domingo, 22 de março de 2026

Jaime Nogueira Pinto - O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril

Jaime Nogueira Pinto 

Nestes dias em que tanto se fala do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que Portugal se iniciava na conquista e na opressão além-fronteiras.

21 mar. 2026

Os portugueses de hoje, criados nas alegrias da democracia e do progresso que lhes trouxe Abril, são capazes de ter alguma dificuldade em conceber esse outro país que Portugal já foi. Mais, confrontados com a liberalidade e a democraticidade dos políticos, pode até parecer-lhes impensável, quando não impossível, a resistência a Castela no século XIV e a conquista do império do Oriente no século XVI, protagonizadas por homens tão iliberais e tão pouco inclusivos como Nun’Álvares ou Afonso de Albuquerque.

Por isso, nestes dias em que, a propósito da nova guerra do Irão, tanto se fala de Ormuz e do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e católico, talvez para desviar as atenções de problemas internos (ou para os resolver), se iniciava na opressão além-fronteiras a que alguns saudosistas ousam chamar epopeia de navegação e conquista.

As chaves dos mares

D. Manuel I, o venturoso e feliz herdeiro do Príncipe Perfeito, coordenou uma política de expansão no Índico que tinha como linha de rumo a conquista das chaves daquele Oceano, por onde passava o precioso e estratégico tráfico das especiarias. E essas chaves eram Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.

Em Abril de 1506, saiu de Lisboa para a Índia uma armada de dezasseis navios, onze sob o comando de Tristão da Cunha (que capitaneava toda a expedição) e cinco sob o comando de Afonso de Albuquerque. Albuquerque já passava dos cinquenta anos. Nascera em 1453, fora próximo de D. João II e combatera no Norte de África. Ao que parece, D. Manuel não o estimava muito e Albuquerque e Tristão da Cunha não primavam pelo entendimento. Mas a longa viagem foi correndo: passaram o Cabo da Boa Esperança e seguiram com combates, ataques e saques de cidades da costa oriental africana; depois, já no Índico, a sul da península arábica, tomaram a ilha de Socotra ou Socotorá.

A partir daí, Tristão da Cunha rumou para a Índia e Albuquerque, com seis navios e quatrocentos e cinquenta homens, decidiu conquistar Ormuz. A cidade de Ormuz dominava as ilhas do Golfo Pérsico e a costa de Omã. Albuquerque deixou Socotra a 10 de Agosto e, levando a bordo pilotos árabes, conhecedores dos mares e terras da região, foi tomando posições – Calayate, Curiate, Mascate – e avançou para Ormuz. Pelo meio, teve conselhos de guerra difíceis com os seus capitães, que exprimiam dúvidas e receios perante a sua audácia e preferiam esperar e pilhar os barcos dos peregrinos de Meca. A cena repetiu-se em Ormuz, quando Albuquerque exigiu ao regente, Khodja-Atar, que prestasse vassalagem ao rei de Portugal.

Começaram as negociações, mas o capitão português, entendendo que os de Ormuz esperavam reforços da costa e procuravam ganhar tempo, ordenou aos comandantes da frota portuguesa que abrissem fogo sobre os navios inimigos parados no porto. Ao mesmo tempo, ordenou o desembarque, enquanto, das naus portuguesas, a artilharia flagelava a cidade e os barcos adversários. Khodja-Atar não tardou em pedir uma trégua para negociar.

Nas negociações, pelo lado dos locais, falou o primeiro-ministro Seif-ed-Din, que aceitou, a troco da paz, pagar ao rei de Portugal, anualmente, “quinze mil xerafins de ouro”. Além disso, devia desembolsar imediatamente uma quantia de cinco mil xerafins para as despesas da esquadra portuguesa e, mais importante, permitir que os portugueses edificassem na ilha uma fortaleza. Prontamente, contra as objecções dos seus capitães e dos chefes muçulmanos, Albuquerque iniciou a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, que levaria trinta anos a ser concluída (ficaríamos em Ormuz até a perdemos para os ingleses, em 1622).

Albuquerque abandonou então Ormuz, onde só voltaria em 1515, no seu último ano de vida. Seria, entretanto, nomeado governador da Índia por D. Manuel I em 1509; em 1510 conquistaria Goa e, em 1511, Malaca.

Com estas três praças, assegurara posições terrestres a partir das quais os portugueses dominariam o comércio do Índico até ao fim do século XVI.

Para fechar o controlo português, apenas lhe faltava Adem, uma cidade-Estado à entrada do Mar Vermelho, que, uma vez conquistada, acabaria com o comércio dos mamelucos com Veneza.

A frota portuguesa partiu de Goa em 18 de Fevereiro de 1513. Eram vinte navios, com 1700 marinheiros e soldados portugueses e 800 aliados malabares. Fizeram uma paragem em Socotra e, a 26 de Março, Domingo de Páscoa, atacaram Adem. Mas na escalada das muralhas, as escadas partiram-se sob o peso dos atacantes e o ataque foi repelido; um segundo ataque também falhou, e assim se gorou o ambicioso plano do “Leão dos Mares” de fechar, para a Coroa portuguesa, as portas e chaves do Índico.

Rezam as crónicas que as escadas  cederam à precipitação dos oficiais e soldados portugueses, todos querendo ser os primeiros no perigo e na glória.

Ocupando Goa e Diu, os portugueses dominavam parte importante da Índia; com Malaca, vigiavam a passagem do Índico para o Pacífico; controlando Ormuz, dominavam a circulação no Golfo Pérsico; com Adem, ficariam também senhores da entrada e circulação do Mar Vermelho e do caminho de Meca.

A narrativa destes sucessos ficou nas Décadas da Ásia, de João de Barros, e nos Comentários, de Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque.

Camões, o profeta

Além do comércio da pimenta e do controle dos recursos, D. Manuel e Albuquerque pensavam em termos de nova cruzada, de “mudança de regime”, dir-se-ia hoje. Roger Crowley voltou a lembrar-nos isso, recordando a importância das referências ao rei cristão perdido no Nordeste de África, o Preste João.

