Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras
Por Redação
26/06/26 •
Resumo da notícia
Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição
“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração”
por Susana Prizendt
(artigo escrito inteiramente
por uma pessoa humana)
Suspensa em um apartamento de um
bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras
milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de
concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar
minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do
crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá,
resistindo a ser dado como morto.
Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra
inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio
acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo
é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a
existência do que chamamos de fertilidade.
Estima-se que um quarto das
espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que
habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e
uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante,
responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o
crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a
população humana.
Se você tem uma composteira, com
certeza já possui familiaridade com o que chamamos de ciclo alimentar. Como
nada na natureza é lixo, os resíduos do que comemos são transformados em adubo
e podem voltar para os territórios que geraram esses alimentos, enriquecendo
seus solos para que sigam férteis. Desse modo, mais cultivos virão, mais comida
chegará ao nosso prato e a vida continuará seu curso.
Quer dizer, ao menos era para ser
assim… se nosso modelo produtivo, dominado pelo capital globalizado, não
tivesse implodido a circularidade de seus processos. É o que Nêgo Bispo –
pensador quilombola que esteve recentemente no centro de uma pendenga
acalorada dentro da intelectualidade dita progressista – caracterizava
como modelo finito: há um começo, há um meio e há um fim.
No caso dos resíduos alimentares, este fim (que seria apenas simbólico, já que eles seguirão se decompondo junto aos resíduos não orgânicos, trazendo impactos ambientais pra lá de problemáticos) seria o aterro, como vemos constantemente ocorrer com a maior parte do que é chamado popularmente de lixo.
Dos quilombos às aldeias
Como um contraponto ao modelo
produtivo dominante, Bispo defendia que o modo de vida nos quilombos não pode
ser enquadrado nesse tempo linear. Assim, o que há em seus territórios é algo
como um “flerte com o infinito”. Ou seja, há um começo, há um meio e há um novo
começo; e assim sucessivamente. Essa dinâmica seria, inclusive, uma evidência
de que os quilombos não foram colonizados, ideia defendida por ele em suas
andanças e escrevinhanças.
Se levarmos em conta que, ainda
hoje, esses territórios, junto aos territórios indígenas, são responsáveis
pelas áreas mais protegidas do país, podemos compreender a profundidade das
diferenças entre nossas formas ocidentalizadas de viver e as formas de viver
dos povos tradicionais – que, em meio à ferocidade do capital, ainda resistem
bravamente em todas as regiões.
E foi seguindo o rastro dessas
raízes ancestrais, que pesquisadores como Eduardo
Neves nos revelaram que antigos povoados, estruturados de acordo com
essa circularidade, não apenas mantinham seus solos férteis, mas foram
responsáveis por um aumento expressivo dessa fertilidade, transformando áreas
que tinham um solo pobre em manifestações pulsantes de biodiversidade.
Só a partir dessa descoberta,
pudemos perceber que alguns ecossistemas, que eram até então considerados
inalterados pela ação humana, na realidade, foram resultado de centenas ou
milhares de anos de intervenções de sociedades nativas.
Um exemplo que instiga nosso campo
agroecológico é a existência da chamada Terra
Preta de Índio (TPI), presente na região amazônica. Trata-se de um
solo de origem antrópica, repleto de minerais, como cálcio, fósforo, magnésio e
zinco, fruto do manejo da matéria orgânica e não orgânica que sustentava a vida
nas comunidades, ao longo de gerações.
Um alento para quem, como eu,
tantas vezes se indaga – com tristeza – se os seres humanos têm mesmo uma
tendência para mudar para pior os lugares em que se estabelecem.
O que mais impressiona nessa
descoberta, é que a produção de um solo fértil, como o encontrado pelos
pesquisadores, é algo lento, que depende de condições muito específicas para se
viabilizar. A estimativa é que, para formar 1 cm desse tipo de terra sobre uma
determinada superfície, é necessário à natureza entre 200 a 400 anos. Ao
observar esses dados, podemos nos perguntar: será que as florestas com densas
camadas de terra preta de índio teriam algo de mágico?
Deixando de lado a dimensão
sobrenatural (a qual não tenho acesso, mas que está sempre presente nas
culturas ancestrais), o que podemos dizer é que esses solos são de um valor
incalculável para nossos ecossistemas, sobretudo considerando o bioma amazônico,
cujos solos costumam ser arenosos, protegidos somente por uma fina camada de
matéria orgânica, que precisa ser sempre renovada pelas florestas – o que traz
a possibilidade, a cada dia mais tangível, de que sofram um processo de
savanização e até de desertificação.
