito Trump teve, no caso da guerra da Ucrânia, foi dar a machadada final na crença que os EUA são entusiastas da guerra e os europeus apenas os seguem. Ninguém agora pode mais acreditar nisso.

A indignação de Macron, Starmer, Baerbock e Merz diante da possibilidade dos EUA simplesmente se retirarem de uma guerra que eles teimam em continuar é evidente. Os apelos de Ursula, Kallas e Mark Rutte (um holandês) para o rearmamento europeu, falam por si.

Isto é tanto mais grave quanto sabemos que duas guerras mundiais na Europa arruinaram o continente e levaram a sua perda de influência mundial. Uma terceira guerra generalizada ao continente devia, por isso, fazer soar todos os alarmes e despertar todos os terrores.

No entanto, não se nota, nas opiniões públicas europeias qualquer agitação. Em alguns países fala-se de serviço militar obrigatório, a Dinamarca irá mobilizar também as mulheres, Ursula propõe um kit ridículo de sobrevivência para 3 dias e poucos cidadãos reagem a tais propostas.

Há um sonambulismo incompreensível dos europeus quanto a esta verdadeira ameaça a sua sobrevivência e ainda não entendi se ela resulta do cepticismo (ninguém acreditar em tal possibilidade) se de conformismo ou preguiça de reagir.

https://antoniojfgil.substack.com/p/the-illusion-of-a-peaceful-europe? 

terça-feira, 25 de março de 2025

Domingos Lopes - UM PROVOCADOR É UM PROVOCADOR JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS


*  Domingos Lopes


Confesso que só hoje vi a entrevista à RTP1 no dia 24, devido aos protestos do PCP e de outros comentários.

 Na verdade, a RTP 1 não encomendou ao pivô uma entrevista. Encomendou um julgamento, até no plano, tal como num tribunal, o pivô estava numa posição mais alta que o Secretário-Geral do PCP. E esse plano é brutal do ponto de vista psicológico no sentido de diminuir o entrevistado.

José Rodrigues dos Santos, ao longo dos dez minutos, apenas tinha em mente encurralar Paulo Raimundo e foi o que tentou fazer, comportando-se como se fosse o dono da RTP, e quisesse acusar o PCP de blasfémia por não aplaudir os deputados ucranianos. Por muito que P.R. explicasse que não aplaudiu aqueles deputados porque serem também responsáveis pelo facto de na Ucrânia os partidos social-democrata, comunista, e outros, menos os partidos ligados aos nazis – os Banderistas e os nazis do batalhão Azov – bem como os sindicatos estarem ilegalizados.

JRS impediu conscientemente que PR abordasse os temas relacionados com as eleições de 18 de maio. Seguramente não convidaram PR com a informação que a entrevista de 10 minutos seria exclusivamente sobre a Ucrânia.

JRS e os seus donos atraíram PR para uma entrevista sobre as eleições e depois de o “apanharem” nos estúdios enfiaram-lhe um enxerto de “porrada”, o que não conseguiram face ao desempenho do entrevistado. Trata-se de uma covardia sem limites. Como todos os covardes, JRS pretendeu ser forte com a eventual  “ fraqueza” do entrevistado face ao tema Ucrânia, onde o pensamento único, o do partido da guerra é dominante e ficam boquiabertos quando alguém ao arredio da bolha dos media se atreve a defender outra solução que não seja a do rearmamento e a da guerra.

Como se convidasse Luís Montenegro, Pedro Nuno dos Santos, e todos os outros dirigentes e, durante o tempo, lhes perguntasse os motivos de defenderem o envio de cada vez mais armamento para a Ucrânia e a razão de os seus partidos aplaudirem deputados  de um parlamento onde socialistas, social-democratas, comunistas e partidos de esquerda  estão interditos. Ou por que motivo defendem o envio de armas para a Ucrânia e não para a Palestina. E nem mais um segundo sobre o dia 18 de maio.

JRS prestou um péssimo serviço ao pluralismo que deve nortear a informação. Vestiu a farda de capataz e despiu a de jornalista. Foi um pouco mais longe. De cima da sua arrogância comportou-se como um velhaco. Só faltou piscar o olho em direto aos que com ele organizaram semelhante velhacaria.  

25 de Março de 2025

https://ochocalho.com/2025/03/25/um-provocador-e-um-provocador/

quinta-feira, 20 de março de 2025

Domingos Lopes - Gira, el mundo gira

 * Domingos Lopes  

Admite-se a dificuldade em acompanhar as grandes mudanças no mundo. Normalmente é mais fácil seguir o curso normal. Porém, o curso normal das coisas não é seguro. Muda, às vezes. Estamos a assistir e a participar num desses momentos de mudança. O que levou o nosso Camões a dizer que – todo o mundo é composto de mudança, tomando novas qualidades – e cá vamos nós atrás das mudanças que outros vão à frente.

A guerra nunca teria acontecido se a Rússia não tivesse invadido a Ucrânia e os EUA /UE/Zelenski não quisessem a invasão/guerra. Os ucranianos davam o sangue, a UE o apoio material (em boa medida) e os EUA alimentavam-na com sua poderosa máquina de guerra. Daí ser uma guerra do Ocidente por via dos proxys ucranianos que dependiam dos EUA em matéria de armamento.

Se recuarmos no tempo, os dirigentes ocidentais, designadamente os da UE posicionam-se hoje em frontal contradição com as suas declarações a garantir que não havia espaço para negociações e a Rússia teria de sofrer uma derrota estratégica. Em todos os media, salvo três ou quatro honrosas exceções, esta era a verdade única, a que podia ser difundida e foi ad nauseam.

A arrogância ocidental atingia o pico himalaiano. Os russos nem sequer tinham botas e as armas eram da 1ª guerra mundial. E provavelmente muitos daqueles fazedores de opinião acreditavam no que diziam, tão grande era, por que não dizê-lo, a sua burrice e, nalguns casos, a cretinice.

Esta guerra contribuiu para mudar o mundo. Os que a viam, perdidos no tempo dos filmes sem som e a preto e branco, não têm agora capacidade (talvez alguns mais refinados não queiram) de encarar a novidade no mundo. Ainda vivem no mundo hegemónico ocidental.

Os que seguiam os EUA para onde quer que eles fossem, não compreendem que o papel dos subservientes é serem-no e assim está cumprido o seu papel. Quando já não servem, são descartáveis. A História demonstra-o.

