sábado, 6 de junho de 2026

Brecht e Gino Strada: guerra e paz

 

2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.

O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.

Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.

Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):

ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!

(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)

ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.

FEDERZONI: Tem calma.

ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.

GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.

(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)

ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.

(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)

GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.

O detalhe da adaptação no mural

No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).

O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.

Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".

A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:

  1. A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.

  2. Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.

Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)

Luís Osório - O dia em que começámos a traficar escravos

                                     

* Luís Osório 


POSTAL DO DIA
1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
LO

2026 06 06
https://www.facebook.com/luis.osorio.940/posts/postal-do-dia-o-dia-em-que-come%C3%A7%C3%A1mos-a-traficar-escravos1orgulho-me-da-nossa-his/27663786879891636/

José Pacheco Pereira - Comer em tempos difíceis

No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.

* José Pacheco Pereira

6 de Junho de 2026

Ao dar-se o nome ao debate de que vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno Teixeira.

Tudo aqui é pouco comum, a começar por essa organização, única em Portugal, de um conjunto de arquivos privados e públicos cobrindo desde a memória da CUF ao património industrial, aos movimentos sociais operários de resistência ao Estado Novo, nessa terra especial que era o Barreiro, à memória dos seguros, dos Portos de Lisboa, Sesimbra e Setúbal, de escolas profissionais e politécnicos, e associações de artistas, colaborando entre si sob o título Cidade dos Arquivos. Em tempos de competição pelos escassos bens da fama, do dinheiro, pelo protagonismo do “nome”, isto é hoje muito pouco comum.

Comer em tempos difíceis

A Cidade dos Arquivos olhou para o Dia Internacional dos Arquivos e fez diferente, olhou para o “comer, beber, cozinhar e temperar”. A realidade daquela que foi a maior concentração industrial do país tornava esses actos vitais de sobrevivência uma experiência individual, familiar e colectiva, ímpar. Tabernas, mais que restaurantes, cantinas para os almoços, uma experiência colectiva nas fábricas, produtos locais para o consumo de quem tinha pouco dinheiro, e uma sociabilidade especial.

Voltando ao “comer em tempos difíceis”, vai-se falar com gente com experiências únicas e que normalmente não ascende à plataforma “intelectual” do debate. Cada uma traz uma memória especial do que era arranjar comida com pouco ou sem dinheiro. O primeiro interlocutor é um padre operário, Luís Martins Ferreira, cujo livro autobiográfico, O Trono e o Altar, é um retrato único de um grupo de padres que viveram toda a vida como operários, neste caso na Equimetal. Em 1984, com os salários em atraso, um grupo de trabalhadores da Equimetal, liderados pelo padre operário, combinaram ir ao único supermercado do Barreiro, o Pão de Açúcar, encher os seus carrinhos de alimentos e, na saída, dizerem na caixa que a conta devia ser mandada à Equimetal. A PSP e a administração barraram a saída e os trabalhadores deixaram os carros de compras e foram à rua, sendo recebidos com grande apoio. A comunicação social não se interessou pelo assunto e só depois de uma intervenção do bispo Manuel Martins é que o Governo de Mário Soares preparou um plano dedicado aos problemas sociais dos trabalhadores na península de Setúbal.

 O segundo e o terceiro interlocutores que vão participar no debate representam grupos de profissões duras e pobres que desenvolveram estratégias de ajuda às suas famílias e aos seus companheiros/as. Rogério Correia, pescador ligado à associação de pesca local Os Camarros, fala sobre o “Peixe Pró Gato e Rabisco”, que era suposto ser deitado fora ou servir para os animais, gatos neste caso. Não foram gatos, mas homens e mulheres que dependiam desse peixe, deitado fora ou apanhado na lama das marés baixas, quando os pescadores “rabiscavam” a lama e o peixe escondido saltava.

 

 A gastronomia no Barreiro foi durante muito tempo uma “gastronomia” muito especial, feita por pobres para pobres, no limiar da subsistência. É por isso uma maneira diferente de comemorar o Dia Internacional dos Arquivos, com a essência do que é a memória e o seu papel social


Por fim, vão ouvir-se as operárias da indústria conserveira (Conceição Sobral, Alice Silva, Maria Dilar Pimpão, Madalena Canas e Maria Poupinha), que vão falar sobre as “Receitas Desviadas”, o peixe que era “desviado” para os aventais e dos aventais para as cozinhas pobres das famílias, neste caso na sua maioria de Setúbal. É uma realidade mais conhecida devido a um projecto de investigação/comemoração das memórias desses anos de miséria.

