quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Susana Peralta - Chega e o seu financiamento

* Susana Peralta

Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/02/chega-e-o-seu-financiamento-um-artigo.html
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Por Carlos Esperança - fevereiro 19, 2026

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O discurso de Lídia Jorge, Prémio Pessoa 2026

  "O mundo de hoje, descomposto, está à beira do estado de alucinação global"

A escritora Lídia Jorge recebe hoje o Prémio Pessoa 2025. Na cerimónia marcam presença o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o CEO da Impresa, Francisco Pedro Balsemão. O Expresso publica na íntegra o discurso de Lídia Jorge

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10 fevereiro 2026 

Receber o Prémio Pessoa, pela sua natureza e pelo nome do seu patrono, intimida. Não sei se os meus antecessores mais próximos na área da Literatura, os poetas João Luís Barreto Guimarães e José Tolentino Mendonça o sentiram. Eu, sim, e para tanto, preciso de imaginar que o anjo do bom humor se encontra pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.

No mundo da Literatura, o poeta Pessoa é mais do que um rei, é o maior poeta do Século XX. Tudo na sua obra, de que a sua vida é um capítulo, e não contrário, é poderoso e tocante. Até mesmo as suas contradições colossais. Richard Zenith, na extraordinária biografia que escreveu sobre Pessoa, define-o a dado passo como aquele que diante do visível, fosse de que género fosse, e de forma absoluta, procurava o invisível.

Claro que o que ele buscava, como é próprio de quem se move no domínio da Literatura e das Artes, é do domínio do invisível, alguma coisa que se aproxima da demanda pela alma do mundo. Mas nenhuma das outras disciplinas que este Prémio abarca, mesmo que ande longe dessa finalidade última, dispensa a escada íngreme da busca de alguma coisa que transcende o facilmente alcançável. Pessoa foi selectivo, contante, obsessivo, fez de si mesmo uma entrega total. Para todos os ramos da Ciência, das Artes, da Cultura e do Pensamento reflexivo que são contemplados, a referência ao nome de Pessoa funciona como uma cúpula e um arco-botante.

Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo. E esse é um legado extraordinário.

 Devo dizer que a minha aproximação à obra de Pessoa conheceu vários capítulos e começou muito antes de o poeta se ter transformado em mito. Ainda não tinha dado o nome a ruas e praças, nem a sua efígie andava na capa dos chocolates. Eu tinha treze anos quando me compraram a primeira “Selecta Literária”. O século XX vinha no fim. Vivia hospedada na casa de um casal de vegetarianos que lia muito. O Senhor Ferreira começou a folhear a selecta e disse – “Olha, tens aqui um poema para ti”. O poema dizia assim – “Vem Sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio/Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas… Enlacemos as mãos…” O Senhor Ferreira leu em voz alta, depois li eu. O Senhor Ferreira achava que o poema era muito triste, eu não achava. Para mim, a tristeza até era boa, era um triunfo, estava lá o meu nome. Quem o tinha escrito chamava-se Ricardo Reis. É extraordinário o que se pensa quando se tem treze anos. O mundo inteiro ainda é o prolongamento de nós mesmos, e nós, uns pirralhos, somos um centro totalitário absoluto, aos treze anos. Mas entre os treze e os dezasseis, esse poema deixou de ser um recado melancólico que um jovem distante me enviava e passou a ser o que deveria ser, literatura. Contudo, o imbroglio da heteronomia só se me desembrulhou quando Maria Aliete Galhoz começou a convidar-me para sua casa na praia.

Era na Praia dos Olhos de Água, entre o barlavento e o sotavento algarvio. Com ela vivia também o seu sobrinho, o actor José Manuel Mendes, e por lá passava Michel Giacometti, o musicólogo corso, que se apaixonou pela música popular portuguesa e andava a salvar canções. Maria Aliete Galhoz descia de tarde à praia e levava consigo um cesto. Dentro do cesto, cadernos, e dentro dos cadernos, fitas de papel com letras miúdas manuscritas. Um dia mostrou-me uma dessas fitas. Não sabia se era um E ou um C. Andava a decifrar palavras de Fernando Pessoa. Nunca irei esquecer. Mas Maria Aliete esqueceu. Nos últimos encontros em Lisboa, quando evoquei esses passeios à beira-mar, ela negou, disse que nunca tinha decifrado nada de Pessoa. Ou ela ou eu estávamos enganadas. Naquele momento, eu senti que não éramos verdade, que ela, a primeira grande pessoana, e eu sua admiradora juvenil, companheira de passeio à beira-mar, nós duas, não passávamos de dois sonhos pessoanos evasivos.

O que significa que, a pouco e pouco, como leitora comum, a obra de Pessoa foi-se instalando, no seu formato de irradiação fragmentada, e naturalmente que passei a escolher a máscara que mais me dizia respeito e onde ainda permaneço imaginando-me aparentada. Uma fantasia, mas na verdade é Álvaro de Campos quem me diz respeito. Não vale a pena explicar porquê. Mas talvez valha a pena referir que em 1966, na Revista “O Tempo e o Modo”, Eduardo Lourenço publicou aquele célebre ensaio com o título de “Uma Literatura Desenvolta ou os filhos de Álvaro De Campos”, associando a geração dos anos sessenta à ambição do engenheiro naval que andou por Glasgow. Posteriormente, Eduardo não voltaria mais a fazer essa associação entre o autor das Odes e da Tabacaria, às gerações que depois, nos anos oitenta e noventa ele viu surgir. Possivelmente, não encontrou em nós, narradores surgidos com a Democracia, nem o cosmopolitismo, nem a dinâmica técnica e subjectividade caótica do poeta futurista, que ele mesmo, Eduardo Lourenço, gémeo fraterno de Pessoa, reconhecia como a verdadeira lava ardente criadora.

Nós, os que viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser. Só que eu, provavelmente, não serei filha de Álvaro de Campos, serei quanto muito uma trineta afastada, embora me identifique, no Cartão de Cidadão da fantasia literária, como uma sua parente.

