segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Antigo Egipto era uma falsificação - António Sousa Homem





Em certos aspectos

O Antigo Egipto era uma falsificação

“(...) o Egipto ser, largamente, habitado por egípcios e não por historiadores que gostam de ruínas e de cidades cobertas de pó e personagens de Agatha Christie”
  • 13 Fevereiro 2011
Por:António Sousa Homem


O mundo do meu avô estava delimitado por dois perigos iminentes: a filoxera e as encostas de La Fuente de San Esteban. A filoxera arruinou o ‘antigo regime’ do Douro; quanto a La Fuente de San Esteban e a La Fregeneda, era a sua fronteira com o desconhecido – a Espanha do seu tempo, que era muito mais do que a galega, vizinha de Valença, do rio Minho e dos choupos verdes de Cerveira. 
.
Hoje, os perigos iminentes aumentaram; o mundo ficou mais inseguro se bem que o desconhecido não comece em Espanha nem acabe nos Urais, onde principiaria o fim do mundo. O meu sobrinho Pedro acompanha os acontecimentos do Egipto como se fossem, em simultâneo, a filoxera e as encostas de La Fuente de San Esteban; só que ‘em simultâneo’ quer dizer, exactamente, ‘ao mesmo tempo’ em que os ‘acontecimentos’ decorrem, o que impede a repetição da forma como o velho Doutor Homem, meu pai, gostava de ministrar as suas lições de História dos Impérios a propósito da II Guerra, que seguíamos com vários dias de atraso pelos jornais da época e pelos noticiários da rádio, encostados a uma pilha de velhos atlas e tratados de geografia e, mesmo, com plantas topográficas de certas cidades importantes. Nesses papéis impressos em cores esbatidas, recolhidos das bibliotecas familiares onde tinham sido guardados com o esmero de tesouros do Vaticano, traçavam-se coordenadas de geoestratégia e movimentações de tropas em debandada. 
.
O meu sobrinho escutou estas informações com a curiosidade de um paleontólogo, murmurou qualquer coisa acerca de como o tempo passa e apressou-se a mudar de canal de televisão, procurando mais imagens transmitidas do Cairo. 
.
Voltando atrás sessenta anos, o Cairo era um oásis de recordações. Não vinham com o Cairo apenas o Alto Egipto, as ruínas do deserto e o fim do império otomano. Vinha também um esplendor que não era bem do Cairo mas dos ingleses que o habitaram. Sabíamos pouco desse mundo de aventura, mistério, exotismo, crocodilos e malária; as pirâmides estavam ali para que as admirássemos, os sarcófagos continham faraós ou sacerdotes que tratávamos como achados arqueológicos, o Nilo era um espelho cristalino das suas margens, e mesmo o Suez era uma recordação literária de Eça de Queirós. 
.
A única coisa que não topávamos era essa verdade simples – a de o Egipto ser, largamente, habitado por egípcios e não por historiadores que gostavam de ruínas e de cidades cobertas de pó e personagens de Agatha Christie. O nosso mundo era curto, civilizado e cabia num atlas. Não tinha grande correspondência com o mundo real... 
.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A felicidade à vista de Moledo - António Sousa Homem



 



Em certos aspectos

A felicidade à vista de Moledo

“Seja como for, a chuva de Moledo interrompeu-se por instantes. Não é uma chuva romântica, cai sobre os pinhais e lembra encontros fugazes com a felicidade”
  • 20 Fevereiro 2011
Por:António Sousa Homem


A chuva de Moledo, que é um empréstimo da vizinha Galiza, com os seus tons de cinza e verde, foi interrompida pela Dra. Celina, que veio devolver um exemplar de ‘Onde Está a Felicidade?', uma edição de 1885 que passou de estante em estante até aterrar nesta, diante da minha mesa, definitiva. Eu tinha-lho emprestado em troca de uns fac-símiles de António Pedro. O livrinho de Camilo é, no fundo, uma espécie de metáfora acerca dos males e dos bens do mundo, e a pergunta do título faz sentido. 
.
Com esta idade, deitando-me cedo, despertando ainda com o silêncio da madrugada, não me chega o tempo de pensar no assunto - a felicidade é uma matéria para noctívagos, se me faço entender: ou seres românticos que deambulam debaixo do "plúmbeo céu", ou poetas que herdaram o génio duvidoso daqueles versejadores do constitucionalismo que compunham sonetos nas secretarias das repartições e dos tribunais. 
.
Dona Ester, minha mãe, desconfiava do tema; ela acreditava no poder regenerador do Verão, do iodo administrado sem barreiras e dos romances de aventuras - e teve a sorte de não conhecer João de Lemos e o seu poema ‘A Lua de Londres' onde vêm esses versos fatais: "É noite. O astro saudoso/ rompe a custo um plúmbeo céu,/ tolda-lhe o rosto formoso/ alvacento, húmido véu, etc." O velho Doutor Homem, meu pai, glosava as décimas do poema com trejeitos de sátiro, imitando o Eusebiozinho de ‘Os Maias', vestido de veludo e transpirando de febre. 
.
Havia uma razão para João de Lemos ser conhecido paredes dentro - tinha nascido na Régua e o meu avô, como administrador de quintas do Douro, coleccionava excentricidades; por isso guardava um exemplar amarelecido de ‘Serões da Aldeia', um dos mais funestos livros de prosa do século XIX (de poesia, o meu avô apenas manteve contactos com Guerra Junqueiro por motivos agrícolas - ou para contemplar os bucólicos laranjais de Barca d'Alva). Bulhão Pato diz que ‘A Lua de Londres' foi composto por causa das saudades que o vate da Regeneração, estando na capital inglesa, sentiu "do choupal sussurrante e estrelado de pirilampos". 
.
Seja como for, a chuva de Moledo interrompeu-se por instantes. Não é uma chuva romântica; cai sobre os pinhais e lembra encontros fugazes com a felicidade, despedidas sem sentido, ruínas de muros atrás das dunas, passeios que enfrentam as intempéries. Dona Elaine, a governanta deste eremitério, recomendou que aproveitasse a interrupção no temporal para fazer a minha pequena caminhada. Ela sabe que a felicidade são pequenas coisas. 
.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Biblioteca española lanza guía con propuestas literarias infantiles

