* Eduardo Maltez Silva
Esta é uma
opinião controversa — e convém dizê-lo logo à partida: nada disto desculpa,
apaga ou relativiza a mancha negra de corrupção que paira sobre José Sócrates.
Quem quer
defender a verdade histórica não precisa de branquear a ferida democrática que
esse caso abriu. Isso fica claro.
Mas reduzir
todo o ciclo Sócrates à corrupção é intelectualmente desonesto.
Porque,
goste-se ou não, houve ali uma coisa que hoje quase desapareceu da política
portuguesa:
VISÃO DE PAÍS.
Sócrates teve
vícios, arrogância, erros, obras discutíveis e uma relação perigosa com o poder
económico. Mas também teve uma ideia de modernização nacional.
E muitas das
coisas que, na altura, foram ridicularizadas, atacadas ou tratadas como
propaganda são hoje absolutamente essenciais.
Foi assim com o
Cartão de Cidadão.
Hoje, ninguém
imagina voltar ao tempo em que cada pessoa andava com bilhete de identidade,
cartão de contribuinte, cartão da Segurança Social, cartão de eleitor e cartão
de utente separados. Mas, quando surgiu, foi apresentado como mais uma “mania
modernizadora”.
O mesmo vale
para o Simplex, a Empresa na Hora, o Documento Único Automóvel e a
desmaterialização dos serviços públicos. Hoje parece banal. Na altura, era um
gasto.
Foi assim com o
Magalhães e com a escola digital.
O computador
foi gozado até à exaustão. Era o “computadorzinho”, era a “propaganda”, era a
“modernice”que só servia para jogarem jogos.
Mas a ideia era
simples: pôr tecnologia nas mãos dos alunos, reduzir a desigualdade digital e
aproximar a escola pública do futuro.
Hoje, quando o
Estado distribui computadores a alunos e professores, ninguém acha isso uma
loucura.
A forma podia
ser discutível. A direção estava certa.
Foi assim com a
lei do tabaco. Proibir fumar em restaurantes, cafés e locais de trabalho
parecia, para muitos, uma violência contra a liberdade individual. Vieram os
discursos do costume: “já não se pode fazer nada”, “é o Estado a meter-se na
vida das pessoas”.
Hoje, entrar
num restaurante cheio de fumo parece pré-histórico.
Foi assim com a
escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a universalização do pré-escolar
a partir dos 5 anos.
Hoje parece
óbvio. Na altura, foi uma decisão política de fundo — com muitas críticas.
Foi assim com
direitos civis.
A interrupção
voluntária da gravidez foi despenalizada em 2007; o casamento civil entre
pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010.
Hoje, para uma
parte significativa do país, isto já é normalidade democrática.
Na altura, a
histeria conservadora dizia que vinha aí o colapso moral da família, da
sociedade e da civilização.
Não veio. Veio
apenas mais liberdade, mais dignidade e mais igualdade perante a lei.
Foi assim com o
Complemento Solidário para Idosos, criado para combater a pobreza entre os mais
velhos com rendimentos mais baixos.
Hoje, ninguém
sério deveria achar estranho que o Estado proteja idosos pobres.
Mas é
precisamente o tipo de política que a direita económica detesta em silêncio —
porque prova que o Estado social não é uma abstração ideológica.
É comida,
aquecimento, medicamentos e dignidade na vida concreta das pessoas.
Foi assim
também com a reforma dos cuidados de saúde primários e com as Unidades de Saúde
Familiar.
Não resolveu
tudo, não impediu a degradação posterior do SNS, mas introduziu uma lógica mais
próxima, organizada e eficaz nos cuidados de primeira linha.
E depois há as
energias renováveis.
Hoje, Portugal
é elogiado como uma das histórias solares e renováveis mais interessantes da
Europa. Mas isto não caiu do céu.
A viragem
começou antes. Em 2007, o Governo Sócrates assumia a meta de 45% da
eletricidade consumida a partir de fontes renováveis até 2010.