Com a liberdade que a ficção permite, a Ode Marítima, esses quase mil versos que falam do grande pirata europeu que levou algum bem aos outros continentes, mas de que a actualidade só evoca os males, a partir dessa ode, escrevi um livro. E a minha obsessão, partilhada com milhões de leitores em Portugal e à volta do mundo, não fica por aí. Os fragmentos que são conhecidos como a Ode à noite, constituem uma outra parte da minha obsessão. Comos seria a ode se estivesse completa? Será legítimo tentar completá-la? - Não vou contar tudo o que se passa entre essa ode e a minha pessoa, só alguma coisa. É que ultimamente tenho pedido a poetas que tentem completá-la e ninguém ousa. Então virei-me para os chats. Pedi à minha amiga Dora Gago que procurasse nos Chats GPT e Gemini esse continuado, e o resultado foi do mais interessante que há. Com a limpidez do vidro e a desenvoltura dos relâmpagos, os chats ofereceram gratuitamente duas soluções acabadas. Acabadas, mas falsas. A antiga retórica ensinava que num texto havia três componentes distintas, a invenção, a composição e a elocutio, isto é a linguagem. Os chats em questão imitaram o que era possível imitar, o tipo de linguagem. O chat, como um ladrão furtivo, roubou daqui e dali e no escuro da imaterialidade, criou uma falsidade. No entanto, não é fácil desmontá-la.

Nós, os que viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser.

 Talvez tudo o que eu tenha estado a dizer, nesta circunstância, tenha sido para chegar até aqui. É que para avaliar o que se passa com o mundo de hoje, descomposto, à beira do estado de alucinação global, é bom usar a Poética como campo de pesquisa. A Poesia corresponde à articulação mais sofisticada das línguas, a metáfora corresponde a uma engenharia alquímica da linguagem, ela serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso. Um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos. Na realização da poesia, instrumento de liberdade que a cada poema inaugura um mundo, prova-se os ilimites da nossa invenção. Nela a linguagem surge como o reduto mais importante da nossa condição de sujeitos autónomos, um recanto do ser que se deixarmos violar determinará a nossa capitulação. É uma meta preciosa para nos balizarmos. Cedendo, a partir daí, tudo será pós, pós-palavra, pós- ciência, pós- literatura, pós- humano, pós-História e pós-humanidade. Miguel Bastos Araújo, o biogeógrafo que venceu o Prémio Pessoa em 2018, alertando para o desequilíbrio entre alterações climáticas e a sobrevivência das espécies, a dado momento da entrevista que na altura dava ao Expresso, dizia – “Se olharmos para o que fizemos no passado, o que estamos a fazer e o que projectamos para o futuro, vemos que não vamos a tempo”. Em relação os seres humanos a mesma pergunta é legítima. Nós somos uma espécie no meio das outras espécies. No ecossistema do pensamento, estaremos a tempo?

Na realização da poesia, instrumento de liberdade que a cada poema inaugura um mundo, prova-se os ilimites da nossa invenção. Nela a linguagem surge como o reduto mais importante da nossa condição de sujeitos autónomos, um recanto do ser que se deixarmos violar determinará a nossa capitulação

O início do excerto dessa ode incompleta de Álvaro de Campos de que falávamos começa por esses versos que muitos portugueses sabem de cor – “Vem, Noite antiquíssima e idêntica/ Noite rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio. Noite/ Com as estrelas lantejoilas rápidas/ No teu vestido franjado de infinito…” Sabe-se como é. Continua-se, e diante dos nossos olhos, não fica só a Noite, fica o Cosmos. Não o Cosmos físico, o das forças que só se conhecem porque resultam do cálculo matemático e da ideação física, mas o Cosmos como nosso irmão da Criação, o relacional, aquele cujo sentido nos interpela enquanto pedaço que somos dele. Quando esses versos foram escritos por Pessoa, Álvaro de Campos, ainda Einstein andava a remoer a Lei da Relatividade. Stephen Hawking ainda demoraria a nascer, e faltaria quase um século para Peter Higgs revelar as imagens que representam ao bosão de Deus, mas Pessoa, que não era nem físico nem astrofísico, antes de todos eles, falou do sentimento de sideração e espanto, aniquilamento e elevação suprema que um ser humano experimenta diante da magnitude e dos segredos calculáveis, mas indizíveis, do Espaço, tal como se nos apresenta hoje em dia. Pessoa disse o que é possível dizer com palavras nossas, personificados no afecto maternal – “Noite, Vem e embala-nos,/ Vem e afaga-nos,/ Beija-me silenciosamente na fronte/ Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beija/ E um vago soluço…/ Talvez porque a alma é grande e a vida é pequena..”

A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse. Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado. Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim enquanto formos donos dela.

Por isso, eu desejo, como recém chegada, que este Prémio, que tem uma genealogia de 37 edições tão assinalável, continue a ir de vez em quando à procura dos que se entregam a manter o mundo humano, humano, pelo poder das palavras.

Obrigada.

 https://expresso.pt/cultura/2026-02-10-o-discurso-de-lidia-jorge-premio-pessoa-2025-o-mundo-de-hoje-descomposto-esta-a-beira-do-estado-de-alucinacao-global-e06c4cd7

Lídia Jorge, Marcelo de Sousa e o Prémio Fernando Pessoa

 * Christiana Martins, Jornalista~

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”

Pouco a pouco, o Presidente da República vai-se despedindo dos portugueses. No final desta tarde, apesar da chuva e do tempo cinzento, no átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, a audiência, repleta de figuras da política, da economia e das letras, marcou presença para o ouvir. E a vencedora do Prémio Pessoa de 2025 não o poupou à emoção

10 fevereiro 2026   

O átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos encheu-se esta terça-feira para ouvir a escritora agraciada com o Prémio Pessoa 2025 e para, mais uma vez, abraçar, cumprimentar o ainda chefe de Estado. Desde a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, a Leonor Beleza, Guilherme D'Oliveira Martins, Pedro Abrunhosa e à reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil, bem como vários banqueiros, empresários e premiados das edições anteriores.

“Querida premiada”, foi como Marcelo Rebelo de Sousa se dirigiu a Lídia Jorge. E, depois de recordar Francisco Pinto Balsemão e "o seu contributo para a projeção da língua portuguesa no mundo", o Presidente da República falou de literatura com o à vontade de quem navega na Cultura como quem nada no mar de Cascais.

Fez uma digressão diacrónica e detalhada sobre a obra da autora, sublinhando a presença do Algarve, de África, o papel da mulher e dos feminismos e “o registo que se aproxima da auto-ficção de ‘Misericórdia’” e a atenção à população mais velha. Nem a coluna de Lídia Jorge no jornal “El País” foi esquecida.

Por fim, falou do controverso discurso do 10 de Junho do ano passado. "Um escritor é um estilo e uma linguagem e todos conhecemos o estilo e a linguagem da nossa homenageada", disse o Presidente, para acrescentar, “mas é justo dizer que este discurso alargou a nossa percepção quanto à sua figura e o seu empenhamento”.