Poemas del Alma

Una nueva celebración navideña se acerca y, ante la proximidad de la fecha, numerosas personas de todas partes del mundo ya piensan en comprar diversos obsequios para sorprender a sus familiares. 
.
Libros infantilesPara que este inevitable proceso de selección de regalos sea lo más rápido y sencillo posible y contemple opciones didácticas y entretenidas capaces de alegrar a quien las recibe, las autoridades de la sala infantil de la biblioteca José Hierro que se localiza en el municipio español de Talavera de la Reina han decidido editar una guía que incluya los títulos de los libros más recomendables para los niños.
.
Según le confió a la agencia EFE Melque Lator, la responsable de este proyecto, ya se han lanzado 200 ejemplares de esta publicación que se ha dado a conocer bajo el nombre de “Un cuento, un aliado”
.
De acuerdo a sus declaraciones, la idea de realizar este material surgió ante la gran cantidad de consultas que se registraron en el último tiempo por parte de padres que deseaban saber qué obras podían ayudar a sus hijos a superar miedos o complejos, a entender el concepto de muerte y a comprender la llegada al mundo de un bebé de forma sencilla y amena.
.
Para facilitarles a estos adultos la elección de libros infantiles, pues, se llevó a cabo esta guía que promete ir renovándose con el surgimiento de nuevos textos y que no sólo promueve la lectura de propuestas dirigidas a los más pequeños sino también el interés de los mayores sobre textos de temática educativa o de psicología infantil que están disponibles en la biblioteca. 
.
Si aún no decidieron qué encargarle a Papá Noel para los niños de la familia, tal vez la consulta de “Un cuento, un aliado” los ayude a elegir una opción entretenida y útil que consiga cautivarlos.

Publicado por Verónica Gudiña el 10 de Diciembre de 2010 a las 01:16 pm
.

Biblioteca española recomienda 1001 libros indispensables

Poemas del Alma


18
Feb



Publicado por Julián Pérez Porto
.
La biblioteca española José Hierro que se localiza en el municipio de Talavera de la Reina, la misma entidad que tiempo atrás mereció un espacio en Poemas del Alma por haber lanzado una guía con propuestas literarias infantiles, ha sorprendido una vez más a los aficionados a la lectura con una original iniciativa que, como no podía ser de otra manera, anima a interesarse en los libros y a disfrutar las bondades que ofrece el mundo de las letras.
Biblioteca.
En esta oportunidad, la novedad tiene que ver con la implementación de un segmento sugerente en la sala de préstamos que lleva como título “1001 libros que hay que leer antes de morir”
.
Si bien Adoración Manzano, la directora de la biblioteca, reconoció ante la agencia EFE que “un especial sobre recomendados siempre es discutible”, la idea de esta iniciativa es tentar a la población con una selección “de clásicos contemporáneos de los siglos XIX y XX, tanto de autores nacionales como de internacionales”
.
Para poder brindar este servicio dirigido a lectores de todas las edades, confiaron las autoridades, en el último tiempo se destinó un importante fondo a la compra de títulos trascendentes que no estaban incluídos en el catálogo de esta biblioteca que abrió sus puertas en 2003 pero que merecían ser presentados ante quienes concurren al lugar con el propósito de descubrir diversas propuestas literarias.
.
Aunque habrá que aguardar algunos meses para determinar si este plan rindió sus frutos, no caben dudas que quienes llevan adelante la biblioteca José Hierro saben cómo generar pasión por los libros y hacer que sea cada vez más la gente que se interesa por la lectura. La mesa de “títulos devueltos en el día” (un sector que entusiasma a través de obras seleccionadas por otros lectores), un especial de libros de autoayuda y una oferta temática inspirada en Japón son otras alternativas que enriquecen a esta institución española.
.



.

El violinista ruso aquel... - Roxana Crisólogo Correa

Poemas del Alma



.
El violinista ruso aquel
trabajó todo el día
sin éxito la gitana vendió todo el día
todo el día una cartilla con números de la suerte
parecía emerger
de una enorme falda negra

Los ojos ocultan su perfil en el horizonte
de inmaculados mensajes vacíos
sacuden su cuero cabelludo
de pájaros gritones
sanguíneamente
recorren la ciudad
que un vocerío inanimado
de flores y estupor
ensancha
cada uno tiene un pastor
un campo o prado
un bosque o una jauría vigilante.
.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O conto da ilha desconhecida - José Saramago



José Saramago
.