O aparecimento de um novo chefe de fila do grande Império com ideias iguais às do ex-chefe, mas com um caminho diferente para manter a hegemonia, baralhou os súbditos e deixou-os a esbracejar e a fazer proclamações ocas e próprias, na linguagem de Nitzsche, da décadence evidente partout.

António Costa, refiro-o por ser de cá do burgo, passou o seu tempo enquanto Primeiro-Ministro a proclamar que a Rússia tinha de ser derrotada. Ele e o seu governo. Ele e quase todos os dirigentes do PS. Ia atrás da Sra. Ursula, do Sr. Scholtz, do Sr. Macron, do Sr. Riki, do Sr. Steimer, do Sr. Borrel, do Sr. Stoltenberg e do atual Sr. Rutte e da Sra. Kaya Kallas e de tutti quanti.

O Sr. Presidente do Conselho Europeu acordou ontem no meio de esta longa letargia para vir acusar a Rússia de não querer negociar e, por isso, era preciso obrigá-la a negociar…Depois de terem prometido a Zelenski que se não assinasse o Acordo de Istambul, lhe daria todo o apoio as long as it takes.

Esta nata de dirigentes da UE são irresponsáveis e movem-se num mundo paralelo à realidade material. É de admitir que se sintam fora do tempo. Só que não voltam para dentro do tempo e continuam a correr numa realidade paralela e abusivamente a tentar impor às nações da UE e aos povos destas nações o fardo do partido da guerra.

Abraçaram – socialistas, liberais novos e antigos, populares e democratas-cristãos, certos verdes e outros de outras cores – o partido único, o partido da guerra.

Já nada têm a propor à Europa, a não ser a guerra. A Alemanha rearma-se e a França assusta-se. Macron está de partida. Mertz tem 30% e sem o SPD e os Verdes não anunciaria o que anunciou. Falou em 800 000 milhões para armas, grande parte delas para comprar aos EUA…

O rearmamento da Europa não é só para dar cobertura à russofobia; destina-se a manter os povos em estado de alienação e tentar cada uma das potências ficar com mais poder que a outra. A NATO quanto tempo durará? Sem o cimento do patrão…

Trump tenta dividir o eixo Rússia/Irão/China. O novo imperador trata de se ocupar de outros assuntos dada a quase insignificância da UE com tais senhoras e cavalheiras à frente dos seus destinos. Trump “compreendeu” que a escalada na guerra atingiria perigosamente o patamar nuclear. A UE, como não dispõe tal armamento, afirma-se como um garnizé frente ao galo da capoeira. Por isso, a UE está como está, com governos minoritários à espera de fazer aceitar o que já muitos aceitam, a extrema-direita.

Nem nestas circunstâncias, únicas para fazer a diferença, a UE e seus dirigentes são capazes de confiar nos povos respetivos e mobilizá-los para fazer do nosso fantástico continente um continente de paz, harmonia, liberdades, direitos, com um ambiente sustentável e de cooperação com todos os povos do mundo numa plataforma de segurança para todos, ucranianos, russos e todos, mesmo todos. Essa seria a melhor defesa da Europa. Os russos vieram a este lado da Europa para derrotarem em Berlim Hitler e a Paris atrás do exército napoleónico e regressaram de imediato. Os que vivem na Europa são europeus, desde Lisboa aos Urais. A Europa precisa de paz e cooperação para ser diferente e importante no mundo.

20 de Março de 2025 

https://ochocalho.com/2025/03/20/gira-el-mundo-gira/

segunda-feira, 17 de março de 2025

António Gil - Os líderes políticos actuais do ocidente foram escolhidos num casting



* António Gil


Os líderes políticos actuais do ocidente foram escolhidos num casting

Disso mesmo se gabou várias vezes Klauss Schwab, o patrão do Fórum Económico Mundial

.Se é verdade -como acredito que é - que a qualificação para a sobrevivência dos indivíduos, como dos povos, depende em larga medida da capacidade de adaptação a novas circunstâncias, então devo dizer que a civilização no seio da qual nasci parece irremediavelmente comprometida

Há um número indeterminado - mas grande - de indivíduos europeus, canadianos, americanos, australianos e neo-zelandeses que parecem ter ficado presos num tempo em que a URSS e os EUA putativamente decidiam os destinos do mundo. Bom, nem nessa época isso era verdade, imaginem agora, mais de uma geração depois.

Podemos certamente acusar os sistemas educativos e a propaganda ocidentais de tudo, certamente, menos de sofisticação. Não há nuances nem flexibilidade mental nas formas de conceber o mundo geo-político actual nas massas ocidentais. Só o preto e branco, sem sequer a qualidade imagética de Eisenstein, esse genial realizador que deixava os tons de cinzento implícitos, no seu gosto pelos grandes contrastes.

É tudo tão primitivo que ainda vemos gente falando sobre ditaduras comunistas e lutadores pela liberdade (anti-comunistas, dentro desse esquema simplista). E sim, para muitos a Rússia permanece comunista e os EUA os campeões do livre mercado, não importa quantas tarifas imponham aos produtos que …importam.

Tudo o que aconteceu depois do colapso do muro de Berlim? é como se não tivesse existido! se isto não representa um caso de estado coma mental, nem sei o que chamar-lhe. E não, isto não é uma percepção de ‘camponeses’, de gente iletrada, pelo contrário. Na verdade, esta visão foi imposta de cima para baixo, os ‘camponeses’ apenas papagueiam o que dizem suas supostas elites.

Nada disto seria novo, não se desse o caso de parecer cada vez mais evidente que as ditas ‘elites’ parecem realmente acreditar no que dizem. Em épocas históricas não tão distantes assim, a elite parecia ter -pelo menos - a noção que havia duas ‘realidades’ imiscíveis:
1- O que era preciso dizer à populaça para que esta se mantivesse ordeira. As elites do passado não acreditavam naquilo que diziam, mas sabiam o que era preciso dizer para manterem seus privilégios.

2- A realidade propriamente dita, que as elites conheciam e mantinham em circuito fechado, longe do conhecimento público. Essa realidade não era desprezada, dentro de um certo círculo, era mesmo estudada e aprofundada, com o mesmo objectivo: a manutenção ou ampliação dos privilégios próprios.

Hoje isso não parece acontecer. A própria elite parece acreditar piamente nas suas mentiras. Como explicar isso? 