Como se vê, a gastronomia no Barreiro foi durante muito tempo uma “gastronomia” muito especial, feita por pobres para pobres, no limiar da subsistência. É por isso uma maneira diferente de comemorar o Dia Internacional dos Arquivos, com a essência do que é a memória e o seu papel social. Não está na moda, mas a moda é a sucessiva tentativa de apagamento do que é inconveniente na memória, e a resistência dessa mesma memória a deixar-se apagar porque transporta uma matéria demasiado humana para que possa ser esquecida porque é relevante. Um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.

O autor é colunista do PÚBLICO

Tiago Franco - A RESIGNAÇÃO DE UM POVO |



* Tiago Franco
 ·
O Expresso noticiava, em Abril deste ano, que Portugal tem um salário médio 38% inferior à média europeia. Faço estas contas repetidas vezes porque, apesar de este país ser cada vez menos recomendável, ainda é o mais parecido que tenho com o conceito de casa e gostava de um dia aqui trabalhar. 

Saio genuinamente irritado de sítios, onde quem me atende não tem qualquer culpa, por causa do custo de vida galopante. Como é que se vive? É sempre esta a minha interrogação. Como é que se vive nestas condições?

A esmagadora maioria dos portugueses leva para casa 1000 euros, um pouco mais ou um pouco menos. Ouvimos esta semana uma nova subida da Euribor que afectará as prestações dos créditos à habitação. Um depósito de gasolina já custa, sem grande esforço, cerca de 100 euros. A electricidade e o gás custam mais do que nos países mais ricos. 

Os preços das casas continuam a subir, o cabaz da alimentação também e já é certo que, no máximo, lá para Setembro, o BCE aumentará as taxas de referência. Uma notícia de ontem anunciava que o endividamento na banca sobe pelo oitavo mês consecutivo. Entretanto nós continuamos com os 1000 euros na mão, a escolher no que cortar. Alguém me faz essa conta? Como é que se suporta uma família com 1000 euros, em 2026 em Portugal?

As bombas da imagem distam pouco mais de 30 km. Na espanhola o governo resolveu absorver os custos. Na portuguesa, o governo de Montenegro aproveita o conflito do Irão para mais um jackpot de impostos.

Como é que nós aguentamos isto? Como é que um povo, que invade academias de futebol ou faz esperas a jogadores, não se junta e começa, por exemplo, a partir coisas? Sei lá...bombas de gasolina, supermercados, escadarias da AR. Como é que no desespero e na aflição de vermos a vida de miséria a que nos estão a condenar, não reagimos? Como é que aquele instinto animal, de sobrevivência e pouco maturado, reconheço, não aparece nestas ocasiões?

É que reparem, o governo pode fazer qualquer coisa para ajudar. Pode desde logo reduzir os impostos sobre os combustíveis. Pode incentivar políticas de trabalho remoto para que se poupe em deslocações. Pode parar com a idiotice de dar benefícios a senhorios ou construtores. Pode impôr regras fiscais que obriguem a uma distribuição mais justa da riqueza. Podem, enfim, tentar fazer algo pela melhoria de vida em vez de, repetidamente, nos tentarem convencer que todos os infortúnios resultam de factores externos e que nada, do nosso destino, é internamente controlado. 

Acho piada quando os grandes temas, em vez do passarem pelo nosso crónico empobrecimento, são o regozijo pelos imigrantes que resolvem abandonar Portugal ou as lutas de galinheiro sobre bandeiras, nacionalidade e opções sexuais.

Quando um português, mesmo daqueles um bocadinho mais fachos, percebe que nem um paquistanês cá quer ficar, não entende o que isso diz do nosso país?

Tudo isto me irrita. Um governo que nos rouba sem pudor e um povo que aceita, empobrecer, sem luta, sem combate, sem a rua.

Porque é a vida. Temos que aguentar e esperar por dias melhores. Que pena termos apenas uma vida.

2026 06 06

https://www.facebook.com/tiago.franco.735? 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Enrique Dans - A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas




LEITURAS MARGINAIS

O PAPA LEÃO XIV ENTENDE A IA COMO PODER. ELE TEM RAZÃO. AGORA, DEVE IDENTIFICAR OS ATORES QUE A EXERCEM

Enrique Dans, 
Medium. Revisão: O’Lima.