O Conto da Ilha Desconhecida from cesarbarbonaglia on Vimeo.
.
cesarbarbonaglia
Trabalho de português sobre o livro de José Saramago: O conto da Ilha desconhecida, feito pelos alunos Bernardo Frederico, Bernardo Mota, Carlos Alberto, César Henrique e Gustavo Souza, do 1º ano do Colégio Cotemig
,.
O conto da ilha desconhecida
José Saramago

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.
.
Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.
.
Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.
.
A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.
.
Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
.
Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.
.
Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

José Saramago
nasceu em 1922 na aldeia de Azinhaga (Golegã). Fez estudos secundários que, por dificuldades econômicas, não pôde prosseguir. Seu primeiro emprego foi o de serralheiro mecânico, tendo exercido depois, diversas outras profissões: desenhista, funcionário de saúde e de previdência social, editor, tradutor, jornalista.

Publicou o seu primeiro livro, um romance, em 1947. Colaborou como crítico literário na revista "Seara Nova". Em 1972 e 1973 fez parte da redação do jornal "Diário de Lisboa". Pertenceu à primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, desde 1985 a 1994, presidente da Assembléia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi diretor-adjunto do jornal "Diário de Notícias". A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor.

É Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Turim (Itália), de Sevilha (Espanha) e de Manchester (Reino Unido); membro Honoris Causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris); membro correspondente da Academia Argentina das Letras; membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo).
.
José Saramago foi laureado com o Prêmio Nobel da Literatura 1998 pela The Nobel Foundation.

Principais obras:

· Ano da Morte de Ricardo Reis (O). Lisboa, Caminho, 1982.
· Ano de 1993 (O). Lisboa, Futura, 1975.
· Apontamentos (Os). Lisboa, Seara Nova, 1976.
· Bagagem do Viajante (A). Lisboa, Futura, 1973.
· Cadernos de Lanzarote I. Lisboa, Caminho, 1994.
· Cadernos de Lanzarote II. Lisboa, Caminho, 1995.
· Cadernos de Lanzarote III. Lisboa, Caminho, 1996.
· Cadernos de Lanzarote IV. Lisboa, Caminho, 1997.
· Cadernos de Lanzarote V. Lisboa, Caminho, 1998.
· Conto da Ilha Desconhecida (O). Lisboa, Expo'98/Assírio&Alvim, 1997.
· Deste Mundo e do Outro. Lisboa, Arcádia, 1971.
· Discursos de Estocolmo. Lisboa, Caminho, 1999.
· Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa, Caminho, 1995.
· Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa, Círculo de Leitores, 1995.
· Evangelho segundo Jesus Cristo (O). Lisboa, Caminho, 1991.
· História do Cerco de Lisboa. Lisboa, Caminho, 1989.
· In nomine Dei. Lisboa, Caminho, 1993.
· Jangada de Pedra (A). Lisboa, Caminho, 1985.
· Levantado do Chão. Lisboa, Caminho, 1980.
· Manual de Pintura e Caligrafia. Lisboa, Moraes Editores, 1976.
· Memorial do Convento. Lisboa, Caminho, 1982.
· Moby Dick em Lisboa. Lisboa, Expo'98, 1996.
· Noite (A). Lisboa, Caminho, 1979.
· Objecto Quase. Lisboa, Moraes Editores, 1978.
· Opiniões que o D. L. Teve (As). Lisboa, Seara Nova/Editorial Futura, 1974.
· Poemas Possíveis (Os). Lisboa, Portugália, 1966.
· Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979
· Provavelmente Alegria. Lisboa, Livros Horizonte, 1970.
· Que farei com este livro? Lisboa, Caminho, 1980.
· Segunda Vida de Francisco de Assis (A). Lisboa, Caminho, 1987.
· Terra do Pecado. Lisboa, Minerva, 1947.
· Todos os Nomes. Lisboa, Caminho, 1997.
· Viagem a Portugal. Lisboa, Círculo de Leitores, 1981.


Prêmios recebidos:

· Prêmio Internacional Literário Mondello (Palermo), 1992 (Conjunto da Obra).

· Prêmio Literário Brancatti (Zafferana/Sicília), 1992 (Conjunto da obra)

· Prêmio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE), 1993

· Prêmio Consagração SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), 1995

· Prêmio Nobel da Literatura, 1998

Suas obras são publicadas em diversos países. Seu romance "Memorial do Convento" foi adaptado para a ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda".

A peça de teatro "In Nomine Dei" foi adaptada para a ópera por Azio Corghi, com o título "Divara".

O texto acima foi extraído do livro "O Conto da Ilha Desconhecida", Companhia das Letras - São Paulo, 1998, com aquarelas de Arthur Luiz Piza.
.
 http://www.releituras.com/jsaramago_conto.asp
.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Esposa de Saramago: Obra póstuma é um 'presente inesperado'

Cultura

Vermelho - 17 de Fevereiro de 2011 - 15h24
.
A um dia da véspera de completar oito meses da morte do escritor José Saramago, a cidade de Barcelona homenageia o Nobel português com diferentes eventos, um deles relacionado com sua obra póstuma, "El Último Cuaderno", que nesta quinta-feira sua esposa, Pilar del Río, considerou como "um presente inesperado".
.
Com prefácio escrito por Pilar e pelo italiano Umberto Eco, "El Último Cuaderno" reúne os textos que Saramago escreveu de forma assídua em seu blog pessoal, entre 23 de março de 2009 e 2 de junho de 2010, 16 dias antes de morrer em Lanzarote.