Camões, na estrofe 40 do Canto X de Os Lusíadas, celebra os feitos do governador, pela voz da ninfa Thétis:

«Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»

Nas estrofes seguintes, continuam os louvores a Albuquerque, mas, a partir da estrofe 45, Camões censura o grande capitão pela severidade com que pune com a morte um dos seus subordinados por um delito sexual menor. E segue com a narrativa de outros governadores e capitães da Índia.

A ninfa leva então o Gama ao cume de um monte na Ilha dos Amores e mostra-lhe a “máquina do mundo”, a terra com os seus reinos, os seus mares, os seus povos, correndo e percorrendo todos os continentes. No final, o poeta dirige-se a D. Sebastião, incitando-o a seguir o exemplo dos heróis portugueses, praticando grandes feitos:

«De sorte em que Alexandre em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja!»

Alexandre conquistou o mundo, mas morreu novo, aos 33 anos. Aquiles também fez grandes coisas, mas teve azar com a flecha de Páris, o filho de Príamo, causador da desgraça de Troia, pelo rapto da bela Helena.

O poeta aqui foi também profeta: D. Sebastião ia perder-se no nevoeiro aos 24 anos.

…E Portugal, teria de esperar que raiasse Abril para ver raiar a Democracia e poder, enfim, realizar grandes feitos.

 https://observador.pt/opiniao/o-estreito-de-ormuz-dos-capitaes-da-india-aos-capitaes-de-abril/

sexta-feira, 20 de março de 2026

Eugénia Galvão Teles - Uma Maria Antonieta das Caldas em Belém

* Eugénia Galvão Teles

Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social

19 março 2026 

Conforme o esperado, a polícia da moda analisou minuciosamente o vestido que Margarida Maldonado Freitas usou na posse do marido como Presidente da República. O jornalismo de investigação não descansou enquanto não deu com a origem daquele bocado de tecido azul da Valentino e apresentou a conta à população. Uma etiqueta com demasiados zeros transformou a farmacêutica das Caldas numa nova Maria Antonieta, insensível à pobreza dos seus súbditos. Como se não bastasse ser demasiado caro, apareceu ainda o demasiado estrangeiro. Com tantos costureiros nacionais, a mulher foi escolher um italiano e ainda lhe pregou uns corações de Viana, na esperança de nacionalizar à pressa a farpela.

Para brincar aos polícias da moda a sério, dava jeito saber alguma coisa sobre a história da roupa feminina — além da cor do ano, das bainhas que sobem e descem, da meia dúzia de marcas que aparecem nas revistas e do reflexo pavloviano quando um vestido é mais caro.

Já não peço que saibam que Chanel, em 1955, criou uma carteira com alça a tiracolo para deixar as mulheres com as mãos livres; que Yves Saint Laurent se ofereceu para vestir a mulher emancipada dos anos 70, caso ela não desse com o príncipe encantado; que o luxo online trocou a lady who lunches por uma compradora com vida profissional e pouco tempo para correr lojas à procura do traje mais adequado à ocasião.

Mas há mínimos. Não dá para não saberem que o mercado de luxo foi dos primeiros a apostarem numa cliente com cartão de crédito próprio. Não que o mercado se tenha tornado feminista. Fez apenas o que o capitalismo sabe fazer e reconheceu os frutos económicos da emancipação feminina. Margarida Maldonado Freitas é um bom exemplo dessa mudança. Já nasceu no mundo das que estudaram, trabalharam, ganharam o seu dinheiro e não pedem licença para existir ao lado de um homem com poder.

É verdade que a mulher a subir a calçada não é só a Margarida que pode comprar o que quer. Mesmo num país sem primeira-dama, está ao lado do Presidente. À mulher de César não basta ser; também tem de parecer.

Só que a António José Seguro ninguém cobrou os fatos Canali, que não são propriamente baratos. Felicitou-se a sua entrada bem-sucedida no clube dos homens políticos que se vestem como deve ser e procuram uma boa relação qualidade-preço. Já a indumentária da sua mulher, mesmo em saldo, só pode ser um brioche atirado ao povo pela calçada de Belém. O luxo masculino continua a ser competência. No feminino, é falha moral.

Também convém manusear com cuidado toda essa sensibilidade social. Da sobriedade republicana passa-se, amiúde demasiado depressa, para o Portugal dos pobrezinhos e dos pequeninos. Na investigação jornalística feita ao vestido, achou-se natural ir bater à porta da costureira da mulher do Presidente. Sendo das Caldas, logo havia de se vestir por lá, com a mediação social adequada ao código postal. O que incomoda não é só o preço do vestido. É a quebra de uma certa geografia de classe.

Quando me casei, cheguei à modista com uma página arrancada da “¡Hola!” e um modelo da Valentino para evitar acabar igual à princesa Diana, que ainda era a referência obrigatória em matéria de vestidos de noiva. É bem possível que a Margarida Maldonado tenha feito o mesmo. Nenhuma de nós tinha dinheiro para comprar o figurino da revista. Mas ambas sabíamos que ninguém reinterpretava a elegância clássica tirando-lhe o mofo como o Valentino. Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social.

O que se quer de um Presidente de todos os portugueses não é que ele e a mulher se vistam de pedagogia social ambulante. É que façam tudo para que essa história não pare neles. Qualquer que seja o vestido dela e o fato dele.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-19-uma-maria-antonieta-das-caldas-em-belem

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

domingo, 8 de março de 2026

Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]

* Carlos Coutinho
 ·
Está agora sepultado no Cemitério de Benfica, em Lisboa, um extraordinário escritor que muito admiro e que muito me ensina ainda hoje, alguém que, inusitadamente, teve no Mosteiro dos Jerónimos as cerimónias fúnebres (o “velório”, no dizer de um repórter de alfurja de um canal de TV de crimes e escândalos, abaixo de qualquer respeito) um tal António Lobo Antunes que deixou uma profunda marca na escrita de autores que começaram a publicar depois dele e que, sendo o inverso de José Saramago, outro gigante também já falecido e nobelizado, contra ele combateu, por mal disfarçada inveja. 

   Diferente dele, ideológica e filosoficamente, este Lobo feroz, execrou-o por ter sido ele o galardoado com o Prémio sueco para a Literatura que o infeliz psiquiatra tanto desejou em vão.

   Regressando da guerra colonial em Angola, onde penou e trabalhou como alferes miliciano médico, o António Lobo Antunes publicou em 1978 “Memória de Elefante”, uma estreia que surpreendeu críticos e acadêmicos, logo seguida por “Os Cus de Judas” e abrindo caminho a uma recepção fulgurante de “A Explicação dos Pássaros” e de “O Manual dos Inquisidores”, além do fabuloso “Fado Alexandrino” que ainda trina e ecoa por todo o lado.

   O mais alto Poder homenageou-o e acrescentou aos muitos prémios em vida recebidos, nacionais e estrangeiros, um galardão póstumo, a poucos metros do homérico túmulo vazio de Luís de Camões, seguindo hoje o seu esquife para um cemitério alfacinha que recebe urnas e caixões de gente de todos os credos classes sociais. 

   Muito perto dele está enterrado, há meia década, um cunhado meu, comerciante de Benfica, e logo ao lado um jornalista que foi meu chefe. 

   Dulce Maria Cardoso, outra grande romancista que escreeu “O Retorno” e também entrou no que chama “literatura colonial”, confessa que a influência de Lobo Antunes também nela foi “enorme” e frisa: “Não conheço quem escreva tão bem em língua portuguesa. (…) Leio-o como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro.”

   Para Gonçalo M. Tavares, outro aedo nobelizável com prestígio internacional, há em Lobo Antunes “uma síntese filosófica de uma ideia formulada” pelo filósofo José Gil: o “medo dc existir”

   Agustina Bessa Luís, que muito dele gostava, disse-lhe um dia:  “Sabes, filho, eu devia ter-me casado contigo ou com o Camilo.”

    Já Maria Alzira Seixo, que o estudou meticulosamente escreveu:

“Entre todos os motivos literários (…), um dos mais fortes é o do espelho, porque caracteriza o narrador na presença irrecusável de si a si próprio, dando conta das coincidências entre volição e pragmática, entre desejo e remissão à incompletude.”

   O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, que acompanhou Lobo Antunes numa ida a Nova Iorque, ouviu-lhe numa entrevista: ”Pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sótão, onde morava Deus.”

   Aliás, já tinha escrito numa crónica na revista “Visão”:

“Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fases, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente, tenho exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha volta.”

   E em 2018, numa entrevista com uma só pergunta do “Diário de Notícias”, respondeu: “Quero que o Nobel se foda.”

8 Março 2026

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

sexta-feira, 6 de março de 2026

João Rodrigues - Parabéns - 105º aniversário do PCP


* João Rodrigues

Parabéns ao Partido Comunista Português pelos seus 105 anos de luta imprescindível. Tal como a poesia, qual esperança racionalizada, organizada, “resiste à quantidade de barbárie que em cada tempo insiste” (Manuel Gusmão). Em jeito de reconhecimento, republico o artigo sobre razão comunista e iluminismo radical:

Razão comunista e iluminismo radical

Sei que vou parecer suspeito ao leitor, dado que fui candidato independente pela CDU nas últimas eleições legislativas, sentindo-me, ao mesmo tempo, muito dependente de um coletivo que me ajuda a não terminar em mim mesmo. Não sou neutro, mas procuro ser objetivo na avaliação da razão e das razões comunistas. 

Desde o início do que designam por contrarrevolução que os comunistas portugueses alertam para os efeitos redistributivos regressivos da diminuição dos direitos laborais e do correlativo aumento dos direitos patronais. Desde a adesão ao euro que os salários são a variável de ajustamento, padrão possibilitado pelo empoderamento patronal numa economia assim cada vez mais medíocre. 

Desde a adesão à CEE que os comunistas portugueses alertam para os efeitos desindustrializadores da integração de feição neoliberal desta periferia com economias estruturalmente mais capazes, ainda para mais num quadro de europeização com mecanismos de compensação manifestamente insuficientes. O chamado comércio livre nunca passou do protecionismo dos mais fortes, sabemo-lo bem desde o século XIX, graças à melhor teoria económica prática de que os comunistas nunca prescindiram.
 
Desde os anos 1980 que os comunistas portugueses alertam para os projetos descaracterizadores da nossa mais radicalmente democrática Constituição, a de 1976, com particular incidência para a revisão de 1989. De facto, Álvaro Cunhal nunca cessou de insistir: «a Constituição da República aprovada em 2 de abril de 1976 é um fiel retrato da revolução portuguesa». É o ódio à revolução democrática e nacional que tem alimentado a política revisionista da direita, com a colaboração do PS. 

Desde aí que os comunistas portugueses alertam para os efeitos negativos no desenvolvimento soberano, no controlo democrático da economia e, portanto, no resto da vida social, da reconstituição de grupo económicos privados em setores estruturalmente geradores de poder e de superlucros, provando-se, de resto, que aí só a propriedade pública é propriedade nacional. O país tem sido sangrado pela transferência de recursos para o exterior, sob a forma de juros, lucros e rendas, dado o controlo externo crescente de setores nacionais absolutamente estratégicos, geridos em função de negócios cada vez mais estrangeiros.  

Desde os anos 1990 que os comunistas portugueses alertam, em livros e panfletos luminosos, para os efeitos desdemocratizadores do Tratado de Maastricht e suas cada vez mais graves sequelas, incluindo o crucial euro, tendo sido os primeiros a chamar a atenção para as suas tendências estagnacionistas. De facto, os comunistas estiveram, nos anos 1990, na vanguarda da defesa de um referendo a esta mudança no regime de política económica, com consequências deletérias em todas as esferas da vida social nacional.  