A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, é inteiramente dedicada à IA e às suas consequências para a humanidade. Publicada a 25 de maio, por ocasião do 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII sobre o capital e o trabalho, aprofunda-se muito mais do que a grande maioria das declarações empresariais sobre a ética da IA e é muito mais honesta do que muitos livros brancos governamentais que evitam desafiar as grandes empresas tecnológicas.

A encíclica está certa no essencial: a IA não é apenas mais uma tecnologia, uma ferramenta neutra que podemos avaliar exclusivamente pela sua eficiência, precisão ou capacidade de reduzir custos. É uma infraestrutura de poder. Ela decide o que vemos, o que lemos, que empregos desaparecem, que decisões são automatizadas, que formas de vigilância são normalizadas e que partes da realidade partilhada acabam por se transformar em ruído, polarização ou espetáculo. Como resume a Wired, o Papa entende a IA como uma camada invisível que atravessa o trabalho, a informação e as decisões coletivas. Até aqui, tudo bem.

O problema é que, quando a análise deveria transformar-se numa acusação, não são mencionados nomes. O Papa destaca a concentração de poder, mas não identifica quem o concentra. Fala de plataformas, mas evita nomeá-las. Aborda as lógicas de mercado, mas não identifica as empresas que transformaram essas lógicas numa forma de governo privado sobre as nossas vidas. E isso não é um problema teológico, é uma decisão política. É uma encíclica que fala em generalidades e no abstrato.

Mas a realidade não é abstrata. Enquanto o Papa adverte contra a cultura do poder e até apela ao «desarmamento» da IA, o Departamento de Justiça dos EUA tem provas de que a Google usou a sua posição dominante para controlar o mercado de pesquisa e partilha de vídeos durante uma década, e agora pretende usar o Gemini para fazer o mesmo com a IA. Não estamos a falar de uma «tendência preocupante», mas de um monopólio identificado pelos tribunais, de contratos de exclusividade, de dados, de distribuição, da própria arquitetura do acesso à informação. O documento pontifício vê o edifício, mas evita ler a placa na porta.

O mesmo se aplica à Meta. A reportagem da Wired sobre os protestos em Dublin dos moderadores de conteúdo subcontratados — que classificam dados para treinar a IA da Meta e que recebem salários extremamente baixos — não nos fala de má gestão laboral. É isto que acontece quando a IA é implementada em cadeias de valor reais: trabalho invisível, subcontratado e psicologicamente desgastante, apresentado como se fosse magia tecnológica, e as pessoas que o realizam são simplesmente descartadas quando já não são necessárias. Onde está a dignidade do trabalho, onde exatamente na cadeia está a «centralidade do ser humano»?

A parte da encíclica dedicada ao ecossistema da informação é a mais interessante. Aqui, o Papa tem toda a razão: o problema não se resume apenas à desinformação, às notícias falsas ou ao lixo gerado pela IA que induz os incautos em erro durante algumas horas. O problema é muito mais profundo: trata-se da reconstrução algorítmica do imaginário coletivo. Um sistema que otimiza o engajamento, a indignação, a permanência e a reação emocional não se limita a distribuir conteúdo: define o que uma sociedade considera visível, discutível ou possível. Um estudo publicado na PNAS Nexus mostrou que os algoritmos de classificação baseados no engajamento amplificam conteúdos carregados de emoção e hostis em relação a adversários políticos; outro estudo recolhido pelo El País apontou que a ordem pela qual as mensagens políticas são exibidas afeta a polarização. Na prática, a arquitetura do debate público já não é concebido por parlamentos, editores ou cidadãos, mas por modelos de otimização opacos que transformam os nossos impulsos mais primitivos em inventário publicitário.

E é aqui que a encíclica se revela valiosa, pois compreende algo que muitos reguladores ainda não conseguiram perceber: a verificação de factos não corrige um sistema concebido para recompensar o oposto da deliberação. A verificação de factos pode ser necessária, mas é desesperadamente insuficiente quando toda a infraestrutura foi concebida para apelar às emoções. A democracia não é destruída pela publicação de mentiras, mas sim quando o espaço comum no qual devemos distinguir entre verdade, mentiras, interesses e manipulação foi redesenhado por empresas privadas que respondem perante anunciantes, acionistas e métricas internas, e não perante os cidadãos.