Bom, na minha opinião a ‘elite’ que temos é pouco mais que um punhado de camponeses deslumbrados, pagos a peso de ouro mas nem por isso cientes do que dizem e do que fazem. Não são pessoas que alguma vez tivessem recebido (como os aristocratas do passado) qualquer rudimento da arte de governar, são ‘celebridades’, promovidas pelos mesmos processos que consagraram artistas da música pop ou do cinema. E tal como a maioria destes, vindos dos extractos mais baixos da sociedade. Talvez as chamadas democracias ocidentais se resumam a isto, afinal: pessoas escolhidas num casting para interpretarem o papel de governantes. E quando o casting falha, quem paga o ‘filme’ anula a escolha e avança com protagonistas de seu agrado, como aconteceu recentemente na Roménia.


mar 16, 2025
https://antoniojfgil.substack.com/p/the-current-political-leaders-of? 

António Rodrigues - “Mulheres” é uma das palavras censuradas pela Administração Trump

 

EUA 

Médicos de Harvard apresentam queixa na justiça pelo desaparecimento de ensaios de um site médico federal. Departamento de Defesa manda militares apagar milhares de fotos e textos.

António Rodrigues 

16 de Março de 2025, 17:39

No final deste artigo, veja a lista de palavras coligida pelo New York Times

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard apresentaram queixa na justiça na semana passada por causa da decisão da Administração Trump de fazer desaparecer uma série de artigos destinados a investigação médica do site governamental Patient Safety Network. Dizem os médicos que ensaios científicos com palavras como “trans” ou com a sigla LGBTQ foram pura e simplesmente apagados.

A ferramenta online destina-se aos profissionais de saúde e visa partilhar informações sobre erros médicos, diagnósticos erróneos e resultados de tratamentos. No entanto, por mais que a saúde precise de informação para trabalhar, o uso de determinadas palavras, mesmo em documentação científica, choca com as directrizes da Administração Trump no domínio da linguagem.

Há dias o New York Times trazia uma lista de quase 200 palavras proibidas que havia compilado de directivas e emails internos partilhados por membros do Governo. E a palavra “trans” e a sigla LGBTQ figuram nessa lista, junto com "racismo" e "anti-racismo", "diversidade", "igualdade", "discriminação" ou "discriminatório", expressões como "biologicamente feminino" ou "biologicamente masculino", "discurso de ódio", "pessoa que amamenta", "apropriação cultural", etc., etc.  

Em declarações à plataforma GBH, Cneleste Royce, professora assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva na Faculdade de Medicina de Harvard, mostrava-se chocada pelo desaparecimento súbito de um artigo, escrito há cinco anos, de que tinha sido co-autora. “Não me lembro de nada no artigo que possa ser controverso, para além do facto de se centrar na saúde das mulheres. E, sabe, acho que 'mulheres' é uma das palavras que está a ser censurada nessa lista”, disse.

E Celeste Royce tem toda a razão, a palavra “mulheres” faz parte da lista das palavras censuradas, tal como "fêmea", "fêmeas" e "feminismo". Para o acaso de alguém perguntar, a palavra “homens” ou “macho”, “machos” ou “masculinidade tóxica” não constam da lista ou expressões a silenciar.

"Golfo do México"

Na lista também consta a proibição de utilizar Golfo do México para designar o Golfo… do México. No seu primeiro dia de regresso ao cargo de Presidente, Trump emitiu uma ordem executiva a nomeá-lo Golfo da América, como se a toponímia pudesse variar quando uma pessoa quisesse. Mas, pelos vistos, nestes estranhos tempos em que nos toca viver, isso acontece e a uma velocidade estonteante.

Ainda não pssados dois meses desde que Trump tomou posse e o Departamento de Educação do Luisiana, estado que até agora era banhado pelo Golfo do México, já passou a incluir, desde a passada quarta-feira, no programa para as escolas primárias e secundárias que à costa do estado chegam agora as águas do Golfo da América e não do México.

“O Golfo é um motor de sustentação para o Luisiana – ajuda a alimentar o nosso sector energético e a indústria alimentar e de marisco e sustenta gerações de famílias”, afirmou Cade Brumley, superintendente de Educação do estado, que recomendou a alteração curricular, em declarações disponíveis no site do Departamento de Educação estadual. “A actualização dos nossos padrões académicos garante o alinhamento com a liderança do Presidente Trump e do governador Landry, ao mesmo tempo que reforça a importância do golfo para o futuro do nosso estado.”

É prática comum dos novos governos, nos Estados Unidos e noutros países, estabelecerem directivas sobre os termos da sua comunicação oficial, mas a longa lista de palavras censuradas por esta nova Administração mostra que a guerra contra aquilo a que chamam mentalidade woke assentou arraiais no executivo.

Como refere o New York Times, as palavras e frases listadas “representam uma mudança marcada – e assinalável – no corpus da linguagem utilizada tanto nos corredores do poder do Governo federal como entre os seus funcionários. São um reflexo inequívoco das prioridades desta administração.”

Desde “preconceito” ou “preconceituoso”, passando por “ciências climáticas”, “desfavorecido” ou “património cultural”, até acabar em “nativo americano” ou “multicultural”, o caderno censório da Administração Trump é alargado no léxico, mas transparente na ideologia.

"Enola Gay"

Timothy Noah, num artigo publicado na semana passada na New Republic, confirmava que a lista do New York Times não era exaustiva, tal como os autores do artigo salientavam, lembrando que o secretário da Defesa, Pete Hegseth, havia acrescentado Enola Gay à lista de expressões censuráveis, apagando assim o nome do avião que lançou a primeira bomba atómica (Hiroxima) dos sites oficiais. E com ele, provavelmente, o grande êxito homónimo dos Orchestral Manoeuvers in the Dark.

Hegseth, homem com longo passado de alcoolismo, acusações de assédio sexual e suspeitas de abusos de mulheres, pode até concordar com o bombardeamento de Hiroxima, o que não considera adequado é usar a palavra “gay” no nome do avião. “O lançamento da primeira bomba atómica foi durante muito tempo objecto de controvérsia, mas nunca por ter sido woke”, diz Noah.

De acordo com Associated Press, Hegseth enviou uma directiva às chefias militares a pedir que fossem apagadas pelo menos 26 mil imagens ou textos que constam dos sites oficiais, mas o número pode ascender a 100 mil.

