sábado, 23 de maio de 2009

Lenine, Estaline e a questão das nacionalidades


Stalin e Lenin em 1919


20 DE MAIO DE 2009 - 17h59

Lênin, Stalin e a questão das nacionalidades


por Augusto Buonicore*

Permitam-me iniciar esse artigo com uma longa citação de Stalin sobre a originalidade leninista no tratamento da questão das nacionalidades. O trecho foi retirado do artigo "Exposição do Problema Nacional", escrito em 1921. "Na época da 2ª Internacional, escreveu ele, a questão nacional se limitava a um reduzido número de problemas, que afetavam unicamente as "nações civilizadas" (...)


Dezenas e centenas de milhões de pessoas pertencentes aos povos asiáticos e africanos, que suportavam a opressão nacional na forma mais brutal e mais cruel, ficavam comumente fora do campo visual dos "socialistas". Não se atreviam a colocar no mesmo plano os brancos e os de pele escura, os negros "incultos" e os irlandeses "civilizados", os hindus "atrasados" e os polacos "ilustrados". Ainda que fosse necessário lutar pela emancipação das nacionalidades européias que não gozavam da plenitude dos seus direitos, não seria digno de um "socialista decente" (...) falar a sério da emancipação das colônias "indispensáveis" à "manutenção" da "civilização"."


A principal obra do marxismo-leninismo sobre a questão nacional foi, sem dúvida, o ensaio "O Marxismo e o Problema Nacional", redigido por Stalin entre 1912 e 1913. Sobre esse trabalho pioneiro, Lênin afirmou: "Encontra-se agora entre nós um magnífico georgiano, que escreveu um grande artigo (...), para cujo fim reuniu todos os materiais austríacos e outros". Meses mais tarde, ainda afirmaria: "na literatura doutrinária marxista, os fundamentos do programa nacional da social-democracia já foram analisados ultimamente (aqui se destaca, em primeiro lugar, o artigo de Stalin)". Essas duas citações comprovam que não tem sentido a afirmação de Michael Löwy de que o artigo teria sido "decepcionante aos olhos de Vladimir Ilitch".


Mas, afinal, o que diz o festejado artigo? Stalin começa, justamente, pela definição de nação. Ela não seria, como afirmavam alguns ideólogos de direita, uma comunidade de raças. As nações reais se comporiam de elementos de "tribos" e "raças" diferentes. "A atual nação italiana, afirmava ele, foi formada por etruscos, romanos, germânicos, gregos e árabes etc. A nação francesa foi constituída por gauleses, romanos, bretões, germânicos etc.". Ou seja, ao contrário do que muitos possam pensar, não somente o brasileiro é um povo etnicamente miscigenado. Esse é um fenômeno quase universal. Segundo a ciência moderna, confirmando o marxismo, não existem povos puros nem mesmo raças.

Para Stalin nação seria, antes de tudo, "uma comunidade estável, historicamente formada, de idioma, de território, de vida econômica e de psicologia manifestada na comunidade de cultura" e, conclui peremptório, "nenhum desses traços distintos, tomado isoladamente, é suficiente para definir a nação (...) basta que falte um só desses elementos para que a nação deixe de existir." Esclarece, no entanto, que esses elementos se articulam de maneira diferente na construção de cada nação particular.


Dentro dos critérios apresentados, os judeus europeus no início do século 20 não formariam propriamente uma nação. Eles, na sua grande maioria, já estavam integrados às nações na qual habitavam e com as quais compartilhavam o território, a língua, a vida econômica e até mesmo certa psicologia comuns. Um operário judeu francês pertenceria à nação francesa, a mesma coisa o operário judeu britânico. Possivelmente assim pensava a grande maioria dos judeus europeus antes do avanço da ideologia sionista.


Naquele momento Stalin e os bolcheviques polemizavam contra uma corrente socialista denominada autro-marxista. Um dos seus principais expoentes, Oto Bauer, havia escrito um livro muito influente: "A questão nacional e a social-democracia" (1909). A mais importante obra socialista produzida sobre o tema até então.


Para Bauer a nação seria "um conjunto de homens unidos numa comunidade de caráter à base de uma comunidade de destinos". Essa definição fluída – com uma forte tônica no elemento cultural – leva-o, por exemplo, a definir os judeus espalhados por todo o mundo como povo-nação, pois estariam unificados numa mesma comunidade de destino. Sobre esse ponto específico, contestou Stalin: "que vínculos nacionais podem mediar, por exemplo, entre judeus georgianos, daguestanos, russos e norte-americanos, completamente desligados uns dos outros, que vivem em diferentes territórios e falam distintos idiomas?" e concluiu: "ao identificar a nação com o caráter nacional, separa a nação do terreno que está assentada e a converte numa espécie de força invisível, que se basta a si mesma". Em outras palavras, Bauer escorregaria para posições fortemente idealistas.


Diga-se a favor de Bauer que, em algumas passagens de seu livro, chegou a reconhecer que o capitalismo estava incorporando os judeus às nações já existentes e que o fato de não terem um território e um língua próprios havia contribuído para esse processo de "desnacionalização". Assim, acabou, sem se dar conta disso, aderindo às teses leninistas sobre a questão judaica. Um parêntesis: estranhamente, seria o próprio Stalin uma das principais personalidades a contribuir para a constituição de um Estado judeu na Palestina em 1948, renegando frontalmente o que dizia em 1913.


Para os marxista-leninistas o Estado e a nação são fenômenos sociais distintos. Existiram – e existem - inúmeras nações sem Estado e muitos Estados que abarcam no seu interior várias nações. A indevida inclusão do Estado na definição de nação pode justificar a exclusão dos povos de países dependentes e colonizados e mesmo das minorias nacionais oprimidas. Por fim, os marxista-leninistas definem nacionalidade como um atributo da (condição de pertencer a uma) nação. Ela não é um formalismo jurídico-político.