“O lugar do escritor enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz ‘preocupem-se’”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa sobre a comunicação da escritora. “Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros”, concluiu. Sem deixar de lembrar que os portugueses têm sabido recusar “divisionismos”, numa achega subtil e indireta à última eleição Presidencial.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Depois de longos aplausos, Lídia Jorge respondeu ao discurso do chefe de Estado. “Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo.” Foi assim, com a delicadeza do agradecimento, que Lídia Jorge deu a Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República que se despede do cargo, um estatuto nobre, para lá da emoção a ele continuadamente associada.

Pinto Balsemão evocado
A edição de 2025 também ficou marcada por ter sido este o primeiro Prémio Pessoa a ter sido decidido sem a presença ou a orientação do seu criador, Francisco Pinto Balsemão, falecido no ano passado. Por isso mesmo, a cerimónia começou por render uma homenagem ao fundador do grupo Impresa. Mas, mesmo após o seu desaparecimento, a iniciativa da Caixa Geral de Depósitos e da Impresa resistiu.

As primeiras palavras da escritora foram para o chefe de Estado: “Se o admirava à distância, os últimos anos fizeram com que o pudesse admirar na proximidade.” Mas a resistência do Prémio Pessoa foi também assinalada pela escritora. E, por isso, a Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo a que pertence o Expresso, desejou: “O seu pai entregou este prémio a 37 premiados. Desejo que o entregue a 77. Seria sinal de que o futuro, para além das coisas boas que irá criar, manterá algumas das que são louváveis do presente.”

A Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, Lídia Jorge reconheceu, mais do que um gestor, um leitor. “A primeira vez que nos encontrámos foi na feira do Livro de Lisboa. Alguém me disse ‘Vem aí o Presidente da Caixa Geral dos Depósitos’ e as pessoas na minha pequena fila desviaram-se. Eu olhei e só vi um homem. Um homem que falava de livros. É assim que o vejo.”

E, antes de encerrar o capítulo dos agradecimentos, na presença de vários premiados em edições anteriores, Lídia Jorge permitiu-se um espaço a ela mesma, ao recordar o instante em que foi informada de que tinha conquistado a última edição do Prémio Pessoa. “Num primeiro momento, a pessoa pergunta 'Porquê eu?'. Num segundo momento, já formula a questão de modo diferente 'Porque não eu?'. É neste segundo momento, que já implica uma certa acomodação, que me encontro.”

Em tom de improviso, dirigiu-se à ministra da Cultura, dizendo que devia ser mesmo apenas ministra da Cultura, desejo que mereceu o aplauso dos presentes.

A força da poesia
Voltando ao discurso da escritora, ficou evidente que a relação entre Lídia Jorge, também conselheira de Estado, e Marcelo Rebelo de Sousa recebeu um impulso fundamental quando, também no ano passado, o Presidente a escolheu para proferir o discurso do 10 de Junho. Um discurso polémico, que tanto feriu como agradou, que tanto incomodou como incentivou, com frases marcantes, como a que vaticina que “por aqui ninguém tem sangue puro” e que “a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma”. Houve quem a aplaudisse, houve que a quisesse calar definitivamente.

Ditos os obrigadas, Lídia Jorge falou de si, da literatura, e do futuro. Começou por falar do sentimento de intimidação em receber um prémio com o nome de Fernando Pessoa. E disse que, para conseguir aceitar, prefere pensar na presença de um anjo benfazejo e bem humorado, um trocista. “O anjo do bom humor encontra-se pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.”

A sétima mulher e a primeira romancista premiada contou a sua relação com “o maior poeta do Século XX”. Lembrou-se da infância, de quando tinha apenas 13 anos e começou a lê-lo, antes de Pessoa ser para ela um mito.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Recordou também Eduardo Lourenço, “gémeo fraterno de Pessoa”, que no poeta reconhecia “o cosmopolitismo, a dinâmica técnica e subjectividade caótica" e ”a verdadeira lava ardente criadora".

É quando a escritora toca no presente, que diz ser um tempo “descomposto, à beira do estado de alucinação global”. Um tempo em que a poesia, que “corresponde à articulação mais sofisticada das línguas”, “serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso”. Uma poesia humana, para lá dos artefactos e artifícios da inteligência artificial, que tem de funcionar como “um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos”.

Não sendo poeta, Lídia Jorge exaltou a poesia. “A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse.”

Para lamentar - “Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado” - e alertar: “Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios.”

Ao despedir-se, a escritora preferiu apostar no otimismo. “A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim, enquanto formos donos dela.” A audiência gostou e a ela se associou, num aplauso reconhecido.

Aurélien - Fora de controle. Se existe alguma esperança, ela reside na PMC

*  Aurélien

Era uma vez, quando o mundo era jovem e os políticos sabiam como fazer política de verdade, era normal que um partido no poder recompensasse seus apoiadores, às vezes em detrimento daqueles que votaram em outros partidos. Assim, os partidos de esquerda promulgavam leis sobre condições de trabalho e para melhorar as proteções sociais, enquanto os partidos de direita reduziam os impostos para os ricos. Era uma piada comum na Grã-Bretanha, nos tempos de governos alternativos genuínos, que o Partido Conservador aumentava o imposto sobre a cerveja, enquanto o Partido Trabalhista aumentava o imposto sobre o vinho. De modo geral, você sabia onde estava e em quem estava votando.

Já falei bastante nestes ensaios sobre como, independentemente de considerações ideológicas ou mesmo morais, o problema fundamental dos políticos ocidentais de hoje é a falta das habilidades políticas tradicionais : coisas chatas como angariar apoio, ser eleito, aprovar leis, manter-se no poder e assim por diante. Suponho que o governo do Sr. Starmer no Reino Unido represente o ápice dessa fraqueza, embora esteja longe de ser o único culpado. Parece não ter ideia de qual seja o seu propósito, nenhum conceito de programa político e nenhuma conexão com o que o povo britânico expressou, de forma muito clara, que deseja. De fato, é legítimo questionar qual é o verdadeiro propósito da maioria dos partidos políticos ocidentais modernos, em termos de política representativa tradicional.