“Referências a um galardoado com a medalha de honra da Segunda Guerra Mundial, ao avião Enola Gay que lançou uma bomba atómica sobre o Japão e às primeiras mulheres a passar o treino de infantaria dos fuzileiros navais estão entre as dezenas de milhares de fotografias e publicações online marcadas para serem eliminadas, à medida que o Departamento da Defesa trabalha para eliminar conteúdos sobre diversidade, igualdade e inclusão”, escreve a agência.

Até palavras aparentemente neutrais como "institucional" fazem parte da lista termos indesejados por esta nova Administração dos EUA. “Todos sabemos que Trump está determinado a destruir todas as instituições governamentais a que consegue deitar a mão, mas proibir a própria palavra eleva as coisas a um nível superior de fanatismo”, conclui Timothy Noah.



https://www.publico.pt/2025/03/16/mundo/noticia/

domingo, 16 de março de 2025

Aureliano - De quoi parlons-nous quand nous parlons de negociations?

Outro dos meus ensaios em francês 

* Aureliano

16 de março de 2025

Por favor, junte-se a mim mais uma vez para agradecer a Hubert Mulkens por outra tradução brilhante de um ensaio recente meu. Esta é uma tradução francesa do meu ensaio "Sobre o que falamos, quando falamos sobre conversas", que apareceu pela primeira vez em 19 de fevereiro. (E obrigado mais uma vez a Catherine por ler e comentar a tradução.) Suscitou um interesse considerável e alguns comentários na versão inglesa: esta tradução irá, espero, dar àqueles que têm o francês como primeira língua, uma oportunidade de ler e comentar também. Como sempre, estou muito feliz que as traduções dos meus ensaios para outros idiomas apareçam: peço apenas que você me informe e forneça um link para o original. Então agora vamos dar a palavra a Hubert ...

O novo secretário de Defesa dos EUA, Sr. Hegseth, anunciou com um timing impecável a revisão da política dos EUA em relação à Ucrânia, na esteira da conversa telefônica Trump/Putin, assim como meu último ensaio foi publicado. Portanto, ainda não tive a chance de escrever nada sobre esses desenvolvimentos, mas se você ler o site recomendado "Naked Capitalism" naquele dia (o que deveria), terá visto alguns dos meus primeiros pensamentos em e-mails trocados com Yves Smith. E como Yves gentilmente me deu a entender que eu poderia produzir um ensaio útil sobre o assunto, particularmente sobre o aspecto da negociação, bem, decidi fazê-lo.
 

Artur Queiroz - Angola | A ÁGUA QUE MATOU ZITA


domingo, 16 de março de 2025

<> Artur Queiroz*, Luanda ---

Oficialmente hoje é o dia da expansão da Luta Armada de Libertação Nacional. Para mim é o dia da Grande Insurreição Popular que varreu o Norte de Angola, de Sacandica aos Dembos. Na minha terra só existia escola primária e tive de ir estudar para a cidade do Uíje, no ensino secundário. Regime de internato. Tínhamos um líder, o Beto Martins, ao qual chamávamos, exactamente por ser um líder, Beto Lumumba. 

Naquele ano tínhamos exame e por isso não fomos a casa nas férias da Páscoa. Aulas de reforço, para não fazermos má figura e o colégio não ter “chumbos” no currículo.

Arlindo era o aluno mais velho do internato, 17 anos. Esteve vários anos sem estudar e retomou os estudos quando os pais puderam pagar-lhe o internato. 

No ano lectivo de 1960/1961 apareceu no internato um menino que ainda andava no ensino primário. Chamava-se Jorge Gonçalves e vinha de Sacandica, onde o pai era comerciante. Adoptado como nosso mascote. Todos o protegíamos. Muitos anos mais tarde ele foi presidente do Sporting Clube de Portugal. As voltas que o mundo dá!

No internato tínhamos um sapateiro que remendava os nossos sapatos. Veio do Cuanza Norte e o seu sonho era chamar a esposa e filhos À noite fazia de guarda. Aos fins de semana saltávamos a janela e íamos para as farras do Candombe. O guarda era conivente com os fugitivos. Um amigo do peito.

Lá na farra dançávamos a noite inteira. As meninas do bairro eram gentis, bonitas e bailarinas elegantes. Uma delas, por feliz coincidência, arranjou trabalho como ajudante da Candidinha, senhora que cozinhava para os alunos internos.

No dia 15 de Março, os guerreiros da UPA atacaram as fazendas do norte e mataram os brancos. Mas também trabalhadores “bailundos”. Nas pequenas vilas isoladas também atacaram com canhangulos, catanas e paus. Avançavam gritando maza, maza, maza quando os colonos disparavam as suas caçadeiras e carabinas sobre os atacantes. Quem aderiu à insurreição recebeu uma muxinga e um pau. Usando aqueles amuletos ficavam invulneráveis. As balas dos brancos eram água!

Essa água matou o sapateiro e guarda do internato. Há quem estivesse na cidade do Uíje e não visse nada. Eu vi mas preferia não ter visto. A água que matou o sapateiro também me matou. 

A Candidinha, no dia 16 de Março, gritava desalmadamente. Fomos saber o que tinha acontecido. A água matou Zita, a menina do Candombe, bailarina, alegre, gentil. A água naquele dia matou centenas de negros nas ruas da cidade do Uíje. Em frente ao internato havia um descampado. Estava juncado de cadáveres. Gente que levava as imbambas. Iam fugir da água. Há quem não tivesse visto nada, vivendo no Uíje. Eu vi. Antes não visse.

O Beto Martins é mestiço. Vivia com os padrinhos brancos. Durante uma semana desapareceu. A água matou-o? Não. Ficou aterrorizado com a fúria assassina das milícias dos colonos. O nosso líder ficou com medo da água. Só queria sair dali. Em Maio saímos todos. Fomos em viaturas militares até à Base Aérea do Negage e apanhámos um avião de carga, o Nordatlas. Em Luanda instalaram-nos num centro de refugiados e retomamos as aulas no Liceu Salvador Correia. Aprovamos todos nos exames!

A água do 15 de Março 1961, data da Grande Insurreição Popular no Norte de Angola matou milhares de inocentes. Pôs milhões em fuga para o Congo. 

Há quem não tivesse visto nada. Eu vi. Antes não visse. 

Hoje é o dia em que me lembro da água que matou Zita. A água que nos matou a juventude.