Nação e movimento nacional

Para Stalin a nação seria uma categoria histórica da época da ascensão das sociedades burguesas modernas na Europa. No caso europeu ocidental, esse processo se deu concomitantemente com a formação dos Estados nacionais. Esse fenômeno se observou em Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Itália e Alemanha. É claro que houve exceções importantes como a Irlanda, nação submetida ao Estado Inglês, e a Polônia, nação submetida ao Estado Czarista.


O que foi uma exceção na Europa ocidental tornou-se quase uma regra no restante do mundo. A tendência na Europa oriental, por exemplo, foi a formação de Estados multinacionais como os Impérios Russo, Austro-Húngaro e Otomano. Isso foi fruto da inexistência de uma revolução burguesa e dos entraves apresentados ao desenvolvimento pleno do capitalismo. As nações submetidas, incorporadas nesses estados multinacionais, chegaram tarde demais para o grande banquete capitalista e colonial.


Assim, escreveu Stalin, "enquanto no Ocidente da Europa nascem Estados puramente nacionais, sem opressão nacional, no Oriente nascem Estados multinacionais com uma nação desenvolvida, à frente, encontrando-se as demais nações, menos desenvolvidas, em submissão política e mais tarde também econômica em relação à nação dominante". Na época imperialista, mesmo o primeiro grupo de países – capitalistas europeus desenvolvidos – "transpõe os limites do Estado Nacional e estende o seu território a expensas dos vizinhos, próximos e distantes", transformando-se em Estados multinacionais e coloniais.


O fato dos irlandeses, bascos, húngaros, tchecos, polacos, croatas, letões, lituanos, ucranianos, georgianos, armênios, curdos, albaneses etc. não terem conseguido se constituir enquanto Estados nacionais não fazem deles nações sem direitos históricos. Para o leninismo todos teriam o direito de lutar pela autonomia nacional. Os povos das nações subjugadas tiveram consciência disso e responderam aos opressores com poderosos movimentos nacionais libertadores no século 20.


A direção da luta nacional nesta primeira etapa – se referindo à Europa oriental e à Ásia pré-capitalistas – caberia a burguesia ascendente, que poderia arrastar o jovem proletariado e os camponeses. A constatação de que a revolução nacional deveria ser, na sua essência, burguesa não deveria conduzir à falsa conclusão "que o proletariado não devia lutar contra a política de opressão das nacionalidades. A restrição da liberdade de movimentos, a privação dos direitos eleitorais, a perseguição ao idioma, a redução das escolas e outras medidas repressivas afetariam os operários em grau não menor, ou maior talvez, que à burguesia."


Ao defender a importância da luta pela independência nacional para o proletariado, ele também alertou para um problema importante. Contraditoriamente, essa política nacionalista podia "desviar a atenção de extensas camadas da população dos problemas sociais, dos problemas da luta de classes (...) para os problemas "comuns" ao proletariado e à burguesia. E isso criaria um terreno favorável às prédicas mentirosas sobre a "harmonia de interesses", ao mesmo tempo serviria para esconder os interesses de classe do proletariado, para escravizar moralmente os operários". E concluiu: "Por isso, precisamente, não podia o proletariado consciente colocar-se sob a bandeira "nacional" da burguesia".


Em outras palavras, a luta nacional não devia servir de véu para mascarar inconciliável luta de classes que existe entre a burguesia e o proletariado. Quando isso acontece, o nacionalismo – de instrumento importante de luta antiimperialista – se torna um elemento de submissão ideológica do proletariado à burguesia. Essas, portanto, são as duas faces do movimento nacionalista.


Como vimos, e isso é central, a consequência lógica (e política) da definição leninista de nação é a defesa intransigente do direito das nações – de todas as nações, pequenas ou grandes - à autodeterminação. Autodeterminação não apenas como a compreendiam os autro-marxistas, sinônimo de autodeterminação cultural. Escreveu Lênin: "por autodeterminação das nações entendemos a sua separação estatal das coletividades nacionais estrangeiras, a formação de um Estado Nacional independente (...) seria errado entender por direito à autodeterminação tudo que não seja o direito à existência estatal separada". Por isso, o leninismo era estruturalmente avesso a todo e qualquer tipo de chauvinismo nacional de fundo burguês e pequeno-burguês.


Embora a definição de nação stalinista esteja no fundamental correta, ela contêm várias lacunas – algumas preenchidas posteriormente e outras não. A primeira delas é a afirmação categórica que a nação se define pela existência, ao mesmo tempo, dos elementos território, unidade econômica, língua, cultura comuns. Sabemos, por exemplo, que quando houve a unificação da nação italiana havia na península várias línguas. Isso aconteceu em muitos outros países. Ou seja, Estado Nacional nasceu antes da unificação lingüística. A língua nacional não foi um elemento a priori e sim uma construção posterior para dar maior consistência a nação e ao Estado.


Não foi sem razão - mas com certo exagero – que, após a unificação italiana, uma dos participantes daquele movimento afirmou: "Nós fizemos a Itália, agora temos que fazer os italianos". Essa frase adaptada poderia servir para uma grande parte dos países, no sentido que o povo-nação plenamente constituído foi fruto da revolução política burguesa e da homogeneização construída pela ação dos Estados nacionais modernos. Mesmo na França e Alemanha do final do século 18 apenas uma parte de população falava uma única e mesma língua – a língua nacional adotada era apenas uma das possibilidades históricas.


