quinta-feira, 23 de abril de 2026

Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade


Manuel Pires da Rocha

Per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade”



Rei­vin­di­camos a ale­gria.
Rei­vin­di­camos as can­ções de li­ber­dade.
Rei­vin­di­camos a mú­sica or­de­na­dora do uni­verso.
Rei­vin­di­camos as mãos dadas dos amantes.
Rei­vin­di­camos o sabor des­co­berto de todas as coisas.
Rei­vin­di­camos as pontes tran­quilas.
Rei­vin­di­camos a in­venção das ci­dades ha­bi­tá­veis.
Rei­vin­di­camos a pa­lavra, o poema, o livro.
Rei­vin­di­camos a festa.
Rei­vin­di­camos esta arma.
(Mário Cas­trim)

Quando Adriano Cor­reia de Oli­veira, José Afonso, Ma­nuel Freire, Carlos Pa­redes e Fer­nando Alvim, José Ba­rata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Am­paro, Ary dos Santos, entre ou­tros, su­biram ao palco do Co­liseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as can­ções que ali le­varam ti­nham ecoado pelas co­lec­ti­vi­dades de cul­tura e re­creio, nos en­con­tros da opo­sição de­mo­crá­tica, nas reu­niões an­ti­fas­cistas que eram acam­pa­mento, pi­que­nique e ho­me­nagem.

Na­quela noite de quase-Abril, cinco mil an­ti­fas­cistas e uma dúzia de pides, uns can­tando e aplau­dindo, os ou­tros to­mando notas, as­sis­tiam à ante-es­treia de Grân­dola, Vila Mo­rena nos ca­mi­nhos da His­tória, no mesmo ta­buado em que Ary dos Santos de­cla­mava “aqui nin­guém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.

Vozes mais an­tigas se­riam, porém, ini­ci­a­doras deste canto que quis ser arma li­ber­ta­dora. No Ou­tono de 1945, Fer­nando Lopes-Graça juntou na casa de al­deia de João José Co­chofel, perto de Coimbra, os também po­etas Carlos de Oli­veira e José Gomes Fer­reira, dando início à es­crita de um pro­jecto ins­pi­rado nos can­ci­o­neiros re­vo­lu­ci­o­ná­rios his­tó­ricos da Re­vo­lução Fran­cesa e da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mar­chas, Danças e Can­ções seria o pri­meiro can­ci­o­neiro po­lí­tico da luta an­ti­fas­cista por­tu­guesa, a que se­gui­riam oito ca­dernos mais, que Lopes-Graça in­ti­tu­laria Can­ções He­róicas, Dra­má­ticas, Bu­có­licas e Ou­tras.

As He­róicas se­riam ini­ci­al­mente di­vul­gadas pelo Coro do Grupo Dra­má­tico Lis­bo­nense, cons­ti­tuído no seio do Mo­vi­mento de Uni­dade De­mo­crá­tica (MUD). Em 1946, após uma apre­sen­tação pú­blica na Bi­bli­o­teca da In­crível Al­ma­dense, a cen­sura proibiu o re­per­tório. Tarde de­mais, porém – as He­róicas vi­viam já nas vozes de grupos for­mais e in­for­mais, juntas e afi­nadas na luta contra o fas­cismo. Tanto, que não ha­verá me­mória de lugar cons­pi­ra­tivo, das salas do as­so­ci­a­ti­vismo po­pular às celas das pri­sões, onde não tenha ha­vido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.

O sé­culo XX das lutas an­ti­co­lo­niais, an­ti­fas­cistas e anti-im­pe­ri­a­listas viria a ser o mo­mento da ex­pansão geral da mú­sica de com­bate pela li­ber­dade e pela cons­trução do so­ci­a­lismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Vi­o­leta Parra, Mikis The­o­do­rakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Sil­vestre Re­vu­eltas, Chos­ta­ko­vitch e Carlos Pa­redes, entre tantos ou­tros, a mú­sica as­sumiu opção de classe à es­cala uni­versal, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos palcos e do vo­ca­bu­lário pró­prio de cada gé­nero mu­sical.

Em Por­tugal, o sé­culo pas­sado é também o lugar da des­co­berta da mú­sica po­pular das co­mu­ni­dades ru­rais, con­du­tora de si­nais ci­vi­li­za­ci­o­nais que também são os da cons­ci­ência so­cial (“Ó minha mãe dos tra­ba­lhos / Para quem tra­balho eu / Tra­balho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jor­nada é com­pa­nheira da Canção da Vin­dima, em José Afonso o Cantar Alen­te­jano (em ho­me­nagem a Ca­ta­rina Eu­fémia) di­vide in­ten­ções com Milho Verde e, no canto de Adriano Cor­reia de Oli­veira, Tejo Que Levas As Águas om­breia com ‘Inda Eu Era Pe­que­nino.

Che­gados aqui, cons­tata-se que o cantar que (também) abriu ca­minho à Li­ber­dade que em cada Abril se ce­lebra, não perdeu ac­tu­a­li­dade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à ha­bi­tação, à saúde e à edu­cação, de­mo­cratas de todas as idades en­toam o velho re­frão de Li­ber­dade – pa­lavra de ordem in­tem­poral da exi­gência de um tempo de jus­tiça. E cantam Os Vam­piros de­nun­ci­ando o saque, o Acordai cha­mando para a luta, o Hino de Ca­xias cer­rando fi­leiras. E aco­lhem cantos emer­gentes, que são mornas e di­zeres de hip hop, so­mando-se ao cantar his­tó­rico nas lutas dos mo­vi­mentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas ac­ções do mo­vi­mento sin­dical, nas ini­ci­a­tivas pela paz, nas ac­ções de so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina e com Cuba.

Juntam-se, no rumor do nosso tempo, tim­bres e so­ta­ques di­versos, mas o es­tri­bilho geral per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade" q”e, can­tando “junta a tua à nossa voz”, marca en­contro com o fu­turo.

https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

Soneto presente, de Ary dos Santos

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Sem comentários: