Pelos seus dois protagonistas
não creio que esta campanha tenha muitas razões para se radicalizar. Seguro
porque a radicalidade não está no seu modo de ser; Ventura porque já segurou o
seu eleitorado.
24 jan. 2026,
No retrato eleitoral do país
temos, da esquerda para a direita: Catarina Martins, do Bloco de Esquerda
(2,06%); António Filipe, do Partido Comunista (1,64%); Jorge Pinto, do Livre
(0,68%); e o anti-Chega com “licença para odiar” André Pestana da Silva (0,19%).
Todos juntos, não chegam a 5% dos eleitores. Porém, independentemente da sua
representatividade real, é de prever que a representação na comunicação social
desta imaginária “vanguarda esclarecida” continue pujante.
Temos depois “o campo
socialista”, dito “campo democrático”, como na Primeira República, curiosamente
representado por António José Seguro, um filho mal-amado da Esquerda e do
próprio PS. Seguro é alguém de grande honestidade pessoal que, de hesitação em
hesitação, acabou por pôr reservas a Sócrates e por ser irradiado por António
Costa.
À direita do campo socialista, o
retrato fica simultaneamente mais fragmentado e mais nítido, com a primazia de
André Ventura a deixar muito boa gente à beira de um ataque de nervos.
O PSD, ou o que ficou do velho
PSD – que no breve consulado de Sá Carneiro e da primeira AD marcou a
resistência possível aos desmandos do MFA e da extrema-esquerda; que no
primeiro Cavaquismo enveredou por uma política que, infelizmente, não
prosseguiu, e que, com Passos Coelho, voltou a mostrar sentido de bem público –
sai mal na fotografia. O seu candidato captou pouco mais de um terço do
eleitorado cativo da AD, que ou foi atrás do liberal Cotrim de Figueiredo ou se
deixou encantar por Gouveia e Melo. Espera-se agora ardente e democraticamente
que este eleitorado, deixado livre, se sinta obrigado a votar pelo seguro, ao
lado do Partido Socialista e da extrema-esquerda, para “defender a democracia”.
Uma campanha alegre
Mas se os apparatchiks socialistas
em funções foram apoiando António José Seguro a conta-gotas e a contragosto,
ter um amigo dócil em Belém ser-lhes-á de extrema utilidade para se
reorganizarem. Por isso o tempo vai ser agora de entusiasmo democrático e de
serrar fileiras contra “o regresso do fascismo”.
Assim, daqui para a frente e nas
duas semanas de campanha que nos esperam, é comprar pipocas para assistir ao
filme que se anuncia: uma longa noite de cinema com dois campos bem definidos.
No trailer, insiste-se que a luta não é entre esquerda e direita,
mas, mais existencialmente, entre “democracia” e “autocracia”.
De um lado, no “campo
extremista”, podemos já antever um Tarrafal em cada esquina, nazis empunhando
fachos e cartazes não-inclusivos, Pides a perseguirem incautos imigrantes,
intrépidos resistentes anti-fascistas e louçãs donzelas, enquanto três ou quatro
Salazares saem vampirescamente das tumbas para devorar as conquistas de Abril…
todos ao serviço do super-vilão Mordoor-Ventura, que se prepara para executar o
maléfico plano de acabar com a democracia em Portugal. Do outro lado, no “campo
democrático”, a racionalidade, a respeitabilidade, a moderação, enfim, a
normalidade, o humanismo, a democracia.
“Democratas” e
“Extremistas”
Convém, no entanto, recordar que
“a democracia” ou a definição de democracia tem sido sempre um exclusivo da
esquerda, da mais extrema (quem não se lembra dos regimes democráticos e das
boas práticas que inspirou e inspira?) à mais moderada, à de “rosto humano”; e
tem sido sempre a esquerda a incluir ou excluir da “democracia” e a chutar para
o “fascismo” ou para a “autocracia” os protagonistas que a ameaçam.