Reflexões íntimas, comentários sobre política, pensamentos e simples opiniões dos temas mais diversos compõem o livro.

Pilar também revelou que está trabalhando na edição de um romance inédito, que se titulará " Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas", embora pouco pôde antecipar, porque tem que conhecer exatamente o que foi escrito sobre esta obra.

Durante sua presença, a esposa de Saramago também anunciou que a partir do dia 18 de março abrirá ao público a casa de Lanzarote (arquipélago espanhol das Canárias). O escritor nunca havia discutido com Pilar esta possibilidade.

Na sexta-feira, a programação de homenagens exibirá o filme documentário "José e Pilar" na Universidade Autônoma de Barcelona. O filme é obra do diretor português Miguel Gonçalves, que relata a intensa vida e as viagens do casal.

Com EFE
.

.
Cinema2000PT | 15 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Comentários em http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?i... Data de estreia: 18 de Novembro de 2010. Produtora/distribuidora: JumpCut. Todos os direitos reservados.

Documentário de abertura da 7.ª edição do DocLisboa.

"A Viagem do Elefante", o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para «José e Pilar», filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, «José e Pilar» é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo - ou, pelo menos, em torná-lo melhor. «José e Pilar» revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. «José e Pilar» é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

Realização: Miguel Gonçalves Mendes.
.
.
.
jumpcutportugal | 22 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
José e Pilar
.

José & Pilar: Um filme "dos vivos para os vivos"


.
  • Data: 12/10/10 - Duração: 00:07:42

“José e Pilar” é uma janela para a vida quotidiana de José Saramago e Pilar del Rio. Um mundo a que o realizador Miguel Gonçalves Mendes teve acesso e que filmou ao longo de quatro anos. Na recta final da edição do documentário, Miguel Mendes recebeu a notícia da morte de Saramago. O filme seguiu o caminho previsto, sem desvios de percurso nem cedências. Este é um filme "dos vivos para os vivos", diz Miguel Mendes.
.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A maior flor do Mundo - José Saramago


.
ruicanau | 18 de Junho de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

José Saramago
.
.

A MAIOR FLOR DO MUNDO



A maior flor do mundo é uma magnífica história para crianças, mas, antes de tudo, é um legítimo Saramago. Transformando-se em personagem, o autor nos conta que uma vez teve uma idéia para um livro infantil, inventou uma história sobre um menino que faz nascer a maior flor do mundo. Não se julgava capaz de escrever para crianças, mas chegou a imaginar que, se tivesse as qualidades necessárias para colocar a idéia no papel, ela resultaria verdadeiramente extraordinária: "seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas...".
.
É dessa fantasia de grandiosidade que nasce o livro. Os leitores são chamados para uma divertida brincadeira, pois Saramago narra-lhes a história do menino e da flor não como se ela fosse a história de verdade, mas como se fosse apenas o esboço do que ele teria contado se tivesse o poder de fazer o impossível: escrever a melhor história de todos os tempos.
.
Entrando no jogo com o autor, os pequenos leitores vão saber que ninguém nunca teve nem terá esse poder. Vão saber também que a literatura é o lugar do impossível: o menino desta história faz uma simples flor dar sombra como se fosse um carvalho. Depois, quando ele "passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos". Como nos velhos livros de literatura infantil, Saramago conclui: "E é essa a moral da história".

Título Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ 2001, categoria criança
.
http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=40243
.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lançamento de livro abre debate de ideias revolucionárias

Mundo

Vermelho, 15 de Fevereiro de 2011 - 4h54
.
A Assembleia Nacional Francesa (parlamento) palco de marcantes acontecimentos políticos históricos, abriu suas portas na noite desta segunda-feira (14) a um importante evento, que reuniu intelectuais, dirigentes políticos e diplomatas: o lançamento do livro “Grupons-nous, et demain?”. (Agrupemo-nos, e amanhã?).
.
O título é uma alusão a um dos versos do hino Internacional para o livro, publicado pela Editora Les Temps de Cèrises, sobre a crise internacional e as alternativas de esquerda, fruto do seminário realizado em São Paulo, Brasil, em 20 e 21 de junho, sob os auspícios do PT, o PCdoB e suas respectivas fundações de estudos, a Perseu Abramo e a Maurício Grabois, e da Rede Corresponências Internacionais.

Promovido pela bancada parlamentar do bloco Esquerda Democrata e Republicana, do qual fazem parte os comunistas e pela Fundação Gabriel Peri, o ato foi coordenado por Patrick Theuret, de Correspondências Internacionais e contou com as presenças do renomado economista francês de esquerda, Paul Boccara, do jornalista e escritor Henri Alleg, do embaixador de Cuba na França, Orlando Gual, dos dirigentes políticos Robert Griffiths, secretário-geral do PC da Grã Bretanha, Chris Mathlako,do Birô Político do PC da África do Sul, Sérgio Ribeiro, do Comitê Central do PCP, Lô Gourmot, da União das Forças pelo Progresso, da Mauritânia, Gyula Thurmer, do Partido dos Trabalhadores da Hungria, Valter Pomar, do Partido dos Trabalhadores e José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho e membro da Comissão Política e do Secretariado do Partido Comunista do Brasil. Presentes entre o público a embaixadora da Bolívia na França e representações diplomáticas do Brasil, Venezuela e Sri Lanka.