O ponto mais fraco do documento é a questão do trabalho. O Papa Leão defende a dignidade do trabalho, mas a partir de uma conceção de emprego que parece cada vez mais desatualizada. A grande questão já não é se a IA irá destruir empregos, mas sim quem fica com o valor dessa destruição, dessa substituição ou dessa reorganização. Quando uma empresa automatiza um processo, reduz o número de funcionários, aumenta a produtividade e melhora as margens, para onde vai esse valor? Para os trabalhadores? Para as suas comunidades? Para impostos capazes de financiar a transição, a formação ou o rendimento? Como sabemos, a maior parte vai para os mercados. A McKinsey formula-o na linguagem da estratégia empresarial: a IA não é simplesmente uma revolução da produtividade, mas uma reinicialização competitiva, uma reconfiguração sinistra dos modelos de negócio, das estruturas de mercado e das fontes de lucro.

É por isso que a proposta da Coreia do Sul de um dividendo para os cidadãos proveniente dos lucros da IA é muito interessante. Pode ser imperfeita, discutível ou prematura, mas pelo menos coloca a questão no lugar certo: se os sistemas de IA são treinados com base em dados, mão de obra, infraestruturas, conhecimento coletivo e mercados socialmente construídos, por que razão o retorno deve concentrar-se quase exclusivamente em algumas poucas empresas e nos seus acionistas? Por que aceitamos sem pestanejar que a automatização seja apresentada como progresso quando os seus benefícios são privatizados e os seus custos são socializados?

O Vaticano tem tradição suficiente para ir muito mais longe. A Rerum Novarum não se limitou a lamentar «os excessos da industrialização». Apontou abusos, falou de salários, propriedade, empregadores, trabalhadores, associações e condições concretas. Compreendeu que a doutrina social não podia continuar a ser um apelo piedoso ao bem comum enquanto as fábricas, os proprietários de terras e o capitalismo industrial redefiniam as vidas de milhões de pessoas. A Magnifica Humanitas pretende ser a Rerum Novarum da IA e, em muitos aspetos, consegue-o: compreende a mudança de era, reconhece a magnitude do desafio e recusa-se a cair na ingenuidade tecnofílica. Mas, precisamente quando deveria transformar o diagnóstico numa crítica institucional concreta, refugia-se na abstração.

Obviamente, não se trata de pedir ao Papa que elabore uma lista negra de empresas tecnológicas, nem de transformar uma encíclica numa ação antitrust. As encíclicas são concebidas para serem atuais e legíveis durante décadas ou séculos, pelo que mencionar empresas específicas não faz sentido. Mas significa compreender que, em 2026, falar de IA sem indicar que empresas como a Google, a Microsoft, a Meta, a Amazon, a OpenAI, a Nvidia, a Apple ou a Anthropic é como falar da Revolução Industrial sem mencionar fábricas, minas, caminhos-de-ferro, empregadores ou sindicatos. Não uma menção específica, mas uma indicação de que tipos de atores são bons e quais são maus. A tecnologia não cai do céu. A tecnologia tem proprietários, incentivos, contratos, cadeias de abastecimento, modelos de negócio e estratégias de captura regulatória. Quando tudo isto desaparece da linguagem, a possibilidade de agir sobre ela também desaparece.

Nada disto diminui a importância do documento. Num mundo em que a ética da IA é, com demasiada frequência, definida pelas mesmas empresas que beneficiam da sua ausência, é extremamente relevante que uma instituição com autoridade moral a nível global afirme que a tecnologia deve servir a humanidade e não as empresas. Colocar o poder no centro da questão é igualmente importante. Discutir comunicação, educação, trabalho, guerra, democracia e dignidade no mesmo quadro é muito mais sofisticado do que a habitual litania de «princípios éticos» concebidos para adornar apresentações corporativas.

No entanto, fica aquém. A próxima carta, encíclica ou documento sinodal terá de fazer o que este evita: apontar estruturas, identificar atores e propor mecanismos concretos, em vez de fazer um apelo genérico ao multilateralismo num mundo em que o multilateralismo não consegue competir com os lóbis. Não precisamos de invocações solenes de responsabilidade partilhada enquanto a captura de valor permanecer brutalmente assimétrica. Chega de diagnósticos impecáveis minados pela timidez na acusação.

O Papa demonstra que sabe qual é o problema. Compreende que a IA não é uma ferramenta, mas sim uma nova arquitetura de poder. Percebeu que ela afeta a verdade, o trabalho, a democracia, a guerra e a liberdade. Chegou mesmo a encontrar uma formulação poderosa: «desarmar a IA». Mas desarmar algo requer saber quem detém as armas, quem as fabrica, quem as vende, quem delas beneficia e quem paga as consequências da sua utilização.

