sábado, 27 de junho de 2026

José Pacheco Pereira - Memórias da Biblioteca Pública Municipal do Porto


* José Pacheco Pereira

18 de maio de 2023 

A minha contribuição para a Hemeroteca foi evitar que publicações anarquistas e comunistas dos anos da I República desaparecessem, como tinha acontecido na Biblioteca Nacional, pelas mãos da PIDE e dos seus émulos.

As obras que se vão realizar no edifício da Biblioteca estão a gerar controvérsia pelo óbvio prejuízo dos que precisam de lá ir investigar, e há um abaixo-assinado a circular. Por outro lado, admito que o edifício precise de renovação e ampliação, e ser Souto Moura o arquitecto escolhido para esse projecto é uma garantia de qualidade. Por isso, tenho dificuldade em fazer a ponderação entre vantagens e inconvenientes, e não me pronuncio sobre a polémica. Mas desejo que se faça o possível para melhorar um dos edifícios e uma das instituições a que mais devo na minha vida. Nela “alimentei o monstro”, uma das melhores expressões inglesas para designar os estragos que a obsessão pela leitura faz num adolescente.

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Memórias da Biblioteca Municipal do Porto (2)

27 de Junho de 2026

A biblioteca era o centro do meu mundo fora de casa e o lubrificante desse mundo eram os livros, mas, à distância, a minha cidade, o Porto, todo o Porto.

Em 2023 escrevi um artigo com as minhas memórias da Biblioteca Municipal do Porto e prometi continuação. Nunca o fiz, mas como nunca mais vou ver a biblioteca como era –​ sei que há polémica, mas esta afirmação não pretende ser polémica, apenas factual –, está na altura de o completar com a parte da biblioteca propriamente dita. Antes disso, repito o que então escrevi e que se aplica à hemeroteca no andar de baixo e, por maioria de razão, ao andar de cima, onde estava o salão enorme para leitura de livros.

 “Durante vários anos, nos anos sessenta, frequentei a Biblioteca de S. Lázaro todos os dias, literalmente todos os dias, de manhã, de tarde e às vezes à noite. Nela 'alimentei o monstro', feeding the monster , uma das melhores expressões inglesas para designar os estragos que a obsessão pela leitura faz num adolescente.”

A biblioteca era num antigo edifício conventual, com um claustro, as paredes decoradas de uma espécie de museu do azulejo e, no fundo, com uma escada que dava acesso ao andar de cima, o aos livros propriamente ditos. No fim das escadas, à direita, havia as fichas, e, à esquerda, o grande salão encimado por um retrato real. Após tirar a colocação da ficha, pediam-se os livros, cinco no máximo. Os funcionários da recepção, os quais entraram todos por cunha ao então director, António Cruz, que me fazia também a vida negra na Faculdade de Letras, eram do pior que havia. Havia sectores de estantes de que nem valia a pena pedir livros, porque davam muito trabalho e exigiam escada; logo, nunca se encontravam os livros.

Havia alguns frequentadores da biblioteca, presumivelmente investigadores, que ou tinham mesas ou tinham salas próprias e, por isso, podiam deixar os livros e, entre favores e gorjetas, tinham tudo o que queriam. Havia também livros a que se tinha acesso pagando alguma coisa aos funcionários, o mais comum era a Vida Sexual, de Egas Moniz, que estava nos reservados e era um grande sucesso junto dos leitores.

Eram leituras em bruto, um livro chamava o outro e só comecei a ler de forma orientada quando conheci Eugénio de Andrade, a quem devo alguns dos mais influentes livros da minha vida

O grande salão do primeiro andar era particularmente confortável, no Verão as grandes janelas abertas deixavam entrar o ar fresco do claustro e o ruído dos pássaros, e mesmo o barulho dos eléctricos na rua era muito menor do que na hemeroteca. Lia e lia, quase trinta livros por mês, e, quando vejo a lista dos livros lidos na biblioteca, grande parte deles, se me perguntarem hoje, não faço a mínima ideia do que são. Há, no entanto, uma colecção que sei que li toda até ao número 100, e depois muitos mais números soltos: a Colecção Argonauta de ficção científica. Alguns livros nunca mais esqueci e hoje lembro-me em detalhe, como se fosse ontem, do de Rosny Aîné​, A Morte da Terra, a Fundação, de Asimov, o R.U.R., de Karel Capek. Li também muita literatura americana, de Erskine Caldwell, Faulkner e John Dos Passos. Como tinha em casa grande parte da literatura portuguesa e francesa, nunca li nada dessas literaturas, e muito poucos ensaios. Eram leituras em bruto, um livro chamava o outro, e só comecei a ler de forma orientada quando conheci Eugénio de Andrade, a quem devo alguns dos mais influentes livros da minha vida, a começar pela Montanha Mágica, de Thomas Mann. Como o Eugénio me emprestava os seus próprios livros, a frequência diária da biblioteca diminuiu.

O Porto era uma terra de cafés e, por isso, a biblioteca tinha à sua volta dois cafés aonde ia regularmente. Um era o Café do Padrão, que tinha duas entradas e era enorme, uma das entradas junto de um dos melhores alfarrabistas do Porto, o Manuel Ferreira, e era onde tomava café, tomava nota dos livros que ia pedir antes de ir para a biblioteca. O outro, que já desapareceu, era o Café S. Lázaro, onde os professores e artistas da Escola de Belas Artes tinham uma espécie de tertúlia, junto com o Eugénio, e aonde os visitantes literários de Lisboa iam quando chegavam ao Porto. Durante o dia era o Café de S. Lázaro, com o Eugénio, o Zé Rodrigues, o Ângelo de Sousa, o Armando Alves, o João Machado (com quem fiz o texto de uma banda desenhada retratando exactamente o ambiente do café, com os pides vigilantes antes de irem para o edifício sinistro junto do cemitério), à noite ia-se para o Majestic com o Óscar Lopes, o Manuel Dias da Fonseca, o Jorge Peixinho, e numa mesa ao lado o Jorge Lima Barreto.

Para mim, a biblioteca era o centro do meu mundo fora de casa, complemento do meu liceu, o Alexandre Herculano. O lubrificante desse mundo eram os livros, mas, à distância, a minha cidade, o Porto, todo o Porto, do jardim romântico de Lázaro, dos cafés, e dos escritores e artistas, da resistência à ditadura, dura como o granito, sem qualquer hesitação.




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