Fertilidade à venda?
Entramos no ano de 2026 com um
alerta sobre os preços dos fertilizantes industrializados: houve um aumento
consistente, que bateu
nos 20%. Para quem não vê muito motivo para fazer alarde, vale observar que
o tal do Agro brasileiro, baseado em monoculturas envenenadas, depende
fortemente desses insumos e que a dificuldade em obtê-los costuma trazer
consequências para toda a cadeia produtiva.
Com esses adubos mais caros, o
custo do cultivo fica mais alto e a pressão inflacionária sobre os valores das
commodities produzidas aumenta, o que também pode ocorrer com o preço de certos
alimentos. Para termos uma noção do grau de vulnerabilidade a que a agricultura
convencional nacional está exposta, vejamos que, atualmente, cerca
de 90% dos fertilizantes usados por ela são importados e que as
principais regiões exportadoras estão envolvidas em conflitos bélicos. Guerra e
fome sempre caminham de mãos dadas, não é?
Por falar em guerra e, neste caso,
na inexistência de coincidências, é importante saber qual a matéria prima que
está na base desses produtos. Húmus de minhoca, bosta de vaca e titica de
galinha, adubos orgânicos tradicionais, passam longe da sua composição. É que,
assim como os agrotóxicos, eles são constituídos a partir do petróleo, material
que fornece a uréia, onipresente nos chamados compostos nitrogenados,
negociados às toneladas no mercado internacional.
Portanto, é dedutível que as
disputas pelo “ouro negro” estejam umbilicalmente ligadas ao modelo produtivo
alimentar. Além de adubos e venenos, é ele quem fornece o combustível para
transportar, ao redor do mundo, tanto os insumos adquiridos como os alimentos
produzidos (sejam in natura, beneficiados ou industrializados).
É um processo que, ao acelerar o
caos climático com a emissão de combustíveis fósseis, também acelera a perda da
biodiversidade planetária – que tem, entre seus principais responsáveis,
justamente a poluição
causada por nitrogênio, bem assentada no terceiro lugar no podium.
Perdem-se, inclusive, os microorganismos que garantem a fertilidade dos
territórios. Isso mesmo, no idolatrado Agro, a produção e a aquisição de
fertilizantes contribui para a infertilidade dos solos, uma das inúmeras
contradições que ele coleciona.
Voltando ao plano financeiro, o
impacto dessa dependência de fornecedores estrangeiros para “fertilizar” as
monoculturas de commodities, das quais tanto se vangloriam as elites econômicas
brasileiras, está no centro da tormenta que abate o setor. Estima-se que os
gastos com essa importação equivalem a 40%
dos custos da produção agrícola convencional. E, segundo relatório da
CONAB, seu volume atingiu um novo recorde da série histórica em 2025: 45,5
milhões de toneladas (frente às 44,28 milhões de toneladas registradas
em 2024). Haja grana!
A crise da agricultura
exportadora, nutrida por fatores geopolíticos e ambientais, amplia o
endividamento e ameaça inviabilizar a produção. Segundo o ex-ministro Roberto
Rodrigues, ferrenho defensor do Agronegócio, “o
custo financeiro atingiu patamares incompatíveis com a lógica da atividade
agrícola”. De fato, culturas como a soja seguem batendo recordes de
produção, mas não de lucratividade, o que explica as crescentes queixas de seus
representantes.
Degradados e desnutridos
Não dá mais para esconder que esse
modelo produtivo não pára em pé. Se não fosse o Estado “patrocinando o Agro”,
como declarou
o ministro Fernando Haddad (o que inclui uma isenção fiscal de 158
bilhões de reais ao ano), a tal potência sustentadora do PIB, anunciada com
estrondo pelas propagandas, já teria se estrumbicado de vez. Mas, enquanto não
se estrumbica, segue fazendo estragos incalculáveis.
Rememoremos mais uma vez o que diz
Ana Primavesi: “a nutrição humana começa na terra. Solo sadio, plantas sadias,
pessoas saudáveis.” Se, para a Agroecologia, esse saber está na base técnica e
na prática diária, para o Agronegócio, ele é sumamente pisoteado.
Os adubos químicos nitrogenados
usados em massa nas plantações, somados a outros fatores que caracterizam essas
monoculturas, acabam enfraquecendo as plantas e deixando-as vulneráveis a
insetos e fungos. Para evitar que sejam “atacadas” por eles, o uso abusivo de
agrotóxicos é uma constante.