E é aí, precisamente aí, que a Magnifica Humanitas vacila. O diagnóstico do Papa é lúcido, parte de uma posição moral elevada, recupera uma valiosa tradição social e coloca as questões necessárias. Mas evita apontar o dedo aos culpados evidentes.

O Papa fez o diagnóstico. Agora tem de encontrar a coragem para identificar a origem do problema.

Posted by OLima at terça-feira, junho 02, 2026

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Gustavo Carneiro - Num bairro, a História



* Gustavo Carneiro

Es­teve pa­tente até à se­mana pas­sada, no Te­atro Ave­nidas, em Lisboa, a ex­po­sição “As ja­nelas que Abril abriu”, que in­cluía tra­ba­lhos de es­tu­dantes do 9.º ano da Es­cola Bá­sica 2, 3 Pro­fessor Delfim Santos e iden­ti­fi­cava as casas clan­des­tinas do PCP no Bairro do Rego, onde hoje está si­tuada a sede na­ci­onal do Par­tido. Foram oito as casas, só neste bairro po­pular da ca­pital.

Numa delas viveu Álvaro Cu­nhal em 1937, quando era di­ri­gente da Fe­de­ração das Ju­ven­tudes Co­mu­nistas Por­tu­guesas. Ou­tras duas, uma ti­po­grafia e uma ha­bi­tação de mi­li­tantes clan­des­tinos, foram as­sal­tadas pela po­lícia po­lí­tica no mesmo dia: 10 de Ja­neiro de 1938. Neste final de dé­cada, o fas­cismo pa­recia im­pa­rável, em Por­tugal e em grande parte da Eu­ropa. A re­pressão des­feria rudes golpes nas or­ga­ni­za­ções do Par­tido e na sua im­prensa, e no Tar­rafal mor­riam já muitos an­ti­fas­cistas.

Mas a his­tória não acabou aí, como de­monstra a exis­tência de ou­tras casas iden­ti­fi­cadas na ex­po­sição: uma serviu de ponto de apoio a Pedro So­ares e talvez a Jo­a­quim Pires Jorge, que nesse ano de 1942 se em­pe­nhavam na re­or­ga­ni­zação do Par­tido, que ha­veria de lhe con­ferir uma di­mensão na­ci­onal e torná-lo na van­guarda da re­sis­tência e da uni­dade an­ti­fas­cistas. Na­quele bairro viveu também Oc­távio Pato em 1946, ano do IV Con­gresso do Par­tido, re­a­li­zado num mo­mento de forte ex­pansão das lutas ope­rá­rias e da or­ga­ni­zação par­ti­dária: em apenas três anos, o nú­mero de mi­li­tantes au­mentou seis vezes e a ti­ragem do Avante! mul­ti­pli­cara-se por quatro. Este mesmo di­ri­gente vol­taria mais tarde ao Bairro do Rego, onde em 1959 tinha um ponto de apoio, jun­ta­mente com An­tónio Dias Lou­renço. Nesses tempos em que o fas­cismo en­con­trava nos EUA e na NATO o apoio de que pre­ci­sava para so­bre­viver, a luta so­fria re­veses, era menos ampla do que nou­tros mo­mentos – mas não ces­sava. Quem sabe se na­quela casa da Rua Tomás Ca­breira não se ajudou a pla­near a fuga de Pe­niche, que no início de 1960 de­volveu à luta an­ti­fas­cista ac­tiva Álvaro Cu­nhal e ou­tros nove des­ta­cados di­ri­gentes co­mu­nistas?

Certo é que em 1963, uma casa clan­des­tina na­quele bairro fora aban­do­nada por ra­zões de se­gu­rança. Vivia-se já uma nova fase, de as­censo re­vo­lu­ci­o­nário: o 1.º de Maio de 1962 fora uma jor­nada ex­tra­or­di­nária; nos campos do sul os ope­rá­rios agrí­colas con­quis­taram a jor­nada de oito horas, pondo fim ao es­cra­vi­zante tra­balho de sol a sol; o início da guerra co­lo­nial abrira uma nova frente de luta an­ti­fas­cista. A úl­tima casa iden­ti­fi­cada al­bergou um casal de fun­ci­o­ná­rios do Par­tido em 1968, quando a di­ta­dura fingia mudar para deixar tudo na mesma e a luta crescia, alar­gava-se e agre­gava gente nova e nova gente.