* Jornalista

at março 16, 2025 

https://paginaglobal.blogspot.com/2025/03/angola-agua-que-matou-zita-artur-queiroz.html

Alexandra Lucas Coelho - O Grande Irmão já está aqui, da polícia alemã aos EUA. A usar os judeus como arma

* Alexandra Lucas Coelho, 

in Público, 15/03/2025)


Daniel Day no topo do Big Ben com a bandeira da Palestina

(Este texto é perturbador. A causa de Israel e a suposta luta contra o antissemitismo estão a ser usadas nas “democracias” ocidentais para cercear os direitos civis, mormente a liberdade de expressão e manifestação. É esta a denúncia da autora que, ao que parece, acaba também de ser silenciada pois diz que a sua coluna no Público termina por ora. Junta-se, assim, ao Viriato Soromenho Marques, já silenciado no Diário de Notícias. E viva a democracia…

Estátua de Sal, 16/01/2025)

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1.O dia 8 de Março de 2025 — sábado passado — dava um livro. Pouco antes das 7h30, hora de Londres, a polícia de Sua Majestade foi chamada porque um homem escalava o Big Ben descalço com uma bandeira da Palestina. E por mais de 16 horas manteve-se lá, a 25 metros, agarrado à torre, fazendo flutuar a bandeira, pés em chaga como um Cristo. De nome judeu, aliás, porque o Cosmos tem sempre os melhores argumentistas: Daniel Day. Valeu, Daniel.

Este 8 de Março já era dele. Mas durante o tempo em que ficou lá em cima, o céu sobre Berlim e sobre a Casa Branca deu ainda mais sentido àquela escalada, aquele alegre sacrifício. Porque pelas 17h30, hora alemã, a polícia com a palavra POLIZEI incandescente no blusão dava murros na cara dxs manifestantes do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Não de todas, claro, só dxs que tinham keffiyehs e bandeiras palestinianas, por não separarem a luta pela sua liberdade da liberdade da Palestina. Vi muitas imagens no Instagram, falei com pessoas que lá estavam. Uma delas, portuguesa, foi-me apresentada por um palestiniano. Eles conheceram-se na Europa como aprendizes de luthiers: fazem violas, violinos, violoncelos. Eu conhecera-o em Ramallah. Quando voltei lá depois do 7 de Outubro, passei o Ano Novo com a família dele, então antes da meia-noite ele fez uma chamada-vídeo para apresentar aquelas duas pessoas portuguesas, uma moradora em Berlim, a outra ali ao lado. Foi assim que vi Consti a primeira vez. E neste 8 de Março ali estava a mesma cara nos vídeos com a POLIZEI. Consti levou murros, pontapés, pisadelas da polícia, ficou a sangrar, nariz e boca, a companheira foi brutalmente algemada, revistada e detida, ficou a precisar de tratamento médico.

A violência estatal alemã anti-Palestina tem crescido desde o 7 de Outubro, já carregara sobre os manifestantes na Universidade de Humboldt, e tantos outros. Mas eu nunca tinha visto a POLIZEI da maior potência da UE como agora. Pessoas indefesas e já imobilizadas, algumas a sufocar, a tentarem proteger-se com as mãos, esmurradas como um saco de boxe, arrastadas pelo chão. Bom dia, boa noite, António Costa, um comentário? Nossos governantes parceiros dos alemães, nada?

2.Mas este 8 de Março ainda estava longe de acabar. Porque enquanto Daniel continuava empoleirado e descalço na madrugada gélida de Londres, e as feministas dormiam feridas em Berlim, na Costa Leste dos EUA já era noite mas ainda hora para a polícia de imigração, a ICE, ir prender Mahmoud Khalil à sua residência da Universidade de Columbia, NYC, diante da mulher grávida de oito meses. Sem mandado de captura, e levando-o de imediato para um estado a milhares de quilómetros, o Luisiana. Um rapto oficial.

Trump celebrou com post. Atribuiu a Khalil actividades “pró-terroristas, anti-semitas, anti-americanas” e fez saber que aquela prisão, antecedendo deportação, seria “a primeira de muitas”. A ordem fora dada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, invocando uma cláusula remota, raramente usada, para ameaças à segurança dos EUA. Acusam Mahmoud de ser pró-Hamas sem provas. Ele acaba de completar o mestrado, é residente permanente com Greencard, já passou pelo escrutínio de uma organização inglesa com quem trabalhou. É preso agora apenas por ter sido um dos líderes dos protestos de Columbia contra a guerra em Gaza, pelos direitos palestinianos. Porque para o Grande Irmão de 2025 os direitos palestinianos são terrorismo.



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3.Mahmoud Khalil é fruto da limpeza étnica de 1948, quando Israel foi fundado e centenas de milhares de palestinianos foram forçados a fugir. Os avós de Khalil eram da Galileia, de uma aldeia perto de Tibérias, então fugiram para a Síria. Duas gerações depois Mahmoud nasceu num campo de refugiados do sul de Damasco. Portanto, um daqueles milhões de humanos que Israel continua a transformar em refugiados mal nascem. Alguns conseguem ir para fora, depois ficar residentes, como Mahmoud, agora casado, prestes a ser pai. Já enfrentara a repressão dos protestos em Columbia e com Trump tudo piorou (no terreno fértil para isso deixado por Biden e pela maioria dos Democratas). Trump cortou 400 milhões de dólares de apoio a Columbia. Dias antes de ser preso, Mahmoud avisou Columbia que corria riscos. Em vão. A polícia pôde ir lá raptá-lo. E Columbia anunciou entretanto expulsões de outros estudantes pró-Palestina, em vez de os proteger. É o futuro da universidade que está em jogo. A liberdade de expressão da Primeira Emenda. A democracia, em alerta vermelho. Mahmoud Khalil é já o primeiro prisioneiro político da era Trump/Musk. Em nome de uma suposta protecção aos judeus.

Milhares de judeus lutam contra isso, e depois da prisão de Mahmoud tomaram o átrio da Trump Tower, quase 100 foram presos. Camisas ou cartazes diziam: “Não Em Nosso Nome”, “Nunca Mais É Para Toda a Gente”, “Parem de Armar Israel”, “A Oposição ao Fascismo É Uma Tradição Judaica”, “Liberdade para Mahmoud, Liberdade Para a Palestina”. Recusam, assim, serem os judeus úteis de Trump, as vassouras da dissidência. Porque a Trump — avisam biógrafos — não interessam os judeus. A Trump, narciso colossal, interessa Trump, a sua glória, a sua estátua de ouro no mundo. Os reféns interessam-lhe (felizmente para vários libertados) como o anti-semitismo lhe interessa: enquanto for útil.

