Manuel Pires da Rocha
Permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade”
Reivindicamos a alegria.
Reivindicamos as canções de liberdade.
Reivindicamos a música ordenadora do universo.
Reivindicamos as mãos dadas dos amantes.
Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas.
Reivindicamos as pontes tranquilas.
Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis.
Reivindicamos a palavra, o poema, o livro.
Reivindicamos a festa.
Reivindicamos esta arma.
(Mário Castrim)
Quando Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Carlos Paredes e Fernando Alvim, José Barata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Amparo, Ary dos Santos, entre outros, subiram ao palco do Coliseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as canções que ali levaram tinham ecoado pelas colectividades de cultura e recreio, nos encontros da oposição democrática, nas reuniões antifascistas que eram acampamento, piquenique e homenagem.
Naquela noite de quase-Abril, cinco mil antifascistas e uma dúzia de pides, uns cantando e aplaudindo, os outros tomando notas, assistiam à ante-estreia de Grândola, Vila Morena nos caminhos da História, no mesmo tabuado em que Ary dos Santos declamava “aqui ninguém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.
Vozes mais antigas seriam, porém, iniciadoras deste canto que quis ser arma libertadora. No Outono de 1945, Fernando Lopes-Graça juntou na casa de aldeia de João José Cochofel, perto de Coimbra, os também poetas Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, dando início à escrita de um projecto inspirado nos cancioneiros revolucionários históricos da Revolução Francesa e da Revolução de Outubro. Marchas, Danças e Canções seria o primeiro cancioneiro político da luta antifascista portuguesa, a que seguiriam oito cadernos mais, que Lopes-Graça intitularia Canções Heróicas, Dramáticas, Bucólicas e Outras.
As Heróicas seriam inicialmente divulgadas pelo Coro do Grupo Dramático Lisbonense, constituído no seio do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Em 1946, após uma apresentação pública na Biblioteca da Incrível Almadense, a censura proibiu o repertório. Tarde demais, porém – as Heróicas viviam já nas vozes de grupos formais e informais, juntas e afinadas na luta contra o fascismo. Tanto, que não haverá memória de lugar conspirativo, das salas do associativismo popular às celas das prisões, onde não tenha havido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.
O século XX das lutas anticoloniais, antifascistas e anti-imperialistas viria a ser o momento da expansão geral da música de combate pela liberdade e pela construção do socialismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Violeta Parra, Mikis Theodorakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Silvestre Revueltas, Chostakovitch e Carlos Paredes, entre tantos outros, a música assumiu opção de classe à escala universal, independentemente da natureza dos palcos e do vocabulário próprio de cada género musical.
Em Portugal, o século passado é também o lugar da descoberta da música popular das comunidades rurais, condutora de sinais civilizacionais que também são os da consciência social (“Ó minha mãe dos trabalhos / Para quem trabalho eu / Trabalho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jornada é companheira da Canção da Vindima, em José Afonso o Cantar Alentejano (em homenagem a Catarina Eufémia) divide intenções com Milho Verde e, no canto de Adriano Correia de Oliveira, Tejo Que Levas As Águas ombreia com ‘Inda Eu Era Pequenino.
Chegados aqui, constata-se que o cantar que (também) abriu caminho à Liberdade que em cada Abril se celebra, não perdeu actualidade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à habitação, à saúde e à educação, democratas de todas as idades entoam o velho refrão de Liberdade – palavra de ordem intemporal da exigência de um tempo de justiça. E cantam Os Vampiros denunciando o saque, o Acordai chamando para a luta, o Hino de Caxias cerrando fileiras. E acolhem cantos emergentes, que são mornas e dizeres de hip hop, somando-se ao cantar histórico nas lutas dos movimentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas acções do movimento sindical, nas iniciativas pela paz, nas acções de solidariedade com a Palestina e com Cuba.
Juntam-se, no rumor do nosso tempo, timbres e sotaques diversos, mas o estribilho geral permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade" q”e, cantando “junta a tua à nossa voz”, marca encontro com o futuro.
https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

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