No caso dos partidos da Esquerda Teórica, é possível traçar com bastante facilidade o abandono de sua base de apoio tradicional, e essa triste história é suficientemente conhecida para que apenas uma versão resumida seja necessária aqui. Em resumo, os partidos da esquerda tradicional foram progressivamente dominados por graduados universitários de classe média, cujas primeiras concepções de política foram formadas menos em fábricas, minas de carvão e trabalho sindical do que em cartazes de palestras sobre maoísmo, nas contracapas de livros de Marcuse e em conversas noturnas regadas a xícaras de café instantâneo. Se o radicalismo inicial da juventude logo se dissipou, suas premissas subjacentes — a estupidez essencial do eleitorado e a necessidade de um movimento de vanguarda para guiá-lo e orientá-lo — permaneceram muito fortes e provavelmente são a força dominante na Esquerda Teórica até os dias atuais. Afinal, como o Sr. Mandelson aparentemente afirmou nos tempos do Novo Trabalhismo, os apoiadores tradicionais daquele partido não tinham para onde ir, e seu apoio podia simplesmente ser dado como certo. Por que não, então, mergulhar no fascinante e empolgante mundo da Política de Identidade Pós-Moderna, travar suas batalhas e construir suas carreiras ali, adotando, ao mesmo tempo, algumas das políticas econômicas da direita, que, em sua opinião pessoal, você considera mais atraentes? O ápice lógico disso ocorreu na França, onde o partido do Sr. Mélenchon abandonou explicitamente os apoiadores tradicionais da esquerda — e, de fato, frequentemente os insulta publicamente — e buscou abraçar a “França Real”, de imigrantes, muçulmanos, minorias sexuais e profissionais urbanos com ideias sociais liberais. Bem, veremos como isso se desenrola.

O que surpreende, no entanto, é que esse abandono da base de apoio tradicional da esquerda não foi acompanhado por nenhuma tentativa sustentada e organizada de atrair os mais afortunados e prósperos. É claro que houve cortes de impostos e várias manobras financeiras, mas o que quero sugerir aqui é que muitas das políticas implementadas por todos os governos, de diferentes orientações políticas, desde a década de 1980, na verdade, prejudicaram os pobres, sem, de fato, ajudar muito os mais ricos. Afinal, é reconhecido que os mais ricos utilizam os serviços públicos mais do que os pobres, que seus filhos permanecem mais tempo no sistema educacional e que suas relações com órgãos públicos, como a Receita Federal, tendem a ser mais complexas. Contudo, em muitos casos, foi a sociedade como um todo que sofreu, e apenas os ultrarricos (que estou excluindo desta análise por ora) podem ser considerados beneficiados, e mesmo assim, de forma ambígua.

À primeira vista, e até mesmo à segunda, isso parece insano. Mas o fato é que as outrora prósperas classes médias altas também sofreram com a interminável privatização, deslocalização, terceirização, liberalização, introdução da “concorrência” e muitas outras iniciativas dos últimos quarenta anos. E esse grupo — vamos resgatar mais uma vez o termo Casta Profissional e Gerencial (CPM) — está agora sofrendo o que as camadas mais baixas da sociedade vêm sofrendo há décadas, e não gosta nada disso. E para uma estrutura de poder atacar o padrão de vida e até mesmo o modo de vida de seus apoiadores mais importantes, mesmo que inadvertidamente, parece, bem, estranho. Não estou buscando simpatia por eles, mas já argumentei no passado que seu afastamento dos centros de poder é muito perigoso politicamente. Alguns comentaristas chegaram a sugerir que nos EUA já existe uma guerra civil entre os ricos e os mais ricos, e que isso acontecerá em outros países também, em breve. Vamos tentar entender por que isso pode acontecer.

Podemos tomar como sujeitos experimentais um casal de empresários de empresas privadas na faixa dos 50 anos. Um deles é consultor jurídico de uma importante organização financeira, o outro é contador em uma empresa que antes era de serviços públicos, mas foi vendida para proprietários estrangeiros há muito tempo. Juntos, eles têm uma renda anual substancial, uma bela casa, dois carros, investimentos significativos e tiram férias decentes algumas vezes por ano. Moraram em uma pequena e próspera cidade do interior, a meia hora de trem da cidade onde trabalham. Na Grã-Bretanha, provavelmente votaram no Partido Trabalhista em 1997 e nos Conservadores em 2010. Na França, votaram em Macron em 2017 e 2022. Na Grã-Bretanha, foram firmes opositores ao Brexit; na França, temem que Le Pen chegue ao poder. Consideram-se socialmente liberais: apoiaram com entusiasmo o casamento entre pessoas do mesmo sexo e são a favor da imigração irrestrita. São fortes apoiadores da Ucrânia, mas estão confusos em relação a Gaza. Acreditam em impostos mais baixos e cortes nos gastos públicos, exceto na polícia e nas forças armadas.

E esta noite eles vão jantar com um casal da mesma idade e origem que conheceram recentemente, e enviaremos um drone para gravar a conversa. Quando ele voltar, vamos inserir a gravação em um novo e maravilhoso sistema de IA, que resumirá a conversa para nós e nos dirá o que eles e seus amigos disseram. E de fato, fazemos isso e, surpreendentemente, descobrimos que eles estão insatisfeitos com muitas coisas. Vejamos o resumo da conversa à mesa de jantar.

Para começar, teve toda essa palhaçada de estacionar o carro. A prefeitura terceirizou o serviço de estacionamento para uma empresa desconhecida, e eles tiveram que ficar lá na chuva, baixar um aplicativo no iPhone, criar uma conta, cadastrar um cartão de crédito e inserir seus dados, só para estacionar o maldito carro! Dá para acreditar? Chegaram atrasados ​​e molhados, e essa não é uma boa maneira de começar. E tudo porque alguma empresa no Cazaquistão ou em algum lugar assim queria me mandar propaganda. Juro por Deus!

Ah, o carro. Bem, eu sempre dirigi este modelo — um pouco caro, eu acho, mas achamos que vale a pena — mas o novo modelo parece ser basicamente uma atualização de software, e as atualizações nem sempre funcionam, e você ainda tem que pagar para desbloquear um monte de coisas que antes considerávamos normais. E a assistência técnica local fechou porque não conseguem funcionários, então tenho que levar o carro a meia hora de distância para uma oficina muito maior, onde cobram uma fortuna. Quer dizer! Sim, e aqui é a mesma coisa, um dos nossos carros está parado porque não conseguem uma peça de reposição, e agora eles são fabricados na Romênia ou algo assim, e vai demorar semanas. Eu entendo a questão da eficiência e tudo mais, mas não vejo como pode ser mais eficiente transportar um carro por meia dúzia de países, trocando peças nele. De quem foi essa brilhante ideia?

Ainda bem que não uso o trem para trabalhar, diz alguém. Mas sabe, quando nos mudamos para cá, o serviço de trem era bom e não era tão caro. Mas tanta gente se mudou para fora da cidade, para cá, e até para mais longe, porque era muito caro morar no centro, que quando o trem chega de manhã, muitas vezes tenho que ir em pé o caminho todo. Consegue imaginar? Eu realmente não sei por que não podem colocar mais trens ou mais vagões. Ah, concordo, diz outra pessoa. Eu estava perguntando a um maquinista sobre isso e ele disse que não tem condições de morar perto da linha, então precisa acordar às quatro da manhã e viajar uma hora para dirigir o primeiro trem. E no inverno passado, quando nevou, metade dos maquinistas não conseguiu chegar ao trabalho, por isso estávamos congelando na plataforma, eu me lembro. Dá para acreditar que eles não conseguem se organizar melhor?