Outra imprecisão é a encarar a construção da nação apenas como uma conseqüência lógica do desenvolvimento do capitalismo e que só a burguesia poderia ser vanguarda desse processo. Isso tem sentido se pensarmos no "tempo histórico" que o mundo começava a viver – o da ascensão e expansão do capitalismo. Mas, quando pensamos nos casos concretos as coisas são bem diferentes. Sabemos que muitos países iniciaram seu movimento nacional contra a opressão colonial nos marcos de sociedades pré-capitalistas e tiveram na sua direção elementos ainda feudais. Depois da revolução socialista de outubro de 1917, uma parte das revoluções nacional-libertadoras foi dirigida por correntes comunistas, representando os operários e camponeses pobres.


A maior crítica que atualmente se faz do conceito stalinista de nação é quanto ao seu esquematismo e objetivismo. Destaca-se nessa crítica Benedict Anderson, que resgata Bauer ao definir as nações modernas enquanto comunidades imaginárias e o historiador Eric Hobsbawn que as entende como criações culturais e classistas. Contudo, foge aos objetivos desse breve artigo tratar das contribuições originais desses autores marxistas contemporâneos.


Michael Löwy afirmou que "uma nação não pode ser definida tendo apenas como base critérios abstratos, externos e "objetivos". A dimensão subjetiva, ou seja, a consciência de uma identidade nacional, a vitalidade da cultura nacional, e existência de um político nacional, também são importantes". Isso é correto, contudo a nação também não pode ser conseqüência da auto-definição de uma comunidade dada. Por outro lado, esses aspectos subjetivos (elementos psicológicos e culturais) também estavam presentes na definição de Stalin.

A formação da URSS

Logo após a revolução russa de fevereiro de 1917, os bolcheviques, conseqüentes com seu programa, afirmaram que "era preciso outorgar aos povos oprimidos, que faziam parte da Rússia, o direito de decidirem eles mesmos a questão de se desejam continuar dentro do Estado russo ou se querem sair dele e constituir-se em Estados independentes". Na questão do direito dos povos-nações à autodeterminação, os revolucionários russos operaram uma verdadeira revolução teórica e política no movimento socialista.


Lênin foi duramente criticado pelos direitistas chauvinistas e por setores esquerdistas ditos internacionalistas de estar procurando, de um lado, dividir a nação e, de outro, dividir os trabalhadores em interesses nacionais mesquinhos. Retrucou irônico o líder bolchevique: "Acusar os partidários da liberdade de autodeterminação, isto é, da liberdade de separação, de estimular o separatismo é tão absurdo e hipócrita como acusar os partidários da liberdade do divórcio de estimular a destruição dos laços familiares". Continuou ele: "Posso reconhecer a uma nação o direito da separação, mas isso não significa que a obrigue a separar-se. O povo tem o direito a separar-se, mas pode, segundo seja a situação, não usar desse direito".


Ele se voltou, principalmente, contra o chauvinismo, ideologia tipicamente burguesa e que influenciava elementos de seu próprio partido: "O real significado de classe da hostilidade liberal em relação aos princípios da autodeterminação política das nações é um só: o nacional-liberalismo, a salvaguardar os privilégios estatais da burguesia grã-russa". Os bolcheviques deveriam evitar ceder "aos preconceitos nacionalistas" dos que reconheciam a sua nação como "exemplar", a única com o privilégio histórico de se edificar enquanto Estado nacional. Nisso residia o chauvinismo de todas as nações opressoras, pequenas ou grandes.


Sabemos que mesmo nações dominadas pelo imperialismo podem exercer opressão sobre as minorias nacionais que vivem sob o seu próprio território. Recusam para elas o que reivindicam para si. Caso típico é a opressão imposta às nações indígenas na América Latina.


Contudo, a situação não seria tão fácil de ser resolvida no vasto império russo que se desfazia aos golpes de uma profunda revolução popular e socialista. O direito à separação deveria ser respeitado, mas a unidade das jovens repúblicas soviéticas que se formavam a partir da dissolução do império russo se tornava uma necessidade para própria sobrevivência delas. A destruição da República dos Conselhos da Hungria (1919) representou um alerta para todos. Divididas numa miríade de pequenos estados socialistas elas ficavam fragilizadas diante da pressão política, econômica, ideológica e, principalmente, militar do imperialismo unificado.


Escreveu Stalin, em 1921, nos estertores da guerra civil e da ocupação estrangeira que quase pôs fim à experiência soviética: "A existência isolada das diferentes Repúblicas Soviéticas é instável e insegura, porque sua existência se encontra ameaçada pelos Estados capitalistas. Os interesses comuns da defesa das Repúblicas Soviéticas (...) impõe a necessidade da união estatal das diferentes Repúblicas Soviéticas como única via de salvação diante da escravidão imperialista e da opressão nacional".


Como resposta a essa situação nova, em dezembro de 1922, foi constituída a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Ela inicialmente incluiu quatro repúblicas: a federação Russa, a federação trans-caucasiana e as repúblicas socialistas da Ucrânia e Bielo-Rússia. A elas iriam se agregar várias outras repúblicas ao longo das décadas que se seguiram. Essa foi uma grande obra de engenharia estatal e social que, com altos e baixos, sobreviveu por cerca de setenta anos.


Lênin, no final da vida, definiria alguns aspectos da política das nacionalidades de Stalin, especialmente no tratamento aos georgianos, como chauvinista grão-russo. Para ele era preciso distinguir claramente o nacionalismo das nações opressoras (a Rússia) e o nacionalismo das nações oprimidas (a Geórgia). Fato que, às vezes, Stalin parecia não compreender. O chauvinismo grão-russo, por razões militares, reapareceu com força durante a 2ª Guerra Mundial. A dissolução da URSS no início da década de 1990 deve nos levar a refletir seriamente sobre as virtudes e vicissitudes daquela experiência histórica.