Brasileiros abrem o debate

As intervenções de abertura foram feitas pelos brasileiros José Reinaldo e Valter Pomar, organizadores do seminário de 2009. Para Reinaldo, “As análises interpretativas sobre a crise reproduzidas no livro Grupons-nous et demain?” refutam certas teses que de maneira insidiosa e oportunista penetraram de uma ou outra maneira, no pensamento da esquerda, em particular a ideia que marcou todo o período da década de 1990, segundo a qual o capitalismo, com a transnacionalização e a globalização financeira, teria atingido um nível de expansão irreversível e reunido as condições para a inauguração de uma nova ‘idade de ouro’”. A esta visão, segundo Reinaldo, correspondeu também o “diagnóstico errôneo de que o imperialismo estadunidense tinha superado a etapa regressiva, decadente e senil observada desde os anos 1970”.

O dirigente do PCdoB disse em sua alocução que a crise atual tem dimensões sistêmicas e estruturais, manifesta-se nas esferas financeira e produtiva e é determinada pela natureza intrínseca do capitalismo ; atinge duramente os direitos dos trabalhadores e os interesses nacionais dos povos e nações que lutam por sua independência e está ligada à erosão das posições da economia norte-americana e à deterioração do dólar como padrão monetário internacional.

José Reinaldo criticou também as medidas supostamente anti-crise” dos governos dos países capitalistas: “São políticas que correspondem aos interesses da burguesia monopolista e financeira, dilapidam ainda mais as finanças públicas, e se destinam a salvar o sistema da falência”. Contundente e agudo na crítica, Reinaldo considera que a crise “longe de acabar, está em pleno desenvolvimento, reflete a bancarrota do neoliberalismo e constitui a manifestação do fracasso do próprio capitalismo”.

Reinaldo fez ainda uma análise do quadro político internacional, chamou a atenção para a instabilidade da situação mundial, criticou a política externa atual da Casa Branca, supostamente “doce e independente”, denunciou a militarização, com o novo conceito estratégico da Otan, a Quarta Frota e o Africom, assim como a continuação das ocupações militares dos EUA no Oriente Médio e na Ásia central. Tomando como exemplo as rebeliões populares no norte da África, sobretudo na Tunísia e no Egito, o dirigente do PCdoB considera que “o anti-imperialismo é o espírito da época”. Reinaldo informou que está em curso a edição do livro em Português, prevista para 2011.

A intervenção do dirigente do PT,Valter Pomar despertou grande interesse. Em estilo didático, claro e conciso, fez uma exposição teórica sobre a luta pelo socialismo, um balanço das experiências revolucionárias do século 20. Com sólidas referências marxistas e leninistas, Pomar dissertou sobre a transição do capitalismo ao comunismo, a luta pelo socialismo no século 21 e os esforços para “superar o déficit teórico”. Advertiu que a crise atual pode ter uma saída conservadora ou uma saída progressista, socialista. Para ele, é dever da esquerda “lutar pela saída socialista”.

Crise da civilização ocidental

Paul Boccara disse que a crise é sistêmica e provoca “viragens radicais”. Para ele no ambiente de crise do capitalismo, crescem as oportunidades de transformação, pois “estamos vivendo não só uma crise do capitalismo, mas de toda a civilização ocidental”. O célebre economista francês considera que a “crise econômica fez saltar em pedaços as ilusões sobre o mundo dominado pelo neoliberalismo”. Boccara defendeu a necessidade de lutar por novas relações políticas, demográficas e culturais, de ultrapassar as atuais relações de mercados, as formas de delegação de poder e defendeu o compartilhamento de toda a humanidade para favorecer as atividades sociais livres de cada ser humano.

O dirigente comunista sul-africano Chris Mathlako referiu-se em sua intervenção à necessidade de encontrar alternativas de esquerda no mundo, à luta pela democracia e a soberania nacional. Disse que na África do Sul os comunistas promovem a união das forças progressistas e que vê grande potencial de avanço das lutas no quadro da crise atual. Mathlako elogiou a publicação do livro, que contém “a trajetória das forças progressistas e uma correta interpretação da crise” e fez um chamamento pela consolidação da rede Correspondências Internacionais”.

A revolução bate à porta

Outro africano que cativou o público foi Lô Gourmo, da Mauritânia, país simultaneamente árabe e da África negra. Para Lô, “o livro faz parte da luta para reconstruir a teoria num contexto de crise aguda, em que entra na ordem do dia a luta pela alternativa revolucionária”. Gourmo analisou os acontecimentos na Tunísia e no Egito e deplorou que toda a propaganda dos meios de comunicação burgueses procura reduzir a rebelião popular a uma luta pela democracia liberal e institucional. Ele opina, porém que “há outras questões de fundo, de natureza social, presentes nessas rebeliões”. Arrematou afirmando que “a revolução bate à porta, mas não são ainda os revolucionários que a abrem”.