Em 2010, a
Estratégia Nacional para a Energia 2020 afirmava expressamente que Portugal
queria reforçar o seu estatuto de referência nas renováveis e na eficiência
energética. A potência eólica instalada passou de 537 MW em 2004 para mais de
3500 MW em 2009.
Portugal não se
tornou líder nas renováveis por acidente.
Houve uma
decisão política deliberada: pegar num país sem petróleo, sem gás, sem carvão
competitivo, mas com sol, vento, água, território e capacidade técnica, e
transformar isso em soberania energética.
Durante anos, a
direita gozou com isto. Chamou-lhe fantasia verde, custo excessivo, capricho
ideológico.
Em 2024, as
renováveis abasteceram 71% do consumo elétrico nacional. Que falem agora.
Também no
turismo houve visão.
Sócrates não
inventou a promoção turística. Mas o Plano Estratégico Nacional do Turismo,
aprovado em 2007, tratou o setor como estratégico a sério: marcas, mercados,
produtos, qualificação, inovação, articulação entre Estado e empresas.
E até no
aeroporto a história tem uma ironia brutal.
A localização
em Alcochete, decidida em 2008, foi atacada, adiada, enterrada, ressuscitada,
trocada pelo Montijo e novamente discutida — e, no fim, muitos anos e muitos
milhões desperdiçados depois, o país voltou exatamente ao mesmo ponto.
Em 2024, o
Governo Montenegro anunciou o novo Aeroporto Luís de Camões no Campo de Tiro de
Alcochete.
A decisão que
tantos trataram como delírio era, afinal, a solução estrutural.
O atraso custou
tempo, capacidade, competitividade, dinheiro e décadas de saturação na Portela.
Parabéns a todos.
Depois veio
2008.
E aqui também é
preciso limpar a propaganda de uma vez por todas.
A crise não
nasceu em Lisboa.
Não nasceu
porque Portugal deu computadores a crianças.
Não nasceu
porque se investiu em eólicas, escolas, tecnologia, cartões digitais ou
modernização administrativa.
A crise nasceu
na banca desregulada dos Estados Unidos, no subprime, na engenharia financeira
tóxica, no colapso de confiança que atravessou o Atlântico e rebentou na zona
euro.
Portugal tinha
fragilidades? Tinha.
Défices, dívida
a subir, dependência externa, PPP, problemas de competitividade. Tinha.
Mas transformar
tudo numa historinha infantil sobre “Sócrates gastou demais e, por isso, veio a
troika” sempre foi propaganda — e a prova disso foi a forma desastrosa como a
austeridade de Passos Coelho empobreceu o país e agravou a dívida em
percentagem do PIB, precisamente a dívida que dizia combater.
Em 2025,
segundo o Banco de Portugal, a dívida pública ainda representava 89,7% do PIB.
Temos mais
dívida hoje do que no tempo de Sócrates, mas hoje somos vistos com uma das
melhores economias no mundo...embora extremamente desigual.
Muitos países
que estavam a investir no futuro foram apanhados pela mesma tempestade
financeira global. Uns estavam mais preparados, outros menos. Portugal estava
vulnerável.
Mas não foi um
Governo português que inventou o subprime, a banca-sombra, os derivados
tóxicos, o colapso do Lehman Brothers ou a arquitetura europeia inflexível que
transformou uma crise bancária numa crise de Estados.
O que a direita
fez depois foi genial do ponto de vista propagandístico: pegou numa crise
global, numa zona euro mal desenhada, em fragilidades portuguesas reais, em
erros do Governo Sócrates e na podridão posterior da Operação Marquês, misturou
tudo numa panela e vendeu uma moralina simples: “o socialismo destruiu
Portugal”.
Só que esse
“socialismo” nem sequer existia.
O que existia
era social-democracia reformista — com defeitos, vícios e alguns erros —, mas
também com uma ideia clara: modernizar o Estado, digitalizar serviços,
qualificar a escola, apostar em renováveis, proteger direitos civis, combater a
pobreza, planear o turismo, pensar infraestruturas e tentar colocar Portugal no
século XXI.
Compare-se isso
com o que temos hoje.