Ver também os artigos:

O marxismo e a questão colonial e racial (1ª parte):

O marxismo e a questão colonial e racial (2ª parte):

Bibliografia:

Balakrishnan, Gopa – Um mapa da questão nacional, Ed. Contraponto, RJ, 1996

Cherstobitov, V. – URSS: Solução da questão nacional, Ed. Progresso, Moscou, 1987

Hobsbawn, Eric J. – Nações e nacionalismo desde 1780, Ed. Paz e Terra, RJ, 2002

Lênin, V.I. – Sobre o direito das nações à autodeterminação, Ed. Avante!, Lisboa, 1978

Löwy, Michael – Nacionalismo e internacionalismo, Ed. Xamã, S.P., 2000

Marx, K. - El colonialismo, Grijaldo, México, DF, 1970.

Pinsky, Jaime (org.) - Questão nacional e marxismo, Brasiliense, SP, 1980.

Stalin, J. – O marxismo e o problema nacional e colonial, Ed. Ciências Humanas, S.P., 1979.




*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.

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in Vermelho
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Mário Benedetti - poemas ...

... no Galeria & Photomaton

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clique na linha seguinte:

Frases de Mário Quintana

From Paula Moranguinho Pereira (hi5)

FRASES

"O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você." [Mário Quintana]

"A amizade é um amor que nunca morre." [Mário Quintana]

"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente, e não a gente a ele." [Mário Quintana]

"Slogam para o ministério da saúde: o fumante é um retardado que ainda não conseguiu deixar de mamar." [Mário Quintana]

"Se não fosse Van Gogh, o que seria do amarelo?" [Mário Quintana]

"Nunca me dê o Céu... Quero é sonhar com ele na inquietação feliz do Purgatório." [Mário Quintana]

"Hoje é outro dia." [Mário Quintana]

"Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não." [Mário Quintana]

"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho." [Mário Quintana]

"Amar é mudar a alma de casa." [Mário Quintana]

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer." [Mário Quintana]

"O grande consolo das velhas anedotas são os recém-nascidos." [Mário Quintana]

"Tudo o que acontece é natural - inclusive o sobrenatural." [Mário Quintana]

"O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente." [Mário Quintana]

"O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores." [Mário Quintana]

"Nunca desprezes os teus amigos, porque se um dia eles te esquecerem, só teus inimigos se lembrarão de ti." [Mário Quintana]

"Os verdadeiros analfabetos são aqueles que aprenderam a ler e não lêem. " [Mário Quintana]

"Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros." [Mário Quintana]

"Para sempre é muito tempo. O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo." [Mário Quintana]

"O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente." [Mário Quintana]

"Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores." [Mário Quintana]

"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." [Mário Quintana]

"O fantasma é um exibicionista póstumo." [Mário Quintana]

"O despertador é um acidente de tráfego de sono." [Mário Quintana]

"Datilografia: escrita por batuque." [Mário Quintana]

"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro." [Mário Quintana]

MÁRIO QUINTANA
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Lua adversa - Cecília Meireles

Assunto: TRILHA DA SOLIDÃO....
Data: 21/Mai 15:04

A SOLIDÃO TEM SIDO A MINHA TATUAGEM. COLA-SE NA PELE E TORNA-A TRANSPARENTE. POUCO A POUCO SINTO-A VIAJANDO POR MEU CORPO. OLHO-ME AO ESPELHO E SÓ RESTAM PARTES DE MIM....POUCO ME IMPORTA.... SE TEM DE SER ASSIM!.....AGORA LHE PEÇO, EU QUE ESTOU EM SUAS MÃOS.....POUPA-ME OS OLHOS PARA QUE EU POSSA VER O DIA....DEIXA DE LADO O CORAÇÃO, QUE É O MOTOR DA MINHA VIDA...EM ANEXO UM BEIJO!


Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)


LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolias
eu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

CECÍLIA MEIRELES

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sôbolos rios que vão - Luís de Camões


Sobre os rios que vão
por Babilónia m’ achei
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.


Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.


E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.


Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi o bem suceder mal,
e o mal muito pior.
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.


Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo,
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou,


assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.


Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir.
Jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que, por vos ouvir, deixavam.


Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.


Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquedade
aqueles gostos passados.


Um gosto que hoje se alcança
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte
que quanto da vida passa
está receitando a morte!


Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade…
Não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.


Mas, em tristezas e enojos
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente á los ojos
por quien muero tan contento».
Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava;
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.


Mas lembranças da afeição,
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
qu’eu cantava em Sião.
Que foi daquele cantar
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado?


Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por antre o espesso arvoredo;
e de noite o temeroso,
cantando, refreia o medo.
Canta o preso docemente
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.


Eu, que estas cousas senti
n’ alma, de mágoas tão cheia,
«Como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?»
Como poderá cantar
quem en choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.


Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.
Que, quando a muita graveza
de saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.


Que, se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo e passei já,
nem menos o escreverei;
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.


Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porém se, para assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.


Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento,
d’ alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.
A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.


E se eu cantar quiser
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.
A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.


Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina
que voa da própria casa,
e sobe à pátria divina.


Não é logo a saudade
das terras onde naceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pôde alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da fermosura
que só se deve de amar.


Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do sol, mas da candeia,
é sombra daquela Ideia
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos efeitos
que os corações têm sujeitos:
sofistas, que me ensinaram
maus caminhos por direitos.


Destes o mando tirano
me obriga, com desatino,
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?


Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que tomei por vício
me fez grau para a virtude.
E faz este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra real,
da particular beleza
para a Beleza geral.


Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti!
Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal;
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.


E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.
E tomando já na mão
a lira santa e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão da paz.


Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.
A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.


No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles, que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão;
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.


E aquele poder tão duro
dos efeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvídrio que tenho;
estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;


derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.


