- hélder
moura
- 26.11.25
Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.
A imagem do pobre como submisso, bendito,
sentado à porta da paróquia, mantem-se até ao século XIV.
A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.
Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.
O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.
Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou
morrer.
O princípio em que assenta o sistema político-económico dos
EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos,
com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos
necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do
Estado.
Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média
cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora
respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do
Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava,
o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges
dedicados profissionalmente a serem pobres).
Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram
considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os
demais pudessem exercer a virtude da caridade.
Esta imagem da época em que o pobre é
apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia,
vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois
terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades,
dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em
pessoas que se deslocam.
A imagem é agora a do sobrevivente
que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder,
descobrindo o valor dos seus braços.
A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de
ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas
por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se,
pressionarem, revoltarem-se.
A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e
discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís
Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para
os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.
Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o
da responsabilidade social da república para com os pobres, e o
da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de
Caridade.
Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes
proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único
responsável por determinar como viria a ser a sua vida.
O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha
vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal
era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.
O conteúdo da ideia da caridade até então predominante
encontrava-se esvaziado.
Em 1601, Isabel I vai publicar
a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo
tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse
fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da
paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de
um salário de subsistência.
Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho,
onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta
prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do
aparecimento das grandes empresas privadas.
Os séculos XVII e XVIII prosseguem
nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser
através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:
“A fome domesticará os animais mais ferozes,
ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só
a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”,
Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.
“Se se lhes fizer a vida impossível, o número de
mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de
arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas
Carlyle.
“Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para
com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.
No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado
por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir,
aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido
num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se
comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda
a confiança em si depositada e a palavra dada.
Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e
racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a
todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de
cada um.
A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é
que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos,
podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido
e famoso ‘equilíbrio
de Nash’ (1950).
Ficou assim demonstrado que é possível, e até
desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados,
uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu
próprio egoísmo, sem leis nem polícias.
No século XXI, em princípios de novembro
de 2025, uma americana branca (Nikalie
Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma
mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para
42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as
respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis e quais as
que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a
ajudar.
Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente
para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em
ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de
fórmula infantil de que necessitaria.
Quando a jornalista internacional australiana Caitlin
Jonhstone publicou um post no X sobre
o assunto, diz ela que recebeu “uma
enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja
simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa
que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e
alimentá-lo por conta própria”.
E que “Não acham que os pobres devam receber comida do
governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres
infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos.
Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou
morrer.”
Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de
existir.
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