Quando chegam ao nosso prato,
mesmo depois de passarem por processamento na indústria alimentícia, esses
vegetais nos trazem um conjunto de resíduos
venenosos que causa danos inquestionáveis à saúde. E são menos
nutritivos do que seriam se fossem cultivados segundo princípios
agroecológicos. O resultado é a tríade solos doentes, plantas doentes e pessoas
doentes – lamentável retrato de nossa sociedade ecocida.
Aqui, chamo a atenção para uma
terrível semelhança entre dois dados: o número de pessoas em situação de
insegurança alimentar (moderada e severa) e a quantidade de hectares de terras
agrícolas degradadas no mundo.
Segundo a ONU (Organização das
Nações Unidas), ambos estão em torno de 2 bilhões! Isso significa 40%,
no caso territorial, e 28%, no caso
populacional. Falta de terra fértil e falta de comida caminhando
conjuntamente.
Mas a destruição dos solos não
anda de braços dados somente com a falta de comida. Ela afeta o acesso a outro
elemento, que, se é essencial à agricultura, também é necessário a todas as
dimensões da vida: a água. E as mudanças nos ciclos hidrológicos são
expressivas, com o agravamento crescente das secas planetárias. Somente de 2000
à 2024, elas se ampliaram em quase 30%.
Para completar nosso alerta, as
previsões não são nada fáceis de digerir: em torno de 7,5 bilhões de
pessoas (quase toda a humanidade existente hoje) vão ser impactadas
até 2050. A pergunta que não quer calar é: quem seriam as pessoas não afetadas?
Nós, os países do sul global,
somos regiões fortemente atingidas pela degradação do solo. Segundo a FAO
(Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em torno
de 10,9
milhões de hectares de florestas são desmatadas a cada ano no
planeta.
Sabemos muito bem como esse
processo se dá, não é? É assim que, somente no Brasil, existem mais de 140
milhões de hectares degradados.
Brasil se mexe
É preciso reconhecer que nosso
país, após a implementação de programas de combate à fome pelo governo Lula,
conseguiu reduzir a insegurança alimentar grave de cerca de 3,1 milhões para
cerca de 2,5
milhões de famílias. Isso significa que atingimos os níveis mais baixos da
série histórica, como havíamos feito em 2013, saindo mais uma vez do Mapa da
Fome. Mas, como a degradação segue corroendo nossos territórios, a situação
está longe de ser estável e é urgente resgatar a fertilidade perdida, sobretudo
com a intensificação da emergência climática.
A urgência do problema esteve em
pauta na COP 30 e a própria FAO integra uma iniciativa, lançada pelo Brasil com
apoio de outros nove países, chamada RAIZ –
Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation (em português,
Investimento em Agricultura Resiliente para Degradação Líquida Zero da Terra).
Ela se propõe a mapear essas áreas, apresentar propostas de ação, reunir os
investimentos e compartilhar as experiências.
Desse modo, o RAIZ busca colaborar
para que a meta da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e
Mitigação dos Efeitos da Seca seja atingida. Ela propõe a restauração de 250
milhões de hectares de solo agrícola até 2030, sendo 40 milhões em nosso país e
grande parte do restante em países africanos.
A previsão é a de que o valor
total dos investimentos necessários para se atingir esse objetivo, ao longo
desses 5 anos que temos até lá, seja de 2,6 trilhões de dólares. Parece uma
fortuna? Pois é mais ou menos o que se gastou com a indústria da guerra apenas
no ano de 2023! E, segundo a Declaração
de Belém sobre Fertilizantes, acordo feito entre Brasil e Reino Unido
durante a COP 30, o uso excessivo deles “causa danos aos ecossistemas e perdas
de colheitas que chegam a US$3,4 trilhões anualmente”.
Além disso, há cálculos de que uma
“gestão de nutrientes” mais equilibrada poderia trazer 25 vezes mais benefícios
econômicos do que as despesas realizadas para que ela fosse possível. Não é à
toa que os adeptos do “capitalismo verde” (expressão que é um contrasenso, já
que a busca por crescimento infinito é incompatível com a existência em um
planeta materialmente finito) enxergam esse processo como uma “oportunidade
econômica”.
Dela, faria parte o setor de
Bioinsumos, que teve um aumento na quantidade de empresas produtivas
de 600% em
10 anos, ganhando até o próprio Fórum no Agro, e acendendo um
alerta para nossa rede agroecológica pela ameaça de apropriação de saberes
populares e o fortalecimento de mega corporações. A recente parceria entre
a Yara
fertilizantes e a PepsiCo na produção de batatas, que “chega ao Brasil
para promover a agricultura regenerativa” (!!!), dá uma ideia do que virá por
aí.