E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia!
Beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;


quem com disciplina crua
se fere mais que üa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne na alma fez;
e beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;


quem com eles logo der
na pedra do furor santo
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;
quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;


quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível,
ali achará alegria
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que nem, por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia.


Ali verá tão profundo
mistério na suma alteza
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
minha pátria singular!
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?


Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, despois de a ti subir,
lá descanse eternamente.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sou o Espírito da treva - Fernando Pessoa

From Gioconda Porto (hi5)

SOU O ESPÍRITO DA TREVA - FERNANDO PESSOA

Sou o Espírito da treva,
A Noite me traz e leva;

Moro à beira irreal da Vida,
Sua onda indefinida

Refresca-me a alma de espuma...
Pra além do mar há a bruma...

E pra aquém? há Cousa ou Fim?
Nunca olhei para trás de mim...

Fernando Pessoa

http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/394353.html


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A tristeza - Pablo Neruda

From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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A TRISTEZA

Quando abri meus olhos para este mundo
e recebi sua luz, o movimento,
a comida, o amor, e toda palavra,
quem me diria que em todos os lugares
quebra o homem os acordos com a luz
constrói e continua com castigos.
A minha América à pedra do pesar
aprisionou turvamente os seus filhos
e sem cessar atormentou sua estirpe.

PABLO NERUDA
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terça-feira, 19 de maio de 2009

O futuro é espaço - Pablo Neruda

Assunto: VIDA ANCORADA NA ÁGUA PARADA...
Data: 19/Mai 18:30

SINTO-ME ANCORADA NO PRESENTE....NÃO FOI POR MINHA VONTADE! O BARCO BATEU NO FUNDO E ESTAS ÁGUAS NÃO TÊM MARÉS....PERMANEÇO SENTADA, OLHANDO A VIDA A PASSAR.... O PASSADO FICOU DISTANTE POIS SABE QUE AGORA NÃO O QUERO VER.... O PRESENTE PAIRA NA MINHA FRENTE, MUDANDO DE CÔR E DE FORMA A CADA MOMENTO....NÃO ME ADMIRO POIS APENAS ESTÁ A MOSTRAR-SE O QUE É....QUANTO AO FUTURO.....TALVEZ SEJA AQULE NEVOEIRO ALI AO FUNDO. VAI-SE BALANÇANDO COMO SE NÃO SOUBESSE PARA ONDE SE DIRIGIR....TAMBÉM ESTOU SEM CURIOSIDADE DE CONHECER O SEU RUMO. EU APENAS ESTOU AQUI, ANCORADA NO PRESENTE, SEI QUE POR ALGUM TEMPO, NÃO SEI QUANTO....ATÉ A ALMA ME ENSINAR COMO TIRAR O BARCO DESTE PONTO....NÃO FAZ MAL....JÁ NÃO ME INTERESSA....EM ANEXO, UM BEIJO!

Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)

O FUTURO É ESPAÇO

O futuro é espaço,
espaço da cor da terra,
da cor da nuvem,
da cor da água, do ar,
espaço negro para muitos sonhos,
espaço branco para toda a neve,
e para toda a música.

Atrás ficou o amor desesperado
que não tinha lugar para o beijo,
tem lugar para todos no bosque,
em plena rua, em casa,
tem sítio subterrâneo e submarino,
que prazer é achar, por fim,
subindo
um planeta vazio,
grandes estrelas claras como a vodca
tão transparentes e desabitadas,
chegar com o primeiro telefone
para que falem mais tarde outros homens
de suas enfermidades.

O importante é apenas perceber-se,
gritar desde uma dura cordilheira
e ver numa outra ponta
os pés de uma mulher recém-chegada.

Adiante, vamos sair
do rio sufocante
em que com outros peixes navegamos
desde a manhã à noite migratória
e agora neste espaço descoberto
vamos voar para a pura solidão.

PABLO NERUDA

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Vaidade - Florbela Espanca

Assunto: LEVES MISTÉRIOS...SOFRIDAS DORES
Data: 18/Mai 13:56
MENSAGENS QUE A VIDA ME VAI DANDO....LEVES MISTÉRIOS....ALGUMAS DORES....DESSAS QUE JÁ EU ESPERO, JÁ CONHEÇO, SEI QUE SERÃO MINHAS COMPANHEIRAS POR TEMPOS QUE NÃO ADVINHO.....MAS NÃO SERÃO BREVES....OS MISTÉRIOS, SÓ NOS SONHOS OS ENTENDO....MAS NASCENDO O SOL TUDO O QUE ME FOI ENSINADO DESAPARECE..... ASSIM A VIDA PERMANECE IGUAL....E A MINHA PROCURA CONTINUA....DEVAGAR, POIS NÃO CONSIGO AGORA CORRER...NEM SEI SE QUERO O QUE IRIA ENCONTRAR... EM ANEXO, UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...

FLORBELA ESPANCA 

segunda-feira, 18 de maio de 2009

NEM ÁGUAS E NEM MARÇO

From Paula Moranguinho Pereira


NEM ÁGUAS E NEM MARÇO

é cal
é cedro
o fim do princípio
do resto do ninho
calvário de dor

é o nada é o tudo
assim tão sozinhos
é o vale
é o toco
que sobram
do amor

é a casa vazia
é a palma
é o pé
é dezembro a chegar
dias de santa fé

é a minha tristeza
que brota
e caminha
se espalha
encantada

qual erva daninha
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domingo, 17 de maio de 2009

As palavras - Eugénio de Andrade

Assunto: PALAVRA - FLÔR...
Data: 17/Mai 17:41

QUANTAS PALAVRAS CALADAS SÃO COMO NOITE SUBITAMENTE CAÍDA PARA QUEM ESPERA A ALVORADA? PORQUE AS PALAVRAS FLORESCEM SEMPRE SOBRE O CORAÇÃO QUE NÃO ESPERA AS OUVIR E QUE DE DESERTO PASSA A CASCATA MURMURANTE E LÍMPIDA? DECIDAMOS GUARDAR AS PALAVRAS-PUNHAIS NO BAÚ DO ESQUECIMENTO. ELAS, NA VERDADE 'NASCERAM' PARA NÃO SEREM ARREMESSADAS, MAS PARA QUE SEJAMOS PESSOAS MELHORES AO CONHECÊ-LAS, SABENDO E SENTINDO ESCOLHER, POIS ELAS NÃO PRODUZEM NEM A ALEGRIA, NEM O CONHECIMENTO, NEM O AMOR....EM ANEXO UM BEIJO!