Agora é Ventura. Parece que nem
Ventura nem os seus muitos eleitores são democratas. Porquê? Porque não, porque
todos os democratas, a começar pela candidata do Bloco de Esquerda e pelo
candidato do Partido Comunista, que saberão do que falam, dizem que não é, que
não pode ser, até para não estragar o enredo da fita.
Embora o método não varie muito, o facto de ser o PS de António José Seguro e de José Luís Carneiro a encabeçar este campo socialista, dito “campo democrático”, não deixa de evidenciar que a esquerda sobrevivente é agora a do centro, a colada ao Centrão. O PS que, com o PSD, constitui o eixo-ideológico e partidocrático da Terceira República, entra numa nova pele. Assim, pela moderação, fica nesta eleição mais próximo do seu parceiro alternativo de governação de meio século – o PSD – que, pela indefinição, também dele se aproxima.
De qualquer forma, passada a lua
de mel na casa do campo democrático da segunda volta, o actual
primeiro-ministro e líder do PSD vai ter de continuar a equilibrar-se num
perigoso modelo tripartido de poder (três forças que colaboram em duo pela
negativa, mas nunca pela positiva), ficando refém de dois inimigos, o PS, pela
esquerda, mais forte se tiver um amigo em Belém, e o Chega, pela direita, mais
forte por se ter encontrado, nesta eleição, a capitanear o campo da direita.
Por quanto tempo irá este PSD resistir num “centrismo” que os ventos da
História também parecem ameaçar? Poderá, sem grande cumplicidade em Belém,
jogar o jogo do centro hegemónico, do centro charneira, ora pactuando à
direita, com o Chega – como na lei da nacionalidade –, ora à esquerda, com o PS
– como na recusa em alterar alguns pontos ideológicos programáticos da
Constituição de 1976?
Mantendo essencialmente a
lealdade do eleitorado do Chega, Ventura ganhou, para já, um espaço
significativo na direita, marcando como seu um quarto do eleitorado nacional.
Aproveitando o eventual aumento de votação que a segunda volta lhe poderá
trazer, Ventura deverá definir e afirmar melhor os valores do nacionalismo
conservador e social que são a razão principal da sua popularidade (a que os
seus adversários chamam “populismo”, conceito que alguém definiu como “a
popularidade dos outros”). E esses valores não são muito diferentes da patria
et libertas romana e maquiavélica; ou, na versão mais contemporânea,
cristianizada e conservadora, Deus, Pátria e Família, a trilogia agora adoptada
em democracia por Meloni, por exemplo, e que o facto de já ter sido defendida
autoritariamente não invalida.
Ou será que os seguidores da
trilogia revolucionária de 89, Liberté, Égalité, Fraternité, à
sombra da qual se assassinaram, de Paris à Vendeia, dezenas de milhares de
franceses, ou os ainda admiradores do socialismo do Gulag têm alguma coisa a
dizer contra esta trilogia conservadora?
O problema da direita tolerada
pelo 25 de Abril foi precisamente deixar-se intimidar pela esquerda e pelos
seus rótulos e não defender em democracia nada do que tivesse sido defendido
pelo Estado Novo, independentemente da sua validade. André Ventura, com todos
os seus defeitos e virtudes, não tem esses medos ou tabus. É um político de
outros tempos, que nasceu e cresceu em democracia, que vive dela e não tem
qualquer interesse em acabar com ela.
Seja como for, pelos seus dois
principais protagonistas, não creio que esta campanha tenha muitas razões para
se radicalizar. Seguro, também porque a radicalidade não está no seu modo de
ser, poderá facilmente apresentar-se como “o único democrata”, o conciliador ou
o reconciliador, deixando para os outros a “fúria antifascista”; André Ventura,
porque já segurou o seu eleitorado, quererá capitalizar o facto de ser um
contra todos e captar a direita que não se queira diluir em Seguro com a
esquerda e a extrema-esquerda e capaz de resistir à pressão.
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