Se parece um pouco economicista
demais, ressaltamos que, no Brasil, a liderança do RAIZ é do MAPA (Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e dialoga com programas já iniciados
pela pasta, como o Solo Vivo e o Caminho Verde Brasil.
Nas palavras do secretário de
Desenvolvimento Rural do Mapa, Marcelo Fiadeiro: “produzimos para alimentar um
bilhão de pessoas e mostramos que isso é possível com sustentabilidade”.
Coelhinho da Páscoa também acha.
Corre-corre tecnológico
Poucos assuntos têm tido tanto
destaque nos debates geopolíticos como o das chamadas terras raras. Trata-se de
um conjunto de minerais necessários para a fabricação de boa parte das
traquitanas tecnológicas associadas ao capitalismo verde. Mesmo não sendo tão
raros assim, eles têm alguns pontos de encrenca: estão concentrados em poucos
lugares no planeta e sua obtenção e refino implicam em impactos ambientais
complexos.
Na ponta da disputa planetária por
esses materiais – e das maravilhas tecnológicas para as quais eles são
fundamentais, como carros elétricos, computadores, painéis de energia solar e
turbinas eólicas – estão as duas principais potências planetárias: China e EUA.
E a vantagem da primeira começa com a posse de quase
metade da reserva mundial das terras raras, enquanto a segunda amarga
pífios 2%.
A volta de Donald Trump ao poder,
dessa vez com uma agressividade assustadora em relação aos demais países do
globo, explicitou de vez e intensificou a guerra pelo controle dos “recursos”
naturais que ainda existem no planeta, destacando aqueles chamados de minerais
críticos, base do desenvolvimento tecnológico. E é bem nesse imbróglio que o
Brasil está inescapavelmente metido, já que possui cerca
de um quarto das reservas mundiais de terras raras, ocupando o segundo
lugar.
Mais uma vez nos cabe a pergunta:
seria esse patrimônio natural uma benção ou uma maldição para o país? O caso do
petróleo serve de base para refletirmos, já que ele sempre foi um dos fatores
do desencadeamento de guerras assumidas ou veladas. A recente invasão da
Venezuela pelos EUA de Trump, bem como todo o boicote de que ela foi alvo nas
últimas décadas, não nos deixam margem para dúvidas. O próprio golpe sofrido
por Dilma Rousseff e a farsa da Lava Jato, na rabeira da exploração do Pré Sal,
botam lenha nessa fogueira.
A atividade de extrair o petróleo
já é em si uma ação predatória, que implica em danos e riscos aos territórios
em que ocorre. E o uso dele está associado aos principais dramas
socioambientais que vivemos, como a emissão de gases de efeito estufa e a poluição
plástica, na qual a indústria
de refrigerantes é campeã, sendo a Coca Cola uma unanimidade no
ranking.
Não há um/a pesquisador/a
ambientalista minimamente responsável que não diga que é necessário parar de
explorar o material, se quisermos impedir a aceleração rumo ao precipício
civilizacional. Principalmente porque novos pontos de extração se encontram em
locais vitais para o equilíbrio de nossa Pachamama, como a foz do Rio
Amazonas.
O mesmo ocorre com os jazigos de
terras raras: eles estão, em parte significativa, sobrepostos ou próximos a
territórios de povos tradicionais e reservas naturais. Levantamento
do Repórter Brasil revelou que, até outubro de 2025, existiam 1.827
pedidos para explorar terras raras, cobre, lítio e outros 13 minerais em locais
que estavam a menos de 40 km de povoados indígenas isolados.
São alguns dos poucos refúgios de
fertilidade que nos restam. Oásis em que a fauna e a flora se manifestam em sua
plenitude. Bases do que ainda podemos encontrar do nosso equilíbrio hídrico. Se
fôssemos seres dotados de um instinto de sobrevivência bem apurado, com certeza
nós deixaríamos esses minerais onde estão, não é?
Mas o garimpo no território
yanomami – que pôs em curso um verdadeiro genocídio – nos mostra que, ao menos
no que se refere às elites econômicas atuais, faltam muitos parafusos nessas
cucas viciadas em dinheiro e poder. Se os povos indígenas dependerem dos “povos
da mercadoria”, como bem definiu Davi Kopenawa Yanomami, estão lascados. E,
junto com eles, toda a chamada humanidade ou, mais enfaticamente falando,
NÓS.