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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)


AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

EUGÉNIO DE ANDRADE

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Construção - Chico Buarque

Construção

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

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sábado, 16 de maio de 2009

A Falta que ama - Carlos Drummond de Andrade

Assunto: O LADO ESCURO DA VIDA
Data: 14/Mai 12:33

A AUSÊNCIA DE UM BEM QUERER ME DÓI...MURCHA-ME O CORAÇÃO EM SILÊNCIO E SÓ O MEDO TEM VOZ. AGACHEI-ME A UM CANTO DA VIDA E SÓ ESPERO O QUE NÃO VEM....SINTO A ALMA MORDIDA POR PASSADOS QUE CONSEGUIRAM ENTRAR P'LA PORTA QUE JULGAVA FECHADA...FUTURO, P'RA ONDE FOSTE? PRECISO DA TUA MÃO....SEM TI FICAREI IRREMEDIAVELMENTE PERDIDA E NEM IMPORTÂNCIA ISSO TEM...EM ANEXO UM BEIJO!

Distrbuído por Moranguinho Pereira (hi5)

A FALTA QUE AMA

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

quinta-feira, 14 de maio de 2009

No meio das palavras - Graça Pires

From Gioconda Porto (HI5)


No meio das palavras


Quando, nos lábios, começa um continente,

suspenso no apelo líquido dos beijos,

há um barco que cresce nos meus olhos

e, entre búzios verdes, escrevo água.



Nunca a brisa se demora entre as dunas,

onde os barcos navegam sobre a espuma.



Tudo é secreto, se maio se repete

nas marcas da pureza recusada.



Um rosto ou um rio me fascinam,

quando a raiva e o sossego

me revelam a nascente

e, no meio das palavras,

procuro apenas um gesto

ou uma sombra.


GRAÇA PIRES


http://boticelli.no.sapo.pt/graca_pires.htm
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terça-feira, 12 de maio de 2009

Prece de Criança - Ivone Boechat

From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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PRECE DA CRIANÇA

Senhor,
estou muito assustado,
estão nos fazendo medo,
fico até cansado de pensar
um jeito de proibir os adultos
de matar os passarinhos,
de acabar com os rios,
de poluir os mares.
Tudo que o Senhor fez é tão bonito,
até me irrito,
quando vejo guerras dominando alguns lugares.
Quero sonhar
com uma escola feliz,
com professores sorrindo,
e uma nota que dê para passar...
É isto que sempre quis...
Ah! Quero minha família unida,
segurança para brincar na praça,
a imensa graça, de dormir,
sabendo que se há alguém na rua
vai poder voltar.
Amém.

IVONE BOECHAT
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Certeza - Sabino Pereira

Assunto: SORRISO TRISTE
Data: 12/Mai 10:45

NÃO TENHO CERTEZAS....CADA VEZ QUE UMA SE ESBOÇA, A VIDA, COM UM SORRISO DIABÓLICO, ENCARREGA-SE DE MA TIRAR....PARA NÃO PERDER DE VEZ O PODER DE ACREDITAR, PENSO NA CERTEZA DAS ONDAS DO MAR....DEPOIS DE UMA, VEM LOGO OUTRA A CHEGAR.MAS DESDE QUANDO A VIDA É O MAR?...MOSTRA-TE, MEU SORRISO TRISTE....DO MEU MUNDO ALGUÉM ME TIROU, E AGORA NÃO O SEI ENCONTRAR... EM ANEXO UM BEIJO!

Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)

CERTEZA

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...

FERNANDO SABINO

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MAR E AMOR - António Carlos de Brito


Assunto: TROCANDO AS VOLTAS...
Data: 11/Mai 10:59

SE UM DIA ME OUVIRES CANTAR, NÃO PENSES QUE ESTOU CONTENTE...É PARA A MINHA DÔR CALAR, PARA A PÔR SEM SABER SE O MURRO QUE DESFERIU ATINGIU MEU CORAÇÃO.... A CANÇÃO É A VINGANÇA....PARA QUE A DÔR FIQUE TÃO SEM NORTE QUANTO EU....EM ANEXO UM BEIJO!

Distribuído por Moranginho Pereira (hi5)


MAR E AMOR

Amor Amor
Quando o mar
Quando o mar tem mais segredo
Não é quando ele se agita
Não é quando é tempestade
Nem é quando é ventania
Quando o amor tem mais segredo
É quando é calmaria
Quando o amor
Quando o amor tem mais perigo
Não é quando ele se arrisca
Não é quando ele se ausenta
Nem quando eu me desespero
Quando o amor tem mais perigo
É quando ele é mais sincero.

ANTÔNIO CARLOS DE BRITO

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Sermão da Montanha - Wikipedia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O Sermão da Montanha é um longo discurso de Jesus Cristo que pode ser lido no Evangelho de São Mateus, mais precisamente nos capítulos 5 a 7. Muito provavelmente, resulta da reunião de intervenções ocorridas em momentos distintos. Nestes discursos, Jesus Cristo profere lições de conduta e moral, ditando os princípios que normam e orientam a verdadeira vida cristã, uma vida que conduz a humanidade ao Reino de Deus e que põe em prática a vontade de Deus, que leva à verdadeira libertação do homem. Estes discursos podem ser considerados por isso como um resumo dos ensinamentos de Jesus a respeito do Reino de Deus, do acesso ao Reino e da transformação que esse Reino produz.