Então, começaram a falar sobre preços de imóveis e o software percebeu que, em vez de se gabarem do valor da casa, pareciam deprimidos. "Sim", disse um deles, "nossa casa vale uma fortuna, aliás, não teríamos dinheiro para comprá-la agora. Mas são os filhos... os dois voltaram da universidade e estão morando conosco nos antigos quartos deles. Acho que nenhum dos dois vai conseguir comprar uma casa, do jeito que as coisas estão. Não é que não sejam qualificados: um se formou em Direito Internacional e o outro em desenvolvimento de software, mas só conseguem trabalhos temporários. Foi uma luta conseguir estágios para eles quando eram estudantes. E, claro, podemos esquecer a vida social que tínhamos na idade deles. A verdade é que nós os sustentamos durante a universidade, mas chega uma hora, sabe...". Sim, diz outra pessoa, nossa filha está fazendo um intercâmbio e, bem, não nos importamos de contribuir, é bom que ela tenha essa oportunidade, mas ela não faz ideia do que pode fazer quando se formar. Administração é ótimo, mas… Ela estava dizendo que nenhum dos amigos dela tem condições de morar perto de onde há trabalho. Não sei o que aconteceu com a sociedade.

A IA registra alguns elogios sobre a comida e depois os problemas para encontrar produtos de boa qualidade. Sim, havia um mercado aqui, um grande, mas muitos produtores locais faliram, venderam tudo para as grandes empresas. O mercado agora vende principalmente roupas fabricadas na China. E costumávamos comprar muitos produtos orgânicos no supermercado, mas o gerente disse que estão fechando a maior parte da seção de orgânicos porque muita gente simplesmente não tem mais condições de comprar. Engraçado, você pensaria que custaria mais mergulhar as coisas em produtos químicos do que simplesmente deixá-las em paz. Há uma loja de produtos orgânicos na rua principal, mas aparentemente está à beira da falência, as pessoas não têm mais tempo. Sim, nossa rua principal também está em mau estado, entre brechós, cafeterias, fast-food e imobiliárias, não sobrou muita coisa. Costumava haver uma boa livraria, mas fechou. Loja de música também. Então, é claro que temos que comprar na Amazon, o que não gostamos de fazer. Sei bem o que você quer dizer: há pouco tempo, uma encomenda foi jogada por cima do portão do jardim na chuva e todos os livros ficaram encharcados. Mas fazer o quê? Acho que tem uma livraria perto do escritório, mas quem tem tempo para isso hoje em dia? Enfim, os coitados dos entregadores trabalham doze horas por dia e, pelo que li, muitas vezes não têm tempo de entregar tudo. E muitos deles são imigrantes, porque ninguém mais quer trabalhar por esses salários, então não conhecem a região e muitas vezes não conseguem ler os endereços direito. Não consigo imaginar como tudo isso pôde acontecer. Alguém precisa fazer alguma coisa.

Mas nem tudo são más notícias, afinal, viajar está mais barato hoje em dia, não é? Há mais opções e tudo mais. Bem, não vou discordar de você, mas nossa filha e a amiga dela foram para Praga por uma semana, e sim, foi barato, pelo menos parecia barato. Mas elas tiveram que pegar um ônibus até o aeroporto, que ficava a uma hora de distância, e depois tiveram que comprar comida e bebida no avião, ah, e ainda tinham que pagar só para escolher o assento, e pousaram em um aeroporto minúsculo e esquecido por Deus, a uma hora de Praga, e tiveram que pagar uma fortuna por um táxi. E não se esqueça da volta, querida. Isso mesmo, o tempo estava ruim no aeroporto, então todos os voos atrasaram e elas finalmente chegaram lá pelas duas da manhã, e você teve que ir buscá-las de carro… No fim das contas, não saiu tão barato assim. Mas, enfim, esse é o lado mais barato do mercado, né? Você recebe o que paga.

Sim, mas você já deu uma olhada na Classe Executiva ultimamente? Quer dizer, consegue imaginar pagar a mais para escolher seu assento na Classe Executiva ? Na verdade, pensamos em ir a Viena no verão passado e nos presentear com a Classe Executiva. Mas sabe, eu costumava viajar pela Europa, há um tempo atrás, e a Classe Executiva era algo especial naquela época. Desta vez, tudo o que conseguimos foram algumas fileiras isoladas por cortinas e um assento vago no meio, e o tipo de comida que costumavam servir na Classe Econômica. Então, perguntei sobre isso no check-in, e eles disseram: "Bem, pressão da concorrência". Mas a concorrência não deveria melhorar as coisas ? Não sei o que deu nessas pessoas. E lembra que quase não conseguimos ir porque tínhamos que renovar o passaporte e demorou, sei lá, seis meses? Isso mesmo, e reclamei e falei com um tal de Dalek que disse que era verão e que a demanda estava alta. Quer dizer, por que eles não contrataram mais funcionários ou algo assim?

Então a conversa aparentemente mudou para educação e seus efeitos. Quer dizer, eu não quero entrar na discussão sobre a juventude atual, mas é um fato. Um dos meus clientes é uma rede de supermercados, e eles não conseguem encontrar pessoas para trabalhar no depósito, porque elas não conseguem contar pacotes corretamente e não conseguem ler alguns dos rótulos. Não é culpa delas, elas nunca aprenderam, e de qualquer forma, estão acostumadas a simplesmente pesquisar as coisas. Eu sei, nós mesmos estamos contratando pessoas que não sabem escrever, porque estão usando inteligência artificial para fazer isso por elas. Eu não sei por que permitem computadores nas escolas, afinal. Aliás, quando dizemos "alfabetizado digitalmente", nos referimos a pessoas que conseguem montar uma planilha, mas não têm ideia do que os números significam, então não percebem quando cometem erros. Sim, eu não sei para que educam as pessoas hoje em dia. Quer dizer, compramos uma máquina de lavar nova, controlada por computador, que faz tudo menos café, de uma marca boa também, acho que fabricada na Alemanha, custou uma fortuna e começou a dar problema depois de um ano. Temos um rapazinho que vem fazer os consertos, faz isso há anos, e ele disse que hoje em dia até as grandes marcas usam os componentes mais baratos que encontram. Ah, e ele disse que vai se aposentar em breve e fechar a empresa porque não há mais jovens na área. Ninguém está interessado. Não sei onde vamos encontrar alguém para substituí-lo.