Cen­trada num bairro, e em tantos ou­tros foi também assim, esta é a his­tória da luta de um povo, que con­tinua nos exi­gentes tempos em que vi­vemos. Com avanços e re­cuos – e onde sempre, mas sempre, se en­con­tram os co­mu­nistas.

https://www.avante.pt/pt/2740/opiniao/183927/Num-bairro-a-Hist%C3%B3ria.htm

Foto em
https://www.instagram.com/p/DYXpSZVCOjj/?img_index=4

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avenidas.umteatroemcadabairro
 
// EXPOSIÇÃO 
As janelas que abril abriu, ou não!
15 A 30 MAI

INAUGURAÇÃO 
🗓 15 MAI | SEX | 17h 
📍Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro 

A exposição “As Janelas que Abril abriu, ou não!”, apresenta trabalhos realizados pelos alunos da turma A, do 9.º ano da Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos – Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. 

Partindo de passeios pelo Bairro do Rego, em Lisboa, visitámos a Coletividade “Os Económicos” e observámos janelas de casas que outrora acolheram opositores ao regime. Tomámos essas janelas como testemunhos de tempos de vigilância, mas também de esperança e como símbolos de transição da abertura que abril tornou possível.

Parceria: Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos - Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. Alunos 9.º A, Professores Dilar Pereira e João Pedro Martins; Biblioteca Escolar e Projeto Descolar Com.

https://www.instagram.com/p/DYMZmJogsLw/

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fernando Pessoa - "Sê plural como o universo!"

 ? Fernando Pessoa



2021 07 15 Foto Victor Nogueira - Café do Desassossego, em Setúbal (2020 04 19 Canon 179_04 IMG_1061)


2017 06 07 foto victor nogueira . Setúbal - Café do Desassossego na Travessa da Anunciada (Bairro do Troino)

«A frase "Sê plural como o universo!" capta a própria essência de Fernando Pessoa, mas a resposta sobre qual é o seu "texto completo" costuma surpreender os leitores: não existe um poema ou um ensaio longo estruturado onde ela esteja inserida.

Trata-se de uma anotação isolada, um aforismo (frase curta que encerra um pensamento) que Pessoa registou de forma imperativa numa folha de papel solta.

Onde foi publicada?

Como grande parte da obra de Fernando Pessoa não foi publicada enquanto ele era vivo, este fragmento ficou guardado na sua famosa arca de manuscritos (o seu espólio).

A frase veio a público pela primeira vez em 1966, no livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação". Esta obra reuniu dezenas de textos e notas onde o próprio Pessoa tentava analisar e explicar psicologicamente a sua necessidade de se fragmentar e de criar os heterónimos (como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro).

Nos arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal, este fragmento textual está catalogado sob a referência específica BNP/E3, 20-68r. Ele surge ali, sozinho, como um lema de vida ou uma instrução que o poeta deu a si mesmo.

O significado por trás da frase

Embora curta, a frase resume perfeitamente o conceito da heteronímia e o projeto literário de Pessoa. Para ele:

  • O universo não é uma coisa só; é feito de multiplicidade, de contradições, de planetas, estrelas e perspetivas diferentes.

  • Um homem com uma mente desperta não se pode limitar a ter uma única profissão, uma única personalidade ou uma única opinião.

Ao escrever "Sê plural como o universo!", Pessoa justificava a criação dos seus outros "eus". Se o universo é infinito e múltiplo, o poeta também tinha o direito — e o dever — de o ser.?  (Google Gemini)

fernando pessoa - AUTOPSICOGRAFIA

Fernando Pessoa


2017 02 27 foto victor nogueira - Mural em Setúbal - 1985 - comemorativo do 50º aniversário da morte de Fernando Pessoa. Autopsicografia. O poeta é um fingidor.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


2020 02 25 foto victor nogueira -  'máscaras' em Setúbal e mural alusivo ao 150º  aniversario do nascimento do poeta Fernando Pessoa


Valter Hugo Mãe - O Filho de Mil Homens

 * Victor Nogueira


«Esse belíssimo e melancólico excerto pertence ao romance "O Filho de Mil Homens" (publicado em 2011), uma das obras mais aclamadas e comoventes do escritor português Valter Hugo Mãe.

O texto completo de onde esse trecho foi retirado encontra-se no Capítulo 11 do livro. Ele descreve a profunda e dolorosa ligação das mulheres daquela vila piscatória com o mar, que tanto lhes dava o sustento como lhes roubava os maridos e filhos.