E nada alimenta tanto o anti-semitismo como o Estado de Israel, hoje a maior ameaça para os judeus do mundo. Quase como se um anti-semita estivesse a puxar os cordéis por trás de Israel. Se alguém montasse uma conspiração não faria melhor. Israel é detestado nas ruas do mundo: eis o desfecho do sionismo. Os judeus dos nazis e de há séculos — os perseguidos, os exterminados — são hoje os palestinianos. E toda a gente que esteja com eles, de Berlim aos EUA, está sob mira, ou já atacado. Porque judeus, palestinianos e quem quer que os defenda são ratos de laboratório para o Grande Irmão.

4.Entrámos na segunda semana de Março com dezenas de milhares na Cisjordânia a deambularem por montanhas de lama e entulho, sem terem para onde ir em pleno Inverno, porque Israel acaba de lhes destruir as casas. Enquanto em Gaza continua a impedir toda a entrada de comida e ajuda. “Isto não é um cessar-fogo. É um abrandar da violência militar mas a morte pela fome”, disse Michael Fakhri, relator da ONU para o Direito à Alimentação. Ao mesmo tempo que o Conselho de Direitos Humanos da ONU apresentava uma investigação: Israel cometeu “actos genocidas” em Gaza, atacando a saúde materna, neo-natal, reprodutiva; e pratica violência sexual e de género, incluindo violação. Ontem vi o testemunho de um palestiniano a quem os soldados urinaram em cima e violaram com um pau. Mais um.

Antes, tinha visto o directo que o “Democracy Now” (um tesouro do jornalismo audiovisual) conseguiu fazer com dois médicos voluntários no Nasser Hospital de Khan Yunis, Gaza. Um deles, Mark Perlmutter, é judeu americano. Já o tinha ouvido dizer que a sua experiência de 40 missões em 30 anos, toda somada, “não se compara com a carnificina” que viu na primeira semana em Gaza, as crianças desfeitas, ou atingidas com precisão no peito pelos “melhores snipers do mundo”. E agora contou o que aconteceu com um seu colega palestiniano cirurgião ortopédico de crianças, levado pelas tropas de Israel em Fevereiro de 2024, libertado há pouco. Partiram-lhe os dedos, danificaram os nervos das mãos com que opera, mostraram-lhe fotos da esposa dizendo como a iam violar em grupo se ele não admitisse ser do Hamas. Onde estão os médicos de Israel? Que juramento fizeram?

Entretanto, a palestiniana Educational Bookshop, em Jerusalém Oriental, foi de novo invadida pela polícia, que desta vez deteve Imad Muna, 61 anos, a quem comecei por comprar cadernos e jornais há mais de uma geração. Na pilha dos livros confiscados estavam Joe Sacco, Rashid Khalidi, Noam Chomsky, Ilan Pappé.

Lembro-me da indignação de tantos liberais por se mexer em livros em nome do politicamente correcto: subscrevo, sempre estarei contra. E agora, que não é um parágrafo, é mesmo a caça às bruxas, é mesmo o Grande Irmão: vão defender a liberdade?

A propósito de Daniel Day, com os pés em chaga no Big Ben, também pensei nos vendilhões do Templo. E hoje mesmo li que Israel e os EUA tentaram vender os palestinianos de Gaza ao Sudão e à Somália.

Gaza é o marco do nosso tempo. Nunca mais desde o rio até ao mar.

*Esta coluna para aqui por tempo indeterminado.

https://estatuadesal.com/2025/03/16/o-grande-irmao-ja-esta-aqui-da-policia-alema-aos-eua-a-usar-os-judeus-como-arma/
https://www.publico.pt/2025/03/15/mundo/cronica/irmao-ja-aqui-policia-alema-eua-usar-judeus-arma-2126063

segunda-feira, 10 de março de 2025

Karla Pisano - 8 de Março: Contaram-nos a história errada


 
* Karla Pisano

Lembro-me de quando no secundário os professores nos falavam sobre a origem do dia 8 de março. Contaram a história das 140 trabalhadoras que morreram num incêndio numa fábrica de camisas em Nova Iorque. Portanto, a origem do “Dia Internacional da Mulher” foi nos Estados Unidos e a sua declaração oficial veio da ONU em 1975. Nada poderia estar mais longe da verdade; Nem os Estados Unidos, nem a ONU, nem o “Dia da Mulher”. Foi em 1910, na Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada em Copenhaga (criada em 1907 e que reuniu as mulheres da II Internacional) que, por proposta de Clara Zetkin, se decidiu por unanimidade celebrar o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. Em 1917, o dia 22 de fevereiro foi comemorado na Rússia, dia em que se iniciou a Revolução de Fevereiro, e mais tarde, com a alteração do calendário, os soviéticos decidiram instituir o dia 8 de março como o Dia da Mulher Trabalhadora. Com a ajuda de grupos socialistas, o dia espalhou-se por diferentes países. O adjetivo “trabalhador” foi removido pela ONU em 1972 e não foi oficialmente celebrado nos Estados Unidos até 1992. História inócua não é história, portanto, esquecer ou retrabalhar a origem de uma data como esta é um bom exemplo do revisionismo a que a história do movimento operário foi sujeita. O feminismo de elite, uma vez institucionalizado, construiu uma narrativa que tenta apresentar a história da emancipação das mulheres como algo oposto à história da emancipação dos trabalhadores. O século XIX e grande parte do século XX testemunhariam a natureza conflituosa entre género e classe. Esta visão não é apenas historicamente falaciosa, mas politicamente prejudicial.

