sábado, 29 de novembro de 2025

25 de Novembro: entrevista a Vasco Louerenço

"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"

Tiago Palma

25 nov,2025

ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota


Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.

Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século depois, o coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”: “Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de Abril". 

Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a 1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos partidos.

O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares. Para quase todos, o episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.

É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.

Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço, não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil”, considera Vasco Lourenço.

Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos ‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.

Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?

Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril, aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo. Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto, de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25 de Abril.

 

Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é que foi, exatamente, o 25 de Novembro?

Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente, resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez — quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de Estado nenhuma.

 

Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?

Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também, de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa: a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer — tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000, eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta, ser atribuída ao COPCON.

 

Uma solução pacífica, portanto.

Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído —, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível? Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que, entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois tratamos disso'.

 

Mas a tensão foi aumentando.

A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -, mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura, convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a 'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento. Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe, ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa justificação'.

 

Só que transformaram as sessões de esclarecimento em ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...

O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.

 

Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou ali e acabou por não escalar noutros sítios?

Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém, eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém, ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a querer sangue, conseguissem sangue.

 

Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?

Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28 de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo, fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante operacional] conseguiu evitar.

 

E aí seria um banho de sangue.

Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.

 

Mas voltemos às mortes na Ajuda.

Foram três minutos.

 

Três minutos?

Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito 'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam: quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar. Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que não pertencia à unidade.

 

Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.

Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos — como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve essa situação.

 

E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?

Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação; estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa: apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã, a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário', porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e deram origem a isso.

O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo, trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o 25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável ao 25 de Abril. É assim?

O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os 'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo, queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia 29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz 'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25 de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo, inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975 para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a correr com o PCP e com a extrema-esquerda.

 

Não é totalmente verdade.

Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização. Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje. E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'. Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches, como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril. Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não se deu tanto por isso mas aconteceu.

 

Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?

Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o 28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça, acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno, de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que, também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem atingir os seus objetivos.

 

O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?

Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso. Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura, quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado democraticamente.

 

São os netos dos “falcões”?

[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um 'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25 de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios 'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…

 

Insubordinar-se.

Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me diz respeito, faço-lhes frente.

 

https://cnnportugal.iol.pt/25-de-novembro/vasco-lourenco/os-sobrinhos-dos-falcoes-da-extrema-direita-acham-que-podem-alcancar-agora-o-que-nao-conseguiram-alcancar-no-25-de-novembro/20251125/69247264d34e3caad84ba133? 

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