Não sabe bem porquê.
Aprendeu a odiar — entre reels, comentários indignados e frases que lhe apareciam no feed, noite após noite.
O que nunca lhe explicaram é que o SNS onde leva os filhos, o subsídio de férias que recebe, o abono de família de que já beneficiou, a licença de maternidade que um dia lhe deu descanso, o salário mínimo que puxa o mercado para cima — tudo isso nasceu do mesmo socialismo que lhe ensinaram a odiar.
Disseram-lhe que o problema eram “os impostos socialistas”. Não lhe disseram que, sem escalões de IRS, quem ganha como ela pagaria mais para que os de cima pagassem menos.
Joana acredita que é mais livre se pagar 200 euros por mês em seguros de saúde e mais 400 em propinas para garantir o básico aos filhos, enquanto o senhorio beneficia de isenções fiscais com as rendas absurdas que ela paga.
Acredita mesmo.
Porque ninguém lhe explicou que há modelos em que se paga menos no total — apenas de forma coletiva. E, quando não se explica, o medo faz o resto.
Ensinaram à Joana que o perigo tem nacionalidade. Que a criminalidade tem etnia. Que, ao apontar o dedo a imigrantes, ciganos ou a multar mulheres de burca, está a defender-se.
O que Joana ainda não percebeu é que esta é a forma mais barata de gerir um país desigual: quando se colocam pobres contra pobres, não é preciso tocar nos privilégios de quem está verdadeiramente no topo.
Divide-se. Distrai-se. Juntam-se criminosos e inocentes na mesma caixa e tudo parece resolvido.
Joana também aprendeu a odiar Mariana Mortágua...nunca falou com ela, mas odeia como nunca odiou ninguém.
Uma mulher a odiar outra mulher — porque “não sabe estar”, porque “fala alto”, porque “é radical”.
Nunca lhe contaram o resto da história.
Que Mariana se licenciou em Economia aos 22 anos.
Que, aos 23, já desempenhava trabalho técnico no Parlamento.
Que concluiu o mestrado aos 25, enquanto trabalhava.
Que ainda nos vinte e poucos anos já lecionava no ISCAL.
Que fez doutoramento na SOAS, com investigação sujeita a peer review internacional.
Que publicou, investigou e construiu um currículo verificável antes e durante a atividade política.
Não encaixa na caricatura que ensinaram à Joana — por isso, é mais fácil odiar.
Na política, Mortágua ficou conhecida onde menos convinha aos poderosos: nas comissões de inquérito à banca — BES, Banif, CGD — abrindo dossiês que muitos preferiam manter fechados.
Nunca precisou de empresas familiares para prestar consultoria a elites. Nunca viveu de cargos decorativos. Nunca surgiu associada a avenças opacas com grandes grupos económicos.
As elites nunca perdoaram...
Mas Joana não percebe isto… só ouve “Venezuela”..."Esquerdalha"...
No entanto, grande parte das medidas que, em Portugal, se rotulam como de “extrema-esquerda” existem em países nórdicos e até na Suíça.
Joana diz preferir o tom grave e sério de Passos Coelho.
Parece mérito. Parece autoridade. Parece ordem.
Ignora que o “campeão do mérito” só concluiu a licenciatura aos 37 anos, a pagar. E que a carreira empresarial surgiu de forma quase instantânea dentro do círculo partidário.
Ignora o episódio dos recibos verdes e da Segurança Social — aquele momento em que o discurso do sacrifício colidiu com a realidade de alguém com formação em Economia que afirmou não saber que tinha de pagar contribuições para a Segurança Social.
Mas a imagem fala mais alto do que os factos, quando o algoritmo já decidiu por nós.
Depois, Joana olha para Luís Montenegro e vê normalidade institucional.
Não repara no padrão clássico do “Portugal dos pareceres”: carreiras feitas em gabinetes onde o valor do trabalho invisível atinge centenas de milhares de euros.
Tudo pode estar formalmente legal — e muitas vezes está —, mas, para quem entra às 9 e sai às 18, sobra sempre a mesma pergunta: o que produziu realmente? E quem vive da proximidade ao poder decisor pode ser considerado um trabalhador como nós? Ou é apenas um facilitador chico-esperto?
E, no topo do sonho meritocrático de Joana, surge André Ventura.
O homem que berra contra quem “não faz nada”, mas cuja própria carreira raramente passou pela rotina esmagadora que milhões conhecem.
Comentário televisivo, consultorias fiscais para as elites e algumas horas semanais de docência — e um talento especial para transformar indignação em carreira. Uma vida profissional distante da experiência laboral da maioria, sustentada por subsídios públicos e partidários.
Joana ouve. Joana repete. Joana partilha.
Porque Joana está cansada.
Trabalha num horário desajustado num centro comercial, conduz um Opel Corsa a cair aos bocados e sente — com razão — que a vida nunca lhe deu grande folga. E, quando a vida aperta, as respostas simples parecem sempre mais verdadeiras.
O problema é que, enquanto Joana culpa os de baixo para se sentir um pouco mais alta, há sempre alguém muito mais acima a rir-se do espetáculo.
Joana acha que foi convidada para o jantar das elites económicas que financiam esses partidos.
Mas ninguém teve coragem de lhe dizer:
Ela não está sentada à mesa — está na cozinha a lavar os pratos.
https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

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