Desde sempre que alertam, e fizeram-no com particular veemência durante a troika, para os efeitos recessivos das políticas de austeridade orçamental, laboral e monetária, para usar o desdobramento luminoso de Clara Mattei, historiadora da economia política, no seu livro A ordem do capital – Como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho ao fascismo (Temas e Debates, 2024). De facto, ainda há pouco os comunistas chamavam a atenção para os efeitos perversos da subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu ou para a permanente compressão do investimento público, que faz com que Portugal seja um de três países da União Europeia com os mais baixos níveis, em percentagem do PIB. O investimento público é uma variável com efeitos multiplicadores no investimento privado e logo no rendimento nacional.

Desde há alguns anos que os comunistas portugueses alertam para os efeitos perversos do desmantelamento do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e contra a ideia de que se pode agir em matéria migratória ao serviço do capital mais explorador, como se o país tivesse capacidades de acolhimento ilimitadas. Exige-se, creio, uma regulação dos fluxos migratórios por uma dupla razão: para defender quem cá está e quem quer vir para cá trabalhar, de modo que ninguém fique vulnerável perante o patronato. A dignidade do trabalho é para todos e ninguém deve estar vulnerável perante os traficantes de seres humanos.

Desde há muito que os comunistas defendem que o neoliberalismo alimenta o neofascismo, sendo este uma das expressões políticas das frações mais reacionárias do capital. Agora, basta seguir o dinheiro dos financiamentos, do Chega à IL. Os liberais até dizer chega da IL, tão ou mais perigosos ideologicamente do que o Chega, têm um Instituto +Liberdade (para explorar). Só em três anos, recebeu cerca de 500 mil euros do nono homem mais rico do país, Carlos Moreira da Silva. A credulidade económico-política, de recorte anti-iluminista, é hoje maciçamente financiada.
 
Desde há anos que os comunistas portugueses vêm alertando, brutalmente isolados no início, que a cultura imperialista da guerra só alimenta o desperdício armamentista, à custa dos Estados sociais e da vida, fazendo do anticolonialismo, do anti-imperialismo e logo do antirracismo modo de atuação, identidade. Hoje, essa luta é mais atual do que nunca: basta pensar nos compromissos que a direita, com apoio mais ou menos assumido do PS ou do Livre, tem vindo a assumir, no quadro da NATO, nesta área. O interesse nacional, o da maioria social, não passa por esta pulsão de morte.

E poderia continuar. Mas o leitor já percebeu aonde quero chegar: não há em Portugal quem tenha alertado tanto e acertado tanto, seja na academia, seja nos movimentos sociais ou em outras expressões de inteligência coletiva, para já não falar dos outros partidos. Desafio-o a comparar. 

Neste contexto, importa renovar a crença na promessa emancipatória aberta pelo melhor iluminismo. O curto e incisivo ensaio da filósofa catalã Marina Garcés – Novo Iluminismo Radical (Orfeu Negro, 2023) – é útil neste contexto. Não sendo comunista, esta filósofa combina sagazmente pessimismo da inteligência e otimismo da vontade, resgatando a promessa iluminista enquanto combate à atual «credulidade sobreinformada» e cínica. 

Indo para lá da condição pós-moderna, de um suposto presente eterno, Garcés denuncia o que apoda de «condição póstuma» gerada pela pulsão de morte de um capitalismo sem alternativa – «um novo relato, único e linear: o da destruição irreversível das nossas condições de vida», fazendo do presente «o tempo que resta». 

Garcés reabilita a promessa emancipatória contida no melhor iluminismo: «a pergunta que norteia o iluminismo não é o "até quando?" da condição póstuma, mas o "até onde?" da crítica». Num certo sentido, os alertas comunistas passam sempre por aqui: até onde vai a perda de soberania democrática ou de direitos laborais, por exemplo?

Garcés termina com um diagnóstico pertinente sobre a crise da cultura e das humanidades ditas críticas, tantas vezes perdidas numa desvalorizada denúncia das «relações entre saber e poder», demasiado despreocupadas em relação à esperança fundada na emancipação: «a sua crise está diretamente relacionada com a distância que se abriu entre o que sabemos acerca de nós e do mundo e a capacidade de o transformar».  
 
Eliminar essa distância, «elaborar o sentido e as condições do vivível», é tarefa coletiva, requerendo ação coletiva, ou seja, organização luminosa, como os comunistas portugueses nunca se cansaram de insistir e de praticar com coragem ímpar. De facto, e sem relativismos, «já não se trata de o verbo se ter feito carne, mas de a carne produzir verbos e de os verbos terem consequências na forma como vamos viver na nossa carne».

Já estou a ver uma réplica potencial do leitor a tudo isto: se os comunistas portugueses estão cada vez mais fracos eleitoralmente, o que é que esse seu iluminismo radical interessa? Interessa muito. Pode perder-se força e ainda assim ter muita razão, muitas razões. É sempre necessário distinguir validade e poder. As derrotas políticas não são por si só refutações. A política que interessa é a razão feita movimento, organização. Quem desistir da análise séria, tão objetiva quanto possível, está perdido. Quem desistir de ir de forma luminosa à raiz dos problemas está perdido. E não nos podemos perder, se queremos voltar a vencer.

Terça, 03 de Junho de 2025

Adenda. O quadro é da autoria de Rogério Ribeiro e vi-o no ano passado, numa retrospectiva no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a que aqui aludi.

Poemas de Rui Lage

* Ruy Lage


 

A CARTA NA MÃO

 

ao meu pai, Carlos

 

País perdido no regaço da palha

sob o peso da luz e do pão,

tenho-te escrito e aberto nas mãos,

tenho-te perto da vista e longe

cada vez mais do coração.