A IA não encontrou muita coisa na transcrição depois disso. Sugeriu que os quatro começaram a discutir ações revolucionárias violentas contra o governo, mas isso é quase certamente uma alucinação. Tudo isso nos faz pensar, no entanto, se o resumo da IA ​​e as citações são minimamente precisos.

É fácil, e talvez até benéfico, lembrar que a maioria das pessoas consideraria que existem questões mais importantes do que a queda na qualidade das viagens de classe executiva na Europa (o que, aliás, é verdade). Afinal, há pessoas desempregadas, com frio e fome não muito longe de onde estou escrevendo. Os problemas da educação, da saúde e dos preços dos alimentos afetam mais fortemente aqueles com menos recursos. Em um hipermercado não muito longe de onde estou sentado, os porta-papel higiênico nos banheiros agora têm cadeados para evitar furtos.

Moralmente, este é um argumento irrefutável. Muitos de nós ficaríamos felizes se levar nosso carro caro para fazer a manutenção perto de casa fosse o maior problema de nossas vidas. Politicamente, porém, é um desastre anunciado, e dedicarei o restante deste ensaio a discutir isso. Tudo começa com a constatação de que ninguém realmente entende o mundo moderno, e especialmente o porquê dele. Ah, economistas e outros fingem que entendem, e existe toda uma indústria dedicada à proposição de que o futuro é inevitável e que tudo o que podemos fazer é nos deitar diante do rolo compressor que se aproxima. Mas quase todas as previsões detalhadas sobre o futuro feitas durante minha vida se provaram, na melhor das hipóteses, generalizações exageradas e, na pior, pura fantasia. (Não, não estou falando apenas de férias na Lua e carros voadores.)

Por razões que abordaremos em breve, o mundo — pelo menos o mundo ocidental — tornou-se complexo demais para ser compreendido e, portanto, quase impossível de gerir. E por razões relacionadas, que também veremos adiante, não precisava ser assim, mas pode ser tarde demais para reconstruir mais do que algumas peças. Os magnatas da tecnologia, o tipo de gente que infesta os corredores de Davos, e os supostamente ilustres colunistas, gostam de fingir que conseguem prever o futuro, e talvez acreditem nisso em parte. Mas, dado o seu histórico consistente de fracassos lamentáveis, a maioria das pessoas não lhes dá atenção e finge que não vê. De fato, por razões que abordaremos adiante, o mundo está agora caótico demais para ser compreendido, quanto mais previsto. Podemos prever certas megatendências — as mudanças climáticas, por exemplo — mas não podemos prevê-las em detalhes, nem as suas consequências. Há duas razões básicas para isso.

A primeira é que os últimos quarenta anos testemunharam o desenvolvimento e a introdução de sistemas fundamentalmente caóticos, ou seja, sistemas cujo funcionamento não compreendemos totalmente e cujas consequências não podemos prever com precisão. Aliás, muitas vezes, pouco se fez para prevê-los. Mas por que isso aconteceu, você pode perguntar, com razão? Bem, a resposta simples é que não era para ser assim. A ideia era que, em vez de serem planejados antecipadamente, vários elementos da economia fossem "liberados", de modo que a natureza auto-organizadora do mercado os levasse ao equilíbrio. Havia várias limitações óbvias nessa teoria. Uma delas é que nem sequer era realmente uma teoria, porque não podia ser testada: era uma crença quase religiosa no funcionamento perfeito dos mercados e, como não havia perspectiva de realizar testes controlados, os resultados prováveis ​​e, consequentemente, o significado dos resultados reais quando surgissem, eram simplesmente aceitos por fé. Ninguém sabia por qual processo misterioso os mercados supostamente se auto-organizavam e, de fato, depois de alguns drinques, os economistas diriam que era apenas uma suposição teórica simplificadora, não uma observação pragmática.

Outra limitação é que o máximo que os mercados podem fazer, mesmo em teoria, é reunir compradores e vendedores. Isso pode produzir um resultado ótimo em termos de bens e serviços vendidos, mas não produzirá um resultado que seja consistentemente ótimo em qualquer outro aspecto. Por exemplo, se a assistência médica, antes gratuita e fornecida pelo Estado, passar a ser oferecida por empresas privadas em um mercado, o melhor atendimento será destinado àqueles que podem pagar mais, e as pessoas comuns poderão ter dificuldades para encontrar qualquer tipo de assistência. A saúde da nação irá piorar (como de fato já aconteceu), as pessoas terão que se aposentar mais cedo, os benefícios por invalidez aumentarão e assim por diante. Os próprios médicos tenderão a se especializar em áreas lucrativas da medicina e a se mudar para regiões ricas do país. Os economistas gostam de descartar essas consequências, e muitas outras semelhantes, como "externalidades", mas, na verdade, são elas que compõem questões como a da saúde . Nunca ouvi ninguém perguntar, por exemplo, "você pode me recomendar um dentista barato?".

A segunda razão é que esses sistemas caóticos não estão isolados uns dos outros, mas interagem de maneiras que sempre nos surpreenderão e, geralmente, excederão nossa capacidade de compreensão. Por exemplo, a globalização , a internet , a facilidade de viagens internacionais , o Espaço Schengen, a disponibilidade de armas automáticas provenientes dos destroços de nações do Leste Europeu , os avanços nas tecnologias farmacêuticas , as mudanças nas leis de asilo e direitos humanos , a facilidade com que o dinheiro pode ser transferido , a remoção progressiva de barreiras ao comércio e à circulação e o desenvolvimento de políticas identitárias são apenas alguns dos fatores que se combinaram para instalar gangues criminosas étnicas bem armadas, traficando pessoas e drogas, em muitos países ocidentais, a ponto de vários deles poderem ser descritos como narcoestados incipientes. Provavelmente, nenhum defensor de qualquer uma dessas medidas isoladas pensou que estivesse contribuindo para tal resultado, muito menos imaginou que ele ocorreria, e, para ser justo, isso teria sido difícil de prever no início. Além disso, as pressões políticas — sobre mudanças nas leis de asilo, por exemplo — foram suficientemente fortes para que os alertas de que esse tipo de resultado poderia ocorrer fossem ignorados. E diversas outras combinações desses mesmos fatores produziram vários outros resultados negativos, que por sua vez são resultado de interações altamente complexas.

