segunda-feira, 29 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Imigração: foi a economia, estúpido!

* Daniel Oliveira 

(Expresso 2026 06 29)

Foi a economia, mais do que a lei, que determinou as oscilações migratórias. Mesmo assim, envelhecemos e a população ativa só cresceu graças aos imigrantes. A questão não é se 14% é demais. É o que seríamos sem eles. Pressionam serviços públicos porque os preparámos para o deserto demográfico. Recebemos imigração pouco qualificada e desintegrada porque é isso que o modelo económico extrativista e com pouco valor acrescentado absorve. A questão não é quem entra. É mudar o que o país oferece. A eles e a nós

A mudança de metodologia usada pelo INE pôs fim ao apagão estatístico. Portugal terá 11,4 milhões de residentes, 1,6 milhões estrangeiros — 14% da população total. Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado. E atingimos um número de habitantes surpreendente. Como estes números obrigam a rever indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno, contribuintes por beneficiário da Segurança Social (sobre o impacto que isto tem no PIB per capita e a metodologia usada, aconselho a leitura do texto de Susana Peralta) e toda a política pública, devem ser escrutinados para alem do mero debate político. Como o presidente do INE explicou, não é fácil contabilizar as saídas para o espaço Schengen (que terão sido significativas). Ainda assim, será o estudo mais robusto feito até agora.

Outra cautela é a leitura política. Segundo estes dados, o saldo migratório caiu para 71 mil, em 2025, um terço dos 217 mil de 2024. O Governo atribuiu a queda às novas regras introduzidas em 2024, mas os dados da Segurança Social mostram que começou antes das alterações legislativas e que o número de saídas de estrangeiros duplicou em dois anos, estando a aumentar há sete. O PIB português cresceu 7% em 2022, ano de boom migratório. Em 2023, cresceu 2,6%. Em 2024, 1,9%. O crescimento e o abrandamento económico e o crescimento e abrandamento migratório coincidem.

Só a ignorância (ou costumeira má-fé) de ministro Leitão Amaro o pode levar a dizer que se nada fosse feito os imigrantes seriam, numa década, metade da população, assumindo que a sua chegada é independente dos empregos disponíveis. Assustador que o responsável pela política da imigração tenha um raciocínio tão básico ou nos julgue a nós tão básicos. Para os imigrantes virem a ser metade da população teríamos de ter a prosperidade do Luxemburgo, Emirados, Singapura, Austrália ou Suíça. Um pesadelo, portanto.

É verdade que esta entrada acelerada de imigrantes pressiona serviços não preparados. Entre 2017 e 2024, o número de alunos estrangeiros nas escolas passou de 42 mil para 172 mil. Os nossos serviços públicos foram dimensionados para uma população em declínio e a questão é se continuamos a planear o País para um deserto demográfico.

Outro debate é se essa adaptação se pode fazer quando temos mais 700 mil pessoas em três anos. Mas, mesmo assim, o índice de envelhecimento agravou-se: em 2021 havia 178 idosos por cada 100 jovens, valor que subiu para 189 em 2025, com um salto significativo no último ano, quando o saldo migratório caiu. A população ativa cresceu de 63,7% para 64,3%, quase exclusivamente graças aos imigrantes. É essa população ativa adicional que financia o Estado. Sem ela, a pirâmide demográfica seria ainda mais desequilibrada, a Segurança Social mais pressionada e sectores inteiros da economia não funcionariam. A questão não é se 14% é demais. É o que seria sem eles.

Não podemos ignorar os efeitos políticos deste crescimento. Há uma correlação entre a percentagem de população estrangeira e o voto no Chega nas legislativas de 2025 — o coeficiente de Pearson é de 0,36. Em geral, os concelhos com mais imigrantes tendem a votar mais no Chega. Mas esta correlação explica 13% da variação do voto no partido. Há concelhos com muitos imigrantes e pouco Chega — Lisboa, Porto, Oeiras, Coimbra — e com poucos imigrantes e muito Chega — Moura, Monforte, Salvaterra de Magos.

Quanto ao choque cultural, 54% dos imigrantes vêm de países lusófonos (sobretudo Brasil) e os grupos de que se alimentam os incendiários, vindos da subcontinente indiano, ficam-se pelos 15%.

Uma população de 52% de estrangeiros, como o que é registado Odemira, é impossível de gerir. Mas o problema não é, em Odemira ou em vários concelhos do Algarve, a imigração. É o modelo económico. A criação de emprego concentrou-se no turismo, na agricultura intensiva e sazonal, na construção, na logística e nos serviços urbanos de baixa remuneração. Setores que absorvem muita mão de obra, têm produtividade reduzida, salários médios baixos e elevada rotatividade. Este padrão corresponde a uma economia extrativista: extrai recursos, pressiona infraestruturas públicas e baseia a sua competitividade em trabalho barato.

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