 

Sobre os joelhos o fruto seco da carta,

a nódoa de veneno deixada

pelos insectos, a invasão dos vermes,

as unhas imundas que feriram

a polpa, o caroço onde guardo

os sinos da manhã.

 

O pátio na carta aberta,

a casa remota, perdida

após montes e montes deitados

sobre o perfume das hortas,

o eco das minas bebendo em sossego

o pensamento, a lentidão dos animais

que perduram na curva dos caminhos.

 

Na carta aberta o cimo das escadas,

o céu tranquilo as mãos na cintura,

a súplica de pó no rosto que olha

pedindo a mão pequena

para a borda da saia,

o primeiro dia de escola

para o colo do regresso.

Mas se morrermos agora,

no pátio ou no deserto, quem dará conta

do país perdido?

 

Que me pede a carta nas mãos

cantando o país perdido?

Também aqui as cigarras cantam

mas estranhas aves amplificam

no tímpano sujo dos muros

o ar queimado da savana.

 

Que faço na terra do marfim?

Porque não há cravos

na pequena horta da prisão?

 

 

 

A CÉU ABERTO

 

Dizem que o Sr.João não se lava,

que em certas noites

dorme no monte junto ao cavalo;

que bebe muito e cai pela terra

em redondo o pensamento,

que a sua cama não tem lençóis

e que a suportam quatro tijolos;

que nunca lava as escadas

e que nunca lava a roupa

embora permaneça preso ao ribeiro

muito depois

de as mulheres terem partido.

 

Vejo

que a cova dos seus olhos

foi aberta num sítio

rodeado de terra por todos os lados.

 

As árvores, que se saiba,

não se lavam

e dormem ao relento

encostadas ao cavalo do estio

(se assim não fosse não amaria

o que já não seriam árvores).


O Arquivo de Renato Suttanna   https://www.arquivors.com/ruilage.htm

Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES


MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO POR PREGUIÇA…

- confessa Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas

António Lobo Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português. Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se, tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.

Foi um amigo meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a “Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”. E por aqui me fiquei.

Confesso que, neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo, «a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão»…

E assim por diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem reticências…

O narcisismo, ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…

NOTÍCIA DA DEMÊNCIA E DA MORTE

O certo é que António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83 anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou bastante do mundo, devido à demência que o afectou.

«A doença que o foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes. Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves, ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…

“É a minha geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã, tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever: deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de todos nós esteve ele.”

Para Lídia Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo, um modo e uma forma que são universais”.

Essa forma que, segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo. “Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus, de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever como ele.”

E se gostou dos primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas” -, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo “impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.

Dulce Maria Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”, que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho, trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o escritor nascido em Benfica.

Carlos Vaz Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’, explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’ Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz bem timbrada, na minha cabeça.”

Campo d’Ourique, 5 de Março de 2026

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terça-feira, 3 de março de 2026

Michael Hudson - Da negociação à detonação



– O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história.
– Podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial.
– O ataque dos EUA pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado.
– Momento propício para a transferir a sede da ONU para fora dos próprios Estados Unidos.
– Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

Michael Hudson [*]

Na última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irão em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi, desmascarou a pretensão enganosa do presidente Trump de ameaçar uma guerra com o Irão. Porquê? Porque este país havia recusado as suas exigências de desistir do que ele alegava ser a sua própria bomba atómica. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã explicou no programa Face the Nation da CBS que a equipa iraniana concordou em não acumular urânio enriquecido e ofereceu "uma verificação completa e abrangente pela AIEA". Esta nova concessão foi um "avanço nunca antes alcançado. E acho que, se conseguirmos aproveitar isso e construir sobre essa base, acho que um acordo está ao nosso alcance“ para alcançar ”um acordo de que o Irão nunca, jamais terá material nuclear que possa ser usado para fabricar uma bomba. Acho que isso é uma grande conquista".

Salientando que este avanço "foi muito ignorado pelos meios de comunicação social", ele enfatizou que exigir "zero armazenamento" foi muito além do que havia sido negociado durante o governo do presidente Obama, porque "se não se pode armazenar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba".

O aiatolá Ali Khamenei — que já havia emitido uma fatwa contra tal ato e repetido essa posição ano após ano — convocou os líderes xiitas e o chefe militar do Irão para discutir a ratificação do acordo de cessar o controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.

Mas tal capitulação era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar. Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de consolidar e militarizar o seu controlo sobre o petróleo do Médio Oriente, o seu transporte e o investimento das suas receitas de exportação de petróleo, e de usar Israel e a Al Qaeda/ISIS como seus exércitos clientes para impedir que os países produtores de petróleo independentes agissem em seus próprios interesses soberanos.

A inteligência israelense aparentemente alertou as forças armadas dos EUA, sugerindo que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para decapitar todos os principais tomadores de decisão. Isto seguiu o conselho do manual militar dos EUA de que matar um líder político que os EUA consideram antidemocrático libertará os sonhos populares de mudança de regime. Essa era a esperança do bombardeamento da residência de campo do presidente Putin no mês passado, e estava em linha com a recente tentativa dos EUA de mobilizar a oposição popular para a revolução no Irão.

O ataque conjunto dos EUA e israelenses deixa claro que não havia nada que o Irão pudesse ter concedido que tivesse dissuadido a longa campanha dos EUA para controlar o petróleo do Médio Oriente, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do ISIS/Al Qaeda a fim de impedir que nações soberanas da região emergissem e assumissem o controlo das suas reservas de petróleo. Esse controlo continua a ser um braço essencial da política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar outras economias, negando-lhes acesso à energia se não aderirem à política externa dos EUA. Essa insistência em bloquear o acesso do mundo a fontes de energia que não estejam sob o controlo americano é a razão pela qual os EUA atacaram a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.

O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história. O objetivo era impedir a intenção do Irão de avançar para a paz, antes que os seus líderes pudessem refutar a falsa alegação de Trump de que o Irão se recusara a desistir do seu desejo de obter a sua própria bomba atómica.