Com todos os
seus defeitos, Sócrates tinha uma ideia de país. Podia falhar. Podia exagerar.
Podia construir mal. Mas queria construir.
Hoje, temos um
Governo que parece não querer construir nada.
Gere o dia a
dia.
Faz
conferências de imprensa. Distribui slogans. Chama “reforma” a cortes. Chama
“responsabilidade” à resignação. Chama “modernização” a entregar o país aos
mesmos de sempre.
E há uma
diferença simbólica terrível entre a corrupção de ontem e a zona cinzenta de
hoje.
No caso
Sócrates, a imagem pública ficou associada a envelopes com dinheiro,
motoristas, contas na Suíça, amigos e dinheiro escondido.
Era a corrupção
clássica, clandestina, subterrânea, cinematográfica.
Hoje, a
corrupção modernizou-se.
Já não precisa
de envelope entregue às escondidas, nem escondidos em caixas de vinho.
Pode aparecer
com fatura, empresa familiar, avenças, consultoria, clientes, sigilo
profissional e “trabalhos” que o cidadão comum nunca consegue verdadeiramente
escrutinar.
A única coisa
que se modernizou verdadeiramente foi a sofisticação da zona cinzenta.
Foi o Simplex
da corrupção.
E, enquanto
isto acontece nos bastidores, a sociedade foi domesticada para odiar um
“socialismo” que nunca existiu.
Confundiram
socialismo com social-democracia. Confundiram proteção social com preguiça.
Confundiram Estado social com desperdício. Confundiram direitos com
privilégios.
Criaram medo e
ódio pelos de baixo para proteger os de cima — e assim convenceram muita gente
a votar contra aquilo que a protege: SNS, escola pública, pensões, salários
dignos, habitação acessível, direitos laborais, serviços públicos.
Sempre foi
assim.
Disseram que o
divórcio destruía a família. Disseram que a IVG destruía a moral.
Disseram que o
casamento entre pessoas do mesmo sexo destruía a sociedade.
Disseram que
não fumar em restaurantes destruía os cafés.
Disseram que
computadores nas escolas eram propaganda.
Disseram que as
renováveis eram fantasia e desperdício.
Disseram que o
Estado digital era mania tecnocrática.
Depois, o país
avança, o avanço torna-se normal e os mesmos que gritaram contra acabam a viver
dentro do mundo que outros tiveram a coragem de construir.
Sem nunca
agradecer.
Sem nunca
assumir que estavam errados.
Por isso, está
na hora de recuperar a palavra sem medo.
Não como dogma.
Não como nostalgia.
Mas como aquilo
que fez dos países mais livres, mais justos e mais desenvolvidos do mundo
sociedades decentes: uma social-democracia corajosa, reformista, popular e
democrática.
O novo PS tem
de deixar de parecer uma versão educada da direita.
Tem de
abandonar essa moderação bafienta que chama responsabilidade à resignação.
Tem de deixar
de pedir licença aos mercados, aos comentadores, às televisões e aos salões
onde nunca falta nada a ninguém.
O PS tem de
voltar a ser progressista, popular, democrático e combativo: com a coragem de
Pedro Nuno, o reformismo de Sócrates sem os seus vícios, a inteligência de
Costa, a honestidade de Sampaio, o punho erguido de Mário Soares e o sentido
social de Guterres.
Tem de parar de
olhar para as elites — para os mercados, para os equilíbrios de salão, para os
donos disto tudo — e voltar a olhar para baixo e para o meio: para quem paga
renda, para quem espera no SNS, para quem educa filhos com salários curtos,
para quem trabalha uma vida inteira e continua sem segurança.
Um PS que faz a
diferença não pede desculpa por proteger as pessoas.
Reforma o
Estado.
Enfrenta
privilégios.
Combate
desigualdades.
Investe no
futuro.
Protege os
serviços públicos.
Moderniza sem
entregar o país aos privados.
Simplifica sem
fragilizar o interesse público.
Cresce sem
abandonar quem trabalha.
Precidamos de
visão para o país...e ela nunca virá da direita.
Make social
democracy great again.
2026 05 23

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