Uma das principais observações do inovador romance de ficção científica Neuromancer, de William Gibson, publicado em 1984 , foi que “a rua encontra seus próprios usos para as coisas”. Podemos generalizar essa percepção para um campo mais amplo do direito: a exploração de novas tecnologias, novas “liberdades” e novas estruturas legais sempre trará os maiores benefícios para aqueles com menos escrúpulos. Isso não significa que esses usos sejam sempre ilegais — embora possam muito bem ser —, mas sim que as recompensas são direcionadas preferencialmente para aqueles que buscam primeiro extrair o máximo de vantagem financeira, sem se preocupar muito com dilemas morais. Considere, por exemplo, a corrupção de sites comunitários. Há alguns anos, um site chamado Le Bon Coin foi criado na França para permitir que vizinhos e moradores da mesma cidade comprassem e vendessem itens entre si, desde brinquedos infantis até casas e carros. Rapidamente, é claro, golpistas se envolveram, especialmente quando quantias substanciais de dinheiro estavam em jogo. Há alguns anos, eu estava passando pela seção de brinquedos de um hipermercado pouco antes do Natal e vi um grupo de pais preocupados em frente a uma prateleira vazia de brinquedos, acho que eram de Pokémon. Para onde tinham ido todos?, perguntavam. O funcionário, visivelmente estressado, tentava explicar que grupos organizados entravam na loja logo cedo e compravam alguns brinquedos cada, que eram então revendidos no Le Bon Coin mais tarde para pais desesperados, por preços várias vezes maiores que o normal. Isso provavelmente não é ilegal, mas reflete o fato de que a tendência moral no uso de novas tecnologias é, em geral, para pior. Sempre haverá uma maneira de lucrar rapidamente às suas custas.

De fato, uma das características do estilo de vida que emergiu nos últimos quarenta anos — globalizado, desregulamentado, competitivo — pelo menos em teoria, é que praticamente nenhuma consideração foi dada às implicações mais amplas e de longo prazo do que estava sendo feito. Por sua vez, isso ocorreu porque os idealizadores de muitas dessas ideias tendiam a ser mais gananciosos do que inteligentes, e a demonstrar um completo desinteresse pelo que aconteceria depois que sua ideia predileta lhes rendesse muito dinheiro ou vantagens políticas. Notavelmente, a privatização sequer foi mencionada no manifesto do Partido Conservador de 1979: era uma medida de pânico destinada a arrecadar dinheiro diante da crise econômica, e pouca ou nenhuma consideração foi dada ao longo prazo. Nossos casais de jantar provavelmente se deram muito bem com isso no início: comprando ações das novas empresas “privadas” e vendo-as valorizar. Deve ter sido divertido. Depois, perceberam que essas mesmas empresas estavam sendo compradas e vendidas, às vezes para empresas estrangeiras com pouca presença no mercado interno. Então, se os casais que participaram do nosso jantar hipotético fossem britânicos, certamente ficariam surpresos ao descobrir que, após várias mudanças de proprietário, o gás para cozinhar e aquecer a casa estava sendo fornecido pela Électricité de France, empresa estatal . Claro que o fornecimento de gás continuava o mesmo, só que agora era a EDF que estava cobrando. E não adianta tentar contatá-los, porque só se consegue falar com um chatbot. Não era para ser assim.

Não, não era. Mas o problema agora é que a confusão resultante é tão complexa que é impossível de desvendar. Em parte, isso se deve ao fato de as estruturas de propriedade terem se tornado tão complexas que descobrir quem é dono de quê, muito menos onde encontrar essas informações, pode ser impossível. Mas essa confusão não é apenas organizacional, é também processual. Afinal, por que reduzir o atendimento ao cliente e depender de chatbots e funcionários de call center em outros países? Não é uma ótima maneira de perder clientes? Bem, sim, mas reter clientes com um bom serviço é caro e demorado, e é mais fácil simplesmente prendê-los em contratos dos quais não podem se desvincular e explorá-los. Mas por que fazer isso? Bem, há o impacto de todos os desenvolvimentos paralelos que direcionam as empresas para a maximização do lucro a curto prazo, salários e bônus de executivos atrelados a rendimentos trimestrais e o fim do tipo de carreira de longo prazo que força você a olhar além do seu próprio umbigo e considerar o interesse geral. Mais uma vez, uma ampla gama de desenvolvimentos isolados, todos compartilhando os mesmos preconceitos, mas introduzidos em momentos diferentes e por razões distintas, combinaram-se para criar uma nova mistura tóxica. E essa mistura desenvolve sua própria lógica distorcida. Afinal, uma maneira de as empresas concorrentes manterem sua participação de mercado é se todos forem igualmente ruins. Nivelar o mercado, economizando assim mais dinheiro para aumentar os lucros, é na verdade uma medida sensata para setores empresariais inteiros.

Essa é uma das razões pelas quais não existem soluções simples para o caos desesperador e inútil que enfrentamos atualmente. Na Grã-Bretanha, pioneira da teoria do "mercado de pulgas" para o governo, os fracassos de algumas indústrias privatizadas tornaram-se tão flagrantes que até mesmo um governo trabalhista foi forçado a tentar reestatizar algumas delas. Mas, é claro, o problema não se resume à propriedade: envolve uma série de outros fatores, principalmente culturais e institucionais. Quando os monopólios naturais foram privatizados (algo que parecia incompreensível para muitos, mesmo na época), gerentes de carreira e especialistas técnicos de repente se viram com salários e condições de trabalho do setor privado, carros da empresa, reembolso de despesas e sabe-se lá mais o quê. Os altos executivos se autodenominaram "CEOs" e todos ficaram obcecados com o preço das ações. Trinta ou quarenta anos depois, não se pode simplesmente dizer a uma organização que prosperou com uma política de "Dane-se o Cliente" que, a partir de segunda-feira, o navio pirata tem um novo capitão e, portanto, eles devem se comportar de maneira diferente. Serviços públicos eficientes, como os que tínhamos antigamente, são, em si, produto de uma ampla gama de fatores diferentes: políticos, sociais, institucionais, financeiros, educacionais e culturais, entre outros. A maioria deles desapareceu, provavelmente para sempre.

Um dos efeitos de todas essas mudanças é que os governos, e consequentemente os eleitores e cidadãos, perderam efetivamente toda a influência sobre o desenvolvimento tecnológico e suas consequências. Tudo isso está nas mãos do setor privado, e em grande parte de personalidades cuja habilidade fundamental é enganar as pessoas e convencê-las a investir em empresas deficitárias, com a promessa de que poderão vender seus investimentos para investidores mais ingênuos posteriormente. Os casais que frequentavam nossos jantares antes possuíam ações de empresas que produziam bens e serviços reais. Agora, são bombardeados por anúncios que os incentivam a não perder novas tecnologias revolucionárias, como essa tal de "IA" que está empolgando todo mundo, mas que eu realmente não entendo. Quer dizer, você entende? Não exatamente, mas aparentemente vai acabar com o emprego de todos os nossos filhos. O fato é que os trilionários teóricos por trás da "IA" também não fazem ideia e não se importam, contanto que continuem atraindo dinheiro de investidores desavisados. E, claro, a maioria das empresas e governos são administrados por pessoas que também não têm a menor noção do assunto.