Seria interessante saber quantos dos colaboradores de Trump apostaram alto em que os preços do petróleo iriam disparar quando os mercados abrissem na segunda-feira de manhã.

Na semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco de fechar o Golfo do Petróleo. As empresas petrolíferas americanas vão lucrar muito. A China e outros importadores de petróleo vão sofrer. Os especuladores financeiros americanos também vão lucrar muito, porque a sua produção de petróleo é interna. Este facto pode até ter desempenhado um papel na decisão dos EUA de acabar com o acesso mundial ao petróleo do Médio Oriente por um período que promete ser longo.

A perturbação comercial e financeira será, de facto, tão mundial que penso que podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a crise financeira iminente (para não falar da indignação moral) definirá a próxima década de reestruturação política e económica internacional.

Os países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo, exceto a preços que tornarão muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos familiares inviáveis. O aumento dos preços do petróleo também tornará impossível para os países do Sul Global pagar as suas dívidas em dólares vencidas aos detentores de títulos ocidentais, bancos e ao FMI.

Os países só poderão evitar a imposição de austeridade interna, desvalorização da moeda e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se tornar insustentável em qualquer caso.

Se esta é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, é, em muitos aspetos, uma batalha final para decidir o que foi a Segunda Guerra Mundial. Será que o direito internacional entrará em colapso como resultado da relutância de um número suficiente de países em proteger as regras do direito civilizado que sustentam os princípios da soberania nacional livre de interferência estrangeira e coerção, desde a Paz de Westfália de 1648 até à Carta das Nações Unidas? E no que diz respeito às guerras que inevitavelmente serão travadas, elas pouparão civis e não beligerantes, ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas províncias orientais, o genocídio de Israel contra a etnia palestina, a limpeza religiosa wahabi das populações árabes não sunitas, ou mesmo as populações iraniana, cubana e outras sob ataque patrocinado pelos EUA?

Será que as Nações Unidas podem ser salvas sem se libertarem a si próprias e aos seus países membros do controlo dos EUA? Um teste decisivo inicial para saber onde as alianças se estão a formar será quais os países que se juntarão à ação legal para declarar Donald Trump e o seu gabinete criminosos de guerra. É necessário algo mais do que o atual TPI, dados os ataques pessoais do governo dos EUA aos juízes do TPI que consideraram Netanyahu culpado.

O que é necessário é um julgamento à escala de Nuremberga contra a política militar ocidental que tem procurado mergulhar o mundo inteiro no caos político e económico se este não se submeter à ordem unipolar dos EUA. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva dos EUA, Europa, Japão e Wahabi, sofrerão o que o secretário de Estado dos EUA, Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de ressurgimento da história ocidental de conquista [com o abandono] dos princípios básicos do direito internacional e da equidade.

Uma alternativa requer a reestruturação das Nações Unidas para acabar com a capacidade dos EUA de bloquear resoluções da maioria. Tendo em conta que o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização poderá estar falida em agosto e ter de fechar a sua sede em Nova Iorque, este é um momento propício para a transferir para fora dos próprios Estados Unidos. Os EUA proibiram Francesca Albanese de entrar no país devido ao seu relatório que descreve o genocídio israelense em Gaza. Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

02/Março/2026

https://resistir.info/m_hudson/detonacao_02mar26.html

Dani,el Vaz de Carvalho -Assim estalou a guerra

3 de março de 2026

"Negociámos com os Estados Unidos duas vezes nos últimos 12 meses, e em ambos os casos, eles atacaram-nos no meio da negociação - disse o MNE do Irão. E assim estalou a guerra. Como terminará?Desde há mais de 30 anos que Israel afirma que o Irão está "a semanas" de ter uma arma nuclear. Quando se trata da intoxicação da opinião pública, não conta o facto de Ali Khamenei ter assumido através de uma fatwa (regra baseada na lei islâmica) o compromisso do Irão de não construir uma bomba nuclear.

O objetivo traçado também há mais de 30 anos é o império dominar o Médio Oriente, perante isto, não contam as vidas dos palestinos nem dos países recalcitrantes a serem submetidos. A questão pôs-se agora com maior acuidade dada a multipolaridade estabelecida. O plano global anti multipolaridade impunha fazer cair o Irão, enfraquecer a Rússia e a China, desarticular o Sul Global e dominar as fontes energéticas.

Que o principal oponente de uma bomba nuclear iraniana tenha sido morto num ataque direcionado, faz parte do esquema. Gente que clama por direitos humanos e direito internacional, refere extasiado o que não passou de um cobarde assassinato no decorrer de negociações. 

Na manhã de sábado, reuniram em Teerão os principais membros da liderança iraniana para avaliarem o andamento das negociações e cedências feitas. Os EUA bombardearam a reunião, matando altos funcionários e o líder supremo Ali Khamenei, provando que as suas negociações são simplesmente uma arma dos objetivos de domínio.

Os grandes media têm por missão a formatação das mentes dentro do padrão estabelecido. Assim, o que quer que o império realize é à partida aceitável e mesmo que existam algumas reticências vêm acompanhadas de um "mas" justificativo

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão fazem simplesmente parte do plano para remodelar o Médio Oriente a seu contento. Para submeter o Irão duas opções foram consideradas: o esquema venezuelano e o esquema sírio. O esquema venezuelano, supunha que eliminando o dirigente máximo e seus próximos o que restasse iria pedir a continuação das "negociações", por assim dizer de "baraço ao pescoço". Falhou.

A opção síria, implica um guerra civil de separatismo e focos de insurgência, como se viu antes, organizados pela CIA e Mossad, baseada na sedução por modelos ocidentais. Os focos de insurgência foram desmantelados, o separatismo agressivo só surgirá se as forças armadas iranianas forem decisivamente enfraquecidas. Resta uma terceira hipótese que Rubio disse que "para já" não se coloca: é a opção Afeganistão. Sem comentários...