Edição em Inglês

Robert Griffith, secretário-geral do Partido Comunista britânico anunciou a publicação do livro em inglês, no próximo mês. Em sua opinião, o livro vai jogar um importante papel “contra a ofensiva brutal do capitalismo e aprofundar a compreensão sobre a crise desse sistema”. O dirigente britânico fez referências à intensificação da luta dos trabalhadores na Europa.
.
Sérgio Ribeiro, do PCP, disse que “a crise não passou e prossegue a linha dura neoliberal”. Segundo ele, “muitas coisas ocorreram desde a realização do seminário”. Ele destacou entre esses acontecimentos a intensificação da luta dos trabalhadores, de que Portugal foi um dos destacados exemplos. Ribeiro aproveitou a ocasião para informar sobre o lançamento em Portugal do Livro 2 de O Capital, de Karl Marx, uma tradução aos cuidados do intelectual comunista português Barata Moura.
.
O húngaro Gyula Thurmer chamou a atenção para o fato de que “o elo débil da crise não é a Europa Ocidental, mas o Leste Europeu” e destacou entre os problemas econômicos e sociais aqueles vividos pela Rússia.

Renovação em Cuba

O ato foi encerrado com a intervenção do embaixador de Cuba na França, Orlando Gual. Ele opinou que há uma crise do modelo, mas que a alternativa não é criar novos modelos. Na luta pelas alternativas, cada país deve criar sua própria experiência e não copiar modelos, assegurou o embaixador, que fez também uma dura crítica à ordem internacional, “que não tem nada a ver com os interesses dos povos”. Gual considera que a tarefa revolucionária “está apenas começando, ao referir-se às atuais rebeliões populares. Ele elogiou a publicação do livro, afirmando ser necessário estudar, intercambiar experiências e ligar a teoria à prática. O embaixador cubano também informou sobre o desenvolvimento dos debates na Ilha sobre a renovação do modelo econômico. “Um grande debate popular, que já envolveu mais de 6 milhões de pessoas na discussão dos documentos preparatórios do congresso do PC Cubano, que terá lugar em 16 de abril deste ano.

Depois do ato houve um jantar de confraternização oferecido por Marc Everbecq, prefeito de Bagnolet, nos arredores de Paris, onde se realiza nesta terça-feira (15) o seminário da Rede Correspondências Internacionais

Da redação

Besos - Gabriela Mistral

Poemas del Alma


Hay besos que pronuncian por sí solos
la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.

Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.

Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.

Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.

Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.

Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.

Judas besa a Jesús y deja impresa
en su rostro de Dios, la felonía,
mientras la Magdalena con sus besos
fortifica piadosa su agonía.

Desde entonces en los besos palpita
el amor, la traición y los dolores,
en las bodas humanas se parecen
a la brisa que juega con las flores.

Hay besos que producen desvaríos
de amorosa pasión ardiente y loca,
tú los conoces bien son besos míos
inventados por mí, para tu boca.

Besos de llama que en rastro impreso
llevan los surcos de un amor vedado,
besos de tempestad, salvajes besos
que solo nuestros labios han probado.

¿Te acuerdas del primero...? Indefinible;
cubrió tu faz de cárdenos sonrojos
y en los espasmos de emoción terrible,
llenaron sé de lágrimas tus ojos.

¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso
te vi celoso imaginando agravios,
te suspendí en mis brazos... vibró un beso,
y qué viste después...? Sangre en mis labios.

Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca.



Poemas de Gabriela Mistral

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"...tocou-nos ser a memória" - Luís Sepúlveda

Ípsilon


Luís Sepúlveda

"...tocou-nos ser a memória"