Todas as outras pressões independentes, mas complementares, que mencionei anteriormente entrarão em jogo. Quando é possível influenciar o preço das ações da sua empresa simplesmente anunciando que você planeja substituir 10% da sua força de trabalho por IA no futuro, então é justo dizer que a irracionalidade financeira completa chegou. E, de qualquer forma, escondidas por trás desses anúncios que inflacionam os bônus, estão duas grandes questões filosóficas sem resposta. Uma é se realmente faz sentido abandonar um sistema estabelecido que possui uma pequena, porém conhecida, proporção de erros, em favor de um sistema não testado, porém mais barato, cuja proporção de erros não é apenas desconhecida, mas na verdade impossível de se conhecer. A outra é se faz sentido confiar em um sistema, por mais barato que seja, que é treinado com material que inclui seus próprios erros e os de outros sistemas, e que, portanto, matematicamente se torna menos confiável com o tempo. Espero que sua resposta instintiva para ambas seja "não", mas me preocupa que o setor que já é responsável por um crescimento econômico tão expressivo quanto o dos EUA seja administrado por pessoas que sequer consideram essas questões como possíveis fundamentos.

E sim, o comportamento de manada que rege a maioria das empresas privadas e governos garante que a "IA" será amplamente adotada, e os filhos dos nossos casais de jantar terão dificuldades para encontrar emprego. Então, após escândalos e falências, as organizações finalmente começarão a voltar a contratar humanos, apenas para descobrir que não há humanos suficientes. Se você acha que as organizações são disfuncionais agora, isso não é nada comparado a como elas serão nos últimos dias da febre da "IA".

Entretanto, as classes médias altas e a indústria mercantil também sofrem. Isso às vezes é apresentado como resultado de planos de longo prazo dos super-ricos. Ora, podemos admitir que os super-ricos talvez não sejam avessos a uma concentração ainda maior de riqueza no topo, e também que não sejam muito inteligentes, mas há limites. Afinal, eles não se destacaram exatamente por planejamento de longo prazo ("voos à Lua em 2020, 2022, 2024, 2026, 2028, em algum momento") e seus líderes parecem viver em uma realidade alternativa composta por filmes de ficção científica de baixa qualidade.

O fato é que ninguém está no controle, muito menos aqueles que nos ensurdecem com suas profecias otimistas. Se os governos, por exemplo, não tivessem abdicado dos monopólios das telecomunicações e da radiodifusão, se tivessem mantido a capacidade interna de avaliar o impacto dos desenvolvimentos tecnológicos na sociedade, não estaríamos nessa situação agora. Mas eles fizeram isso, não fizeram, e aqui estamos. Já é tarde demais, por algumas décadas, para reverter a situação. O efeito cumulativo de todas essas medidas é criar uma espécie de Monstro de Frankenstein, tão complexo e tão interligado que é difícil imaginar, mesmo teoricamente, como seria possível domesticá-lo.

Consideremos a questão da propriedade de imóveis. Durante gerações, na Grã-Bretanha, governos de esquerda construíram habitações sociais, em parte para melhorar a vida das pessoas, em parte para garantir votos. Enormes conjuntos habitacionais foram construídos (eu nasci em um deles) e as pessoas, em geral, eram felizes. O governo conservador de 1979 deliberadamente buscou criar mais eleitores conservadores, forçando os conselhos locais a venderem seus estoques de moradias e proibindo-os de construir novas. Não se sabe ao certo se isso funcionou eleitoralmente, mas o efeito foi retirar grande parte do setor de aluguel do mercado, elevando os aluguéis em outros lugares, forçando as pessoas a comprarem, quer quisessem ou não, o que aumentou os preços dos imóveis e obrigou os bancos a flexibilizarem cada vez mais os critérios para empréstimos, afundando muitas pessoas em dívidas impagáveis ​​e forçando aqueles que ainda podiam comprar a se mudarem para algum lugar, qualquer lugar, onde pudessem pagar por uma casa. E vinte e cinco anos depois, os orgulhosos proprietários de antigas habitações sociais chegaram à dolorosa conclusão de que seus próprios filhos jamais teriam condições de comprar uma casa. E tudo por uma vantagem política passageira. Inteligente, não é?

Tais exemplos poderiam ser multiplicados, mas o que não resta dúvida é que a PMC (Pune Municipal Corporation) está agora sendo esmagada pelas engrenagens do mesmo processo incontrolável. Trinta anos atrás, um jovem casal de profissionais poderia ter razoável confiança de que conseguiria comprar uma casa com seus salários conjuntos. Agora, isso é provavelmente impossível e, de qualquer forma, existem advogados e contadores na Índia, formados na Inglaterra, que podem fazer o seu trabalho por um terço do salário. Até agora, a raiva e o ressentimento vieram principalmente de pessoas comuns, que viram seus empregos desaparecerem, suas fábricas fecharem e seus serviços públicos serem destruídos. Mas as coisas têm o hábito de se desenrolarem de forma imprevisível, e agora os mesmos problemas estão atingindo a PMC. O problema é que não há soluções fáceis: na verdade, pode não haver solução alguma. De alguma forma, reduzir os preços das casas a níveis acessíveis não é possível. As empresas, sob a pressão dos resultados trimestrais, continuarão a fazer coisas autodestrutivas para apaziguar os acionistas. O trem está caindo do penhasco e os vagões de primeira classe irão junto com o resto.

A esperança — se é que se pode chamar assim — é que o próprio sistema, impossivelmente complexo, rigidamente interligado e intolerante a atrasos e dificuldades, comece a ruir. Já tivemos um vislumbre disso com o Brexit e a Covid, e a crise política e a guerra econômica podem muito bem agravar a situação. A transição provavelmente será descontínua, talvez lenta no início e depois repentina e brutal, causando danos políticos generalizados, independentemente de suas outras consequências. E então, creio, veremos a PMC tornar-se mais abertamente militante: ela possui a organização e as estruturas sociais, e, acima de tudo, tem um senso de privilégio. "Se havia alguma esperança, ela residia nos proletários", refletiu Winston Smith em 1984. Hoje em dia, talvez qualquer resquício de esperança resida na arrogância, no senso de superioridade e no senso de privilégio da PMC.  

18 de fevereiro de 2026
https://aurelien2022.substack.com/p/out-of-control-cbf?