Ora estas opções estratégicas dos EUA, encontram um Irão preparado para elas. Afirma o MNE do Irão: "Tivemos duas décadas para estudar as derrotas do exército dos EUA no nosso leste e oeste imediatos", referindo-se ao Afeganistão e ao Iraque. "Incorporámos lições em conformidade. Os bombardeamentos na nossa capital não têm impacto na nossa capacidade de conduzir guerra. A Defesa Mosaica descentralizada permite-nos decidir quando - e como - a guerra terminará".

A Defesa Mosaica é a abordagem de guerra assimétrica do IRGC para combater forças inimigas superiores. Inclui a delegação de autoridade de decisão significativa a comandantes locais (31 unidades autónomas), permitindo que as operações continuem mesmo que o comando central tenha sido decapitado. As táticas estabelecidas incluem a utilização da geografia do Irão (montanhas, desertos, mares), guerrilha, ataques surpresa e ações para perturbar as linhas de abastecimento inimigas. Cada unidade regional é praticamente autónoma com tudo o que é necessário para a guerra moderna, mísseis, drones, barcos de ataque rápido, baterias de defesa costeira, para a Marinha do IRGC. Defesa aérea integrada descentralizada permite a baterias individuais funcionarem como centros de defesa aérea locais. Note-se que o Irão tem uma superfície 1,648 milhões de km2 praticamente o dobro da França e Alemanha juntas e 93 milhões de habitantes.

Outros princípio da Defesa em Mosaico: silêncio de rádio e comunicações, para neutralizar as capacidades de guerra eletrónica dos EUA. Implantação de milícias voluntárias Basij (mais de 450 efetivos) para segurança interna, além de guerrilha de na retaguarda inimiga e defesa em profundidade no caso de uma incursão inimiga por terra.

Os media israelitas afirmam que Trump atacou o Irão para tentar suavizá-los para as negociações. Na véspera da agressão os estrategas militares dos EUA alegadamente esperavam um cenário de "pequena guerra decisiva", no qual os bombardeamentos seriam rapidamente seguidos por negociações de paz. De acordo com um relatório israelita, o planeamento dos EUA na véspera do ataque - ou pelo menos o que Nethanyau convenceu Trump - era para uma "operação de 4-5 dias" que "traria um Irão enfraquecido de volta à mesa de negociações".

Agora muitos começam a perceber que atacar o Irão foi uma "aposta excessiva" e que sem tropas no terreno as esperanças de mudança de regime não são possíveis.

O Irão resiste aos bombardeamentos e retalia não menos violentamente, os petroleiros estão parados no Golfo, há baixas dos EUA nas bases, grande aumento dos preços da energia, risco dos EUA e Israel ficarem sem intercetores à medida que o Irão intensifica os ataques e dos navios - mesmo porta-aviões - serem atingidos.

Publicada por Daniel Vaz de Carvalho à(s) terça-feira, março 03, 2026 

https://foicebook.blogspot.com/2026/03/assim-estalou-guerra.html#more

domingo, 1 de março de 2026

Ricky - Estamos mesmo fingindo que o atentado a bomba da turma de Epstein ...

Nexo anti-imperialista

Estamos mesmo fingindo que o atentado a bomba da turma de Epstein em uma escola para meninas iranianas conta como libertação das mulheres?

01 de março de 2026

Uma guerra ilegal para desviar a atenção da pedofilia está sendo vendida como "libertação" por setores da mídia, num colapso total da ética jornalística. O Washington Post publicou um artigo de opinião de Reza Pahlavi, autoproclamado "Príncipe Herdeiro" do Irã, declarando que "a hora da sua liberdade está próxima". Parece que ninguém no Post se lembrou de perguntar aos iranianos se eles gostariam de um Príncipe Herdeiro, e eu aqui pensando que isso era sobre democracia.

A Operação Fúria Épica já se tornou um desastre humanitário, ceifando centenas de vidas inocentes e arriscando uma guerra regional de maior escala. O Príncipe Palhaço do Crime deve estar se deliciando com as paisagens urbanas em chamas por todo o Oriente Médio, cortesia da classe de Epstein. Provavelmente não haverá vencedores, mas enquanto Pahlavi continuar reinando sobre os escombros...

Os israelenses estão escondendo a dimensão da destruição e mal mencionando as mortes de civis, mas as evidências sugerem que o número de vítimas é muito maior do que o admitido . De alguma forma, Israel subestimou novamente a capacidade de retaliação do Irã. É difícil ter compaixão pelos israelenses encolhidos em bunkers quando essa situação é inteiramente autoinfligida. O que quer que estejam sofrendo agora é mil vezes menor do que já infligiram a outros.

Se ao menos a mídia tivesse abordado o assunto dessa forma, em vez de retratar israelenses e americanos como vítimas. O New York Times publicou uma matéria sobre as dificuldades enfrentadas pelos israelenses que se refugiaram em abrigos antiaéreos, como se os palestinos não tivessem passado mais de dois anos caminhando pelo país com barracas. Uma jornalista da MSNBC se expôs ao ridículo ao perguntar ao ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi: “Como o senhor justifica atacar bases militares americanas?”. Sua resposta foi simples: “Porque vocês estão nos atacando”.

O jornalismo ocidental tornou-se uma piada. Ele simplesmente oferece diferentes versões de propaganda, adaptadas aos nossos preconceitos, enquanto nos conduz a uma versão "woke" ou "anti-woke" do imperialismo.

Eis o contexto adequado para esta guerra: os ataques ilegais deste império violaram a soberania do Irã e destruíram famílias, enquanto seu luto é reembalado como libertação. Os autoproclamados salvadores das mulheres iranianas acabaram de bombardear uma escola para meninas, para vocês terem uma ideia. Nada do que a classe de Epstein diz deve ser levado a sério.

A afirmação de Trump sobre o Irã estar construindo armas nucleares que poderiam atingir os EUA é um absurdo desprezível. Seus próprios assessores não conseguem manter uma versão coerente dos fatos — alguns dizem que as instalações nucleares foram "destruídas" em 2025, enquanto outros gritam que o ataque nuclear é iminente. Não pode ser as duas coisas.