15.12.2010 - Fernando Sousa
 

Dois miúdos desaparecidos de uma foto antiga, amigos mortos, a casa dos Parra, em Santiago, mandada abaixo por uma escavadora, Luís Sepúlveda, cujo dom de escrita é um poder, ressuscita-os a todos em "Histórias Daqui e Dali"; até a um cão que a polícia abandonou e a uma cadela que ladrava à ETA
.
No que quer que escreva, Luís Sepúlveda põe toda uma humanidade seja na ficção seja no que mais gosta - o exercício da memória para que ela não se dilua. Tal e qual assim. E por isso os seus leitores gostam tanto da história do gato Zorbas como do "Encontro de Amor num País em Guerra", do "Velho que Lia Romances de Amor" ou de obras onde o mais azedo de si vem à tona como "O General e o Juiz", para dar só um exemplo - há mais.
.
"Histórias Daqui e Dali" (Porto Editora), que veio lançar a Portugal, é um novo exemplo do que poderia ser uma obsessão se não tivesse por trás uma história trágica, a do Chile recente, e as provações de um exilado que anda pelo mundo a explicar sonhos e pesadelos. "Escrevo porque tenho memória e cultivo-a escrevendo", disse uma vez.
.
Tão pouco é uma questão de idade, não; embora, nascido em 1947, a refira várias vezes neste acrescento de velhos episódios da angústia chilena - "Não, porque deixo que os anos envelheçam comigo; e até não é mau quando vou à piscina de Gijón e uma jovenzinha me diz que tenho direito a desconto". Nem de resumos de vida - "Não gosto em geral do género memorialístico. Leio poucas biografias, todas as que leio são decepcionantes, omitem muitas coisas ou contam outras que não me interessam saber". Mas talvez já seja de adeuses.
.
Metido num sobretudo, a caminho de uma noite fria e de mais um encontro com alguns dos "mil amigos" e leitores portugueses, admite que escreveu sobre desaparecimentos (naturais) e despedidas.
.
"Histórias Daqui e Dali" é um salto a um passado de coisas, umas vividas, outras interrompidas. Um "album" de 25 retratos como o dos garotos que a fotógrafa Anna Petereson não voltou a encontrar em La Victoria (Santiago), do jornalista Augusto Olivares, que se suicidou na mesma manhã em que Salvador Allende também se matou, de velhas máquinas Olivetti, Underwood ou Adler salvas do lixo, da luta ao lado do comandante Martín, na Nicarágua, do silêncio, agora, de Katya Olevskaia, que na Rádio Moscovo dizia "Escuta, Chile", da morte de Mario Benedetti, de Turquito, do tempo do Equador, de Edward, um cão polícia adoptado por punks, ou de La Negra, uma cadela que gostava de liberdade e de ciclistas, e que desfilava contra os crimes da ETA.
.
"É de alguma maneira um livro íntimo. Foi uma forma de partilhar com os meus leitores - não sou um arrogante neste aspecto, mas sei que tenho muitos leitores, incluindo um grupo de uns mil amigos aqui em Portugal - outras amizades que tive e tenho, uma fase bastante terrível da minha vida depois dos 50, prolongando-lhes a memória através da homenagem."
.
Heróis frágeis
Mas é uma forma também de espetar dardos em catástrofes como a dos confins gelados da Patagónia e da Terra do Fogo, que derretem aos olhos dos turistas que se divertem com as alterações climáticas; em episódios de puro desconcerto, como o de Edna Espinosa, que por um rabo maior morreu numa clínica de Bogotá, às mãos de Soler, um falsário que despiu a bata e fugiu da sala de operações; ou de pura nostalgia como a redução a escombros da casa dos Parra - Violeta, Isabel e Ângel - onde passou horas que lhe ficaram para sempre debaixo da pele. À trincheira intelectual, na Calle Carmen, 340, chamavam-lhe La Peña.
.
"Sim, mas uma nostalgia mais como um exercício de memória. A mim e a muitos escritores da minha geração tocou-nos ser a memória, conservadores da memória dos nossos países, para que não se apague, como a história oficial tentou fazer, toda uma época. Isto é para mim importante, porque me sinto muito orgulhoso dessa memória, que foi rica. Porque tal como disse Eduardo Galleano, esta memória é uma memória de fogo, e gosto de manter vivo o seu fogo."
.
"Quando, no Chile, tínhamos qualquer coisa como 17 ou 18 anos e começávamos o nosso 1968, estavam a acontecer coisas semelhantes noutros países. Estamos a falar da memória colectiva. Para mim tão importante como Victor Jara, no Chile, é um Jan Palach, na Checoslováquia, dois homens diferentes mas da mesma dimensão, ambos assassinados por terem achado que era possível viver num mundo mais decente."
.
Em dois dos textos, uma espécie de declaração: "Nem esquecimento, nem perdão!" Uma frase terrível.
.
"Sim, é. É uma frase de grande responsabilidade. Penso que o perdão enquanto categoria moral é uma das manifestações mais altas, pois é a generosidade em estado puro. Mas para que exista tem de existir primeiro desculpa de quem cometeu a falta."
.
Tínhamos acabado de falar do golpe de Setembro de 1973, o mais recorrente dos temas do autor, que foi parte do GAP, o grupo de amigos de Allende, a sua escolta, todos mortos depois. Está contada num documentário, "Héros Frágiles", de que se considera um. "Sim, sinto-me um pouco parte desse colectivo de pessoas que tinham uma grande dureza e ao mesmo tempo uma grande fragilidade." E outra vez a lembrança de Augusto Olivares, cuja arma era: uma Olivetti.
.
O mais português dos escritores latino-americanos, como uma editora lhe chamou, trabalha agora numa história, passada entre os anos de 1967 e 1989. É uma ficção, onde um personagem "tem muito" do que o autor viveu. A memória outra vez, pelo punho de quem não a quer em água como os glaciares da Terra do Fogo.
.

"O Ocidente esquece seus vizinhos árabes", diz escritor sírio


Mundo | 13.02.2011

O escritor sírio Rafik Schami vive na Alemanha desde 1971. Em entrevista à Deutsche Welle, ele comenta a onda de protestos no mundo árabe e critica as posturas hesistantes da UE e dos EUA em relação à região.

.

Deutsche Welle: Em seu romance Die dunkle Seite der Liebe (O obscuro lado do amor), de teor parcialmente autobiográfico, o protagonista Farid luta contra represálias de um regime autocrático, mas sem sucesso. Por que essa consciência da necessidade de justiça, liberdade e democracia envolve as sociedades do Oriente Médio como um todo exatamente agora, de tal forma que surgem até movimentos de massa a partir daí?

Rafik Schami: Muita coisa aconteceu. Por um lado, os governantes ficaram, de fato, 30, 40 anos sem fazer nada. Isso foi se acumulando e as mentiras perderam, com o tempo, sua credibilidade perante a maioria da população. No início, apenas cidadãos críticos – intelectuais talvez, professores universitários e jornalistas – percebiam que tudo era mentira. Mas a maioria é sempre lenta. Até que entendam, é preciso de tempo.