Aqui está o parágrafo completo em que o excerto se inclui:

"O mar era um cemitério em frente de casa. As mulheres olhavam-no com uma raiva que se parecia com a oração, que era uma oração ao contrário, a pedir que o diabo não lhes levasse a carne da sua carne. Este foi o mar das mulheres, aqui se glorificaram e aqui naufragaram. Tinham os olhos postos na linha do horizonte como quem vigia a hipótese do fim do mundo, e o fim do mundo acontecia-lhes tantas vezes."

Contexto da Obra

Em O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe explora a invenção do amor e da família por vias não consanguíneas. A história acompanha Crisóstomo, um pescador que chega aos quarenta anos e sente a urgência de ser pai, decidindo "adotar" Camilo, um jovem órfão.

O mar, neste livro, funciona quase como uma personagem viva — uma força da natureza implacável que molda a solidão, a resiliência e o luto das gentes daquela costa.


Não é possível fazer a transcrição integral do capítulo por motivos de direitos autorais (copyright), já que as leis de propriedade intelectual limitam a reprodução de capítulos inteiros de obras literárias protegidas.

No entanto, o romance O Filho de Mil Homens é composto por capítulos curtos e o trecho citado faz parte do Capítulo 11, dedicado a retratar a melancolia e a força das mulheres daquela comunidade piscatória.

Posso partilhar a estrutura poética e os elementos centrais desse capítulo para que consiga acompanhar o fio condutor do autor:

  • O Mar como Cemitério: O capítulo abre com a poderosa imagem do mar visto como "um cemitério em frente de casa", estabelecendo imediatamente o tom de luto constante que define a vida daquelas gentes.

  • A Oração Invertida: Valter Hugo Mãe descreve que o olhar das mulheres para a água continha uma raiva que se assemelhava à prece, mas uma "oração ao contrário", destinada a proteger "a carne da sua carne" (os seus maridos, pais e filhos pescadores) das garras da morte.

  • O Cotidiano da Espera: O texto desenvolve a ideia de que a rotina daquelas mulheres era a da vigília eterna. Elas passavam os dias com os olhos fixos na linha do horizonte, como se antecipassem o fim do mundo — um fim do mundo que, tragicamente, lhes acontecia repetidas vezes a cada naufrágio.

Curiosidade: O impacto real desta frase

Esta passagem específica tornou-se tão marcante na literatura contemporânea portuguesa que a frase "Este foi o mar das mulheres. Aqui se glorificaram e aqui naufragaram" foi escolhida para integrar uma grande obra de arte urbana em Portugal. Ela está pintada no gigantesco Mural da Seca do Bacalhau, em Vila do Conde, criado pela artista Isabel Lhano para homenagear as mulheres vilacondenses que dedicavam as suas vidas ao duro trabalho da salga e secagem do peixe-» (Google Gemini)

Che Guevara - Carta aos filhos

 

«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.

O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:

1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)

O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:

"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."A célebre carta de despedida de Ernesto Che Guevara aos seus cinco filhos (Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto) foi escrita em 1965, quando ele deixou Cuba para seguir para novas frentes revolucionárias. É uma carta curta, íntima e carregada de conselhos éticos.

Aqui está a transcrição integral da carta traduzida para o português:

Aos meus filhos

Queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto:

Se algum dia tiverem de ler esta carta, será porque já não estou entre vós.

Quase não se lembrarão de mim, e os mais pequenos não se lembrarão de nada.

O vosso pai tem sido um homem que age como pensa e, com certeza, tem sido fiel às suas convicções.

Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poderem dominar a técnica, que permite dominar a natureza. Lembrem-se de que a revolução é o que é importante e que cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir, no mais profundo de vós, qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário.

Adeus, meus filhos, ainda espero ver-vos. Um grande beijo e um grande abraço do vosso

Papa

O detalhe no mural

O trecho que destaquei em negrito é exatamente a secção que os artistas de Orgosolo escolheram para eternizar na parede de pedra, adaptando a mensagem paternal de Che a um apelo universal de empatia para quem visita a vila.» (Google Gemini)

Emílio Lussu



«Este mural, presente na imagem é mais uma obra de forte teor político e histórico em Orgosolo, conectando a memória das guerras mundiais com a identidade e os ideais do povo sardo.