Além de importantes princípios ético-morais, pode-se notar grandes revelações, pois aquilo que muitas vezes é tido por ruim, por desagradável, diante de Deus é o que realmente vai levar muitos à verdadeira felicidade. Esta passagem forma um paradoxo, contrariando a idéia de muitos e mais uma vez mostrando que "...'Deus não vê como o homem vê, o homem vê a aparência, mas Deus sonda o coração" (I Samuel 16.7).


No Sermão da Montanha, o evangelista São Mateus está a apresentar Jesus Cristo como o novo Moisés, daí o discurso ser proferido numa montanha (certamente, apenas uma colina), porque Moisés tinha recebido os 10 Mandamentos na montanha do Sinai. Mas, Jesus não veio para abolir a Lei ou os Profetas [1], mas sim levá-los à perfeição na sua íntegra (Mt 5, 17).

Índice


Partes e ensinamentos importantes do Sermão


Introdução narrativa


Na introdução narrativa, o evangelista descreve que Jesus, vendo aquelas multidões, subiu à montanha e sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele, e é aí que Ele começou a pregar o seu famoso sermão ao ar livre (Mt 5, 1-2).


As Bem-aventuranças



As Bem-aventuranças [2] são o anúncio da verdadeira felicidade, porque proclamam a verdadeira e plena libertação, e não o conformismo ou a alienação. Elas anunciam a vinda do Reino de Deus através da palavra e acção de Jesus, que tornam a justiça divina presente no mundo. A verdadeira justiça para aqueles que são inúteis, pobres ou incômodos para uma estrutura de sociedade baseada na riqueza que explora e no poder que oprime. As Bem-aventuranças revela também o carácter das pessoas que pertencem ao Reino de Deus, exortando as pessoas a seguir este carácter exemplar.


Resumindo e usando as palavras do Catecismo da Igreja Católica (CIC), as bem-aventuranças nos ensinam o fim último ao qual Deus nos chama: o Reino de Deus, a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, a filiação divina, o repouso em Deus (CIC, n. 1726).


Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
(Mateus, 5:3-12)


Sal da terra, luz do mundo



Jesus, através das metáforas de Sal e de Luz, revela a enorme força do testemunho e a importante função dos discípulos, especialmente dos pregadores, que é sobretudo preservar e proteger a humanidade contra as influências malignas da corrupção e da maldade (a função do Sal) e dar a humanidade a conhecer, através da sua e seu bom exemplo iluminadores, o caminho da salvação (a função da Luz).


Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado [3] pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.
(Mateus, 5:13-16


Reinterpretação da Lei de Deus



Jesus revaloriza e reinterpreta, por vezes parecendo antitética (mas, na realidade não é), da Lei de Deus na sua íntegra, particularmente dos 10 Mandamentos, tendo por objectivo levá-los à perfeição (Mt 5, 17-48).


Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei [4] Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos Céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos Céus. Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.
(Mateus, 5:17-20)


Durante esta longa reinterpretação, Jesus exorta as pessoas a não ofender o seu próprio irmão e, se tal acontecer, buscarem uma reconciliação com ele (o ofendido) o mais cedo possível, deixando, se for necessário, a oferta diante do altar para ir primeiro fazer as pazes com o irmão e pedir o seu perdão pelas ofensas cometidas (Mt 5, 21-26).


Jesus amplia o conceito de adultério, afirmando que todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração, e opõe-se ao divórcio, ensinando que todo aquele que rejeita sua mulher, a faz tornar-se adúltera, a não ser que se trate de matrimônio falso [5]; e todo aquele que desposa [6] uma mulher rejeitada comete um adultério, defendendo e acentuando assim a indissolubilidade da união conjugal (Mt 5, 27-32).


Jesus também ensinou que os homens nunca deviam jurar de modo algum, muito menos jurar falso (Mt 3, 33-37).

O Sermão da Montanha (1890), pintura de Carl Heinrich Bloch.

Jesus apela também para não resistir ao mau, querendo isto dizer que, na medida dos possíveis, não devemos resistir fisicamente às agressões (se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra), mas também não devemos replicar no momento ou posteriormente em tribunal os golpes sofridos, revogando assim a famosa Lei do talião que defende a vingança e a retaliação. Ele exorta também para dar a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado (Mt 5, 38-42).


No fim desta reinterpretação da Lei de Deus feita por Jesus, Ele apela aos homens para, se eles quiserem ser os verdadeiros filhos de Deus, amar não só o seu próximo, mas também os seus inimigos, fazendo bem aos que vos odeiam e orando pelos que vos [maltratam e] perseguem, tal como Deus, que faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. No fim, Jesus exorta para todos os homens, com esta prática de amor incondicional e supremo (uma das ideias-chave do Cristianismo), serem perfeitos, tal como Deus Pai, que é também perfeito (Mt 5, 43-48).


Ostentação, Pai-Nosso e perdão



Jesus, a seguir à reinterpretação da Lei de Deus, começa a condenar a ostentação na prática de 3 obras fundamentais do Judaísmo, que são a esmola, o jejum e a oração. Ele não pretende condenar a observância fiel e honesta destas obras boas e o bom exemplo que estas acções produzem, mas somente o vão desejo de ostentar em frente de outras pessoas. Ele alerta para o facto de, se a finalidade das pessoas que praticam estas obras é ostentar, eles já foram recompensados na Terra por outros homens que as elogiaram.


Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.


(Mateus, 6:1)
Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.


(Mateus, 6:2-4)
Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.


(Mateus, 6:16-18)
Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á. Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras. Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.
(Mateus, 6:5-8)


Durante o seu discurso sobre a oração, Jesus deu aos homens uma célebre oração, o Pai-Nosso [7], para ensiná-los como rezar correctamente.


Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.


(Mateus, 6:9-13)

Jesus afirma também que se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6, 14-15).


Também sobre a oração, Ele exorta por fim aos seus discípulos que deviam sempre ter confiança na oração e particularmente em Deus, porque vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem durante a oração.


Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.
(Mateus, 7:7-11)


Materialismo e Providência divina



Jesus, condenando indirectamente o materialismo, exorta os seus discípulos para não preocupar demasiado com os seus bens e as suas necessidades materiais, mas sim, preocupar-se mais e em primeiro lugar em guardar tesouros no céu, para preparar o acesso ao Reino de Deus. Sobre a riqueza, Jesus alerta os seus discípulos para o facto de ser impossível servir ao mesmo tempo a Deus e à riqueza. E, relativamente às necessidades materiais dos homens e às suas preocupações quotidianas, Jesus apela para a confiança na Providência divina, afirmando que vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso [8] e que o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado (Mt 6, 19-34).


Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.


(Mateus, 6:19-21)
Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.


(Mateus, 6:24)
Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.
(Mateus, 6:31-34)


Julgar os outros



Neste sermão, Jesus condena também aqueles que julgam os outros, mas não sabem julgar-se a si próprio, não conseguindo reconhecer os seus próprios erros. E mais, ele alerta inclusivamente que nunca devíamos julgar os outros, para não sermos julgados, porque o único que tem capacidade e autoridade para julgar os homens é Deus.


Não julgueis, e não sereis julgados [9]. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos. Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão.
(Mateus, 7:1-5)

Regra de ouro



Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a Lei e os Profetas.
(Mateus, 7:12)


O verdadeiro discípulo e as suas dificuldades



Jesus alerta para as dificuldades que os seus discípulos, que pretendem ser os verdadeiros filhos de Deus, irão encontrar no caminho estreito e apertado que conduz à vida eterna e ao Reino de Deus (o chamado caminho da vida).


Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram.
(Mateus, 7:13-14)


Jesus também alerta os homens para o facto de só reconhecerem que Ele é o Senhor não é suficiente para eles serem salvos e reconhecidos como os seus verdadeiros discípulos, mas sim, necessitando também de fazer verdadeiramente a vontade de Deus.


Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!
(Mateus, 7:21-23)


Os falsos profetas



Jesus aconselhou os seus díscipulos a acautelarem dos falsos profetas, que, apesar de parecerem ovelhas, são na verdade uns lobos arrebatadores e maus que têm por finalidade desorientar as pessoas e levá-las à perdição.


Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos [10] os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis.
(Mateus, 7:15-20)


Edificar sobre a rocha



Jesus, concluindo o seu sermão, exorta por fim aos seus díscipulos para, depois de escutar as suas palavras e ensinamentos, pô-los verdadeiramente em prática, para serem semelhantes a um homem prudente que edificou sua casa sobre a rocha. A rocha é resistente a todas as tempestades, por isso, ela é uma excelente base ou fundamento para sustentar a casa, assemelhando-se à Palavra de Deus, que serve como fundamento e sustenta todas as pessoas que põe-na em prática, protegendo-as e ajudando-as a ultrapassar todos os obstáculos e dificuldades que elas poderão encontrar nas suas vidas.


Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína.
(Mateus, 7:24-27)

Fim narrativo



No fim narrativo, o evangelista São Mateus descreve que a multidão que foi ouvir o sermão ficou impressionada com a sua doutrina, porque Jesus a ensinava como quem tinha autoridade e não como os escribas (Mt 7, 28-29).


Interpretação segundo a Igreja Católica



A Igreja Católica divide os ensinamentos deste sermão (e também doutros discursos de Jesus) em duas categorias: os preceitos ou ensinamentos gerais, que todos devem seguir para obter a salvação e a definitiva libertação (ou seja, atingir a santidade), e os conselhos específicos ou conselhos evangélicos. A obediência a estes últimos conselhos é necessário só para aqueles que querem ser perfeitos, tal como Deus Pai, que é também perfeito (Mt 5, 48). Mas, mesmo que não seja obrigatório, Jesus encoraja e exorta os seus discípulos a serem perfeitos, e não só salvos.


Esta teoria foi iniciada por Santo Agostinho e desenvolvida na sua plenitude por São Tomás de Aquino, embora uma versão semelhante mas muito mais antiga foi já anunciada no famoso Didaquê, capítulo 6, versículo 2: Pois, se puderes portar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se não puderes, faze o que puderes para seres salvo (Did 6, 2).

Notas

  1. A Lei e os Profetas são os ensinamentos do Antigo Testamento e, em sentido mais lato, todos os ensinamentos de Deus.
  2. As Bem-aventuranças encontram-se também, em versão sensivelmente diferente, no Evangelho de São Lucas, que afirma que Jesus proclamou as Bem-Aventuranças na margem de um lago
  3. Calcado significa mais ou menos pisado.
  4. antes que desapareça um jota, um traço da lei: isto significa que Jesus respeitará a Lei de Deus na sua integridade, sem tirar nada.
  5. Ou união ilegal
  6. Ou casar com
  7. O Pai-Nosso encontra-se também, embora num contexto diferente, no Evangelho de São Lucas
  8. de tudo isso: dos bens materiais (ex: comida, vestuário, habitação, etc.)
  9. Ou ainda Não julgueis, para não serdes julgados.
  10. Os frutos são os comportamentos das pessoas.

Referências

Ligações externas