Por outro lado, os meios de comunicação de massa sofreram uma revolução. O intercâmbio crescente de informação levou a uma concentração do ódio. A pobreza, a humilhação e a postura fraca dos soberanos frente à nação – que pensam, acima de tudo e de forma brutal, no enriquecimento próprio – contribuíram. Reunindo tudo isso, poderia-se explicar por que isso tudo está acontecendo agora e não aconteceu há 10 ou 20 anos. 

Em sua obra, você denuncia o profundo marasmo cultural e as incongruências tanto em sua terra natal, a Síria, quanto em outros países árabes. A mudança política, que observamos ali no momento, é uma mudança de toda a sociedade ou apenas fogo de palha, que vai se apagar daqui a pouco?

Para não ser ingênuo, é preciso cogitar as duas possibilidades. Há sempre a possibilidade de um retrocesso. Sempre houve revoluções que se autodevoraram e se transformaram em ditaduras sangrentas. Mas os egípcios criaram uma nova alternativa. Como povo antiquíssimo, eles conduziram, pela primeira vez na história da humanidade, uma revolução pacífica, com o apoio de oito a nove milhões de cidadãos, que agora reconhecem o quanto são capazes de agir.

Esses cidadãos carregam agora as flores que brotam, como na primavera, dessas novas conclusões. Mas para que daí surjam frutos, é necessário abelhas, como sabemos em analogia ao universo das plantas. E é preciso haver ajuda de fora e situações favoráveis. Esses jovens não só deixaram para trás os intelectuais, como também ignoraram todos os partidos.

Jovens egípcios tomaram a frente em prol de mudançasBildunterschrift: Jovens egípcios tomaram a frente em prol de mudanças
.
Se os partidos fossem sinceros, eles precisariam admitir que estão ficando defasados. Quais serão os efeitos disso na consciência da população? Ainda não se pode dizer. Só é possível esperar que tudo não acabe em uma guerra civil. Para um povo que destituiu um ditador de forma pacífica, o conceito da "paz" é muito fértil.

Acabamos de ver que o impulso da revolução veio diretamente do povo, dos jovens. Os países ocidentais não intervieram. Como você vê o papel do Ocidente na região depois dos últimos acontecimentos?

Para ser sincero, acho o papel do Ocidente vergonhoso, principalmente essa hipocrisia dos EUA. De súbito, eles ficam preocupados com a liberdade e tal. E eles nos repreendem diante da possibilidade de que a Irmandade Muçulmana possa assumir o poder. É tudo mentira. A Irmandade Muçulmana representa uma força política de aproximadamente 10%. Ou seja, eu não iria agora questionar a democracia porque um partido mais à direita governa.

No Egito, há uma ampla gama de todas as forças políticas: religiosas, nacionalistas, liberais, socialistas, independentes, mentes absolutamente livres, talvez também anarquistas. Esses são os egípcios e o Ocidente fica olhando. Há três semanas, as pessoas lutam por meio do bem mais precioso da democracia, ou seja, através das manifestações pacíficas. E ninguém lhes ajuda. As pessoas percebem que se o Ocidente quisesse ajudar, reagiria de outra forma.

Na sua opinião, o Ocidente passou tempo demais observando e apoiando Estados árabes autocráticos?

Sim, mas acredito que nem tenha sido com más intenções. Acho que o Ocidente confia rápido demais nos governantes; confia demais no silêncio tumular, que impera nesses países; confia rápido demais que o consumo poderia mudar alguma coisa. Isso é um lado, mas o Ocidente – e me refiro aqui, em primeira linha, à Europa – esquece muito rapidamente que os países do Mediterrâneo são seus vizinhos.

Nicolas Sarkozy e Ben Ali, em 2008: 'apoio constrangedor', diz Schami 
.
A Itália está localizada em frente à Tunísia e ao Norte da África. Aqui ainda não se tem de forma alguma a consciência, de que aquilo que acontece lá, também diz respeito ao Ocidente. Quando se vê como os governantes em todos os países europeus, não somente na Alemanha, reagem, e quando se vê como a França apoiou Ben Ali até o último minuto, percebe-se o quanto a situação é estimada de maneira errônea. A imbecilidade dessa oferta a Ben Ali foi tamanha que dava para quase ter pena de Sarkozy.

Por muito tempo acreditou-se que os povos árabes não estavam preparados para uma democracia. E que só podiam escolher entre ditadura e Estado religioso. Qual é sua opinião sobre isso?

Já ouvi esse argumento com frequência e tive também meus medos, porque faço parte de uma minoria cristã. Mas, depois de um tempo, passei a não acreditar mais nisso. É sempre possível haver retrocessos, mas eles também podem existir em uma democracia. A população foi mantida quieta, anos a fio, sob mão de ferro. Os islâmicos e a Irmandade Muçulmana eram o único grupo protegido pela Arábia Saudita: com recursos financeiros, propaganda, treinamentos.

E o Ocidente via isso com prazer. Enquanto eles podiam ser instrumentalizados como anticomunistas, eram até cortejados. Mais tarde, as forças conservadoras autocráticas pareciam ser a única alternativa. Mas tudo aquilo que estava fermentando entre a população, isso a mídia não entendeu, nem a árabe, nem a europeia.

Rafik Schami (65) é um conceituado escritor sírio, radicado na Alemanha desde 1971. Entre suas obras mais conhecidas estão O obscuro lado do amor, de 2004, e O segredo do calígrafo, lançado em 2008.

Entrevista: Nader Alsarras (sv)
Revisão: Carlos Albuquerque
.