Em primeiro lugar, digo que é falacioso em termos históricos porque basta um olhar rápido para a história dos últimos dois séculos para perceber que alguns dos avanços mais importantes para a questão das mulheres trabalhadoras vieram de experiências e debates históricos dentro do movimento proletário. Claro que esta não é uma história isenta de contradições, avanços e recuos (como todos os processos históricos de mudança), mas isso não nos impede de deixar de reivindicar o extenso legado do movimento socialista no que diz respeito às mulheres trabalhadoras. Se a construção de uma frente de mulheres socialistas contra a dominação de género e pela constituição da mulher trabalhadora como sujeito político ativo em prol do socialismo não tivesse sido uma tarefa assumida pelo movimento proletário, como explicar então os seus primeiros contributos para a questão da mulher trabalhadora no capitalismo? Como explicar que muito antes de Simone de Beauvoir escrever O Segundo Sexo,  Augusta Bebel primeiro e Engels depois já tivessem publicado contributos para a crítica da família e da sexualidade. Se o socialismo não tivesse sido um elemento político importante entre as mulheres, como poderíamos explicar o aparecimento de líderes comunistas tão destacadas (não dedicadas exclusivamente ao trabalho feminino) como Rosa Luxemburgo, Klara Zetkin, Aleksandra Kolontái e Dolores Ibárruri? Como podemos explicar que uma “onda feminista” antes da Dama de Ferro Margaret Thatcher pudesse ser reivindicada como a mais famosa primeira-ministra mulher, em 1969 Sirimavo Bandaranaike, membro do  Partido da Liberdade do Sri Lanka , socialista não alinhado , foi eleita a primeira primeira-ministra mulher do mundo; onde e no atual Sri Lanka. Como podemos explicar que os primeiros partidos a assumir as reivindicações dos direitos laborais, políticos e civis das mulheres tenham sido os partidos socialistas, e que o primeiro governo a implementar algumas das medidas mais progressistas (o direito ao divórcio igualitário, a legalização do aborto, a criminalização da violação conjugal, etc.) tenha sido o governo bolchevique? Por outro lado, o papel de liderança que as mulheres trabalhadoras desempenharam nas sucessivas revoluções dá conta do seu potencial político emancipatório, enquanto sujeitos duplamente oprimidos: o papel das mulheres nas chamadas Marchas de Outubro, protestos contra a escassez de farinha que conduziram à Revolução Francesa; a participação indispensável das mulheres atrás das barricadas nas revoluções de 1848; ou os protestos das operárias têxteis de Petrogrado que conduziram à Revolução de Fevereiro.

Mas, como sabemos, estes ciclos revolucionários não foram capazes de superar a organização social que nos explora e oprime. Perante isto, o feminismo burguês apressou-se a declarar a morte política do projeto de emancipação universal; A “mulher” teve de se emancipar pelos seus próprios meios, como sujeito unitário interclasse. Isto leva a um divórcio cultural e político entre a luta pela emancipação das mulheres trabalhadoras e a revolução socialista, a par do enfraquecimento das opções socialistas. Depois das “quatro vagas feministas” creio que estamos em condições de dizer que a premissa introduzida pelo feminismo burguês era falsa: não há contradição entre a emancipação das mulheres trabalhadoras e a emancipação de classe, e o projecto feminista que preconizava a construção de um sujeito político de género desligado da luta de classes acabou por se tornar uma muleta necessária ao reformismo e a sua transformação não foi além do que a dominação de classe permitia. Assim, este movimento identificou-se com a defesa prioritária dos problemas que afligiam as mulheres mais abastadas (teto de vidro, políticas relacionadas com a identidade e a representatividade…), relegando sistematicamente para segundo plano as condições de vida da maioria das mulheres.

No dia 8 de março, nós, mulheres socialistas, temos um legado histórico a reivindicar, não como mera comemoração folclórica de um passado dissecado e dogmatizado, mas como testemunha do processo, inacabado, mas veemente, que nos recorda aquele axioma pelo qual nos reconhecemos nesta luta: Não há emancipação da mulher trabalhadora sem uma revolução socialista, mas também não há revolução socialista sem a emancipação da mulher trabalhadora. As mulheres trabalhadoras devem estar na vanguarda desta luta, não só porque o projecto de uma sociedade comunista contém as premissas necessárias para pôr fim à nossa dominação e exploração, mas porque sem nós não há emancipação possível.

FONTE   https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/03/07/feminismos-8m-nos-han-contado-mal-la-historia/

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/03/8-de-marco-contaram-nos-historia-errada.html

y Resumen Latinoamericano on 7 marzo, 2025

sábado, 8 de março de 2025

Zaíra Pires - Dia Internacional da Mulher Branca

? Zaíra Pires, Blogueiras Negras

Mais um 8 de março se aproxima e recebemos aquela enxurrada de chorume em nossas existências femininas nos “homenageando” por sermos delicadas, amorosas, resilientes, submissas, mães, esposas, damas na sociedade e amantes ardentes entre quatro paredes.


Todo esse repentino amor tem hora pra começar e acabar, durando o tempo do mês de março, da semana do 8 ou só desse dia mesmo, de acordo com o tanto de baboseira que cada um consegue produzir.

Nesse sentido, as mulheres homenageadas são sempre as mesmas: brancas, jovens, magras, ocidentais, cristãs e cisgêneras.

E para não perder o costume, nós, as pretas neuróticas, recalcadas, mal amadas e que veem racismo em tudo, vamos direcionar nossa crítica destrutiva ao bode expiatório da vez: a Riachuelo e sua campanha pela Semana da Mulher Brasileira 2014 (leiam ironia nas minhas palavras, por favor)

ver aqui o vídeo referido no artigo


Dia da Mulher Brasileira - Propaganda Riachuelo 03/2014

Como podemos ver no vídeo, a mulher brasileira padrão, essa do comercial, corresponde exatamente ao padrão médio da brasileira, afinal, somos majoritariamente brancas, loiras, com traços faciais finos e tão magras e altas como sílfides mitológicas. Uai, não somos?

E então que a presença negra no comercial é de uma mão que serve. Um corpo sem cara, que não consome, não tem vontades, sequer existe, apenas serve. Uma sombra semivivente que só se presta a apoiar a existência da sua senhora.

Sim, porque a mulher que deve ser homenageada na semana da mulher é aquela branca que trabalha fora, independente, bem resolvida, que limpa a casa, cuida dos filhos, serve ao seu marido e sempre está com as unhas feitas e a depilação em dia. Essa é uma super mulher que consegue viver seus rompantes de modernidade sem deixar de lado suas obrigações femininas. Essa merece ser louvada e ganhar um desconto nas compras da semana por cumprir suas funções com tanto esmero.

A preta que sustenta a família com seu salário do subemprego, que enfrenta 5 horas de ônibus sujeita a abuso sexual, que vê seu filho ser morto pela polícia, que morre por complicações aborto inseguro, que está fadada ao serviço doméstico desde sempre como se isso fosse inerente à sua existência, que suporta as investidas sexuais do patrão e do filho do patrão para não perder o sustento dos seus, que é a principal vítima de negligência na saúde pública, que deixa seus filhos sozinhos em casa pra cuidar dos filhos da patroa branca, que é a maioria entre as trabalhadoras do sexo, que não completa os anos básicos de estudo porque precisa sair para trabalhar, que tem que se virar em quinze para viver e ainda manter o sorriso no rosto, essa não merece as homenagens desse dia.