Rara é a Terra
Como sabemos que não é possível
simplesmente dizer um redondo e definitivo não para a exploração das terras
raras, já que estrupícios como Trump e a corja de donos de Big Techs não iriam
deixar (o artigo
de Edna Aparecida da Silva no Outras Palavras deixa isso explícito),
resta-nos encontrar uma forma menos danosa de lidar com essa benção amaldiçoada
ou maldição abençoada. E a aproximação das eleições traz uma urgência extra
nesse percurso.
O governo Lula 3 tem se comportado
de modo ambíguo quanto às questões ambientais. Acenando ora a quem busca
por medidas de combate ao colapso planetário, ora aos interesses do
auto-intitulado “mercado verde”, ele tenta lidar com as pressões internas e
internacionais, caminhando sobre uma finíssima linha pendurada nas alturas de
um abismo.
Cabe a nós, movimentos sociais,
fazer o possível e o mais que possível para trazer o governo para o único
caminho que realmente existe, o do respeito às forças da Mãe Terra, se
quisermos seguir vivendo em condições viáveis nas décadas que virão. Sem esquecer
que, do outro lado, há quem detenha o acesso ao botão do fim do mundo, já que
os EUA seguem se engalfinhando internamente quanto à permissão de deixar que um
ecossociopata dirija o país.
Estabelecer uma política
brasileira para a exploração mineral, frente à corrida tecnológica em curso e à
emergência ambiental que nos atropela, envolve acionar nossas empresas
estatais. No caso das terras raras, há a proposta de criação de uma nova empresa,
a Terrabras,
voltada unicamente para conduzir as políticas a elas relacionadas.
Poderia ser um modo de nos
proteger do assédio do capital estrangeiro – algo impossível de ignorar, como
mostra a idealização, por parte da Embaixada dos Estados Unidos, de um simpósio
sobre minerais críticos, que deverá ser realizado em São Paulo. Ele
pretende reunir, no mês de março, as principais mineradoras que atuam no
Brasil, dando sequência às conversas que o diplomata dos EUA, Gabriel Escobar,
vem tendo com cada uma delas para buscar acordos econômicos. Enfrentar esse
lobby é imprescindível.
Mas, seja que caminho formos
tomar, é essencial abrir um amplo e sincero debate com a sociedade, sobretudo
com os povos tradicionais e campesinos. Na pauta, questões como “para quê?”,
“com quem?”, “de que maneira?” e “a que custo?” não podem ser empurradas para
baixo do tapete. A ocupação
da Cargill pelos movimentos indígenas que lutam contra a privatização do Rio Tapajós não
deixa margem para dúvidas quanto ao protagonismo que vêm assumindo nesse
debate. A mobilização se espalhou pelo país, chegou até São Paulo, onde houve
um protesto em frente à sede da empresa, e conseguiu a revogação do
decreto: vitória importantíssima que renova nossa caminhada!
Estamos, inegavelmente, assistindo
a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão
ficando cada vez mais raras, e sabemos que, sem essa fertilidade, não há água,
não há comida, não há vida possível. Não podemos mais seguir nesse modelo
linear de produção, esquecendo que, como diz Nêgo Bispo: “a terra dá, a
terra quer”. A retomada da circularidade se faz essencial, unindo as
cidades, os campos, as águas e as florestas – com harmonia e justiça.
É imprescindível intensificar as
demarcações de territórios indígenas e quilombolas; promover a Reforma
Agrária Popular Agroecológica; botar um freio no agro exportador de
commodities, seus adubos nitrogenados e seus venenos assassinos; e unir forças
com os demais povos latinoamericanos para nos protegermos dos ataques
terroristas de um império que agoniza, mas parece disposto a levar o planeta
inteiro em seu colapso.
E tudo isso sem deixar de ter em
mente (e no coração) que a maior e mais incrível raridade que temos – em nossas
curtas vidas em meio ao tempo-espaço do Cosmos – é mesmo a Terra, nossa Casa
Comum, ponto pulsante de vida, girando, girando, girando… entre zilhões de
estrelas de fogo.
Susana Prizendt, arquiteta
urbanista, é judárabe (descendente de judeus romenos pelo lado paterno e de
árabes libaneses por parte materna). É integrante da Campanha Permanente Contra
os Agrotóxicos e Pela Vida, do Movimento Urbano de Agroecologia (MUDA) e do
Coletivo Banquetaço

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