As mesmas vozes que clamavam contra a brutalidade iraniana para justificar a mudança de regime agora estão transformando as cidades iranianas em Gaza. Não se trata de uma operação de precisão, mas sim de um bombardeio indiscriminado que ultrapassou todos os limites. Nada ilustra melhor essa depravação do que o ataque à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh. Três mísseis disparados contra um único prédio escolar não é um erro. Pelo menos 148 inocentes foram mortos no ataque e 95 ficaram feridos — a maioria meninas de 7 a 12 anos.

Imagens mostram equipes de resgate retirando mochilas e livros escolares dos destroços: os sonhos de uma geração destruídos por ocidentais que odeiam o hijab. Em nome dessas meninas, posso dizer: que se dane a sua libertação?

Isso não foi dano colateral, foi um crime de guerra flagrante. De acordo com as Convenções de Genebra e a Carta da ONU, ataques contra infraestrutura civil são proibidos. Autoridades iranianas denunciaram o ataque como um "crime atroz", enquanto os militares dos EUA disseram que estavam "investigando" as denúncias. É uma questão de tempo até que o exército de Epstein se inocente.

Esta guerra não começou porque o Irã se recusou a fazer concessões; começou porque estava pronto para aceitar um acordo nuclear. As negociações em Genebra e Omã, no início de fevereiro, estavam fadadas ao fracasso devido às crescentes exigências para que o Irã desmantelasse seu programa de mísseis e rompesse relações com seus aliados.

Já vimos essa estratégia antes: os EUA e Israel atacam durante as negociações e culpam o outro lado porque um acordo é a última coisa de que o Projeto do Grande Israel precisa. Tel Aviv decidiu que a guerra era sua última chance de enfraquecer seu maior rival antes que o desenvolvimento de mísseis e drones do Irã estabelecesse uma dissuasão real.

Não vamos esquecer que o Irã não invade outro país há séculos. Todos sabemos que Israel tem uma arma com balas em formato de kompromat apontadas para a cabeça de Trump. Ele concordou em sacrificar seus próprios homens e mulheres para se salvar. Que sujeito.

A vitória parece improvável para ambos os lados e o custo da guerra será enorme. As forças americanas e israelenses lançaram quase 900 ataques aéreos em todo o Irã, visando instalações militares, prédios governamentais e complexos de lideranças. Explosões abalaram Teerã, Tabriz e províncias do sul. Imagens de satélite mostram fumaça subindo de instalações importantes, mas o Irã está revidando com força . Foto após foto mostra bases americanas reduzidas a escombros. Uma base de radar que custou US$ 1,1 bilhão foi destruída no Catar — os americanos sem plano de saúde arcarão com os custos.

Toda essa destruição levanta a questão de se as baixas americanas estão sendo ocultadas. Até o momento, os relatos mencionam pelo menos três militares americanos mortos e outros feridos nos primeiros dias, mas esse número parece muito baixo. Meu palpite é que o número real de mortos provocaria a fúria do público americano.

Centenas de iranianos morreram nas primeiras doze horas, entre eles altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e — o mais chocante — o aiatolá Ali Khamenei . Ao contrário de Netanyahu, que embarcou em um avião, Khamenei permaneceu com seu povo até o fim. Chame-o do que quiser, mas essa é a diferença entre um líder nativo e um colonizador.

O presidente dos EUA, cujo nome consta mais de um milhão de vezes nos arquivos de Epstein, vangloriou-se no Truth Social por ter assassinado um chefe de Estado — seu mais recente crime de guerra. O pedófilo, que está cometendo o crime de agressão supremo, chamou o aiatolá Khamenei de "uma das pessoas mais perversas da história". A ironia acaba de morrer.

Os EUA assassinaram o líder que emitiu uma fatwa proibindo armas nucleares, logo depois de o próprio Trump ter rompido o acordo nuclear. Talvez se o aiatolá tivesse demonstrado "respeito pelos direitos das mulheres" viajando até a ilha de Epstein, ele ainda estaria vivo. Parece que seu verdadeiro crime foi trilhar um caminho independente para seu povo em vez de se juntar à rede comprometida.

Se você pensa que o Irã vai simplesmente se render, pense novamente. O Irã promete ataques "sem precedentes", potencialmente usando aliados como o Hezbollah ou os Houthis para uma guerra assimétrica. Seus mísseis hipersônicos Fattah-2 teriam sido usados ​​pela primeira vez, sinalizando o desafio tecnológico do Irã. Imagens nas redes sociais mostraram explosões em Tel Aviv e um importante clérigo xiita emitiu uma fatwa prometendo "golpes terríveis". Embora eu não tenha certeza se o Irã pode vencer esta guerra, certamente pode causar danos enormes.

O número de vítimas aumenta nos países do Golfo, aeroportos estão fechados e turistas estão retidos, incluindo celebridades ocidentais que publicam vídeos das explosões nas redes sociais. A economia dos Emirados Árabes Unidos, baseada no turismo e nos investimentos, depende da estabilidade e agora pode sofrer um duro golpe. Uma coisa que o império sabe fazer é prejudicar seus aliados.

As consequências da Guerra Epstein são devastadoras, com milhares de mortos e feridos, como as meninas de Minab cujos futuros foram roubados num instante. O fluxo de refugiados pode aumentar drasticamente e será interessante observar os defensores da guerra exigindo que eles voltem para casa. Economicamente, as remessas de petróleo pelo Estreito de Ormuz foram interrompidas , o que representa um risco de crise financeira global. Independentemente de outras nações serem arrastadas para um conflito maior, todos nós sentiremos o impacto. Se o seu custo de vida aumentar, culpe a classe de Epstein. Se a convocação para o serviço militar chegar, revolte-se.

https://www.councilestatemedia.uk/p/were-really-pretending-the-epstein?