Na verdade essa mulher é a serviçal que deve se alegrar por ter a honra de ver seus braços pretos aparecerem na televisão.

Afinal, o que a Riachuelo nos diz com esse filme, e o que muitas outras nos dirão nessa semana, é que mulher negra consumidora é paradoxo, e já que ela não existe, porque deveria ser representada numa propaganda? Quem disse que preta tem dinheiro? Quem disse que preta compra alguma coisa? Quem disse que preta entende de publicidade?

Pois estamos aqui, consumidoras, pensadoras, cidadãs, formadoras de opinião, dizendo que esse comercial não nos representa. Durmam com esse barulho!

2014 03 08

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=237240&id_secao=8

Viriato Soromenho-Marques - Na tempestade de fogo


Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

* Viriato Soromenho-Marques


Na guerra da Ucrânia, os soldados dos dois lados, mortos e feridos, não têm direito à revelação completa dos nomes. A lista de baixas está transformada num segredo de Estado. A batalha que se trava nos jornais e nas televisões é de pólvora seca verbal. Que sabemos, verdadeiramente, sobre a experiência desses soldados, homens e mulheres, ucranianos e russos, dilacerados nesse inferno de fogo e sangue lavrando há quase três anos?


Para nos aproximarmos de uma resposta teremos de recuar à I Guerra Mundial (I GM). As semelhanças esmagam. Duas guerras de dominância industrial e tecnológica. Novas e antigas armas encontram-se reunidas num concerto letal, colocando o mais treinado e valente dos guerreiros numa situação de impotência e acaso perante o fogo de artilharia, o ataque de drones e mísseis, as minas, a investida dos tanques, o tiro furtivo dos snipers, o fogo de armas ligeiras, os ataques aéreos a distâncias que inibem qualquer defesa por antecipação. Na I GM não ameaçavam drones assassinos, mas imperavam os gases venenosos, banidos hoje dos teatros de operações. Na I GM, o combate desenrolou-se, a partir do final de 1914, numa linha contínua de fortificações, que, na frente ocidental, correspondia aos 750 km que vão do Mar do Norte até à fronteira franco-suíça. Na Ucrânia, a frente fortificada estende-se por mais de 1200 km. Nos dois conflitos a maioria das baixas é causada pela arma de artilharia. As condições dos combatentes nas trincheiras são, em ambos os casos, de enorme dureza, e os tempos médios de sobrevivência (sem algum tipo de ferimento), podemos alvitrar, serão de escassos meses.


Ernst Jünger
Para quem queira conhecer (e sentir) melhor a brutalidade do esforço que Kiev e Moscovo pedem aos seus soldados nesta guerra (nada comparável com as campanhas assimétricas travadas pelos EUA contra rivais muito inferiores) aconselho a leitura do melhor livro sobre a I GM: Tempestades de Aço (edição portuguesa de Guerra & Paz, 2023), da autoria do grande escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998), na altura um jovem oficial, miraculosamente sobrevivente a quatro anos de combate contínuo, pontuado por catorze ferimentos graves: “Cinco tiros de espingarda, dois estilhaços de granada, uma bala de granada, quatro granadas de mão e dois estilhaços de projétil de espingarda” (p. 278). Em setembro de 1918, Jünger receberia a mais alta condecoração militar prussiana, Pour le Mérite, normalmente apenas atribuída a generais e marechais.


O livro baseia-se nas anotações dos seus diários de guerra. Nele se pratica um hercúleo exercício de distanciamento e objetividade, tratando a guerra como se fosse um cataclismo natural, semelhante a um sismo ou um furacão. A narrativa está povoada pelos nomes de companheiros mortos, por gratidão com camaradas que por ele deram a vida, pela lembrança de soldados inimigos, mortos pelas suas armas, ou por ele poupados. Entre 1920 e 1978, o livro conheceu sete edições, revistas parcialmente. Na última edição, Jünger, a propósito de um jovem soldado inglês abatido pela sua espingarda, acrescenta o seguinte: “Mais tarde, pensei nele muitas vezes, cada vez mais, com o decorrer dos anos. O Estado, que nos isenta da responsabilidade, não nos pode libertar da dor; temos de ser nós a lidar com ela. Ele penetra até às profundezas dos nossos sonhos” (p. 235). Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

Diário de Notícias, 2025/01/03

https://azoreantorpor.wordpress.com/2025/01/04/


James Brown - I feel good (Good Morning Vietnam Soundtrack) 1988

Viriato Soromenho-Marques - PORTUGAL À DERIVA NA TEMPESTADE – quatro notas de leitura

Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.

* Viriato Soromenho-Marques


As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.

Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.

Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia. O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.

Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.

Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.

Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar.

(Publicado no Jornal de Letras, edição de 5 de março de 2025)

Post scriptum. O artigo acima foi escrito antes da famosa “disputa” de Zelensky contra Trump e toda a sua equipa na Sala Oval, no dia 28 de fevereiro de 2025. Aconselho os leitores do Azorean Torpor a visionarem o filme completo (49’47’’), antes de fazerem coro com a transformação de Zelensky numa vítima heróica. Fazer um juízo a partir da parte final dessa conversa, satisfaz o alinhamento manipulatório que foi dado na Europa a essa longa conversa. Também não tenho simpatia por Trump, mas reconheço que existe um esforço sério da sua administração para acabar com esta guerra, em absoluto contraste com a corrida para o confronto total com a Rússia a que nos conduziria a continuação da política de Biden e Blinken. Pelo contrário, Zelensky aproveitou a amabilidade dos seus anfitriões norte-americanos para mostrar, perante um auditório universal, a sua total oposição a esse processo de paz. Para um cidadão europeu, ao fim de três anos de guerra, não perceber onde é que está o nosso interesse vital, preferindo o discurso de ódio ao discurso da via diplomática, significa até que ponto chagámos na Europa a um lamentável estado de degradação da nossa capacidade coletiva e individual de distinguir entre o que é essencial e o que é perigosamente ilusório.

2025 03 06 

https://azoreantorpor.wordpress.com/2025/03/06/