quinta-feira, 27 de novembro de 2025

hélder moura - (559) Que fazer com os pobres que não querem deixar de ser pobres?


  •  hélder moura
  •  26.11.25

Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

A imagem do pobre como submisso, bendito, sentado à porta da paróquiamantem-se até ao século XIV.

 A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.

Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.

O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.

Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

O princípio em que assenta o sistema político-económico dos EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos, com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava, o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges dedicados profissionalmente a serem pobres).

Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os demais pudessem exercer a virtude da caridade.

Esta imagem da época em que o pobre é apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades, dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em pessoas que se deslocam.

imagem é agora a do sobrevivente que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder, descobrindo o valor dos seus braços.

pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se, pressionarem, revoltarem-se.

A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.

Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o da responsabilidade social da república para com os pobres, e o da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de Caridade.

Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único responsável por determinar como viria a ser a sua vida.

O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.

O conteúdo da ideia da caridade até então predominante encontrava-se esvaziado.

 

Em 1601Isabel I vai publicar a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.

Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho, onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do aparecimento das grandes empresas privadas.

 

 Os séculos XVII e XVIII prosseguem nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:

 “A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.

 “Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.

 “Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.

 

No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir, aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda a confiança em si depositada e a palavra dada.

Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de cada um.

A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido e famoso ‘equilíbrio de Nash’ (1950).

 Ficou assim demonstrado que é possível, e até desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados, uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu próprio egoísmo, sem leis nem polícias.

 

 No século XXI, em princípios de novembro de 2025, uma americana branca (Nikalie Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para 42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis ​​e quais as que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a ajudar.

Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de fórmula infantil de que necessitaria.

Quando a jornalista internacional australiana Caitlin Jonhstone publicou um post no X sobre o assunto, diz ela que recebeu “uma enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e alimentá-lo por conta própria”.

E que “Não acham que os pobres devam receber comida do governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos. Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

 

Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de existir.

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/559-que-fazer-com-os-pobres-que-nao-222717

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