O texto principal está escrito em letras cursivas vermelhas no canto inferior esquerdo, abaixo da figura de um soldado na trincheira:

"non per un palmo
di lontana frontiera
abbiamo gettato al vento la nostra
giovinezza ma per un più alto
ideale di libertà e di giustizia"

Tradução para o português:
"Não por um palmo / de uma fronteira distante / jogámos ao vento a nossa / juventude, mas por um mais alto / ideal de liberdade e de justiça"

Assinatura e data: Logo após o texto, lê-se "E. Lussu 24-5-1924", indicando que a frase é uma citação de Emilio Lussu proferida ou escrita nessa data (exatamente nove anos após a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial).
 
Este extrato de Emilio Lussu também não foi retirado de um livro ou obra literária, mas sim de um discurso político oficial.

Trata-se de uma declaração proferida por ele na Câmara dos Deputados (o Parlamento italiano), numa sessão em que discursava para homenagear os soldados caídos e os veteranos da Brigata Sassari (a brigada composta quase inteiramente por sardos durante a Primeira Guerra Mundial).

O Contexto do Discurso: Lussu, que foi um dos oficiais mais condecorados dessa brigada e mais tarde tornou-se um feroz opositor do regime fascista, usou a tribuna do Parlamento para deixar claro que os jovens da Sardenha que morreram nas trincheiras não se sacrificaram por ambições expansionistas ou disputas territoriais do governo de Roma ("um palmo de fronteira distante"). O sacrifício deles, na visão de Lussu, tinha o propósito maior de alcançar a emancipação, a liberdade e a justiça social para as suas próprias comunidades.

A Data: Embora no mural se leia a data modificada de 24 de maio de 1924, o discurso original remete ao início dos anos 1920, no conturbado período pós-guerra em que Lussu ajudou a fundar o Partido Sardo de Ação (Partito Sardo d'Azione) para defender os direitos dos camponeses e pastores da ilha.» (Google Gemini)

Jaime Nogueira Pinto - Uma topografia do Além: a Commedia, em tempo de Natal

 Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

* Jaime Nogueira Pinto

27 dez. 2025, 00:18

Na infância, muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados, suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade, mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia, crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré.  Uma das mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.

E começa pelo Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por 200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.

Dante estava metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de Natal de 1294.

Dante, guelfo branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre, Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada de recuperar as graças dos Médici.

Mas Maquiavel, depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram para sempre e que sublimou em poesia.

Neste tempo, em Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.

Voltando a Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria, passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio. Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301, Corso Donati, um guelfo negro  que se encarregou da purga, do saque e das decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).

Dante estava em Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de confisco.

Na amargura do exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona, Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.

O poeta da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio, arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII, chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no Sétimo Círculo, por sodomia.

No Inferno dantesco, o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.  De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles, Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).

Os restantes círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo  para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição, para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.

Em toda a expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que veio depois dele morrer, em 19 AC.

No último círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três cabeças que agita as asas num vazio gélido.

Os Terraços do Purgatório

Se o Inferno se estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência; contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.

As personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC), Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de polémica vituperativo jocosa  (por sinal bastante ousada, já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente, a mulher).

O Purgatório contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar. No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as orações dos vivos, para atingirem a redenção.

Mas há também alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora, insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os gregos conquistaram Troia.

Ulisses fora pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo publicado no New Yorker de 1 de Dezembro:  como é que Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É um lugar extremamente desagradável e para  muitos  de nós Ulisses é um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini, Paolo e Francesca).

A explicação da condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena equipagem, passando as “colunas de Hércules”.

O Voo Louco de Ulisses

Assim, Dante altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses foi virtuoso ou fraudulento.

Na Comédia, Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …

Com Beatriz no Paraíso

Ulisses perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira instância da sua viagem pelo Além.

O Paraíso dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus, céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati (as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos, absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.

Tal como o Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).

Há dúvidas sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a  1302. Pensa-se que o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313 ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona desde 1311-1312.

A viagem ao Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril de 1300 e o dia 14 do mesmo mês.  Dante passou dois dias no Inferno, três no Purgatório e 24 horas no Céu.

A breve passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços, o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a Deus-Pai.

Dante tem, nas várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador, Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte, estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por Conrado III.

Na conversa com o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e um viajante privilegiado pelas rotas do Além.

Dante e a Igreja

Além de Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo da Commedia.

No entanto, a Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.

Foi Leão XIII, o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que, confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja.  E no século XX, os seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.

Assim o fez Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia. exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI, na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:

“Relendo a sua vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida”.

Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

Um Santo Natal.

https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/